Previsão do tempo para o signo de Touro

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10:50:00
Toura

Miriam Leitão consegue juntar duas coisas constitutivamente inúteis que pintar a cor do neoconservadorismo (o liberalismo com cores progressistas) daqui e dos EUA. Como Hillary Clinton, ama o livre-mercado e sofre de uma piedade não menos utópica pelos pobres. Assim, da união de duas inutilidades profundamente populares, nasceu a "previsão do tempo para o signo de...", em homenagem à colunista e comentarista global, depois de suas comoventes declarações contra o trabalho escravo.

Consultamos o astrólogo João Bidu e uma entidade desconhecida, além de Rogério Skylab e MC Gorila. Veja o que eles falaram para nossa coluna.
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A estética como política: às margens da literatura contemporânea

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23:56:00


Para Rancière, arte implica na constituição das formas de vida “comum”, passa pela constituição da voz àqueles que só podem murmurar ou fazer barulho. Como esse conceito tem implicações para a literatura contemporânea, especialmente a brasileira, caso se considere como precursor da passagem da "sociedade punitiva" para a "sociedade de controle", as literaturas de Kafka e Beckett? Fazendo convergir o pensamento de Jacques Racnière com o de Giorgio Agamben, foi o questionamento que quis levantar com esse texto.
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Sobre um daqueles que rejeitaram o Golpe

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23:21:00


Ao contrário do retrato do Golpe que coloquei em outra postagem, com o texto do Rogério Skylab superposto à bizarra narração de Galvão Bueno quando a noiva global jogava seu buquê de flores na festa das celebridades, coloco aqui o retrato de quem não participou da festa que uniu as duas faces do assalto ao poder, ou seja, o alto capital e a mídia. É o retrato daquele que recusou ambos e por isso foi massacrado. Como flamenguista, queria tê-lo visto jogar mais pelo meu time depois do título de 2009. Contudo, muito melhor é ver seu exemplo, ainda com todos os problemas que enfrentou, do que sequer imaginar participar da festa daqueles que ainda imaginam governar o Brasil. Deu-se uma sobrevida a esse tipo de gente com o golpe. Porém não passa do estrebuchar de um corpo quase morto. Esse foi o sentido de ter citado por inteiro o conto do Skylab. Agora o outro lado, não menos bonito - e chocante - que a ficção. 

"Frequentemente, Adriano é tachado como uma potencial superestrela que fracassou. Repete-se a máxima de que, se quisesse, poderia ter sido muito maior no futebol. Mas o êxito do Imperador talvez seja muito maior e verdadeiro que o de grande parte dos craques que se deixam deslumbrar pelo brilho efêmero dos gramados. Ele tem o respeito e a admiração do reduto pobre que não lhe nega guarida nos momentos mais difíceis. Essa, sim, deveria ser a principal medida de sucesso do ser humano, que, independentemente de qualquer ofício, vai muito além do reducionismo imposto pelas necessidades de uma carreira profissional".


A seguir, a excelente reportagem do El País.
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Vantagens do modelo venezuelano para o Brasil

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23:11:00


Muitas vezes achei a situação da Venezuela um pouco mais complicada do que a nossa. Talvez a aparência de normalidade, algo característico do país que, dizem, não é afeito a guerras ou a confrontos mais violentos, não me fez radicalizar na comparação. Hoje fica mais evidente a hipótese que levantava desde muito tempo. O que era uma hipótese se tornou uma convicção.

Para além do que se chama de "falta de politização" da população durante os governos do PT, algo mais efetivo deveria ser proposto ao invés dessa crítica generalista. É interessante, por exemplo, o debate mais ideológico do que científico que Jesse Souza coloca no seu último livro, mas esses debates, até ganharem mais maturidade, demandam tempo. Esse tipo de "politização intelectual" que, de cima, diziam que deveria ser a tarefa do PT só teve de consequência prática, ou seja, como proposição concreta, a regulação da mídia.

O modelo de realização constante de plebiscitos na Venezuela, desde Chávez, parece ser uma forma muito mais eficaz de mobilizar a população e ao mesmo tempo politizá-la, ou seja, fazê-la refletir sobre os caminhos reais que quer dar ao país, e ao mesmo tempo dar legitimidade a qualquer movimento do governo federal. Aqui fica-se debatendo se o Supremo irá intervir de maneira satisfatória ou não, se haverá intervenção militar ou não (e se isso seria bom ou não), etc. Como mostra o interessante texto de Almir Fellite no Justificando, a convocação da constituinte por Maduro - e seu sucesso - conseguiu calar a oposição interna e as vozes críticas da mídia internacional.
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Wadih Damous expõe a lógica da prostituta

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Segundo Barbara Cassin, ouvir os sofistas é a mesma tarefa da que destacava Benjamin, ou seja, ouvir as prostitutas para se conhecer os seus clientes. Isso também é o que Sade fazia antes de ter sido levado à Bastilha por ter querido fugir com a sobrinha de uma mulher poderosa. São esses os saberes perversos que hoje estão em circulação. Nada expõe melhor a lógica da "burguesia", do neomacartismo que tomou, como uma histeria coletiva, bem mais as classes-médias que as populares, e levou - todos juntos - ao caótico quadro social atual. Não por acaso, não lembro se no Le Monde ou outra publicação importante, se disse que a desigualdade econômica no Brasil atual é idêntica à França do séc. XIX, a França estudada por Walter Benjamin. Tempos de perversão.



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DESENVOLVIMENTO, ENVOLVIMENTO, EVOLVER-SE

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23:51:00

Em que ponto a crítica histórica é capaz de produzir "muçulmanos"?. Reflexões sobre o Bertleby, de Mandeville.
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O trem das sete, o próximo da estação

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04:05:00


O sonho futurista do Skylab em 23 de julho de 2017. Vale a pena o belíssimo e curto conto. Logo embaixo, as cenas dos que ainda não entraram no trem. O Brasil infernal com narração de Galvão Bueno. A Globo e o Golpe unidos no baile da Ilha Fiscal.

"A plataforma estava tomada de pessoas de toda espécie: recém-nascidos, anciões, mulheres e homens de meia-idade, adolescentes, grupos de crianças sírias, japoneses com smartphones de última geração, turistas, travestis operados, feminazis, cracudos, a dupla sertaneja Dória e Amaury, o ex jogador Neymar com suas duas pernas mecânicas, Caetano Henrique Cardoso, o Drácula, o louro José, Galvão Bueno e soldados fortemente armados. Algumas pessoas bem vestidas; outras, maltrapilhas. Permaneci arredado ao meu lugar. Impossível entender aquela algaravia, as lágrimas misturadas às gargalhadas. Mas num dado momento aumentou a tensão. E o barulho do trem, que se aproximava, me chegou aos ouvidos. Os soldados gritavam diante da multidão. Era um dia cinzento e frio. Assim que o trem parou, abriu suas portas e as pessoas entraram. Paulatinamente, a plataforma foi se esvaziando. Permaneceram apenas os empregados da estação, checando se todos haviam embarcado. Então, uma sirene soou forte e as portas se fecharam. Assim que o trem partiu, os empregados voltaram aos seus escritórios, e novamente o silêncio se estendeu ao redor. Pude então ouvir a última sirene do trem, já bem longe, como um canto que desaparece na distância".


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O olhar da prostituta

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04:02:00
Segundo Benjamin, deve-se entender a lógica da burguesia pelo olhar da prostituta. Por isso, escutamos Sérgio Moro. Sua frase é lapidar, e por um bom tempo alimentou esperanças nos becos e esquinas do país.

Quem, nessa entrega de prêmio, é o cafetão?


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Nazismo e liberalismo como doenças autoimunes: a biopolítica de Roberto Esposito

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20:41:00

Roberto Esposito associa o nazismo e o liberalismo às doenças auto-imunes (a diabete é o tipo dessa doença mais famoso). Seria assim o argumento: toda comunidade exige um "munus", ou um dom, o que gera, naquele que o recebe, o dever da troca. Cria-se em toda comunidade uma espécie de "sistema da dívida". Os "imunes" são os que não estão no jogo do "munus", do bônus e da dívida. Para o autor, é o excesso de vida, de imunidade, que provoca essa grande doença auto-imune no corpo social, como o nazismo ou o liberalismo. O liberalismo, por exemplo, para se alcançar a força e liberdade individual para cada um de seus membros, acaba produzindo uma força homicida, onde muitos devem morrer para, também, os melhores sobreviverem. Nesse caso, como Foucault acertou no Nascimento da biopolítica, não se escolhe mais quem vive e quem morre como no Absolutismo ou no diagrama da "razão de Estado". Existem os que vivem e os que se deixam morrer.
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Boko Haram e o terrorismo sintético na África

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23:04:00
O Rio de Janeiro é sua cópia imperfeita?

O homo sapiens sobreviveu à Guerra Fria porque ambos bandos estavam controlados pelos mesmos interesses e pelo mesmo dinheiro. Mas na atualidade não exitem tais limitações. Diante do colapso econômico, o mundo inteiro investiu bilhões de dólares no Oriente Médio, e agora faz o mesmo na África. Rússia, China a Índia... As grandes culturas não se renderão facilmente. O sangue tem chegado ao rio, e esse sangue atrairá as piranhas para um festim em que sobreviverão os mais aptos.
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De Lula à Síria: um novo mapa

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15:01:00
BRICS, um novo paradigma para a humanidade

Marco Aurélio Garcia, junto com Celso Amorim, foi responsável pela projeção internacional do Brasil na última década, bem distante do “viralatismo” a que estamos sendo relegados atualmente com o homúnculo que ocupa a Presidência e a corte que o acompanha. O gesto de Lula e Celso Amorim ao contornar a arrogância americana com os iranianos, evitando um conflito pior do que o vivido na Líbia e na Síria, deve ser reeditado.
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A Modernidade e "revolução permanente"

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18:31:00
"É preciso passar o Brasil a limpo" ou Goya, Saturno devorando seu filhos

Líderes como Lula, Juscelino, De Gaulle, Roosevelt, Giap, Castro e Brizola, são figuras permanentes ao contrário dos agentes do império, meros fantoches que desaparecem com as espumas da história. A admiração da figura de um líder não pode se confundir com o "populismo", palavra chula inventada para desmerecer todos aqueles não satisfeitos com governos e/ou governanças tecnocráticas, seja as da Troika, do FMI, do DOJ, OTAN, MPF, STF, da "mídia técnica" ou da história contada pelos historiadores autorizados e seus comentadores. Sem Assad e Putin, governaria o Estado Islâmico. Sem líder, o Iraque continua vivendo no caos e o Afeganistão é o maior exportador de heroína mundial, protegido pelo exército que "toma conta do país". De forma alguma o heroísmo é populismo.

Para Reinhart Koselleck, o Terror revolucionário, ao colocar o poder como lugar da monstruosidade, buscava um "milagre" em que ninguém reina, mas todos obedecem e são livres ao mesmo tempo. A Constituição poderia se alterar de acordo com as vontades individuais, já que todas as instituições representativas deixaram de existir. Uma entidade invisível, a volunté generale, o que vagamente entendemos hoje como "opinião pública", é o que governa com mãos intangíveis como o "mercado", divinização máxima concebido pelo liberalismo britânico. A "revolução permanente" ou a guerra civil foi instituída pelo deus sem corpo, onipresente, que atualmente podemos continuar a chamar de "mercado" ou Providência Divina e seu espírito santo, seu médium de atuação, a mídia. Não parece diferente, hoje, nosso caso.

Quem ganhará essa guerra, o heroísmo ou os verdadeiros populistas, ou seja, aqueles que vivem não da vontade popular mas da "opinião pública", ou seja, do estado de histeria coletiva, própria do fascismo, criado pela mídia e pelas instituições que lhe dão suporte?

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Liberalismo com populismo: A História de Louis-Philippe-Joseph D’Orléans, chamado Felipe Igualdade

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21:28:00
O massacre de Quios, de Eugène Delacroix: fome e guerra ou a comemoração do 14 de julho na França

Quando se celebra a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão automaticamente se passa a exaltar os avanços trazidos para a modernidade pela Revolução na França. Contudo, o modelo que estava em jogo quando se debatia sobre esses direitos foi a criação de uma constituição para aquele país que limitasse o poder do rei e criasse mecanismos de representação popular com uma câmara de deputados eleitos pelas diferentes províncias. Os debates na Assembleia foram abortados em meio ao caos que se seguiu aos eventos ocorridos na antiga prisão da Bastilha.

Os despachos secretos do embaixador veneziano em Paris, assim como um documento importante de uma testemunha da Revolução, o escritor Felix Louis Montjoie, mostram, ao contrário da unanimidade (uma das raras unanimidades - e burra) a respeito do evento "espontâneo" que foi a queda da Bastilha, o povo parisiense foi provocado pela fome criada pelo "príncipe" jacobino Philippe Egalité. Em comunhão com Jacques Necker, que gostaria de criar na França um sistema parlamentarista ao estilo britânico com um banco central independente, sabotaram a Guarda Nacional iniciada por Lafayette, no intuito de sitiar a capital do país com tropas estrangeiras. A ideia era tomar com 100 mil soldados Versailles, trazer de volta os largos estoques de mantimentos guardados na Grã-Bretanha de maneira insidiosa, declarar Felipe rei e, por esse golpe de Estado, fazer da França um país liberal, ponta-de-lança do Império Britânico dentro do continente europeu.

Se o rei tivesse aceitado as proposições da Assembleia ao invés de cair nas chantagens dos agentes britânicos, não haveria 14 de julho na França. Como disse Lyndon LaRouche, "em consequência de não terem implantado a Constituição, o 14 de julho tem sido celebrado na França desde 1789". E se engana quem acha que esse é um debate meramente político. Muito falta aos historiadores de profissão o conhecimento da ideologia econômica que faz avançar o Império há mais de duzentos anos.
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Arqueologia do sistema parlamentarista: tudo menos uma Sereníssima República

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23:37:00

Provavelmente o governo interino não tenha condições de aprovar muita coisa, quem diga qualquer reforma na Constituição, com a aprovação de no mínimo 308 parlamentares. Uma prova é a da Previdência, que assustou a muitos, e hoje virou uma fábula de Christien Andersen resumida por uma editora popular. No rolo compressor que levou Dilma, ainda saíram a PEC da Morte e a reforma trabalhista, todas aprovadas com pressa demais, passíveis de inúmeras objeções e flagrantes ilegalidades, ou seja, temos campo de manobra para quando a situação se reverter. 

O governo Temer parece essa editora popular albergada em alguma margem da avenida Brasil em meio à década de 1970. O problema é que essa editora fazia não exatamente "fábulas", mas livros pornográficos (ou eróticos, dependendo do ponto de vista), e era um desafio, uma espécie de desafio sob cocaína, para os publicistas e escritores - todos mal pagos. Não diferimos, claro, em todos esses quesitos: fábulas, pornografias ou a abrupta maioria que nem paga é para se auto-exibir de todas as formas, com as melhores das intenções, inclusive colocando seus candidatos presidenciais para se promoverem (com dinheiro de multinacional - "mas de empreiteira não pode!") dentro de motéis cenográficos (ver o fim por favor, últimos 2 minutos). "Oh, desculpe!" (para imitá-lo - o apresentador). Ele é pago, sim entretanto. 

É sempre uma tristeza a vox populi, de esquerda ou de direita. Apresentamos aqui nossa "arqueologia".
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O furor heroico: a literatura quinhentista e os dilemas do Brasil atual

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21:45:00
Giordano Bruno, quem melhor denominou o éthos renascentista: o furor heroico

"A América Ibérica não pega em armas por ter as classes enriquecidas, abastadas ou remediadas, parados numa especie de estupor, de idiotice, como nos sacrifícios rituais ao Pato Amarelo e na festa sabática da bateção de panelas. A parte maldita, como denomina Georges Bataille o uso dos excessos de riqueza produzidos pela sociedade são utilizados assim: no luxo e na guerra. A classe média de uma hora para outra não se viu mais como subcontratante dos comerciantes que se aventuravam no Paraguai. Elas mesmas viajavam para Miami, o novo paraíso das compras, e não queriam dividir o saguão dos aeroportos (porque a classe C não ia para Miami) com quem, para eles, sempre foram os retirantes. No momento em que toda a histeria coletiva se cala, a “vida e a fazenda” não devem ser recusadas. Ninguém mais deve temer a contenda. (...) Quem acredita, nem que se for por mera desconfiança, em suas utopias, nunca ouviu o imemorial furor guerreiro dessa gente daqui. Recusai todos vocês seus supostos status de gente remediada. Os tambores tocam. Ninguém sairá nos próximos meses sem uma mancha de sangue. Talvez poucos no tempo atual não estejam tentando se curar de algumas de suas feridas. A qual campo você servirá quando as tropas finalmente se realinharem? Ó senhores cidadãos! Para tal contenda ninguém deve recear".

Quando se dará o brado guerreiro, finalmente?
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O pântano britânico: as armadilhas do império e a guerra mundial

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22:44:00



31 de julho de 2017 (EIRNS) — Lyndon LaRouche, em declarações concisas sobre as implicações emanando de um Memorando lançado semana passada pela associação Veteranos Profissionais da Inteligência para a Sanidade (VIPS, em sua sigla em inglês), e as sanções contra a Rússia promulgadas pelo Congresso dos EUA quase que simultaneamente, exigiu uma resposta imediata do povo americano para impedir o plano britânico existente que visa uma guerra com a Rússia e a China, e ao qual o Congresso dos EUA capitulou.
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O Grande Tribunal do Mundo, hoje

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22:10:00



O Grande Tribunal do Mundo, hoje

É só uma breve passagem, eu sei, do livro velho e surrado por tantos usos e desusos, Vigiar e Punir, mas vale a pena como mote para começarmos a refletir (p. 196 da edição da editora Vozes, de 1997):

Na realidade, qualquer instituição panóptica, mesmo que seja tão cuidadosamente fechada quanto uma penitenciária, poderá sem dificuldade ser submetida a essas inspeções ao mesmo tempo aleatórias e incessantes: e isso não só por parte dos controladores designados, mas por parte do público; qualquer membro da sociedade terá direito de vir constatar com seus olhos como funcionam as escolas, os hospitais, as fábricas, as prisões. Não há, consequentemente, risco de que o crescimento do poder devido à máquina panóptica possa degenerar em tirania; o dispositivo disciplinar será democraticamente controlado, pois será acessível "ao grande comitê do tribunal do mundo". Esse panóptico, sutilmente arranjado para que um vigia possa observar, com uma olhadela, tantos indivíduos diferentes, permite também  a qualquer pessoa vigiar o menor vigia. A máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira.
Talvez não precisemos falar qual trecho ultra-selecionado que deve ser desprendido do texto, que pode nos fazer olhá-lo não só no contexto que indica. Como falamos, o que é o "grande tribunal do mundo"? O que se chama esse "grande tribunal"? Não é a própria democracia, esse grande olho? E a quem interessa o sistema de vigília constante, o suposto crivo de um público que, afinal, ninguém vê? O que falamos, se assim vemos, da última frase do trecho citado? Como se transforma, no século XXI, esse "edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira"? Que espécie de "edifício transparente" é esse? Qual crivo pedem, portanto, da sociedade? O caso exemplar, como não pode ser diferente, é o do vazamento dos arquivos de e-mail da campanha de Hilary Clinton. Quando se sabe, depois de Snowden, que a NSA vigia até câmeras de televisão e notebooks, webcams que se acreditam estarem desligadas, celulares que estão jogados ao canto, mais imperceptíveis no momento do que uma caneta que inutilmente procuramos: o crivo pedido é que se corrobore a tese de que Putin participou, que foi o fator determinante, das eleições americanas; que sem ele Clinton teria ganho sem nenhum problema. Afinal, Trump é um selvagem para os democratas, liberais que são, fascistas na mesma medida, portanto, nazistas, muito orgulhosos do saber quase, eu diria, iniciático, que acreditam possuir. Mas, quais consequências da mineração massiva de dados? Não a Rússia, alvo sempre privilegiado, mas a China pode ter acesso a inúmeros dados. Por que não usá-los a seu favor? Como isso pode alterar a ordem das coisas, já que uma é a intenção chinesa para o mundo e outra a do império? Na circunstância atual, o que é a favor da China, quase que "indutivamente" é contra o império.
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Contra um moderno mito pagão: a vox populi e o conceito de Revolução Francesa

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20:01:00
David - À morte de Marat


A “mitocracia” ou personalismo na política, inflada pelos mais diversos tipos de reprodução imagética ou retórica, é oposto ao universalismo proposto pelas constituições nacionais da era moderna. O apelo às massas, a vox populi utilizada pelos antigos imperadores romanos, desde o período em questão, antes serviu para golpes de Estado e ao estabelecimento de ditaduras do que realmente como uma medida democrática visando equilibrar a balança do poder com alguma espécie de ponderação ou sabedoria popular. O conceito de liberdade de imprensa e de apoio popular tal como defendem os agentes da versão brasileira da Mani Pulite, legitima também o despotismo e o Terror, como foi o caso da revolução na França. O personalismo em nossa política, corolário do conceito da ciência política chamado de “populismo”, não está no ex-presidente Lula, que sempre respeitou, talvez até em excesso, as instituições republicanas. O tipo de narcisismo como o do imperador Nero, capaz de incendiar uma cidade para construir no lugar uma outra mais bonita, é antes o comportamento dos “homens de preto” que passaram a comandar a política nacional. Assim, Sérgio Moro é nosso Felipe Igualdade, o demagogo duque jacobino da época da Revolução Francesa, frustrado em seus intentos de poder, mas que conseguiu instaurar o caos e o liberalismo, não o de Meirelles, mas o de Jacques Necker, na França revolucionária.
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O “efeito 1914”: a ameaça de guerra mundial feita pelo mercado financeiro

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03:13:00
Exército Sírio: Sputnik, publicado na EBC


Ao contrário do que diz a The Economist, é o império, com sua globalização, que ameaça fazer guerra, seja na Síria, nos Bálticos, na Ucrânia, no Mar da China, ou com terroristas mundo afora para aumentar a tensão e apontar como culpados o nacionalismo, o populismo, a defesa da soberania nacional.

Texto meu publicado agora no Brasil Debate, ao lado dos de Fernando Nogueira Costa e Roberto Amaral, entre outros. Uma crítica a um artigo recente da The Economist, na verdade uma ameaça de guerra através de um dos portais do mercado financeiro internacional.

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A teoria da dependência, 20 anos depois de Ruy Mauro Marini: uma leitura anacrônica

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02:54:00


Publicamos tempos atrás um artigo nesse blog sobre a captura da Teoria da Dependência por Fernando Henrique Cardoso, quando este ainda era um acadêmico e se utilizava de suas leituras do Capital, de sua pose de esquerdista e dos amplos financiamentos da Fundação Ford ao CEBRAP. Da teoria à prática, FHC, já em conluio com José Serra desde a época dos debates acadêmicos e do esforço sistemático à deturpação da teoria de Marini, o PSDB colocou como paradigma de sua governamentalidade o dependentismo em sentido inverso, ou seja, a associação ao capital estrangeiro para injetar recursos na economia nacional, mantra dos liberais pelo menos até o minuto seguinte à publicação desse texto.
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