Se falar de Moro, por que não falar dos BRICS? (atualizado)

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Muito melhor que a irmandade de Don Vito Corleone
Atualizado em 15/07/2016

A sombra que desce sobre Moro é menos a de seus crimes sob a capa da justiça, do que o do procurador Janot. As constantes viagens de membros do Ministério Público brasileiro aos EUA, e as viagens do próprio juiz até lá, são infames. E não menos foi sua última viagem para receber a coroação imperial através da revista Times. Mas nessas viagens, tal como os americanos antes passavam aos militares seus métodos de tortura, agora repassam a mesma matéria, tudo dentro dos trâmites legais. Afinal, a prisão e a tortura eram métodos legalizados pelo governo de exceção. Prende-se alguém sem qualquer respeito às mínimas garantias individuais, como aconteceu de Lula a Mantega, até os primeiros desavisados das práticas justiceiras do homem de preto; depois se dilata ininterruptamente a prisão preventiva ou coercitiva, até que o ladrão comece a falar. Logo em seguida, os ladrões são soltos, ficam em casa, pagam pequena multa se comparada com os milhões ou bilhões que desviaram. E aí começa a prostituição com a imprensa. Primeiro o aliciamento, depois o crime. Feitiço que pode se voltar contra o feiticeiro.

Métodos aprendidos no estrangeiro, que tiveram o lado oposto ao desmascararem alguns aspectos da relação entre CBF e Globo, mas que, como todos os respingos a mais, "não vieram ao caso". No mais, os métodos da transmissão futebolística já eram mais do que conhecidos, mas sem a divulgação beirando à náusea como por exemplo a dos pedalinhos. O mesmo caso se aplica ao triplex de Parati, hoje de forma mais comprovada ainda depois da divulgação das contas secretas no Panamá. Nada de holofotes. Fica tudo na obscuridade, bem guardada sob a capa preta de qualquer juiz conveniente ou nos aquivos de jornalistas compromissados com a empresa e seu contra-cheque e não com sua carreira e biografia.

O consórcio entre as instituições públicas, os oligarcas daqui (que se chamam tucanos ou os que são patrocinados pelo Itaú - toda uma Rede), visa, como é claro, prender o dono da quadrilha criminosa chamada Partido dos Trabalhadores. Esse é o ponto pacífico. Os BRICS entram na história quando procuram tirar o "B" da sigla. Caso o temerário suposto futuro governo se consolide (e isso é o aspecto quiçá mais difícil de todos), entraríamos para a Aliança para o Pacífico, do Obama, mesmo não sendo banhados por esse mar. Para ficar na contradição mais aparente.

A criação do banco de desenvolvimento dos BRICS, os grandes projetos de desenvolvimento capitaneados pela China - tem o canal da Nicarágua, mais do que estratégico, mas também seu papel crucial no leilão do pré-sal (é só lembrar as causas que levaram as petroleiras não entrarem, somente a Shell e em pequena escala), ou a Transpacífica -, tudo isso tenderá à entropia. Um novo sistema econômico se forma hoje sob a liderança dos BRICS. Uma cesta de moedas para se fugir ao padrão dólar e, como dito, os projetos de grande escala, o banco internacional como substituto do FMI e BM, a reconstrução da Rota da Seda (que vocês podem ver alguns vídeos curtos em meu canal, também traduzidos por mim aqui e aqui); tudo feito para sair do monopólio do falido sistema financeiro transatlântico.



Substituir o uniforme dos militares pela capa preta dos juízes, criar novamente um estado de exceção novamente sob o manto da legalidade (em 64 não foi diferente, os golpistas sempre se declaram legalistas, democratas, liberais, etc.), é tirar o "B" dos BRICS e se juntar ao corrupto e falido sistema que levou à maior crise da história de nossa civilização, e que traz índices alarmantes para a população de dentro dos EUA, como no gráfico abaixo, que mostra o aumento exponencial de mortes violentas (por drogas, álcool ou suicídio) do cidadão americano, branco e de meia idade - o tradicional trabalhador produtivo e classe-média, exemplo mundial de vida bem sucedida (não falo aqui de mega empresários ou ricos, mais o bem sucedido no sentido do cidadão comum). Se aderirmos ao falido império, será nossa sorte melhor que a deles? Numa conjuntura onde é tão difícil apontar culpados: Cunha, Temer, Moro, Janot, os tucanos, a Globo, etc. e etc., o melhor é pensar que, com Moro, com impeachment, ou seja, sob as ordens do Império decadente (e que não era em 1964), nossa sorte será longe dos BRICS e próxima do genocídio de nossa população.

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As estatísticas podem ser vistas com detalhe na página do New York Times. A transcrição do discurso de Jeff Steinberg no webcast do Comitê de Ação Política Lyndon LaRouche (LPAC), em 22 de janeiro de 2016, é reveladora do pessimismo cultural vivido pela população dos EUA, principalmente se comparado ao otimismo - e às grandes descobertas científicas - do século XIX ou da era Roosevelt. Indico também as anotações do mesmo Jeff Steinberg na palestra que deu em Tóquio, no Instituto Canon, sobre a real situação da economia estadunidense - o que não tem relação alguma com as estatísticas mentirosas do "progressista" Barack Obama. Para quem possa acreditar que as análises de Jeff não sejam suficientes, talvez provavelmente por ideias pré-concebidas a respeito do movimento larouchista, pode-se visitar a página do portal Vermelho (lugar também de gente perigosa, dos comunas, dos bolivarianos dessa vez) que reproduz reportagem do jornal Valor Econômico a respeito da decadência sócio-econômica das últimas décadas experimentada pelos yankes. É uma reportagem de 2010, enfim, que diz respeito à questão estrutural - falida - da economia estadunidense. E, para variar, um extenso e atual estudo da Pew Researcher Center que vai na mesma direção, ou seja, da falência do sistema financeiro transatlântico e das economias a ele associadas.

Não é por outro motivo que a China e a Rússia são responsáveis pela grande valorização do ouro nos últimos anos. Com sua política de fugir ao padrão dólar, aos petrodólares em particular, investem no ouro enquanto a velha moeda imperial desaba de valor, com especial ênfase no período das medidas hiperinflacionárias alcunhadas pelo "keynesianos" de Quantitative Easing. É o mesmo princípio que fizeram os BRICS passarem a criar uma cesta de moedas; e não por princípio diferente, em criar seus próprio banco de desenvolvimento, inclusive o asiático, hoje em dia mais eficiente, seguindo os trilhos da Nova Rota da Seda, enquanto o banco dos BRICS ainda procura se legitimar com um capital inicial de meros 1 a 2 bilhões de dólares, quase em sua totalidade comprometidos com projetos "verdes" no estilo WWF. O que mesmo assim faz Paulo Batista Nogueira Jr. chamar de bom começo! As intenções são realmente das melhores, e o trabalho de legitimação do banco dos BRICS não deve ser ignorado. Único ponto contrário, de um modo geral, é que a ideologia ambientalista continua sendo pedra angular de muito boas cabeças.

Estação da Nova Rota da Seda recém-inaugurada que liga a China ao Irã.

Moro talvez só recupere seu protagonismo caso consiga capital social suficiente para prender Lula ou se, na volta de Dilma, a oligarquia ainda tenha forças para legitimar a ressurreição da Lava-Jato. Contudo, foi essa operação a responsável pelo encobrimento das reais causas do impeachment, ou seja, de criar uma falsa percepção de "necessidade de mudança" na população. Os tais "decretos de crédito suplementar", o que a mídia nativa sempre chamou de "contabilidade criativa" não tem tutano suficiente para fazer gritar nem o mais reacionário "anti-bolivariano". Logo, cria-se o álibi. O princípio básico de todo esse desenvolvimento é que estar com Moro não é diferente de estar com Temer, que é igual a estar com Cunha, que é igual a estar com a bancada evangélica, a da bala, a de sei lá mais o quê, de estar com a Globo, de estar com... Obama, o assassino das terças-feiras! É estar com a escalada de guerra contra Rússia e China, contra a Nova Rota da Seda e ao desenvolvimento de um sistema econômico que supere a hegemonia da bancarrota de Wall Street e da City de Londres. Defender a operação judicial que legitima as revoluções coloridas, consideradas por russos e chineses atos de guerra irregular promovida por países estrangeiros contra os asiáticos. Ucrânia.

Ser Moro é ser Stephan Bandera, é ser neonazi na Europa. Só a capa de neomacartismo que cobre a personalidade de parte considerável da população pode esconder isso. A capa preta que substitui hoje em dia o uniforme militar usados alhures. A capa preta daqueles que são contra o impeachment para aproveitarem de novas oportunidades eleitorais, como Marina Silva ou Joaquim Barbosa. Sim, esse, "o" homem da capa negra - o pioneiro. Talvez de capa só não menos negra do que a do mistério do jatinho de Eduardo Campos, que até agora, incrivelmente, não acharam sequer os donos. Estar com Moro, apoiar seus métodos aprendidos nos estrangeiros, é estar com o decadente e pessimista EUA, o país do tráfico de drogas, dos drones e dos assassinatos em massa. É estar com a Mãos Limpas, operação judicial feita em aliança com a Transparência Internacional para acabar de vez com a credibilidade dos partidos políticos italianos e conseguir enfiar goela abaixo a Troika em um país que ainda lutava por sua soberania, por sua moeda, ou seja, contra a fajuta tentativa de união política baseada em união monetária a qual deram o nome de euro e que hoje engole a Europa, da Grécia a Espanha, da Inglaterra a Alemanha.

Quando pensar em Moro e quiser se livrar da capa preta de seu minúsculo neomacartismo, pense no lado luminoso do planeta, pense nos BRICS.

Adendo: O Império Britânico por detrás do golpe no Brasil - o caso argentino

Segue trecho sobre o caso da Argentina, do longo artigo de Cynthia Rush, "O Império Britânico por detrás do golpe no Brasil", publicado na Executive Intelligence Review. A tradução em português pode ser vista aqui e a edição em inglês aqui.

Os irmãos Koch financiam os movimentos "apartidários"
O papel da Argentina
A Lava Jato começou a operar no Brasil já no final de 2014, assim que Dilma foi reeleita ao derrotar o candidato de Wall Street, Aécio Neves, em novembro daquele ano. Mas foi a eleição do monetarista fanático, Maurício Macri, na vizinha Argentina em novembro último, e sua mudança na economia e na política externa em alinhamento com os Estados Unidos, que fortaleceu os agentes da Lava Jato a acelerar o passo, sabendo que poderiam contar com o suporte de Macri. Assim que ele tomou posse, em dezembro, começou imediatamente a reverter as políticas nacionalistas de sua predecessora, Cristina Fernández de Kirchner, e fez saber ao governo Obama que seria um aliado de total confiança.
Foram Macri e Obama que responderam à abertura do processo contra Dilma com pronunciamentos praticamente idênticos, dizendo que os “processos institucionais” deveriam ser respeitados e que deveriam seguir seu curso não importa o que ocorresse. Isso traçou um nítido contraste com o posicionamento da Unasul, a Organização dos Estados Americanos, e de outros governos, que disseram que o impeachment violentava as normas legais.
Um dos primeiros atos de Macri no governo – indicando onde estão suas lealdades – foi fazer um acordo com os fundos abutres que afligiram a Argentina por mais de uma década e cujas demandas Fernández e seu falecido marido e predecessor, Néstor Kirchner, rechaçaram. Sob investigação por duvidosas atividades financeiras próprias e de sua familia, em fundos off-shore, como revelado pelos Panamá Papers, e denunciado por sua defesa púbica do banco da Rainha, paraíso dos traficantes de drogas, o HSBC, sob indiciamento,  Macri lançou sua própria caça às bruxas ao estilo mani pulite contra a ainda muito popular presidenta, usando uma facção aliada no judiciário para acusá-la, sua família e aliados políticos por desvios, lavagem de dinheiro e fraude na esperança de encarcerá-la.
O juiz de confiança de Macri, Claudio Bonadio, já tinha indiciado Fernández em um processo, mas outros estão a espera para serem abertos. Em 19 de maio, o jornal londrino Financial Times citou um executivo do novaiorquino Eurasia Group lamentando que faltava à Argentina a capacidade para executar “uma investigação séria e extensiva” do tipo Lava Jato, como se faz no Brasil.
Em discussão com seus associados em 12 de maio, dia em que Dilma foi afastada, o diretor-fundador da EIR, Lyndon LaRouche, alertou que se o Império Britânico não atingir seus objetivos através de golpes ou do encarcelamento de Dilma e Cristina Fernández através de acusações criminais, eles podem recorrer a assassinatos.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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