Sobre a guerra que se aproxima

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O exército vermelho se reúne novamente para derrotar os nazistas

Com certeza, no ocidente, Lyndon LaRouche é o líder com maior consciência dos perigos que ameaçam nossa civilização atualmente. No seu tradicional webcast de sexta-feira, em 6 de maio, disse com propriedade, como nenhum outro por estas bandas de cá é capaz de fazer: "Nós não estamos à beira da terceira guerra mundial. Nós estamos no meio dela. Nós já chegamos lá, e se não conseguirmos detê-la, a civilização não existirá mais". É claro que a esperança de uma vitória russa e/ou chinesa - provavelmente, com quase toda certeza, num cenário de conflito os dois gigantes irão se unir - não é apostar no vazio, porém é sempre alarmante a magnitude que adquirirá essa guerra. Os movimentos, ainda que em sua maior parte secretos, indicam que haverá o controle da situação por parte da Rússia principalmente, e da China, durante o processo. Vamos explicar com todos os detalhes essa história intrincada e que guarda silêncio conivente dos oligopólios midiáticos com os políticos mais poderosos do mundo.

Diferente do ano passado, quando tudo sobre o conflito ainda era envolto numa nuvem, quase como se tudo não passasse de boatos, apesar de vozes firmes internacionais terem se posicionado sobre o risco de um grave conflito, como o ex-comandante William J. Perry, hoje, as fontes que apontam para o conflito são tanto oficiais como não oficiais, estão na grande mídia ou na mídia alternativa. Não conseguem, contudo, formar qualquer consenso. Parece que o segredo é o que interessa numa guerra que será enormemente impopular, ainda que consideremos o estado mental deplorável que boa parte do mundo atravessa. Não só deplorável econômica ou politicamente. De maneira total, o que vemos é a degradação mental pelo culto a modernos mitos pagãos, como o da união europeia através de uma união monetária, ou do monetarismo de uma maneira geral, que é um sistema de signos abstratos que são não menos alienantes, de certa forma até pior, do que as intervenções na subjetividade dos indivíduos como em projetos em sua primeira fase pelo menos encerrados, como o caso do famoso MK-Ultra. A polarização intensa do mundo, como é cristalino para pelo menos os menos tontos, não é uma coisa fabricada por "petralhas" e que se restringe à nossa província chamada Brasil. Pelo contrário, é vivida mundo afora de maneira mais intensa pelo menos desde quando o Ocidente criou as chamadas "revoluções coloridas", como também pelo avanço constante da OTAN, sua postura agressiva, que leva a uma polarização também entre as forças militares ocidentais e as orientais.

Primeiro, vamos começar com uma fonte oficial. É um resumo com comentários da fala de Sergei Lavrov na XXIV Assembleia do Conselho de Política Exterior e de Defesa, em 09/04/2016, republicado pelo portal GGN:

Atualmente a Rússia vem provocando histeria em Washington muito regularmente, só que isso não aparece na TV. Nós colocamos ordem na Síria sem um voucher de autorização americano, e não ficamos atolados por lá, mas nos retiramos no momento certo. Pode-se imaginar o quanto duplamente ofendidos eles devem estar?
É também revelador que, quando os políticos americanos relacionam as ameaças ao reduto da liberdade, a lista pode variar: terrorismo, China, até mesmo o ebola foi mencionado uma ou duas vezes, enquanto que a Rússia é membro permanente dessa lista. Então agora Sergey Lavrov declarou oficialmente: a Rússia vai perseguir abertamente a criação de um sistema político internacional policêntrico, de modo oficial e com base em documentos estratégicos apropriados. A partir de agora ações contra a Rússia serão também ações contra o conceito de mundo multipolar. Uma vez mais, nada disso é novidade, mas nada disso havia sido declarado abertamente até agora.
Obama faz a publicidade do seu país:
“Os Estados Unidos têm muitas cartas na mão. Nós somos objeto de inveja do mundo inteiro. Nós possuímos as forças armadas mais poderosas do planeta. A nossa economia é atualmente mais forte do que qualquer outra economia desenvolvida”.
E antes disso ele já havia dito:
“Nós não seremos capazes de conseguir nada se nós não tivermos a mais poderosa força militar no mundo e se nós não torcermos frequentemente o braço de países que não queiram fazer aquilo que nós necessitamos que seja feito, pelo emprego uma variedade de meios econômicos, diplomáticos e eventualmente militares”.

A supremacia não mais racial, mas social dos EUA, sua completa arrogância em termos de política externa, podem levar a uma situação jurídica anterior aos acordos de Yalta (não se precisa traduzir isso, principalmente se pensarmos em termos do estabelecimento da OTAN e os acordos feitos com Gorbachov no apagar das luzes da antiga União Soviética), como bem ressaltou Putin em sua "fala sobre o meio ambiente" na ONU recentemente, É bom ver o discurso dele no youtube, traduzido para o inglês ou o espanhol pela Russian Today. Podemos ver também no "oficial" New York Times que a escalada não é tão não-oficial, tão "de brincadeira" como se pensa. São basicamente duas reportagens sobre o escudo anti-mísseis recém-implantado pela OTAN na Europa, tanto com capacidade defensiva como ofensiva. Pode ser visto aqui e aqui, e também de maneira um pouco mais "alternativa" aqui. É a nova super-quente Guerra Fria. Nesse sentido, com certeza, já estamos em meio à guerra. 

Por que quadruplicar a presença das tropas da OTAN nas fronteiras da Rússia? Qual ameaça concreta representada pelos russos? Por defenderem junto aos chineses, e aos países BRICS de um modo geral, um novo arranjo econômico, um novo sistema financeiro? Sair de seu próprio país, atravessar o Atlântico, para conter qual ameaça? Quem está provocando o que? E com a ajuda providencial dos alemães e o posicionamento de tropas nos Balcãs até onde podemos chegar?

A hipótese que move a OTAN é o que se chama de sua "doutrina utópica". Acham que vão em apenas um ataque aniquilar o inimigo. Mas não consideram que Rússia e China podem responder em seguida, em segundos ou milésimos de segundo (em realidade, se calcula um tempo de 3 a 5 minutos para a resposta, ou seja, se não se destruir o inimigo nesse tempo, joga-se fora toda "doutrina utópica"), e lançar um ataque na mesma proporção de maneira simultânea - o que seria com toda certeza o fim da humanidade. Primeiro, o fato é que o cerceamento da Rússia a partir de sua fronteiras ocidentais e o sufocamento da China no Mar do Sul é fato, como bem demonstrou de maneira resumida uma das últimas postagens do comitê de ação política de Lyndon LaRouche (traduzido em português de Portugal):

  1.  A contínua expansão para leste da OTAN em direção às fronteiras da Rússia, apesar das garantias dadas pelo Ocidente a Gorbachov em 1989 de que tal não iria acontecer;
  2. A colocação do sistema de defesa antimísseis Aegis na Roménia, Polónia, Turquia e Espanha. Estas armas, equipadas com lançadores MK41, podem ser usadas para missões defensivas (ar, terra, mar), mas também para ataques ofensivos com armas nucleares;
  3. A planeada colocação rotativa permanente nos Estados Bálticos, Polónia e Roménia de quatro batalhões de 1,000 tropas cada um e de equipamento militar pesado;
  4. A criação de uma "Frente Nórdica" contra a Rússia, composta de uma aliança dos membros da OTAN Dinamarca, Islândia e Noruega e da "Parceria para a Paz" da OTAN (Suécia e Finlândia);
  5. A modernização de armas nucleares, em particular da bomba B61-12 e dos Mísseis de Cruzeiro de Longo Alcance Standoff (LRSO), baseados na Alemanha. A Senadora dos EUA Dianne Feinstein disse destas armas: "Os chamados melhoramentos a esta arma pareceram ser desenhados ... para a tornar mais usável, para nos ajudar a lutar e ganhar uma guerra nuclear limitada".

Quanto às ameaças no mar chinês, assim disse o editorial de um dos mais importantes periódicos do país, o Global Times: "Carter's words have been the most threatening China has heard since the end of the Cold War. They confirm some Chinese people's worries about the worst-case scenario in the Sino-US relationship, in which Washington may translate its intention to counter China into real actions". Também pode ser visto aqui. A China já traçou uma linha vermelha por onde os EUA não podem e não devem atravessar. Tanto a Rússia como a China advertem com as mesmas palavras: "irão reagir de maneira assimétrica às provocações". Dizem que será formalizada a cooperação militar entre os dois países, mas a cooperação em todos os níveis, principalmente depois da sanções econômicas e da puxada forçada do preço do petróleo (o que deveria fragilizar, "sangrar" - como diria o Farol sobre Lula - a Rússia até a morte), foi intensificada de maneira sem precedente desde então. A formalização da cooperação militar é somente tornar a público o que é irreversível.

A excelente foto do site LAROUCHEPAC.COM
O curioso da visão do movimento larouchista é que ora alerta sobre os perigos de guerra no Mar do Sul, ora nas fronteiras ocidentais da Rússia. No meu modo de entender, nada disso deve ser considerado. Dificilmente os russos vão esperar o primeiro ataque, aquele fulminante, como defendido pelos doutrinários utópicos da OTAN. No meu entender, dificilmente não será o oriente que irá tomar a iniciativa. Uma das análises mais lúcidas sobre o processo de guerra já iniciado, feito por John Helmer, relembra o comandante do exército vermelho, o marechal Georgy Zhukov, e o que ele chama de "momento Barbarossa". Stálin estava pronto para lançar um ataque preventivo a Hitler. O marechal, querendo surpreender o ocidente como é costume entre os russos, como na vitória sobre Napoleão, agia em silêncio. Stálin foi dar com a língua nos dentes, disse que poderia atacar a Alemanha a qualquer momento, "secretamente". Logo em seguida, Hitler deslanchou sua Operação Barbarossa. Medvedev teve seu "momento Barbarossa" logo após o assassinato de Kadafi, e alertou sobre os riscos eminentes de uma guerra. Putin, depois dos sucessos na Síria, teve a oportunidade de ter o seu momento. É clara a movimentação pela defesa dos dois países e os russos podem surpreender novamente. Recentemente tivemos a retomada da Crimeia realizada de maneira surpreendente e sempre humilhante para os derrotados; um pouco depois, a retumbante vitória russa contra o Estado islâmico, que os estadunidenses - agora novamente humilhados - combatiam a alguns anos. Mais surpreendente foi a saída, a retirada dos aviões russos apensas cinco meses após o início do confronto. Mais surpreendente ainda foi o concerto de Bach feito em Palmira, um momento único para a humanidade.

A questão não se restringe às sanções econômicas. Deve-se também levar em conta o lobbie para fazer despencar o preço do petróleo, o que de uma tacada só atingiu a Venezuela e tornou mais barato para os golpistas brasileiros retomarem os argumentos de entrega do pré-sal. Deve se levar em conta que todo tipo de guerra que se trava hoje é fundamentalmente econômica. A guerra dos discursos é toda ela econômica. Superavit primário, câmbio flutuantes, metas de inflação, etc., o tripé macroeconômico e todas as demais discussões bizantinas são a forma de se revestir de caráter "técnico" a discussão que sempre foi política, mas que nos idos da Guerra Fria se apresentava sempre com características ideológicas. Não se discute mais nesse sentido tão duro, ideológico. Nem o mundo está armado como estava naquelas décadas. O rearmamento, a preparação para o conflito, se dá de maneira súbita. Não há qualquer necessidade para corrida armamentista, vivemos numa espécie de época transhistórica, de paz ilusória, de vitória ainda da ideologia de Fukuyama ou da geopolítica de Brezinski.

Na verdade, desde a queda do muro em Berlim, não se tratou de uma alternativa viável para a paz entre os blocos que antes estavam em franco conflito. Lyndon LaRouche, que previu com agudeza a queda do muro pouco meses antes - e ninguém achava que iria ocorrer -, e junto com sua esposa Helga Zepp-LaRouche, vêm defendendo desde então a integração econômica, seja no plano inicial, o de se construir um triângulo produtivo Berlim-Paris-Viena, com o intuito de integrar a Europa ocidental a oriental, seja mais tarde com a Ponte Terrestre Mundial. Hoje a China já realiza os planos da senhorita Rota da Seda (como é apelidada na China Helga Zepp-LaRouche), e o ideal é que o plano sirva para integrar a Ásia com a Europa a partir do Oriente Médio, e se acabar, através desse plano de integração econômica com os conflitos na região, a crise dos refugiados e a ameaça constante de guerra. regional ou mundial.

A Ponte Terrestre Mundial devidamente estilizada
Como tem enfatizado Helga Zepp-LaRouche, vivemos uma crise existencial na humanidade maior do que na época da Crise dos Mísseis em Cuba. Não falamos de "crise existencial" no sentido "psicanalítico" ou em termos de "ser ou nada" do existencialismo francês ou de seus congêneres. O perigo que ameaça a existência do ser humano enquanto espécie nunca foi tão grande. A senhorita Rota da Seda, no discurso cujo link coloquei logo acima, cita artigo publicado pelo general russo Leonid Ivashov no periódico Zavtra (e resumido aqui, em inglês) em que diz: "existem sérios preparativos para a guerra. Não só na fronteira noroeste de nosso país e entorno dela. A Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, adotada ano passado, marcou o início das preparações para sua fase militar. Foi dito ali que não existe mundo multi-polar, porque não há alternativa para a liderança americana". É o encontro de duas visões de mundo absolutamente opostas, entendimento de aspectos jurídicos que regem as relações internacionais inteiramente discrepantes, como exposto no primeiro trecho de artigo transcrito acima.

Ela também cita artigo recente do correspondente do conservador periódico alemão Die Welt, Michael Stürmer: "Nenhum protocolo irá nos salvar da guerra nuclear". Para quem gosta da língua alemã, segue o link. O título, contudo já diz muito. Stümer, classificado como um "atlanticista" de quatro costados, alguém absolutamente comprometido com os meio ambiente midiático, alerta para o fato de que durante a Guerra Fria os militares de ambos os países tinham clareza a respeito das consequências de se adotar a política chamada MAD (Mutual Assured Destruction), à época, defendida com todo carinho pelo nobel sir Bertrand Russel - o "homem mais maldoso do século XX"(o que não é pouca coisa, é só lembrarmos de Hitler e correlatos), segundo Lyndon LaRouche.  Se paramos para pensar, a "doutrina utópica da OTAN" nada mais é do que um MAD amplificado, pois para os atlanticistas, caso aja "dano colateral", tudo será para o bem da humanidade, já que devemos - segundo eles e os ideólogos do movimento verdista - reduzir para pelo menos um bilhão o número de seres humanos existentes no planeta.

Para os curiosos, indicaria com muita veemência o diálogo semanal entre o jornalista John Batchelor e o professor da universidade de Princeton, especialista em Rússia, Stephen F. Cohen. Pode ser visto no site do The Nation ou no Russian Insider. O link para um dos últimos podcasts está aqui. O professor relata os recentes movimentos dentro da Rússia para se reler o legado de Stalin, algumas considerações sobre Gorbachov (com ele, com a Perestroika, se deu o primeiro trabalho sério não de fuga do socialismo ou capitulação ao capitalismo, mas de "destalinização" da URSS), além dos comentários habituais sobre a mobilização alarmante das tropas da OTAN na fronteira russa, principalmente no Báltico.

Numa entrevista mais recente, o professor Coher relata com espanto as manobras de milhares de soldados da OTAN na Polônia, nos preparativos de guerra batizados de operação Anaconda-16. Por outro lado, existe o debate público na Rússia a respeito do grau de seriedade do avanço militar ocidental: seria apenas demonstração de poder, uma espécie de pirotecnia com armas nucleares prontas para uso, ou de declaração informal de guerra? A pergunta "retórica" do entrevistador (o professor chama assim a pergunta, até por considerar a resposta óbvia demais) não é menos pertinente: o que fariam os EUA caso os russos ou chineses estivessem em Cuba fazendo exercícios militares com grande mobilização de armas, homens e recursos? Assistiriam impassíveis ou aqui no ocidente já se teria feito renascer a histeria da guerra, talvez num modo ainda mais dramático do que nos anos 1960? O fato é que não há o telefone, os líderes políticos, como houve na época de Kennedy, capazes de conversarem e contornarem o terror iminente. Barack Obama, em sua visita ao Japão, disse com todas as letras entender as motivações que podem levar um presidente a utilizar de armas nucleares. Como se esse fosse o caso, com um Japão já rendido, e com as ordens do general Douglas MacArthur de retirar as tropas do local.

Colocamos abaixo o vídeo com uma fala mais curta do professor sobre o assunto específico do confronto Rússia versus EUA.


O ex-comandante do Joint Chiefs of Staff (por favor, fiquem a vontade para traduzir como quiserem a expressão que designa o Estado Maior das Forças Armadas), Martin Dempsey, fez um alerta vigoroso para os estadunidenses não caírem na "armadilha de Tucídides". Elogiar Atenas na mesma intensidade com que se despreza os rivais pode fazer Washington virar pó, assim como Atenas nunca mais recuperou sua antiga supremacia após a Guerra do Peloponeso, um guerra sem vencedores. O alerta é claro, vem de quem vivenciou as mais recentes batalhas no Oriente Médio, e conhece o discurso dos neocons que são o coração da administração Obama, ou seja, o discurso do mundo unipolar, do "século americano", seja pela retórica imperialista, pelo sufocamento econômico ou pelo uso das armas.

Não se precisa reiterar as sucessivas alusões, ou sucessivos planejamentos dos neocons a respeito da necessidade do desmantelamento da Rússia. Uma referência elementar é o "grande xadrez", de Zbigniew Brzezinski, mas passa por alusões mais recentes, inclusive do ressurgimento do MAD, e que pode ser visto aqui, com links bem interessantes para outros artigos. Recentemente também, fala-se do movimento russo para fazer na Líbia o que foi feito na Síria, o que por si só nos dá bastante matéria para reflexão. É a guerra em movimento, a guerra total, generalizada, mesmo que ainda não se tenha um conflito direto entre as potências. Quais seriam as consequências para o "grande xadrez" internacional caso essa intenção russa venha a se concretizar? Lembrando que Medvedev teve seu "momento Barbarossa" quando da morte de Kadafi (pelos drones americanos), seria uma guerra direta contra a política de mudança de regime imposta pelos EUA e que teve seu momento marcante em 2013, com repercussões aqui no Brasil, mas principalmente na Ucrânia. Talvez o ponto final dessa história (se é que podemos falar de pontos finais em algo que está em pleno desenvolvimento), um ponto de ancoragem, a marcação de dois tempos seria as "revoluções coloridas de 2013" até a instalação do sistema anti-mísseis nas últimas semanas. Vamos dizer que essa é a "parte quente", a mais recente, de um acontecimento de longo curso.

Os mísseis hipersônicos 3M22 Zirkon, arma russa para deter os mísseis anti-balísticos
Um tempo médio podemos entender que se estende a partir de uma dupla plataforma. Uma, de mais curto alcance, que vai desde a pronta inciativa de Putin em auxiliar os americanos depois do ataque de 11 de setembro, até os desapontamentos generalizados provocados pela guerra no Iraque, que levaram a Rússia a retirar, por volta de 2005 se não me engano, qualquer apoio à "guerra contra o terrorismo". A partir do pressuposto da "guerra contra o terror" a OTAN passou a se multiplicar como um câncer, tornando membros países como Lituânia, Romênia, e sei lá mais o que, numa clara violação às cláusulas de respeito mútuo que ampararam o acordo Ocidente-Rússia com o colapso da URSS. A única importância desses países, dessa expansão da OTAN, é sua proximidade com a fronteira russa. Tendo em vista esses desdobramentos, se compreende por que se tornou inaceitável para a Rússia contribuir para a caça aos terroristas.

A outra plataforma de tempo médio, mas de alcance um pouco maior, é a eleição de Bush pai para a presidência dos EUA. Fala-se muito em Reagan, na sua patota de neoliberais, etc., mas se esquece de dois detalhes importantes: foi com Reagan que quase se realizou um acordo em comum EUA-URSS em torno também de mísseis anti-balísticos (portanto, esse projeto é bem antigo e agora é implantado não para o fim da guerra, mas para provocar o início de uma), a Iniciativa de Defesa Estratégica, que foi frustrada pela quadrilha liderada por Kissinger, e que levou à prisão seu idealizador, Lyndon LaRouche, junto a inúmeros de seus associados. A eleição de Bush pai, por seu lado, colocou definitivamente no poder os neocons, seu núcleo duro, baseado no chamado "complexo industrial-militar", que tem suas gloriosas raízes na Skull and Bones e na colaboração com os nazistas, liderada pelo então senador Prescott Bush. Numa comparação talvez um pouco bárbara, podemos dizer que comparar os malefícios de um governo Collor a um governo FHC é como comprar Bush pai e Reagan. Este e Collor parecem absolutamente ignorantes do bem e do mal diante do oligarquismo puro e duro, e todos os novos paradigmas (mais do que práticas políticas), por eles implantado. Não é um acaso que os "atentados" ocorreram com Bush filho (na verdade, neto). "Caçadores de marajás", playboys de Maceió ou atores de Hollywood não servem de forma alguma para ocupar cargos relevantes, quanto mais a presidência da república!

Faremos um último paralelo, agora sobre o tempo longo, que para mim vai do assassinato de Kennedy até a implosão das Torres Gêmeas. Depois vamos estourar essa dicotomia estruturalista de "quente e frio" e vamos tocar - mas apenas tocar por enquanto - as camadas geológicas mais profundas, seguindo as lições do dr. Xarada (Mr. Challenge), o grande protagonista dos Mil Platôs, de Deleuze e Guattari. Essa história de tempo mais longo, na verdade a ponta de algo mais amplo, talvez iniciado com os poderes discricionários adquiridos pelo Império Britânico depois da Guerra dos Sete Anos, é um marco simbólico do povo estadunidense, principalmente de sua derrota sem retorno aos ditados do Império que desde o assassinado de Kennedy o vem recolonizando. A partir da derrota das políticas pró-industriais de Roosevelt, da falência agora irremediável, sob Obama, do programa espacial dirigido pela NASA, etc., da crescente desigualdade econômica no país desde a década de 1970, culminando com a volta dos Bush ao poder, do "complexo industrial-militar" e ao seu lacaio neocon Barack Obama - tendo como meio termo o fim da lei Glass-Steagall no mandato de Billy Clinton -, o Império sabe que suas horas estão terminadas e parte para concretizar seus objetivos de guerra total.

A decadência do povo estadunidense do assassinato de Kennedy até a implosão das Torres Gêmeas são o solo propício em que se debatem entre dois serial killers, Obama ou Hilary, e depois entre uma assassina e um psicopata, Trump. Não há solução institucional para os Estados Unidos da América. É quase uma "doutrina utópica" a luta pelo impeachment de Obama e o restabelecimento dos poderes do Executivo, ainda que seja a ação mais sana em toda essa loucura. O que importa, contudo, - e aqui pedimos licença ao dr. Xarada - é a dinâmica que a civilização ocidental vem adquirindo desde mais de dois mil anos. Não assistimos desde a Grécia clássica a ascensão e queda dos impérios no sentido tradicional. É difícil estabelecer os motivos, mas passou a haver sistemas de comunicação entre as antigas potestades. No caso, Roma vira um império grego na cultura, nos modos, ainda que tenha contribuído com suas próprias características, o que manteve o latim uma língua popular por ainda alguns séculos (não falo do latim dos eclesiásticos medievais). Roma se torna, nas palavras do historiador Paul Veyne, o "Império greco-romano": não se pode compreender sua dinâmica sem estudar as duas sociedades em conjunto.

Mas a partir do Renascimento essa dinâmica se mostra de maneira mais clara. Portugal, talvez como Bagdá alguns séculos antes, se torna a capital do mundo. Ben Franklin, George Washington e Hamilton parecem fazer reviver as luzes da Itália em plena sociedade científica e fundam, de fato (o que não conseguiram os italianos na extensão que desejavam), uma república. Existe uma correlação muito interessante entre os antigos reinos da Antiguidade e os Estados-nação atuais. Não caberia aqui levantar as hipóteses sem fundamentá-las de maneira suficiente. O relevante é que, pelo menos desde o Renascimento, vemos os império ascenderem e caírem como sempre (Portugal, Espanha, Itália, França, etc.), terem seus momentos de glória (como também Bagdá), mas depois de seu período de ocaso, manterem sua identidade, seu poder, sua relativa autonomia. É o que os EUA estão se tornando hoje - e já a algum tempo -, a sombra de um poder ultrapassado. Com algumas características peculiares, contudo.

A dinâmica do desenvolvimento da autonomia, da soberania dos povos, nunca foi tão intensa, e hoje é indicada pela sigla BRICS (que por si só possuem mais da metade da população mundial), mas que carrega consigo uma série de outros países, do Oriente Médio, da África, da América do Sul, etc. Não se compara a força dessa dinâmica com a, por exemplo, dos países não-alinhados durante a Guerra Fria, onde o espaço de manobra era muito restrito e os projetos para o futuro ainda menos que embrionários. O planeta conseguiu sobreviver aos presumíveis executores do MAD num primeiro momento. Agora que o conflito parece inevitável, "o lado iluminado do planeta" parece dispor de forças suficientes para enterrar mais uma vez a hidra do nazismo. E é a inevitabilidade do crescimento desse novo renascimento global, capitaneado pela China, o que alarma os atlanticistas. Estes deslancharam a maior crise econômica da história, a maior guerra econômica jamais vista, e entraram com tropas ou não, com "protestos cívicos" geralmente, coloridos, e tentaram sacudir a soberania das nações, e vêem que essa talvez lhes seja a última chance. Por isso enlouquecem a ponto de ameaçar a todos com o Apocalipse.

Quero dizer que as aspirações de guerra total partem do mais profundo desespero da oligarquia financeira internacional de perder de vez seus postos de comando. A Rainha da família dos Guelfos Negros (e que só mudou de nome para Windsor depois da histeria anti-germânica pós-1914) terá que vestir vestes de servente se quiser sobreviver. O sistema financeiro transatlântico está irremediavelmente falido, e por isso procuram a guerra. Não podem controlar  sete ou oito bilhões, quem sabe dez ou quinze bilhões de pessoas num único e só mundo. A guerra será longa, será dura, e terá um nobre objetivo: tirar a dura capa de neomacartismo de todos esses cidadãos, mesmo os 99% de mestiços que compõem meu país. O que se avizinha, o que já chegou em realidade - e todos a estão vivendo em diferentes graus - aqueles períodos chamados de provação coletiva. Se assistirá a um grande jogo cujo resultado final é a continuidade ou não da humanidade como espécie. Mantemos a confiança em alta, a confiança nos incríveis progressos dos últimos vinte e poucos séculos - e agora com a ajuda do milenar oriente - de que um império irá ruir definitivamente, e que nos anos de reconstrução - talvez para essa tarefa o próprio deus Vulcano deverá ser chamado, devido às cargas tóxicas que a Terra fatalmente irá experimentar, junto com a chuva, a chuva constante - poderemos ver um novo renascimento, uma troca de moedas, de valores que regem a relação entre os Estados soberanos, voltados todos para o espaço, para lua, para Marte e além, num progresso que é irremediável caso não sucumbamos ao apelos dos atlanticistas, essa raça milenar que ainda continua a procurar destruir o planeta que os acolheu para sua regeneração. O importante é "Lutar, lutar. Temer jamais", como com muita propriedade reivindicou a torcida mineira do Galo. Afinal, estamos a um minuto da meia-noite.


Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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