Guimarães Rosa e a Nomadologia: Três tempos de uma história (PARTE 1 - A HISTÓRIA DO ROMANCE)

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Créditos a Arlindo Daibert


PARTE 1 - A HISTÓRIA DO ROMANCE


O texto integral pode ser acessado em pdf na Academia.edu ou na Revista Ideias/Unicamp



Utilizando do conceito de “máquina de guerra nômade”, de Gilles Deleuze e Félix Guatarri, analiso de forma sintética, a partir dos movimentos autóctones narrados no “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, as forças exteriores, aquém ou além do Estado, inserido dentro dele ou não, que lutaram consciente ou inconscientemente pela soberania nacional, através de passagens no Império, na República pré-64 e no Brasil dos dias atuais. O romance de Guimarães Rosa é visto como síntese das forças políticas que atuavam no país antes do golpe militar de 1964, mostrando suas raízes no Império e que se desenvolveram até a nossa década, num de seus desdobramentos não-vistos, porque originado nos Sertões (Nonada).




A história do romance

É no Segundo Reinado que se inicia o fortalecimento das instituições nacionais e se estabelece uma ampla consolidação da soberania brasileira dentre todo o seu território. Do início da década de 40 até 1848 foi um período difícil para nosso Estado. Uma imensa fileira de insurrectos em Pernambuco, rebuliço na capital do Império frente ao avanço dos Conservadores, a restauração do Poder Moderador e do Conselho de Estado. Na realidade, a transição para Independência, a instituição da Regência, o fardo da escravidão, entre outros fatores, quase fragmentaram o país em pequenos pedaços. Do Rio Grande ao Maranhão, da Farroupilha à Balaiada, o Brasil agitava-se nas dores extremas do parto.
O governo, procurando assemelhar-se ao parlamentarismo inglês, mas extremamente dependente de uma força capaz de unir interesses tão diversos no país que mal iniciara sua caminhada de nação livre, o poder do imperador se fez valer como nunca antes, poucos anos depois da subida ao trono do ainda jovem monarca. Vale lembrar o decreto de 1847 que criou o cargo de presidente do Conselho de Ministros, equivalendo ao cargo de Primeiro Ministro, cujos membros se alteravam no poder ao desejo do imperador. Contudo, como destacou Boris Fausto:

Na verdade, tratava-se de um sistema flexível que permitia o rodízio dos dois principais partidos no governo, sem maiores traumas. Para quem estivesse na oposição, havia sempre a esperança de ser chamado a governar. Assim, o recurso às armas se tornou desnecessário (FAUSTO, 2009: pp. 180).

A atitude firme do imperador, apesar das enormes dificuldades enfrentadas pelo sistema político do país nascente, garantiu, ainda que sob mãos de ferro, uma relativa alternância de poder entre liberais e conservadores, se bem que ainda longe do modelo que inúmeras vezes os homens públicos brasileiros procuraram imitar das nações consideradas mais evoluídas. Com o Regresso, o qual garantiu a tomada de posse pelo jovem príncipe, o país entrou em ebulição novamente, reeditando o período conturbado da Regência. As revoluções liberais de 1842 agitaram os grandes proprietários da região sudeste, causando um clima de pânico nas esferas próximas ao poder. A Praieira, em 1848, marca o fim das revoltas mais conhecidas, assim como o ciclo revolucionário pernambucano iniciado com a expulsão dos holandeses.
Para prosseguir, quero fazer uma rápida incursão pelo pensamento dos descobridores da América, com o intuito de chegar a um paralelo entre o pensamento e atitudes políticas no Brasil oitocentista (adesistas ou não à monarquia) e o Romantismo no país. Farei uma breve leitura, na verdade um pequeno corte, em “Visão do Paraíso”, de Sérgio Buarque de Holanda.
No início, o que moveu os expedidores europeus à busca de ouro e pedras preciosas na América, fora a ambição natural de cada homem e – por que não? – a alimentando, foi principalmente os mitos e lendas. Estes, originários muitas vezes da Bíblia ou remontando a Antiguidade ou a narrativas orais ou escritas de diversas espécies e origens, eram modificados por cronistas da época ao sabor dos acontecimentos e dos desejos dos homens de então. No caso do Brasil, passaram mais de dois séculos até a confirmação da existência de riquezas em abundância no interior do país.
Mesmo com a descoberta anterior nas terras de Castela a fantasia foi o que moveu aqueles colonos. Tendo os portugueses criado ou não as lendas, foram por elas movidos, pois a confirmação de achados lá não necessariamente presumia os daqui (num mundo onde as distâncias eram tão grandes, a fantasia era quem as reduzia, como no caso das terras peruanas que ficariam às margens do sertão nordestino, segundo o imaginário popular). O ouro espanhol pode ter recrudescido as buscas, mas dificilmente se tornou seu motivo principal.
Caberia aqui perguntar se apenas a procura da Coroa por jóias e ouro, no intuito de enriquecer o reino, ou seja, por motivos meramente políticos e econômicos, seriam capazes de levar tantos e por tão longo tempo a esse objetivo. Se não couber também uma outra, a de que a própria casa real foi ou não embalada nos mesmos sonhos retirados do afã renascentista. Esquecendo os monarcas, fica do mesmo modo passível de comprovação se somente o “ouro do sertão” era a busca daquelas gerações (patrocinadas ou não pelo Reino), ou se as diversas maravilhas edênicas, como a da ilha repleta de amazonas, não foram algo que aqueles homens procuravam realmente encontrar.

A Natureza é, em suma, “o livro da Natureza”, escrito por Deus e, como a Bíblia, encerra sentidos ocultos, além do literal. Até a razão discursiva, feita para uso diário, deixa-se impregnar, não raro, da influência do pensamento mítico, e entre os espíritos mais “realistas” encontram-se as marcas dessa atitude, que traz no bojo um sentimento vivo da simpatia cósmica. (HOLANDA, 2004: pp. 66)

Apesar de Sérgio Buarque não se aprofundar no que diz respeito às crenças dos reinóis, no seu fundamento puramente religioso, não estaria por detrás das visões endêmicas da América o desejo de fundar definitivamente aquele Paraiso Terreal, o Reino de Cristo na Terra? Ao invés de conquistar Jerusalém, sua rota se deslocaria para o Ocidente, onde, navegando por um dos afluentes que provinham diretamente do Éden (Nilo, Ganges; depois São Francisco, Amazonas – como chegaram a pensar os conquistadores e aventureiros), conquistariam definitivamente a cidade santa, instaurando enfim, sob os escudos da coroa lusitana, o reino de glórias prometido por Jesus.
O mito da Cidade Santa teve seu aparecimento com o povo judeu. Buscavam, premidos pelas necessidades inerentes a escravidão, uma cidade de glórias aonde poderiam se tornar soberanos. Com o advento do Cristo, o reino celeste passa a “não ser deste mundo”. Mas a afirmativa segundo a qual nosso planeta nunca irá se transformar num Éden é interrompida pela revelação do “dia do juízo final”.
Na idealização da Colônia do Sacramento, a qual, se nos limitarmos à análise do imaginário social, podemos atribuí-la conotações escatológicas, como a edificação, na realidade, de um “mito das origens” ou a concretização do paraíso terrestre baseando-se na simbologia dos sacramentos eucarísticos. Não houve tal engenho por parte dos portugueses na ocupação do Maranhão ou da Amazônia, de Sergipe ou do Rio Grande do Norte. O Rio da Prata foi o aglutinador das “visões” dos colonizadores, concretizando o ideal numa cidade sagrada que haveria de ser construída em meio às belezas douradas da Eternidade. A “Serra da Prata” igualmente serviu como mito que conduziu Martim Afonso de Souza à colonização do litoral sul do Brasil, porque então dali partiram os conquistadores ao interior, em busca dos cimos dourados.


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O Romantismo foi exatamente a identificação do homem oitocentista com os locais de sua origem. Se antes o mito da cidade sagrada se encontrava fora dos limites da pátria natal, depois esta passou a prevalecer como perspectiva ideal. O que Pedro II encontrou como situação e oposição, todo o multifacetado jogo político a que ele teve de harmonizar, não era nada além das reivindicações da terra a surgirem por todos os lados. É o momento onde o Brasil passa a ter uma população de sedentários, em nítido contraste com a Colônia.
Assim como o Iluminismo precedeu o Romantismo, o Modernismo brasileiro foi o precursor do Regionalismo. O Modernismo foi, na literatura, o último movimento onde se expressaram diretamente as idéias do Iluminismo, nele encerrando sua imensa zona de influência e que teve o regionalismo de Jorge Amado e Guimarães Rosa como seu corolário. Os críticos e teóricos da literatura podem afirmar que GR não pertence exatamente ao movimento regionalista. Diversas vezes procuram colocá-lo como um gênio isolado, avesso às influências exteriores. É certo que sua prosa é única em sua época. Como também pode ser atribuído o mesmo adjetivo a qualquer outro grande escritor do período. Sua singularidade está antes no local de onde é produzida a sua escrita, os sertões mineiros - talvez mais obscuro por ser o contraste da grande Minas dos coronéis, dos políticos ilustres, do ouro e da religiosidade triunfante. Quanto a sua figura imponente de diplomata, poliglota e erudito, nada tradicionalista, “europeu”, os Gerais poderiam nos proporcionar desde a revolta ilustrada chamada Inconfidência e a distinção e inteligência tantas vezes auto-atribuídas por JK ou Tancredo Neves.
As manifestações autóctones do século XX (as que começam, no máximo, na virada deste século), o regionalismo expresso na cultura, primeiro na literatura e depois na música com o fluxo migratório para os centros urbanos, nada mais são do que o corolário do Romantismo do século passado, sua emanação alcançando os rincões do país e de caráter ainda mais popular, sem líderes ilustres ou amoedados a projetar suas aspirações nas lutas populares. O Modernismo foi urbano, paulista, centralizador – dos poetas “iluminados” como os Andrades. Com o regionalismo conhecemos os limites de nossa pátria.


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No que consistiu, finalmente, a luta armada nos sertões mineiros na primeira metade do século XX? Medeiro Vaz, chefe dos jagunços, se desfaz de todos os seus bens, inclusive os sentimentais, ao descaracterizar a sepultura de seus parentes, e reúne um grupo de homens para acabar com a desordem nos Gerais. No romance, o assalto à cidade de São Francisco em 1896 é o relato de que em Minas os grupos armados bastante fortes antes até das primeiras décadas do século XX e do tempo de reinado de Lampião no nordeste. Quando este possuía todo o poder que já lhe atribuíram Medeiro Vaz com suas tropas corria o sertão para moralizá-lo. É nesse sentido que o estado mineiro precedeu o nordeste em relação às milícias rurais. As razões para essa afirmativa pode estar na interiorização mais recente no norte. Com a busca do ouro no centro-oeste os pequenos povoados mais cedo se fortaleceram, preludiando a situação que era, por exemplo, a da Itália no tempo de Maquiavel. De outro modo, devido às plantações costeiras e a produção voltada para o mercado externo, somente mais tarde se interiorizou os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas, etc.
Foi preciso, no nordeste, a entrada da força repressiva oficial para conter o cangaço; em Minas, segundo o relato de Guimarães Rosa, foram os próprios jagunços os responsáveis pela extinção do banditismo. O reinado dos jagunços mineiros não teve todo o esplendor ou causaram todo o choque que as tropas de Lampião e Corisco lançaram no sertão. Mais afastados das zonas produtoras de riquezas do país, no caso a lavoura canavieira – longe também da produção aurífera, há muito extinta –, o declínio da jagunçagem ocorreu perto ou simultaneamente ao período dourado do cangaceirismo.
Os Sertões se dividem em dois grupos, o de Zé Bebelo, que é uma espécie de legalista do sertão, cujo sonho é acabar com a jagunçagem e ir para capital colher os louros de seu feito elegendo-se deputado. Depois voltaria para suas terras e promoveria o bem estar social apoiado pelas tropas do governo e através das finanças do Estado. É como se Zé Bebelo fosse uma espécie de Maquiavel do sertão, aonde somente um príncipe forte e respaldado em plenos poderes pudesse por fim à barbárie daquelas terras sem dono. O grupo encabeçado por Joca Ramiro e Medeiro Vaz, o qual depois da morte de ambos é liderado pelo protagonista, Riobaldo, está mais para John Locke e os contratualistas da época das Luzes. Riobaldo estabelece um governo de consenso entre os sertanejos, respeitando-se as liberdades individuais de cada um em tempos de paz. Se necessária a guerra, arregimentaria tropas, também por consenso geral, pela necessidade de se manter o estado a que todos passaram a gozar depois de sua vitória.

É significativo em relação a essa filosofia as primeiras páginas do romance, onde despontam tiros, mas não de homens. Logo depois, Riobaldo enumera seus companheiros que vivem em terras próximas, alguns que moram em terras distantes, e conta como todos estariam prontos para pegarem em armas – muitos desses são seus antigos companheiros jagunços – caso a desordem tente voltar a reinar no sertão. Também se percebe como todos vivem em relativa paz, livres do banditismo dos últimos anos, e como os mesmo têm, no máximo, uma relação “protocolar” ou “diplomática” com os homens da capital, como é o caso do Doutor, cuja conversa com o ex-jagunço percorre todo o romance. Finalmente, o governo é feito entre o consenso das gentes, dos sertanejos, a despeito de qualquer medida centralizadora implementada pelo Estado.

CONTINUA NA PARTE 2 - O ROMANCE NA HISTÓRIA (COM A BIBLIOGRAFIA COMPLETA)

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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