Guimarães Rosa e a Nomadologia: Três tempos de uma história (PARTE 2 - O ROMANCE NA HISTÓRIA)

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Créditos a Arlindo Daibert


PARTE 2 - O ROMANCE NA HISTÓRIA


O texto integral pode ser acessado em pdf na Academia.edu ou na Revista Ideias/Unicamp

A primeira parte pode ser acessada aqui: PARTE 1 - A HISTÓRIA DO ROMANCE


Segunda parte do texto que entrelaça história, literatura e filosofia, especificamente as relações do Grande Sertão: Veredas e a nomadologia. História que se contrapõe aos cânones clássicos sobre o "jaguncismo", notavelmente a história do grupo de Lampião, e que permitiu, através da literatura, desvendar a montagem de uma máquina de guerra nômade em pleno sertão, com posicionamento geográfico delimitado (não o nordeste da narrativa clássica) e que teve início na virada do século XIX para o XX. Como um romance pode contar tal história? Seria ela real?
Ao contrário da tese clássica de Hobbes segundo a qual o Estado é criado para conjurar a guerra, a nomadologia segue as diretrizes da "sociedade contra o Estado", de Pierre Clastres: Ela só existe na medida em que conjura a existência do Estado, das formas "estriadas" de existência. Deleuze e Guattari invertem também a conhecida tese de Clausewitz, onde a guerra seria a continuidade da política. Na nomadologia, a política é entendida como extensão da atividade guerreira, mas não se limita nem à prática de guerra, tampouco aos usos tradicionais da "política".
Como essa história tem relação com a expulsão dos insurgentes, durante a Independência, pelas tropas mercenárias contratadas por José Bonifácio? Mais ainda, como João Goulart planejou a criação de uma máquina de guerra nômade para tentar fazer reverter o golpe que se avizinhava? Logo, como hipótese de trabalho, podemos perguntar: a máquina de guerra rosiana, a história por ele relatada, teria relação com os movimentos autóctones que começaram a surgir no pré-golpe, como as Ligas Camponesas, ou seja, com movimentos nacionais pela soberania e por independência? Seria o próprio romance "Grande Sertão: Veredas" construído em seu tempo como uma máquina de guerra?





O romance na história

Edward Said, no seu “Cultura e Imperialismo”, fez breve e excelente interpretação do platô “Nomadologia”, que trata exatamente da “máquina de guerra nômade” e seus efeitos em todos os ramos do conhecimento e do poder humanos.

O capítulo intitulado “Traité de nomadologie: La machine de guerre”, baseia-se na obra de Virilo e estende suas idéias sobre o movimento e o espaço num estudo altamente excêntrico de uma máquina de guerra itinerante. Esse tratado profundamente original apresenta uma metáfora sobre uma espécie disciplinada de mobilidade intelectual numa era de institucionalização, arregimentação e cooptação. A máquina de guerra, dizem Deleuze e Guattari, pode ser identificada com os poderes militares do Estado – mas como ele é fundamentalmente uma entidade separada, não é necessário que o seja, da mesma forma que as perambulações nômades do espírito nem sempre precisam ser posta a serviço das instituições. A origem da força da máquina de guerra nômade não está apenas em sua liberdade nômade, mas também em sua metalurgia – que os autores comparam à arte de composição musical –, que forja os materiais, moldados “para além das formas separadas; [essa metalurgia, tal como a música] acentua o desenvolvimento contínuo da própria forma, e para além dos materiais individualmente diferentes, ela acentua a variação contínua dentro da matéria”. Precisão, concretude, continuidade, forma – todas elas possuem os atributos de uma prática nômade cujo poder, diz Virilio, é não agressivo e sim transgressivo. (SAID, 1995: pp. 406 – 407).

Segundo os autores, o Estado possui uma violência que não passa pela guerra, ao contratar policiais e não guerreiros, ou adquire uma força armada, mas que pressupõe uma organização jurídica da guerra e uma organização da função militar. A máquina de guerra não funciona por tratos, mas por traições. “Il serait plutôt comme la multiplicité pure et sans mesure, la meute, irruption de l’éphémère et puissance de la métamorphose” (DELEUZE; GUATARRI, 1980: pp. 435). Hobbes diz ser o Estado contra a guerra e a guerra contra o Estado. Caso não concluirmos que a guerra é um estado natural, ela seria, ao contrário, um modo de estado social que conjura e impede a formação estatal. Segundo Pierre Clastres, a guerra impede as alianças, as trocas comerciais, ou seja, impede o “fator” Estado, impede a fusão de grupos. A partir desse ponto de vista, é impossível enxergar uma continuidade, uma evolução que levaria as sociedades primitivas chegarem à complexidade estatal. As sociedades primitivas e o Estado são pólos distintos e irredutíveis.
Em nossa exposição que se pretende sumária, definiremos de uma vez o que os autores entendem como nomadologia a partir da fórmula que os mesmo usam de Clausewitz, na qual “a guerra é a continuação por outros meios das relações políticas”. É claro que guerra, no texto que ora analisamos, não se reduz aos campos de batalha, sendo toda a disputa cientifica, social, econômica, etc., ou seja, existe toda uma relação que se empregam na relação entre o Estado e os mecanismos que formam seu exterior. A fórmula de Clausewitz não seria uma idéia pura que levaria a um aniquilamento abstrato do adversário. Ela teria a guerra como objetivo e que entretém com a mesma uma “relação sintética potencial ou suplementar”.
Na nona e última proposição do texto, se afirma que “a guerra não necessariamente tem por objeto a batalha, e acima de tudo a máquina de guerra não tem necessariamente por objeto a guerra, apesar de a guerra e a batalha assim resultar necessariamente (sob certas condições)”. Portanto, seria a guerra ela mesma objeto da máquina de guerra? Ela é a invenção dos nômades, por sua essência ser constituída pelo espaço liso, da ocupação desse espaço, do deslocamento para esse espaço e para a correspondente composição dos homens: “c’est là son seul et véritable objet positif (nomos). Faire croîte le désert, la steppe, non pas les dépeupler, bien au contraire” (DELEUZE; GUATARRI, 1980: pp. 519). Se a guerra acontece “necessariamente” é porque a máquina de guerra se choca com o Estado e as cidades, “como as forças (de estriagem) que se opõem ao objeto positivo”. Assim começa a guerra, ao se procurar anular as forças do Estado, ao tentar conseguintemente destruir a “forma-Estado”.
O problema propriamente dito não seria da realização ou não da guerra, mas da apropriação da máquina de guerra nômade pelo Estado. Enquanto aquela possuir um “devir abstrato”, procura perpetuar sua própria forma para além das inibições da estratificação social - como a história do bando de moleques de rua e sua vida livre e carregada de poesia em os “Capitães de Areia”, de Jorge Amado –, este (o Estado) procura se apropriar dos mecanismos fluídos do nomadismo a fim de que ele trabalhe para si, para seus objetivos políticos, os quais consequentemente aparecem como forma de guerra. É interessante o conceito de Deleuze e Guattari sobre a guerra total praticada pelos Estados e sua gênese na apropriação da máquina de guerra:

La question donc moins celle de la réalisation de la guerre que de l’apropriation de la machine de guerre. C’est en même temps que l’appareil d’Etat s’approprie la machine de guerre, la subordonne à des buts “politiques”, et lui donne pour objet direct la guerre. Et c’est une même tendance historique qui entraîne les Etats à évoluer d’un triple point de vue: passer des figures d’encastement à des formes d’appropriation proprement dite, passer de la guerre limitée à la guerre dite totale, et transformer le rapport du but et de l’objet. Or les facteurs qui font de la guerre d’Etat une guerre totale sont étroitement liés au capitalisme: il s’agit de l’investissement du capital constant en matériel, industrie et economie de guerre, et de l’investissement du capital variable en population physique et morale (à la fois comme faisant la guerre, et la subissant). En effect, la guerre totale n’est pas seulement une guerre d’anéantissement, mais surgit lorsque l’anéantissement prend pour “centre” non plus seulement l’armée ennemie, ni l’Etat ennemi, mais la population tout entière et son économie. Que ce double investissement ne puisse se faire que dans les conditions préables de la guerre limitée montre le caractère irrésistible de la tendance capitaliste à développer la guerre totale. Il est donc vvrai que la guerre totale reste subordonée à des  buts politiques d’Etat et réalise seulemnt le maximum des conditions de l’appropriation de la maquine de guerre par l’appareil de’Etat. Mais il est vrai aussi que, lorsque l’objet de la maquine de guerre appropriée devient guerre totale, à ce niveau d’un ensemble de toutes les conditions, l’objet et le but entrent dans ce nouveaux rapports qui peuvent aller jusqu’à la contradiction. D’où l’hésitation de Clausewitz quand il montre tantôt qu’elle à effectuer l’Idée de la guerre inconditionée. En effect, le but reste essentiellement politique et determiné comme tel par l’Etat, mais l’objet même est devenue illimité. On dirait que l’appropriation s’est retournée, ou plutôt que les Etats tendent à relâcher, à reconstituer une immense machine de guerre dont ils ne sont plus que les parties, opposables ou apposées. Cette machine de guerre mondiale, qui “ressort” en quelque sorte des Estats, présent deux figures successives: d’abord celle du fascisme qui fait de la guerre un mouvement illimité qui n’a plus d’autre but lui-même; mais le fascisme n’est qu’une ébauche, et la figure post-fasciste est celle d’une machine de guerre qui prend directement la paix pour objet, comme paix de la Terreur ou de la Survie. La machine de guerre reforme un espace lise qui prétend maintenant contrôler, entourer toute la terre. La guerre totale est elle-même dépassée, vers une forme de paix plus terrificant encore. La machine de guerre a pris sur soi le but, l’ordre mondial, el les Etats ne sont plus que des objets ou des moyens appropriés à cette nouvelle machine. C’est là que la formule de Clausewitz se retourne effectivement; car, pour pouvoir dire que la politique est la continuation de le guerre avec d’autres moyens, il ne suffit pas d’inverser les mots comme si l’on pouvait les prononcer dans un sens ou dans l’autre; il faut suivre le mouvement réel à l’issue duquel les Etats, s’étant appropriés une machine de guerre, et l’ayant approprié à leurs buts, redonnent une machine de guerre qui se charge du but, s’approprie les etats et assume de plus en plus de fonctions politiques (DELEUZE; GUATARRI, 1990: pp. 524 - 525).

A guerra total promovida pelo Estado é, nos dias atuais, a guerra do Afeganistão e do Iraque, os dois exemplos mais notáveis. Sem nenhuma base na realidade, cooptando os meios de comunicação (três ou quatro que são os maiores do mundo e que portanto tem suas notícias ecoadas por todas as partes sem possibilidade, a priori, de maiores averiguações), criam factóides para continuar a construir civilizações à base da rapina. A apropriação da máquina de guerra pelo Estado é a guerra do Paraguai cooptando escravos e os escalões inferiores da sociedade para defender um expansionismo despótico e é também encarnada nos cientistas nazistas, onde cada um fazia uma parte minúscula de uma pesquisa bem mais ampla e que no fim daria como resultado a bomba atômica, muito bem barganhada pelos EUA através dos serviços de Robert Oppenheimer.
A apropriação da máquina de guerra nômade pelo Estado é atestada no caso brasileiro durante a formação da Marinha Imperial. A historiografia acostumou-se a tachar simplesmente de mercenários os capitães ingleses que dominaram as revoltas no Pará, Maranhão e Bahia após a Proclamação da Independência. Um estudo independente dos cânones, feito por Nélio Galsky (sua tese de mestrado), na UFF, vem clarear um pouco as origens de nossa Marinha e, por contraste, a de seu fundador nativo, Tamandaré. Vamos a uma pequena biografia do Almirante Cochraine, antes de se engajar nas lutas brasileiras, escrita por Nélio:

De origem aristocrática, herói das Guerras Napoleônicas, ele se transformaria rapidamente em crítico do almirantado britânico. Depois de acusar alguns superiores de covardia, discutiria a lisura dos tribunais de presas, e principalmente, investiria contra as condições desumanas impostas aos marinheiros. Em uma época em que o recrutamento forçado ainda era a tônica nas Marinhas européias, ele atacaria a falta de alimentação adequada nos navios, de recursos médicos, e a ausência de pensão no caso de incapacidade dos feridos. Suas críticas à corrupção nos altos escalões da Royal Navy o aproximariam dos radicais da política britânica, ao mesmo tempo em que lhe criariam inimizades em vários setores da elite. Eleito para o Parlamento em 1807, ele defenderia várias posturas do jacobinismo inglês, como a ampliação do sufrágio universal. Porém uma questão mostraria os limites do seu radicalismo: a cada vez que um dos seus colegas pedia a retirada das tropas que lutavam na Espanha. Cochrane retirava-se da sala e não participava dos trabalhos parlamentares. Lutar contra a corrupção na Marinha e pela melhoria das condições de vida dos marinheiros era uma coisa, lutar pelo término da guerra, que representaria o fim das possibilidades de apresamento de barcos e cargos, era outra.
Em 1814, foi expulso do Parlamento, em consequência de um escândalo na Bolsa de Valores: um coronel, conhecido de Cochrane, espalhou o boato da morte de Napoleão. A notícia era falsa, mas fez com que houvesse uma alta súbita das ações, beneficiando certo número de investidores, entre os quais estava o próprio Almirante. Embora tenha protestado inocência e atribuído seu envolvimento no escândalo a uma conspiração política dos seus inimigos conservadores, ele perderia todas as suas condecorações e títulos. Após 1818, o Almirante deixaria a Inglaterra e dedicaria a sua energia e coragem à criação e/ou liderança das forças navais do Chile, Peru, Brasil e Grécia (GALSKY, 2006: pp. 16 – 17).

Continuando seu estudo, o autor nos narra que o corso servia como forma de sobrevivência ou uma espécie de fonte de renda dos oficiais da marinha britânica durante a época moderna, já que não se havia instituído no país a racionalização da administração estatal, fruto, entre outros motivos, das guerras napoleônicas, as quais fizeram as monarquias européias aparelharem seus mecanismos de poder com uma força armada forte, numerosa e de alistamento compulsório. A perda da lealdade ao capitão em favor da lealdade ao Estado é o corolário desse movimento, tornando anacrônica a cumplicidade entre os oficiais e seus subordinados provocadora do corso, da “pirataria oficial” realizada até então.
Os meios de coesão entre os integrantes das esquadras britânicas mudam de feição à chegada da burocratização cada vez maior do Estado surgido após as revoltas e revoluções que marcam o fim da Era Moderna. O fim do corso também é conseqüência da introdução dos navios a vapor nas navegações de grande distância e a resistência à profissionalização da Royal Navy pode ser imputada à mentalidade independente dos nascidos na Bretanha, que se outorgavam o direito de servir aos países que falavam mais próximo às suas concepções de deveres de oficial.
Cochrane, depois se sair vencedor nas guerras brasileiras e ao nomeado Marquês do Maranhão, iria enfrentar graves empecilhos para reaver as terras e o dinheiro que achava em seu direito após as conquistas realizadas. Grenfell, o qual mais tarde se tornou o mais prestigiado marinheiro estrangeiro a serviço do Império, por seu lado, além dos problemas relativos às presas (situação quase cotidiana enfrentada por esses comandantes e seus tripulados), foi também protagonista quando ainda possuía 26 anos e comandava a frota de Cochrane na pacificação do Pará de um dos episódios mais obscuros da reconquista das terras brasileiras por eles promovida. Além de ter executado, aparentemente de forma aleatória, cinco revoltosos da situação política no Pará, teve em seu navio uma rebelião de presos cujo final resultou na morte de praticamente todos que lá estavam condicionados, ou seja, mais de duzentas pessoas. Não se sabe ainda hoje com plena certeza como o tumulto se iniciou e muito menos a causa de um desfecho tão trágico. O comandante fez sua defesa, mas levou a fama, apesar de não ter levado a pena (que não conseguiu ser provada) pelo massacre.
Não queremos aqui um julgamento pessoal desse ou daquele herói. A Marinha ou os historiadores dos feitos militares é que carregam a responsabilidade sobre tais discussões. Queremos posicionar as frotas de Lord Cochraine dentro da perspectiva da apropriação da máquina de guerra nômade pelo aparelho de Estado e da grave importância do militarismo frente à desagregação do país promovida principalmente pelas Cortes de Lisboa.
Guattari e Deleuze expõem o aspecto negativo da cooptação de elementos exteriores ao Estado. Invertendo a lógica dos autores franceses e tendo em frente a importância de uma Independência que manteve o Brasil senhor de todos seus territórios, de todas suas riquezas, sem maiores derramamentos de sangue (pois estes existiram e saltam aos olhos de quem os estuda, apesar de relativamente menor do que se as Províncias, instigadas por forças externas, quase todas se insurgissem), poderemos entender o poder nômade capturado pelo Estado como fundamental para a união nacional. Os oficiais britânicos que por aqui passaram, todos eles pertencentes à “velha escola” naval de seus países e como tal relegados a segundo plano, erravam pela América do Sul, ajudando nas guerras de independência de nações ora aqui ora lá.
O aparelho de Estado, no caso brasileiro, admitindo esses guerrilheiros em seus quadros oficiais através da criação por José Bonifácio da Marinha Imperial, promove uma “guerra total” contra as Províncias aliadas a Lisboa desprezando a organização da guerra que cada vez se tornava maior, em grande parte, depois que passaram pelo Velho Continente as tropas arregimentadas pelo gênio militar de Napoleão. O fator surpresa, assim como a mentira pura e descarada (a traição, nas palavras dos teóricos de França), foram os motores desses combates, como na conquista da maior província brasileira, a do Grã-Pará, por Grenfell, um oficial de apenas vinte e três e que chefiara somente uma expedição anteriormente – e de muito menor importância, a de busca e captura de fragatas no litoral da América Central. Chegara com uma carta de Cochraine que o mesmo e sua esquadra estavam realizando uma operação na foz do Amazonas e não tardariam.
A realidade é que Cochraine partira após os sucessos no Maranhão para o Rio de Janeiro a fim de agilizar questões relativas aos apresamentos realizados no norte. Com a bravata, a adesão dos paraenses ao Império de D. Pedro não tardou, apesar dos problemas que surgiram posteriormente, resolvidos ainda sim por um comandante jovem e sem grande habilidade política, mas com indomável coragem.
É interessante nesse momento de nosso trabalho colocar um fator de condicionalidade ao que ocorreu factualmente. Quero problematizar o ocorrido. Cochraine herdou extensas e numerosas terras no Maranhão, assim como boa parte da riqueza lá produzida. O que levou de fato do governo brasileiro, diz o Almirante, foi muito aquém do que se julgava merecedor. Qual seria o destino do lord caso quisesse entrar em guerra franca com as autoridades nacionais, se instalasse no Maranhão com seu poder que fazia temer aos habitantes daquela terra e se tornasse, sem sombra de dúvida, um verdadeiro Marquês do Maranhão (título realmente concedido a ele pelo imperador)? Tal pergunta, claro, só saberíamos com plena certeza caso tal fato se materializasse em nosso horizonte histórico. Por outro lado, não seria difícil prever as dificuldades que iria encontrar o nobre saxão, principalmente se aspirasse a se tornar uma espécie de Gárcia D’Ávila com sua Casa da Torre.
A morte, por que não, poderia ser seu fim. Caso transformasse o temor dos provincianos em amor, talvez tivéssemos um território dividido dentro do conjunto nacional. Um estrangeiro, dado o preconceito e as reservas dos homens da época a esse tipo de elemento com alguma espécie de poder, teria contra si os meios oficiais de repressão e intrigas gigantescas sem maiores esforços poderiam surgir. E o lord deveria tocar mais uma vez os clarins da guerra, só que agora em total contradição com sua luta inicial, a de manter íntegro o Brasil. A fuga, o exílio do Almirante, sem sombra de dúvidas foi a melhor escolha que poderia fazer. Tal figura não viveria pacificamente num Estado que lutava com todas as forças para encontrar sua própria identidade.
A realidade do exílio - voltando ao grande tema que ora estudamos -, a ficção de Guimarães Rosa, qual seria seu corolário na realidade plena, a da vida, tal como vemos até aqui, onde o romance em muito prefigura os acontecimentos nacionais pré-64? Jango, acredito ser a resposta correta. A realidade da máquina de guerra nômade mais uma vez se inverte ao defrontarmo-la com a história brasileira. O conceito de nomadologia se insere não exatamente em grupos que se formam às margens da sociedade ou se desenvolvem como as grandes empresas globais em seu centro, mas que guardam certa independência da regulação dos mecanismos estatais. No caso da república brasileira pré-64 existe um governo cuja representatividade está nos movimentos sociais – incipientes à época se comparados aos de hoje –, fundamentalmente inserido na questão trabalhista, que vai de encontro à tradição do oligopólio dos plantadores de café que sustentaram o Império e financiaram o início de nossa vida republicana.
Jango, com uma aprovação popular de 47 % meses antes do golpe, pode ser considerado um político bem aceito pela sociedade como um todo, devido tanto aos seu pouco tempo na chefia do Estado, como também pela ausência de canais amplos que promovessem seu governo, tal como hoje fazem a mídia partidária da tradição direitista ou como Getúlio fez para se autopromover. Tudo isso excluindo os graves conflitos que o presidente teve de enfrentar devido à tentativa de golpe de Jânio Quadros, gerando um quadro político de grande instabilidade e da insistência das Forças Armadas e das alas conservadoras do país em impedir sua posse como vice-presidente eleito.
A falta de representatividade do presidente, com os movimentos sociais pouco ramificados dentro da sociedade; os conflitos dentro dos mesmos, muitas vezes instigados por agentes exteriores neles infiltrados; a herança conservadora de nossa política desde a colonização pelo elemento português junto à marcha conservadora afim de dar legitimidade ao golpe, levantando a bandeiro de Deus e da Família, minaram as forças da política desenvolvimentista, trabalhista e autóctone que lutava por se implantar em nosso país. Tivemos a posse da presidência pelo vice-presidente eleito feito dentro dos ditames legais, mas o mesmo não obteve êxito em se legitimar como dirigente nacional. Tivemos um caso em que os elementos oriundos dos extratos marginais ao Estado, os trabalhistas, chegaram ao poder. A máquina de guerra nômade se apossou do aparelho de Estado.
Como Cochraine, Jango buscou dominar o Brasil, mas não através das armas. O plano ideal buscado por ele foi o de fazer comícios como o da Central do Brasil por todo o país, e assim conseguir o apoio popular que lhe faltava à época. Percorreria a nação, utilizando de seus poderes como dirigente máximo da pátria, e espalharia, como numa cruzada, as idéias que ele e sua base defendiam, através de um Brasil ainda deveras provinciano, no qual os acontecimentos políticos ocorridos no centro-sul pouco ou nada interessavam ao restante do país. Ao contrário de 64, a mobilização popular nas eleições de 2010 representaram grande avanço na consciência política nacional, contra uma campanha do ódio e do preconceito, os velhos trunfos da velhacaria udenista. Jango não teve tempo nem meios para conquistar o povo como um todo.
Como representante de um poder nômade, alheio às estruturas sedimentadas do conservadorismo político que dava seu golpe máximo naqueles anos, teve por bem evitar a guerra civil e procurar o exílio no Uruguai. As forças que se movem paralelas à sociedade tradicional não necessariamente têm a guerra como objetivo na conquista de seus ideais. Cochraine voltou à Inglaterra; Jango partiu para o Uruguai. O exílio como opção foi a saída justa para não comprometer de maneira irreparável a coesão nacional.
Como Guimarães Rosa resolveu tal conflito entre poderes extremamente opostos em sua ficção? A oposição representada por seu personagem Zé Bebelo, centralista e se preciso cruel, como os príncipes idealizados por Maquiavel, contra a contratualidade entre a população e os líderes jagunços proposta pelo bando iniciado por Medeiro Vaz – o jagunço que busca pacificar o sertão – , é o sinal, na realidade política brasileira, de uma possível união, não perene, mas de conjectura, entre a esquerda e a direita moderadas. Tanto é uma posição de situação que Zé Bebelo é líder dos jagunços enquanto não possuíam um líder de fato. Após a emergência de Riobaldo como chefe, Zé Bebelo volta a Goiás e não mais aparece.
Talvez em nossa realidade institucional pré-64 não houve situações pertinentes para tal união. Após o golpe, sim, apesar da coalizão de forças não ter saído vitoriosa. O fato é que o exílio proposto por Guimarães Rosa não é sua exclusão das relações diretas com o poder estabelecido. Seu diálogo durante todo o romance com a figura do Doutor é exemplo disso. Realmente, não vemos em sua prosa a questão do exílio como tal, mas é concreta sua posição de independência frente aos símbolos considerados sagrados pela sociedade de então. A vitória do jagunço Riobaldo e de seu bando, a pacificação do sertão mineiro com o fim do banditismo, é uma espécie (talvez falando vulgarmente) de “destino manifesto” para as forças populares que chegaram a alguma espécie de poder ou de independência frente ao Estado, através de lutas internas e de acordos mútuos. É a sabedoria de Lord Cochraine em não reivindicar como um todo o que achava legítimo para si após suas conquistas e a sabedoria de João Goulart ao não fomentar a guerra civil e dividir o país, como parece ter havido essa movimentação nos bastidores da política norte-americana a partir do domínio (político e econômico, não militar) do estado de Minas Gerais.
A “máquina de guerra nômade”, o conceito criado pelo psicanalista Félix Guattari e pelo filósofo Gilles Deleuze, não é nada além do que as forças exteriores, as quais vivem paralelamente ao Estado e que em relação a sua órbita transitam em um movimento por este considerado excêntrico. Podem partir como uma Idéia Pura (conceito de Deleuze), ou seja, algo absolutamente desvinculado dos poderes oficiais; ou podem tanto ser cooptados por esses mesmos poderes, mas não com o fim de uma guerra total (o simples dualismo que os autores por vezes insistem em cair) e sim de promover, através dos mecanismos legais, o bem comum. Podem, de outra forma, estar mesmo dentro do centro de poder, porém sem o consenso geral (ausência que pode ter inúmeras causas), se tornando um movimento exterior ao próprio aparelho que administram (o caso de Jango). Não nos esquecendo da guerra sertaneja narrada por Guimarães Rosa, a qual se encaixa melhor na primeira opção, se bem que sem maiores conflitos (a não ser a ida eventual das tropas do governo nos sertões) com o Estado.
O romance de Guimarães Rosa é um “destino manifesto” de nossa independência no sentido em que propõe um contrato civil entre o povo e suas lideranças, quando nos mostra uma união altamente livre e democrática já no início de seu romance ao relatar que, caso houvesse necessidade de guerra, mesmo Riobaldo não sendo o senhor do sertão, teria amplas condições de se reunir a quantos sertanejos fossem necessários para não trazer novamente a desordem para o lugar onde vivem. É a diplomacia do embaixador da causa de Zé Bebelo em seu julgamento pelos jagunços inimigos: quieto, confiante, pacífico e fundamental no desfecho para um sentença justa. É a negociação que prevê imagens edênicas (Diadorim), mas abraça a realidade dada com toda sua beleza (seu casamento com Otacília), não se calcando pelo remorso odiento, fermentador de disputas e conflitos. Acima de tudo, é representação de um povo que através de sua história mais e mais vai tomando consciência de si e de sua integração na comunidade nacional como um todo e que por movimentos independentes dos poderes oficiais reúne-se pelo pacto mútuo para atingir os objetivos prementes que sua situação social lhes sugere.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. “Capitalisme et schizophrénie 2 – Mille plateaux. 1”. Ed. Paris: Éditions de Minuit., 1980.

FAUSTO, Boris. “História do Brasil”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.
GALKY, Nélio. “Mercenários ou libertários: as motivações para o engajamento do Almirante Cochrane e seu grupo nas lutas da independência no Brasil. 2006”. 138 f. Tese (Mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói. 2006.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil”. São Paulo: Brasiliense, 2004.


SAID, Edward W. “Cultura e imperialismo”. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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