O Abertinho ensina: como não ganhar um prêmio literário

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Friedrich von Hayek - os nazis também ganham prêmio (Nobel)

Resolvi concorrer ao luxuoso prêmio - há muito não reeditado - Contos do Rio. Levei um susto quando li as exigências. Se fosse um concurso de poemas seria mais original. É tudo muito curto. A gente pensa no Baudelaire dos spleens. Mas porque são poemas antes que histórias curtas propriamente ditas que sua narrativa sumária em palavras fez sucesso. Tendo em vista a extravagante imaginação dos vencedores do prêmio, logo pensei: não se trata de poemas, de spleens, de melancolia ou determinadas "visões noturnas" baudelairianas. São tentativas de historietas - essa a palavra. Segue nosso conto, que, para quem quer gastar seus milhões, pode encontrá-lo ainda por valor de contrabando no site da Amazon. Aprenda aqui n'O Abertinho como não ganhar um prêmio literário, ainda mais se for dos assim chamados "contos curtos".



Dois noturnos cariocas


Um salão, um vasto espaço em que ao redor se estendiam móveis de cor rubra, cobre. Objetos firmes, cor de sangue e como que dourados. Espaço iluminado por uma luz crepuscular. De um lado a firmeza que parecia se revestir todo o ambiente, de outro esta atmosfera de um brilho difuso, quase encantado. Estaria o fundo em vermelho a se sobrepor a qualquer das coisas que nos rodeavam – móveis de madeira maciça, cadeira de material semelhante e assentos de tecido vermelho, talvez detalhes dourados ou o inverso –, e nada disto existia, apenas um espaço como que em branco. Apenas os dois, espaços noturnos por onde passavam trilhos velhos e distendidos a ranger palavras sobre memórias, choques de natureza quântica em meio ao casebre de teto abaulado, cujo exterior sempre fora de segredo para todos e para qualquer um.
- Quando as chances se acabam?
Natureza terrível pelo simples fato de se submeter ao claustro de perguntas que não a contém, telhados da memória sobre o qual não se vê mais nenhuma casa. No entanto, ela está ali. Se é única, se suas paredes e móveis são tão firmes, se a luz é perene ou se apaga como em cerrações noturnas – nada pode ser respondido. Dois seres noturnos transitando num espaço ignoto, cerrações noturnas a empalidecer a luz da lua enquanto eu peço mais uma cerveja. Quantas chances? Todas aquelas que não se desfazem logo após se firmarem como sorriso. Espaço enluarado, tensão de chuva que não chega, natureza que não se move. Pequenos guarda-sóis como pirulitos da garota que não conheceu o azul. Tetos abaulados, luz difusa, amarelo dourado, rubro, quase como púrpura, como se entre o lilás  e o avermelhado houvesse mais espaço do que entre a avenida larga e as esquinas onde não se encontra ninguém.
Estaria num bar, num bom restaurante, numa rua e um vento fresco, sorriso acompanhado, andanças barrocas pelo Rio sem fim. É quando o cobre vale mais do que o ouro, o rio é mais extenso que o mar, o mármore menos resistente do que o adobe. Entender em termos de “se”, de “chances”, equilíbrio tão insólito é ignorar toda e qualquer natureza noturna. As palavras somente se encaixam rangendo nos trilhos que levam às mais remotas memórias, num choque inexplicável em termos de eletricidade, bruta demais por maltratar a matéria e por vezes ser escandalosamente vista pelos olhos. Trilhos noturnos que atravessam a casa como se esta fosse um espaço aberto, uma bucólica, interiorana, pitoresca estação ferroviária... Mas a verdadeira caça é a que se faz no trem que leva a Éden, no ramal onde podemos nos estender até Japeri: trajeto de sombras no interior dos vagões, clarões acobreados matizando a paisagem, crepúsculo adorado duplamente por ser céu que se dobra sobre si mesmo. O subúrbio afinal nos leva somente ao Éden.
Quero dizer que as casas, casebres, prédios feios, sujos e velhos (nunca altos), ruas tortas (daqui não dá para ver as condições do asfalto, os remelexos e rebuliços de quem viaja pelo interior da terra ignorada), lojas pobres, comércio antigo, talvez fábricas e usinas (nada moderno), nos faz lembrar Éden a exata acepção da palavra, deste tom de cobre que agora se reveste a paisagem translúcida, a casa abaulada que talvez exista somente em sonhos. Cruz e Souza e Lima Barreto, andanças barrocas pelo Rio sem fim, como caçador em meio às serras das minas gerais del Reyno, cabana ocre, jangada indígena, linhas em grafite, menos escritura do que tela. O céu se dobra sobre o céu, retângulo gris, janela aberta, o trem que range. Estamos de fato no Éden, ainda... A locomotiva vai até Japeri. Antes, porém, salto na estação ainda em busca de um jardim... A parede acobreada novamente nos sufoca. Olho para a lua que surge entre as nuvens como se estas traçassem no flanco aberto que desenham a imagem de um rio. Assim, a lua reflete a si mesma num céu visto como que sobre transparências, a claridade difusa se espalha. É como se, na casa, no casebre, nos iluminasse a luz das velas, o dourado, o avermelhado, não a claridade elétrica. A lua reflete-se no rio estelar por onde boia, na casa que se dobra sobre a paisagem ignorada. Na linha que segue do Leme ao Posto Seis, num ponto, numa dobra, naquele lugar que poderia ter sido construído em adobe, os trilhos rangendo por sobre a memória, tomamos mais um chopp.
As mãos dispostas sobre a mesa, quatro mãos que dialogam. A mesa sólida, madeira maciça, tampo de mármore, cor acinzentada. É como se jogassem. Uma espécie de baralho, um tipo de jogo de adivinhações. O olhar se desvia do rosto um do outro, da paisagem que se move lá fora. Concentram-se nos jogos que fazem as mãos, como se as palavras inúmeras procurassem contar sobre os limitados, porém intermináveis gestos. Por sobre o olhar concentrado, se sobrepõe, se agiganta, a paisagem ao redor. Tudo ocre, cobre, adobe. O próprio chopp parece atingido de súbito rubor. É porque procuram e, de fato, querem. Sabem que a poesia na Morada tem sua paisagem. Passagens.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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