Como o homem vê seus deuses

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O homem-deus-besta egípcio e o homem grego representando Hermes e seu filho Dionísio, na escultura de Praxiteles


Na célebre peça de Ésquilo, Prometeu Acorrentado, três visões se dividem: uma em que Prometeu nada mais é do que um traidor, um integrante do grupo dos deuses oligarcas, e que deve ser castigado; na outra, a de um herói revolucionário, apaixonado, de conotações marxistas, e que traz o fogo à Terra; numa terceira visão, não é Prometeu, mas Zeus, o deus oligarca, o personagem trágico da peça.
No escudo de Aquiles, descrito por Homero, também toda uma concepção distinta a respeito da visão do homem de seus deuses e heróis pode ser vista. Como isso molda nossa cultura? A qual espécie de deuses imaginamos servir, em nossas mentes e em nossas atitudes cotidianas como atitudes sempre políticas?




Como o homem vê seus deuses? 

Texto escrito por mim em contraposição, sob inspiração, de texto que traduzi anteriormente e publicado aqui nesse blog, de nome O Princípio Oligárquico, de Aaron Halevy.


A versão em pdf to texto pode ser acessada no Academia.edu

Há um erro comum de leitura, erro decorrente de uma formação cultural imprópria e que nem a retomada dos estudos clássicos no século XIX soube reverter. Pelo contrário, a antropologia britânica e suas buscas pelo hominídeo em muito contribuiu para o afastamento do homem de suas origens. Ainda assim, no Oitocentos se assiste a uma retomada da tradição renascentista somente comparada a realizada junto a tradição antiga durante a época da Renascença. São de lá nossas primeiras revisões históricas da retomada do desenvolvimento político, econômico, cultural, assim como dos albores da ciência moderna, ocorrida há mais de cinco séculos, através dos esforços das facções que lutaram contra as chagas do oligarquismo predominante durante toda a Idade Média.  O erro de leitura que pode ser exposto de maneira simples tem repercussão em toda a gama de estudos que se ocupa da literatura da Antiguidade. Este período histórico, a Antiguidade clássica de origem grega, é considerado praticamente como a gênese única dos posteriores desenvolvimentos artísticos, históricos e literários da humanidade ocidental (à exceção do mundo judaico-cristão), e tem o poder, quando o recolocamos novamente na genealogia de nossa poesia e criação estética, de fraturar muitas das cadeias sempre consideradas como alicerces da literatura contemporânea. Numa das mais inesquecíveis passagens da Ilíada, assim se expressa Heitor:

Cortês e afável,
Não me contes reter: esta alma ferve
Por ajudar os que por mim suspiram.
Ativa Páris, que dos muros dentro
Se me reúna: a despedir-me corro
Da família, da esposa e do filhinho;
Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
Ou se domar-me ordene às mãos Gregos[1].

Prejudicada a cidade pela leviandade de Paris, e não só isso: consternada pela trama dos deuses, particularmente de Zeus, o príncipe oligarca, que, segundo os Cantos Cíprios, intencionou destruir a cidade de Tróia ao jogá-la contra os gregos ou aqueus, grupo que ocupa a região bem depois de estabelecida a cidade troiana. Destruir Tróia e destruir o povo que desordenadamente ocupava a região, comparados aos bárbaros que hoje enxergamos em outros períodos históricos. A guerra com o objetivo de genocídio, engendrada pelos deuses oligarcas, é conhecida na literatura universal pelo menos desde o Mahabharata[2]. E a nós, só por descaso daqueles que controlam a instrução pública, assim como pelos meios insuficientes de reproduzir na mente do aluno o princípio das grandes descobertas, não chegamos a saber das declarações dos oligarcas internacionais que dizem abertamente acalentarem o ideal de reduzir a população dos atuais 7 bilhões de indivíduos para pelo menos 1 bilhão. Assim se expressa a rainha da Inglaterra, representante máxima da velha oligarquia europeia; assim se expressa o príncipe Felipe da Holanda, o mesmo que disse que caso houvesse outras vidas queria nascer como um vírus mortal para matar a maior parte da humanidade[3]. Assim quis Zeus em Cípria:

Existiu um tempo em que as inúmeras tribos de homens, embora amplamente dispersas, oprimiam a superfície do âmago profundo da terra, e Zeus viu isso e teve piedade e no seu largo coração resolveu vazar o grande crescimento do homem na terra, causando o grande conflito da guerra de Ilíon, na qual a carga de mortes poderia aliviar o mundo. E assim os heróis foram assassinados em Tróia, e o plano de Zeus foi cumprido[4].

Aquiles é considerado o grande herói da Ilíada. Por vezes, parece que os comentaristas chegam a fazer gravitar todo o enredo em volta de sua “fúria”, quando Heitor é assassinado, tem seu corpo amarrado ao carro de Aquiles e é arrastado ao redor de toda a cidade de Tróia. Tão grave quanto esta cosmologia hominídea, por meio da qual vêem a tragédia encenada pela poesia clássica como uma terra plana por cujo centro, Aquiles, gravitam todos os astros do firmamento, é o destaque dado a descrições do tipo “escudo de Aquiles”, relês representação do mundo agrário e oligárquico. Cultuam a habilidade de Homero pela descrição pormenorizada do instrumento – nada para quem conseguiu contar com maestria toda uma Ilíada. O “fantástico” escudo que descreve os antigos campônios ébrios nos cultos orgiásticos; a moral de homens governados pelos deuses do Olimpo, cuja justiça quem tem o mérito de tirar vantagem dos despojos deixados por um cadáver; exalta os deuses, Marte e Palas, “ambos de ouro / e de ouro as vestes, cujo brilho e tale / dos humildes mortais os distinguiam”, enquanto soldados cercam pastores alheios à batalha para os roubar e matar. Tudo é feito em tom de festa, com flautas, cítaras e o canto a himeneu que anima as noivas recém saídas do tálamo conjugal e os jovens que dançam e rodam. Combatentes tramam como assaltar um castelo, “dois medonhos leões na frente empolgam [seguram com as garras] / um touro berrador, que a rastos geme”. Como disse o poeta, “Vaga a Discórdia, o Susto; aferra a Parca [deusas do destino, da vida e da morte]”. Os homens trabalham no arado, um menino tange um harmônico alaúde, jovens flertam e o oleiro trabalha. A “ingente força do Oceano rio[5]” é esculpida nas bordas do escudo: ali o deus Vulcano traça o limite que não pode ser ultrapassado pela sociedade rural, feudal, dominada pelos deuses.
Nas páginas que nos sobraram de sua Biblioteca Histórica, Deodoro Sículo narra a história de um povo de cultura transoceânica que se estabeleceu no que hoje chamamos de Estreito de Gibraltar e ao qual os antigos chamavam de Pilar de Hércules. Os berberes, subjugados pela nação estrangeira, aprendem os rudimentos do cultivo do trigo e da uva, enquanto pagam impostos aos seus senhores. A religião que atrelava os berberes aos grilhões da ignorância era aquela do deus Urano, aquele que iniciou as tribos selvagens a convivência em sociedade, o trabalho no campo e a astronomia. Urano teve 45 filhos com as muitas concubinas que o rodeavam. Os bastardos foram chamados de Titãs e herdaram extensos domínios ao longo do mar Mediterrâneo, quase tão extensos quanto o nome que atribuíram à mãe da maioria deles, Terra, ou Gaia para os gregos. Cronos, rei da Sicília, África e Itália, conspirou com sua mãe o assassinato de Urano. Hélio, Atlas e Prometeu, também filhos bastardos e aliados de Cronos, tornaram-se sub-governantes, deuses e semi-deuses, do império comandado pelo parricida. Um dos filhos deste, Zeus, veio a conspirar mais tarde contra seu pai, travando contra ele guerra duríssima. Com a vitória, Zeus foi posto no lugar mais alto do altar de adoração do povo escravizado, e foi chamado deus, governador de toda a Terra. Seu primeiro ato de governo foi mandar prender (seus tios-avôs e tias) para a prisão. Com o caminho livre, pôde iniciar a obra de intrigas e manipulações cujo desfecho foi o genocídio ocorrido em Tróia. Uma longa idade das trevas se estendeu pela Grécia arcaica, datada pelo menos do século XII a.C. (quando desaparece os registros na língua greco-micênica, linear B) até 800 a.C., período a partir do qual voltamos a ter registros históricos.

Zeus se tornou o mais degenerado de sua linhagem e foi mais tirano do que qualquer outro anteriormente. Conhecido por nós através da épica de Homero, Zeus, um Don Juan de proporções antigas, viajou pelo mundo, raptando todas as mulheres em cada vilarejo, cada cidade, cada país, criando toda uma nova raça de bastardos os quais iriam herdar o reinado e mais tarde chamar a si mesmos de deuses, semi-deuses e heróis do povo. Esse “povo” era verdadeiramente a posse animal da classe dos deuses[6].

Com a capitulação aos planos genocidas de Zeus, o povo perdeu seu direito a memória, os resquícios de ciência que ainda dominava, incluindo a linguagem escrita. Sua história só chegou até nós (a história de seu ocaso) pelas miríades de narrativas depois reunidas e sublimadas pelo gênio poético de Homero, indômito ainda que frente ao desconcerto causado pelos conflitantes testemunhos orais. O escudo de Aquiles cumpre sua profecia ao subjugar o povo ao tipo de configuração humana por ele predita. O que pode ser chamado de “anacronismo de Homero”, visto que o escudo só poderia ter sido cunhado daquela maneira com o domínio do trabalho metalúrgico do ferro, técnica desconhecida de um povo considerado na Idade do Bronze. Prova de que não há anacronismo algum é a da fabricação do escudo por Hefesto (ou Vulcano). O deus do fogo e da metalurgia é contemporâneo do golpe de Estado liderado por Zeus, ou seja, do tempo em que a frota de navios dessa linhagem ancorou desde o Atlântico no atual Marrocos, colonizando os berberes na localidade próxima ao estreito de Gibraltar. Vulcano também é contemporâneo de Prometeu, a quem prendeu com grilhões de ferro numa encosta íngreme por ter roubado o fogo dos deuses e trazido aos humanos. Na verdade, não faltava aos homens daquela época o conhecimento da metalurgia, tampouco o da navegação de longo curso. O que faltava era um sistema político capaz de livrá-los do mal da oligarquia que os atava ao mais bárbaro feudalismo. Comparemos o escudo de Aquiles com o canto prometeico:

Se olhavam algo, eles nada viam,
não escutavam nada do que ouviam.
Ao longo de sua vida, embaralhavam
tudo ao acaso, símiles oníricos.
Desconheciam casas de tijolos
sob o sol e o trabalho da madeira.
Como formigas ágeis, sob a terra,
ocupavam o fundo das cavernas.
Nenhum sinal do inverno, da estação
das flores ou das frutas do verão.
Agiam sem pensar até eu mostrar-lhes
o difícil subir, descer, dos astros.
Inventei o prodígio das ciências –
o cálculo – e a combinação das letras,
memória, artífice de tudo, Musa.
Aos arreios e selas atrelei
os animais domados, substituindo
os homens na jornada. Conduzi
cavalos sob o carro. Aceitam rédeas,
ornamento onde impera luxo extremo.
A alguém eles devem naves asas
de linho, que vacilam pelo oceano?
(...)
Alguém obteve antes
de mim o bronze, o ferro, a prata, o ouro,
preciosidades úteis aos humanos,
que até então no solo se escondiam?
Mas a ninguém apraz a fala solta;
por isso sintetizo e me resumo:
o autor da arte humana é Prometeu[7].

Mais à frente me ocuparei sobre o porquê do domínio técnico da metalurgia e da navegação em tempos remotos. A “arqueologia bíblica” contumaz pretende que o homem iniciou sua trajetória evolutiva depois de 4004 a.C. na Mesopotâmia, como que parafraseando cientificamente o mito bíblico da criação. Falo do ser humano como espécie e de sua civilização, porque, por outro lado, acreditam-no derivado de uma espécie degenerada como a dos símios ou a dos pigmeus. A este tipo de antropologia e demais falsas ciências de matriz britânica ou imperial, de um modo geral, para quem o homem foi criado como um animal e que, pior, é um tipo de espécie animal que não deu certo, pois virou homem, ao olharmos para os mais arcaicos estágios de civilização humana, cujo recuo no tempo não se limita ao Egito ou até mesmo à Índia (e cujo recuo no tempo para nós é incontável, podendo chegar aos milhões de anos sem vermos símios ou pigmeus, mas seres humanos), mas ainda mais além, podemos concluir que o homem progride não linearmente de estágios cognitivos mais simples para estágios cognitivos mais complexos[8]. Quando se fala no mito darwiniano do livre-comércio, da competição de todos contra todos numa sociedade de caça e coleta, não se atenta para o fato de que o suposto início da contagem do tempo não teve menos relação com os ciclos agrícolas do que com a observação astronômica.
Os indícios encontrados nos textos mais antigos, assim como nas matrizes dos princípios astronômicos observados nas sociedades arcaicas, nos reportam a um povo que viveu pelo menos há 20.000 a.C. próximo ao polo norte e que com o advento da última era glacial moveu-se ao sul em busca de terras mais propícias à vida, influência que se distribuiu na formação de povos tão díspares como os egípcios, os caldeus, persas e indianos. Os calendários encontrados nas sociedades mais arcaicas, onde o ano era dividido em apenas duas estações, foi antes resultado das medições astronômicas desse povo que até 10.000 anos atrás viveu próximo ao polo norte do que uma necessidade dos ciclos agrícolas, pois nestes um ciclo de duas estações por ano é insuficiente para dar conta da produção da terra. O calendário vai ganhando novas nuances, novas estações, na medida em que há migração em direção às terras mediterrânicas, já bem distante da noção de uma só estação, um longo verão com breve interregno invernal, como encontrada em parte da literatura indiana. Como é sabido, no polo norte há períodos do ano em que o sol nunca se põe, assim como outro em que a noite nunca se detém. São dali as primeiras informações que temos tanto da arte náutica quanto da elaboração dos primeiros calendários, ainda que não da astúcia e do engenho humano que em nada é parecido com os das bestas:

The case reported by Thieme, implicitly dating the existence of human activity in Germany, to as early as 400.000 B.C., is exemplary. In this case, the crucial evidence involves throwing spears found in a site so dated. The design of these spears was based upon principles of design, therefore the product of cognition, rather than animal-like powers, of even human beings, for mere learning. Similarly, the evidence of the controlled and task-oriented use of fire in certain archeological sites, shows the product of human cognition, rather than mere learning. The discovery of datable cave-paitings wich qualify as actual art, rather than crude symbolic images, often demonstrates the antiquity of humanity to prehistoric datings in the order of somewhere between 50,000 and 100,000 years.
The human species, as defined by modern man’s distinction from the beasts, has lived on this planet for perhaps a million years, or even much more. Our species not only lived here already long ago, but did not exactly waste all that intervening prehistoric time. Cultures were developed, and even, no later than tens of thousands of years ago, what we would classify, without exaggeration, as art. Millions of years of solar-orbit-determined glacial cycles, and their effects, have obscured most of the physical traces of human existence deep into pre-historic millennia, but we can infer certain among the incontestable, beneficial effects of the human cultures bequeathed to us from the lost shards of those earlier cultures[9].

O mito de Prometeu, portanto, nos relata o encontro de um povo transoceânico com um povo nômade e aferrado à terra, resquício talvez de alguma civilização mais desenvolvida que teve seu ocaso seja por causas naturais ou humanas, tal como encontramos no povo nômade, selvagem ou semi-selvagem, que sobrevive sem qualquer história até a colonização da Jônia, lugar do provável nascimento de Homero, dos primeiros cientistas antigos chamados de filósofos pré-socráticos, e do início da idade dourada da cultura grega.  Prometeu lhes ensina a construir e comandar as “naves asas de linho, que vacilam pelo oceano”, a metalurgia, o cultivo do solo. Ensino que irá provocar a fúria do rei déspota Zeus, rei agrário, presidente de uma sociedade rural, de um país do terceiro mundo, ou de um império que vive do tráfico e da espoliação, da Guerra do Ópio e do sequestro maciço de bens nacionais e de desindustrialização, como o protagonizado pela medida de hiper-inflação internacional, o Quantitative Easing.
Lyndon LaRouche, captando todas as sendas do conhecimento e reencontrando a navegação transatlântica do capitão Rada e do navegante Maui, saídos do Egito em 232 a.C. com os cálculos e a comprovação da esfericidade da Terra feita pelo cientista e matemático grego Erastóstenes (depois de medir a circunferência planetária no cálculo mais exato antes do Projeto Apollo), escreveu, no bojo desta nova entre tantas outras ainda desconhecidas descobertas fundamentais saídas de sua mente brilhante, um texto fundamental acerca das três visões sobre Prometeu. A primeira delas é a que considera moralmente mais repulsiva, a de que Prometeu quebrou a regra do “clube dos oligarcas” dentro do qual vivia e por isso foi castigado. Ao contrário de Galileu, Prometeu negou a se retratar e teve seus suplícios estendidos e intensificados. De acordo com esta visão, Prometeu é um traidor. A segunda é a que expressa um suposto nobre espírito de revolta contra os maus deuses que oprimem os mais pobres. De acordo com LaRouche, esta visão é a que sugere o solilóquio Prometeu, escrito por Goethe, assim como daqueles que retratam o jovem Karl Marx como uma figura prometeica. A terceira classificação moral, defendida pelo estadista norte-americano e que só veio à sua mente anos após simpatizar com a segunda opção, é a que “define o tirano Zeus, não o herói Prometeu, como a figura trágica do drama[10]”. A opinião dos europeus republicanos contemporâneos de Benjamin Franklin considerava-o um “novo Prometeu”, o apelidando de “centelha divina” (God’s Spark). Segundo LaRouche, essa referência é famosa no An Die Freud, de Friedrich Schiller, e na Nona Sinfonia, de Beethoven. Esta também é a concepção difusamente implícita da imagem de Prometeu na obra de Schiller.
Os horrendos deuses do Egito antigo, bestas em forma de homem, nos remetem, na expressão de LaRouche, a “como os homens vêem seus deuses”. Há uma diferença fundamental entre as antigas estátuas egípcias e a das “crianças gregas”, como o egípcio do Timeu chama Sólon e seus conterrâneos. A ideia de movimento que formam as imagens esculpidas na Grécia clássica nos remete diretamente ao governo dos homens, daqueles que olham no espelho e miram seu potencial de ação junto a seus iguais – são doces e ternas essas imagens –, para além de qualquer submissão a bestas deste ou de outro plano ou planeta. Assim, pode ser dito,

from the vantage-point of Christianity, that, as a matter of general rule, man images his gods according to a conception of the universe which coheres, functionally, with man’s image of himself. As the monstrosities of Mesopotamian theology forewarn us, the image of the gods is not, as a rule, a symbol-minded sophist’s projection of the image of man; it is invariably a reflection of man’s image of the universe within which man dwells as a subject of that which he imagines to be the ruling power. The characteristic mapping of the gods to men, within the Homeric epics, as in contrast to the view of the Classical tragedian Aeschylus, and both in contrast to the view of Plato, underscore the point[11].
                

A inversão da interpretação a partir da qual Zeus, e não Prometeu, é a figura trágica da peça de Ésquilo, nos faz olhar com outros olhos o belo canto VI da Ilíada, para além de qualquer genialidade encontrada em Homero pela descrição do “escudo de Aquiles” ou de suas façanhas de guerreiro semi-divino. Heitor realiza um ato de coragem, ao contrário da hybris aquilina, tida como ponto máximo do poema, e que demonstra nada mais do que o rancor do deus-herói, sua preguiça infinita em colaborar com seus concidadãos, seu orgulho ferido com a morte de Pátroclo, seu escravo e fiel servidor. Heitor realiza um ato de coragem na mesma medida da de Sócrates perante a morte, destemido e fiel a um deus estranho à oligarquia. Igualmente, no Adão, de Michelangelo, o pecador não só é redimido ao contato com o deus, mas a cultura clássica é redimida perante a um outro deus, cristão, porém visto de outro modo que o deus de Tomás de Aquino e das Cruzadas. A própria ideia de república tão cara aos renascentistas é retomada com a ideia de união entre céu e terra, na beleza inapagável representada por esta imagem, onde não há um abismo entre o poder dominante e os seres humanos, na mais genuína proposta de isonomia política, assim como defendida por Maquiavel em seu trabalho sobre os escritos de Tito Lívio. Os “símiles divinos”, na expressão de Homero, estão mais para os deuses da mais remota cultura mesopotâmica que aparecem nas pesquisas de Zecharia Sitchin, híbridos de humanos com os povos que vieram de outros planetas para a Terra. Como filhos dos “deuses guerreiros” do espaço, tinham mais poderes do que os mortais, enquanto seus pais se moviam no espaço ignoto que os antigos gregos chamavam de Olimpo.
A escultura de Praxiteles como forma expressiva de uma cultura avançada, e não degradada, nos informa também uma outra concepção de cultura e conhecimento, bem distante da que venceria depois na Grécia com a vitórias da facção política a que pertencia Isócrates e Aristóteles, e que levaria à morte Alexandre, o Grande. É belo ver Dionísio retratado como uma criança, não só no sentido da arte ser filha do mais perfeito conhecimento, Hermes, mas fundamentalmente porque a beleza, a alegria e o senso de musicalidade e movimento de todas as belas obras artísticas estarem relacionadas à pureza e à sublimidade que encontramos na espontaneidade infantil, mais do que na suposta espontaneidade suscitada por um deus ébrio. O tema do renascimento, do nascimento da criança, de Hermes redivivo em Dionísio, do otimismo cultural que vem renovar os longos séculos de Idade Média, de idade das trevas, vivido pela cultura grega, mas também pela Europa posteriormente, é como o platonismo às avessas. Uma renovação que nos reporta ao platonismo dos primeiros cristãos até a religião arvorar-se em Igreja, absorvendo todas as estruturas imperiais da falida Roma; que nos reporta à mais legítima herança clássica revivida pelo Islã e pela Espanha de Afonso, o Sábio; tudo isso numa outra temporalidade que desembocará no chamado Renascimento Dourado, mediterrânico por excelência, e português no sentido que deu ao mundo a possibilidade dos Descobrimentos. Não mais falamos de Grécia, Roma, Suméria, Babilônia, Índia, Pérsia ou qualquer outra antiga civilização decaída. A partir do Renascimento falamos de nações que ora encontram momentos de maior esplendor, ora menos, mas que pertencem a um mesmo desenvolvimento histórico, espraiando-se pelo Novo Mundo e fazendo como agora, por exemplo, ao renovar a grandeza da antiga civilização chinesa. Renovação que se dá pela incorporação da ciência e da técnica, renovadas no mundo ocidental por Nicolau de Cusa, para quem, já no século XV, nem a Terra nem o sol estavam no centro do universo. À ideia de cosmopolitismo do cardeal, de sua releitura da geometria estudada pela Academia de Platão em confronto com a questão da quadratura do círculo, é que devemos procurar a ideias de integração das diferentes nações do mundo, e não em dogmas de livre-comércio, globalização e demais formas de escravidão retirada do mundo dos oligarcas, do mundo de Zeus.




[1] Homero, Ilíada. Tradução de Odorico Mendes. Campinas, Editora UNICAMP, 2010. Canto VI, p. 249.
[2] A batalha narrada pelos bardos indianos termina com uma cena ao estilo Noite na Taverna, quando o único herói que resta vivo tem que fecundar os mortos para fazer nascer uma nova geração.
[3] A oligarquia europeia foi responsável pela criação, por exemplo, do grupo Inter-Alpha, onde hoje se reúnem as mais importantes instituições financeiras internacionais e que de fato controlam a economia em escala global. O príncipe Felipe é antigo membro da elite nazista e fundador do Fundo para Vida Selvagem (WWF). Creditar aos “verdes” uma política pacífica é o mesmo que acreditar que as famílias europeias, como agrupamento político atuante, desaparecem com a Revolução.  O Inter-Alpha foi criado com a intenção de manter o CommonWealth britânico após a perda das colônias depois da Segunda Guerra Mundial.
[4] Tradução livre do terceiro fragmento dos Cantos Cíprios (ou Cípria) vertido para o inglês por Hugh Evelyn-White.
[5] Todas as citações do canto XVIII da Ilíada são do livro acima referido.
[6] Havely, Aaron, The Oligarchical Principle, tradução feita por mim e publicada no site em português da revista Executive Intelligence Review. Disponível em http://portugues.larouchepub.com
[7] Ésquilo. Prometeu Prisioneiro. Tradução de Trajano Vieira. Três tragédias gregas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 156-7.
[8] Ver o excelente texto publicado por Pierre Beaudry, The First Discoveries of Mankind and the Singularities of the Celestial Dome, em seu site: http://amatterofmind.org/. Lá podemos ver sob quais disfarces os deuses do Olimpo escondem sua aversão ao gênero humano, assim como a gênese do mito do Adão símio dos ambientalistas (p. 12): “There is such a profound hatred of man in that British outlook, that animals are considered more natural, and more valuable, than human beings. There is no doubt, for example, that for Massey, and the same applies to prince Phillip, that his pedigree dog is more valuable than any subject of the British Isles”.
[9] LaRouche, Lyndon. Prometheus and Europe. Executive Intelligence Review, 23 de julho de 1999, p. 64.
[10] LaRouche, 1999, p. 54.
[11] LaRouche, 1999, p. 62.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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