Lula em "pratos limpos" (Investigações sobre a biopolítica II)

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Você sabe quem é o Assassino Econômico?


Por muitos anos tentam incriminar Lula, bani-lo da vida pública. Desde os sequestradores de Abílio Diniz e que foram presos e mostrados aos jornais vestidos com a camisa do PT, passando pelos “aloprados”, pelo “mensalão”, pelo “triplex” do Guarujá, etc. Como de origem pobre, nordestino, bebedor de cachaça, não poderia ser diferente. Quando Foucault escreveu sobre a “sociedade disciplinar” o que estava em jogo era a “guerra das raças”, se criar a lei para benefício de uma elite e assim controlar, normalizar, os “loucos e degenerados”. Com o advento da biopolítica, no pós-guerra, a procura do ordo ou neoliberalismo é criar uma espécie de sociedade civil, sem Estado, onde um marco legal iria regular as relações entre os cidadãos. Não é a intenção desse artigo abrir o  marco histórico onde estas relações puderam mais e mais se efetivar, porém ela fica flagrante depois dos atentados de 11 de setembro, da criação do “ato patriota”, que levou não só a um sistema de vigilância em escala global (como no caso das espionagens relatadas por Edward Snowden, mas também da capacidade de se utilizar indiscriminadamente do instrumento da prisão preventiva (que passou a ser indefinida), e do tipo de acusação política que só a alcunha de “terrorista” poderia pressupor.

O caso é que esse sistema legal, uma sociedade de controle, como bem previu Gilles Deleuze já no final de sua vida, atinge escalas assombrosas com os novos mecanismos legais criados e utilizados com cada vez menos pudor ultimamente. Importados dos EUA, de seu Departamento de Estado, são os novos instrumentos dos Assassinos Econômicos, como nem sequer um dia iria imaginar John Perkins. Esse é o sistema da biopolítica que deixa cada vez mais os pobres com os pratos limpos e com fome. Ao contrário de Lula, que deixou pratos limpos à frente de pessoas saciadas. Quem é o nosso Assassino Econômico?




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Desculpe a expressão, mas a referência é essa mesmo: a Lava-Jato não é Java-Jato, mas Mãos Limpas, mani pulite. Nela podemos ver o genial Sérgio Moro vivenciando seu "momento extraordinário na história contemporânea do Judiciário". O "grande encarceramento" volta à baila, só a prisão dos "loucos e degenerados" pode trazer a sanidade à nação: "Dois anos após, 2.993 mandados de prisão haviam sido expedidos; 6.059 pessoas estavam sob investigação, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros", diz Moro em seu artigo talvez já com sonhos de grandeza. Maravilha!

Os acentos foucaultianos do início desse texto servem também para destacar uma situação histórica: o primeiro "monstro humano" é o rei (não sei se foi o Foucault ou eu que disse isso, mas a ideia vem daí). Isso é um processo que se inicia na Reforma, mas pode ser visto nas tentativas, durante a Revolução Francesa, de dar bases legais à acusação ao rei: como infringir uma pena a quem não fez parte do pacto social? O rei está fora do pacto, como enquadrá-lo? Segue toda uma discussão que, para não sermos acadêmicos como o genial Moro, prefiro ignorar olimpicamente. O marco histórico, mais concretamente, foi a acusação a Maria Antonieta de ser incestuosa. toda uma literatura bizarra foi escrita em cima disso. Você tem no mesmo período o início dos romances de terror. O "Castelo dos Pirineus", ou seja, o castelo como lugar da civilidade, em meio à natureza selvagem (no alto de um penhasco), onde crimes macabros acontecem; tem também o Jack, o Estripador; toda uma literatura popular ou produzida nos meios institucionais para caracterizar o "monstro humano", o que Foucault irá estender também para as "crianças masturbadoras". O que não deixa de ser uma ótima comparação, tudo isso exposto no curso dele intitulado Os Anormais.

Essa tradução da confissão de Mario Chiesa se aplica a Lula ou ao aliado de Moro, o mil vezes recabaçado Eduardo Cunha, o novo Maquiavel agora caído em desgraça? "Em substância, para entender as razões pelas quais eu tive de me expor diretamente no esquema de propina, é necessário entender que eu não me mantinha como presidente de uma organização como Trivulzio simplesmente porque eu era um bom técnico ou um bom administrador da área da saúde, mas também porque de certo modo eu era uma força a ser considerada em Milão, tendo um certo número de votos a minha disposição. Para adquirir o que atingiria no final sete mil votos, eu tive, durante minha carreira política, que sustentar o custo de criar e manter uma organização política que pudesse angariar votos por toda Milão". Ou será que o Thomas Jefferson de Curitiba surfou nas águas do outrora afamado JB? Ainda falta os sociólogos confirmarem essa tese da continuidade democrática ser possível apenas através de corrupção e populismo. Um povo não pode ser minimante maduro. Queria seguir passo a passo o artigo de Moro mas corro o risco de não conseguir chegar ao fim. Desculpe, até me perdi no meio das gargalhadas. Quanta sapiência! Será que ele não daria um bom sociólogo ou historiador, tipo o ilustre que apresenta o jornal da noite?

De um modo geral, a fé do juiz em acabar com os crimes de colarinho branco de forma alguma tem qualquer relação com os objetivos da Lava-Jato, muito menos com o realizado com a mani pulite. Como não tem nada a ver, pelo menos no sentido mais amplo, com a lavagem de dinheiro, se explica o fato (que não deixa de causar estranheza ao juiz no seu artigo) da eleição de Berlusconi. Se a nova criminologia tivesse alguma coisa a ver com dinheiro ilegal, o ex-presidente do Milan não teria sido eleito. É uma operação para desacreditar políticos, e só. Uma caça a incestuosa Antonieta, ao monstro Luís XVI. E acaba por aí. Na Itália - o artigo não é explícito sobre isso, o que é sintomático de sua incompetência generalizada - pode ter havido uma relação com a máfia. De qual máfia se trataria no Brasil? Supostas ligações do PT com as FARC, ou pior, com Cuba? Ou a simples fabulação do "lulo-petismo"? Faz-me rir, de novo. O lugar fundamental do colarinho branco foi a Privataria. Mas "não vem ao caso". O PT montou todo esse maquinário para se perpetuar no poder sem o auxílio de bancos, sem o auxílio de agentes, como Youssef, E esse doleiro entra no jogo no caso Banestado. Se a Mãos Limpas foi para acabar com a corrupção no partido cristão e no comunista, onde a isonomia aqui? São perguntas de ordem geral, mas vamos voltar ao texto.

Mas calma aê, tenho que voltar um pouco. São pontos "fundamentais". Logo no início do texto, o caráter "new age" da conduta morinha: "a) uma conjuntura econômica difícil, aliada aos custos crescentes da corrupção; b) a integração europeia, que abriu os mercados italianos a empresas de outros países europeus, elevando os receios de que os italianos não poderiam, com os custos da corrupção, competir em igualdade de condições com seus novos concorrentes; e c) a queda do “socialismo real”, que levou à deslegitimação de um sistema político corrupto, fundado na oposição entre regimes democráticos e comunistas". O primeiro ponto é sobre o sexo dos anjos e a queda na carne. Nada mais abstrato. No segundo e no terceiro dá para se ver porque ficou tão feliz com a visita do presidente da Anistia Internacional, organismo que também patrocinou a mani pulite. Queria não reivindicar a soltura de presos políticos, as infrações aos direitos humanos, etc. Pelo contrário, criou em série, patrocinou, uma lista imensa de presos políticos e de abusos aos direitos humanos.

A caça às bruxas na Itália acabou por levar diversos prisioneiros ao suicídio (e isso é encarado com certa naturalidade no artigo de Moro, como uma consequência, algo que possa ser sentida à flor da pele como efeitos do que consideram justiça), e promoveu em massa a prisão política porque o objetivo não era sanar o sistema político italiano. Como se com condenações, com o uso puro e simples da penalidade, se pudesse chegar a tanto. O que a Anistia Internacional ajudou a promover na Itália foi, com a derrubada dos partidos políticos tradicionais, a imposição do sistema euro. A eleição de Berlosconi é somente espuma, a parte mais evidente da história. Caberia aqui algumas considerações sobre a união de forças transnacionais para se impor o sistema euro, quais seus objetivos, etc., mas acabaria tendo que abrir um tópico à parte. Mas o euro era algo não visto com bons olhos pela população e precisavam de alguma coisa para legitimá-lo, principalmente a questão das privatizações, um dos objetivos maiores da "operação euro". Na verdade, precisavam retirar as referências tradicionais para se poder impor algo novo. Esse o objetivo maior da mani lipute.

Falar de Berlusconi, colocar "três pontinhos" depois de seu nome, como se fosse uma aporia, quase que um momento trágico, de certa forma necessário ou inevitável, como parece afirmar Moro, não é o que importa. Como dito, Berlusconi é espuma. Mario Draghi dirigiu todo o processo de privatização italiano no pós Mãos Limpas como diretor do Comitê de Privatizações. Em 2 de junho de 1992, Draghi à bordo do iate real Britannia, frente a uma plateia de financistas e especuladores, deu uma palestra como diretor geral do Ministério da Fazenda italiano, onde disse que o maior obstáculo para se criar um mercado financeiro "moderno" na Itália, ou seja, a venda de todo o setor público ao mercado de ações, era o sistema político do país. A Mãos Limpas ao mesmo tempo que dava boas vindas ao euro, dava adeus às empresas públicas nacionais.

A "força tarefa" da mani pulite, composta pelos procuradores milaneses Antonio Di Pietro, Piercamillo Davigo, Gerardo d'Ambrosio e Gherardo Colombo, se engajaram na política, à exceção de Davigo. Este, junto a Colombo, foram membros fundadores da Anistia Internacional na Itália. Ainda que a TI tenha sido fundada nos país apenas em 1997, sua diretora, no mesmo ano, em entrevista ao Il Glornale, disse que os procuradores recebiam documentos diretamente do quarte-general da Transparência Internacional, em Berlim. Nos quadros políticos tradicionais, Antonio Di Pietro se tornou ministro e criou seu próprio partido, enquanto D'Ambrosio e Colombo foram eleitos ao Parlamento pelo Partido Democrático.

O setor político que começou a ganhar voz em meio à caça as bruxas (Giuliano Amato, Carlo Azeglio Ciampi, Lamberto Dini e Romano Prodi) fez o alerta sobre a necessidade de "reformas estruturais", reduzir o déficit orçamentário para 3%, liberalização da economia - tudo isso para atender aos requisitos para se entrar na zona do euro. Segue trecho do memorandum da Executive Intelligence Review, traduzido em português de Portugal:
O setor público inteiro foi privatizado: notavelmente, quase todos os grandes bancos italianos, o setor do aço, o sistema de autoestradas, companhias de seguros, estaleiros navais, parte da companhia petrolífera nacional e da companhia de eletricidade. Isto ajudou a criar uma bolha no mercado bolsista italiano, no contexto da bolha do mercado bolsista global. Em 2000, sete companhias privatizadas capitalizaram mais de um terço da bolsa. 
As famílias italianas, que historicamente tinham investido em certificados de aforro da dívida soberana italiana (a dívida italiana era 100% nacional antes do Mãos Limpas), foram induzidas a mover o seu dinheiro para o mercado bolsista. Como resultado, quando a bolha rebentou em 2001, juntamente com o rebentamento da bolha da nova economia global, essas famílias perderam 216 bilhões de euros. 
Responsáveis por esse desastre foram economistas de "prestígio" tais como Carlo Azeglio Ciampi, o antigo chefe do Banco de Itália, que foi Primeiro-Ministro em 1993-94, Ministro do Tesouro em 1994-99 e Presidente da República em 1999-2006; e Mario Draghi, que dirigiu todo o processo de privatização como chefe do Comité de Privatizações. Ele demitiu-se em 2001 e foi a trabalhar para a Goldman Sachs. Em 2005 Draghi foi nomeado chefe do Banco de Itália e em 2011 foi nomeado presidente do Banco Central Europeu, desde onde ele tem ditado a política económica que tornou a União Europeia na economia mais deprimida do mundo. 
O sistema político italiano não recuperou ainda do golpe Mãos Limpas. A classe política italiana é constituída por amadores e incompetentes que obedecem cegamente a decisões tecnocráticas tomadas em Londres, Bruxelas e Frankfurt. A economia italiana está num estado de grande confusão, tendo perdido um quarto do PIB desde 2008, tendo-se movido da posição de quinta para a de nona maior economia do mundo.
Nenhuma relação com os objetivos econômicos pós-Dilma... É bom lembrar que com toda a caça às bruxas promovida pelos agentes oligárquicos curitibanos não encontram nada que possa incriminar Lula, nem a delação de Marcelo Odebrecht aponta nessa direção. Pelo contrário, acharam, como ficou relativamente bem esclarecido, a OAS envolvida, a partir do condomínio no Guarujá, com a Mossack Fonseca - daí a soltura imediata da empresária que supostamente lavaria dinheiro para a empreiteira e, logo, para Lula, e o posterior envolvimento da mesma firma na construção da "mansão de Parati" da família Marinho. Acharam até o Aécio! E Gilmar novamente negou duas vezes, como fez anteriormente com Dantas. Moro procura Lula e não acha: será que o procura com o mesmo desvelo com que fez com as imorais contas cc-5 do caso Banestado? Será tão bom detetive (mas ele não é juiz???) assim? Lula novamente sai limpo, totalmente. Mesmo com o sistema da crueldade implantado:

A publicidade conferida às investigações teve o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados, o que, como visto, foi de fato tentado. Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios. As prisões, confissões e a publicidade conferida às informações obtidas geraram um círculo virtuoso, consistindo na única explicação possível para a magnitude dos resultados obtidos pela operação mani pulite
Sim, Moro sempre cuidou devidamente da honra das pessoas com seu sistema da crueldade; cuidou do corpo físico também, como no caso das figuras sempre abatidas quando saem em suas fotos, o caso mais emblemático talvez seja o de José Dirceu ou o do herói nacional, o septuagenário almirante Othon. Agora, o sistema de tortura não funciona para quem delata certo, delata petista, delata o Lula. Deve ser muito bom viver numa mansão, ainda que com algumas restrições, mas milhões devidamente guardados no bolso - regalia do sistema de compensações curitibano. Não só Lula, mas até seus advogados saem lisos dessa história - verdadeira vergonha nacional - ainda que sofram com os grampos ilegais e ilegalmente vazados. 

O sistema da crueldade (o sistema punitivo, como Foucault entendia) é exposto no talvez mais belo texto de Nietzsche, sua Terceira Dissertação da Genealogia da Moral. Colocamos aqui alguns enxertos do aforismo 14 de seu texto para caracterizar o homem do ressentimento e da má consciência, "Grosso modo, não é absolutamente o temor ao homem, aquilo cuja diminuição se poderia desejar: pois esse temor obriga fortes a serem fortes, ocasionalmente temíveis - esse mantém em pé o tipo bem logrado do homem. O que é de temer, o que tem efeito mais fatal que qualquer fatalidade, não é o grande temor, mas o grande nojo ao homem, e também a grande compaixão pelo homem. Supondo que esses dois um dia se casassem, inevitavelmente algo de monstruoso viria ao mundo, a 'última vontade' do homem, sua vontade do nada, o niilismo". 

O homem da má consciência, do ressentimento, são os doentes - na perspectiva nietzschiana, os poderosos - os verdadeiros monstros morais. Continua: "Ao menos representar o amor, a justiça, a superioridade, a sabedoria - eis a ambição desses ínfimos, desses enfermos! (...) Eles agora monopolizam inteiramente a virtude, esses fracos e doentes sem cura, quanto a isso não há dúvida: 'nós somente somos os bons, os justos', dizem eles, 'nós somente somos os homines bonae voluntatis [homens de boa vontade]'. Eles rondam entre nós como censuras vivas [o escândalo de até de chegar ao que aproximadamente possa corresponder a uma defesa do "criminoso" lulopetismo], como advertências dirigidas a nós - como se saúde, boa constituição, força, orgulho, sentimento de força fossem em si coisas viciosas, as quais um dia se devesse pagar, e pagar amargamente: oh, como eles mesmos estão no fundo dispostos a fazer pagar, como anseiam a ser carrascos!". Moro se desembaraça de qualquer escrúpulo moral ao enfatizar a importância da "cruzada judiciária", da justiça utilizada como meio de se exercer a vingança. No caso nietzschiano, a cruzada dos doentes contra os são:
Um acontecimento da magnitude da operação mani pulite tem por evidente seus admiradores, mas também seus críticos. É inegável, porém, que constituiu uma das mais exitosas cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa. Esta havia transformado a Itália em, para servirmo-nos de expressão utilizada por Antonio Di Pietro, uma democrazia venduta (“democracia vendida”)

E vendeu, de fato, a partir de Curitiba, nossa democracia. Vendeu para interesses inconfessáveis de todos aqueles que o apoiam. O primeiro delator da história é Moro; delata o nordestino, o pobre, o bebedor de cachaça (nenhuma conta no exterior, Moro! Quanta pobreza esse Lula tem!), para se sagrar herói, efêmero e perverso como seu antecessor de roupas pretas, Barbosa.

A forma de se utilizar da justiça como meio de se exercer a vingança, é um tema foucaultinano e nietzschiano por excelência: "Entre eles encontra-se em abundância os vingativos mascarados de juízes, que permanentemente levam na boca, como baba venenosa, a palavra justiça e andam sempre de lábios em bico, prontos a cuspir em todo aquele que não tenha olhar insatisfeito e siga seu caminho tranquilo". Essas são as "almas belas", não só Moro, mas todos os que se indignam quando não repetimos como robôs os mantras anti-corrupção, todos os versos desse pessimismo quase sublime com que tentam recobrir a esperança natural do povo brasileiro, ainda mais acentuada, exercitada, depois dos governos nacionalistas, de afirmação nacional, do Partido dos Trabalhadores. "Nunca antes na história desse país", e segue o outro mantra, etc. 

Como descrever, portanto, o neomacartismo - essa nova "nobre indignação" - que toma conta de parcela considerável de nossa população? Vamos voltar ao texto do século XIX: "Olhe-se o interior de cada família, de cada corporação, de cada comunidade: em toda parte a luta dos enfermos contra os sãos - uma luta quase sempre silenciosa, com pequenos venenos, com agulhadas, com astúcia mímica de mártir, por vezes também com esse farisaísmo de doente de gestos estrepitosos, que ama mais que tudo encenar a 'nobre indignação'. (...) Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente de subterrânea vingança [ah, os coxinhas...], inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em mascaramentos de vingança, em pretextos para vingança: quando alcançariam realmente o seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? Indubitavelmente, quando lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo que um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos outros: 'é uma vergonha ser feliz" existe muita miséria!'". E assim se tenta inculcar toda a atmosfera derrotista, neocolonialista, viralatista, na mente de boa parte da população. O rancor, o ressentimento, a má consciência tentando se estabelecer, tentando fazer dos sãos pessoas doentes. É o que queremos com este texto: "Ar puto, portanto! Ar puro! E afastamento de todos os hospícios e hospitais da cultura! E portanto boa companhia, nossa companhia! Ou solidão, se tiver de ser! Mas afastamento dos maus odores da degradação interna e da oculta carcoma da doença!... Para que nós, meus amigos, ao menos por algum tempo ainda nos defendamos das duas mais terríveis pragas que podem estar reservadas para nós precisamente - o grande nojo do homem e a grande compaixão pelo homem!...".

Lula na verdade fez o Brasil ver o futuro, quase senti-lo em suas mãos... Sair do mapa da fome da ONU, uma taxa de desemprego que chegou a 4,5% em 2014, toda a questão social tão ressaltada, a soberania quando se trata de política externa. "Nunca antes na história desse país"... Disse o FMI que a Lava-Jato impactou em pelo menos 2% o PIB de 2015. Olha quem diz! As perdas são incontáveis e vai numa espiral cujas consequências não estão somente nos números do economês, mas também na subida ao poder do "governo ilegítimo, interino e provisório", como Dilma sempre destaca. A venda do país de novo nos noticiários, quando os canalhas perderam todo o pudor. Privatização de tudo, até das universidades, defendidas sem qualquer remorso nas manchetes e editoriais dos jornais; aumentos descarados (junto à criação de inúmeros privilégios) ao judiciário, à Polícia Federal; a maluquice da limitação dos gastos da União em saúde e educação; a dilapidação do pré-sal, já iniciada... Tantas loucuras que é impossível numerar (quantos mais podemos falar, loucuras do governo e loucuras dos fascistas espalhados em todos os cantos do país, sempre se utilizando de sua arma favoria, a violência), fora os casos clássicos de corrupção que, como ocorreu com Jucá, se tirou um ministro não foi capaz de retirá-lo das articulações do governo, das propostas de governo, como o "sombra" Moreira Franco, nunca derrubado, sempre "eminência parda". Personagem deplorável agora com ainda mais poder (teve sua cota no governo do PT, caso clássico das exigências quase imorais da democracia de coalizão, da parceria com o PMDB), e que faz lembrar das razões porque o novo túnel no Rio de Janeiro, por debaixo da antiga Perimetral, ter ganho o nome de outro neo-fascista, Marcelo Allencar, responsável pelo desmonte dos CIEPs, anti-brizolista, entreguista clássico como o Moreira acima citado, que infelizmente não tem como sobrenome "da Silva", para lembrar de uma figura iluminada de nossa cultura popular. 

O Brasil do atraso e não o do futuro é o que foi tão bem expresso por Uílian Homer (não sei se pseudônimo), publicado no Conversa Afiada

Notícias do Jornal Manipulacional
- Ex BBB Kleber Bambam confirmado pra acender a pira olímpica devido a sua contribuição ao esporte e cultura.
- Discurso de Temer terá 1 segundo na abertura dos jogos: "Welcome" e será lido por Alexandre Frota em português.
- Vila Olímpica foi construída por empresa que fez a ciclovia do RJ e edifícios Palace, mas prefeitura garante a segurança.
- Coréia do Norte diz que vai bombar nos Jogos Olímpicos.
- Estado Islâmico diz que criar galinhas e jogar paintball melhora desempenho de seus homens bomba.
- Brasil vai crescer 5% no segundo semestre e 15% em 2017. Em 2018 PIB brasileiro deve ultrapassar o da China.
- Feijão ficou caro porque brasileiro passou a comprar mais depois que a crise acabou.
- Automóveis no Brasil são caros por que vem com todos opcionais: quatro rodas, um volante, motor e três pedais, diz cartel das montadoras.
- Brasil descobriu que tinha US$ 370 bilhões em reservas que o PT tinha escondido no cofre do Banco Central em Fortaleza.
- Dilma diz que impeachment foi bom pro Brasil ver que há coisas piores que o governo FHC e que confia no Senado americano pra reverter o Golpe.
- Cunha propõe delação premiada pra entregar todo mundo que o traiu desde que cumpra a pena na Suíça.
- Aécio diz que aeroporto na fazenda do tio é do Lula e que nunca andou de helicóptero na vida.
- Trabalhar 80 horas semanais até os 70 combate o sedentarismo e doenças do coração diz ministro da saúde.
- Temer diz que Marcela se apaixonou por ele devido a suas poesias.
- Economistas são presos por manipular mercados ao afirmar que a crise acabou.
É com você Caju...

Com a nova jornada semanal proposta, as novas regras para a aposentadoria, são um exemplo bem clássico do país do atraso, do passado, em que querem novamente nos jogar. O inferno novamente para os pobres: "Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança", como escrito nas portas do Inferno de Dante. Não mais o Brasil do futuro, aquele que vemos, que quase sentimos em nossas mãos... Sem mais esperanças. Nada. Somente "medidas impopulares", duras, e tão aguardadas pelo governo ilegítimo, interino e provisório. A cara de pau é tão grande que até do programa de governo retiraram a "distribuição de renda", "fortalecimento dos programas sociais" e as "políticas sociais redistributivas". O país do passado, novamente, como cantado na música Pobre Aposentado, de Bezerra da Silva, e que serve para toda classe trabalhadora, na ativa ou aos inativos.


O país do passado novamente. Mas enquanto Moro, em seu artigo de 2007, talvez ainda não esperasse que pudesse tornar real seus sonhos mais íntimos, Lula fazia história, fazia o governo mais bem sucedido de toda história de nosso país. Deixava os brasileiros com os pratos limpos, saciados da fome. Enquanto Moro - ah, Moro! - promoveu a paralisação das obras públicas, a criminalização de qualquer atividade política nacionalista, e se saciou com o ódio criado entre o povo brasileiro. Moro deixou os brasileiros com os pratos limpos, sem nada para comer, sem a esperança sequer de talvez conseguir um trabalho. Depois de quantos anos o pessimismo voltou a nos assolar? Será coincidência que ele aconteceu ao mesmo tempo da entronização do juiz de província como herói nacional? Ainda há muito a se saber sobre as metamorfoses do que uma vez foi chamado de Assassino Econômico.


Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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