Metade da Humanidade Ingressa (?) numa Nova Ordem Econômica Mundial

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Não foi só Putin quem olhou feio para Obama. O presidente Duterte, das Filipinas, também se posicionou frontalmente contra os arbítrios de Obama no Mar da China, onde se encontra estacionada 80% da capacidade nuclear da OTAN. (créditos da montagem para lpac.com)

Não foi só Michel Temer que foi colocado de lado na última reunião do G-20. Em sua última aparição no evento, Barack Obama foi visto andando pelos cantos, sem receber maior receptividade dos convidados. Sem dúvida, Xi Jinping foi a estrela da festa. Apesar do ataque aos BRICS realizado até agora com relativo sucesso na América do Sul (com as perseguições judiciais a Cristina Kirchner e Lula, o ataque aos grandes projetos de desenvolvimento e às empresas nacionais, estatais ou não, o processo de impeachment bem sucedido tanto no Brasil como no Paraguai, e os embustes que levaram Macri à presidência), a China foi a estrela maior do encontro, até por ter sido realizado em seu próprio território.

Obama se mostrou um fracasso total por ter se comprometido com o desarmamento mundial, com o final das guerras promovidas por seu país ao arrepio do direito internacional, por governar um país que dá sinais muito fracos de recuperação econômica e cujo perigo de nova quebra financeira está sempre presente. Um presidente fracassado, humilhado no chamado "combate ao terror" pelas ações da Rússia na Síria, e incapaz de conduzir negociações de paz com os russos na Crimeia e no Oriente Médio, o que nos está levando - se já não estamos - numa ainda mais perigosa Guerra Fria - agora "super-quente" (como analisamos no post Sobre a guerra que se aproxima). Imbecilidade ainda maior dessa guerra quando, na impossibilidade de excluir todos os atletas olímpicos russos do Jogos, exclui toda delegação russa das Paraolimpíadas. Ataques econômicos diretos (sanções econômicas), indiretos (especulação com o preço do petróleo), hostilidades puramente ideológicas baseadas em bases jurídicas frágeis e/ou hipóteses inverossímeis, como na farsa das Olimpíadas, mas também na história ridícula do vazamento dos dados da campanha de Hilary "Orgia" Clinton pela Rússia através de uma suposta conexão com Trump. Os fracos sempre tem que achar um inimigo externo.

Deve-se levar em conta que dentro da estrutura da "nova guerra fria" encontra-se o ataque econômico à Rússia. De um lado, pelas sanções, sempre inexplicáveis num mundo supostamente não mais regidos por ideologias. De outro, a manipulação dos preços do petróleo, que atingem frontalmente os russos, mas também levam ao caos à Venezuela e ao enfraquecimento da Petrobrás, já combalida com os ataques vindos da mídia e de Curitiba. No plano geral, não se vê medidas de envergadura nem nos EUA, nem na Europa, para se combater o declínio e o caos econômico. Nenhum retorno a Roosevelt, por exemplo. O que se teve foram supostas medidas "anti-cíclicas", quantitative-easing, prontas para salvar os bancos "muito grandes para falir", como se disse, desvalorizando o preço do dólar mundo a fora e sobrevalorizando sua entrada nos países com poucos controles cambiais - como o nosso -, o que explica determinadas expirais inflacionárias e movimentos especulativos, como nos preços de imóveis urbanos, mas também no preço de terras.

(Daniel Dantas como agente da City de Londres (ou do City Bank, como quiserem - no geral ou no particular) não só comprou e hiperinflacionou os preços dos imóveis, por exemplo, na rua da Carioca, querendo transformar aquilo numa espécie de shopping a céu aberto e expulsando comerciantes que trabalhavam lá há décadas - e isso é só um exemplo com outros componentes que devemos procurar para explicar de modo satisfatório a alta acelerada dos preços dos imóveis, e não só a "inflação de demanda" supostamente provocada pelo aumento do crédito imobiliário - ainda assim continuou muito caro, longe de padrões ditos "civilizados" - no governo petista. Dantas também virou latifundiário e controla terras no Pará, por exemplo, e faz seus usos comuns de trabalho escravo e sobrevalorização dos preços da terra, como manda seus patrões dos bancos improdutivos, especulativos, a quem serve. Para mais detalhes, leia entrevistas ou artigos de João Pedro Stédile, "amicíssimo" de Dantas. Como se desenharia esse quadro caso identificássemos outros agentes? O projeto para habitação no centro da cidade do Rio de Janeiro - fracassado -, com cotação na bolsa, feita pelo prefeito Eduardo Paes para dar liquidez às obras no Porto Maravilha são outro exemplo, bem documentado nas atas de seu Conselho da Cidade. E no Brasil afora, como se articularam esses agentes, dentro ou fora da esfera estatal, seja por dever ideológico ou de ofício?)

Do outro lado do Atlântico, a Europa fala em "dinheiro-helicóptero" (espécie de emissão monetária avulsa para "combater" a retração econômica), juros em 0%, países extremamente endividados, crise migratória e submissão aos ditames dos EUA, que penalizam diretamente a Europa, como é o caso da coação sofrida pelo continente, da proibição em fazer comércio com os russos. Imbecilidade e idiotice daqueles que dizem que os tempos de ideologia acabaram. Que agora houve um vencedor, que o capitalismo (não sei onde) ajudou a combater a pobreza (terá sido com os Chicago Boys?) e que não podemos mais questionar o final da história fukuyaniano imposto pelos neocons, iniciado nos anos 1980 e cuja primeira grande celebração pública foi a Guerra do Golfo. Tempos de neomacartismo, da construção de formas de pensamento desprezível, tanto expostos com os "ppt" do procurador wi-fi de Deus, ou numa suposta teimosia de Chico Buarque, que talvez devesse fazer como Gabeira e adotar uma postura liberal, reconhecer os erros, etc; ou como o FHC do "esqueçam tudo"; ou, ainda pior, como o poeta defensor do amalucado do Itamaraty, a figura quase digna de compaixão, se não de ojeriza (caso o compararmos com a postura contemporânea de Augusto de Campos), de Ferreira Gullar. O artigo é para dar gargalhas, publicados por um instituto chamado Liberal. Veja aqui.

Com a celebração da China no último encontro do G-20, resolvi publicar um artigo de 2014, traduzido por mim, onde se comemorava o pacto firmado pelos BRICS, formalizando sua aliança e estruturando uma série de medidas para o incremento da economia física de nosso sub-continente. O canal da Nicarágua (já em andamento, e muito superior ao canal do Panamá), a ferrovia Transandina e muitos outros projetos fizeram o autor do texto, diretor do departamento de estudos Ibero-americanos da Executive Intelligence Review, Dennis Small, falar que "metade da humanidade ingressa numa nova ordem econômica mundial". O que estava (está, porque o golpe ainda não terminou seu último capítulo) em jogo é a soberania nacional, o papel de liderança exercida pela Petrobrás na construção de uma sociedade mais justa, articulando sua missão com um amplo projeto de defesa, com caças e submarinos de última geração, além de inovações nativas nas máquinas utilizadas pelo exército. Modelando tudo isso, a parceria BRICS (presente inclusive no primeiro leilão do pré-sal feito no modelo de partilha, com relevante participação chinesa) e seus avançados projetos de infra-estrutura (no caso clássico, já em andamento, da Nova Rota da Seda, como podemos relatar nesse post) discutidos para a América Central e do Sul, como relatados no artigo abaixo.

Como pode o entusiasmo alcançado ainda em 2014, quando o país, inclusive, chegou a níveis ditos "civilizados" de taxa de desemprego (pouco abaixo dos 5%) e que saiu ainda naquele ano do mapa da fome da ONU, etc., ter cedido tão rápido e parecer ter caído numa espiral rumo ao abismo e que ninguém consegue prever seu fim? Há pouquíssimo tempo atrás, quando os "liberais", os paneleiros de plantão e ignorantes e/ou mal intencionados no geral, começavam a falar alguma coisa, frente aos avanços relatados por quem defendia o projeto de poder do PT (esse mesmo que alguns com muito poder chamam - e sempre o fizeram - de criminoso), sendo ou não petista, ou puramente nacionalista, não-entreguista, ou simplesmente tinha alergia a elitismo, os "reaças" tinham de se calar. E se calavam. O que houve que a canalhice em tão pouco tempo proliferou? Será que realmente perdemos? Será que só mesmo em 2018, com ou sem Lula, com ou sem um tucano novamente no poder, elegido por manipulações na justiça eleitoral como se pretende?

Falam muito da "longa noite" de vinte e poucos anos da ditadura militar. Mas, se pensarmos por outro lado, a falência da república oligárquica em 1930 teve à sua frente um governo Vargas, ainda claudicante, mas que foi tomando força até o excelente governo de JK - claro que entre desvios, interrupções, etc. -, e a derrota com o golpe sobre Jango. Aí temos 34 anos de luta franca, aberta, em que o nacionalismo parecia que iria triunfar. Como disse certa vez Darcy Ribeiro, como ministro da Casa Civil de Jango, "a gente achava que a partir dali o Brasil iria dar certo". A nova república não começou propriamente com a mobilização das Diretas Já. Tivemos o longo intervalo do governo Collor, do ainda mais indecente governo FHC, e só começamos a novamente criar políticas soberanas depois de 2003. Em dois, três ou quatro anos não se vai conseguir destruir os anseios sociais que se materializaram depois de tanto tempo. Muito menos o ciclo de ascensão social durará parcos 13 anos. Há muito a se refletir e é sempre bom lembrar que há pouquíssimo tempo atrás ainda vivíamos momentos de grande jubilo e euforia.


O artigo traduzido foi publicado originalmente na página em português da Executive Intelligence Review,


Metade da Humanidade Ingressa numa Nova Ordem Econômica Mundial

Por Dennis Small

22 de julho de 2014 (EIR)—Na metade de julho, com o planeta sendo sacudido pelos horrores da Ucrânia, Iraque, e Gaza, e pela depressão econômica causada pelos estertores de morte do sistema financeiro transatlântico, chefes de Estados representando a metade da humanidade se reuniram no Brasil e deram os primeiros passos rumo a criação de uma Nova Ordem Econômica Mundial.

Os líderes das nações BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), se encontraram em 16 de julho em Fortaleza para a IV Reunião de Cúpula dos BRICS, e no dia seguinte foram recebidos pelos chefes de Estado da América do Sul na capital do país, Brasília. Os BRICS contam com 43% da população mundial e 27% da área terrestre do planeta; quando é adicionada a Ibero-América, juntos representam 48% da raça humana e um terço das terras do planeta (Figura 1).

FIGURA 1
Os BRICS e Ibero-América

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Na Cúpula e nas suas diversas reuniões bilaterais e multilaterais, essa metade da humanidade adotou o projeto que pressupõe a rejeição do atual sistema de cassino financeiro, e o substituiu por um que provê crédito para o desenvolvimento de projetos de alta tecnologia; na educação e treinamento da juventude para lidar com os crescentes desafios do futuro; no respeito pleno à soberania nacional, banindo a política imperial de mudança de regime e guerras; e numa explícita promoção do bem comum entre as nações – o princípio de Westfália.

“A história nos ensina que a lei das selvas não é o caminho para a coexistência humana”, disse o presidente chinês Xi Jinping em 16 de julho. “Cada nação deve obedecer o princípio da igualdade, confiança mútua, o aprendizado recíproco, a cooperação e a procura por benefícios mútuos... para a construção de um mundo harmonioso, de paz sustentável e prosperidade conjunta”.

A Rainha Inglesa não ficou satisfeita com esses desdobramentos, vendo neles uma ameaça existencial para o Império. Lyndon LaRouche ficousatisfeito pela mesma razão. Por 40 anos, o renomado homem de Estado tem idealizado programas e os organizado internacionalmente, como a reforma financeira global e grandes projetos de desenvolvimento – mais recentemente suas “Quatro Novas Leis Para Salvar os EUA Agora!” – precisamente do tipo que agora foi posto na agenda pelos BRICS.

“Os BRICS e seus aliados estão construindo um sistema mundial baseado no valor real, e não nos falsos valores de papel”, disse LaRouche em 18 de julho. “Eles estão decidindo o que é o valor real, e estão impondo isso, que é o custo dos poderes produtivos do trabalho numa situação de mudança”.

O problema subjacente que nós devemos encarar hoje, na elaboração de LaRouche, é a “assimetria do valor no mundo”, que vem de dois diferentes sistemas que estão operando em lógicas distintas e diferentes métricas: Eles são totalmente incompatíveis.

O primeiro sistema é o sistema transatlântico. “Esses bastardos”, disse LaRouche, “que carregam folhas de papel dizendo que valem quadrilhões, e que estão preparados a matar por causa disso”, como mostra o caso da batalha da Argentina contra os fundos abutres, assim como a decisão judicial a favor dos abutres, do idiota aristotélico outrora conhecido como o juiz da Suprema Corte, Antonin Scalia. O que essas pessoas carregam, esses papéis, LaRouche complementa, são absolutamente sem valor. “É como tirar panos de chão de um balde com água suja e tentar vendê-los como roupa nova”; ou ainda pior, é apenas a promessa de entrega futurados derivativos desses trapos que eles dizem ter valor.

Essa é a mão morta do passado tentando impedir a humanidade de criar qualquer futuro por si mesma.

Do outro lado, nós temos um sistema emergente, incompatível com o primeiro, que vem construindo um mercado baseado em valores reais. E valor real, como elaborado por LaRouche, se origina e é medido pelo desenvolvimento dos poderes produtivos do trabalho, ou seja, através da introdução de novas tecnologias criadas cientificamente, efetuando o processo produtivo que aumenta a densidade de fluxo-energético através da economia física de tal maneira que eleva exponencialmente os poderes produtivos do trabalho. Esse novo sistema irá criar um processo pelo qual o aumento da densidade de fluxo energético irá por si mesma crescer numa taxa acelerada.

O domínio sobre o progresso tecnológico e os avanços científicos, especifica LaRouche, é o que a espécie humana faz, de maneira única. Tal criatividade é realmente a fonte de valor na economia e o caminho no qual nossa ação para criar o futuro define o valor presente. Esse é o conceito central do Sistema Americano de Economia Política com o qual se formou os Estados Unidos.

A decisiva questão estratégica hoje, LaRouche, conclui, é se os Estados Unidos vai ingressar nessa Nova Ordem Econômica Mundial emergente ou ficará à sombra do Império Britânico – como está sob o presidente Barack Obama, quem merece um impeachment -- e trazer a destruição sobre si mesmo e ao restante do mundo. O mesmo dilema existencial é enfrentado pela Europa.


Trazendo um Futuro Nuclear

A Cúpula dos BRICS publicou a Declaração de Fortaleza, com 72 pontos, que anunciou a formação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), inicialmente capitalizado em 50 bilhões de dólares, para financiar projetos de infra-estrutura nos BRICS e em outros países; assim como uma reserva de contingência de 100 bilhões de dólares para ajudar os países a lidar com a fuga de capitais e outras formas de guerra financeira.

Muitos comentadores internacionais se engajaram em acrobacias sem fim, dissecando frases da Declaração de Fortaleza e de pronunciamentos na Cúpula, para tentar determinar se essas novas instituições dos BRICS são meros complementos do Fundo Monetário Internacional do Império Britânico e outras instituições, ou se são para substituí-lo com uma nova arquitetura financeira. Mas a resposta para essa questão não reside no escrutínio das palavras escritas ou faladas, mas na intenção por detrás da criação de novas instituições, que é melhor refletida em dois pontos fundamentais que foram ignorados em todas as discussões: o futuro e a juventude, e a energia nuclear.

O primeiro ministro indiano Narenda Modi foi o mais eloqüente quanto a primeira tese, enfatizando para a sessão plenária da Cúpula “a singularidade dos BRICS como instituição internacional. Pela primeira vez, isso traz junto um grupo de nações sob o parâmetro do ‘potencial futuro’, ao invés da prosperidade existente ou das identidades compartilhadas. A própria idéia dos BRICS é, portanto, olhar para frente”. Ele rogou para os BRICS agora irem além de “ser Cúpula-centrista”, propondo que a juventude das nações BRICS tome a liderança na expansão de contatos interpessoais entre suas nações. Ele sugeriu o estabelecimento de um Fórum dos Jovens Cientistas dos BRICS, fundando as escolas de línguas do BRICS “para oferecer treinamento em cada uma de nossas línguas”, e explorando a criação de uma Universidade dos BRICS.

Modi concluiu: “Excelências, nós temos uma oportunidade de definir o futuro – não só de nossos próprios países, mas do mundo inteiro... Eu tomo isso como uma grande responsabilidade”.

O presidente russo Vladimir Putin seguiu o mesmo tom em seus comentários a imprensa em 17 de julho, valorizando os resultados de sua viagem: “Os BRICS são todos jovens Estados e o futuro pertence aos jovens”.

Sobre a questão da energia nuclear, a discussão do assunto e a conclusão de numerosos acordos concretos permearam a Cúpula e as tratativas bilaterais a ela relacionadas, especialmente as do presidente russo Putin e a presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner e a presidente brasileira Dilma Rousseff. Isso, fora o fato de que a Declaração de Fortaleza por si mesma – de muitas formas um “documento de consenso” típico de tais reuniões internacionais – não menciona o tema além da defesa do direito do Irã no desenvolvimento pacífico da energia nuclear.

A medida real de valor na economia, LaRouche enfatizou, é o impacto da ciência e da tecnologia em continuamente aumentar a densidade de fluxo-energético do processo produtivo. Embora a direção científica requerida para a economia mundial seja o desenvolvimento da energia termonuclear de fusão, a atual insistência na fissão nuclear entre os BRICS e países aliados é altamente significante, por refletir o compromisso em elevar a densidade de fluxo energético global da economia.

Bem melhor do que qualquer medida monetária ou baseada no PIB, a densidade de fluxo energético e outros parâmetros da economia física é o que melhor indica a direção seguida pelos BRICS.


FIGURA 2

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A Figura 2 mostra a porcentagem da energia nuclear no total da geração elétrica – que é um indicador geral da densidade de fluxo energético – em alguns países BRICS (Rússia, Índia e Brasil), comparados com representantes dos países europeus (Alemanha e Espanha), olhando tanto para os níveis atuais e os projetados. No caso da Alemanha, por exemplo, a criminosa política verde do Império Britânico de desnuclearização já levou a um drástico colapso das usinas nucleares, de um total de 28% da energia total em 1990 aos 15% atuais. O governo alemão de Angela Merkel tem adotado a política de reduzi-la a zero pelo ano de 2020! A Espanha está quase tão mal quanto.

Compare isso ao que a Rússia tem feito, aumentando a proporção da energia nuclear de 11% em 1990 a 18% em 2013, com um política de aumentar essa proporção para 27% em 2030. Outros países BRICS tem proporções menores de energia nuclear no total de produção energética atual, mas eles estão desafiadoramente comprometidos com um futuro nuclear. O Brasil, por exemplo, planeja aumentar sua matriz nuclear de 3% para 15% em 2030. Como a presidenta Dilma Rousseff declarou um pouco antes do início do encontro: “Nossos países estão entre os maiores do mundo e não podemos ficar contentes, no meio do século XXI, com qualquer tipo de dependência. Os eventos recentes demonstraram que é essencial que nós busquemos por nós mesmos nossa autonomia científica e tecnológica”.

A África do Sul também acabou de anunciar que está retomando seu programa nuclear, com o planejamento da construção de seis novas plantas.

É de notar que a China tem o maior programa de construção de energia nuclear no mundo hoje – uma distinção que na década de 1970 foi para oTenessee Valley Authority (Autoridade do Vale do Tenessee), criado por Roosevelt. De fato, das 66 plantas nucleares em construção mundo afora, 50 delas estão nos países BRICS. Em outras palavras, 43% da população mundial está construindo 75% das plantas nucleares no mundo; ou, a taxa de construção nuclear é maior 4,3 vezes per capita nos BRICS do que no resto do mundo.

A realidade é, com certeza, muito mais dramática do que o indicado pelos simples números apresentados, porque a energia nuclear está sendo resolutamente destruída na maior parte do setor transatlântico (e no Japão), como resultado direto das suicidas políticas verdes do Império Britânico. Os BRICS e seus aliados deixaram claro que não haverá nada disso: Eles pegaram a agenda verde da Rainha Britânica, como refletida na Resolução de Copenhagen, e a jogaram na lata de lixo.

LaRouche tece uma fina observação sobre isso:

“E o que falar de Frau Merkel, da Alemanha?”, perguntou em 18 de julho. Ela representa a mais inútil visão de valor; ela está desmantelando a energia nuclear, destruindo a economia e tornando-a absolutamente sem valor, disse ele. “Qual o valor de suas opiniões? Quase nada”. Os BRICS e a Ibero-América estão construindo um mercado mundial baseado em valores reais, e eles são bem mais produtivos do que os da Europa e Estados Unidos, que insistem em valores estabelecidos por um juiz louco – Scalia, no caso argentino.


Grandes Projetos de Infra-Estrutura

O que também reflete o foco dos BRICS no valor real foi a ênfase colocada sobre a criação de um sistema de crédito para financiar grandes investimentos em infra-estrutura. Dois desses importantes projetos avançaram na Cúpula dos BRICS e ao redor dela.


FIGURA 3

Ponte Terrestre Mundial
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O primeiro foi a ideia de finalizar o sonho centenário de construir uma ferrovia transcontinental que conecte a costa do Pacífico a Atlântica da América do Sul (Figura 3). Isso tomou forma na discussão entre o presidente chinês Xi e o presidente peruano Ollanta Humala, e depois com a presidenta brasileira Dilma Rousseff. Foi alcançado um acordo para que se abra uma licitação para companhias estrangeiras, inclusive chinesas, para participar na construção de um segmento importante do projeto: a rota em forma de “T” no Brasil central, Palmas-Campinorte-Anápolis/Campinorte-Lucas.

FIGURA 4
América do Sul: Ferrovia Transcontinental
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A importância desse segmento dentro do projeto como um todo é claro naFigura 4, um mapa esquemático publicado por primeira vez pela EIR já no ano de 1988. O terminal norte de Palmas fica a um passo do famoso projeto Carajás no meio da floresta amazônica, a maior (e mais pura) reserva de minério de ferro do mundo, que agora é conectada por trilho ao porto atlântico de São Luís. Uma vez construído, o terminal ferroviário de Lucas então estará na metade do caminho entre as costas do Brasil e do Peru, , onde a linha ferroviária projetada poderá se ligar com um ramal peruano que irá atravessar os Andes até Saramirisa – a passagem menos elevada da extensão gigantesca da cordilheira – e daí para um ou mais portos peruanos para o embarque através do oceano Pacífico. Isso irá cortar drasticamente o tempo e o custo do frete do Brasil (e de outros países do Cone sul, como a Argentina) para as potências euro-asiáticas, como China, Índia e Rússia.

Eficiência ainda maior em crescimento e produtividade pode ser alcançada assim que essa Ferrovia Transcontinental Sul Americana estiver em condições para se conectar diretamente por trilho com a Ásia, quando forem construídas as linhas de alta velocidade maglev, abrindo uma rota pela Região do Darién e no Estreito de Bering (Figura 3).

São variadas as possíveis rotas para uma Ferrovia Transcontinental Sul Americana. (Uma em discussão entre China, Brasil e Peru tem como foco São Paulo-Santa Fé do Sul-Cuiabá-Porto Velho-Pucallpa-Saramirisa-Bogotá-Panamá. Outra opção viável é São Paulo-Santa Fé do Sul-Santa Cruz-Desaguadero-Saramirisa-Bogotá-Panamá, que tem sido extensamente estudada) De fato, versões antigas exatamente desse mesmo projeto foram desenhadas pela Comissão Intercontinental de Ferrovias, iniciada pelo secretário de estado estadunidense James Blaine, que empregou engenheiros das Forças Armadas de seu país para examinar e projetar linhas que conectassem os Estados Unidos até a Argentina e o Brasil, apresentando um mapa completo da pretendida rota do projeto ao presidente William McKinley em 1898 (Figura 5). McKinley, ardoroso defensor do Sistema Americano, comemorou os planos de Blaine como o futuro da humanidade em sua fala de 1901 na exposição Pan-Americana em Búfalo – onde McKinley morreu baleado numa operação conduzida pelos britânicos.

FIGURA 5
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Uma parte do mapa, elaborado em 1898 para a Comissão Intercontinental de Ferrovias. Depois do asesinato do presidente McKinley, nenhuma ferrovia ou estrada conectando América do Norte e América do Sul, foi construído até hoje em dia.


FIGURA 6
Canal Interoceânico de Nicaragua
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Outro grande projeto, a construção de um Canal Interoceânico através da Nicarágua (Figura 6) foi anunciado em 9 de julho pelo presidente nicaragüense Daniel Ortega. O robusto projeto ficará a cargo da companhia chinesa HKND, mas o presidente Putin também fez uma escala não programada na Nicarágua a ser feita em 12 de julho, rumo à Cúpula dos BRICS, para oferecer ajuda russa. O canal irá correr 280 quilômetros, da embocadura do rio Brito na costa pacífica do sudeste da Nicarágua, até a embocadura do rio Punta Gorda, no lado do Caribe. Irá incluir dois eclusas, 105 quilômetros deles passando através do Lago da Nicarágua, com um tempo projetado de passagem de 30 horas, de costa a costa, para os 5.100 maiores navios do mundo que poderão utilizar esse canal.

Engenheiros do projeto contam que serão necessários mais de 50.000 operários na sua construção e que, uma vez em operação, gerará mais de 200,000 empregos, incluindo seus sub-projetos (aeroporto, dois portos, centro turístico, etc.).

O presidente Ortega, ao anunciar a rota selecionada, disse que o sistema educacional inteiro está sendo reformulado para produzir os técnicos e engenheiros necessários ao projeto. Ele também mostrou um livro com os estudos de viabilidade para a construção desse canal, produzido pelo governo dos Estados Unidos e adotado pelo Congresso estadunidense 118 anos atrás, em 1896, detalhando os benefícios que o canal trazeria.

Ninguém perdeu o fio da ironia. A China está ativamente envolvida em projetos econômicos com criação massiva de empregos na América Central – o proverbial “quintal” dos Estados Unidos – enquanto o EUA sob Obama tem ajudado a destruir aquela área com sua política de legalização de drogas, acima de décadas da devastação econômica do livre-comércio do Império Britânico. Hoje, um terço da população de El Salvador tem sido forçada a emigrar para os Estados Unidos, numa busca desesperada por meios de sobrevivência; enquanto o desemprego oficial na vizinha Honduras passa agora de 60%.

O mais amplo compromisso no desenvolvimento de infra-estrutura foi firmado no último dos múltiplos encontros históricos realizados em Brasília no meio de julho, aqueles dos chefes de Estado e representantes especiais da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que se encontraram com o presidente Xi e os líderes dos Estados da Unasul em 17 de julho. Sua declaração conjunta enfatizou a “importante oportunidade para o desenvolvimento mútuo” existente, anunciando “o estabelecimento de uma ampla parceria da igualdade, benefício mútuo e o desenvolvimento comum entre China, América Latina e o Caribe”.


O Novo Banco de Desenvolvimento

É uma questão elementar o fato de que o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Acordo de Reservas de Contingência (ARC) são as sementes de uma arquitetura financeira internacional totalmente nova – ainda que uma grandiosa batalha política esteja à frente para que essa política entre em vigor, contra as violentas objeções da City de Londres e Wall Street, incluindo seus agentes dentro de alguns dos países BRICS. O documento fundador do NBD cautelosamente toca na idéia de que o NBD e ARC tem o significado apenas de instituições “complementares” às existentes, como o FMI; mas os princípios sob os quais foram fundados não só contradizem os do FMI, como mutuamente eles se excluem.

Ainda mais relevante, o NBD fica claramente preparado a emprestar dinheiro para o desenvolvimento real, sem as odiosas condições de austeridade e as políticas ambientalistas associadas ao FMI e ao Banco Mundial. Por exemplo, a declaração conjunta entre CELAC e a China contém uma ruptura radical com as condicionalidades do FMI e do Banco Mundial, convocando “para o bom uso das concessões dos empréstimos concedidos pela China, de acordo com as necessidades e prioridades dos países beneficiários (...). Nós reiteramos a importância da construção e modernização da infra-estrutura”.

A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, que teve um comportamento de destaque (depois de sua anfitriã, Dilma Rousseff) na Cúpula Unasul-BRICS, deu a mais clara declaração para uma nova ordem financeira mundial: “Nós, senhores, estamos propondo então uma nova ordem financeira global, uma que não seja apenas justa e equitativa, mas indispensável (...). O que nós pedimos ao mundo é, objetivamente, a criação de uma nova ordem financeira global que irá permitir o crescimento econômico global e sustentável (...). Assim, o apelo a todas as nações é para que se unam forças nessa cruzada real para uma nova organização política, econômica e financeira global que terá consequências sociais, políticas, econômicas e culturais positivas para todas nossas nações”.

O presidente russo Vladimir Putin – que, como a presidenta da Argentina, não é estranho ao fato de ser alvo de guerras econômicas – apresentou uma proposta complementária: “As nações BRICS devem cooperar de maneira mais estreita no mercado de commodities. Nós temos uma base de recursos única: nossas nações detém de 30 a 50% das reservas globais de recursos variados. Portanto, creditamos que é imperativo desenvolver a cooperação em mineração e processamento, e organizar um centro para treinar especialistas das indústrias de metais das nações BRICS”.

Tal acordo irá desfazer o estrangulamento das commodities mundiais pelo Império Britânico e sua habilidade em especular com o sustento e a própria existência das nações.

Para esses propósitos serem viáveis, o NBD e o ARC devem funcionar com uma parede corta-fogo contra o canceroso sistema do dólar. É digno de nota que o NBD é autorizado tanto para receber no futuro capitalização adicional em moedas que não sejam o dólar, assim como conceder empréstimos aos BRICS e outras nações fora do dólar.

Uma vez que esses três, quatro ou mais países estiverem envolvidos em grandes projetos que recebam esses empréstimos fora do dólar, de fato uma nova moeda terá sido criada, a partir da qual entre as nações participantes taxas fixas de câmbio poderão ser seguidas. Esse novo passo por si só irá trazer instantaneamente um retorno ao sistema de Bretton Woods anterior a 1971, de taxas fixas (previsíveis) de troca, solapando com uma canetada trilhões de dólares em especulação em contratos de moedas a prazo.

Mas, para o NBD realmente estar apto a cumprir sua tarefa de reconstrução global, os Estados Unidos deve se tornar parceiro integral em sua capitalização e funcionamento, como peça central de um sistema global de crédito hamiltoniano, do tipo especificado por LaRouche em suasQuatro Leis. O “dólar” atual, que não é mais a moeda soberana dos Estados Unidos, sendo, pelo contrário, um instrumento de apostas supra-nacionais sob o controle do Império Britânico, também deve retornar ao seu papel adequado, como os “greenbacks” emitidos pelo Tesouro.

Resumindo, a questão estratégica central colocada em meados de julho na Cúpula dos BRICS é: Quando será que os Estados Unidos irá se livrar do presidente Obama e retornar às políticas do Sistema Americano no qual foi fundado, e no qual a metade da humanidade, liderada pelos BRICS, está agora implementando?

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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