Adolfo Hoffman – São Paulo, 1986 (do dicionário de caracteres de Roberto Bolãno)

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Em tempos sombrios não tem como não relembrar de textos antigos, quando já víamos a literatura de contra-insurgência se multiplicar por todas as partes, e seu maior foco intelectual, a cidade de São Paulo. O pensamento se entortou tanto de não mais de dois anos para cá (Sérgio Moro e seu aparato midiático-judiciário é o catalizador desse fenômeno) que se chega a culpar os "pobres de direita". É igual quando se trabalha numa escola e vemos a constante reclamação por parte dos professores e seus superiores a respeito dos alunos. O colégio, um caos; os professores, meu Deus!, mais vítimas de todo um processo de degradação do que propriamente ignaros contumazes, como é o caso de nosso Adolfo Hoffman, legítimo personagem da literatura fantástica borgiana, transfigurada por Roberto Bolaño em seu dicionário de caracteres La literatura nazi en América. Não falo aqui de setores à direita, como se diz, e seu pensamento bestial tão facilmente derrotável, ainda que sua raiva, ódio e rancor, não. Como já publicamos aqui sobre o Caga-Regra, ou sobre Marina Silva (outra "progressista" desmascarada, com um partido agora em ruínas), os utopistas de plantão da chamada "esquerda limpinha", refugos do cano de esgoto colocado para jorrar em plena avenida com matéria-prima midiática (o caso do "mensalão), ou até - não se deve esquecer - do até pouco tempo atrás "tucano moderado", mais à esquerda, Jose Serra, em franca decrepitude, a literatura nazi não segue o esquema da reunião dos Estados Gerais na França pré-revolucionária. Na verdade, tudo isso é um bolo bem indistinto, com figuras se aglomerando na esquerda ou na direita, como foi no caso dos Estados Gerais. Esquerda e direita não servem para determinar o verdadeiro patriotismo, se bem que tucanos e pflistas, de tão degenerados de sua toca à extrema direita (ou seja, a carapuça sempre lhes server, a não ser no caso do ex-ministro tucano e agora Clark Kent nacional, Ciro Gomes) ou que não tenhamos Montanheses a levar a república - e já levaram - invariavelmente ao Terror.

O texto que segue é uma homenagem a Roberto Bolaño, mas também ao inesquecível arquétipo construído por Borges, Pierre Menard, que foi a inspiração do escritor chileno ao escrever seu dicionário de caracteres. No ano de 2009, quando escrito esse texto, não imaginava a densidade do nazismo em nosso mais decadente estado da federação, tampouco que Hoffman iria fazer tanto sucesso, à esquerda ou à direita. Tempos sombrios, tempos de ideologias de conflito por se ampararem em purezas dadas a priori ou sobre discursos; tempos de neomacartismo, terrorismo e ameaça de guerra termonuclear; tempo de proliferação dos caracteres escritos por Bolaño, de hegemonia de Pierre Menard: as potências do falso.

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Adolfo Hoffman – São Paulo, 1986.
Do dicionário de caracteres de Roberto Bolãno


Por si, só gosta de ouvir histórias. Nada faz, tampouco se presta a algo. Gordo desde a infância, foi um aficionado por histórias em quadrinhos, monstros e super-heróis. De espada na mão era sempre o herói, e invencível. Com o passar do tempo foi se tornando resolutamente gordo e bonachão. Era o rei das piadas fáceis e da picardia. As espinhas que entravam em guerra para encontrar um espaço em seu rosto branco como neve, caracterizavam finalmente tal criatura. Relativamente alto para sua idade, já na adolescência se fazia notar por certa alegria, fruto de um entranhado sadismo, e pela crueldade, fruto de um conhecimento nato da estupidez humana.
Parecia querer exteriorizar em quem quer que seja o que há de tosco através de suas piadas de gosto duvidoso; quando contrariado, gostava de mostrar pela força o quão estúpido era esse outro alguém, sem economizar nos ataques a massa desproporcional de seu corpo. Por um lado, se fazia solitário; por outro, temido. Tinha um certo número de seguidores já no colégio, cujo respeito era devido a um não ignorado ar enigmático que parecia aureolá-lo.
Não por outro motivo gostava de histórias, em torno delas tecendo todo seu mistério. Os outros eram literalmente jocosos quando expostos em seus relatos, quando não sujos ou vergonhosos. Delas se alimentava, como o filósofo ou o peregrino na mais pura fonte de contentamento espiritual. Só que sua vida era como um círculo, indo do tosco ao abjeto, e daí para o inacreditável. Repelia as pessoas que viviam ao seu redor, mas precisava freneticamente delas para viver, pois delas sugava todo seu conhecimento e para elas transbordava sua insensatez.
No comum do dia-a-dia parecia um garoto normal, com problemas com a balança e vício de video-game e de biscoitos. Um puro alienado, que as pessoas gostam indiferentemente, sem prestar maior atenção. Seu micro mundo imundo fazia parte de sua epopéia particular. Para quem lhe era imediatamente exterior parecia até um garoto esperto e espirituoso. O que lhe interessava sempre é que lhe contassem histórias.
Sua cabeça parecia se erguer no topo daquelas torres construídas encima de prédios altos, qual antena de tv superdimensionada. Sem luz própria, de quando em quando ao seu redor saem fagulhas da corrente elétrica que percorre sua cabeça e corpo. Talvez por sua onipotência e seus raios fugazes, por lhe conferirem uma áurea de radioatividade – força ainda não suficientemente conhecida – parece ser a guardiã de sua cidade, na qual se exilou irremediavelmente qualquer beleza natural. A cabeça redonda guardando a torre ou a torre sendo o corpo que a sustenta, esse sim o sonho final do gordo Adolfo.
Por incrível que pareça escreve livros. Sem cultura letrada nenhuma, mas de posse de dezenas de histórias de literatos e de seus seguidores, escreveu uma incrível História da literatura e da contra-insurgência brasileira, na qual desfilavam poetas de pendores simbolistas afundando-se em bordéis, a intelectualidade pseudo politizada destilando veneno dentro de suas gravatinhas que agora são bermudas e chinelinhos, o poeta boêmio e com fama de conquistador vivendo sua tragédia pessoal na noite interminável, patricinhas libertárias perdendo toda a poesia e acreditando ter encontrado finalmente sua verve artística. Enfim, tudo o que há de mediano e que parece ser a nova inteligência brasileira.
Lógico que seu livro ganhou status dentro da academia, a qual com sua perspicácia conseguiu superar todas as etapas sem maiores dificuldades até ser um afamado aluno de pós-graduação. Pseudo-cientista, leitor de Borges às avessas (pois este se contentava com resumos ou notas de livros, claro que todos imaginados), também lia resumos e usava toda sua imaginação nas provas. Fundou uma revista acadêmica virtual de análise do jornalismo e de poesia, usando o primeiro para exercitar sua imaginação capciosa e a segunda para comprovar a indigência que tanto proclamava com ares cândidos. Portanto, seguia-o poetas e aspirantes como a mirar num espelho sempre almejado, sem reparar como suas criações eram cuidadosamente editorializadas para indiretamente comprovar suas teses sobre a mediocridade do meio intelectual. Para cada poesia insalubre, um correlato no jornalismo de plantão.
Pensando no mesmo, organizou uma coletânea de prosas acadêmicas, onde os jovens libertários descarregavam todo seu pendor autobiográfico e pouco imaginativo em relatos tão chocantes como duvidosos. Dizia, não destituído de ironia, ser aquelas histórias o mais fiel retrato ficcional de como era feito o considerado bom ou excelente jornalismo dos dias atuais. Dizia até que tal era a fidelidade dos autores às suas biografias e tamanha a imaginação dos publicistas, que pareciam estes os inspirados pelas Musas e aqueles os lídimos redatores do cotidiano.
Foi estrondoso o sucesso de seu Prosas seletas: literatura e marginalidade. Dividido entre um convite para trabalhar na redação de um famoso jornal e a admissão no curso de doutorado de sua universidade, os que o liam e todos aqueles que somente respiravam sua áurea de puro mistério e hilaridade, diziam que mesmo sem publicar mais nada, quando se tornasse mais velho poderia ingressar triunfalmente na ABL. De livros a velha academia não precisa, diziam seus admiradores. Se não de quantidade, muito menos de qualidade, pois o Adolfo a tem de sobra. Além do mais têm um sobrenome excelente – não era um simples Silva, Pereira, ou coisa que o valha. Tinha um sobrenome de Clássico, como gostam nossos imortais.
Realmente, nada fazia e continuava a nada prestar. Não descobriu a roda tampouco aprendeu a estudar. Passou simplesmente a contar suas histórias da mesma maneira de quando era adolescente, só que agora as escrevendo e com o aval acadêmico. Publicou seus dois livros na editora da faculdade que fazia parte, ganhando ainda mais sucesso entre os seus. Notório escriba de artigos, citava autores como quem cita amigos numa conversa com outros amigos. Destes sabia tão pouco como dos livros, mas por ser um colecionador de casos incansável, recendia erudição. Com a maturidade, trocou os socos e pontapés por uma ironia que se fazia tão cândida que beirava a ternura. Conquistador nato, angariou um grupo numeroso de seguidores. Seu olhar esperto ora parecia como de alguém desalentado. O brilho dos olhos de próximo e vivaz, soube se tornar longe e fugidio, porém sempre a raiar. Sua inteligência era farol imprevisível, a todos fascinando com sua meia bruma. Olhar de peixe morto, alguns diriam. No entanto, às vezes se fazia de uma claridade notável para logo em seguida cair na mais completa escuridão. Era quando dava sua deixa, sua ironia, para logo voltar ao olhar de múmia mal embalsamada. Poderia renascer a qualquer hora, o mistério por todos esperado.

Sua vida sentimental não é clara para quem o conhece. Relativamente esperto, sempre aparentando inteligência, nunca foi visto com alguém que irrefutavelmente seria sua namorada ou coisa que o valha. Embora não se costume duvidar de sua sexualidade, parece com aqueles atores ou apresentadores gordos que à primeira vista parecem celibatários. Não demonstra pudores nesses assuntos, já se declarou inclusive adepto fervoroso da pornografia virtual. Mas, de fato, com alguém, talvez só os amigos mais próximos tenham visto ou saibam de alguma coisa. Deve ser curioso escrever sobre a vida sexual de um tipo assim, o qual sempre demonstra superioridade, só que no fim nunca sabemos se aplicada em quê. Sabe, sim: simplesmente para contar mais novidades.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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