Sobre o tema da “instrução pública” (as falsificações na história II)

2
18:01:00

Saramago fala da "musa democracia". O povo vai votar, tirar um candidato que acha ruim por um outro que acredita que será melhor, mas não se atenta para as esferas onde as reais decisões são tomadas, as esferas financeiras, a dos grandes círculos oligárquicos internacionais, que, para sua sobrevivência, tem que manter essa democracia de fachada - até mesmo sob golpes, militares ou não, para se ver o nível de desenvolvimento do que se chama de "democracia" pelos círculos liberais. A necessidade da instrução pública não é fazer um cidadão ideologizado, esse tipo de esclarecimento que se requer desde as Luzes, desde a Revolução Francesa. O ser ideologizado, o cidadão como se entende, por exemplo, nas palavras da atuante ministra, atual presidenta, do STF, Carmen Lúcia, é como o "homem esclarecido" da época de Kant: ilustração, direito de falar em público, mas na mesma medida em que Frederico da Prússia aumentava mais seu exército e policiava o Estado. Liberdade sobre repressão, essa a confusão do duplo empírico-transcendental em Kant, a "ilusão antropológica", nas palavras de Foucault. A ilusão de que uma certa educação que sabe explicar tudo dentro dos parâmetros do bom senso e do senso comum (por que prego afunda? por que ovo não tem pelo? qual diferença entre o comunismo e o socialismo), passa longe de compreender, e que só funciona com um Estado repressivo atuante: esta a ideologia liberal, o seu paradoxo.

Publico a segunda parte de "as falsificações da história", texto ainda mais longo, produzido durante a atuação dos protestantes de junho de 2013: louvado pela esquerda cheirosa, udenista, e logo depois pelos fascistas descarados, que foi o ponto de inflexão para o golpe, preparado desde o - ainda por se provar - mensalão de 2005. A esquerda udenista se ufanou nos "desvios" do governo do PT durante o mensalão, e foram criando partidos alternativos, até culminar com a cooptação de Eduardo Campos e seu partido, e no protagonismo do verdismo de "crescimento zero" de Marina Silva. Acabamos por ver uma situação ainda pior, desconfortável tanto para os liberal-fascistas quanto quanto para os ideólogos a partir da entrada do mordomo da Casa Grande no poder, trazendo junto a si todo o pior do fisiologismo nacional, junto com as entranhas das altas finanças, definitivamente posta na agenda com a PEC da morte, a reforma autoritária do ensino (e o consequente protagonismo dos "sistemas de ensino" no quadro que será formado) e as horripilantes cláusulas da futura reforma da previdência.

Enfim, mais uma oportunidade para pensarmos o que compreendemos como "instrução pública", como se ensina o que é democracia, tanto em 2013 quanto depois que esse movimento atingiu seu fim com o golpe de Estado consolidado este ano. Segue o texto: 

Também disponível na Academia.edu e no Kindle Unlimited:


Sobre o tema da “instrução pública” (as falsificações da história II)


A confusão empírico-transcendental: o social-comunismo e o liberalismo (cubanos, comunistas e o caminho para a soberania nacional)

Assim nos expressamosno breve texto em que introduzimos o tema mais geral por aqui tratado: “o Anonymous surge onde há um vácuo entro setor público e o desejo de bem estar privado. O vácuo se dá não tanto por uma ‘questão atual’, mas a realidade retratada atualmente, ainda mais se levarmos em conta o nível de consciência social, é que o resultado da instrução pública em relação ao desenvolvimento histórico e político nacional ainda se ressente das décadas de oligarquismo, do Golpe ao Plano Real”. Uma das lutas políticas mais dignas travadas atualmente é pela memória dos presos e torturados pelo regime, o consolo das famílias, mães, filhas e esposas, e a afirmação da verdade que os torturadores continuam a negar: que mataram, torturaram, estupraram e desfizeram inúmeros núcleos familiares. A partir do princípio dessa verdade, numa das comissões da verdade descobriu-se o PIB da tortura. O jornal Folha de São Paulo não só emprestava suas kombis aos torturadores, como os financiava junto a outros empresários que se beneficiavam do regime. Foi nessa época também que floresceu o jogo do bicho e a Globo se firmou como instituição bolchevique, ou seja, como órgão de propaganda do aparelho de Estado. Roberto Marinho comemorava os réveillons na cobertura em Copacabana que comprou de Castor de Andrade, mítico bicheiro. Na tela do Jornal Nacional, Médici se regozijava de ver o Brasil de seus sonhos – tudo funcionava perfeitamente. Nesse mundo utópico, qual foi a relação entre o PIB da tortura, o capital dos bicheiros e a transferência massiva de renda (suga de recursos) que o jornal de Médici chamou de Milagre? As entranhas da invasão imperial bem no momento em que, no dizer de Darcy Ribeiro, todos achavam que o Brasil ia dar certo, precisa ser melhor compreendida. Um ótimo exemplo disso são as pesquisas lideradas pelo filho de Jango, João Vicente Goulart, que nos levam ao assassinato dos líderes da Frente Ampla, projeto político que nos traria dividendos políticos muito mais significativos do que a “saída negociada” da década perdida.
Precisamos articular os fatos, encontrar suas correspondências, contar a história de uma maneira ampla e não atomizada, pois as dores das famílias dos presos políticos é diretamente proporcional ao regozijo dos vencedores de então, não menor do que a dor dos familiares dos líderes políticos, e ainda mais veemente a dor de uma nação que perde seus líderes incontestes, seus bravos patriotas anônimos, ao ceder a um pacto oligárquico em pleno período de emancipação, caindo nas garras de factóides como o do “caçador de marajás” e do “criador do real”. O império realiza uma mudança de regime no país e ainda que a derrota da ditadura (sempre parcial – veja lei da anistia e tantos outros exemplos) deva ser comemorada, o império afundou ainda mais suas garras sobre nós. Quem é mais sombrio: FHC ou Figueiredo e Médici? Quem é mais tristemente glorificado, Geisel ou José Serra – os supostos progressistas? São 39 anos de ditadura continuada, se entendermos como ditadura não só a questão da repressão, da censura, e outros assuntos repudiados por qualquer um com o discurso politicamente correto. Caso entendermos a ditadura em seu sentido de derrota da soberania nacional frente aos interesses do império, e que a repressão (veja, por exemplo, o MST e as contínuas derrotas – quando lutavam unicamente para perder menos – do movimento sindical durante os anos 90), a censura (a acentuação do oligopólio midiático), o imobilismo parlamentar (qual debate político de relevância foi feito no Congresso durante esses anos?), a desnacionalização da economia (o que é ainda mais óbvio do que com os fardados) se acentuaram ainda mais durante a década neoliberal (ainda que por meios mais engenhosos do que os usados pelos militares). Enfim, qual liberdade, qual esperança, possuiu nossa pátria durante esses longuíssimos quarenta anos? É sempre o mesmo império – não podemos atomizar nossas pesquisas.
Alguns irão falar que o melhor a se fazer é realizar uma instrução uniforme, de cunho socialista e fundo comunista. Essas misturas tão heterogêneas só acontecem no Brasil, e na América Latina de um modo geral, porque, por exemplo, se compararmos o “socialismo moreno” de Brizola com o comunismo tradicional só encontramos correspondências vagas e abstratas. Não por acaso os soviéticos chamavam os cubanos de cubistas, pois eram nacionalistas e só cediam a determinadas diretrizes da Internacional por coação econômica (“De Martí a Fidel”, o livro de Muniz Bandeira que, mesmo sem acreditar no assassinato de Jango, não perde seus méritos). Muniz Bandeira ainda está vivo e suas pesquisas podem ser melhor aprofundadas. Seu livro sobre Jango ainda guarda preciosidades, ainda mais se atualizadas com as novas pesquisas (falo, claro, principalmente de João Vicente Goulart). Poderíamos também recorrer às pesquisas de um falecido estudioso, um “patriota americano” num sentido quase holywoodiano, que, indignado com as mortes dos cidadãos de seu país na guerra do Vietnã, resolveu entender a superioridade tecnológica e militar soviética para causar tal desconcerto no mundo. Sim, ele não ficou satisfeito com as velhas explicações em termos de “floresta”, “tática vietcongue” e “fanatismo comunista”, e procurou entender a inteligência por detrás da fragorosa derrota estadunidense. Quem matou nossos patriotas? Pois bem, após descobrir que as armas que mataram os jovens que admirava eram estadunidenses ou europeias, Antony Sutton foi às raízes de tal descalabro e escreveu seus três livros sobre Wall Street. No que nos interessa aqui, “Wall Street and the Bolshevik Revolution”, podemos ver, com documentos abundantes, como o translado de Lênin para a Suíça depois da revolução fracassada de 1905 foi organizada pelos banqueiros (entre outros episódios protagonizados por Lênin), e o caso exemplar de Trotski, também irmanado a interesses não tão filantrópicos.
Trotski, em seu exílio a partir de 1905 em Paris, escreveu periodicamente até setembro de 1916 textos incendiários para um diário russo da cidade. Nesse ano, a polícia francesa o escoltou até a fronteira com a Espanha, mas foi detido em Madrid, ainda que tenha ficado numa “cela de primeira classe”. Sem maiores problemas, chegou a Nova Iorque em 13 de janeiro de 1917, sem falar a língua local e vivendo, segundo declarou, “unicamente como um socialista revolucionário”. Escrevia para um periódico de limitada circulação, Novy Mir. Ainda assim, sua família pôde adquirir um excelente apartamento na cidade, com três meses de aluguel adiantado, e ainda andava numa limusine com chofer (seu filho reclamava sobre o porquê do motorista não entrar nas festividades que frequentava com seus pais). Talvez não precisasse de tanto, pois em 26 de março de 1917 embarcou de volta a Rússia, devidamente protegido (Woodrow Wilson interviu para que lhe fosse concedido o passaporte), para liderar sua revolução. Lênin recebeu doações de vulto dos banqueiros estadunidenses e europeus, com destaque para o Chase National Bank (atual JP Morgan Chase, antes Chase Manhattan, e sempre instituição genocida, internacionalista que, posteriormente, teve seu presidente como criador dos planos quinquenais soviéticos) e a Fundação Rockfeller. A ideia, segundo Sutton, era criar uma economia cativa, subordinada aos Estados ocidentais. Caso a Rússia se desenvolvesse tecnologicamente e se industrializasse, a oligarquia – o império – vivente na região transatlântica teria um concorrente de vulto. No início da década de 1920, no nº 120 da rua Broadway, esquina com Wall Street, se abriu uma sede central mundial para proporcionar ajuda aos bolcheviques. A Standard Oil conseguiu na mesma época explorar o petróleo russo, alvo da cobiça americana, cuja produção superava a deste país. Enfim, ainda há de se abrir a disciplina de História Comparada do que foi o socialismo na América Latina e o comunismo/capitalismo da época da Guerra Fria. Nessa época estão os porquês de hoje eles (o povo americano que passa no teste eugênico de Hitler) terem de aprender com nós e com Rússia e China. Se a União Soviética fosse um estado nacional soberano não teria parado de produzir inteligências como a de Dostoievski e Tolstoi, Vladimir Vernadski e Nicolas Tesla. Nenhum destes teve como berço o comunismo. Depois deles nada comprável nasceu do comunismo.
David Rockefeller pode nos explicar melhor: “Seja qual for o preço da Revolução chinesa, é evidente que conseguiu com êxito criar uma administração eficiente e integrada, senão também estimular uma moral alta e um propósito comum (...) O experimento social realizado na China sob o mandato do presidente Mao é um dos mais importantes e exitosos da história da humanidade[1]”. O “internacionalismo” das revoluções comunistas é a base do governo único ditado pela banca privada que os oligarcas globais pretendem impor através de sua ditadura de mercado. Para eles é ainda melhor um Estado sem qualquer liberdade individual – um olho que tudo vê: um Google, uma Globo –, esse o motivo dos experimentos da banca internacional com o fascismo e nazismo, como também em muitas medidas que vemos hoje nos EUA, como a Lei Patriota, e o fascismo da Troika europeia. Por isso David Rockefeller pôde dizer em suas memórias, sem qualquer medo de seus planos serem descobertos: “Alguns creem inclusive que formamos parte de uma cabala secreta que atua contra os melhores interesses dos Estados Unidos, qualificando-nos a minha família e a mim mesmo de ‘internacionalistas’ e acusando-nos de conspirar com outros indivíduos do mundo para criar uma estrutura econômica e política global mais integrada; um mundo, caso se queira chamá-lo assim. Se essa é a acusação, me declaro culpado e estou orgulhoso disso”. Para superar esse falso “binarismo’, essa política, essa estética, essa educação da época da Guerra Fria, temos que falar igual a Che Guevara: não podemos ficar entre dois imperialismos. Até porque, no fim, eles se fundem em um só. Na verdade, são um só desde o início, mas ora acentuam seu caráter mercadista, outras estatista. Sempre são o que é conhecido por sinarquismo ou nazi-comunismo.
A afirmativa acima atribuída a Che Guevara, ainda que não literal, expressa sua luta pós-guerrilha para que Cuba não escapasse de um imperialismo e caísse noutro. Como ministro, esteve presente em muitas das reuniões panamericanas que se realizavam à época e foi sistematicamente rechaçado com suas propostas, apesar de seu inegável talento político e intelectual. Queria – e esse é o desconcerto que nos causa o livro de Muniz Bandeira – uma parceria com os Estados Unidos com o objetivo de preparar a industrialização cubana. Deixar de ser vendedor de cana-de-açucar para os EUA, tornando-se vendedor do mesmo produto para União Soviética não estava em seus planos. Tampouco os revolucionários almejavam ficar à mercê de deliberações estrangeiras, completamente outras ao que necessitava a realidade de seu país – falo da Internacional Comunista. Porém o império, com a 4ª Frota e todo seu poder de propina e dissuasão ideológica, avançava ao sul, cooptando o Brasil e lançando seus tentáculos em todo o sub-continente sul americano. Faltavam bases de apoio para os planos do Che Guevara sem as orelhas de Mickey, não comunista, socialista na mesma medida em que era nacionalista, guerrilheiro no front político e intelectual tal como foi com as armas em punho. Daí surgiu a tentação do bloqueio, realizado pelo império em seu afã bonapartista – bloquear não o comércio, mas a revolução em toda a América Latina. Frustrado em seus planos, Che rodou o mundo até aportar na Bolívia. Lá encontrou a morte como Sócrates a sicuta – impassível, sem nada a temer além da própria consciência: a morte de Che Guevara é sua realidade enquanto Mickey, enquanto comunista guerrilheiro nos paraísos artificiais da Guerra Fria. Mas o que seria essa consciência tão cara ao guerrilheiro, essa necessidade de industrialização, de autonomia, de independência, por fim? Não é ironia termos de recorrer ao posto avançado do império atualmente, os EUA, para encontrarmos a resposta.


O que afinal tem a ver a lei Glass-Steagall de Roosevelt com o final de nosso sistema da dívida?

  O que o economista estadunidense Lyndon LaRouche definiu como “fluxo de densidade energética”, baseado no conceito leibniziano de “ação mínima” (a definição conceitual de tecnologia no sentido de industrialização, ou seja, bem diverso da techne aristotélica), é o sentido de todo o desenvolvimento social da humanidade per capita e por metro quadrado. Em uma sociedade de caça e coleta, estima-se que para não esgotar os recursos naturais, um máximo de 10 milhões de pessoas podem viver em todo o globo. Hoje passamos dos 7 bilhões porque nossa sociedade é capaz de produzir fluxos energéticos mais densos. Isso é ilustrado pelas sucessivas transformações anteriores de uma sociedade baseada na energia retirada da madeira, depois do carvão até o petróleo e o gás natural, seguido pelos altos potenciais energéticos da fissão nuclear. Quanto mais denso o fluxo energético, mais e melhor se desenvolve a sociedade, per capita e por metro quadrado. O resto é feudalismo, o que sempre nos foi imposto com o nome de “terceiro-mundismo” e toda sua carga de escravidão e atraso cultural e tecnológico. A missão Apollo é conhecida hoje quase como no Brasil entendemos a Copa de 70: um ponto fixo no espaço que trouxe dividendos à pátria – e só. Na Copa de 70 existe todo um caráter problemático, por assim dizer, que nos escapa à vista toda vez que idolatramos a história em forma de mito tal como narrada pelo Grande Olho, a rede Globo. Seleção montada por João Saldanha, foi campeã por causa de um outro Brasil: Pelé vascaíno, Saldanha comunista, o povo no rádio – o regime então se apropria da máquina de guerra nômade, na expressão de Deleuze e Guattari. O futebol como fator de unificação cultural viria a coroar a obra do trabalhismo, do desenvolvimentismo (para lembrar JK). Darcy Ribeiro relata as dificuldades encontradas para a construção dos CIEPs, muito deles construídos onde antes existiam campos de futebol. Todos sabem – pelo menos é o que parece: como seria belo o Brasil sem o Golpe. A unificação proposta pelo futebol advém da maturidade da nação enquanto coletivo de indivíduos. É a mesma maturidade que assusta os entendidos em política em relação a popularidade da “xerifona” Dilma. Não há mais espaço para a oligarquia em nosso país. Não que isso seja eterno, mas vivemos um longo ciclo virtuoso, retomando o curso histórico perdido na década de 70.
Quando falamos nos saltos qualitativos – saltos quânticos –, nos chamados surtos de desenvolvimento (como se isso fosse alguma espécie de paranóia, histeria ou esquizofrenia – ou seja, algo aparentemente sem explicação causal), podemos falar no que representará a produção energética baseada na fusão (para além da fissão) termonuclear. Essa descrição é sucinta e apropriada para o que queremos dizer sobre a “tocha de fusão”, o maçarico de altíssimas temperaturas, transformador da matéria em plasmas energéticos:

The “fusion torch” design, first proposed in 1969 by Bernard Eastlund and William Gough of the U. S. Atomic Energy Commission, uses an ultra-high temperature fusion plasma, diverted from a fusion reactor core, to reduce virtually any feedstock (low-grade ore, fission by-products, seawater, garbage from landfills, etc.) to its constituent elements. Once the feedstock has been injected into the plasma. the elements become dissociated into electrons and ions, and the desired elements (or isotopes) can be separated from another by atomic number or atomic mass, creating pure, newly synthesized mineral “deposits” from virtually any substance[2].

Nosso país, como é do senso comum e não por isso expressa uma ideia errônea, é rico em recursos naturais. Baseamos nossa matriz energética na energia hidroelétrica, apesar dos TCUs, dos ambientalistas, dos marinistas, dos globais e globalistas. Então, o que dizer da sempre nomeada (para o mal) Bolívia? E dos desertos atlânticos da África ocidental? Dos países da Europa mesmo, sem nada comparável em recursos naturais como o Brasil? Dos desertos de areia e de gelo do norte da América? Transformar água do mar em energia, lixo em minério, minério de pouca qualidade em minérios superiores... O futuro da humanidade é atômico, termonuclear. Ah! Mas nos afrontam com o perigo de guerra. Fato. Fato se não olharmos para iniciativas como a de Lyndon LaRouche, a da Iniciativa de Defesa Estratégica, proposta em plena Guerra Fria e anulada pelo grupos de Henry Kissinger na União Soviética, baseado no Imperativo Extraterrestre, de Krafft Ehricke. A chamada “guerra nas estrelas” do governo Reagan, iniciativa pela qual LaRouche e todos os seus associados foram presos em 1989, é a única saída para a humanidade desenvolver plenamente seus recursos tecnológicos, mitigando o perigo de guerra nuclear e de colisão de asteroides, para assim colonizar os planetas do sistema solar e além. Uma prisão política (a acusação de Kissinger e demais foi de “conspiração” – conspiração política, claro) no mesmo ano em que cai o muro de Berlim, ou seja, no ano da suposta afirmação das liberdades ditas ocidentais (ou afirmação do “modelo asiático” mais arcaico, porém tecnologizado?) é um paradigma de quem quer sair das inúteis dualidades propostas pela Guerra Fria deve estudar. Transformar lixo em ouro: isso já é realidade para a fusão termonuclear, só não atingida até agora por desleixo político completo, pois as propostas de desenvolvimento de tal potencial energético remontam à década de 1970.
O ouro por si nada vale. Isso é óbvio para qualquer um, inclusive todos nós que falamos como o mais autocrático déspota que dinheiro é merda (por essa merda somos espoliados!, por essa merda espoliamos!, etc.). E isso é verdade, porém não a verdade do déspota, mas sim de uma maneira geral, universal. O ouro fica importante pela sua raridade. Daí a América para os ibéricos e a Ásia para os venezianos. O mito do petróleo finito é um dos argumentos mais fortes de sustentação dos preços exorbitantes que esse produto é vendido. Mito que corrobora o monopólio sacramentado nos escritórios adjacentes à bolsa de Amsterdã após a criação da Opep e do posterior enriquecimento da Arábia Saudita e aliados (como narra o “assassino econômico”, John Perkins, o sistema de coleta de lixo árabe feito por cabritos até os 70). O chamado sistema econômico é medido pela regra criada pela mente humana. É esse o único motivo do sistema de trocas elaborado por Roosevelt no pós-guerra, o sistema de Bretton Woods. Vincular o dólar ao ouro foi a maneira encontrada para impedir a impressão descoordenada de papel moeda, causando uma hiper-inflação internacional. Foi o boicote a Bretton Woods o que permitiu a bolha financeira atual, assim como o desmantelamento, nos EUA, da lei Glass-Steagall, que separava a banca comercial da banca especulativa. O desenvolvimento da energia de fusão ultrapassa as barreiras impostas pelo petróleo como grande matriz energética internacional (o uso pleno da energia nuclear que é a consequência do domínio da fusão atômica) devido a fonte abundante de recursos que podem ser trabalhados a partir dela, como abre uma via de desenvolvimento alternativo para os países com recursos naturais menos abundantes. O fim do monopólio energético internacional se dá em duas pontas, mas que deve ser complementado pela soberania no campo econômico, ou seja, um sistema econômico baseado no crédito (não um sistema econômico internacionalista, onde todas as economias ficam devedoras de uma oligarquia não nacional e invisível), assim como grandes projetos de desenvolvimento nacional coordenados pelo Estado. O crédito é emitido pelo Estado na medida de suas expectativas futuras, sempre atrelado à produção (fim da inflação), sendo a única barreira legítima contra a bolha especulativa do sistema econômico entrópico mundial. Para adotar as medidas de Roosevelt depois da crise de 1929 é necessário a separação da banca de crédito da banca privada (lei Glass-Steagall, de 1933), a criação de um fundo nacional para auxílio do desenvolvimento e organismos estatais coordenadores de projetos de desenvolvimento nacional. Não menos fundamental é a iniciativa da Comissão Pécora, não no sentido restrito de encarcerar os ladrões e criminosos do sistema financeiro, mas no sentido amplo de nomear os inimigos da nação e compreender as entranhas do complô armado contra o país, no caso o EUA vítima da especulação financeira de 29 e no caso da satrapia do império que se tornou os EUA atual, e o nosso no dogma insuperável conhecido como “sistema da dívida” – desde os militares, para relembrar isso e esquecer Geisel e Gaspari de vez.
Daí, caímos na questão dos fundos. A lei Glass-Steagall aplicada em escala global automaticamente cancela os débitos da banca privada. Os ganhos especulativos não seria tarefa do Estado saná-los. Lembramos o Proer, de triste memória. Mas o que se chama atualmente de “resgates internos” (“bail-in” em contraposição a “bail-out”, os resgates feitos pelo Estado para sanar, mas na verdade para aumentar ainda mais, a bolha especulativa) é a tentativa de responsabilizar os correntistas pela inconsequência dos acionistas dos bancos. Reclama-se do Estado socorrer bancos; pois bem, fazemos como no Chipre ou como fez o Bankia, na Espanha, e confiscamos a poupança e as aplicações dos cidadãos. Essa é a política que pretendem implantar em escala global, a qual o Brasil não está isento:

O anteprojeto do BC procura assegurar a continuidade dos serviços e da estrutura financeira necessária ao bom funcionamento da economia real em caso de problema de solvência em alguma instituição sistemicamente importante com o uso de novos mecanismos para lidar com a situação. Entre eles está o modelo atualmente em fase de intensa discussão internacional depois de sua adoção na reestruturação da dívida da Grécia e no resgate aos bancos do Chipre (“bail-in”). Com esse regime, a ideia é fazer com que um banco insolvente seja recapitalizado com recursos do seu próprio passivo, sem a necessidade de aportes do governo. É o oposto do “bail-out”, que esteve diariamente no noticiário da crise de 2008 e que levou o Tesouro de diversos países a situações críticas em função dos gigantescos recursos públicos injetados no sistema financeiro[3].

Matreiramente, o projeto propõe que igualmente os acionistas devem sacar de seus recursos para resolver os problemas de solvência da instituição bancária. No entanto, isenta-os de qualquer responsabilidade criminal por uma insolvência que é resultado tão somente da inconsequência destes. Quem se responsabiliza? Bem, os correntistas nada têm nada a ver com as irresponsabilidades dos que jogam nas roletas dos cassinos financeiros. É só olhar para o que acontece atualmente no Chipre e ver quais são as consequências do que no Chipre se constituiu apenas como um balão de ensaio de algo mais amplo. As discussões, de fato, como ilustra o caso do Brasil, são para ampliar esse modelo, chegando a casos em que as pessoas já nem podem mais usar cartões ou cheques, e ficam limitados, como no Chipre, de sacar um máximo de 300 euros por dia. Mesmo assim, os saques têm que ser justificados, ou seja, voltamos a idade da pedra em termos econômicos. Só uma separação da banca comercial da banca especulativa, como fez Roosevelt para escapar com sucesso da crise de 29, é capaz de dar conta das charadas impostas atualmente pelo sistema bancário ao Estado: “somos instituições completamente frágeis e daninhas, mas vocês não podem viver sem nós!”. Por isso a criação de fundos para o auxílio ao desenvolvimento é o passo posterior ao fim do “sistema da dívida”. Nos Estados Unidos, um país decadente desde pelo menos a década de 1970 (ou a partir da data simbólica, porém não menos real, da morte de JFK), não se encontra uma burguesia tão próspera para alavancar o crescimento econômico, a industrialização, e a criação de milhões de empregos. Como compor esse fundo, ainda que o Estado não esteja mais endividado como na época em que “salvava” os bancos?
Daí a singularidade do Brasil. Possui um banco central nominalmente independente – e que tem poderes para ser cada vez mais ou de fato independente –, mas refém de um pequeno grupo de bancos que controlam a “dívida interna”. Entre aspas porque os grupos que controlam o FMI e o Banco Mundial são os mesmos que detêm em quase sua totalidade os títulos da dívida do governo. E não adianta somente baixar os juros pagos pelo BC aos predadores estrangeiros. Eles são a quadrilha tão procurada pelos amantes do mensalão e entre si determinam o quanto vão receber pelos papéis[4]. É indispensável para nós sairmos do “sistema da dívida” uma auditoria. Assim chegaremos a resultados similares ao que foi o cancelamento dos débitos privados nos EUA de 1933, ou, pela auditoria que Maria Lucia Fattorelli participou no Equador, ao desconto de 70% do total das dívidas quase 100% ilegais (um resultado mais político do que legal).
O que é menos uma ironia da história do que um sintoma do ritmo ascendente de desenvolvimento que se encontra nossa pátria é a questão do pré-sal. Os EUA, mesmo com todas as medidas de Roosevelt retomadas, renovadas, não possuem a mesma facilidade do que na década de 1930 para criar um fundo nacional para o desenvolvimento econômico. O dólar está cada vez mais desvalorizado. Por um lado, se desvaloriza por causa dos mecanismos como o de “flexibilização quantitativa” (impressão abundante de papel moeda para encher de liquidez os tubarões financeiros), e de outro porque os países que chegam agora como peças importantes no cenário mundial (em especial os BRICS) procuram escapar da submissão irrestrita ao dólar causada pelo desmantelamento do regime fixo de trocas pressuposto em Bretton Woods. O pré-sal entra aqui com importância duplicada. De um lado, porque cria um fundo nacional para o desenvolvimento em um país que nunca teve burguesia (essa a importância da reforma agrária, sempre postergada), e de outro porque, baseado o sistema de partilha na necessidade de abastecimento de países com fortes empresas estatais (portanto a predominância chinesa nesse modelo), pode servir como um marco no sistema de “cesta de moedas” dos BRICS, para assim afrouxar as correntes que nos prendem aos petrodólares cotizados nas bolsas da City e de Wall Street. O monopólio do petróleo fica rachado com as grandes reservas descobertas no Brasil. Com a liderança exercida pela Venezuela e agora pelo Brasil, e o aprofundamento da integração regional a partir da UNASUL, não reeditaremos a falácia que acabou se tornando a criação da Opep. Para além de qualquer “cesta de moeda”, o binarismo existencialista-hegeliano da Guerra Fria é o futuro de um mundo que não sofre mais de crises “bi-polares”.

O caráter antididático da ação penal 470 e as verdadeiras aspirações nacionais

O pré-sal é o claro modelo do que significa o aumento do fluxo de densidade energética nas nações soberanas. Quantos engenheiros navais, biólogos marinhos e demais técnicos e especialistas o país irá precisar? Não temos sequer cursos abertos para qualificar toda essa mão-de-obra. E hoje em dia uma velha classe média segue em seu fideísmo ao funcionalismo público, como aquilo que irá dar Estabilidade, ainda que ganhemos tão pouco que descendamos de classe. Qual a diferença entre as classes B ou C? Nunca fomos classe A. Pois bem...  Se antes uma elite poderia – similarmente a uma classe média que gera doutores padrão Capes – produzir jovens “concurseiros” (vale PM ou BC: tudo vale no Topa Tudo do mundo globalizado), não importa qual salário venha a ganhar uma classe média tradicionalista que está em pleno ocaso, hoje novas alternativas surgem. Claro, a Odebrecht continua a ganhar sucessivas concessões públicas. No livro surrealista, dadaísta, de Florestan Fernandes, vemos a proposta de uma revolução de uma classe que nunca existiu (revolução de qual burguesia?). A burguesia brasileira, fora casos excepcionais, só pode ser entendida em sua sobrevida na articulação tecida com o capital estrangeiro. Portanto a importância do pré-sal na complexificação de nossa divisão social do trabalho.
Hoje, por exemplo, muitos originários da chamada classe D, que foram ou não para a C pelas medidas do governo, chegam a classe B ou A fora do circuito do concursismo, e na maioria dos casos sem ao menos o nível superior. Esse é o cúmulo da exaltação esquizofrênica de um tipo como Luciano Huck, que vai a todos os lados, em todas as mídias e publicidades não só ganhar dinheiro, mas defender seus iguais. Ele é mais um dos gigantes, dos ogros medievais que se levantam contra a prosperidade de nosso país. E quem dera não uma nova cortina de aço separando o povo, mas uma cortina negra, de veludo, sutil, como a de Joaquim Barbosa, para trazer de volta à Terra a justiça dos gigantes, dos oligarcas, dos deuses do Olimpo. Mas o frenesi do concursismo também é consequência do desenvolvimento nacional, pois o Estado se fortaleceu com sua fuga do arbítrio tucano. Temos concursos para todas as áreas, para um sem número de profissões, o que criou uma verdadeira indústria concurseira. Indústria similar a criada em torno da expansão do ensino básico e superior. Em um vemos a adoção do “modelo apochilado” nas escolas dos municípios pequenos, que contratam firmas particulares para padronizar o ensino. Tem mais dinheiro por causa do Fundeb e dos repasses do governo federal, porém não o suficiente para coordenar projetos educacionais amplos. Poderia nos municípios menores haver um regime de parceria como se tenta em medicina para superar os impasses da educação e criar um ensino de caráter popular. No entanto, contratam as firmas e, num estilo Telecurso 2000 de padronização, tudo parece estar resolvido. Os maiores municípios igualmente adotam esse tipo de padronização, mas por via bolchevique, ou seja, com o patrocínio da estrutura pública. E há toda uma correspondência entre essas instâncias, a do ensino particular “apochilado” com os antigos cursos pré-vestibulares, que por sua vez vão se tornando em entidades invisíveis ao estilo Adam Smith, não muito diferente da administração “técnica” de grupos como o Galileu nas faculdades particulares. Quem verdadeiramente administra essas instituições, a forma como seus dividendos são cotizados na bolsa, pode nos remeter a uma forma de Governo Único no estilo clássico britânico e de David Rockefeler. Talvez haja pouca distinção entre os grupos invisíveis que controlam o ensino nos pequenos municípios, e nos grandes via Estado, e as entidades que agora levam ao descalabro o ensino superior. Precisa-se um jornalismo genuíno para revelar esses meandros, cuja outra ponta se encontra na “indústria do concurso público”, e se enraíza na estrutura pública através dos agentes privados que passam a trabalhar aí[5].
Por isso o professor Wanderley Guilherme dos Santos está certo quando diz que ignoramos com as manifestações públicas (e não necessariamente populares) a evolução de nossa sociedade democrática[6]. Falam, por exemplo, do movimento negro: coisas do tipo “para que serve?” ou “aqueles radicais!”. Enfim, não se pode pensar numa política de cotas públicas sem a articulação do movimento negro. Não se pode pensar, inclusive, na escolha de Joaquim Barbosa para o STF sem o fortalecimento adquirido pela representatividade negra na sociedade. A História da África que agora é obrigação na graduação em História e no ensino básico do movimento negro unido. O que falar dos sindicatos, dos movimentos pela terra, das minorias (que muitas vezes são as maiorias) de um modo geral? Para sabermos o que falar, é só lembrarmos, como indica o professor, das décadas da república oligárquica só derrotada em 1930. E por aí temos todo um jogo de ir e vir, mas principalmente a maturidade brasileira no período pré-golpe, quando se acreditava fielmente que o país iria finalmente entrar no rumo certo. A consolidação dos sindicatos, do movimento estudantil, do MST, do movimento negro, e tantas outras instituições da sociedade civil – com todas as críticas que se possa fazer a elas – são uma conquista legítima dentro da evolução social[7]. Qualquer sindicalista que não o Paulinho da Força pode relatar sem dificuldade dos desafios do sindicalismo durante o triste reinado do Farol. Chamar esses movimentos simplesmente de adesistas ou encampar a velha retórica udenista que os tem (às vezes uns mais e outros menos) por radicais, é a lógica da simplificação massificadora, midiática, que não dá conta dos desafios enfrentados pela sociedade civil ao longo da história.
Por isso também o professor é claro ao dizer que “a ação penal 470 não teve qualquer efeito pedagógico[8]”. Parte da premissa básica de que a acusação relativa ao partido, o PT, querer se perpetuar no poder não possui nada de escandalizante: “Até aí nada, pois é aspiração absolutamente legítima de qualquer partido em uma ordem democrática. Não obstante, é também mais do que conhecido que o realismo político recomenda, antes de tudo, a busca da vitória na próxima eleição”. Óbvio. E tão óbvio quanto é que só a confissão ou prova de que se quer perpetuar no poder de maneira ilegítima, ilegal, nada pode ser feito a respeito disso. Mas quem é o PT para querer “se perpetuar no poder”? Daí se criou o escândalo. O professor é didático:

Era patético, repito, o espetáculo em que cada ministro procurava nos textos legais quer a inocência, quer a culpabilidade dos acusados. Em momentos, fatos que eram apresentados por um ministro como tendo certa significação, derivada da premissa, e por isso condenava o acusado pelo crime supostamente cometido, os mesmos fatos eram apresentados como significando o oposto e, todavia, servindo de comprovação da culpabilidade do acusado. Exemplo: a ministra Carmem Lucia entendeu que o fato de a mulher de João Paulo Cunha ter ido descontar ou receber um cheque em gerência bancária no centro de Brasília comprovava a tranqüilidade com que os acusados cumpriam atos criminosos à luz do dia, desafiadoramente. Já a ministra Rosa Weber interpretou o mesmo fato como uma tentativa de esconder uma ação ilegal e, portanto, João Paulo Cunha, seu marido, era culpado. Uma ação perfeitamente legal, note-se, o desconto de um  cheque, sofreu dupla operação plástica: uma transformou-o em deboche à opinião pública, outra o encapotou como um pioneiro ato blackbloc. Dessas interpretações contraditórias, seguiu-se a mesma conclusão condenatória, pela intermediação da premissa maior, segundo a qual qualquer ato dos indiciados estava associado àquele desígnio criminoso.

E daí se instaura o ritual macabro que culmina com Genoíno:

Estando os acusados condenados conforme tal rito subversivo, o julgamento de outras acusações (sendo o julgamento “fatiado” como bem arquitetou o relator Joaquim Barbosa, enfiando-o aos gritos pela goela de nove dos 11 ministros) se iniciava assim: tendo ficado provado que o réu cometeu tal e tal crime, lá se ia nova acusação como se se tratasse de um reincidente no mundo do crime em momentos diferentes no tempo. E mais, como se a condenação já estabelecida houvesse confirmado a veracidade da premissa maior sobre a existência de um plano político maligno.

Como conclui Wanderley Guilherme dos Santos, “não há nada a copiar neste julgamento de exceção – a Ação Penal 470”. O sociólogo, numa série de artigos dos mais significativos publicados no blog O Cafezinho sobre o mensalão, lembra em um dos seus textos de uma analogia feita por um leitor de Paulo Henrique Amorim entre os black blocks e os economistas de Marina Silva. Só divergimos com o pesquisador por não encontrarmos qualquer exagero nessa afirmativa, ainda que tenha tido como objetivo o humor, comum no site de PHA: “O exagero normal de piadas não deixa de ter fundamento, neste caso, na convergência real entre ideais confessos de uns e ações delinquentes de outros[9]”. Esse texto em particular é uma boa referência à série de artigos, pois a esta analogia temos a anterior feita pelo professor e não pelo leitor do blog Conversa Afiada, entre as manifestações de junho e o mensalão – os factoides arranjados para a fabricação do Golpe. Logo, colocamos tudo na mesma série histórica, ainda que caiba traçar as especificidades de cada caso e das pessoas e grupos envolvidos. Assim, a citação a seguir vale para mensalão, liberal-marinistas (ou fascistas) e black blocks:

Entre as convergências avulta a doentia incapacidade de organizar algo construtivo. São parasitas dos movimentos sociais. Não se conhece uma instituição de defesa de coletividades que tenham criado. Mas estão sempre presentes no aproveitamento das atividades e organizações de construtores sociais, sugando-lhes a fama, a energia ou os propósitos. Foi o que fizeram em tempos idos, os sem máscara, com as empresas estatais criadas com os recursos e sacrifício da população. E voltariam a fazê-lo se lhes fosse concedida outra oportunidade. Não facilitaram a emergência de ações coletivas, empreitada sempre difícil e não raro cheia de perigos. Mas os mascarados se aproveitam das naturais e legítimas mobilizações dos setores mais carentes para sugá-los e macular os propósitos de suas paradas e manifestações.

A “doentia incapacidade de organizar algo construtivo” é uma das vertentes que unem as forças desagregadoras do desenvolvimento nacional. Por isso se unem sempre através de factoides: Plano Real, Privatizações, Tripé, Mensalão, Tudo O Que Está Aí. É por isso que o mensalão não ensina nada à nação, só as bruxarias de um julgamento medieval. Por isso:

Desprezam as instituições de representação popular (sindicais, políticas, pacificamente reivindicatórias) a elas dirigindo permanente crítica difamatória e humilhante, no que são coadjuvados pela imprensa blackbloc, muito mais do que marrom. Pontificam nas colunas jornalísticas os acometidos de dandismo intelectual, cheios de si pela ausência de contraditório que lhes devolveria a altura própria. Esnobes, só conversam entre si e acham lindas, exemplos de “democratização da democracia” (redundância charlatanesca), as tentativas selvagens de invasão de assembléias legislativas.

Ah! Para quê perguntar aos liberal-fascistas se conhecem a importância do movimento negro nas conquistas sociais atuais? Para quê perguntar se conhecem o papel de liderança mundial exercida pelo MST na agricultura familiar, através de suas cooperativas agro-industriais? Para quê fazê-los discorrer acerca dos desafios dos trabalhadores na superação do modelo neoliberal (de sua herança e suas metamorfoses)? O que sabem falar sobre a dívida pública? Os impostos? Nada. Somente são contra O Que Está Aí e se organizam em factoides (a base de sustentação populista) ao estilo Plano Real, mas com o nome não tão belo, mas enternecedor, de 20 Centavos. Se vier Reforma Agrária, seremos contra. Pré-sal? Somo contra. Bolsa Família? Assistencialismo, Esmola. Queremos ganhos reais! Mas quais? E no fim clamam por uma rotatividade do poder, como se o modelo inaugurado pós-Nixon fosse a realidade do país que se tem por modelo da democracia ocidental. É só lembrar dos quatro mandatos sucessivos de Roosevelt só interrompidos por sua morte. Rotatividade para quê? Fazer um pseudo-parlamentarismo à moda britânica, onde o sistema partidário binário é manipulado pelo banco central independente? Ah, sim! Aí está o modelo de modernidade. Ah, não! Queremos um modelo de Estado atuante, onde não haja empresas nem empresários, uma burguesia nacional, forte, consistente, nacionalista (não só como a do pós-guerra europeu e estadunidense, mas mesmo como a Florença dos Médici). Todos seremos funcionários públicos, inclusive os professores dos cursinhos para concurseiros! E continuamos, qual Lênin, a depender do capital privado, privatista, da banca internacional para sobrevivermos. E sem qualquer perspectiva de inovação, de aliança científico-tecnológica com os ramos industriais, de aumento do fluxo de densidade energética, de complexificação da divisão social do trabalho, da criação de milhões de novos empregos, do trabalho humano se tornar mais digno e inteligente. Sejamos agrários, feudais, comunistas, fascistas ou liberais – todos pertencentes à mesma série histórica. O importante é a rotatividade no poder, nossa incapacidade de propor algo construtivo e nosso talento em criar factoides!
Ah!, mas agora irão me acusar de ser petista, bruxo, ladrão, feiticeiro e macumbeiro – tudo junto. Então vamos ver rapidamente quem vota no PT. Assim iremos adicionar mais um item às séries históricas que estamos elencando.
Em tempos remotos existia o mito de que José Serra tinha um eleitorado “cativo”. Essa afirmativa é ambivalente, porém o mito não expressa um princípio originário. Pelo menos 30% seriam de José Serra. Existem variações sobre a história original, assim como toda a narrativa mitológica tem seus correlatos nas epopeias nacionais. Alguns dizem que esses 30% são do PSDB. Se o candidato fosse mais forte, e não o Aécio, esses 30 seriam desse candidato. Como seriam de Marina caso saia candidata, ainda mais se alinhada aos liberais tradicionais, os tucanos. Um terço da nação estaria “tomado”, por assim dizer. As pesquisas para as próximas eleições presidenciais mostram um panorama diferente. Não vemos o valor fixo que atribuíam a Serra, como vimos em eleições passadas. Pois esse valor pode ser fixo, mas é tal como as manifestações: apartidário. Com relativa facilidade, pois, a partir desses parâmetros, podemos entender o voto conservador no Brasil atual. A primeira e óbvia conclusão é que atribuíam a José Serra uma percentagem que não pertencia a ele, mas ao conservadorismo. A soma de votos que esse candidato angariou para além da base de 30% pode ser atribuído a outros fatores, onde os factoides ganham corpo considerável, ainda mais se considerarmos a fabricação de sua figura pública, de ministro da saúde e economista competente, o “candidato mais preparado”, como disse a propaganda e os comentaristas globais. Nas eleições de 2006 (quando Serra não concorreu a presidência), houve o caso célebre do acidente sofrido pelo avião da Gol, rasgado pelo jato Legacy. A notícia do acidente simplesmente não apareceu para dar lugar a uma edição inteira do jornal nacional sobre os “aloprados”. Chegamos assim ao caso do único candidato, o Picolé, que teve menos votos no 2º turno do que no primeiro. Haja deslocamento de votos!
Mas as pesquisas desde 2002 (e por que não lembrar das de 1989 e 1994?) sempre mostraram uma vantagem considerável para Lula ou até para Dilma, em 2010, alimentando a expectativa de vitória no 1º turno. O 2º colocado muitas vezes sequer alcança o patamar dos 30% (ou não sai dessa casa decimal), sendo que o 1º ultrapassa com margem suficiente para ganhar no primeiro turno. O que se consolidou com as sucessivas vitórias do PT foi uma espécie de voto cativo não cartografado por todos aqueles que enxergam no Brasil um governo populista, ou seja, aquela soma de votos atribuídos ao que denominam assistencialismo governista. Podem votar nos setores conservadores, reacionários, Marina e Serra à frente, mas flexibilizam suas escolhas na “hora do vamos ver”, no 2º turno. O número de indecisos ou dos que não sabem em quem ou para quê votar, como não é difícil de entender, é bem maior do que os magros percentuais apresentados nas pesquisas. Fora os factoides e as pesquisas tendenciosas, o percentual dos últimos anos do PT seria ainda maior. Na verdade, ultimamente já no 1º turno uma tendência se estabiliza e essa tendência seria ainda mais visível caso tivéssemos uma correlação de forças menos dessimétrica no que concerne à difusão da informação. Podemos olhar para a militância do PSDB, por exemplo, e perceber que seus votos cativos são donas de casa e demais trabalhadores com outras preocupações que não as políticas. São os votos manobrados pelos factóides e pelas pesquisas. Mas ao que atribuir um percentual tão grande de votos ao PT? Como compreender uma tendência tão grande em votar nesse partido?
Seria quase como entrar num êxtase xamânico ou algo do gênero visualizar as pessoas com um nível minimamente razoável de conhecimento científico (não no sentido liberal, claro), e por isso político, para optar conscientemente pelo desenvolvimento nacional. O que temos é um voto cativo, conservador, que é uma massa considerável dos votos que chegam até o PT, no 1º ou no 2º turno. Como caracterizá-lo? Por exemplo, o bolsa família, muito criticado no início, hoje não há político ou até mesmo sofista capaz de tentar negá-lo. Com as cotas acontece o mesmo e com demais programas governamentais. Quanto ao PAC, Minha Casa Minha Vida, e demais programas, só críticas laterais são feitas mesmo pelo oligopólio financeiro-midiático. só criticam através das medidas do TCU e demais inconstitucionalidades. A questão do mensalão, na capa preta de Barbosa, ninguém acredita, a não ser uma ínfima minoria (que muitas vezes afirmam essas verdades mesmo tendo consciência de sua falsidade), que foi um avanço para o Brasil. São conservadores parcelas consideráveis dos votos recebidos pelo PT, pois receberam a educação dita liberal desde o berço, comungaram e comungam desses valores agora e sempre, mas dizem, por exemplo, “Ah, mas fez bem aos pobres”, “É uma espécie de remédio”, “É uma tentativa”, etc. E aderem, simplesmente aderem. Ou falam da “micro-economia das favelas”, da “ascensão da classe C”, ainda que sejam incapazes de falar, por exemplo, da política externa e do papel do Brasil na África. Aceitam as cotas com a postura do cidadão politicamente correto – na verdade, aceitam tudo com essa postura. São os conservadores que se agarram ao PT como os financistas que se agarram e sugam os dividendos do crescimento econômico real (para além do tripé e da matemágica dos economistas). Não por outro motivo vemos uma série de petistas, e dos que se consideram os mais fiéis, aderindo a manifestações Anounymas e apolíticas com o mais profundo zelo. É aí que o PT se aproxima do PSOL, e cria o PSOL – partido fundado sob um factóide, o desvirtuamento do PT, ou seja, o mensalão.


A necessidade de se conhecer e de se apoiar nossos históricos movimentos sociais

Não por outro motivo falamos aqui da instrução pública e o que isso tem a ver com o mapa eleitoral e com os níveis de consciência e participação política da população. Lembro agora das camadas mais humildes da população que tiveram um aumento real da qualidade e da expectativa de vida, e que parece que por esse motivo aderiram ao que há de mais reacionário em nossa vida pública. Podem se aferrar ao brizolismo ou considerá-lo um paraíso perdido; podem proclamar aos quatro ventos suas raízes humildes e como por conta própria ascenderam socialmente, mas para exaltar Adam Smith.           Que tipo de consciência é essa que demonstra cabalmente que a mente humana nunca foi nem nunca será uma “tabula rasa”? O que os move com a casa reformada (muitos com dívidas, ainda que quitáveis), aparelhos domésticos impensável num espaço historicamente curto de tempo (5 – 10 anos), carro novo, etc., acharem que foi por simples vontade própria que conseguiram esse Grande a mais? E o que é pior, se colocarem dentro da Casa Grande e criticarem como o mais ilustrado liberal as transformações do país... Só sendo brasileiro mesmo, espírita ou macumbeiro, para explicar situações como essas... E no outro lado tem os liberal-conservadores que, com alucinações fascistas como o presidente Schereber, ainda assim votam no PT, como se com os músculos à mostra empurrassem a locomotiva do progresso... Nada mais do que ser politicamente correto – ou tirar vantagens disso, social ou financeiramente (ou ambos conjugados). Aí, se falarmos de Eduardo Cardozo, Palocci, Paulo Bernardo e etc. (cadê os Três Porquinhos?), com certeza nos daria um desânimo geral da política e nos anestesiaríamos vendo qualquer Porta dos Fundos – infelizmente nos tornando ao fim, para direita ou pra esquerda, um liberal conservador. A triste vida dos melancólicos: ah, Freud! Ah, Analista! SALVE-ME. Quanto custa? E a cura, vêm quando? O importante é a análise (quer dizer auto-análise). Ah, tá. Quanto é? Não, vou vender livros, romances: assim faço auto-análise (e a auto-análise estética – muito refinada) e ainda faturo algum.
Então vamos falar de João Pedro Stédile. Melhor: deixe ele falar do PT e dos desafios atuais do Brasil. Deixe ele falar do Brizola. Deixe ele falar do que quer que seja. Pelo menos deve falar das cooperativas do MST e dos desafios desse modelo de desenvolvimento no Brasil atual – modelo histórico, mundial, NUNCA DANTES visto. Deixe ele falar muito inteligentemente tudo o que quiser. E deixe o Trim-trim e o Plim-plim do Bernardo e todo o Tripé edipiano para lá. Assim se progride na instrução pública nacional.
Mas, falaria alguém: essas todas são ilusões perdidas... Como se conhecesse a Via Campesina Brasil, o que se debate nos acampamentos do MST, nos sindicatos com compromisso com o país, nas câmaras, com políticos competentes que lutam pela educação em todas as esferas da federação – quais os desafios futuros da educação? Aonde se dá o debate sobre a saúde? Quais seus desafios? Enfim, todos esses preferem ficar desiludidos, em luto e melancolia, ouvindo ao fundo as companhias do Plim-Plim – quer queira, quer não. Ah, não! Vamos virar black blocks e quando mais velhos nos filiar a um movimento no estilo do Cansei. E ostentar um colar de tomates como o da Ana Maria Braga! Ah, a inflação... Realmente ela está ali; realmente ela está ali para  inflação como os vinte centavos para o problema do transporte público.
E o cidadão consciente, politicamente esclarecido, gosta do Verde, do desenvolvimento da bioesfera planetária. São estudiosos de Vladimir Vernadsky, de Lyndon LaRouche e da concepção de ciência e tecnologia de Leibniz. Mas não... Não?! Sim, querem, com certeza, cada vez mais ciência e tecnologia para incrementar sua vida privada. Mas qual ciência e qual tecnologia vão abastecer de energia seus belos aparelhos modernos? Moinhos de vento? E não só seus pequenos aparelhos egóticos. Qual ciência e qual tecnologia irá saciar a sede e a fome de tantos? A África explorada pelos seus minerais, como também o Brasil. Aqui não possuímos diamantes de sangue, mas temos a energia e o sangue de nosso país sendo roubados pela Vale, vendida ao preço de um picolé de chuchu e deixa uma vazio no tesouro mais significativo que o sorriso de FHC. Sangue exsudam aqueles trabalhadores para fazer render diamantes aos seus dirigentes. E falam contra Belo Monte e a Vale segue sendo um Paraíso Terreal. Mas o que tem de comum entre o evangelismo de Marina e o ambientalismo que optou por adotar e a questão dos limites? Como disse o Clube de Roma e falam todos os verdes: “há limites para o crescimento”.
Para os evangélicos, os neopentecostalistas, os radicais do Velho Testamento que não compreenderam o evangelho de amor do Cristo, o conhecimento ancestral do apóstolo Paulo que soube traçar a distinção entre a velha e a nova sabedoria, igualmente existem limites, limites para a salvação. Reeditam as fogueiras eternas dos padres conhecedores do infernal Tomás de Aquino, seu espírito de Cruzada contra todos aqueles que vão contra suas opiniões. Somente seguindo os ditados das civilizações arcaicas que deixaram seu testemunho escrito no velho livro bíblico (quem sabe até as recomendações de Moisés relativas ao roubo de bois, quando o proprietário era culpado por causa da ausência de víveres comum ao povo exilado) é que se encontrará, segundo eles, a salvação. Os mais bizarros ditados, os mais toscos padrões de justiça, os mais bizarros personagens: todos são alçados à estatura de Sua Santidade para ditar ao rebanho da sociedade agro-pastoril as normas do bom viver. Aquecimento global, não proliferação nuclear, energia limpa: vocabulário tosco e arcaico. Existem limites para o crescimento no mesmo sentido que nunca cresce uma sociedade feudal dominada pelos oligarcas. Só o ditado de feudalistas vivendo no regime de moinhos de vento pode pressupor o genocídio, pois o que clama o Clube de Roma, a rainha da Inglaterra e todas as famílias oligárquicas européias, e o governo invisível do mundo é o genocídio. Assim foi no Mahabharata. Assim é relatado na Ilíada: guerra de extermínio. Em quase todos, senão em todos os relatos antigos, os grandes avanços científicos foram postergados pelas guerras de extermínio. O que querem os que pressupõem limites para a salvação? Quem é que poderá viver nesse mundo? Que tipo de preparo é esse? Qual oligarquia sobreviverá?
Para fechar esse texto mais longo do que o previsto, vou me prolongar um pouco mais, porém com a ajuda de Hildegard Angel. É tão cristalina sua indignação quanto sua visão do momento atual pelo qual passa nosso país. Na verdade, há um país que surge: isso é bem claro quando falamos da dignificação do pobre e da ascensão social dos que antes eram miseráveis. Agora, quanto ao nosso passado, quanto a nossa elite que acostumamos acreditar que não era uma oligarquia, nosso homens representativos – quanto a esses Hildegard é bem enfática enquanto compreende profundamente os mais complexos meandros pelos quais tateia nossa via pública atual. Com o perdão da citação inteira, e destaques meus, segue o luminoso texto:

Recebo diariamente comentários carregados de ódio contra José Genoíno, que me abstenho de publicar até por vergonha de seu teor, vergonha pelo desequilíbrio e o descontrole dos remetentes. A falta de discernimento, querendo atribuir a este homem combativo todos os males do país. Daí que a prisão não basta. É preciso a morte. A imolação final. A cruz.
É preciso a volta das torturas. Da ditadura. Este, o subtexto das tantas mensagens enviadas.
A que ponto essa mídia manipuladora, essa pseudo esquerda democrática, esse suposto “centrão” levaram o nosso país!
A que abismo a omissão daqueles que poderiam se posicionar, protestar e agir, está levando a nossa Nação.
A quanto estamos chegando com o silêncio dos nossos formadores de opinião influentes, nossos artistas politicamente conscientes e articulados. Os intelectuais, pensadores, jornalistas de porte.
São tão poucos os que ousam falar, se manifestar. Um, dois, três, quatro ou cinco. A pasmaceira, a imobilidade, o acomodamento prevalecem. O Brasil que pensa e raciocina está congelado, em estado de letargia.
Os com bagagem intelectual, política, de memória, conhecimento histórico e político para se manifestar se calam. Certamente envelhecidos, provavelmente acomodados, talvez acovardados, quem sabe desesperançados.
Os jovens de nada sabem. Não viveram a História recente do país. Não lhes deram a chance de saber. Lhes sonegaram o conhecimento nas escolas sobre os fatos. O patriotismo caiu em desuso. Os sonhos globalizaram. Soberania virou palavra empoeirada que se encontra no sótão – se é que ainda existe sótão -, dentro de algum baú – se é que há baú -, no interior de um papel amarelado, se houver ainda alguma folha de papel sobrevivente nessa era digital.
Os velhos sábios não falam. Se calam. Voam para Nova York, refugiam-se em Paris. Precisamos dos velhos, imploramos aos velhos. Falem, reajam!
Não é questão mais de uma posição partidária, trata-se de uma postura de Soberania brasileira, de Pátria, de Estado de Direito.
Triste ver crescer sobre nosso Céu, nossos tetos, nossa alma, nossos ambientes, nossa consciência, a mancha escura da obtusidade, do receio da livre manifestação, do silêncio, do embrutecimento coletivo. Do medo.
Quando eu me vejo, aqui, escolhendo palavras para não resvalar num erro, num equívoco, num excesso que me possa custar a liberdade ou que me valha antipatias graves, retaliações, sinto a gravidade do momento que estamos vivendo.
Quando uma única cidadã de bem não respira a liberdade, a Pátria não está mais livre.
Quem permitiu, por omissão, inoperância, ambições e conveniências políticas que o Brasil caminhasse para trás, chegando a tal retrocesso de consciência, a ponto de apagar os méritos de sua própria História e ao extremo de aclamar a vilania de seus opressores, ainda vai se arrepender demais. Pagará alto preço por isso. Estamos entrando num caminho sem volta. E que Paris tenha muitos apartamentos charmosos para acolher a todos os valorosos omissos.
Perdoai-os, Senhor, por sua omissão![10]

Comparados aos supostos luminares, quem são estes que não ousam falar? E esses jovens de educação tão rala, tão mal intencionada? Como a educação pressuposta no mensalão ou o moralismo suposto no PSOL. Cadê a pátria? Está na cadeia. Na verdade, é preta, pobre e petista. Além de tudo é terrorista, pois lutou ao lado e hoje continua a admirar Marighella. E a tortura, a ditadura e a lógica da Guerra Fria continuam. Não foi por outro motivo que discorremos até agora sobre o gravíssimo tema da instrução pública.




[1] Em: Estulin, Daniel. La historia definitiva del Club Bilderberg. Barcelona: Editorial Planeta, 2008.
[2] Texto dos editores da revista 21 st Cetury Science & Technology. A call for a international crash program: creating the fusion economy. Reportagem especial: Nuclear NAWAPA XXI: gateway to the fusion economy.
[4] Ver as excelentes palestras e publicações de Maria Lucia Fattorelli. http://www.auditoriacidada.org.br
[5] Um caso classe desse tipo de “caixa de fundo falso” é a editora Companhia das Letras. Nominalmente pertence a família Moreira Sales e ao casal Schwarcz. Depois de uma pesquisa simples encontramos Itaú, Peguin Books, e firmas controladoras de publicações democráticas como The Economist e Financial Times como os verdadeiros proprietários e controladores da editora.
[6] Ele fala isso, mas não deixa tão claro (digo explícito) em seus artigos, num programa da Brasiliense.org (apresentado por Luis Nassif) da época dos protestos.
[7] Igualmente, como fala o professor na entrevista, saímos de uma democracia oligárquica como a Grega para almejarmos novos patamares democráticos no mundo moderno.
[8] Santos, Wanderley Guilherme dos. Ação Penal 470: uma exceção para a história. Publicado no portal Carta Maior em 15/11/2013.
[9] Santos, Wanderley Guilherme dos. Black blocs: os primos sem máscara. O Cafezinho, 31 de outubro de 2013. Disponível em: http://www.ocafezinho.com
[10] Angel, Hildegard. Brasil entra em caminho sem volta: que Paris tenha muitos apês charmosos para acolher a todos os omissos. Publicado em 28 de novembro de 2013 em: http://www.hildegardangel.com.br

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

2 comentários:

  1. Caro Rogério, vou ler seu blog doravante para conhecê-lo e para saber para aonde olhas. Interessante seu conhecimento e pensamento.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, meu amigo! Um abraço e continuamos a trocar aquela ideia.

    ResponderExcluir

Licença Creative Commons
O Abertinho de Rogério Reis Carvalho Mattos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://oabertinho.blogspot.com/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://oabertinho.blogspot.com.br.