O tema e o tom do Camões de José Saramago

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O mercado editorial não é o campo de flores dos "campeões de venda", como a Companhia das Letras. É uma mercado sombrio, como o as brumas do Porto como descrita por Saramago, quando faz reviver Camões em sua peça teatral. Na foto, o mínimo cuidado editorial, com as ilustrações de Günter Grass, até para compensar, visualmente, os apelos para a venda de um livro incompleto (Alabardas!). Não tem café grátis e, no dia a dia, só mediocridade, como descrito na crítica ao projeto gráfico da imperial Companhia editorial brasileira.

O Império suposto responsável por fazer de Camões um maneirista ao invés de um classicista, tinge com as mesmas cores melancólicas obras brilhantes de autores contemporâneos. No caso, Saramago, reeditando a partir da figura de Camões o furor heroico de Heitor, na mais exata acepção grega de acordo com a leitura renascentista, como atesta Giordano Bruno, tenta restabelecer as bases legítimas da guerra, ao contrário da fúria aquilina, do auto-amor magoado, do sujeito vingativo, do agente imperial capaz de cometer todas e quaisquer sandices, como Homero retratou com a descrição do lamentável funeral de Pátroclo.
A caixa de fundo falso que é a Companhia das Letras, repetindo paradigmas filosóficos-editoriais-mercadológicos que ecoam práticas do século das Luzes, como a caixa de fundo falso montada por Joseph de Maistre em seu Elogio ao Executor, mostra claramente as diferenças da civilização heroica do Renascimento, fundamentalmente mediterrânico, contra os prejuízos da hipotética ilustração dos países da civilização científica banhados pelo Mar do Norte.
No mais, fazemos às vezes do dr. Challenge (para mim, na humilde tradução, o dr. Charada), de Gilles Deleuze e Félix Guattari, no Mil Platôs. Confundimos os estratos, os tempos verbais, as camadas geológicas que formam o substrato da história terrestre. Nada mais atual do que os arcaísmos, como na arqueologia foucaultiana, na história da arte de Didi-Huberman, ou pelo amor ambivalente do historiador pelo passado. Qual seria, hoje, a cidade do Porto que José Saramago quis reescrever?



O tema e o tom do Camões de José Saramago

Um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto não se divisasse, como de costume, as naus; muito menos suas longas velas, brancas, porém que antes serviam como se fossem a bandeira nacional, como se estandartes da antiga gloria lusitana no mundo. Não que faltassem velas ou barcos, o porto estava movimentado como de costume. Contudo, tampouco pessoas podiam ser vistas como normalmente as vemos. O cheiro da canela, da pimenta, a voz dos marinheiros embriagados confundida com a gritaria dos vendedores que se apinhavam no ponto nodal da cidade, tudo isso parecia também imerso em trevas, na treva cinzenta que se apoderava naquela manhã da cidade do Porto. Um retrato mudo como mudos foram todos os retratos que os antigos se acostumaram a admirar, sem cinema, sem o domínio da reprodução eletrônica do som, sem a eloqüente figuração de personagens e eventos nas páginas dos romances modernos. Naquele momento em Portugal, somente silêncio e versos, versos ainda menos inteligíveis do que o inexpressivo burburinho do porto frente à névoa cinzenta, versos heróicos e bravos que são ainda maiores e mais altos do que a eloqüência humana frente a vitória lusitana nos tempos passados. Versos heróicos não como os do velho Camões, mas versos líricos acompanhados da mais profunda solitude, como vivenciou com grandeza o velho Camões. Por isso, um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto...
O tema da capa do livro de José Saramago, Que farei com este livro?, é ainda mais enigmático do que imaginar uma cidade do Porto coberta de névoa pesada, cinzenta, pois nada diz e, portanto, pode dizer qualquer coisa. A capa do livro editado pela Companhia das Letras pode servir para qualquer outro livro de Saramago, como a qualquer outro autor de qualquer área do conhecimento. É do tipo de arte abstrata como incentivada por Rockfeller, Fundação Ford e outros think-thanks durante o período conhecido como Guerra Fria cultural. Esse tipo de arte, não metafórica, nos conduz não apenas à simplicidade expressiva de sociedades consideradas menos evoluídas (quanto a esse tipo de “pensamento primitivo”, foi trabalho feito por Levi-Strauss durante toda sua vida em demonstrar a complexidade estética, religiosa e lingüística dessas sociedades), mas ao que se entende por desvio de foco. O mal não se encontra em deliberadamente, conscientemente, fazê-lo; antes, o próprio fato de não conscientemente, voluntariamente, fazer o bem, deixando as “coisas correrem” ou ser indiferente ao potencial de bem que posemos alcançar, por si só já é o início do mal. Portanto, quando deliberadamente se escolhe por um bem menor, ou por uma fórmula expressiva que não remete à complexidade da mentalidade humana, ou seja, a potencialidade da ação humana sobre o mundo, ainda que esta arte não seja em si má, é uma operação que encobre todo o bem potencial a ser realizado. No caso do livro, nada em seu exterior, muito menos em seu tratamento editorial, remete à metáfora produzida por Saramago ao falar através de Camões, talcomo Kepler fez em sua hipótese vicária ao falar como se fosse umantigo, porém para esgotar suas limitações e trazer a descoberta de um novo princípio físico para a humanidade.
A editora Companhia das Letras poderia, em determinado sentido, ser considerada um orgulho nacional devido ao seu inegável sucesso editorial. No entanto, o que enxergamos quando analisamos um pouco mais detidamente a estrutura dessa companhia é uma caixa de fundo falso, que remete a um outrem não devidamente reconhecível. Detém o controle acionário “nacional” o sistema bancário Itaú-Unibanco; contudo, 45% de suas ações foram compradas pela Penguin, outro sucesso editorial, só que do mundo anglo-saxão. A Penguin, por sua vez, se uniu a outro gigante do setor, a editora britânica Randon House; todas são controladas pela Person, empresa controladora de revistas como a The Economist e do jornal Financial Times. É notório o vínculo da chamada mainstream media com os bancos transnacionais, a indústria armamentista e instituições culturais como as de Ford e Rockfeller. Todo o pacote embutido no controle acionário da Companhia das Letras remete a essa caixa de fundo falso com uma bela embalagem, no caso em questão, a administração da editora por Luiz Schwarcz e sua mulher, historiadora e antropóloga, Lilia Moritz Schwarcz, e também a família Moreira Sales. Essa teia cujas cabeças nos são desconhecidas, por ser similar a mitologia Hidra, ainda controla grandes centros educacionais no Brasil e mundo afora, como é o caso do Sistema Educacional Brasil (SEB), do empresário Chaim Zaher, de Ribeirão Preto. Com isso, a afilhada da Person-Penguin-Randon House e co-irmão da The Economist e do Financial Times, Companhia das Letras, passou a ter mais alguns irmãos em sua família, no caso as marcas que trabalham com a educação COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name1.
Poderíamos compor um elenco de capas esdrúxulas dos livros editados pela Companhia das Letras, abstraindo um pouco do tema central de nossas palavras, ou seja, a peça de José Saramago. Não podemos fazer isso para não prejudicar o restante da análise com temas correlatos, porém é importante enfatizar que a relação entre livro e capa é oposta a da relação embalagem-caixa. Se o Itaú-Unibanco nada tem de nacional, antes trabalhando de acordo com as diretrizes financeiras dos think tanks internacionais, atuando dessa maneira como um global player na economia nacional, sem ao menos lhe passar pela cabeça a idéia de fomentar o desenvolvimento do país, a feia capa que esconde o livro de José Saramago e demais escritores não é suficiente para apagar o que foi escrito, ainda que as diretrizes editoriais dessas indústrias antes zelem pela ausência de um trabalho científico-editorial, ou seja, um posicionamento político-filosófico, que a permita contribuir e dialogar com a educação e a cultura no Brasil, e não fazer um trabalho de encobrimento dos valores culturais através da ostentação de suas supostas virtudes no mercado global e dos meros “títulos” que ostentam em seu catálogo.
O que está em jogo aqui é o contraposto claro a atonia dos personagens que se acotovelam numa cidade do Porto imersa em sombras. O escândalo, pressuposto necessário a paralisação das reações humanas normais e rotineiras, somente pode ser superado por um ato de natureza bem distinta e superior. Ao escândalo produzido pela corte corrompida do mitológico rei Sebastião, com seus vestais da ética fantasiados com os panos negros que semeiam o dissídio entre os seres humanos – cardeais, bispos, o papa – se contrabalanceia a razão camoniana, focada não tanto em palavras de ordem, em discursos moralizadores e gestos grandiloqüentes. A historiografia mais rudimentar é capaz de reconhecer a distância enorme que separa Camões e seu espantoso conhecimento erudito, do eruditismo de movimentos letrados como os dos iluministas franceses. Porém, essa historiografia rudimentar conhece apenas uma espécie de espaço-tempo newtoniano, uniformemente regular dentro de uma sequência infinita de eventos que ocorrem dentro de um espaço plano. O que separa a erudição camoniana da encontrada nas Luzes não é um suposto caráter mais moderno, científico, desta última. Se Rousseau pregava a ausência de representação para combater os problemas inerentes ao sistema representativo, no seu caso o personalismo à romana embutido no Absolutismo, Camões sai da ordem do discurso, do espaço plano newtoniano, das meras palavras ou do que se conhecesse hoje como “matemática pura”, e se posiciona no centro do escândalo que absorve todas as energias de sua pátria outrora gloriosa. Camões, como Heitor após ouvir o clamor de Helena, pode cantar assim:

Cortês e afável,
Não me contes reter: esta alma ferve
Por ajudar os que por mim suspiram.
Ativa Páris, que dos muros dentro
Se me reúna: a despedir-me corro
Da família, da esposa e do filhinho;
Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
Ou se domar-me ordene às mãos Gregos2.

A ironia do texto homérico não compreendida por Platão é a concepção que separa Heitor de Aquiles. Este é conhecido não só pelo calcanhar, mas por sua “fúria” e uma suposta descrição fantástica do seu escudo por Homero. Aqui, inclusive no mito do calcanhar, reside a ironia homérica. Aquiles, furioso com a morte de seu escudeiro Pátroclo, resolve esquecer os dissídios com Agamenon e entrar na guerra. Seu alvo é Heitor, o maior guerreiro de Tróia. Pode-se conceber uma ironia em Homero porque ele não faz uma crítica direta aos deuses; ele os louva, ao mesmo tempo em que mostra toda a confusão gerada por eles. Os deuses fomentadores de guerra da Grécia arcaica são contrapostos pela nobreza guerreira de Heitor, amante da pátria, da sua família e de seus conterrâneos. A destruição da lendária Ílion, dos construtores de cidade nas terras banhadas pelo mar Egeu, dos filósofos pré-socráticos e do início do renascimento do mundo antigo ocorrido a partir da Grécia, é retratada por Homero como uma trama dos deuses, dos deuses oligarcas, tal como no império invisível que assolou com guerras e destruição todo o século XX e continua espalhar o caos no século atual, principalmente nas sociedades construídas no norte do Atlântico. A intriga dos deuses, o escândalo por eles provocado a fim de levar a destruição a formosa cidade retratada na Ilíada, é a ironia incompreendida por Platão, incapaz de reconhecer Heitor como protótipo do guerreiro que menospreza a vida com o objetivo de salvá-la. Por isso, Saramago relembra, dentre tantos versos dos Lusíadas, especificamente estes, dramatizando-os:

LUÍS DE CAMÕES

(lendo e acentuando progressivamente a ênfase)

Dai-me uma fúria grande e sonorosa, / E não de agreste avena ou frauta ruda, / Mas de tuba canora e belicosa, / Que o peito acende e a cor ao gesto muda; / Dai-me igual canto aos feitos da famosa / Gente vossa, que a Marte tanto ajuda: / Que se espalhe e se cante no universo, / Se tão sublime preço cabe em verso. (Falando como se pensasse). Aqui é que deverá entrar a dedicatória a el-rei... (Lendo outra vez). E vós, Tágides minhas... (Fala). Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio... Grandes coisas são estas que sonha el-rei... (Torna a ler). E vós, Tágides minhas... (Fala). Um verso, para começar, que emparelhasse com este, um vocativo... (Começa a ouvir-se a sineta da galera dos mortos da peste). E vós, ó bem nascida segurança... Sim, isto será... (Senta-se à mesa, puxa pena, papel e tinta e começa a escrever. A sineta vai aumentando de intensidade) E vós, ó bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade, / E não menos certíssima esperança... (Vai diminuindo o tom, enquanto diminui também o toque da sineta e a luz baixa)3.

Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio... Grandes coisas são estas que sonha el-rei...”. Assim pensa Camões enquanto escreve seus versos. Segundo Saramago, Diogo do Couto vê sombras. Como ser diferente, devido a sua longa estadia nas Índias, com a visão de todos os descalabros cometidos pelos portugueses naquelas terras? Camões, pelo contrário, canta o alvorecer da glória portuguesa, a faina guerreira que levou seu povo às maiores glórias. Ao contrário da prosa crepuscular de Couto, Heitor renasce em seus versos, como o único caminho capaz de tirar sua pátria do atoleiro imposto pelo rei lunático e o fanatismo imposto pelo Santo Ofício. Porém, são crepusculares os diálogos teatrais de Saramago, como também foi a conturbada vida de Camões. Este conseguiu publicar sua grande obra, ninguém ainda hoje sabe ao certo como. O que é certo é que só publicou depois de assistir ao aprisionamento e depois assassinato de seu amigo, o humanista e historiador Damião de Góis, um dos mais ácidos críticos da decadência portuguesa. É pela bravura, pela coragem indômita, tal como a dele, a de Diogo Couto, a de Damião de Góis, que clama o poeta. É a partir dessa coragem que nasce sua vontade de saber, não importa sob quais circunstâncias. Na pobreza e miséria da Índia ou de Portugal, Camões esculpiu seus bravos versos, não como o intelectual bem remunerado ou agraciado nos salões como os “iluminados” da sociedade científica dos séculos XVII e XVIII. Estes, por sua vez, são os pressupostos necessários para se entender a luta pela ausência de representação, pela supressão da ordem e ascensão da personalidade carismática, tal como ocorrido no período do Terror jacobino.
O jacobinismo, regiamente pago pela Companhia das Índias Orientais britânica, procurava fazer subir ao poder seu “carismático” rei, carinhosamente chamado, em tradução livre, de Felipe Igualdade4. O Bourbon, amigo do banqueiro suíço Jacques Necker, foi a tentativa falha realizada posteriormente pelo primeiro fascista moderno, Napoleão. Queimados na pira revolucionária – onde parece que se ergueu a primeira guilhotina como para lembrar a primeira fogueira acessa na fatídica Noite de São Bartolomeu –, Robespierre, Danton, Marat, são os modelos do tipo de criticismo contemporâneo em torno fundamentalmente de assuntos políticos. Reeditam a fúria do semi-deus Aquiles, e encontram a morte por meio de destino semelhante ao de seu ídolo. Quando sua mãe Tétis o avisa que caso entrasse na guerra, ao pelejar contra Heitor, não escaparia da morte, é o mote para Homero brilhantemente construir a fábula do calcanhar do herói, sendo a flecha que o acerta nada além do velho significado deste símbolo, ou seja, a verdade, filha da precisão e da destreza dos nobres heróis que corajosamente a lançam. No caso, o errante Páris, incitado a guerra por Heitor, é quem coroa a tragédia, cobrindo de vileza o funeral do idolatrado semi-deus, capaz apenas de lançar poeira ao alto e contribuir ainda mais para a confusão, o escândalo e o genocídio que representam o fim da gloriosa Ílion. Este tipo de semi-deus que se ergue com a revolução na França, com toda sua fúria à moda de Aquiles, é do tipo de indignação que nasce do amor-próprio ferido, e da reação desproporcional que segue como a ação dos filhos dos deuses do Olimpo, no caso francês o império britânico patrocinador do fim do movimento científico que tinha por fim estabelecer as bases de um governo constitucional no país, ao invés do tipo de parlamentarismo refém dos interesses de um banco central independente, tal como o modelo britânico pressupunha, modelo este idêntico ao babilônico-aristotélico responsável pela queda de Ílion e da Atenas de Sócrates e Platão.
A distinção entre Heitor e Aquiles é fundamental para se entender o que desde a Grécia compreendemos como Ideia, ou seja, o modelo espitemológico platônico, e a ideologia da “grande prostituta”, como retratada por João em seu Apocalipse, que é aquela que fala muitas línguas e confunde os homens a fim de enredá-los em sua rede de intrigas – como nas redes tecidas pelos panfletos acusatórios jacobinos, rede fratricida cujo intuito era o colapso da ordem social vigente e dos debates que se faziam para superá-la através de um princípio epistemológico superior, o ordenamento constitucional. Esta rede são as que hoje cotidianamente produzem o escândalo ou a perversão cultural, como na Guerra Fria cultural, todos tendo a forma de uma caixa de fundo falso, como o cadafalso admirado por Joseph de Maistre, amante da revolução jacobina e teórico preferido de Napoleão; essa é a caixa de fundo falso que nos conduz a análise de instituições como a da global player Companhia das Letras, achada no mesmo saco de think tanks como The Economist, Financial Times, a editora Penguin, Itaú-Unibanco – sem esquecer da face admirável, da antropóloga e seu marido, mais a família Moreira Salles, como supostos controladores da editora. É bom relembrar as célebres palavras de Maistre em seu elogio ao Executor, o qual, segundo Isaiah Berlin, estava nas origens do fascismo, como bem exemplifica seu maior seguidor, Bonaparte:

Qu’est-ce donc que cet être inexplicable qui a preféré à tous les métiers agréables, lucratifs, honnêtes et même honorables qui se présentent en foule à la force ou à la dextérité humaine, celui de tourmenter et de mettre à mort ses semblables ? Cette tête, ce coeur sont-ils faits comme les nôtres ? ne contiennent-ils rien de particulier et d’étranger à notre nature ? Pour moi, je n’en sais pas douter. Il est fait comme nous extérieurement; il naîte comme nous; mais c’est un être extraordinaire, et pour qu’il existe dans la famille humaine il faut un décret particulier, un FIAT de la puissance créatice. Il est comme un monde. Voyez ce qu’il est dans l’opinion des hommes, et comprenez, si vouz pouvez, comment il peut ignorer cette opinion ou l’affronter ! A peine l’autorité a-t-elle désigné sa demeure, à peine en a-t-il pris possession, que les autres habitations reculent jusqu’à ce qu’elles ne voient plus sienne. C’est au milieu de cette solitutde, et cette espèce de vide formé autour de lui qu’il vit seul avec sa femelle et ses petits, qui lui font connaître la voix de l’homme : sans eux il n’en connaître que les gémissements... Un signal lugubre est donné ; un ministre abject de la justice vient frapper à sa porte et l‘avertir qu’on a besoin de lui: il part; il arrive sur une place publique couverte d’une foule pressée et palpitante. On lui jette un empoisonneur, un patricide, un sacrlège : il le saisit, il l’étend, il le lie sur une croix horizontale, il levé le bras : alors il se fait un silence horrible, et l’on n’entend plus que le cri des os qui éclatent sous la barre, et les hurlements de la victime. Il la détache ; il la porte sur une roue : les membres fracassés s’enlancent dans les rayons ; la tête pend ; les cheveux se hérissent, et la bouche, ouverte comme une fournaise, n’envoie plus par intervalle qu’un petit nombre de paroles sanglantes qui appellent la mort. Il a fini: le coeur lui bat, mais c’est de joie; il s’applaudit, il dit dans son couer: Nul ne roue mieux que moi. Il descend : il tend sa main souillée de sang, et la justice y jette de loin quelques pièces d’or qu’il emporte à travers une double haie d’hommes écartés par l’horreur. Is se met à table, et il mange ; au lit ensuite, et il dort. Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille. Est-ce un homme ? Oui : Dieu le reçoit dans ses temples et lui permet de prier. Il n’est pas criminel ; cependant aucune langue ne consent à dire, par exemple, qu’il est vertueux, qu’il est honnênte homme, qu’il est estimable, etc. Nul éloge moral ne peut lui convenir ; car tous supposent des rapports avec les hommes, et il n’en a point.
Et cependant toute grandeur, toute puissance, toute subordination repose sur l’exécuteur : il est l’horreur et le lien de l’association humaine. Ôtez du monde cet agent incompréhensible ; dans l’instant même l’ordre fait place au chaos, les trônes s’abiment et la société disparaît. Dieu qui est l’auteur de la souveraineté, l’est donc aussi du châtiment : il a jeté notre terre sur ces deux pôles : car Jéhovah est le maître des deux pôles, et sur eux il fait tourner le mond5.

No tom épico do texto de Joseph de Maistre, a saga do Executor é retratada como a do Cordeiro imolado, porém nunca morto. Ele ressurge após a execução, volta para casa, come e dorme: “Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille”. Ele é um homem, pergunta Maistre? Claro, Deus o recebe em seu seio e permite que ele ore, ainda que nenhuma voz ouse se levantar para chamá-lo de virtuoso, de honesto, de admirável. Toda grandeza, todo o poder, contudo, reside nele. Tal como a caixa de fundo falso, ele é ambivalente, ambíguo como o Deus bipolar que faz o mundo girar. Ele é o Deus do cadafalso, da guilhotina, do jacobino Tribunal da Razão, da acusação sem provas, do amor pelo terror. É como o doutor Angélico fornecendo as premissas teóricas para as Cruzadas dos papas ultramontanos: o problema não são os infiéis, mas o que eles podem representar. Faremos, portanto, uma guerra de prevenção contra todos aqueles que podem, algum dia, levar a perder a hegemonia católica no mundo. Façamos guerra aos que chamamos infiéis, presumindo-os culpados por um crime que talvez nunca venham a cometer. Assim se chega às guerras preventivas de Bush Jr. e Dick Cheney no Iraque e no Afeganistão; assim chegamos ao tipo de acusação tendenciosa dia a dia feita pelos conglomerados midiáticos que se ramificam mundo afora, e dos quais a estimada Companhia das Letras faz parte.
Depois de condenar os hereges à morte, ainda que revogável com o perdão papal caso se submetam às diretrizes católicas, o doutor Angélico assim se expressa (em tradução livre do inglês, por não ser redação original):

Existem alguns infiéis como os gentios e os hebreus que nunca aceitaram a fé cristã. Esses não podem de nenhuma maneira serem forçados a acreditar... A força apropriada deve ser usada pelos fiéis para prevenir que eles interfiram na fé com a blasfêmia ou vis estímulos, ou perseguição aberta... Essa é a razão pela qual os cristãos freqüentemente fazem guerra aos infiéis, não para forçá-los a acreditar... mas para prevenir que eles interfiram na fé cristã. Contudo, existem outros infiéis, como os heréticos e todos os apóstatas que uma vez aceitaram e professaram a fé. Esses devem ser obrigados, ainda que pela a força física, a cuidarem do que eles prometeram e manter o que eles uma vez aceitaram6.

Como José Saramago poderia compartilhar de semelhante sentimento ao destacar os bravos versos camonianos? O que podemos destacar como uma tendência recorrente em toda sua extensa bibliografia (que não se evade, antes procura os temas espinhosos, históricos e políticos), é a serenidade, a capacidade de julgamento lúcido, ainda que incisivo, sem ter sido pego nas teias das ideologias fabricadas mundo afora, cujo intuito é reeditar o tipo de cisão cultural e política entre os homens, tal como na Guerra Fria. Guerra ao terror, guerra à corrupção, como se faltassem alternativas viáveis para se discutir dentro do terreno político, como por exemplo projetos de infra-estrutura e integração entre a Europa e o Oriente Médio. Não, só guerra e acusações infundadas. Como se no combate a corrupção não estivesse em jogo o modelo do sistema político, no caso brasileiro moldado por Golbery, numa espécie de parlamentarismo disfarçado, onde vemos o poder executivo refém dos interesses de um Parlamento que atende às vozes dos interesses bilionários que o patrocina. A moralização da política nesse sentido serve apenas para levar ao poder figuras carismáticas, controladas por interesses complexos dentro da rede de tramas do oligopólio financeiro internacional – ninguém é mais símbolo desse estilo de poder “moral” do que Hitler...
Por isso Saramago não se enreda nessas redes. E é por esse mesmo furor guerreiro ou furor heróico, como nomeou Giordano Bruno, que Camões, como Gil Vicente em sua época, incita a pátria à guerra. Como os reis guerreiros da Idade Média, ainda na Renascença é impossível pensar em riqueza sem a expansão das fronteiras nacionais, o que implicava a guerra de conquista. A Conquista de Ceuta é o marco do novo estado que surge com a dinastia de Avis. O que já em Gil Vicente, e de maneira ainda mais veemente, quiçá desesperada, aparece em Camões, é a necessidade do Estado voltar a se expandir, trazendo a riqueza do comércio para a população, e não se enredando nos descaminhos do ganho fácil, dos nobres que parasitam a corte já no reinado de D. Manoel. É de sacrifício próprio e não o alheio que fala Saramago, Camões e Gil Vicente. Este, na voz de Annibal, em Exortação da Guerra, assim se expressa:

Deveis, Senhores, esperar
Em Deos que vos ha de dar
Toda Africa na vossa mão,
Africa que foi de Christãos,
Mouros vo-la tem roubada.
Capitães ponde-lh’as mãos,
Que vós vereis mais louçãos
Com famosa nomeada.
Ó Senhoras Portuguesas,
Gastae pedras preciosas,
Donas, Donzellas, Duquezas,
Que as taes guerras e emprezas
São propriamente vossas.
He guerra de devação,
Por honra de vossa terra,
Commettida com razão,
Formada com discrição
Contra aquella gente perra.
Fazei contas de bugalhos,
E perlas de camarinhas,
Firmaes de cabeças d’alhos;
Isto si, Senhoras minhas,
E esses que tendes dae-lh’os.
Oh! que não honrão vestidos,
Nem mui ricos atavios,
Mas os feitos nobrecidos;
Não briaes d’ouro tecidos
Com trepas de desvarios:
Dae-os pêra capacetes.
E vós, Priores honrados,
Reparti os Priorados,
A Suiços e soldados,
Et centum pro uno accipietis.
A renda que apanhais
O melhor que vós podeis,
Nas igrejas não gastais,
Aos pobres pouco dais.
E não sei que lhes fazeis.
Dae a terça do que houveres,
Pera Africa conquistar,
Com mais prazer que puderdes;
Que quanto menos tiverdes,
Menos tereis de guardar.
Ó senhores cidadãos,
Fidalgos e Regedores,
Escutae os atambores
Com ouvidos de christãos.
E a gente popular
Avante! não refusar.
Ponde a vida e a fazenda,
Porque para tal contenda
Ninguem deve recear7.

O objetivo das guerras de conquista ou pelo menos a admoestação a esse tipo de prática por poetas como Vicente e Camões, ou seja, de D. Manoel a D. Sebastião, é para impedir o parasitismo cortesão, como minuciosamente demonstrado na recriação da Portugal quinhentista por José Saramago. A soberania do reino fora extinta pela submissão ao Santo Ofício, fato verificado a partir de D. João III. O rei jovem, D. Sebastião, sem visão estratégica de governo e influenciado de forma malsã pelos padres da Companhia de Jesus, empreende uma guerra com objetivo utópico no Marrocos, com pouca ou quase nenhuma possibilidade de sucesso. As trevas que caem sobre Portugal são tão densas no período em que a nação é dominada pelos jesuítas, que a simples convocação para a guerra como feita por Vicente não era mais possível. Havia antes de se lutar contra o inimigo interno, o inimigo alojado no coração do Estado, que sugava todas as suas forças materiais e mentais, num quadro em que o parasitismo se instalara talvez de modo definitivo. O próximo passo seria se submeter a um rei estrangeiro, este também um monarca católico, bem distante da tradição peninsular de independência frente a Igreja, tradição essa que lhe rendeu os maiores frutos, como os advindos dos Descobrimentos.
É pela voz de Heitor que chama Saramago, no horizonte distante que faz ecoar os versos de Camões, já fatalmente submerso nas trevas entrevistas por Gil Vicente décadas antes. Saramago-Heitor tateia nas sombras da escuridão milenar que procura separar o mais legítimo sentimento de defesa da pátria e de seus iguais, num Portugal refém de um suposto “concerto europeu” que iria desembocar no Tratado de Lisboa8, ou seja, na tentativa de artificialmente criar uma unidade política européia a partir da união monetária. A Troika, como o jesuitismo alhures, nesse momento em que Saramago não tem mais olhos para ver o destino de seu país, ergue seu manto cinzento sobre o “concerto europeu”, levando a velha dama Europa a um passo do abismo, incapaz de ouvir a voz de Heitor que ecoa na planície – incapaz de ouvir o tema que incita à coragem. O tom é de névoa cinzenta e o tema é desagradável para todos aqueles que se acostumaram a viver na caixa de fundo falso, nas sombras da caverna platônica, no mundo dos sentidos, no mundo do escândalo jacobino, e da impotência do cidadão médio fascinado frente ao esplendor das luzes que descem do Olimpo – como se realmente fossem luzes, e não névoa cinzenta. Divide et impera, como sempre, o lema.

2 Homero, Ilíada. Tradução de Odorico Mendes. Campinas, Editora UNICAMP, 2010. Canto VI, p. 249.
3 Saramago, José. Que farei com este livro?. Lisboa: Editorial Caminho, 1980, p. 54.
4 Uma excelente referência ao assunto são dois artigos, feitos a partir de inéditas fontes primárias, publicados por Pierre Beaudry no semanário norte-americano Executive Intelligence Review, com os títulos de Jean Sylvain Bailly: The French Revolution's Benjamin Franklin e Why France Did Not Have an American Revolution?. Podem ser lidos em: http://www.larouchepub.com
5 Extraído das Soirées de Joseph de Maistre, publicado no apêndice do ensaio de Isaiah Berlin, Joseph de Maitre and the Origins of Fascism. Em: Berlin, Isaiah, The crooked timber of humanity: chapters in the history of ideas. Nova Jersey: Princeton University Press, 2013.
6 Aquino, Tomas de. Summa Theologia, ii, ii, Q.10, Art. 8. Extraído de: Beaudry, Pierre. The Ultramontane Papacy. Publicado no site pessoal do autor: http://www.amatterofmind.org
7 Vicente, Gil. Exortação da Guerra. Obras Completas, Porto: Lello & Irmão Editores, 1965, p. 214 – 215.

8 A Carta de Lisboa pode ser um eixo de análise a partir do qual se contrapor ao infame Tratado. A história de Darcy Ribeiro é fonte merecedora da mais legítima atenção, caso queiramos nos contrapor ao estilo de fascismo imposto atualmente, ainda mais se pensarmos no ocaso da civilização que se desenvolveu às margens do Mar do Norte (chegando ao norte da América), e no fascismo que hoje a derruba e querem nos impor. Fascismo londrino por excelência e norte-americano por descendência.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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