A Teoria da Dependência e a fraude do projeto nacional do PSDB

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Dando sequência ao texto que publicamos sobre a Fundação Ford, e como comentamos na postagem, não dá para entender sua atuação no Brasil sem estudarmos sua atividade junto ao CEBRAP e no amparo a intelectuais como Fernando Henrique Cardoso. Da cópula monstruosa, saiu a deturpação da teoria da dependência. Cardoso levou os louros, à época, por ser seu genial criador e propagador. Os "dependentistas", strictu sensu, como Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini e Theotonio dos Santos, ficaram relegados a um papel de segundo plano no Brasil. Trabalharam e construíram suas teses no exílio. Antes da ditadura, porém, trabalharam com Darcy Ribeiro e ajudaram na criação da UnB, projeto abortado em suas intenções iniciais pelo golpe.
Existe toda uma mitologia, muitas histórias, sobre a Teoria da Dependência e seus grupos, que procuraremos esclarecer com o tempo neste blog. Segue uma primeira publicação, já que FHC adotou na prática, em seu governo, tudo o que escrevera. Não é válido o que disse (entre tantas outras coisas): "esqueçam o que escrevi". Ele nunca pensou ou agiu diferente. Sua teoria da dependência foi o que fez a associação de capitais da economia brasileira com o capital especulativo estrangeiro e quebrou o país três vezes, fora os descalabros para a sociedade brasileira tendo que enfrentar seu neoliberalismo ultra radical. Uma primeira parte dessa história é o que segue abaixo.

A Teoria da Dependência e a fraude do projeto nacional do PSDB


Assim se expressou Ruy Mauro Marini, em seu ensaio clássico intitulado “Dialética da Dependência”:

[...] o rancor de Fernando Henrique Cardoso e de José Serra em relação a minha análise econômica não os leva à atitude suicida de rejeitar a existência de contradições no modo de produção capitalista. Além disso, o reformismo em suas diversas variantes mostrou que é possível aceitá-las sem que isso implique assumir uma posição revolucionária. Não, o que Cardoso e Serra não podem aceitar é que se identifiquem contradições concretas na sociedade latino-americana e, em especial, na brasileira. Diante disso, clamam pela pureza do marxismo, querendo reduzi-las outra vez à contradição abstrata, ou não vacilam em lançar mão de analogias formais e por isto mesmo caricaturescas, para desqualificar a possibilidade de que essas contradições concretas sejam reconhecidas1.

Devemos lembrar que FHC, tal como Serra, está longe de ser o intelectual que procura aparentar. Serra, sem curso de graduação válido no Brasil, tampouco influenciou com suas obras quem quer que seja. Já o “príncipe da Sorbonne”, como costuma ser visto pelos seus asseclas no restrito universo acadêmico atual em nosso país, continua sendo estudado nas universidades. Mas podemos perguntar: o que se estuda de FHC? É um intelectual sem qualquer trabalho importante.
Por ter frequentado academias estrangeiras, só reflete nosso colonialismo incensar criaturas desse porte. Como disse Darcy Ribeironuma de suas últimas entrevistas, no programa Roda Viva, em 1995: FHC não tem obra, portanto não pode ser considerado um intelectual. Seu livro sobre a escravidão no sul do país parece uma troça, digna da tradição da literatura cômica e carnavalesca ou até pornográfica. Darcy, destacando esse fato, contrapõe outras regiões do Brasil que tiveram um relacionamento muito mais complexo com a escravidão. Por que o sul? Poderia, quem sabe, ser um ensaio de um trabalho mais importante. Porém esse trabalho nunca chegou a aparecer.
Como polemista, no entanto, a dupla em questão pode ser vista em toda sua pujança teórica. A “contradição abstrata” destacada por Marini é o sofisma da dupla para implantar a sua dialética da dependência. RMM entendia o Brasil como um sub-império, capaz de exportar inclusive aviões, mas sempre dependente do capital estrangeiro para dinamizar o mercado interno. Ora, é exatamente a fraqueza desse mercado que impede o desenvolvimento industrial nacional. Incentivamos determinadas indústrias no afã de que, a partir de cima, pudéssemos fazer girar nossa economia. Acabamos encontrando um organismo raquítico com uma cabeça desproporcional. A classe média nunca, por si, teve capacidade de liderar a modernização de nossa economia.
FHC e Serra, num artigo polêmico2, procuram reduzir à tese de Marini, deturpando-a a ponto de procurar fazer acreditar que o intelectual mineiro reduzia nossa economia a agro-exportação, comprometendo assim todo seu sistema teórico. Firmaram antes com Marini a certeza de que sua resposta estaria no mesmo caderno. Claro que não foi publicada.
A dupla, realmente, não tem nada no meio acadêmico que possa tornar claro suas teses, além do esvaziamento dos intelectuais engajados do período da ditadura, que fizeram escola fora do Brasil, como o próprio Ruy, Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e outros. Mas engana-se quem vê esse esvaziamento da corrente de pensamento crítico da “teoria da dependência” como simples difamação de intelectuais identificados com o liberalismo pós-moderno cujo centro é Washington. A realidade é que FHC e Serra ainda são identificados como “dependentistas”, como se de alguma forma fizessem parte dessa tradição. O erro, acredito, se encontra exatamente aí. Gunder Frank e outros, nenhuma relação guardam com nossa “era neoliberal” – o que é óbvio. Como podem ser estudados como críticos entre si numa mesma corrente é o que desafia a compreensão. O estudo da dependência de FHC só pode ser entendido como polêmica, pois nem validade teórica o “príncipe da Sorbonne” fez valer em seus panfletos. É um plágio, como o seu companheiro Serra e outros mimados pela mídia de plantão – lembremos novamente do “gênio” de Bill Gates”.

NOTAS 

1Marini, Ruy Mauro. “Dialética da Dependência”. In: (Org.) Sater, Emir e Santos, Theotonio dos. “A América Latina e os desafios da globalização”. Pág. 317.

2 Cardoso, Fernando Henrique e Serra, José. “As Desventuras da Dialética da Dependência”. Cadernos da Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), número 23.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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