O caso Arendt: Eickmann como o Cordeiro do nazismo

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Nos debates entre Lévi-Strauss e Fernand Braudel sobre as diferentes temporalidades que regem a história, em nenhum momento se discutiu quais povos ou raças teriam ou não direito à história. A publicação dos Cadernos Negros de Heidegger, em 2014, veio mostrar porque existe uma separação às vezes tão contundente entre filosofia e história, áreas que poderiam estar irmanadas.
Há grandes prejuízos no estudo da filosofia, principalmente se pensarmos em Kant, Hegel e toda uma escola alemã - sem contar a fenomenologia ou seu duplo, o existencialismo - que ainda é leitura obrigatória nos cursos. Não que a leitura historiográfica não tenha seus prejuízos, porém é menos oneroso confiar em Marc Bloch, Hobsbawm, Ginzburg ou Koselleck, do que nos difíceis autores alemães, do séc. XVIII ao XX. Não é uma questão de leitura fácil. É uma questão de que não se fala nada com nada, ou quando se fala alguma coisa é para louvar deuses questionáveis. Não vou me aprofundar aqui no que já venho debatendo tanto nos dois textos que publiquei aqui sobre "Foucault e a fenomenologia" quanto na série Antropologias. Como aponta muito bem João Ricardo Moreno na apresentação da tradução brasileira do livro de Emmanuel Faye, imagine estar no Brasil e, com Heidegger, pensar nos "cafres":
A natureza viva ou morta tem a sua história. Mas como acabamos de dizer que os cafres são sem história? Porque eles têm tanta história quanto os macacos e os pássaros. Ou bem seria possível, apesar de tudo, que a terra, as plantas e os animais não tenham história? Parece certamente incontestável que o que é perecível pertence logo ao passado; mas tudo que é perecível e que pertence ao passado não entra necessariamente na história. O que são as rotações da hélice do avião? A hélice pode muito bem girar dias inteiros; entretanto, fazendo isso, não acontece nada. Mas, claro, quando o avião transporta o Führer de Munique em direção a Mussolini em Veneza, então isso é história. O voo é um evento histórico, mas não o funcionamento da máquina, ainda que o voo só possa acontecer se a máquina girar. E, entretanto, não é somente o encontro dos dois homens que marca a história, mas o próprio avião entra para a história, e um dia, talvez, ele seja exposto no museu. Mas o caráter histórico não depende do número de rotações da hélice que passaram no tempo; depende do evento futuro que resulta desse encontro entre os dois Führer.

A discussão sobre os Cadernos Negros é bem longa... O livro de Faye, contudo, é anterior a essa publicação. Trabalhando com fontes primárias, reedita a história dos cursos de Heidegger enquanto reitor da universidade de Freiburg e cidadão de primeira-classe do nazismo. Chega a defender o fim das bolsas de estudo para os judeus, pois quem deveria recebê-las são os estudantes que trabalhassem na SA ou SS. E por aí vai a adesão quase acidental do filósofo do Daisen ao nazismo. Mas, e quanto a Hannah Arendt, a filósofa judia que nunca renegou seu mestre? Seria Eickmann uma metáfora dele, aquele que se utilizou do nazismo sem culpa, uma simples peça numa engrenagem gigante? A indiferença entre assassinados e assassinos pode ser vista nessa passagem da filósofa judia: "Une fois que l’on avait pénétré dans les usines de la mort, tout devenait accidentel et échappait complètement au contrôle de ceux qui infligeaient les souffrances et de ceux qui les enduraient. Et il y eut bien des cas où ceux qui infligeaient les souffrances un jour devenaient le lendemain à leur tour des victimes". Uma boa desculpa para anistiar os, dependendo do caso, mártires que pertenceram ao nazismo. Ou quando , de modo mais claro, "o mito da dignidade humana é um conceito arrogante". Na biografia que escreve sobre a alemã judia Rahel Varhagen, em que explicita seus apelos autobiográficos na confecção do texto, Arendt fala assim: «"Dans une société qui est, en gros, antisémite – et cela valait jusqu’à notre siècle dans tous les pays où vivaient des juifs –, on ne peut s’assimiler qu’en s’assimilant à l’antisémitisme"". O que mais falar?



Ficam mais algumas palavras de Faye, no livro ainda não publicado no Brasil:

"Arendt ne veut voir en effet dans Auschwitz et le génocide des Juifs qu’une “politique permanente de dépeuplement”! Elle se refuse à y reconnaître la traduction en actes d’une vision du monde élaborée et légitimée – dans des registres de langage différents mais qui plus d’une fois se croisent et se recoupent – tout à la fois dans les écrits des idéologues et acteurs directs du nazisme, comme Alfred Rosenberg et Adolf Hitler, mais également dans les œuvres de l’élite intellectuelle du mouvement, exemplairement représentée par Martin Heidegger et Carl Schmitt. Dans la vision arendtienne, l’intentionnalité du génocide des Juifs d’Europe s’estompe au profit d’une conception fonctionnaliste indéfiniment reprise après elle, pour laquelle l’extermination nazie n’aurait fait que porter à son paroxysme et à son point de rupture la dévastation de la modernité technicienne. Arendt aura ainsi pu passer, sans se contredire sur le fond, d’une interprétation du totalitarisme nazi comme expression d’un “mal radical”, dont l’“absence de patrie” de nos sociétés modernes serait porteuse, à la description des acteurs de l’extermination comme de simples exécutants, dépourvus de tout motif, incarnant la “banalité du mal”. (…) Dans cette conception, Martin Heidegger n’apparaît plus pour ce qu’il est véritablement, à savoir celui qui porte la responsabilité d’avoir procuré à la vision du monde et au mouvement nazis une légitimité d’apparence philosophique (…). Il se voit au contraire magnifié comme celui dont l’engagement hitlérien même confirmerait la “grandeur” et dont la pensée ouvrirait la voie à de salutaires contre-mouvements".

O úncio livro de Faye publicado por aqui.

O livro de Faye publicado por enquanto somente em francês tem um dossiê interessante, do qual extraímos algumas partes, e que segue aqui embaixo para os leitores desse blog. antes, a capa do livro objeto dessa postagem, que parece colocar muitas questões interessantes, e que em breve leremos.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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