O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea

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O Mao de Dali: isso não é arte, mas publicidade
Ricardo Lísias escreveu um romance com o título de "Divórcio". Prêmio Granta, escritor consagrado, passível de uma crítica forte, já que contemporâneo. Na sua tentativa de romance, consegue mostrar a idade do cinismo que vivemos, dos fluxos abstratos de capitais, do "capitalismo financeiro" e toda sua cultura refinada - ainda a psicanálise, ainda determinado cultivo do ego, ainda o pior do que as classes-médias podem apresentar. Numa época de golpes e austeridades financeiras mundo afora, o capitalismo é a única máquina social que se construiu como tal sobre os fluxos descodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda. Mostra "como ainda somos piedosos", na leitura de Nietzsche feita por Guattari e Deleuze.

O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea


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I

Deleuze e Guattari narram um deus das máquinas, Máquina Abstrata, Máquina Celibatária, Máquina de Guerra Nômade, Máquina Despótica Bárbara, todas sendo subordinadas a um regime dos fluxos e dos cortes – a produção desejante –, onde não há ausência ou a famosa “falta”, conceito motriz do tripé edipiano. O corpo pleno sem órgãos é onde se inscrevem os diferentes devires dos corpos movidos por estas máquinas, sobre-determinados pela paranoia ou a esquizofrenia: “o seio é uma máquina que produz leite, e a boca, uma máquina acoplada a ela. A boca do anoréxico hesita entre uma máquina de comer, uma máquina anal, uma máquina de falar, uma máquina de respirar (crise de asma)”. O conceito de máquinas é um dos mais ambivalentes jamais criados. Falaremos disto mais adiante. Vejamos o presidente Schreber sob este ângulo: “O presidente Schreber tem os raios de céu no cú. Ânus solar. E estejam certos de que isso funciona. O presidente Schreber sente algo, produz algo, e é capaz de fazer teoria disso. Algo se produz: efeitos de máquina e não metáforas 1”. Schreber, dementado, tem delírios fascistas, megalomaníacos – está grávido de Deus. Os órgãos do presidente são regenerados pelos raios de Deus que seu corpo atrai. Seu cú atrai os raios de Deus e ele sente prazer nisso. Caso não sinta prazer, volúpia mesmo, será castigado. Schreber devém mulher, quer dar nascimento a uma nova humanidade: “isto é tão verdadeiro quanto dizer que o esquizofrênico faz economia política, e que a sexualidade é questão de economia 2”. Schreber vira grão-mongol ao ultrapassar as barreiras que o faziam se identificar com a raça ariana: tudo reduzido à lei do pai, segundo a mitologia uniformizante baseada apenas em um argumento de ordem sexual, a panacéia universal utilizada por Freud, e “palavra alguma é retida do enorme conteúdo político, social e histórico do delírio de Schreber3”. Hitler dava tesão nos fascistas, assim como as bandeiras e símbolos do regime. E não importa “ser possuído por ele[s] tanto quanto possuí-lo[s]”, o que ocorre é “maquinar os grupos sujeitados dos quais se é peças e engrenagens, introduzir a si próprio na máquina para, finalmente, conhecer o gozo dos mecanismos que esmagam o desejo 4”.
Acontece que as Memórias de Schreber estão tomadas por uma teoria dos povos eleitos por Deus e dos perigos que corre o povo atualmente eleito, o alemão, ameaçado pelos judeus, pelos católicos, pelos eslavos. Nas suas metamorfoses e passagens intensas, Schreber devém aluno dos jesuítas, burgomestre de uma cidade onde os alemães se batem contra os eslavos, a moça que defende a Alsácia contra os franceses; por fim, atravessa o gradiente ou o limiar ariano para devir um príncipe mongol. Que significa esse devir aluno, burgomestre, moça, mongol? Não há delírio paranóico que não revolva tais massas históricas, geográficas e raciais. O erro seria concluir disso, por exemplo, que os fascistas são simples paranóicos; isto seria um erro, precisamente, porque no estado atual das coisas seria reconduzir o conteúdo histórico e político do delírio a um determinação familiar interna. E o que nos parece mais perturbador é que todo este enorme conteúdo desapareça completamente na análise feita por Freud: nela não subsiste traço algum de tudo isso; tudo é esmagado, moído, triangulado no Édipo, tudo é apoiado no pai, de maneira a revelar o mais cruamente a insuficiência de uma psicanálise edipiana5.
Julia Kristeva escreveu um livro que se tornaria um clássico acadêmico, Sol negro: depressão e melancolia, onde encontramos teorizada uma estrutura subjacente a Édipo, na verdade um de seus mais refinados produtos: a psicanálise enquanto obra de arte. Édipo como artista contemporâneo está na idade do cinismo, a fase da acumulação de capital, quando ele faz “do próprio luxo um meio de investimento, e assenta todos os fluxos descodificados sobre a produção, num ‘produzir por produzir’6”. Mas podem perguntar sobre o por quê do luxo, o por quê do cinismo, já que o artista Édipo tem a “necessidade” da produção: a idade do cinismo está vinculada à era do capital financeiro, do capital enquanto estoque de receitas livres, auto-reprodutor (desagregado da produção física), também das “crises” existenciais e financeiras que sacudiram a era pós-Nixon7 e deram o tom da filosofia e do gosto estético do período da Guerra Fria. Nada de Oscar Wilde ou romantismo. Tenho estoque livre de capital: vou extorquir sobretrabalho – essa a conjunção pressuposta na “teoria da dependência” de Rui Mauro Marini e Vânia Bambirra. Tenho um capital relativo, acima da média: vou apostar na bolsa ou até nos fundos de renda fixa, no “capital-Deus de onde parecem emanar todas as forças do trabalho8” – as duas opções do escritor que tem a possibilidade de almejar o mercado editorial (claro que não falamos aqui de dinheiro somente – quantos escritores surgiriam se esse fosse o caso...). Os métodos psicanalíticos alternativos experimentados por Félix Guattari nos conduzem através de um embate freqüente travado durante todo o anti-Édipo: quem vai pagar a conta da análise? Se muitas vezes são as situações mais cotidianas que induzem uma pessoa a procurar o tratamento psicoterapêutico, por que nunca se toca no assunto do dinheiro? Quem pagará pelo sistema de dívida infinita que se torna a psicoterapia, pois, onde a cura? Quando há, em quantas prestações será paga? E a cura efetiva, qual é? A submissão final ao ídolo, à “representação antropomórfica do sexo”? O regresso à “lei do pai”? A psicanálise proposta por Kristeva é uma alternativa aos meios comuns de terapêutica. O paciente capaz de extorquir sobretrabalho (reconhecimento, nome, carisma) ou o que tem meios suficientes para fazer uma aposta, não precisam mais se preocupar com a questão da dívida. Rendem-se o culto a Édipo da forma mais sofisticada, através da fabricação do que posteriormente será vendido como obra de arte. Recebe-se dinheiro por isso e o culto a obra de arte é também a forma mais sofisticada de cura, de massagem do ego, de retomar a posse da vontade de poder. Afinal, a cura se deu através de um meio superior – a criatividade artística – e não pela análise tradicional, cujos resultados nem sempre são tão visíveis ou eficientes.

No romance de Ricardo Lísias, Divórcio, que usaremos aqui como caso de estudo da sub-literatura brasileira contemporânea, encontramos todos os traços de Chéri-Bibi, herói de romance homônimo escrito no início do século XX, do autor francês Gaston Leroux. É a história de um condenado por um crime que não cometeu e que faz uma cirurgia plástica que acaba fazendo-o ficar com a face do verdadeiro assassino. Com o novo rosto Chéri-Bibi casa e é feliz com Cécily, irmã do sujeito assassinado pelo portador do rosto original. Mas este desenrolar posterior da trama talvez seja muito sofisticado para o autor em questão, Ricardo Lísias. Não existe nada que nos remeta a um enredo novelesco deste jaez, nada dostoievskiano ou alguma hipótese do tipo, por mais remota que seja. É simplesmente a história de alguém condenado por um crime que acha que não cometeu. Acha, pois a história toda é um desenrolar dos desencontros amorosos de um casal recém-desquitado, mas cujo casamento não ultrapassou os quatro meses de duração. O máximo que acontece é o narrador-autor usar de meias desculpas enquanto narra sua auto-superação através de uma analogia bem original, a da superação dos quilômetros da corrida de São Silvestre... Verdade ou mentira? Não importa. O que está em jogo é como o autor se expressa através da arte (ou da tentativa de arte), e os detalhes sobre o que de fato aconteceu com a pessoa física, pelo menos na análise estética, são minúcias secundárias. No mais, uma obra vulgar nada mais expressa do que uma vida similar, pois

A terra está morta, o deserto cresce: o velho pai está morto, o pai territorial, e também o filho, o Édipo déspota. Estamos sós com nossa má consciência e com nosso tédio, com nossa vida em que nada acontece; nada mais do que imagens a girar na representação subjetiva infinita. Porém, reencontramos a força de acreditar nessas imagens, força que nos vem do fundo de uma estrutura que regula nossas relações com elas e nossas identificações como tantos outros efeitos de um significante simbólico. A “boa identificação”. Somos todos Chéri-Bibi no teatro, gritando diante de Édipo: eis um tipo como eu, eis um tipo como eu! Tudo é retomado, o mito da terra, a tragédia do déspota, como sombras projetadas num teatro. As grandes territorialidades desmoronam-se, mas a estrutura procede a todas as reterritorializações subjetivas e privadas. Que operação mais perversa é a psicanálise: culmina-se nela esse neoidealismo, esse culto restaurado da castração, essa ideologia da falta que é a representação antropomórfica do sexo9!
Sempre a procura pela “boa identificação”, pela “bela imagem”, por algum espelho que nos console, alguma desculpa, alguma bengala ou meia culpa. Que belo encontrar no final do romance uma singela auto-crítica como essa: “o livro tem ainda outros problemas. Alguns trechos são confusos e a oscilação, obviamente proposital, entre o discurso no passado e em menor quantidade outro no presente pode prejudicar a leitura10”. Ainda bem que Vossa Excelência viestes nos esclarecer! Com certeza, fará toda a diferença depois de páginas e mais páginas de uma São Silvestre no deserto, num deserto de idéias. “Também não consegui esclarecer os diálogos onde deveria colocar aspas”. Aí, sim! Agora, se há problemas, nós teremos uma ferramenta a mais para ampliarmos nossa compreensão numa futura leitura a ser feita caso tivermos acesso ao Inferno. Existem outros trechos ainda mais profundos, mais comovedores. Ah, a “boa identificação”!

Para quem precisa completar vinte e um quilômetros, dar atenção a uma dor ameaçadora, no final do dezenove, seria autoindulgência demais. É melhor trocá-la pela concentração e procurar ânimo no esforço de quem está por perto. Todo mundo se empurra um pouco para alcançar a linha de chegada. Ontem, li as vinte páginas finais de três livros de Samuel Beckett. Pode parecer estranho, mas eles têm muita ligação com Divórcio. Não vou discuti-la. Seria um recurso evidente para esconder que estou buscando fôlego lá no fundo11.

É comum durante todo o livro esta postura escapista do autor. Como se palavras breves não pudessem ser nada mais do que são, poucas palavras que nada explicam. O oráculo chinês, o sábio de poucas palavras. Não: o cinismo. Procura-se, na verdade, percorrer superfícies planas para superar limites imaginários. A São Silvestre como analogia da superação íntima não é uma metáfora criativa porque nada mais é do que um ato de força, de tentativa de penetrar os domínios da arte através da violência, de violação da mais essencial qualidade poética, a sinceridade. O que significa ler as últimas vinte páginas de três livros, seja de quem for? Beckett entra na história para quê? Ele tem muita ligação... Sim. Toda. Afinal, “a sensação de força é maior do que qualquer dor”, pois o livro vai chegando ao fim e “mesmo sem ter conseguido contornar todos os defeitos que enxergo nele, sinto-me forte”. E o leitor tem que engolir tudo se possuir estômago para chegar até o final, se possuir “aquele estranho vigor que toma conta do corpo inteiro com tanta intensidade que os incômodos desaparecem”, como o da vítima de estupro que não mais sente dor e se resigna em meio ao choro abundante – aquele estranho vigor, vigor das lágrimas incessantes que como que cobre, que faz desaguar a dor fundamental, a dor moral. O fim do incômodo do estuprador que agora está de frente a uma vítima passiva, no ponto determinado em que ela não tem mais forças para se defender. O vigor, o vigor físico, as vigorosas lágrimas que inundam o corpo: este trabalho de física elementar é como o princípio do Panóptico de Jeremy Bentham, sua máquina nazista que funciona com o princípio do prazer e da dor com o fim de escravizar suas vítimas às sensações corporais e que, tal como o princípio econômico de seu amigo Adam Smith (o egoísmo, o interesse pessoal como propulsor da riqueza das nações), procura transformar os seres humanos em puros animais, em homens primordiais, os macacos que viviam no paraíso perdido pela oligarquia britânica, financeira e transnacional, o paraíso de Tróia arrasada ou da guerra termonuclear mais e mais adiada. Afinal, Ricardo Lísias (autor ou personagem?) escreveu para a Granta, é amigo do editor da Piauí, diz sem vergonha que o leitor de seu romance costuma procurar pelos outros: “Se meu objetivo inicial era deixar para trás todo o mal-estar que senti ao ler o diário, Divórcio é um romance bem-sucedido12”.

Depois de espalhar calúnias sobre a tarefa do escritor, depois de posar de campeão na cena ridícula (sempre a boa identificação: “Voltei de metrô. No vagão, vi que um garoto apontava para mim e comentava algo com a mãe. Eu não tinha tirado o número de peito da camiseta. Fiz um sinal de positivo, mas ele olhou para o outro lado. Deve ser tímido13”), Ricardo Lísias consagra sua pantomima capitalista-edipiana com um singelo tratado: “Uma resposta ao caos: sobre o amor”. Que delicado! Que delicado se não sentíssemos vontade de vomitar com o simples cheiro dos excrementos, do que foi deixado para trás, “todo mal-estar que senti ao ler o diário”. E seu início também é bem delicado – e pegajoso: “Oi”. Que bonitinho!... Olha aqui minha queridinha, meu amorzinho (palavras minhas), “vou usar a primeira pessoa para retirar a distância jurídica que você resolveu adotar” (grifo meu). Enfim, não vemos a mulher no tratado, tampouco a enxergamos no livro inteiro. Vemos somente o autor-personagem com seu sofrimento, sua superação, pois “você [a mulher] procura é manter um vínculo comigo. Você não compreende o amor e o torna sinônimo de caos. Vou tentar ser claro: suma da minha vida!14”. Poderíamos resumir o livro todo nessa passagem. Ou numa outra ainda mais singela: “Deixe-me em paz. Suma15”. Poderíamos resumi-lo todo a partir dessa passagem, e só dela, porém ele não é só isso. Pelo contrário, é um excelente caso de estudo, nessa fase em que

Reencontramos, então, a produção de produções,a produção de registros, a produção de consumos – mas, precisamente, reencontramos isso tudo nesta conjunção de fluxos descodificados que fez do capital o novo corpo pleno social, ao passo que o capitalismo comercial e financeiro, nas suas formas primitivas, se instalava somente nos poros do antigo socius, cujo modo de produção anterior ele não modificava16.

É a idade do cinismo, que vem acompanhada de uma estranha piedade, junto a um frenético “produzir por produzir”. Produzir para “jogar fora”, produzir para falar que você não presta (e a quem interessa esse “você”?), produzir para fazer auto-análise e ganhar dinheiro e status com isso. Esta é uma das modalidades do “teatro da crueldade” que Deleuze e Guattari colocam como o início da produção no socius, mas que na verdade o perpassa de ponta a ponta, potencializando-se com a difusão do princípio oligárquico17. Sem a crueldade, sem o instinto de crueldade não se chega a grau tão elevado de sofisticação produtiva, de cinismo, da estranha piedade aprendida no culto ainda que velado a Zeus, ao deus barbudo, ao Panóptico – não importa. “Reúnem-se, retomam-se todas as crenças em nome da estrutura do inconsciente: somos ainda piedosos. Por toda parte o grande jogo do significante simbólico que se encarna nos significados do imaginário – Édipo como metáfora universal18”. Os autores da França parafraseiam Marx ao afirmarem que o capitalismo só sobrevive na medida em que pode criticar a si próprio, em que a história universal passa a ser contingente, “singular, irônica, crítica19”. “Codificar o desejo – e o medo, a angústia dos fluxos descodificados – é próprio do socius. Como veremos, o capitalismo é a única máquina social que se construiu como tal sobre os fluxos descodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda20”. 

Os autores seguem em linhas gerais a crença de Marx de que a história moderna, fundada sobre o capitalismo, é capaz de fornecer a chave explicativa para todos os fenômenos da história universal. É claro que o capitalismo de Deleuze e Guattari é bem outro, tanto que não anima a economistas, historiadores ou cientistas sociais a estudá-lo21. O que não deixa de ser um erro, relegando toda uma crítica subjacente ao existencialismo e, consequentemente, ao hegelianismo, fora de questão. Assim, é mal aproveitado pelos filósofos, pelos literatos, enquanto profissionais como os arquitetos conseguem tirar excelentes conclusões para suas visões de cidade a partir dos conceitos destes autores. Inclusive, é implícito no Anti-Édipo uma Anti-Mímeses, o clássico de Auerbach profundamente influenciado pela filosofia da história de Hegel, assim como pelo conteúdo estético das obras de Aristóteles. A verdade é que a história antiga é que fornece a chave explicativa para muitas das questões modernas, inclusive as financeiras ou monetárias. O Oráculo de Delfos era o centro da cunhagem de moedas e o tipo de Banco Central do mundo antigo, onde as pitonisas, enlouquecidas pelo gás etílico que emanava nas fendas no chão do templo, eram as possuídas por Apolo, enquanto os sacerdotes, seus eunucos, cobravam para interpretar as mensagens, como a que destruiu o tirano da Lídia, Croesus22. Os fluxos de dinheiros que passavam pelo Oráculo e por suas filiais nas diversas cidade-Estado financiavam dentro da Grécia o partido oligarca comandado pela Babilônia com seu culto a Marduk. Uma das mais importantes contribuições de Lyndon LaRouche para a ciência econômica é o seu conceito transtemporal, o “princípio oligárquico”, desenvolvido na Europa com seu marco inaugural na Guerra de Tróia, se espalhando pelas facções ligadas a Marduk e a Aristóteles (seu representante grego ao tempo de Platão) até o assassinato de Alexandre o Grande, e cujo apogeu na Antiguidade se deu com o advento do Império Romano. “O método de Delfos, nas suas características essenciais, moldou a forma dos futuros Impérios: Roma, Bizâncio, Veneza, e a Nova Veneza/Império Britânico de hoje23”. Para sermos claros, por império britânico entenda-se império anglo-americano. O modelo é britânico, mas aperfeiçoado in extremis pelos estadunidenses. Oxalá não fosse tão difícil para esse povo uma auto-crítica que nós brasileiros fazemos sem nos importar (e com a competência que nossos pensadores sempre fizeram), mas que também, por outro lado, pode ser traduzido no “complexo de vira-lata”, como o que vemos expresso nos modelos mais modernos de comunicação midiática em nosso país. contudo, quando LaRouche e seus associados apontam para o mal encarnado na City de Londres e em Wall Street, dão uma volta por detrás deste empecilho e tocam novamente a universalidade das idéias. O Brutish Empire é um conceito universal, assim como seu antídoto, o “sistema de crédito hamiltoniano”.

Voltando ao nosso “caso de estudo”, estamos, qual Édipo, frente a uma triangulação: o cinismo, a piedade e a crueldade. O pobre-coitado que vemos no autor personagem de Ricardo Lísias que se transforma em herói com a corrida da virada do ano. O herói solitário que venceu o enigma lançado por Édipo, mesmo colocando no meio do “romance” fotos suas com o avô, a mãe, etc. O pai não aparece (são mínimas as linhas dedicadas ao pai do autor-personagem que aparecem como meias-desculpas – mais algumas delas). Talvez esta seja uma literatura bastarda, um Édipo sem pai. Mas não vamos nos apressar na análise. Julia Kristeva é tão popular quanto o que conhecemos hoje por Bail-In e Bail-Out, dois totens modernos. Essa analogia a princípio esdrúxula é eficaz porque liga esses princípios discordantes a partir da compreensão da fase de ultra-sofisticação capitalista vivida atualmente. A estranha piedade... Quando Barack Obama inaugurou internacionalmente o regime de resgate bancário (bail-out), todo o espectro político viu nele o porque da Paz, o porque de seu prêmio. Os mais reacionários o saldavam por estar tirando da bancarrota o que nunca foi saudável, ou seja, o sistema financeiro monetarista-especulativo. Os progressistas saldavam suas “medidas keynesianas” de intervenção estatal. E não achem que o autor que escreve estas palavras não tenha lado, que seja um “espectador imparcial” como os protestantes de junho ou a mídia hegemônica. Não é porque reprova o engano de uns que aprova o erro, a maldade, de outros. Obama, através do resgate bancário, deu início a sua política de “flexibilização quantitativa”, imprimindo papel moeda até a saturação, até o ponto em que pudesse espalhar uma onda hiper-inflacionária mundo afora. E ainda acreditam que fenômenos como a “bolha imobiliária carioca” seja o problema de uma cidade, que ela não está ocorrendo mundo afora e com diferentes características. E ainda acham que o problema do preço dos alimentos é culpa dos tomates que Ana Maria Braga colocou no pescoço. A estranha piedade de Obama, suas medidas keynesianas, seu amor aos bancos e ao sistema financeiro... Agora tudo isso vira, muda de lado. O que se fala agora é de “resgate interno” (bail-in), e o presidente do Banco Central brasileiro corre para fazer igual. Gente, é o seguinte: não é justo o Estado se endividar para pagar as dívidas dos bancos. Logo, quem tem que pagar suas dívidas é quem as contratou. Corretíssimo! Daí, com a política do “resgate interno” quem paga a dívida dos acionistas, dos controladores do banco e agentes do sistema financeiro, são os correntistas, quem tem poupança, aplicação ou simplesmente aqueles que têm contas-salários nos bancos. É o modelo cipriota. É o caso do Bankia, da Espanha. É o tipo de legislação que procuram implantar tanto no Brasil, como nos EUA, como em todos os lugares. Quem contrata é quem paga. Mas quem é o quem? Ah, o cinismo! Ah, essa estranha piedade!... Resgatar os bancos, salvar o sistema financeiro, quem se endividou é quem paga. Sim... Julia Kristeva fala como o Oráculo de Delfos. Ao lado do famoso “conheça a ti mesmo” o que transforma essa sentença em algo realmente infame, “pense como um mortal”. “Para um grego do quinto século visitando o templo, passaria a idéia de que ‘você não é um deus, você nunca alcançará tamanho poder – você é apenas uma besta’. O velho Olimpo agora foi transformado num sistema de oráculos e o centro de influência dessa rede foi colocado no picadeiro de Delfos24”. Encima do picadeiro das paradas de sucesso encontramos o Divórcio. Sem duplo sentido, por favor. Se transforme numa besta, mostre a besta que você é em público, assuma sua intimidade para todo mundo. Afinal, você nada mais é do que um humano, ou seja, um ser qualquer, um ser submetido a Édipo, uma escrava sexual de Apolo, um idólatra do mercado livre e do deus invisível, um cidadão consciente e um protestante de junho devidamente conectado às redes sociais. Um keynesiano? Um capitalista ultra-sofisticado? A verdade bárbara, o deus despótico ainda presente. A crueldade.

A calúnia à tarefa do escritor, o teatro da crueldade, a tatuagem, a tortura, o estupro. A inscrição como ferramenta da máquina territorial primitiva, a máquina que marca os corpos, a “essência do socius registrador, inscritor” – essa a crueldade moderna, essa nossa nova religião. O trabalho da memória, da catalogação, do que se entende por “voltar para si”. A numerologia dos analistas econômicos, a matemágica do livre mercado, o genocídio como filosofia verde, a Idade Média estetizada num mundo de cataventos eletrogeradores, consiste nisso: “tatuar, excisar, recortar, escarificar, mutilar, cercar, iniciar”. Você também é como eu, imagem e semelhança de Édipo. “Fluxo de mulheres e crianças, fluxo de rebanhos e sementes, fluxo de merda, de esperma e de menstruações, nada deve escapar (...) o corpo pleno da deusa Terra reúne sobre si as espécies cultiváveis, os instrumentos aratórios e os órgãos humanos25”. Não a tarefa do escritor, mas do inscritor, do tatuador, da maquina territorial primitiva, cada vez mais cruel quanto menos primitiva e mais sofisticada se acredita a sociedade.



A máquina territorial primitiva codifica os fluxos, investe os órgãos, marca os corpos. Até que ponto circular, trocar, é uma atividade secundária em relação a esta tarefa que resume todas as outras: marcar os corpos, que são da terra. A essência do socius registrador, inscritor, enquanto atribui a si próprio as forças produtivas e distribui os agentes de produção, consiste nisto: tatuar, excisar, incisar, recortar, escarificar, mutilar, cercar, iniciar. Nietzsche definia “a moralidade dos costumes como o verdadeiro trabalho do homem sobre si mesmo durante o mais longo período da espécie humana, todo seu trabalho pré-histórico”: um sistema de avaliações que tem por força de direito em relação aos diversos membros e partes do corpo (...) Diz Nietzsche: trata-se de dar uma memória ao homem; e o homem, que se constituiu por uma faculdade ativa de esquecimento, por um recalcamento da memória biológica, deve arranjar uma outra memória, que seja coletiva, uma memória de palavras e já não de coisas, uma memória de signos e não mais de efeitos. Sistema da crueldade, terrível alfabeto, esta organização que traça signos no próprio corpo: “Talvez nada exista de mais terrível e inquietante na pré-história do homem do que sua mnemotécnica... Isto nunca ocorria sem suplícios, sem martírios, sacrifícios sangrentos, quando o homem julgava ser necessário criar uma memória para si; os mais apavorantes holocaustos, os mais hediondos comprometimentos, as mutilações repugnantes, os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos... Isso nos leva a compreender o quão difícil é erigir na terra um povo de pensadores!”. A crueldade nada tem a ver com uma violência qualquer ou com uma violência natural, com que se explicaria a história do homem; ele é o movimento da cultura que se opera nos corpos e neles se inscreve, cultivando-os. É isto que significa crueldade. Esta cultura não é o movimento da ideologia: ao contrário, é à força que ela põe a produção no desejo e, inversamente, é à força que ela insere o desejo na produção e reprodução sociais. Com efeito, até a morte, o castigo e os suplícios são desejados, e são produções. Faz dos homens e dos órgãos peças e engrenagens da máquina social. O signo é posição de desejo; mas os primeiros signos são signos territoriais que fincam suas bandeiras nos corpos. E se quisermos chamar “escrita” a esta inscrição em plena carne, então é preciso, com efeito, que a palavra falada supõe a escrita, e que esta é este sistema cruel de signos inscritos que leva o homem a ser capaz de linguagem, e lhe dá uma memória de palavras26.

Ah, uma “longa citação”! Não: um parágrafo longo demais! A verborragia, o tom de voz elevado, a irreverência, o sarcasmo. Uma ironia que não siga o modelo do bem comportado Machadinho (do modelo de “homem cordial”, como escrito no Raízes do Brasil) é suficiente para causar espanto, indignação, raiva, e até rancor. O suficiente para fazer funcionar o aparelho de troca. Afinal, como sugere Deleuze, quem disse que o sofrimento infligido ao criminoso é capaz de sanar sua culpa? O teatro da crueldade, a visão aterradora de quem mira o olhar de todos aqueles que se comprazem ao admirar os sofrimentos de quem paga a dívida. É por isso que as máquinas e os fluxos esquizofrênicos de Deleuze e Guattari são ambivalentes. Não só o velho olhar do senhor que se compraz ao ver seus escravos sendo chibatados; não só o regozijo do velho burguês que troça os que não tiveram a mesma sorte, da incapacidade dos que não conseguiram tornarem-se senhores e não mais escravos de um mundo livre, global. No atual sistema da dívida o que se assiste é uma rebelião escrava às avessas. Todos têm que entrar no coro, “eu também sou Édipo”. E quem chega nessa pura estetização da figura do senhor, através da literatura ou até daqueles tipos (muitas vezes literários) que “venceram na vida”, são facilmente reconhecíveis pelas inscrições que voluntariamente, explicitamente, marcam em seus corpos, em seus discursos, em suas obras. São facilmente reconhecíveis para servirem testemunhas de Édipo, de sua promessa, de seu sistema de troca e de dívida. São as testemunhas de Édipo as figuras do teatro fantasmático, do teatro de pura extensão e imanência, de meras imagens – show de pirotecnia, espetáculo global, fumo de Delfos por meio do qual se manifesta o deus invisível que faz multiplicar “toda a estupidez e a arbitrariedade das leis, toda a dor das iniciações, todo o aparelho perverso da representação e da educação, os ferros em brasa e os procedimentos atrozes” que “têm precisamente este sentido: adestrar o homem, marcá-lo em sua carne, torná-lo capaz de alianças, constituí-lo na relação credor-devedor que é por ambos os lados uma questão de memória27”.

O ser marcado aparece assim no livro de Ricardo Lísias. Depois de ficar quatro dias sem dormir:

Senti que tinha caído no chão. Não me lembro do impacto. Não faz diferença. Estendi o braço direito e ele se chocou com a cama. Ardeu porque meu corpo estava sem pele. O caixão continuava ali. De alguma fora, meu queixo acertou o joelho esquerdo. A carne viva latejou e ardeu. Como o choque foi leve, não durou muito. A sensação de queimadura também passou logo. Mesmo assim, meus olhos reviravam. Alguns movimentos são claros para mim. Estão em câmera lenta na minha cabeça28.

E o livro também poderia acabar por aqui. A metáfora do diário, da corrida e do corpo sem pele é tudo o que o autor tem a oferecer. O protagonista resolve pedir divórcio quando descobre o diário de sua mulher com algumas observações que o surpreendem. Ele não dá atenção a Broadway, vive trancado num quarto lendo e não vive, não sabe dirigir, não tem e não quer ter casa própria, a mulher é quem paga as contas nos restaurantes chiques porque ele não tem e não quer ter poupança, acorda todo dia na mesma hora para escrever e não se arrisca em aventuras, e assim por diante. Tudo o que deixaria qualquer ser humano numa profunda crise existencial. O autor-protagonista ouve sem querer (acha o diário) algumas palavras diretas (com se diz, “uma real”), e “treme nas bases”. Daí descama. Fica à flor da pele. Aí, o que ele faz? Vai escrever um livro, ora. Ganhar dinheiro e contar história é uma modalidade ainda não estudada pelos especialistas no fenômeno da “nova classe-média”, talvez por estarem muito aficionados com a classe C...

II



Na Argentina, saiu com a história de um taxista que se machucou com a porta do seu carro. Afinal, existem lugares mais bonitos para se visitar do que o memorial a Evita Perón... O Rio e Janeiro e Berlim são ruins porque fornecem muita informação aos sentidos - não é lugar para o expectador (?!) introspectivo. Saiu da Holanda dizendo não ter compreendido o país de Van Gogh e, ao sair da Irlanda - para onde foi ver a terra de quem considerava seu ídolos romancistas - disse que ficou apenas um dia e acabou não conhecendo nada. No mais, um palavrório sem fim sobre almoços ou jantares em lugares refinados e festas com uma não tão pudica classe-média. Um professor de Princeton que não sabe segurar talher é figura constantemente evocada no romance para acentuar a inabilidade de pessoas letradas em lidar com o mundo dos homens, assim como o vício em drogas de jornalistas moralistas e de escritores não viciados, mas sem caráter. Cisão entre dois mundos não tão distintos. Um da alta sociedade e de seu cinismo, outro do abastardamento do escritor que foge da realidade que lhe envolve, num recuo próprio aos reacionários. Pensamos aqui na China de Mao: caso o atual governo chinês se submetesse aos arbítrios do sistema financeiros de base transatlântica; caso não quisesse construir uma aliança euro-asiática em parceria com a Rússia para quebrar o monopólio do euro, do dólar e da OTAN; caso não quisesse fazer mineração na lua e desenvolver a energia de fusão ou reconstruir a Rota da Seda com grandes projetos de infra-estrutura; caso, enfim, cedesse aos apelos bárbaros vindos do ocidente, Mao seria pop e o comunismo finalmente popular. A China seria a bola hollywoodiana da vez. Comunismo pop: esse o caminho revolucionário de Ricardo Lísias.


O Mao Pop, como pedido por David Rockfeller: retrato de Marilyn Monroe como Mao Tsé-Tung. Montagem de Salvador Dalí e Philippe Halsman, 1952.


O governo de Mao não se tornou pop em sua época por razões óbvias. Razões ainda mais óbvias porque a cultura pop nessa época não estava plenamente desenvolvida. Ainda não tínhamos vislumbrado a aparição de Madona e correlatos. Contudo, os oligarcas sempre foram moístas. David Rockfeller ou Antônio Palocci, pouco importa. Um na juventude, quando sua guinada para a alta finança não representou um salto ou uma queda, mas um passo na mesma horizontalidade. Rockfeller e cia, o mundo da alta finança, apoiou Mao, assim como décadas antes os fluxos de dinheiro que iam para a Alemanha nazista eram os mesmos que iam favorecer Stálin, quando não sofriam o arbítrio direto de presidentes famosos, como do Chase Bank, responsável pelos planos qüinqüenais comunistas29. Ah, a revolução conservadora! O reformisto! Ah!, os mitos! Reformismo... Qual revolução, se conservadora? Sempre a mesma revolução. A que inaugura a historiografia, nossos mitos: a revolução que empossou Napoleão, o marco da história européia. A aclamação popular do imperador, depois a eleição (Napoleão III) do protótipo de Hitler (mais o tio do que o sobrinho). Por isso a tese famosa de Reich: as massas desejavam o fascismo. Assim era entendida a revolução. E só assim é que se entende o voto conservador no PT. Bem distantes do voto progressista, no voto que entende ou que sente em seu cotidiano o que é o modelo de governo petista, vota-se em Lula, Dilma, e nos correligionários estaduais e municipais, por uma questão de status, de perversão capitalista, o de “ser progressista” como se era “social-democrata” anos atrás. Onde o país? Onde Lula, onde a formação trabalhista, brizolista, de Dilma? Nada. Ser PT. E toda a luz, todo o progresso encampado pelo Partido dos Trabalhadores fica ofuscada por seus revolucionários, pelos palocistas e marinistas, pelos que admiram o PT e continuam a procurar se iluminar com o Farol de Alexandria. Como se “conhecer a esquerda e a direita”, encontrar o caminho do meio, ser apartidário, ser, não se sabe como, iluminado pela luz neutra do indeterminismo, do pós-modernismo, fosse nosso caminho. O ar de mistério, a sabedoria oculta, os títulos cuidadosamente guardados nas gavetas ou expostos – para ninguém ver – nas paredes das casas ou dos consultórios. Lísias, mostre sua revolução! Personagem, mostre o caminho da Mímeses! Que o Granta apareça em cada página que escreveste. Faça sua revolução, esculhambe o Granta a partir de sua figura, de seus personagens. Compursque o ídolo somente com sua presença – eis a verdadeira revolução feita pelo autor. O que se torna o Granta depois dele?

Preguiça aquilina. O caixão do homem sem pele como o trono do rei emplumado. Nenhum mundo, nenhuma conexão. Nada se levanta para a ação, como Heitor teve que fazer. Nenhuma peripécia ao estilo Odisséia. Nada. Somente uma atitude reacionária, reativa. Raiva e rancor. No fim, eu te supero porque me supero, porque nunca houve nada além de mim. Amor nenhum no romance, poesia alguma. O perder-se... Nada. E os surtos drogatícios. Se Genet, Henry Miller, Roberto Piva e Paranóia estivessem vivos, sem quaisquer dificuldades desvendariam os "surtos drogatícios" do escritor. Depois de mais um surto:

Não lembro como voltei para o cafofo nem como passei a manhã do quinto dia. Quando por fim liguei o celular, havia quatro mensagens do Marcelo. Ele estava muito preocupado. Tudo bem, respondi. Ele replicou imediatamente: me manda uma mensagem a cada duas horas.

Fiquei comovido com a preocupação dele. De novo senti vontade de chorar. Como minhas pálpebras estavam sem pele, fiz força e evitei. Não aguento mais 30.



Seria comovente a cena, se não fosse simplesmente genial. E como é genial, gargalhamos o riso dos gênios, o riso superior. Melhor do que fazer força para evitar deplorar a mediocridade. Assim acabamos tristes, e esse nunca é o objetivo. Outras cenas “beatniks” protagonizadas por Ricardo Lísias são as que descreve suas experiências sexuais. Foi tentar o anal. Não sabe se por prazer ou dor, a mulher lhe deu uma unhada que arrancou-lhe um dos mamilos. Gênio. Só assim medimos a extensão da dor e do prazer. Duas gordinhas, bem feinhas, lésbicas, o chamam. Ele não se arrisca ao sexo, mas assista a cena das duas. Para quê? Se a cena descrita não fosse tão curta, poderia aparecer nos capítulos célebres de nossa literatura bizarra. Talvez pudesse fundar essa categoria. Mas o autor infelizmente não chegou a tanto. Ah!, e rimos. Sempre rimos.

Uma passagem ao léu. Paranóia:


Meus pés sonham suspensos no Abismo
minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina
eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou órfão
havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios
eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa
na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as galerias do
meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos

Mas a gente não consegue parar. Genial.

colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longos delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago
nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota
minha alma desconjuntada passa rodando


No Boletim do Mundo Mágico, eu também sou “uma alucinação na ponta dos teus olhos”. Bruegel, Jorge Lima – Panfletário do Caos, Garcia Lorca e os poemas noturnos de Mário de Andrade. “Maldoror em taças de maré alta”. No Diário Cotidiano de Lísias somente a piedade, o “homem que quer superar a si próprio”, ser abstratamente melhor. Tudo é regido pelo calendário e pelo relógio. A São Sebastião, os eventos globais de ampla aceitação.

as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
seu eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

Se há algum platonismo no mundo das Essências vislumbrado por Deleuze nos romances de Proust, é o mundo das aporias, do poeta que sabe e absolutamente desconhece o que vai falar. É algo como: “há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo / a lua não se apóia em nada / eu não me apóio em nada / sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas”. Uma ponte qualquer em qualquer paranóia, em qualquer surto verdadeiramente criativo. Como Miller escrevia? Como saber de antemão o que se vai saber só depois de experimentar a escrita? As passagens de Paranóia selecionadas poderiam ser substituídas por outras ainda melhores. Talvez. Como o que é escrito agora poderia ser totalmente refeito e, talvez ficasse melhor. O importante é o prazer da escrita. Rir e sempre rir. O cúmulo da ironia, o cúmulo do mais ralo humor. O resto é literatura piedosa, bizarra, pós-moderna ou que quer que seja. Só se escreve se somos capazes de conceber alguma idéia. Mas só visualizaremos a Idéia de passarmos pela experiência de sua comunicação. Enquanto ela ainda freqüenta os “crânios sem janela” (expressão paranóica de Roberto Piva), nenhuma idéia há. Talvez só aja a piedade de se escrever um livro novo e belo. Pura paranóia. A dureza das palavras desafia qualquer beleza apriorística. É melhor não escrever e só imaginar. Masturbar-se ou erguer o sexo aos sábados a noite. 

E como Miller escreve? Ele é Henry, como Lísias é Ricardo. Na verdade, pouco importa como ele escreve. Fazer uma análise lingüística, crítica, gramatical ou qualquer coisa do gênero. Escolhemos também uma passagem ao léu, mas uma passagem que haja alguma mulher. Já que falamos das toscas descrições de cenas sexuais em Lísias, acreditamos ter encontrado uma boa passagem de Miller que em absoluto tem alguma descrição de sexo. Mas, se não há amor (por Mara, Maude ou outra qualquer) ou se não há sexo, há a figura da mulher ou pelo menos de seu corpo, fato não encontrado em todo o romance de Ricardo Lísias.


Meus pensamentos corriam como um caranguejo. A imagem de Melanie emergiu subitamente. Estava sempre ali, como um tumor carnudo. Havia nela algo bestial e angélico. Sempre manquejando, arrastando as palavras, a fala monótona e disparatada, seus enormes olhos melancólicos engastados como brasas nas órbitas. Era como uma daquelas belas hipocondríacas que, tornando-se assexuadas, assumem as misteriosas qualidades sexuais das criaturas que superlotam o zoológico apocalíptico de William Blake. Era extremamente distraída, não com relação às trivialidades da vida de rotina, mas com relação ao seu corpo. Não era coisa fora do comum vê-la perambulando pela casa em suas intermináveis tarefas com as tetas inteiramente expostas, brancas como o leite. Maude estava sempre repreendendo-a, sempre furiosa com as indecências de Melanie, como as chamava. Mas Melanie era tão inocente como uma lontra louca. E se a palavra lontra parece esquisita é porque era a mais adequada. Com Melanie, todo tipo de imagens absurdas me vinham à mente. Ela era apenas “ligeiramente” alienada, por assim dizer. Quanto mais suas faculdades mentais lhe escapavam, mais obsessivo tornava-se seu corpo. Sua mente tinha-se dispersado pela carne e, se era desajeitada e lenta em seus movimentos, é porque pensava com esse corpo carnudo e não com o cérebro. O sexo que nela existia parecia ter-se distribuído pelo corpo; não era mais localizado, nem no meio das pernas nem em qualquer outra parte. Não tinha nenhum senso de vergonha. Os pelos da buceta, se por acaso os expunha enquanto nos servia na mesa o café da manhã, não se diferenciavam das unhas do pé ou do umbigo. Estou certo que se algum dia eu tocasse distraidamente em sua buceta, ao estender a mão ao bule de café, ela teria reagido da mesma maneira que se eu tivesse tocado o braço (...) Onde quer que vivêssemos, o quarto de Melanie era exatamente o mesmo. Era um quarto onde se enjaulava e aprisionava a Demência. E sempre o papagaio, sempre o cãozinho sarnento, sempre os mesmos daguerreótipos, sempre a máquina de costura, sempre a cama de latão e o baú antiquado. Um quarto em desordem que para Melanie era o Paraíso. Um quarto cheio de latidos esganiçados, de estrilos pontilhados por murmúrios acariciantes, adulações, arrulhos, frases truncadas, guinchos de afeição. Às vezes, passando pela porta aberta, eu a via sentada na cama, coberta apenas pela camisola, o papagaio empoleirado em sua mão retorcida, o cachorro mordiscando a isca no meio de suas pernas. – Alô – dizia ela, erguendo a vista para mim com uma inocência franca e suave. – Que belo dia faz hoje, heim?... E talvez afastasse o cão, não devido a vergonha ou ao embaraço, mas porque lhe fazia cócegas com a língua úmida, diabolicamente esperta 31.
Transitamos agora do sexo total, do cão com a língua diabolicamente esperta, das fronteiras movediças que separam o Paraíso da Demência, para chegar no polo norte. Não o pólo norte dos antigos colonizadores, mas o do gelo, da solidão, do lugar onde não é possível realizar qualquer contato:

Assim que fechamos a porta do quarto no 13º arrondissement, minha ex-mulher mostrou o creme lubrificante que tinha acabado de comprar. Recusei-me a lambuzar os dedos. Ela não ouviu, abaixou a bermuda e a calcinha e ficou de quatro na ponta da cama. Coloca um dedo de cada vez. Você vai ver que eu aguento a mão inteira. Aguento mais que essa vagabunda. Recusei de novo e ela disse que então nosso namoro estava acabado.

E para onde vou agora, aqui em Paris?

Quando eu tinha colocado o terceiro dedo, ela arranhou meu peito. Em momento algum pediu para parar. No quarto, minha ex-mulher cravou a unha e retirou-me uns três centímetros de pele, ao lado do mamilo direito. Até hoje ele é sensível. O sangue começou a escorrer volumoso e manchou o lençol. Ela riu: você é que não aguenta nada. Vou comprar alguma coisa para fazer o curativo32.

Lindo. A mulher ficou com ciúme de outra e resolver dar a bunda para se auto-afirmar. Isso na imaginação do escritor. Ainda ficam fazendo fantasia sobre o que é ou não verdade em tudo o que escreve. Para quê? Só se for para rir e lamentar ao mesmo tempo. Mas para isso basta a programação midiática, em rádio, tv ou internet. Só gargalhando dos absurdos como a “inflação da pedra”, fenômeno mapeado pela Folha de São Paulo depois do programa do prefeito Haddad de reabilitação para os usuários se crack. Como fazem serviço de limpeza urbana, recebem 120 reais por semana pelo trabalho. A Folha exclama: “a pedra chegou a custar 20 reais!”. O preço geralmente é de 10, mas como aumentou o fluxo de dinheiro, a mercadoria ficou mais valorizada. Sempre a mesma pregação. Nada pode ser feito para melhor a vida do trabalhador, pois se não ele ganha mais, consome mais, e daí a inflação. Chegar ao extremo de transportar o modelo para as pedras de crack com certeza tem que figurar nos estudos dos autores que se debruçam sobre o tema do pós-modernismo. Só rindo e ao mesmo tempo lamentar profundamente: quantos, como Reich apontou, irão idolatrar o nazismo?

Nós sabemos que a evolução ocorre por fases. Na Antiguidade, tinham a concepção da história circular por causa do desaparecimento súbito de grandes impérios, e o recomeço posterior que iria desembocar na aparição de outras grandes sociedades. A partir de Roma, ou a partir do mundo chamado greco-romano, costumamos colocar tudo sob uma mesma diretriz histórica. O Protótipo: logo, recorre-se a Roma, a Grécia. Portugal foi tão importante em sua época de esplendor quanto hoje são os países chamados desenvolvidos. Desenvolvidos sempre parcialmente. Os EUA de Kennedy, os EUA depois do inigualável progresso alcançado com Roosevelt... O que encontramos? Martin Luther King e suas reivindicações. Como se estivéssemos no mais atrasado dos países. Divisão racial. O que nos faz questionar qualquer noção que coloque o desenvolvimento como algo absoluto. Hoje a importância estadunidense é cada vez mais regional. O fim de uma era. E a evolução sempre seguindo etapas. Do ponto de vista brasileiro, podemos considerar nosso país atrasado ou sub-desenvolvido não apenas por compará-lo às potências estrangeiras. Somos atrasados em relação a nós próprios, em relação a própria capacidade de nosso povo. O Bem não tem limites, por isso não há inferno eterno. Dois absolutos não coexistem. Se para o bem não há limites, quantas etapas teríamos superado se não fosse uma Guerra do Paraguai, que sufocou todas nossas forças produtivas, relegando-nos a tratar com o leite e o café quase meio século depois, a substituir importação quando talvez poderíamos exportá-la. Depois o Golpe, sempre o Golpe. E o infantilismo que conduz o ardor das massas a apoiar os tiranos. É sob essa perspectiva que procuramos entender aberrações como o Pai do Real. Mas uma década de atraso, de morte, de genocídio em nosso país. De desindustrialização e feudalismo. Mas agora temos a Petrobras como sempre capitaneando o processo de industrialização. Mesmo sem a Vale, mas com o crédito público estatal traduzido nos programas sociais. A ponta de reacionarismo que faz surfar na crista da onda romances como o que agora criticamos é, de uma parte, fruto desse passado tenebroso. De outro, da evolução que nunca é completa. Por quanto tempo as massas continuarão clamando pelo nazismo, pela Prostituta, por Babilônia, pelo bezerro dourado? Ah! A historiografia desenvolvida durante todo o Apocalipse: quando iramos finalmente conhecê-la de cabo a rabo?

O autor, Ricardo Lísias, transita entre sub-paradoxos. A sub-paradoxia, assim podemos chamar as questões levantadas em sua obra. Pouco importa se foi ou não drogado, se sua mulher foi ou não a Cannes, se tem ou não uma cicatriz próxima ao mamilo. Enfim. Analisamos a obra, se é que podemos chamá-la assim. Se bem que “obra” é chamado até o que se faz de origem sólida no vaso sanitário. A mulher me largou. O que faço? É uma questão. Portanto, corro a São Silvestre, entro com um processo judicial e escrevo um romance (o protagonista está escrevendo um romance, não?). Paris, Buenos Aires, Dublin. Sempre pelo olhar sub-paradoxal. Nenhuma descoberta fundamental, nada que possamos chamar de literatura, de beleza, de Essências, de riso verdadeiro, ou lágrimas... É como o Ulisses mediterrânico. A humanidade e seu destino como macaco que não deu certo. Qual viagem de Lísias? Qual amor? Qual o questionamento, para quais paradoxos aponta? O inferno? Mas para isso existem melhores exemplos, ainda que não se precise recorrer a Dante ou outra literatura mais antiga. Recorremos a Dantes por apenas um momento. Nenhuma fixação especial pelo poeta, mas para fazer um paralelo com a viagem de Ulisses. A viagem de Lísias é como a segunda viagem de Ulisses como aparece na Comédia. Um simulacro, algo para remeter única e exclusivamente ao inferno que o Ulisses de Dante se encontra, quando se atirou novamente ao mar sem as limitações do amor de Penélope, com “um só lenho e pequena campanha”, até que “nossa alegria logo volveu-se em pranto, / que um remoinho dela levantou, / e feriu o lenho num fronteiro canto”. A ruína do Ulisses de Dante, como se o navegante fosse alguma vez tão imprevidente assim. A sub-paradoxia é correlata da segunda viagem de Ulisses. Age por simulacros e finda por si mesma, “até que o mar foi sobre nós fechado33”. Lísias daqui a cinquenta anos? Só se for eleito o são Tomás de Aquino de uma nova Idade Média.

Por uma viagem ao Inferno entendemos a realizada por João Paulo Cuenca em Corpo Presente. Travestis, prostitutas, toda a flora e fauna de uma Copacabana noturna. Cuenca começa a contar: “as putas, o cafetão, o desenhista rabiscando um retrato, o fotógrafo com máquina automática e o mulato da freguesia que sabe falar sueco34”. Enquanto conversa com Alberto entre chopes, “no banco de concreto ao lado do restaurante, espreitam os gringos: o traficante barato, os malandros e o assaltante35”. E tudo isso num único parágrafo que ocupa pouco mais de trinta por cento de um livro de pequenas dimensões (não falo do número de páginas). O mulato da Freguesia que sabe falar sueco fala sueco e o cafetão, um crioulo velho, nada diz. O desenhista rabisca tudo muito mal. As putas acham seu portunhol língua universal. Até na Suécia acham que irão entender essa língua. Mas ninguém se entende. “Uma mesa de gringos num restaurante à beira-mar em Copacabana pode converter-se num ecossistema completo em questão de minutos36”. Uma puta está com a coxa por cima da coxa de um gringo que “como se espera, tem mais dinheiro do que eu. (...) Alberto fala sobre os peitos, os suecos falam sobre os peitos, o mulato da Freguesia ex-lavador de pratos que sabe falar sueco fala sobre peitos em sueco e até Carmen fala sobre peitos, mas dentro de mim37”. Falam sobre os peitos grandes da puta, sobre peitos, e sobre os próprios peitos, interminavelmente. Alberto brinda com um clichê: “Às mulheres, essas pequenas eternidades38”, e começa a cagar regras:

Quando Alberto começa a falar o que devo pensar, levanto, esbarro em cadeiras, nos suecos, nos peitos, passo pelo desenhista rabiscando um retrato, pelo fotógrafo com máquina automática e pelo mulato da Freguesia falando sueco, me equilibro até o banheiro apertado e inundo o bar. O bauru desce inteiro entre meus dentes.
Carmen sempre disse para eu não comer ovo frito39.



Assim se completa a travessia de um dos ciclos do Inferno. Cuenca não busca Beatriz, mas uma Carmen bem carnal, sensual, que não está em lugar nenhum e, não obstante, é onipresente. É uma das formas literárias mais complexas utilizadas para lidar com o problema do puro espírito, pois ao mesmo tempo se desdenha totalmente da existência de uma entidade dessa natureza. Carmen é buscada, procurada em todos os cantos, e, ainda que apareça por todos os poros, todas as esquinas, sobre quaisquer brumas, etílicas ou não, ela nunca se revela por inteira. Carmen é um ato de descobrimento, de paulatina revelação, às vezes de súbita iluminação: “Carmen sempre disse para não comer ovo frito”.

Na busca por Carmen, o autor se revela:

Gostaria de escrever algo como “as grandes cabeças da minha geração”, mas essa é toda uma linhagem de chatos queixosos. Encaro seus olhos e só vejo o reflexo vazio em cada um de nós, entre óculos de aro grosso, orelhas amassadas, sob cabelos pintados de loiro, em diários na rede, programas de auditório e sessões sofisticadas de cinema, é tudo a mesma grande coisa, só a repetição de padrões regurgitados e atitudes velhacas, como se nada mais houvesse ou fosse possível fora dessa nostalgia vazia.

Minha máquina de digerir só não consegue desintegrar Carmen. É a única que sobrevive sem pudor, andando nua por essa necrópole sem fim, pisando seus pés pequenos sobre os mortos, esmigalhando pedaços de carne e tropeçando em ossos. Esbarrando nos corpos sem vida, eu sigo descobrindo Carmen pelas ruas, em cada janela fechada, por trás de esquinas, entre cada espelho quebrado, cada noite perdida40.
Cuenca apareceu na cena literária nacional através de um tipo de boom literário do início desse século, ancorado principalmente na publicação de textos pela internet em sites como Paralelos, Cronópios, e tantos outros, e foi, junto a outros autores, responsável por uma renovação da literatura nacional. É difícil comparar um momento que não está de todo encerrado (o próprio Ricardo Lísias é reflexo disso) com outros booms, como o famoso ocorrido na América Latina entorno do realismo mágico ou o brasileiro nem tanto com a Semana de Arte Moderna, mas tanto mais com o regionalismo, de Jorge Amado até o sumamente admirado Guimarães Rosa. Digo que o boom não está terminado por não entendê-lo como um ciclo de curto prazo, o que apontaria para uma fraqueza da sociedade brasileira como um todo, e este não é ocaso. O boom da primeira década de nosso século ocorreu às voltas da aquisição por parte de determinado setor das classes abastadas dos serviços de internet – então algo de difícil acesso –, o que permitiu a essa camada letrada, muitas vezes de uma burguesia mais tradicional, o intercâmbio necessário para formar um movimento literário que chegou a incluir escritores de norte a sul do Brasil. O anseio por renovação é premente no primeiro romance de João Paulo Cuenca, a partir de uma geração baseada fundamentalmente nos pólos urbanos e com determinado resguardo financeiro para recorrer a aventuras do tipo das literárias. Ricardo Lísias, como apontado acima, é um subproduto desta vaga, compreendido no sentido em que apareça com a consolidação de um modelo econômico no país de estabilidade e bem-estar social, o que demanda determinados anseios de um público letrado que quer ver-se refletido na arte literária de seu país (simplesmente isso, um ato de auto-emulação). É o momento de produção do ócio, quando não mais se procura prioritariamente pular um muro, atravessar uma parede nem que seja a socos ou pontapés, mas desfrutar da literatura como passatempo ou mesmo como fonte de informações para fazer circular nos meios sociais ordinários. Quando autor vislumbra um céu para os suicidas, ficamos cientes que, talvez como as câmaras de gás, os quartos incensados a ópio são produzidos pelo capital financeiro que se apóia tão só e simplesmente na mais legítima riqueza nacional. Um ato de estupro, como o complexo sistema de alimentação de tucanos hoje vigente em órgãos promotores da prosperidade nacional como o Banco do Brasil.

O que nos faz lembrar essa literatura fundamentalmente urbana é o processo descrito por Ángel Rama como “realismo crítico urbano”, na qual os autores se defrontam “explicitamente com o problema de uma geração de homens céticos e sem fé que nasceram nas rudes cidades latino-americanas41”. É o caso de Roberto Piva, talvez com alguma elasticidade o caso de Clarice Lispector e Nelson Rodrigues, e o caso, sem dúvida, do auxiliar de Golbery, Rubem Fonseca42. O escrivão de Golbery no IPES (acredita-se que por ser uma relíquia dessa época esse autor seja tão discreto) pode, sem nada que contradiga, descrever a cultura Pop. A questão do corpo, a questão “o quê ou quem está certo”, quem matou a viúva, quem matou a prostituta, e coisas do tipo, é o tipo de questionamento das bestas propostos a nós pela cultura pop. O Diário de um Fescenino, relíquia de nosso pós-modernismo. Quem o autor? Quem o protagonista? Tanto faz. Se ao menos houvesse uma Carmen, uma mola, algo que causasse desconcerto, algo que nos remetesse ao domínio da literatura e não o da autobiografia ou da fantasiação – como as perversões de um autor – infelizmente não poderíamos questionar a cultura pop “de dentro”. É como a Dona Maria de Lourdes, de Sérgio Sampaio: “Os automóveis estão invadindo / A simpli(s)cidade Enquanto a gente se arrasta / Eu prefiro isso aqui / Os automóveis são livres e agora / É preciso coragem / Olho meu rosto no espelho / E depois vou dormir”. Vou dormir de tédio ou de cansaço. Os automóveis invadindo são como as turbas, as kombis da Folha. Não são poluentes, flatos de bovinos como quer Gianotti, o economista de Marina. Aqueles que podiam viajar de carro (hoje é o caos da Pedra, como quer a Folha). Sérgio Sampaio viajava de trem. Escrevia a História do Boêmio segundo Nelson Gonçalves, e Raulzito cantava “samba e rock, morena. Balada e baioque”. Fugia, na “linha de fuga”, no “devir molecular”, como os autores mais difíceis e por isso menos populares, da mais legítima contra-cultura. Ou seja, de contra-cultura alguma, mas do futuro.

NOTAS

1 Deleuze, Gilles; Guattari, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 11.
2 Idem, p. 24.
3 Idem, p. 81. Grifos no original.
4 Idem, p. 484.
5 Idem, p. 124. É importante destacar que os autores falam de uma “psicanálise edipiana”, ou seja, em momento algum reduzem sua crítica a psicanálise freudiana somente.
6 Idem, p. 298.
7 Para não nos acusarmos de estarmos utilizando alguma espécie de “signo oculto” com a expressão “era pós-Nixon”, afirmamos que isto significa simplesmente a era que se seguiu ao desmantelamento do sistema de Bretton Woods, ou seja, do regime de trocas fixas entre as nações, era que anunciou o surgimento dos petrodólares e da desregulamentação financeira desbragada, cujo fim foi o “sistema da dívida” preconizado pelo Consenso de Washington e o Plano Brady, assim como o sepultamente da lei Glass-Steagall dentro dos EUA.
8 Idem, p. 300.
9 Idem, p. 406.
10 Lísias, Ricardo. Divórcio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013, p. 207.
11 Idem, p. 211-2.
12 Todas as citações deste parágrafo são do livro idêntico, na p. 212.
13 Idem, p. 231.
14 Idem, p. 232.
15 Idem, p. 235.
16 Deleuze; Guattari, 2010, p. 300-1.
17 Como se o império não fosse tal pelo fato de ser selvagem. O império não é forma superior do capitalismo, pois é ele quem funda a crueldade, a “razão bárbara”. O capitalismo frente à oligarquia comandante do império é simples jogo de palavras, é uma abstração a mais como encontramos abundantemente na teoria monetária. Não por outro motivo, Lyndon LaRouche tem o O Capital como um cansativo livro de contabilidade e não de economia real: LaRouche, Lyndon. What your accountant never understood: The Secret Economy. Executive Intelligence Review, 17 de abril de 2010.
18 Idem, p. 404.
19 Idem, p 186.
20 Idem, p. 185.
21 Existe aqui uma excelente proposta de estudo para esses profissionais: "As nossas sociedades modernas procederam a uma vasta privatização dos órgãos, o que corresponde à descodificação dos fluxos tornados abstratos. O primeiro órgão a ser privatizado, colocado fora do campo social, foi o ânus. O ânus foi quem deu seu modelo à privatização, ao mesmo tempo em que o dinheiro exprimia o novo estado de abstração dos fluxos. Donde a verdade relativa das observações psicanalíticas sobre o caráter anal da economia monetária". Pág. 189 do Anti-Édipo.
22 Ele perguntou ao oráculo se deveria fazer guerra ao império persa, e assim foi respondido: “se ele fizer guerra contra os persas, ele iria destruir um grande Império”. Croesus perde a batalha e ao interpelar novamente o oráculo, este responde que deveria ter perguntado de novo, agora para saber qual império sairia destruído.
23 Havely, Aaron. Idem.
24 Havely, Aaron. Idem.
25 Deleuze; Guattari, p. 188.
26 Idem, p. 191-3.
27 Idem, p. 252.
28 Lísias, Idem, p. 7.
29 Refiro-me aqui as pesquisas de Webster Tarpley e Anton Chaiktin, assim como as de Antony Sutton.
30 Lísias, p. 11.
31 Miller, Henry. Sexus. Rio de Janeiro: Record, 1967, p. 206-7.
32 Lísias, p. 30-1.
33 Dante, Alighieri. Divina Comédia. São Paulo: Editora 34, canto XXVI.
34 Cuenca, João Paulo. Corpo Presente. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003, p. 59.
35 Idem.
36 Idem.
37 p, 60.
38 Idem.
39 p. 61.
40 p. 22.
41 Rama, Ángel. Meio século de narrativa latino-americana. Em: Ángel Rama: literatura e cultura na América Latina. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001, p. 164.
42 Referimo-nos aqui ao trabalho do professor de ciência política da UFMG, o uruguaio René Armand Dreifuss, cujo título é “1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe”, publicado pela editora Vozes em 1981 e não mais editado.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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