Ciro é um candidato viável? A "frente das esquerdas" de Luís Nassif

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Escrevi uma resposta ao "Xadrez do fim do mundo", do Luís Nassif, e apontei para o pessimismo do autor frente ao cenário terrível que vivenciamos. Hoje em seu blog, Nassif aponta muito bem para o costume das esquerda de atacarem a si próprio. Elas parecem não conhecer o seu inimigo e viverem de um narcisismo constante. Esse é o erro de Ciro Gomes, o erro tão natural dos "progressistas". Critica a esquerda e a direita, quer aparecer como independente, e não agrega forças para além da admiração que se possa ter pelo seu suposto caráter. É lamentável, no mais, que personagens relativamente bem esclarecidas cultivem o caráter como Ciro, o que faz lembrar os ditadores, o que faz lembrar os atavismos mais funestos que ainda guardamos como espécie.


Se for para falar de personalidades fortes, como não lembrar de Jacques Wagner, muito poderoso em seu estado e que teve papel de liderança durante o governo de Dilma?

A questão é essa: o Lula é o líder maior de um grande movimento de massa, operário, das classes médias urbanas e de organizações campesinas e religiosas, que deu na fundação do Partido dos Trabalhadores. Lembrar dos protestantes dos "20 centavos" (aqueles que Nassif acha uma pena o governo petista não ter dado mais ouvido) pedido praticamente arrego para a CUT e o MST para controlar as manifestações é um fato que muito ajuda a explicar porque se deve peneirar ao máximo tudo o que hoje se chama de novos movimentos sociais. Ainda está para se investigar como a antiga bandeira do movimento estudantil foi cooptada e se tornou no Maidan brasileiro em 2013.

Quando ele fala que as melhorias no PT virão de fora para dentro não entende a capacidade de aglutinação social que ainda tem o partido. Continua sendo o maior partido popular do ocidente e constrói suas alianças com os movimentos minoritários mais ou menos tradicionais com grande força. Não é o PT que tem quizilas com o PSOL, por exemplo. Freixo, ano passado, culpou o PT por sua derrota. Como? Um candidato que não atravessa o túnel Rebouças, quanto menos a av. Brasil...

Nem num pesadelo o PSTU nasceu do PSOL: isso é só um erro básico que queria apontar no relato de Nassif. O PSOL nasceu - como não é difícil de saber - com a crescente insatisfação logo no início do primeiro mandato de Lula com a política conciliatória praticada por ele. Com o mensalão, correram assustados: não se sabe se por medo ou se por excesso de pudores. O PSOL se legitima com o mensalão, se legitima com algo que não existiu... Fica fácil de saber porque daí saíram Heloísa Helena, Luciana Genro e "bom moço" Freixo.

Isso é ponto pacífico e não é "guerra entre as esquerdas". A união deve-se dar entre os movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, principalmente. A CUT e o MST (e todas as outras siglas conexas) são fundamentais para a guerra que se travará com a votação da Reforma da Previdência e a Trabalhista, que vem no bojo. O movimento de mulheres que se uniram para defender Dilma e seu mandato, o movimento negro, o dos guetos: são milhares de composições que se podem formar, e que, historicamente, são mais ou menos próximos ao PT, ainda que existam afinidades com a pulverização das esquerdas que foi a criação do PSOL, Rede, etc., mas também o fim do PSB com a mudada de rumo de Eduardo Campos.

(em 2012 todo o campo da esquerda comemorava a vitória triunfal nos municípios enquanto a mídia tentava comemorar as condenações no mensalão. Parecia que com todo o esforço os donos do poder não conseguiriam muita coisa... aí vieram os movimentos de 2013, "atos de guerra irregular moderna", como classificam a inteligência e os militares dos países asiáticos; veio a parceria do judiciário brasileiro com o DOJ americano, a falência do sistema financeiro transatlântico junto com a manipulação dos preços das commodities, em especial a guerra contra a Rússia com o preço do petróleo. Veio tudo, mas ali em 2012 uma aliança com Campos parecia inexorável, vista com muita alegria, e tudo foi-se agora, pelo menos por enquanto)

Ciro congrega quantos mil?

O " conjunto de circunstâncias que ainda estão indefinidas", segundo Nassif, são fáceis de explorar: 

1) pouco importa; os golpistas não tem candidato e é um ultraje à inteligência do povo brasileiro considerar Bolsonaro. No mais, seria muito divertido, e acho que bem ruim para ele, debater com um bom candidato de esquerda, seja com a história, a retórica e o carisma de Lula, seja com Ciro Gomes, ou, um candidato ainda provável se o PT, sem Lula, quiser sair sozinho, Jacques Wagner.

2) A tentativa de reforçar o estado de exceção somente parcialmente viável caso Moro consiga prender Lula e depois sair a condenação em segunda instância. Quais as probabilidades disso? O jogo não está tão fácil para eles atualmente. Abortar as eleições? Seria ainda mais improvável e degradante. Extinguir o PT? A esquerda continua. Fala-se muito de um possível recrudescimento do golpe, mas isso é somente a aprovação das reformas de Temer, ou seja, o genocídio - mais do que o mal suficiente. Quais os sonhos dos golpistas sem terem candidato? A única tática é a grosseria pura, mas será que para isso conseguirão abolir até a parte "formal" da nossa democracia, fundamentalmente as eleições? A próxima grosseria e escárnio é ver os políticos do PMDB fazendo malabarismo para manterem foros privilegiados e fugirem da justiça a todo momento. O PSDB está acabado faz tempo. Somente tem sobrevida num próximo governo que queira a generosa companhia. No universo paralelo da mídia serão sempre os heróis. Falta só cair o último bastião, São Paulo. Depois disso será preciso saber como vão se reorganizar as forças de direita e não as da esquerda...

3) Fala sério! Hoje, a dinâmica da Guerra Fria (que persiste) vai muito além do simples uso de armas e paus-de-arara.

A proposta do Conselho é bem engraçada. Por que uma organização tão formal? O conselho certo é a união popular contra os abusos, como visto no carnaval, como visto na união inédita que permitiu a vitória de Dilma em 2014, com as mobilizações que já ocorreram e tendem a aumentar com os descalabros dos golpistas. Para quê uma reunião de sábios?

Nassif, desculpe as críticas. Admiro muito o trabalho que você faz, desde os escritos dos anos 1990 até agora. Acho que o grande Conselho é esse, o debate franco e aberto. Arejar e melhorar as ideias. Gosto dessas palavras de Miguel do Rosário, que lembram a época do suor, das ruas, do corpo a corpo que realmente o PT perdeu. Esse é um grito de luta e de união:

Para sair desta crise, os partidos progressistas terão de eleger dirigentes que estejam dispostos a trabalhar, e isso inclui aparecer na mídia todos os dias. Fazer análises diárias e semanais em vídeo. Conversar ao vivo com a população. O PT, principal partido da esquerda, precisa sair do seu gueto, da sua “Agência PT”, e ter um presidente e um corpo de diretores comunicativos, extrovertidos, falantes, dispostos a fazer a luta política diária na comunicação, dando entrevistas a jornais alternativos, blogs, imprensa internacional, enfim, a todos os setores da comunicação não comprometidos com o golpe. Isso vale, naturalmente, para todos os parlamentares, prefeitos e governadores de legendas progressistas.
Para construir a resistência, será preciso lutar. E lutar, em política, significa vir à público e se manifestar, produzir inteligência, análise, informação e contrainformação!
Se continuar todo mundo embaixo da cama, será difícil mudar alguma coisa! 

Assino embaixo no que se refere ao teste do Manifesto. Fica com você as palavras finais.

Por ora, a única maneira de consolidar um arco de esquerdas – fundamental para alicerçar qualquer veleidade política não só de Lula, como de Ciro – é unir-se em torno de Lula. 
Daí a importância do teste do Manifesto. 
A petição pedindo a candidatura de Lula pode ser acessada clicando aqui.

Evandro Teixeira: a frente dos Cem Mil. "Fora temer! O povo no poder".

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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