Alfred Jarry iniciador e iluminador – por André Breton

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Rue Alfred Jarry, à Laval, 1953 © ADAGP, Paris, 2012.
Aproveitando a bela e nova edição do Supermacho pela editora Ubu (que escolheu a tradução de Paulo Leminski), e também à peça que Marco Nanini está encenando (o outro clássico, o Ubu-Rei), publicamos aqui o texto de Bretton, segundo o qual: "assim como não podemos reduzir Sade à perversão que tira dele seu nome, nem Baudelaire à obsessão com a morte, nem Lautréamont à vontade de glorificação do mal em Maldoror e depois do bem em Poesias, não poderíamos permitir por mais tempo que tudo aquilo que Jarry exprimiu de diferente seja sacrificado em nome do gosto com que ele marcou. (...) Que ele tenha ou não oferecido o travestido ou o burlesco diante de tais plateias de “homens de letras”, pouco importa: dada a envergadura deste olhar, o importante seria restitui-lo à sua verdadeira luz interior".

Alfred Jarry iniciador e iluminador – por André Breton






Publicado originalmente no site da editora Ubu

“Pintar é somente fingir”: esta proposta de Corneille Curce, autor de uma obra intitulada Les clous du seigneur (1634), Alfred Jarry a toma para si em um artigo abundantemente documentado sobre o mesmo assunto, que o Ymagier[1] publica em seu número 4, datado de julho de 1895. Sabe-se que hoje em dia ninguém mais do que ele é vítima de um dos piores flagelos de nosso tempo que é, em geral para propósitos sectários, a redução grosseira a um ponto de vista.

Tudo se passa como se de toda sua obra restasse apenas Ubu rei e textos posteriores na mesma linha; como se o humor, abundante lá mais do que em qualquer outro lugar, houvesse corroído profundamente, à maneira de um ácido, o metal para mascarar todas as outras formas de manifestação de uma personalidade, ainda que das mais ricas e complexas (mas é precisamente esta complexidade que não queremos: é mais confortável considerar apenas um aspecto de um certo pensamento, sobretudo se por acaso este aspecto ganhou um relevo excepcional). E entretanto, assim como não podemos reduzir Sade à perversão que tira dele seu nome, nem Baudelaire à obsessão com a morte, nem Lautréamont à vontade de glorificação do mal em Maldoror e depois do bem em Poesias, não poderíamos permitir por mais tempo que tudo aquilo que Jarry exprimiu de diferente seja sacrificado em nome do gosto com que ele marcou – e ilustrou como ninguém – o teatro de Guignol[2]

O autor de Ubu rei, Ubu enchaîné, Almanachs e Passion considérée comme course de côte, é também o do prólogo e do último ato de César-Antéchrist, de L’Autre Alceste, de L’Amour absolu, obras de ressonância, e quiçá de intenção final, bem diferente. Na verdade, a curiosidade de Jarry foi enciclopédica, se entendermos o termo não mais nas acepções do século XVIII, mas naquelas da passagem do século XIX ao XX. Esta passagem ocorre por uma porta que continua a nos interessar profundamente, a ponto de nos fazer voltar para ela, porque não sabemos nem de longe para onde ela conduz – o que já não é reconfortante. Entre todas, é a obra de Jarry que constitui, no plano sensível, a dobradiça dessa porta. Não há olhar que alcance uma extensão mais ampla tanto para o passado quanto para o futuro como o de Jarry.

Não somente Jarry profetiza e estigmatiza em Ubu rei e Ubu enchaîné as propostas aberrantes e mortais com as quais lidaremos depois dele, não somente seu gênio inovador o inspira a tais escapadas líricas (a “Corrida das Dez Mil Milhas” em O Supermacho, a “Batalha de Morsang” em Dragone), cujo modernismo jamais foi ultrapassado e nem mesmo igualado, mas é como se ele já soubesse, por incrível que pareça, aquilo que vai interessar nossas interrogações sobre o passado, ele as identifica e as responde antecipadamente. Estaria mais do que na hora de fazer cair a máscara de gesso de “Kobold” ou de “clown” com as quais Gide e alguns outros que não o amavam – e com razão – fantasiaram o rosto de Alfred Jarry. Que ele tenha ou não oferecido o travestido ou o burlesco diante de tais plateias de “homens de letras”, pouco importa: dada a envergadura deste olhar, o importante seria restitui-lo à sua verdadeira luz interior.

[1] Revista criada em 1894 por Alfred Jarry e Remy de Gourmont com duplo objetivo: lançar um novo olhar sobre a História da Arte, favorecendo o velho imaginário, o folclore, a lenda e, ao mesmo tempo, promover novas obras. A revista teve apenas 8 números.
[2] Teatro de fantoches criado no século XIX na França.

Este texto foi originalmente publicado em francês.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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