"Onde não houver democracia nós levaremos nossos aviões": não se preocupe, esquerda bolivariana

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22:04:00

Ride the highway west, baby / Ride the snake, ride the snake


É com essa frase sensacional do candidato da "ultra-esquerda" francesa (são sempre muito divertidos essas denominações por geralmente não dizerem absolutamente nada - José Serra à esquerda de FHC que também foi de esquerda, e assim seguimos até o inferno), Jéan-Luc Mélachon: "onde não houver democracia levaremos nossos aviões". Versão bem pós-moderna da doutrina do Big Stick. Ao ser perguntado sobre o "regime de Maduro", o candidato à presidência da França fez uma pergunta muito simples: você está me falando do Maduro, o presidente, ou da constituição venezuelana? O que seria o "regime" de Maduro: um ou outro? O entrevistador, claro, não tem o que responder. Isso é demais para qualquer "liberal", qualquer propagandista do fim do mundo quando seus objetivos não são atendidos. Aliás, quando são, falam em "fim da história"...

Mélachon retruca perguntando sobre o por quê da centralidade da Venezuela no debate francês: e o Iêmen, e o Qatar, Bahain  - presos políticos, morte de civis, supressão de partidos - sobre nada disso se fala enquanto se louva a Democracia. Sobre a Venezuela: e a partilha dos recursos do petróleo? Queremos que a Venezuela (e isso é o que Dilma sempre falava em termos de "maldição do petróleo") se torne uma monarquia ao estilo árabe para assim obter o apoio Ocidental? Os venezuelanos se manifestam contra o governo de Maduro? As manifestações na França são do mesmo teor: manifestações de oposição. Qual sua predileção como jornalista que é? Que tipo de democracia defende? Seria uma alternativa real ficar todo o tempo fazendo o balanço entre gastos fiscais e gastos sociais para se definir qual será diretriz econômica francesa? Os "gastos fiscais" são realmente assunto relacionados à soberania nacional ou assunto exclusivo da Troika?

E assim vai. Para quem quiser assistir, disponível só em francês, clicar aqui ou ver aqui embaixo.


Assad também se apresentou essa semana num diálogo bem franco, com um jornalista sírio que, por conhecer minimamente os problemas internos, não tem que ficar aludindo toda hora à deusa América. Falou sobre seu diálogo com a oposição, com a impossibilidade de qualquer tratativa de paz com os terroristas, pois em grande parte são estrangeiros e são financiados por outros países. Na verdade, são mercenários numa região do planeta em que esse meio de vida é comum. Sem abusar da comparação, é como no Sertão rosiano: ou se vira jagunço ou se vira padre. É claro que, no Oriente Médio, não sabemos qual seria a alternativa ao "padre" de Guimarães Rosa. Achamos conhecer tão bem a região quando falamos de guerras e fundamentalismo porém se, caso consideremos a hipótese habitual, de que o fanatismo religioso é aliado do ímpeto guerreiro, o Grande Sertão é o Éden já que, pelo menos, oferece mais do que uma opção.



Não sabemos ainda se foi um show de pirotecnia de Donald Trump seu ataque à Síria e as ameaças à China veladas com ameaças à Coreia, ou se sua virada de mesa é algo definitivamente sério.


O presidente Coringa estava sendo atacado por todos os lados por causa de um suposto envolvimento com a Rússia. Foi o que falei quando disse pertencer à sofística os vocabulários "pós-modernos" como fake news, pós-verdades e etc. O que vale, e isso há bem mais tempo do que se conta, é o neomacartismo. Não foi sobre outra atmosfera que cresceu o governo Lula, por exemplo, tendo sempre que viver uma liberdade negociada. Agora são tempos de guerra e a perseguição ao inimigo não admite mais trelas - como se vê no caso de toda a América do Sul, visivelmente ameaçada pelas forças de conquista do Império, ainda que não se veja aviões ou drones no nosso céu. Mas a violência dos mísseis Tomahawk são apenas a tradução física do ataque quase nuclear que fizeram (nuclear também no sentido que quiseram devastar, transformar em terra arrasada, todas as políticas que levaram o país em 2014 - nem tanto tempo assim atrás - a sair do mapa da fome da ONU e atingir os 4% de desemprego). Logo, segue atuante também por aqui as palavras de Mélanchon, que não saíram sem uma boa inspiração.

ONDE NÃO HOUVER DEMOCRACIA NÓS LEVAREMOS NOSSOS AVIÕES

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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