Pós-verdade, narrativas e fake news: palavras vazias diante do neomacartismo

0
23:06:00

Como disse Jim Morrison: the West is the best

As "feak news" da Folha, numa matéria intitulada "Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil", começa com um tema para chamar a atenção de seus leitores. Gilberto Gil supostamente teria chamado Sérgio Moro de "juizinho fajuto". É o que desperta a atenção do paneleiro leitor. Mas as inverdades são desmentidas. O responsável pela divulgação da fala de Gil, Beto Maluco, diz ter reportado de outro site segundo o qual o cantor teria se expressado dessa maneira num show. Como não há vídeo que prove, o Maluco perdeu o processo e ainda pode coçar os bolsos para dar a Gil "danos morais".

Fábulas urbanas como o não menos estranho costume urbano de pés no chinelo e calçada molhada - sempre se procura evitar. Rasteira, imunda e superficial: é assim que a Folha quer mostrar "a engrenagem das notícias falsas no Brasil"? Engane o idiota e produza sua própria fake news. Esta seriam modo de malucos produzirem manchetes sensacionalistas, ganharem cliques e faturarem algum trocado. Não sei se é tanto para guardar na Suíça ou no luxuoso apartamento dos tucanos em São Paulo - em notas vivas, nativas e estrangeiras. As fake news, portanto, estão reduzidas a um tipo de comércio de baixo nível e pode manchar o nome de pessoas públicas. Será só isso mesmo?

O competente historiador Robert Darton, na mesma Folha, remete as fake news ao Gênesis:

s historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existirams historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existiram
Os historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existiram...
E as notícias falsas sempre existiram. Procópio foi um historiador bizantino do século 6  [sic] famoso por escrever a história do imperador Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado "Anekdota", e ali ele espalhou "fake news" , arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha presidencial americana. 
A meu ver o principal difusor de fake news, ou "semi-fake news" (porque as notícias continham um pouquinho de verdade), foi Pietro Arentino (1492-1556), um grande jornalista e aventureiro do início do século XVI. Em 1522, quando sua carreira começou, ele escrevia poemas curtos, sonetos, e os colava na estátua de um personagem chamado Pasquino perto da Piazza Navona, em Roma. Ele difamava cada dia um dos cardeais candidatos a virar papa. E os poemas eram hilários. Ele caçoava de um que era muito tímido dizendo que era o menino da mamãe, que outros tinham amantes, etc.
Esses poemas ficaram conhecidos como "pasquinadas". Eram fake news em forma de poesia atacando pessoas públicas, fizeram grande sucesso e Arentino os usou para chantagear pessoas, papas, figuras do império romano etc que lhe pagavam pra que ele não publicasse essa espécie de tuíte ancestral. 
Aí eu pularia par meu próprio período de estudos, o século 18, quando havia gente que espalhava fake news, às vezes por dinheiro, noutras por esporte.
Na Londres de 1770 os chamados "homem-parágrafo" recolhiam fofocas e as redigiam em um único parágrafo em pedacinhos de papel e vendiam para impressores/editores, que as imprimia em forma de pequenas reportagens muitas vezes difamatórias. 
Acho que essas histórias eram muito mais escandalosas do que hoje. 
Atuavam também em Paris, de forma mais subterrânea, porque havia censura à imprensa.
Então você tinha esse tipo de fake news - eram como tuítes ou posts do Facebook - circulando por toda parte em Paris e Londres às vésperas da Revolução Francesa e em boa parte do século 18.
Outro conteúdo genérico a respeito das "notícias falsas" - propaganda amiga - pode ser visto no comercial do New York Times:



Tudo isso mostra o empenho da mídia em pautar o que é ou não uma notícia falsa. Das fofocas de facebook até os grandes temas internacionais, o importante é ter o controle sobre as narrativas. O G1 faz uma reportagem sobre o empenho da Facebook em combater as "fake news". Um cidadão consciente, não sei se mais ou menos famoso do que Jobs, com certeza mais militante que Snowden, quer trazer a verdade para a rede.

Um palhaço no palco.

Quando se fala em Big Data é claro que não se pensa em Octopus. Não importa onde se procure, serão sempre temas amenos os encontrados na mídia, em qualquer uma delas, em 99% dos casos. Falar a verdade, como pode lembrar os últimos estudos de Foucault, sempre vem acompanhado de um componente de risco. Não só de processo judicial, mas para a própria vida. O livro Conspiración Octopus, de Daniel Estulin, foi o primeiro e único livro do autor em narrativa romanceada. Impossível contar toda a história do que é essa pós-indústria estadunidense, de Googles e Facebooks, sem, simplesmente, ser assassinado, como foi Danny Casolaro e alguns outros. Snowden é outro caso semelhante, porém conseguiu refúgio na Rússia - esse lugar anti-democrático - e ainda consegue, mesmo sem acesso aos arquivos de inteligência, falar a verdade de como as narrativas são fabricadas. Que as agências de inteligência estrangeiras podem invadir os smartphones, o whatsapp, etc., é verdade de polichinelo, pelo menos desde Snowden. Até televisões com câmeras ou microfones foram acessados pelos EUA no escândalo da espionagem que veio a tona durante o governo Obama. É um eufemismo falar em conteúdo pornográfico. A intimidade das pessoas como um todo é exposta nesse gigantesco sistema de Big Data. Não tem nada a ver com publicidade; relação alguma com dinheiro. Não se deve pensar em termos de "geopolítica", como se fala. Não se invade o Oriente Médio para extrair petróleo. Essa é a parte exotérica da situação. Desde a questão do roubo do ouro dos Yamashita, do saque no sudoeste asiático logo após a Segunda Guerra - para falarem que não sou historiador - a questão do dinheiro nada mais é do que uma pós-verdade, uma "fake news".

Escrevíamos esse post antes dos ataques estadunidenses à Síria. Estava em pauta ainda, e de maneira bem intensa, o chamado "Russian Gate". O escândalo fabricado tinha relação direta - na verdade era o que a mídia chamava de caso maior - de fake news. Ao contrário do que se continua pensando aqui no Brasil, nos EUA o voto em Trump não foi só uma questão de "sistema eleitoral" ou de racismo dos antigos degredados da Saxônia. Muitos votaram em favor de uma "nossa América" que seria a primeira na prioridade do governante. Não às guerras externas, ao expansionismo indefensável, à desmoralização internacional, etc. Aí a grande decepção: pior que Obama. O tímido democrata, apesar de sua retórica imperialista, não ousou atacar diretamente um Estado soberano. Patrocinou oficialmente os "rebeldes moderados" e continuou, via monarquia do Golfo Pérsico, a financiar a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Trump acabou logo com a politicagem do correto. Atacou direto e dane-se o resto. Na cara dos chineses ameaçou a Coreia. Só um ponto, os coreanos do norte não estão "se armando até os dentes" por causa de uma remota possibilidade de ataque dos coreanos do sul. O que causa furor aos aliados chineses é o estabelecimento do sistema THAAD, o escudo anti-mísseis concebido durante a guerra fria, e que seria para ser estabelecido numa cooperação com a URSS. Foi o maior esforço para acabar com apolítica de confronto e quem liderou essa iniciativa foi Lyndon LaRouche. Por isso foi preso, ele e seus colaboradores, num processo secreto movido por Kissinger e que levou à prisão política dos líderes americanos em plena queda do muro de Berlim, ou seja, quando supostamente as liberdades democráticas do ocidente estavam, de vez, asseguradas para a população mundial. 

Logo, ficou um pouco sem motivo a militância que faríamos quando idealizamos o post. Trump realmente superou todas as expectativas. Aqui sempre o chamamos de o Coringa. Pode ser uma carta muito útil no baralho, mas pode ser também de valor zero. Na verdade, o Coringa está mais para o algoz do Batman do que para a surpresa na mesa de jogo. E ele fez zerar muitas expectativas. Decepcionou a muitos. Não parece que vai reverter seu procedimento. Não tem qualquer preparo para isso. O atentado à Síria foi praticamente uma declaração de guerra mundial. Contra  a Rússia, primeiramente. Com a intervenção da China e o papel da OTAN, um novo Apocalipse se nos avizinha - mas já alertamos isso em muitas outras vezes, desde que criamos esse blog ano passado, o que não quer dizer que não estamos alertando para esse risco -  por vezes nitidamente inevitável - de uma nova guerra mundial - desde que escrevemos para um público mínimo, seja me nossa monografia de graduação, em nossa dissertação de mestrado, e em qualquer situação em  que podemos fazer nossa fala pública, seja de maneira escrita ou oral.

Como falar novamente de fake news agora? A Carta Capital lançou algumas artigos tentando explicar o tema. remeteu ao dicionário Oxford às origens do termo, comemorou que o Facebook tomou iniciativas a respeito do tema!, remeteu a Trump, como é de praxe, mas nunca encontrou o nexo entre pós-verdade e "notícias falsas". Esta teve sua forte campanha, quase que sua certidão de nascimento, quando da eleição americana e os vazamentos contra Hillary Clinton. o problema, e isso não se vê ainda agora, que a Wikileaks vazou a favor de Sandres. Trump nunca foi o favorito, mas o adversário de Hillary poderia ganhar as primárias de seu partido. O republicano eleito sempre foi o cara mal visto pela mídia, escrotizado pelos politicamente corretos. De minha parte, sempre achei que, se uma guerra haverá, e das proporções que se avizinham, seria melhor em prol da verdade que Barack ou Hillary a começassem para não ter hipocrisia quanto aos instigadores de tal aventura. Começou uma guerra mundial: logo, culpado é Trump, o escroto ricaço analfabeto. Queria um neoliberal democrata a começar a aventura. Seria o fim das máscaras. Mas caso o Apocalipse de fato venha a acontecer, vamos ver as "afinidades eletivas" se definirem.

O fato é o seguinte, independente do que quis dizer antes do ataque à Síria: quando se atacou Trump por suas posições inicialmente pró-Rússia era neomacartismo. Tudo o que se inventou a partir disso eram as fake news. A pós-verdade, tema um pouco mais antigo, talvez tenha sua origem no 11/09, e de fato com o Ato Patriota: não importa quem você é, mas quem achamos que você é. Daí você pode ser processado, preso e torturado. A verdade está estabelecida antes de qualquer comprovação. Não importam as narrativas. Esse relativismo nunca existiu e não sei qual alam piedosa continua a pelo menos lembrar nesse tipo de conceito. Remete à questão das imparcialidades, dos pontos-de-vista, etc. Isso não existe na experiência existencial que vivemos. à beira de uma guerra de aniquilação, narrativas na verdade são versões diferentes pra a mesma mentira. E aqui chegamos a nosso ponto, independente das intenções anteriores ou posteriores ao nosso artigo: é a liberdade negociada em que vivemos, nosso neomacartismo. O perigo vermelho rondando de todos os lados. Ainda mais agudo internacionalmente depois que Trump foi eleito. Parece que se uniu o reino das pós-verdades, das acusações feitas num filme de ficção científica - completamente surreais - ao que se chama de "notícias falsas", para falar da "conexão russa" de Trump, tudo isso na esteira da sanha persecutória do neomacartismo, que já vitimou nosso governo eleito e ataca Lula. Sempre o perigo vermelho. A guerra mundial, se virá, será na esteira da perseguição ao inimigo. Como fazem a Lula, ao PT, a Rússia, a China, a Venezuela e tudo o mais. Friedrich Schiller, quando da Revolução Francesa, disse que um povo pequeno encontrou um grande momento da história. Daí o seu fracasso. Não temos dois povos pequenos, mas os atlanticistas querendo dominar o mundo, querendo impedir que ele cresça para 10-15 milhões de pessoas e se tornar ingovernável, incontrolável. Esse será - e já é - o tom da guerra. Esse não será o fim.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

0 comentários:

Licença Creative Commons
O Abertinho de Rogério Reis Carvalho Mattos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://oabertinho.blogspot.com/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://oabertinho.blogspot.com.br.