Sobre a publicação de "A espera"

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Imagem utilizada pela Bestiário para ilustrar meu conto naquele distante ano de 2005.


No início dos anos 2000, uma série de iniciativas importantes no campo da literatura, aliadas da internet que surgia com força no nosso país, trouxeram à cena autores hoje importantes, ainda que não necessariamente consagrados. A antiga revista Paralelos, por exemplo, ou a Cronópios, e a própria Bestiário (objeto dessa postagem), publicaram textos de autores ainda iniciantes, alguns com romances já publicados, outros em vias de publicação, além de tantos meros contistas (e nem por isso menos talentosos). A revista Bestiário, além da vitrine aos novos autores, tinha uma seção para autores brasileiros, outra para hispano-americanos, para autores portugueses e também para autores africanos; uma seção para autores clássicos e para traduções de textos de autores clássicos; no fim, uma seção dedicada a artigos sobre a literatura. 

Um projeto completo como se pode ver, mas que foi sendo apagado pouco a pouco, numa situação de destaque social para a literatura nacional que hoje nos parece mais ter sido uma efeméride - talvez - do que algo mais articulado, estruturado, que poderia servir de impulso aos escritores, principalmente jovens, de ter seus textos publicados em vitrines valiosas e de fácil acesso. Não foi em vão o trabalho, pois aglomerou uma geração de talentos que ora iniciavam sua carreira, muitos dos quais hoje com a carreira relativamente consolidada. Foi um projeto firme, que deu frutos, mas que infelizmente não teve continuidade.

Faço lembrar essas histórias por ter encontrado ainda disponível nos arquivos online da revista Bestiário um pequeníssimo texto meu, publicado quando ainda tinha 17 anos de idade. Um texto feito num impulso, escrito quase à força para mostrar ao nosso então professor da oficina de escrita ministrada no SESC Copacabana, o escritor a quem admiro, o João Paulo Cuenca. Moral da história de acordo com os colegas que participaram das aulas comigo: o cara que não escrevia texto nunca (no caso, eu) quando escreveu, foi o único que conseguiu despertar a admiração do professor. E isso em meio a tantos textos que lhe foram entregues naqueles dias.

Aproveito então que agora tento levar um blog à frente, para republicá-lo, para novas audiências.
Quem quiser acessar no site da revista, no original, e sem as pequenas correções que fiz agora, pode acessar esse link. É também um modo de conhecer um pouco a estrutura de publicação da revista, o projeto interessantíssimo que hoje não encontramos igual, pelo menos não na intensidade como ocorreu naqueles anos. Só um esclarecimento: escrevi-o durante as oficinas de escrita acima mencionadas. Isso ocorreu em 2003, quando tinha 17 anos, como disse. O texto foi publicado em 2005. Continuo a gostar dele e da história que o envolve (a cara de estupor do Cuenca, o orgulho de tê-lo publicado na Bestiário, etc.). Segue então, com mínimas correções.


ESPERA



Te vejo dormindo e fico estático para não te acordar. É o pavor que sinto quando penso em você olhando minha cara assustada, meu corpo trêmulo, minhas unhas inquietas dentro da boca.

Lentamente vou me concentrando na sua respiração, nas linhas do seu rosto suavemente encenadas pela luz pálida da noite que invade o quarto.

Fujo desesperadamente pelas ruas. Nenhum carro, nenhum grito. Somente a chuva caindo por todas as partes, como se não existisse.

Quando acordo uma multidão de cheiros me abraçam. Vou colocando cada mulher em seu lugar. Tento enumerá-las, lembrar se são negras ou morenas, qual voz mais doce me ninou.

Você está para mim como para quem vê televisão, como a advertência vazia da mãe, ridícula como a simpatia.

A distância que enxerga meus olhos vem dos textos que ainda não escrevi, dos porres que ainda não tomei, dos versos cantados fora do tempo que para você soaram como uma linda melodia.

Sentindo o vazio da cama ao seu lado você me tateia, me chama como a terra úmida ao luar acariciando as sementes dorminhocas.

Embalado com a brisa da manhã ainda sonolenta, sinto seu beijo e choro desesperadamente entorpecido pelo seu cheiro, pois o sono não adianta mais. Não existem mais promessas.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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