Contra um moderno mito pagão: a vox populi e o conceito de Revolução Francesa

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David - À morte de Marat


A “mitocracia” ou personalismo na política, inflada pelos mais diversos tipos de reprodução imagética ou retórica, é oposto ao universalismo proposto pelas constituições nacionais da era moderna. O apelo às massas, a vox populi utilizada pelos antigos imperadores romanos, desde o período em questão, antes serviu para golpes de Estado e ao estabelecimento de ditaduras do que realmente como uma medida democrática visando equilibrar a balança do poder com alguma espécie de ponderação ou sabedoria popular. O conceito de liberdade de imprensa e de apoio popular tal como defendem os agentes da versão brasileira da Mani Pulite, legitima também o despotismo e o Terror, como foi o caso da revolução na França. O personalismo em nossa política, corolário do conceito da ciência política chamado de “populismo”, não está no ex-presidente Lula, que sempre respeitou, talvez até em excesso, as instituições republicanas. O tipo de narcisismo como o do imperador Nero, capaz de incendiar uma cidade para construir no lugar uma outra mais bonita, é antes o comportamento dos “homens de preto” que passaram a comandar a política nacional. Assim, Sérgio Moro é nosso Felipe Igualdade, o demagogo duque jacobino da época da Revolução Francesa, frustrado em seus intentos de poder, mas que conseguiu instaurar o caos e o liberalismo, não o de Meirelles, mas o de Jacques Necker, na França revolucionária.

Publicado por mim originalmente na revista Voyager em 26 de julho de 2017. Pode ser lido em PDF no Academia.edu


Contra um moderno mito pagão: a vox populi e o conceito de Revolução Francesa



1. Os dois corpos do rei



Desde a época dos antigos imperadores romanos até pelo menos o início da era moderna (séculos XIV e XV), costumava-se, na Europa, se fazer um duplo sepultamento dos reis. Uma estátua de cera substituía o corpo do imperador durante as cerimônias que precediam seu enterro. Do mesmo modo, na Inglaterra e na França do Quatrocentos e do Quinhentos, os restos mortais dos reis eram substituídos por manequins ou imagens de madeira, cera ou couro durante suas aparições públicas.

Uma página bem conhecida da História romana de Díon Cássio descreve a estátua de cera do imperador Pertinax, falecido em 193, “adornada com hábitos triunfais”; diante dela, “um jovem escravo espantava as moscas com um leque de plumas de pavão, como se o soberano estivesse dormindo”. Herodiano descreve com ainda maior riqueza de detalhes as cerimônias que se seguiram à morte de Sétimo Severo: durante sete dias a imagem de cera do imperador, acomodada num grande leito de marfim com cobertura dourada, foi visitada por médicos que constatavam que o doente estava “cada vez pior”. Essas descrições certamente lembram o que aconteceu na França em 1547, depois da morte de Francisco I. Por onze dias, foram realizados banquetes, primeiro junto do cadáver, depois junto da efígie do rei: comia-se junto dele, bebia-se junto dele, e “bacias de água limpa eram oferecidas ao trono do supracitado Senhor, como se ainda ali estivesse sentado, vivo”. [1]

Tais rituais funerários, tão exóticos para quem nasceu na virada do segundo para o terceiro milênio, cumpriam uma função pública importante, como o da artilharia militar no enterro dos chefes de Estado dos dias atuais. Neste caso, falamos das honras militares de quem foi o comandante maior das forças armadas, representando assim a subordinação militar ao poder político. Porém, quando falamos sobre a história tardia da Europa, a cerimônia do “corpo duplo” do rei igualmente era impregnada de significado para aquela sociedade. A morte como vemos hoje, ou seja, a de um fim definitivo no qual o chefe político não poderá mais influir nas decisões do seu país, tinha contornos mais tênues e apontava para uma ideia de eternidade que não estamos mais acostumados. Depois do enterro dos restos mortais dos reis ou imperadores, se seguia a incineração de sua imagem. Assim, o imperador era consagrado deus; o rei, em virtude da perenidade da função monárquica, não morria nunca.

A persistência das sociedades antigas em conservar seus soberanos, seja em forma de imagens ou, como no Egito, o próprio corpo, é notória. Francisco Pizarro, o conquistador do Peru, relatou que as múmias dos reis incas, durante momentos de grandes celebridades, eram exibidas por seus súditos e a elas ofereciam banquetes e brindes. É tão antiga a celebração dos mortos e tão presente em nossa história que podemos recorrer a um vocabulário grego para melhor compreender estas práticas.

A palavra em português “colosso” tem origem no grego kolossós (kολοσσός). No entanto, seu significado foi alterado pela história. Hoje em dia é um vocábulo que significa algo grandioso, descomunal, sendo geralmente designado para dar nome a uma estátua (mas pode ser também pessoas) de proporções não usuais. O “colosso de Rodes” (Rodes é o nome de uma ilha grega), uma estátua de 30 metros e mais de 70 toneladas de bronze, destinada à representação do deus Hélio(Sol), foi construída no terceiro século antes de Cristo e é a origem da transformação do significado da palavra. Antes, porém, da construção do monumento, kolossós significava simplesmente “estatuetas funerárias” ou “substitutos rituais”, ou seja, representações.

Por fim, podemos entender a palavra grega kolossós simplesmente como o nome dado a todo o signo religioso. A lei sagrada de Cirene (lei grega da segunda metade do século IV a.C.) previa um banquete ritual com estatuetas funerárias, como o que seria celebrado no Quinhentos em Cuzco (Peru) ou Paris (França). Para Jean-Pierre Vernant, estudando a mitologia nas sociedades arcaicas, o kolossós tinha o intuito de estabelecer com o além, com a morte, um contato real. Mas, ao mesmo tempo, deixava claro para o vivo o que o “além-túmulo” tinha de misterioso e inacessível, pois se tratava, no fim, de uma mera imagem.

1.1 O combate à idolatria e o dogma da transubstanciação


O combate à idolatria está nas origens da civilização cristã, tendo como seu primeiro defensor o apóstolo Paulo de Tarso. As imagens dos cultos pagãos eram geralmente esculpidas para retratar personagens antropomórficos e desde então, toda uma tradição de pensamento cristão, apoiada na filosofia grega, se ergueu para denunciar a inexistência de deuses com caras de cachorro, elefante, etc.

Por outro lado, com o passar dos séculos, os cristãos passaram a reencenar o culto judeu da adoração aos antepassados. O primeiro conflito historicamente registrado parece ser o que relata Peter Brown em seu livro “The Cult os Saints” [O culto dos santos], de 1981. A chegada das relíquias de Santo Estevão à ilha de Minorca, no Mediterrâneo, em 471, abalou a até então convivência pacífica entre judeus e cristãos. O reavivar por parte destes de um culto judaico – o culto às relíquias dos mártires – criou uma espécie de competição entre as duas filiações religiosas, que chegaram às raias da violência física. Os judeus se embarricaram nas sinagogas resistindo à pressão cristã, cujo objetivo passou a ser converter a força quem antes era praticante de um culto livre ao seu deus. Todos agora deveriam ser cristãos, sob os auspícios do novo patriarca da cidade, Santo Estevão.

Tal apropriação de práticas judaicas por parte dos cristãos é apenas um dos fios de um novelo ainda mais complicado. A apropriação de tradições hebraicas foi somente o início de uma prática deliberada de uma espécie de sincretismo cristão. A diferença entre os enterros romanos ou pagãos para o que depois veio a ser o modo de sepultar os mortos realizado pelo cristianismo, ao mesmo tempo em que marcou uma inovação, abriu brechas para novas misturas nos rituais. Quando se dá o deslocamento dos sepultamentos de fora para dentro das cidades, perde-se a duplicidade dos corpos dos imperadores romanos. Estes, com seus restos mortais, jaziam nos cemitérios extramuros; a sua efígie, entretanto, permanecia no recinto sagrado, no templo. De duas maneiras distintas o imperador “imortal” permanecia entre os vivos.

O culto às relíquias dos mártires foi impulsionado pela adoração aos restos mortais que jaziam no recinto sagrado. É preciso, no entanto, relembrar uma distinção feita por Orígenes quanto ao segundo mandamento mosaico para melhor compreender a metamorfose dos ídolos pagãos em imagens santas. “Não farás para ti ídolo, nem imagem alguma do que há em cima dos céus, nem embaixo da terra, nem das águas de baixo da terra” (Êxodo 20:4) assim ditou Moisés ao seu povo. O historiador italiano Carlo Ginzburg nos conta assim:

Ao comentar essas palavras, Orígenes deteu-se sobretudo na segunda distinção, remetendo-a à passagem da primeira epístola aos coríntios, em que São Paulo sustenta que comer animais oferecidos aos ídolos não é pecado, porque “sabemos que o ídolo de si mesmo nada é no mundo” (1 Corintios 8:4). Porém, observa Orígenes, “ele disse que os ídolos não existem, mas não disse que não existem imagens” [2].

Um ídolo seria o que não existe. Orígenes pensa em centauros e sereias ou no deus egípcio Anúbis, que possuía uma cabeça de cachorro com membros humanos. De fato, a tradição greco-romana em nada refuta a tese do religioso. Logicamente, diz Aristóteles, podemos entender como reais um bode ou um cervo, mas nunca um “bodecervo”. Tal elemento, em si, seria uma “não-coisa”. Baseado na lei mosaica e nos Evangelhos, a tradição cristã teria seguido a mesma distinção, renegando ao esquecimento as imagens meio homem meio animal dos pagãos, e resgatando o culto das imagens, nas suas ramificações hebraicas e greco-romanas [3].

Ainda Ginzburg, falando sobre a estátua de São Geraldo e do culto à Santa Fé, (esta comparada em testemunhos da época à deusa Vênus ou Diana e aquele a Júpiter ou Marte), nos informa que, nos fins do século X, o corpo das imagens “havia sido adaptado a uma cabeça muito mais antiga. Que remontava ao século IV ou ao início do século V: a cabeça de ouro coroada de louros, de um imperador romano divinizado” [4]. Mas tais imagens, pelo menos até a virada do século XII ao XIII, ainda eram vistas com ceticismo, principalmente pelos meios ilustrados da época. Somente depois de 1215 e da proclamação do dogma da transubstanciação, o medo à idolatria começou a diminuir.

Se as imagens eram encaradas de maneira ambivalente pela mentalidade da época, a perplexidade desaparecia quando se falava em Cristo no crucifixo. A Igreja distribuía crucifixos por toda a Europa para se manter viva a memória da Paixão. A substituição (pelo menos em ordem de importância) do culto às relíquias pela eucaristia marcou outra ruptura com o pensamento grego, cujo termo kolossós já não podia mais abarcar. Se esse termo procurava estabelecer um contato entre o além e o mundo dos vivos, a eucaristia reclamava a presença do Cristo aqui e agora. O culto cristão da relíquia de seus mártires foi caindo em desuso e com a proclamação do dogma, novas perseguições foram realizadas contra os judeus, agora acusados de idolatrar o “bezerro de ouro”. Como diz o historiador italiano, “o dogma da transubstanciação, na medida em que negava os dados sensíveis em nome de uma realidade profunda e invisível, pode ser interpretado (pelo menos por um observador externo) como uma vitória extraordinária da abstração”. [5]

Por fim, Ginzburg nos conta das exéquias do conde Bertrand Du Guesclin (1389) realizadas em Saint-Denis. O parágrafo seguinte serve de excelente fecho para a primeira parte de nosso texto:

O monge autor da crônica de Saint-Denis relata uma cena que viu com os próprios olhos: o bispo de Autun, que estava celebrando a missa, ao chegar ao ofertório, saiu do altar com o rei para ir ao encontro de quatro cavaleiros que, na entrada do coro, exibiam as armas do defunto “com a finalidade de mostrar, por assim dizer, a presença corpórea dele”. As implicações eucarísticas dessa extraordinária comunhão heráldica e eqüestre (de norma, reservada a barões e duques) se explicam facilmente à luz da hipótese que proponho. É a presença real, concreta, corpórea de Cristo no sacramento que possibilita, entre o fim do Duzentos e o princípio do Trezentos, a cristalização do objeto extraordinário de que parti, até fazer dele o símbolo concreto da abstração do Estado: a efígie do rei denominada representação. [6]

2. A “Mitocracia”


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Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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