O furor heroico: a literatura quinhentista e os dilemas do Brasil atual

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Giordano Bruno, quem melhor denominou o éthos renascentista: o furor heroico

"A América Ibérica não pega em armas por ter as classes enriquecidas, abastadas ou remediadas, parados numa especie de estupor, de idiotice, como nos sacrifícios rituais ao Pato Amarelo e na festa sabática da bateção de panelas. A parte maldita, como denomina Georges Bataille o uso dos excessos de riqueza produzidos pela sociedade são utilizados assim: no luxo e na guerra. A classe média de uma hora para outra não se viu mais como subcontratante dos comerciantes que se aventuravam no Paraguai. Elas mesmas viajavam para Miami, o novo paraíso das compras, e não queriam dividir o saguão dos aeroportos (porque a classe C não ia para Miami) com quem, para eles, sempre foram os retirantes. No momento em que toda a histeria coletiva se cala, a “vida e a fazenda” não devem ser recusadas. Ninguém mais deve temer a contenda. (...) Quem acredita, nem que se for por mera desconfiança, em suas utopias, nunca ouviu o imemorial furor guerreiro dessa gente daqui. Recusai todos vocês seus supostos status de gente remediada. Os tambores tocam. Ninguém sairá nos próximos meses sem uma mancha de sangue. Talvez poucos no tempo atual não estejam tentando se curar de algumas de suas feridas. A qual campo você servirá quando as tropas finalmente se realinharem? Ó senhores cidadãos! Para tal contenda ninguém deve recear".

Quando se dará o brado guerreiro, finalmente?

O furor heroico: a literatura quinhentista e os dilemas do Brasil atual


Parece que teve um tempo em que o Brasil foi grande, em que nosso país não antes fora considerado “do futuro”. É claro, são tempos longínquos, com uma gramática toda diferente, cabloca, tupi; o cunhadismo era uma forma que depois arranjaram para denominar a posse de inúmeras índias por esses cablocos que desprezavam o português, que era o simples elemento da utilidade em formas de armas ou recursos materiais (nessa época ainda não se falava em dinheiro). Surgiu um cabloco chamado Jerônimo de Albuquerque que, em páginas épicas escritas por Manoel Bomfim, ficamos sabendo que com astúcia, como o vencedor inveterado nos lances de dados, deixou livre o território do Maranhão. Bem depois, quase coetâneo de Bomfim, Capistrano de Abreu veio dizer que a estrada de terra construída até esse território foi um marco para a história colonial. Não haveria o norte do país, não haveria Amazônia, sem o caboclo Albuquerque. Muito menos a estrada que encurtou as distâncias que as marés teimavam em deixar distante o que agora para nós é o território brasileiro. Esse cabloco talvez seja a última geração do Portugal heroico, o dos Descobrimentos, de Camões, de Gil Vicente, do Infante D. Henrique. Contudo, talvez não devêssemos achar esse tempo agora tão distante… Afinal, eles reencenaram pela última vez uma história ainda mais arcaica.

Como nos narra o livro História medieval da Península Ibérica, de Adeline Rucquoi, os espanhóis da dinastia afonsina só se viam como cristãos na medida em que o cristianismo pressupunha o imperium. Caso se vissem como simples romanos, não haveria autonomia política na Península, o que não foi o caso; por outra lado, caso se vissem como simples visigodos, desprezariam a incorporação por parte destes, após as Invasões, das instituições e da cultura romana. Os reis da Hispânia medieval só se viam como cristãos na medida em que o cristianismo mantinha a unidade do Império. A partir dele, não eram meros bárbaros visigóticos ou uma sátrapa romana. A religião era vista, portanto, como mantenedora de um status político. Como os pesquisadores são unânimes em afirmar, ainda que com outras palavras e tirando conclusões diferentes, o cristianismo nunca foi imposto de fora para dentro na Península. Era só por intermédio do imperium que ele se fazia valer, ou seja, da autoridade dos reis. Esta, controlando a religião, ou seja, a legitimidade moral de seu reinado, trabalhava através dela a unidade que prevaleceu no processo contínuo de guerras e acordos políticos que levaram à criação do Estado na Península, incluso os que se arrogavam o direito de serem a fonte de toda a nobreza de seu reino - títulos nobiliárquicos só poderiam ser dados pela Monarchia. A "mentalidade de cruzada" só se torna predominante na era dos reis católicos e a partir do triste reinado de João III, com o qual começa o rápido declínio da dinastia de Avis, em Portugal. Antes disso, há um convívio único dentro do relativamente limitado espaço peninsular, em que se garante o advento conjunto dos reinos bárbaros, da tradição romana incorporada pelo catolicismo e a árabe-islâmica. Enquanto se dava o ocaso dos reinos bárbaros mediterrânicos na França e Itália, sendo substituídos pelos francos de origem plebéia, ou seja, sem as características adquiridas do império romano em decadência, no séc. X esse tipo de barbarismo ou de nova romanização (muito bem estudado por Henri Pirenne), adquire um status inédito na Hispânia através de uma harmonia não vista durante todo o medievo. A riqueza da Península, árabe, cristã, bárbara e romana, não nos permite, dentro da formação de seus inúmeros reinos ao longo dos séculos, simplesmente limitá-la à chamada Reconquista enquanto mentalidade cruzadística meramente importada de Roma. A reconquista na Hispânia sempre foi uma característica mais militar do que religiosa, e os reis cristãos ou visigodos (romanizados) só levantaram as cruzes da Ordem de Cristo enquanto esta foi suficiente para manter a unidade do reino e não por meras contendas religiosas ou pelo desejo do saque e rapina, como em Veneza.

Gil Vicente, Aníbal e o Furor Heroico


Gil Vicente, na voz de Annibal, em Exortação da Guerra, assim se expressa para advertir o reino que acumulou demasiadas riquezas:


Deveis, Senhores, esperar

Em Deos que vos ha de dar

Toda Africa na vossa mão,

Africa que foi de Christãos,

Mouros vo-la tem roubada.

Capitães ponde-lh’as mãos,

Que vós vereis mais louçãos

Com famosa nomeada.

Ó Senhoras Portuguesas,

Gastae pedras preciosas,

Donas, Donzellas, Duquezas,

Que as taes guerras e emprezas

São propriamente vossas.

He guerra de devação,

Por honra de vossa terra,

Commettida com razão,

Formada com discrição

Contra aquella gente perra.

Fazei contas de bugalhos,

E perlas de camarinhas,

Firmaes de cabeças d’alhos;

Isto si, Senhoras minhas,

E esses que tendes dae-lh’os.

Oh! que não honrão vestidos,

Nem mui ricos atavios,

Mas os feitos nobrecidos;

Não briaes d’ouro tecidos

Com trepas de desvarios:

Dae-os pêra capacetes.

E vós, Priores honrados,

Reparti os Priorados,

A Suiços e soldados,

Et centum pro uno accipietis.

A renda que apanhais

O melhor que vós podeis,

Nas igrejas não gastais,

Aos pobres pouco dais. 

E não sei que lhes fazeis.

Dae a terça do que houveres,

Pera Africa conquistar,

Com mais prazer que puderdes;

Que quanto menos tiverdes,

Menos tereis de guardar.

Ó senhores cidadãos,

Fidalgos e Regedores,

Escutae os atambores

Com ouvidos de christãos.

E a gente popular

Avante! não refusar.

Ponde a vida e a fazenda,

Porque para tal contenda

Ninguem deve recear1.


Novamente a unidade da Península está em perigo. Os avanços iniciados com a eleição de Chávez ainda no século passado, e corroborados pela liderança inconteste de Néstor Kirscher e Lula, o rechaço à ALCA, o fortalecimento do Mercosul, a criação da Unasul, projeto de criação de um Banco do Sul… A América Ibérica não pega em armas por ter as classes enriquecidas, abastadas ou remediadas, parados numa especie de estupor, de idiotice, como nos sacrifícios rituais ao Pato Amarelo e na festa sabática da bateção de panelas. A parte maldita, como denomina Georges Bataille o uso dos excessos de riqueza produzidos pela sociedade são utilizados assim: no luxo e na guerra. A classe média de uma hora para outra não se viu mais como subcontratante dos comerciantes que se aventuravam no Paraguai. Elas mesmas viajavam para Miami, o novo paraíso das compras, e não queriam dividir o saguão dos aeroportos (porque a classe C não ia para Miami) com quem, para eles, sempre foram os retirantes. No momento em que toda a histeria coletiva se cala, a “vida e a fazenda” não devem ser recusadas. Ninguém mais deve temer a contenda. A unidade guerreira, antes que religiosa (o conflito das ideologias que assistimos atualmente como quem passeia num jardim zoológico), de se reagimentar. Madames, empenhem suas jóias; Fidalgos e pseudo-ricos, a burguesia hipócrita, a nefasta mentalidade inferior do cidadão médio: escutem os tambores. É tempo de Zumbi, tempo de luta cabloca, negra, uma cruzada contra os bons cristãos. “He guerra de devação, por honra de vossa terra, commettida com razão, formada com discrição contra aquella gente perra”. A unidade que novamente nos deu a vitória sobre os infiéis não nos abandonará. Veja o silêncio dos campos e batalha. O inimigo, como que ferido pela própria inépcia, acredita armar um estrondoso contra-ataque. Quem acredita, nem que se for por mera desconfiança, em suas utopias, nunca ouviu o imemorial furor guerreiro dessa gente daqui. Recusai todos vocês seus supostos status de gente remediada. Os tambores tocam. Ninguém sairá nos próximos meses sem uma mancha de sangue. Talvez poucos no tempo atual não estejam tentando se curar de algumas de suas feridas. A qual campo você servirá quando as tropas finalmente se realinharem? Ó senhores cidadãos! Para tal contenda ninguém deve recear.

1Vicente, Gil. Exortação da Guerra. Obras Completas, Porto: Lello & Irmão Editores, 1965, p. 214 – 215.

Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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