Haxixe para Foucault

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Kant nas magazines.


No livro "The Passion of Michel Foucault", de James Miller, o autor narra os bastidores do célebre debate entre Michel Foucault e Noam Chomsky. O caso, porém, não indica apenas uma brincadeira do organizador do encontro. Fica ainda mais claro as diferenças políticas e filosóficas da época, obscurecidas pela incontáveis discussões acadêmicas de um lado, e pelas teorias sobre o "pós-modernismo" e sobre a influência da CIA na vanguarda francesa do pós-guerra.


No livro The Passion of Michel Foucault, de James Miller, o autor narra os bastidores do célebre debate entre Michel Foucault e Noam Chomsky. O caso, porém, não indica apenas uma brincadeira do organizador do encontro. Fica ainda mais claro as diferenças políticas e filosóficas dos dois, algo por vezes obscurecido pela suposta inteligência do dois entrevistados. Foucault não está bem humorado ali, mesmo com seus sorrisos. Inúmeras abordagens conspiranóicas sobre a inteligência francesa do pós-guerra, algumas baseadas em documentos desclassificados da CIA, creditam ao suposto "pós-modernismo" um comportamento contra-insurgente, anti-marxista, anti-revolucionário. Não se sabe distinguir com clareza quais os debates ideológicos das décadas de 1960-70, e um chamado à fé nos antigos pais da filosofia ou da sociologia, como Marx ou Weber, aparecem como remédio à incompreensão de determinado senso comum a respeito do pós-modernismo (outros chamam de pós-estruturalismo, o que torna pelo menos mais evidente o momento histórico vivido ali). Isso se repete, por exemplo, quando se fala das vanguardas artísticas europeias no início do século XX, o que, de outro modo, pela recepção do mesmo senso comum, tende a idealizar em certos momentos debates bem complexos como os dos refratários ao surrealismo de André Breton, como Michel Leiris e Georges Bataille, que nunca iriam transformar em ícones obras ou até mesmo fotografias de Salvador Dali ou Frida Kahlo.

"Chomsky's Hash".  Clique para ampliar
Em relação ao movimento transgressor do início do século, uma distância que se apresenta como culto. Em relação às transgressões mais contemporâneas, uma rejeição ruma ao idealismo. Voltar a Hegel, a Marx, a Kant. E para retornar a esse platonismo perverso não basta ler as histórias da CIA, que via a vanguarda do pós-guerra como algo benéfico por não falar em Marx, por rejeitá-lo. Com tais olhares benevolentes também foram olhados os fundadores da escola dos Annales, Lévi-Strauss, Derrida e sabe-se lá mais quantos. Deleuze curiosamente não costuma ser mencionado, ainda que tenha dado a Marx um valor inferior ao que deu a Kant, seu inimigo filosófico (da teoria dos amigos, dos amantes da filosofia, dos pretendes ao saber, de Platão, expresso no O que é filosofia). Deleuze e Guattari simplesmente leram Marx, comentam suas teses, mas em nenhum momento as endossam. O Estado bárbaro para os dois, o Urstaad, é bem oposto ao modelo asiático marxista. É um modelo civilizacional, aplicado ao que se acredita por "civilização ocidental". Críticas nominais de agentes da CIA (que nunca primaram pela inteligência, mas pelo primarismo, ou seja, pelo seu barbarismo); medo de supostas "esquerdas" ou de "liberais esclarecidos" (filosoficamente) ao pensamento "de fora" (como Blanchot), medo a qualquer transgressão do bloco que se tem por filosofia moderna e contemporânea a se iniciar por Kant, do qual Marx é devedor, principalmente via Hegel.

Nesse caso, faço minhas as palavras - retraduzidas - de Foucault.


O Foucault universitário é o Foucault kantiano, domesticado, diagramado pelos inúmeros saberes de seus especialistas. Ainda assim, e como talvez hoje seja mais evidente do que nunca, a campanha moralista segue seu tom. A "droga do Chomsky", aquele estupefaciente, tem sentido não literal, ou seja, para provocar uma gargalhada ainda que sem graça como as que Foucault soltava naquele debate. Tem um setindo simbólico que nos leva à literalidade do que foi vivido naquele momento da "década arqueológica" de Foucault. O que o Fons Elder queria era dramatizar ao extremo - menos pelo tipo de de pagamento do que pelo pedido de vestimenta feito a Foucault - uma contrariedade de posições políticas muito evidente. Chomsky é o Sofista - para falar em termos puritanos, platônicos. Foucault é o fauno Sócrates. Por que não aparecer com uma peruca vermelha brilhante? De todo modo, você que foi falar com o "americano de esquerda" (algo que acreditam tão raro que nossa esquerda logo que vê um americano falando em socialismo fica logo toda molhadinha), "segure essa droga!". Se não, amigo, vá para a universidade, e compre Foucault nas magazines, de estilo ou literárias.

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A tradução:

"Com a esperança de sacudir a sobriedade do público holandês, o anfitrião do programa, Fons Elders, um anarquista confesso, obteve uma peruca vermelha brilhante, que ele tentou, sem sucesso, convencer Foucault a vestir. Enquanto isso, sem o conhecimento de Chomsky, Foucault tinha recebido, em pagamento parcial por sua aparência, um grande pedaço de haxixe, que por meses depois, Foucault e seus amigos parisienses se referiram em brincadeira como o 'Chomsky hash'".

A seguir um resumo em um minuto do célebre debate:


Duas interpretações pós-pós-estruturalistas do Panóptico, ou seja, do modelo universitário e/ou do modelo puritano/conservador. Via Facebook.


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BIBLIOGRAFIA NÃO COMENTADA


https://xibolete.uk/intelectuais-franceses/

http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/a-cia-braudel-foucault-e-levi-strauss/03072017/

http://passapalavra.info/2017/03/110892

https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/CIA-RDP86S00588R000300380001-5.PDF

https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/CIA-RDP99-00498R000100040071-2.pdf


Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

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