A pobreza é nordestina e infantil

0
22:26:00


Diminuição do Bolsa Família, fim do programa de cisternas e do de aquisição de alimentos: dinamitação do mercado interno em favor de supostos investimentos estrangeiros, aliado ao teto dos gastos, para pagar a dívida impagável cobrada por esses mega-conglomerados "investidores". Uma volta ao Brasil de Celso Furtado, ao Brasil que o economista lutou por modificar. Não precisa nem da Reforma da Previdência: caso o semi-presidencialismo passe, aliado à reforma trabalhista, numa economia onde o rentismo é ainda mais forte do antes da crise de 1929, teremos uma volta à República Velha com contornos dramáticos. Qualquer retrocesso é dramático e, na quadra atual, não há outro nome para esse tipo de atividade política além de genocídio.

Do excelente Monitor Mercantil

Mais de 25 milhões de brasileiros, o equivalente a 25,4% da população, vivem na linha de pobreza e possuem renda familiar equivalente a US$ 5,5 por dia, valor adotado pelo Banco Mundial para definir se uma pessoa é pobre. O resultado representa um aumento de 53% na comparação com 2014, quando teve início a crise econômica no país.

Os dados foram divulgados nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, pelo IBGE e fazem parte da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais 2017 - SIS 2017. Ela aponta, ainda, que o maior índice de pobreza se dá na Região Nordeste do país, onde 43,5% da população se enquadram nessa situação e, a menor, no Sul: 12,3%.

A situação é ainda mais grave se levadas em conta as estatísticas do IBGE envolvendo crianças de 0 a 14 anos de idade. No país, 42% das crianças nesta faixa etária se enquadram nestas condições.

A pesquisa de indicadores sociais revela uma realidade: o Brasil é um país profundamente desigual. Um país onde a renda per capita dos 20% que ganham mais, cerca de R$ 4,5 mil, chega a ser mais de 18 vezes maior que o rendimento médio dos que ganham menos e com menores rendimentos por pessoa – cerca de R$ 243.

Ainda utilizando os parâmetros estabelecidos pelo Banco Mundial, chega-se à constatação de que, no mundo, 50% dos pobres têm até 18 anos, com a pobreza monetária atingindo mais fortemente crianças e jovens – 17,8 milhões de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos, ou 42 em cada 100 crianças.

PS do autor do blog: Quando se fala de um rentismo pior do que o da crise de 1929, alude-se ao fim da lei Glass-Steagall, de separação bancária, criada por Roosevelt para acabar com a crise econômica. O fim dessa legislação em 1999 foi a virada crucial para se chegar à especulação financeira desenfreada dos dias atuais, acentuada pelas medidas de "resgate", que deram ainda mais liquidez e nenhum limite ao jogo de apostas promovido por Wall Street e a City de Londres. A legislação moderna, no caso, é a de Roosevelt. O que se diz moderno agora, o livre-fluxo de capitais tal como ele se dá, é a verdadeira volta ao passado, só que num mundo muito mais complexo. Falo novamente: genocídio, e dos grandes.

Para quem acompanha o blog sugiro também a recente entrevista da ex-ministra Teresa Campello a Luis Nassif quando do lançamento do estudo Faces da Desigualdade no Brasil, onde ela conta sobre as políticas sociais, seus efeitos, e o profundo racismo (por isso também sua ligação direta com o genocídio) de quem se opõe a essas medidas. E ela toca num ponto interessante: as taxas de mortalidade infantil caíram nas regiões mais pobres, de acordo com a mais atual literatura médica, por causa da melhoria da formação educacional das mães. Uma mãe, por exemplo, com o Ensino Médio, ainda que pobre, tem mais chances de não perder seu bebê do que uma sem nenhum estudo. O ideal é o acompanhamento médico e a educação escolar. Fato que estava sendo bem encaminhado nos interiores do Brasil com o programa Mais Médicos. Fica um retrato para o que devemos retornar a fazer.


Sobre o autor

Rogério Mattos: professor, escritor e petralha de plantão

0 comentários:

Licença Creative Commons
O Abertinho de Rogério Reis Carvalho Mattos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://oabertinho.blogspot.com/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://oabertinho.blogspot.com.br.