O Abertinho

Em tempos de neomacartismo e jurisprudência da destruição, arte, política e cultura em textos nem um pouco ortodoxos

Ei você que está me olhando

Ei você que está me olhando:Não sei o que de bom tem encontrado por aqui.Como uma invasão clandestinaPrescrutam palma a palmo cada palavraescrita por esse estrangeiro Abertinho Ei você que está me olhandoTão longos olhos por vezes me geram surpresaMe geram desconfiançaAfinal, por que estão me perscrutando? A qualidade dos trabalhos é evidente,Muitas vezes embora Leia mais sobreEi você que está me olhando[…]

Orfeu e a tarefa do negro no Brasil

Léa Garcia na bela imagem no Morro da Babilônia, palco do filme Orfeu Negro

“Na rota dos propósitos revolucionários do Teatro Experimental do Negro vamos encontrar a introdução do herói negro com seu formidável potencial trágico e lírico nos palcos brasileiros e na literatura dramática do país”.

Abdias Nascimento

O documentário de Silvio Tendler, Haroldo Costa – o nosso Orfeu[1], conta a história desse personagem que foi ator, bailarino, diretor, radialista, carnavalesco, criado no Teatro Experimental do Negro com Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos. Para ele, ser negro no Brasil não é exercer um papel, mas ter uma tarefa. Saber da contribuição do negro para a sociedade brasileira, porém não se identificar com seus esteriótipos. Colocar em tudo o que faz o coração, a alma da herança que traz em si que, mesmo subentendido, deixa claro o que foi a escravidão e o que é o legado dos africanos no Brasil. Não é como exercer o papel em uma novela, recheada de esteriótipos e nais quais o negro logo desaparece. E quem aparece logo depois na primeira capa do jornal? O negro preso, bandido, capturado – assim como os jornais mostravam naquela suposta época remota, a da escravidão. 

A tarefa do negro no Brasil é fazer reverter esse sinal, ou seja, fugir da carnavalização de sua figura, denunciar os preconceitos, e ser tão grande quanto qualquer representante da cultura “branca”. Haroldo Costa dirigiu o programa no Canal 13, no dia 13 de maio, onde Guerreiros Ramos entrevistou Antônio Cândido, o Almirante negro. Três figuras de ponta que mostram não apenas o que é a tarefa do negro na sociedade brasileira, mas o que pode ser sua contribuição para a humanidade. Esse o legado brasileiro em uma imagem. 

Devo esse texto a Rogério Skylab e ao seu difundo programa Matador de Passarinho

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A Vênus de Botticelli e a primavera da história da arte: o caso Aby Warburg

Breve apresentação da História da Arte como concebida por Aby Warburg, pioneiro no estudo das Pathosformel ou “fórmulas patéticas”, que revolucionou sua disciplina, criou uma biblioteca fantástica (quase borgiana) e apontou para a crianção de uma cadeira, a Ciência da Arte. Depois dos estudos de Didi-huberman, se tornou praticamente uma inconsequência não estudar inclusive a arte moderna (Bataille, Einstein, Picasso, Miró) através das ferramentas intelectuais criadas pelo inovador pesquisador alemão.

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Um poderoso senso de imaginação: a “Harmonia dos Mundos”, de Johannes Kepler

“Quando a experiência parece ensinar algo diferente daquilo que nós cuidadosamente demos atenção, isto é, que os planetas se desviam de uma área simplesmente circular, isto dá origem a um poderoso senso de imaginação, que pela sua grandeza leva o homem a procurar pelas causas”.

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Capitalismo e anarquia

O euro, antes de se justificar como um projeto político, econômico ou social, parece tirar sua legitimidade de uma imaginação toda ela assentada em motivações de fundo histórico-cultural. A Europa foi o palco as duas maiores guerras da humanidade. Palco que se estendeu à imensa Rússia e fez por força inventar a maior reação de todas, a Grande Guerra Patriótica. Mais de 30 milhões de russos mortos…

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Inflação ou guerra total? Uma resposta a Paulo Gala

Uma pergunta pertinente, porém pouco levantada

Era um fator preocupante a política econômica do Fed e de Bruxelas após 2008, a chamada “flexibilização quantitativa”. No entendimento econômico clássico, a impressão descontrolada de dinheiro para resgatar o sistema financeiro falido poderia lançar uma onda hiperinflacionária global. Contudo, os “mercados” ou quem os controlam parece que tinham planos mais sofisticados do que substituir num curto período de tempo uma tempestade financeira por outra.

O economista Paulo Gala se referiu com perplexidade ao tripé base monetária/juros/dívida pública em países da zona do euro, nos EUA e Japão: como conseguiram aumentar a base monetária e o endividamento público, diminuir os juros, e manter taxas de inflação extremamente baixas? Concordo que essa não é uma resposta simples, porque inflação não condiz com carestia, como é óbvio, como também não está submetida diretamente às chamadas políticas de Estado. Em excelente artigo, Fernando Nogueira da Costa responde “por que o excesso de oferta de moeda, face à demanda agregada, não resultou em inflação corrente?”, mas acredito que podemos ir um pouco mais além.

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Da Crise do Petróleo ao atual paradigma monetário internacional

Eleanor e Franklin Roosevelt em agosto de 1932. Luta contínua para um sistema econômico internacional mais justo e de crescimento conjunto.

Importantes medidas políticas da década de 1970 criaram o atual mercado de alto risco e o de derivativos, além do permanente sistema da dívida dos países latino-americanos. Esse foi a época em que o antigo império territorial britânico se transformou num império predominantemente financeiro. Não um segundo Império Britânico, mas o mesmo, atuando em configurações diversas. A compreensão dessa mudança de paradigma econômico é fundamental para se compreender os motivos de a economia internacional, atualmente, estar “congelada”: à beira da falência e ao mesmo tempo em que nunca foi tão dependente dos mecanismos financeiros criados a partir de 1970.

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Por que a pornografia seduz tanto?

Finalmente foi Sergio Moro quem respondeu a Bolsonaro o que é golden shower

Fora a alegria de ver a “força-tarefa” provar do próprio veneno, não se deve perder de vista um objetivo: com a continuidade das reportagens, provavelmente isso irá ultrapassar Moro e Dallagnol. Vamos ver se chega no conluio com o DOJ e se consegue mostrar que isso é uma operação montada fora do país. E que a Globo venha de roldão.

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Uma crônica do liberal-fascismo

O filme The Vice, lançado no Brasil no início de 2019, conta a história do vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney. Retrata-o como um jovem caipira e beberrão que não consegue levar adiante sua formação em Yale. Por intervenção de sua esposa, ele consegue terminar os estudos, largar a bebida e se tornar um burocrata a serviço da Casa Branca no tempo da presidência de Richard Nixon.

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A política institucional e a espiral do silêncio

Tento escrever direito…

É curioso publicar em blogs de esquerda e aqui e ali ser questionado sobre os motivos de eu não “escrever direito”. Não é por escrever mal: não se trata disso. O problema não é de linguagem: não há linguagem rebuscada nem linguagem mal articulada. Seria (talvez em resumo) um acúmulo grande de ideias que “esquerdizam” a cabeça do leitor. Seria, talvez, o contrapelo da informação objetiva e até das metas da boa consciência crítica, sempre calcada num determinado ideal de objetividade, que se quer chegar com – por favor – um não acúmulo, em demasia, de ideias. Para se ser “bem pensante” tem que se “escrever direito”, mesmo se você é de “esquerda”.

Machado e não Lima Barreto, é o que penso. Ou José de Alencar (o “intelectual contente”, segundo Joel Rufino) e não Sousândrade (o “terremoto clandestino”, segundo os irmãos Campos). Não se vai muito longe assim…

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Nota da república dos Bruzundangas a respeito da atual situação dos luzias

Na foto, parte da capa do belo livro de Nicolau Sevcenko, “Literatura como missão”. Nele se encontram os projetos literários de Lima Barreto e Euclides da Cunha, em contraposição à modernização conservadora que quis fazer do Rio de Janeiro uma Paris tropical…

Leia a nota abaixo:

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Quem tem medo de Hamilton Mourão?

Jogos de escala

As manifestações de domingo do pessoal da CBF não foram menores do que as do 15 de maio. Elas foram muito menores do que qualquer outra manifestação desse pessoal, inclusive aquela que ocorreu na av. Paulista na véspera da eleição, quando Bolsonaro disse por telefone (!) que iria “despetetizar” o Brasil.

Foram menores porque não tem mais lideranças em nenhuma delas. Os verde-amarelistas, esses neointegralistas, começaram mobilizando junto a Aécio Neves, Luciano Huck, atores da Globo, MBL e toda a fauna e flora que compõe parte da atmosfera pública do país. Na manifestação de domingo, o líder mais notório era o dono do puteiro que ano passado homenageou Sergio Moro e Carmen Lúcia enquanto exibia uma mulher nua.

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