Uma crônica do liberal-fascismo

O filme The Vice, lançado no Brasil no início de 2019, conta a história do vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney. Retrata-o como um jovem caipira e beberrão que não consegue levar adiante sua formação em Yale. Por intervenção de sua esposa, ele consegue terminar os estudos, largar a bebida e se tornar um burocrata a serviço da Casa Branca no tempo da presidência de Richard Nixon.

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Orfeu e a tarefa do negro no Brasil

Léa Garcia na bela imagem no Morro da Babilônia, palco do filme Orfeu Negro

“Na rota dos propósitos revolucionários do Teatro Experimental do Negro vamos encontrar a introdução do herói negro com seu formidável potencial trágico e lírico nos palcos brasileiros e na literatura dramática do país”.

Abdias Nascimento

O documentário de Silvio Tendler, Haroldo Costa – o nosso Orfeu[1], conta a história desse personagem que foi ator, bailarino, diretor, radialista, carnavalesco, criado no Teatro Experimental do Negro com Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos. Para ele, ser negro no Brasil não é exercer um papel, mas ter uma tarefa. Saber da contribuição do negro para a sociedade brasileira, porém não se identificar com seus esteriótipos. Colocar em tudo o que faz o coração, a alma da herança que traz em si que, mesmo subentendido, deixa claro o que foi a escravidão e o que é o legado dos africanos no Brasil. Não é como exercer o papel em uma novela, recheada de esteriótipos e nais quais o negro logo desaparece. E quem aparece logo depois na primeira capa do jornal? O negro preso, bandido, capturado – assim como os jornais mostravam naquela suposta época remota, a da escravidão. 

A tarefa do negro no Brasil é fazer reverter esse sinal, ou seja, fugir da carnavalização de sua figura, denunciar os preconceitos, e ser tão grande quanto qualquer representante da cultura “branca”. Haroldo Costa dirigiu o programa no Canal 13, no dia 13 de maio, onde Guerreiros Ramos entrevistou Antônio Cândido, o Almirante negro. Três figuras de ponta que mostram não apenas o que é a tarefa do negro na sociedade brasileira, mas o que pode ser sua contribuição para a humanidade. Esse o legado brasileiro em uma imagem. 

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O Rio Negro, de Nei Lopes, e a “degeneração dos negros”, de Octavio Ianni

Em seu romance Rio Negro, 50, Nei Lopes atualiza a antiga discussão sobre a “cordialidade brasileira” em contraposição a um debate da época ambientada no livro, relativa a chamada “revolução brasileira”. Na academia, as discussões não avançaram muito, ainda apegadas ao Édipo correspondente à identidade nacional, a do “homem cordial”. Porém o professor João Cezar de Castro Rocha mostra um caso flagrante de, no mínimo, desonestidade intelectual na leitura sobre o tema, vinda da Escola Paulista de Sociologia através da figura de Octavio Ianni. O presente texto pretende contrapor a abordagem ficcional a acadêmica, caminho que pode abrir novas perspectivas para a leitura de alguns dos clássicos formadores da história do Brasil.

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Putin e a busca por um novo Bretton Woods

A atual mudança geral da estrutura do governo da Rússia não tem relação, como a mídia internacional quer fazer crer, com a tentativa de implantar uma ditadura no país com Putin como novo Czar. Essa é a leitura da City de Londres, da The Economist e de todos os órgãos informativos que somente repercutem as ordens de seu senhores. Posicionando-se assim, ignoram os conflitos políticos internos do país, assim como o novo desenho econômico internacional hoje capitaneado por Rússia e China após a dissolução dos BRICS. É preciso olhar para Rússia sem o temor macartista, ou seja, através das lentes do imperialismo internacional. Um “novo pacto” é necessário, não apenas no Brasil como no mundo, para que se alcance novamente o crescimento econômico e o bem estar das populações, sem a praga do monetarismo e os fantasmas produzidos pela imprensa oligopolizada do eixo transatlântico.

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Chamada aos presidentes Trump, Putin e Xi para convocar um encontro emergencial para tratar dos perigos da guerra

Da Executive Intelligence Review

Chamada aos presidentes Trump, Putin e Xi para convocar um encontro emergencial para tratar dos perigos da guerra

Se o mundo quer evitar uma espiral de retaliações e contra-retaliações na
esteira do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani e do comandante da
Unidade de Mobilização Popular iraquiana, Abu Mahdi al-Muhandis, os presidentes
dos Estados Unidos, Rússia e China devem convocar um encontro emergencial para
tratar da crise atual no Sudoeste Asiático e das soluções para esta crise.

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Cine-resposta: guerras encobertas e ações específicas no Irã

Apesar do reconhecimento oficial do Irã de que foi um de seus mísseis que abateram o avião civil ucraniano, ainda está em aberto a questão sobre a autoria de fato do atentado. Guerra cibernética, como feito contra a Rússia e a Venezuela, está entre uma das hipóteses para o “engano tático”. Acima de tudo, a sequência de fatos mostra que culpar o Irã continua sendo um artifício para diminuir a comoção popular em torno da morte do general Soleimani, procurar produzir uma “primavera árabe” no país e voltar a opinião pública internacional contra o Irã, apagando o ato bárbaro cometido pelos EUA.

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Os EUA não retaliaram o Irã? E você acreditou?

Um clássico americano. Para assistir, clique aqui.

Dois fatos causaram muita estranheza para quem acompanhou passo a passo o desenrolar da resposta do Irã aos EUA. Ontem, por motivos claramente intencionais, a suposta queda (primeira versão) do avião ucraniano, passou para a primeira página dos noticiários. Por quais motivos?

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A literatura como arquivo da ditadura brasileira

Da Revista Brasileira de Literatura Comparada (trechos com breves modificações para exposição em blog)

“Ler o livro da professora Eurídice hoje, tendo em vista as etapas de seu processo de produção, nos força a remontar toda essa complicada etapa que vai da concretização de um avanço democrático em 2014 até a consolidação do governo protomilitar, miliciano-judiciário, em curso”.

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A história do samba como história social do trabalho

O conceito de “rede de proteção” é fundamental para se compreender todo o processo da escravidão no século XIX e como também o advento do samba. Se houve uma revolução na historiografia nas últimas décadas (em linhas gerais, o escravo deixou de ser visto como passivo, mas capaz de se “negociação e conflito”, como num título de um livro clássico), é porque conseguiram criar essas redes, em especial através das comunidades islâmicas e as casas de candomblé, além das inúmeras redes de proteção, de negociação e de conflito que se abriram com o desenvolvimento urbano no mesmo século.  O caso emblemático é o do terreiro de Tia Ciata.

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Reforma ou Revolução: o dilema da classe-média em Zé Dirceu

Caso se fale dos dilemas da esquerda brasileira marcantes em todo o período de redemocratização, se aponta para um dilema não da “esquerda” entendida como amplo leque de forças sociais, mas das classes-médias urbanas. É isso que, dentre tantas outras reflexões, Dirceu apresenta no 1º volume de suas memórias.

Devemos optar por uma solução de ruptura, revolucionária, como ele tentou depois de seu primeiro exílio em Cuba, voltando ao Brasil para participar de um novo grupo armado, o Molipo? Ou se deve optar por uma solução de conciliação, de diálogo programático, baseado no conhecimento técnico dos quadros da esquerda para dirigir por dentro um processo de reformas, mas não de revolução?

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A diferença entre lobos e raposas, segundo Malcolm X

Em certa altura do documentário Panteras Negras: todo o poder para o povo (minuto 9’40), Malcolm X fala o seguinte sobre lobos e cordeiros:

“Esse presidente branco que se chama de liberal é a coisa mais perigosa de todo o Ocidente. É o mais enganador. É como uma raposa, e uma raposa é sempre mais perigosa que um lobo. Você vê o lobo chegando. Você sabe o que ele quer. Mas a raposa vem te enganar. Ela mostra os dentes como se sorrise, como um amigo.”

O “presidente branco” a que Malcolm se refere, se pudesse hoje projetar sua preferência política, talvez se expressasse assim:

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A lógica da Guerra Fria no séc. XXI

Um conceito referência do período das lutas operárias antes da 2ª Guerra Mundial, o de Greve Geral, parece hoje tão impossível quanto ostensivamente fica “sob os olhos” das organizações operárias. A lógica da Guerra Fria foi tão tóxica às organizações populares que, depois da reorganização das relações internacionais com o fim do sistema de Bretton Woods em 1971 [aqui], um caso clássico de greve geral foi a organizada no Chile contra o governo de Salvador Allende.

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