Orfeu e a tarefa do negro no Brasil

Léa Garcia na bela imagem no Morro da Babilônia, palco do filme Orfeu Negro

“Na rota dos propósitos revolucionários do Teatro Experimental do Negro vamos encontrar a introdução do herói negro com seu formidável potencial trágico e lírico nos palcos brasileiros e na literatura dramática do país”.

Abdias Nascimento

O documentário de Silvio Tendler, Haroldo Costa – o nosso Orfeu[1], conta a história desse personagem que foi ator, bailarino, diretor, radialista, carnavalesco, criado no Teatro Experimental do Negro com Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos. Para ele, ser negro no Brasil não é exercer um papel, mas ter uma tarefa. Saber da contribuição do negro para a sociedade brasileira, porém não se identificar com seus esteriótipos. Colocar em tudo o que faz o coração, a alma da herança que traz em si que, mesmo subentendido, deixa claro o que foi a escravidão e o que é o legado dos africanos no Brasil. Não é como exercer o papel em uma novela, recheada de esteriótipos e nais quais o negro logo desaparece. E quem aparece logo depois na primeira capa do jornal? O negro preso, bandido, capturado – assim como os jornais mostravam naquela suposta época remota, a da escravidão. 

A tarefa do negro no Brasil é fazer reverter esse sinal, ou seja, fugir da carnavalização de sua figura, denunciar os preconceitos, e ser tão grande quanto qualquer representante da cultura “branca”. Haroldo Costa dirigiu o programa no Canal 13, no dia 13 de maio, onde Guerreiros Ramos entrevistou Antônio Cândido, o Almirante negro. Três figuras de ponta que mostram não apenas o que é a tarefa do negro na sociedade brasileira, mas o que pode ser sua contribuição para a humanidade. Esse o legado brasileiro em uma imagem. 

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A lógica da Guerra Fria no séc. XXI

Um conceito referência do período das lutas operárias antes da 2ª Guerra Mundial, o de Greve Geral, parece hoje tão impossível quanto ostensivamente fica “sob os olhos” das organizações operárias. A lógica da Guerra Fria foi tão tóxica às organizações populares que, depois da reorganização das relações internacionais com o fim do sistema de Bretton Woods em 1971 [aqui], um caso clássico de greve geral foi a organizada no Chile contra o governo de Salvador Allende.

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O genocídio do social

O psicanalista Táles Ab’Sáber diagnosticou como a realidade psicopolítica brasileira a “alucinose”, ou seja, “uma distorção efetiva da capacidade de pensar fundada na necessidade de saturar a realidade com desejos que não suportam a frustração, bem como no impacto corrosivo dos mecanismos psíquicos ligados ao ódio sobre o próprio pensamento” . Embora ele falasse, na ocasião exclusivamente da ascensão da extrema-direita e do discurso do ódio, pode ser visto o profundo estado de transe pelo qual passava (ou ainda passa) todo o país, sem importar qual posição social ou político-ideológica que se esteja.

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Políticas da memória, doutrina de guerra e neoliberalismo

Joel Rufino dos Santos

“A naturalidade e a aceitação da prática de tortura atualmente é uma das heranças da nossa escravidão. E é significativo que ela só fosse publicamente condenada quando atingiu militantes políticos, ou seja, durante a última ditadura civil-militar”.

Classe e memória

Pode ser sugerido, a partir dessa afirmação de Joel Rufino dos Santos, que a prática da tortura, que ocupou pelo menos 4/5 da história brasileira, com a escravidão, só foi condenada publicamente quando atingiu os setores de classe-média ou os militantes políticos? Se for assim, qual é o escopo, atualmente, de uma política da memória verdadeiramente abrangente? E onde ela se encontra hoje, pois não está mais no Estado e, talvez, não seja fabricada de forma ampla na academia?

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A crise de identidade das elites brasileiras

A rede Globo foi formada, durante a ditadura, como aparelho bolchevique de propaganda do aparelho de Estado. À exceção de parte do mandato de Collor, ela apoiou incondicionalmente todos os governos da elite brasileira.

Desde Médici, que limpava as roupas sujas de sangue para ver o ‘Brasil dando certo” no JN, até os escândalos mais tenebrosos dos mandatos de FHC, os crimes mais hediondos sempre foram ocultados.

O ataque errático da Globo ao governo Temer e agora ao de Bolsonaro, personagens que a emissora se empenhou em colocar no poder, mostra a profunda crise de identidade das elites nacionais.

Sem uma solução armada, como na ditadura, ou com a fábula do Plano Real (acabar com a inflação e aumentar a carestia), as elites não tem mais a quem recorrer.

A elite, como nunca antes, está gravemente ferida. Cabe a reorganização do campo popular para derrotá-la, ao menos, pelos próximos 10 ou 15 anos.

Walter Benjamin e a tarefa da crítica

Por Márcio Seligmann-Silva*

Revista Cult, 14 de março de 2010

Olhando retrospectivamente para o século 20, podemos dizer que Walter Benjamin (1892-1940) de fato realizou um de seus projetos pessoais mais arrojados. Como ele formulou em uma carta a seu grande amigo Gershom Scholem, de janeiro de 1930, ele achava que conseguira o objetivo de “ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã”. Este reconhecimento na época era na verdade muito tímido, restrito a um pequeno círculo de leitores especializados. Hoje este círculo cresceu a ponto de podermos com razão falar de um “reconhecimento” de sua posição privilegiada como crítico.

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Direita, extrema-direita e os arquivos da ditadura

Tanto a direita liberal ou “socialdemocrata” quanto a extrema direita, igualmente similares em inúmeros outros aspectos, nunca tiveram à altura para lidar com os arquivos da ditadura. No caso da extrema-direita, parece que sua chegada ao poder fez acelerar o processo de reflexão sobre o autoritarismo conjugado ao neoliberalismo, ou seja, toda a história recente, em especial de 1964 a 2003.

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Autópsia ou o olhar do historiador

Com seu livro O espelho de Heródoto, François Hartog acabou por entrar, talvez à revelia, no “vendaval” que sacudiu o debate dos intelectuais com o surgimento do revisionismo histórico sobre o nazismo. Na época, tanto Carlo Ginzburg quanto Paul Ricoeur reconheceram no livro traços do relativismo cultural daquela década, marcada tanto por um incremento na sofisticação da escrita dos historiadores (o que os aproximou da escrita ficcional), quanto por um ambiente político e acadêmico reacionário que buscava negar Auschwitz. Contudo, as indeterminações que sugeria o conceito de “autópsia” criado na ocasião por Hartog, serviram para questionar as estruturas do pensamento historiográfico e, longe de qualquer relativismo reacionário, projetou-o hoje como um dos maiores pensadores acerca do ofício do historiador. É um pouco dessa história que esse texto pretende contar.

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O fim da onda da “direita lisérgica”?

A grande pergunta não é sobre a supostamente desaparecida “burguesia nacional” ou a ausência de “generais nacionalistas”. A pergunta versa sobre os motivos de o Golpe continuar ativo, apesar de todos os atos contraditórios dos golpistas. Quem ainda sustenta um governo insustentável? Como fazem isso? Qual o caminho para se reverter o mais rápido possível o atual estado de coisas? Como em 2002 na Venezuela, na América do Sul novamente a população rechaça o neoliberalismo e o arbítrio fardado. Terá chegado o fim da “direita lisérgica”?

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