Pensando sem Palavras

E você que pensava que ele só tocava violino…

Texto traduzido por mim e publicado no site em português da Executive Intelligence Review.


Por Shawna Halevy
Você já pensou em como você pensa? Como isso acontece? Você pensa passo a passo, numa sequência lógica? Se você for escrever um pensamento, o que você escrever irá refletir como isso veio em sua mente? O produto final é o mesmo que o processo de pensar? Para sermos claro, nós não estamos falando de qualquer tipo de pensamentos, como impressões, uma memória, uma simples opinião ou preocupação, mas uma descoberta de princípios fundamentais; algo que você pode considerar uma idéia profunda e original. Se você for um professor, ou tentar comunicar uma idéia complexa, essas questões já se apresentaram a você naturalmente. Você achou que com esses estudantes ou outra audiência não poderia “simplesmente dizer isso” e esperar deles entender a idéia? Que explicar isso não os faz cada um pensar isso por si mesmos?

O debate sobre o descobrir e comunicar idéias foi realizado em outro lugar nesse site[1]. Eu gostaria de adicionar a essa discussão uma questão simples: em qual forma seus pensamentos acontecem? Eles aparecem em palavras? Ou em outros tipos de objetos sensíveis? Um registrador de dados corre por sua mente? Ou isso é mais parecido com as cenas de um filme? Antes de seguir analisando por nós mesmos, vamos observar outra mente. Vamos perguntar a Einstein como ele pensa:
“Nenhum homem realmente produtivo pensa na forma inscrita no papel. O modo como os dois conjuntos triplos de axiomas são contrastados no livro de Einstein e Infeld (“A Evolução da Física: do Conceito Inicial à Relatividade e ao Quanta”, por Einstein e Leopold Infeld) não é de nenhum modo como as coisas acontecem no processo atual de pensar. Isso foi apenas uma formulação posterior do assunto, somente uma questão de como a coisa poderia ser posteriormente escrita. Esses pensamentos não apareceram em nenhuma formulação verbal. De qualquer modo, eu muito raramente penso em palavras. Um pensamento vem, e depois eu posso tentar expressá-lo em palavras… Durante todos esses anos, existia um sentimento de direção, de ir diretamente para algo concreto. Com certeza, é muito difícil expressar esse sentimento em palavras; mas esse é definitivamente o caso, e claramente pode ser distinguido de considerações posteriores sobre a forma racional de solução”.[2]
Em outro exemplo Einstein aborda a mesma questão: “As palavras ou a linguagem, assim como faladas ou escritas, não parecem desempenhar nenhum papel no mecanismo de meu pensamento. As entidades psicológicas que parecem servir como elementos do pensamento são certos sinais e imagens mais ou menos claras que podem ‘voluntariamente’ se reproduzir e se combinar. Esse jogo combinatório parece ser a característica fundamental do pensamento produtivo – antes de existir alguma conexão com a construção lógica em palavras ou outros tipos de sinais que podem ser comunicados aos outros. Os elementos acima mencionados são, no meu caso, visuais ou alguns de tipo muscular. Palavras convencionais e outros signos devem ser buscados laboriosamente apenas num estágio secundário, onde o mencionado jogo associativo está suficientemente estabilizado e pode ser reproduzido à vontade”.[3]
E para resumir de modo mais sucinto, Einstein escreve: “Eu não tenho a menor dúvida de que nossos pensamentos passam a maior parte do tempo sem o uso de símbolos, e, além disso, em grande parte inconscientemente”.[4]
Se não palavras, o quê?
Se Einstein não pensa em palavras, então, como ele pensa? Ele já deu a entender isso ao mostrar o processo de “jogar”, e a síntese voluntária ou combinação de pensamentos. A descoberta de uma nova idéia pode ser relacionada a uma surpresa, ao momento de “Eureca!”. Para conseguir isso, a imaginação não pode ser constrangida por questões ou caracterizações fixas, mas deve ser capaz de voarpara além das sombras da experiência (os objetos que podem ser apontados e nomeados), para o não visto.
Então, se não as palavras, por quais meios Einstein pensa? Ele incisivamente diz: “Eu freqüentemente penso em música”. O que quer dizer, pensar em termos de música? Ele tem acordes constantemente tocando em sua cabeça? Ele vê partituras em sua mente? “… quando nós nos comunicamos através de formas cujas conexões não são acessíveis à mente consciente, todavia nós a reconhecemos intuitivamente como algo significativo – assim nós estaremos fazendo arte[5]”. Isso pode indicar que a música é mais próxima ao processo subconsciente de pensamento do que qualquer outro sistema de linguagem, e, portanto, mais perto à parte mais ideal do pensamento. Isso faz sentido em relação ao que Einstein disse anteriormente, sobre esses pensamnetos serem dirigidos, puxados, como se do lado de fora, para a destinação correta.
O mesmo acontece no desenrolar de uma bem composta peça musical. A música clássica boa é um reflexo da tensão e resolução que entra em luta com paradoxos. Por isso, Einstein poderia dizer: “Todo grande cientista é um artista”. Como um de seus biógrafos se expressou “[a música] era menos uma fuga do que uma conexão: à harmonia subjacente ao universo, ao gênio criativo dos grandes compositores, e a outras pessoas que se sentiram confortáveis ligando-se com mais do que com apenas palavras[6]” (ênfase adicionada).
Outros irão concordar: para obtermos uma melhor idéia sobre o que é pensar em termos de música, como oposto às palavras, voltemo-nos para um contemporâneo de Einstein, o cientista russo V.I. Vernadsky:
“A música parece para mim como a mais profunda expressão da consciência humana, porque ainda na poesia, na ciência, e na filosofia, onde nós estamos operando com conceitos lógicos e palavras, o Homem involuntariamente e sempre limita – e comumente distorce – aquilo que ele experimenta e entende. Dentro dos limites da afirmativa do poeta russo [Fyodor Ivanovich] Tyutchev de que ‘um pensamento, uma vez pronunciado, é falso’. Na música, nós mantemos os pensamentos impronunciáveis. Seria bastante interessante seguir de uma maneira concreta a influência óbvia da música no pensamento científico. Excita isso a inspiração?[7]”.
É comum associar humores e sentimentos com certas harmonias ou chaves, por exemplo, uma chave menor com melancolia, mas o que discutimos aquí na música Clássica são de pensamentos que não podem ser expressos de outra maneira. Pensamentos tão profundos e eternos que eles estão fora da linguagem hodierna em cultura. Eles tanto precedem como superam o que podemos obter em uma conversação, colocando a música próxima às idéias inatas da alma.
‘Canções sem palavras’

Uma discussão mais explícita das palavras versus a música em expressar uma idéia verdadeira é tomada da composição de Felix Mendelssohn, “Canções sem palavras” – uma clara polêmica contra o rebaixamento da música como uma simples pintura tonal de cenas pastorais, ou como imitação de um poema sensual:
“As pessoas freqüentemente criticam a música por ser ambígua, que suas idéias sobre determinado assunto parecem vagas, enquanto todos entendem as palavras; comigo é exatamente o contrário; não somente no que diz respeito a frases inteiras. mas também a palavras individuais; essas, também, parecem para mim tão ambíguas, tão vagas, tão ininteligíveis quando comparadas à música genuína, que preenche a alma com milhares de coisas melhores que palavras. O que a música que amo me expressa, não é um pensamento demasiado indefinido para ser expressado em palavras, mas, ao contrário, demasiado definido… Se você me perguntar qual é a minha idéia, eu digo – apenas a canção assim como ela se apresenta; e se eu tiver em minha mente um termo definido ou termos relativos a um ou mais dessas canções, eu não os revelarei a ninguém, porque as palavras de uma pessoa adquirem um significado totalmente diferente na mente de outra, porque a música dessa canção sozinha pode despertar as mesmas idéias e os mesmos sentimentos numa mente como na outra – um sentimento que não é, contudo, expresso pelas mesmas palavras[8]. As palavras têm muitos significados, mas a música podemos entre nós entender corretamente. Você irá aceitar isto como resposta à sua pergunta? Em todo caso, essa é a única que eu posso dar – embora elas são, afinal, só palavras ambíguas!”[9]. Isso me diz que existem pensamentos puros, pensamentos musicais, que não podem ser traduzidos em palavras. Esses são os mais próximos aos processos e pensamentos inconscientes. Felix diz que as pessoas que se queixam da música não são seguras em pensar em princípios que estão além da percepção sensorial. Eles seriam gratos se lhes dessem um manual para a vida que eles poderiam seguir, como se eles estivessem obedecendo ao sinal de estacionamento.
Mas, poderiam essas pessoas se desenvolver mentalmente o suficiente para entender algo como a gravidade universal, que não pode ser sentida diretamente, nem ser descrita (em termos do que causa seus efeitos) por equações ou definições básicas, e que não existe como objeto, mas é ainda mais real e poderoso? Poderá alguém nesse estado ou com essa capacidade ser capaz de entender algo efêmero como o amor? Eles perderiam o significado de ambos esses conceitos ao olhá-los no dicionário, embora eles não possam negar sua existência e influência.
Furtwängler Defende Beethoven
O mesmo Richard Wagner que atacou Mendelssohn como um músico judeu que corrompeu a música romântica alemã com o intelecto, criticou a Nona Sinfonia de Beethoven ao dizer que a música não se equipara às palavras. Wilhelm Furtwängler, o maior maestro do século XX, defende Beethoven da “falácia que resulta da tentativa de registrar racionalmente a idéia em palavras – uma tarefa que é, claro, impossível sem sacrificar a substância da idéia de uma maneira consideravelmente extensa… Beethoven, mais do que qualquer outro, tinha um impulso a expressar tudo numa forma puramente musical. O músico dentro dele se sentia inibida, não inspirada, por um texto. Ele não permitia a forma textual de uma palavra ditar a ele qual forma sua música deveria tomar. Assim, Beethoven se torna completamente ele mesmo quando livre para seguir exclusivamente as demandas inerentes da música[10]”.
Nós devemos reconhecer que o desejo de Beethoven de ser livre de qualquer “forma textual de uma palavra”, e de viver do pensamento musical, é similar ao conceito de Einstein de jogo e de pensamento inconsciente. Disso nós podemos intuir que a música não é limitada a uma expressão das idéias imaginativas, mas é verdadeiramente a criação do homem para modelar o maior, mais produtivo e orgânico processo de pensamento; para sermos mais consciente disso, e termos mais poder para manejar isso.
Johannes Kepler descobriu que a harmonia musical usada pelo homem para externar sua mente criativa, é também encontrada na forma de sombra, no Sistema Solar, como expressão criativa da mente de Deus. Talvez o sistema bem-temperado como conhecido hoje em dia, é o melhor para comunicar idéias genuínas porque é a reflexão de, e é limitado por, princípios físicos e leis, ao invés de simples palavras.Pode-se dizer que a música clássica é o mais próximo que o “subjetivo” chega ao“objetivo”. O pensamento e a expressão humanas, como Einstein notou, podem ser expressadas como o ser e o devir. Nós começamos com o absoluto vivente, um ideal – podemos dizer, uma descoberta – e depois tentar comunicar isso pela montagem de peças que mais se aproximem da representação da nossa idéia. Na ciência física se apresenta a nós primeiro a sombra (a observação de uma experiência ou alguma outra evidência, as partes ou o porvir), e temos que trabalhar em ordem inversa para conhecer a idéia que gerou isso. “Assim, não é mais surpreendente que o Homem, imitando seu Criador, por fim encontrou o método de cantar em harmonia que era desconhecido dos antigos, de modo que ele possa jogar, por assim dizer, a perpetuidade da totalidade do tempo cósmico em algumas fracções breves de uma hora, pelo concerto artificial de muitas vozes, e saborear até certo ponto, a satisfação que Deus seu Criador em Seus trabalhos sentiu por um mais delicioso senso de prazer nessa imitadora de Deus, a Música” – Kepler, Harmonice Mundi.
Para concluir (se isso pode ser feito em palavras): A verdadeira imaginação científica é (pelo menos) não-verbal. No intuito de livrar nossas mentes do pensamento literal, devemos nos perguntar: A forma como a língua é usada atualmente limita nossos pensamentos? Deixamos um teleprompter interno nos dizer o que pensamos? Nós entendemos que a linguagem é útil e necessária para explicar coisas aos outros, mas é ela suficiente? É ela suficiente para o verdadeiro pensar elevado? Nós vimos com Einstein que o segredo da ciência é ir além da linguagem. O segredo que a humanidade desenvolveu para pensar o que pensamos é a música clássica. Nós usamos a música como modelo para o pensamento puro; como ferramenta para a criatividade intencionada, permitindo reflexão e melhoria do nosso pensamento. Isso me deixa com a pergunta: O pensamento não é apenas não-verbal, mas é igualmente não-visual? O pensamento é inteiramente não-sensual?

EM BREVE A CONTINUAÇÃO DO TEXTO, COM O NOME “PENSANDO O NÃO VISTO”

O Império Britânico por detrás do golpe no Brasil (Executive Intelligence Review)



           Tradução para o português do artigo publicado originalmente na Executive Intelligence Review, traduzido por mim e disponível no site da revista em português.

Por Cynthia Rush

          Por pelo menos um ano a grande mídia no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, tem publicado um artigo atrás do outro louvando os salmos da operação Lava Jato, investigação sobre propinas e corrupção no Brasil, envolvendo a firma estatal Petrobrás, as maiores empreiteiras nacionais como a Odebrecht, e a presidenta Dilma Rousseff ou “Dilma”, como é conhecida dentro e fora do país, que teve o pedido de abertura do processo de impeachment decretado em 12 de maio e teve que se afastar para responder às acusações a respeito de supostos “crimes de responsabilidade”. Manchetes sensacionalistas gritavam a toda prova sobre a “corrupção massiva”, subornos e lavagem de dinheiro reveladas pela Lava Jato, e a “cultura da impunidade” que isentou os políticos, legisladores e empresários da responsabilidade por seus delitos. Jovens e agressivos procuradores e juízes foram içados a heróis nacionais por lutarem para resgatar a “democracia” no Brasil.
Todos esses acontecimentos foram retratados pela mídia internacional como questões internas limitadas ao meio ambiente político brasileiro. Na verdade, contudo, a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, assim como as ações tomadas contra a ex-presidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner, e a determinação em extinguir as forças patrióticas, progressistas, nos dois países, devem ser vistas dentro do contexto da mobilização pré-guerra agora totalmente desfraldada pela aliança transatlântica do governo Obama com o Império Britânico, ao qual ele serve. Além da destruição do povo brasileiro e argentino, são a China e a Rússia os alvos de Londres e Washington: tudo o que está acontecendo deve ser compreendido no contexto da escalada militar da OTAN na Europa ocidental e das provocações dos EUA contra a China no sudeste asiático. Tudo isso é um prelúdio da guerra global.


A “Mani Pulite” no Brasil
Que isso esteja claro: não existe revolução “democrática” ocorrendo no Brasil. Esse é um golpe de banqueiros internacionais, uma “revolução colorida”, ordenada pelo Império Britânico com um único objetivo: mergulhar o Brasil na ingovernabilidade que será sentida no restante da América do Sul, forçando-o a sair dos BRICS ou a diminuir seu peso nele, e se “realinhar” com a Washington de Obama e com os cadáveres do sistema financeiro transatlântico. O presidente interino Michel Temer e o ministro das Relações Exteriores José Serra, cujo governo é no mínimo frágil, já jurou lealdade às insanas perspectivas políticas de Obama, e se prepara para arruinar o Mercosul e aderir ao Tratado de Livre Comércio do Pacífico (TPP), e assim promover a agenda liberal de Washington.
Nunca houve nenhuma evidência que justifique o impeachment de Dilma a não ser o fato de que os interesses do Império Britânico precisam da desestabilização do Brasil – é a sétima maior economia do mundo, com imensos recursos naturais e humanos – para alcançar seus objetivos geopolíticos. A maioria dos senadores que “votaram por sua consciência” para o impeachment de Dilma são investigados em denúncias provenientes da Lava Jato ou por malfeitos anteriores. O modus operandi preferido aqui é o mesmo da operação mani pulite ou “Mãos Limpas” realizada contra a Itália, na década de 1990, para desmantelar suas instituições nacionais e facilitar a conquista do país pelos especuladores financeiros controlados pelos britânicos. O juiz treinado pelo Departamento de Estado norte-americano, Sérgio Moro, que inclusive tem sido cotado como um futuro candidato presidencial, publicamente se disse seguidor do “modelo” mani pulite, avaliado positivamente num artigo publicado por ele em 2004, “Considerações sobre a Operação Mãos Limpas”. Ele está em contato constante com o FBI e o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ).
De acordo com fontes citadas pela edição de 21 de maio do Estado de São Paulo, o DOJ mantém “contato constante” com as autoridades do judiciário brasileiro “na procura por informações sobre corrupção e também para colaborar com as investigações brasileiras”.
O papel da Argentina
A Lava Jato começou a operar no Brasil já no final de 2014, assim que Dilma foi reeleita ao derrotar o candidato de Wall Street, Aécio Neves, em novembro daquele ano. Mas foi a eleição do monetarista fanático, Maurício Macri, na vizinha Argentina em novembro último, e sua mudança na economia e na política externa em alinhamento com os Estados Unidos, que fortaleceu os agentes da Lava Jato a acelerar o passo, sabendo que poderiam contar com o suporte de Macri. Assim que ele tomou posse, em dezembro, começou imediatamente a reverter as políticas nacionalistas de sua predecessora, Cristina Fernández de Kirchner, e fez saber ao governo Obama que seria um aliado de total confiança.
Foram Macri e Obama que responderam à abertura do processo contra Dilma com pronunciamentos praticamente idênticos, dizendo que os “processos institucionais” deveriam ser respeitados e que deveriam seguir seu curso não importa o que ocorresse. Isso traçou um nítido contraste com o posicionamento da Unasul, a Organização dos Estados Americanos, e de outros governos, que disseram que o impeachment violentava as normas legais.
Um dos primeiros atos de Macri no governo – indicando onde estão suas lealdades – foi fazer um acordo com os fundos abutres que afligiram a Argentina por mais de uma década e cujas demandas Fernández e seu falecido marido e predecessor, Néstor Kirchner, rechaçaram. Sob investigação por duvidosas atividades financeiras próprias e de sua familia, em fundos off-shore, como revelado pelos Panamá Papers, e denunciado por sua defesa púbica do banco da Rainha, paraíso dos traficantes de drogas, o HSBC, sob indiciamento,  Macri lançou sua própria caça às bruxas ao estilo mani pulite contra a ainda muito popular presidenta, usando uma facção aliada no judiciário para acusá-la, sua família e aliados políticos por desvios, lavagem de dinheiro e fraude na esperança de encarcerá-la.
O juiz de confiança de Macri, Claudio Bonadio, já tinha indiciado Fernández em um processo, mas outros estão a espera para serem abertos. Em 19 de maio, o jornal londrino Financial Times citou um executivo do novaiorquino Eurasia Group lamentando que faltava à Argentina a capacidade para executar “uma investigação séria e extensiva” do tipo Lava Jato, como se faz no Brasil.
Em discussão com seus associados em 12 de maio, dia em que Dilma foi afastada, o diretor-fundador da EIR, Lyndon LaRouche, alertou que se o Império Britânico não atingir seus objetivos através de golpes ou do encarcelamento de Dilma e Cristina Fernández através de acusações criminais, eles podem recorrer a assassinatos.
São os britânicos, estúpido
Dilma está correta ao afirmar que é vítima de um golpe, mas erra ao identificar os autores como unicamente seus inimigos políticos internos – apesar de que outrora ela soubesse. As pegadas britânicas estão em toda a desestabilização do Brasil. Em seu coração está o governo de Obama, dirigido desde  Londres, seu DOJ e o FBI, que vêm dirigindo a Lava Jato e sua expansão incessante, coordenando-a diretamente com os procuradores “anticorrupção” locais, treinados pelos EUA, para estabelecer um governo de, para e pelos fundos especulativos abutres e hedge.
Soma-se a isso o fato de que os “movimentos sociais” organizadores da revolução colorida, como o Movimento Brasil Livro (MBL), são proponentes apaixonados das políticas de Margaret Thatcher, do fascismo imperial britânico da “Escola Austríaca de Economia” associado ao infame Friedrich von Hayek. A Fundação Atlas da Escola Austríaca – generosamente financiada pelos estadunidenses irmãos Koch, os bilionários neocons magnatas do petróleo – noticiaram ano passado que muitos dos membros do MBL “passaram através do primeiro programa de treinamento da Atlas Network, a Atlas Leadership Academy, e agora aplicam in loco o que aprenderam”.
O MBL, que dominou as marchas anti-governo em São Paulo, o centro da oposição no país, durante o ano, é uma das muitas entidades financiadas pelos Koch – incluindo o Instituto pelos Estudos Humanos e Estudantes para a Liberdade – que compuseram as tropas de choque anti-governo. A sucursal brasileira do Instituto Ludwig von Mises ficou em êxtase quando soltaram 10.000 balões com o slogan “Menos Marx, Mais Mises” em uma das manifestações anti-Dilma, em São Paulo.
Enquanto esses esquadrões de artilharia engrossam o coro nas ruas da caça às bruxas anti-Dilma, Armínio Fraga – antigo executivo do Quantum Fund criado pelo agente britânico e defensor internacional da legalização das drogas George Soros – manobrava por detrás das cortinas para assegurar que os corretos clientes de Wall Street comporiam o débil governo de “Salvação Nacional” de Michel Temer, que não é apenas odiado, mas também investigado pela Lava Jato, assim como metade de seu gabinete.
Fraga já deu o aval para a aprovação do “time dos sonhos”, assim chamado pela Goldman Sachs, selecionado pelo Ministro da Fazenda Henrique Meirelles, antigo quadro do FleetBoston Global Bank, a quem foi dado poderes extraordinários para impor a política econômica draconiana pedida por Londres e Wall Street, começando por cortar pensões, reduzindo os direitos trabalhistas e os programas sociais. A explosão social que seguirá pode levar o Brasil rumo ao caos.
Completa o quadro, o papel exercido pela poderosa Rede Globo, que utiliza de suas armas para espalhar suas mentiras e calúnias contra Dilma, declarando-a culpada e pedindo seu afastamento. A EIR anteriormente documentou as ligações da Rede Globo com os mais altos níveis de interesses britânicos, incluindo suas ligações com os fanáticos por depopulação, o World Wide Fund for Nature (World Wildlife Foundation), criado pelo real consorte príncipe Felipe e pelo príncipe Bernardo da Holanda, membro oficial do Partido Nazista.
Tirando o “B” dos BRICS
A política de “mudança de regime” no Brasil tem como meta o início de uma era de golpes fascistas na Ibero-América, acompanhados das políticas de livre-comércio dirigidas por Londres – e por Wall Street – para levar a cabo as políticas do Império Britânico de depopulação e destruição econômica.
Em 2005, no Encontro das Américas ocorrido em Mar del Plata, Argentina, o então presidente Néstor Kirchner e seu parceiro brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, esmagaram George W. Bush quando ele propôs que as nações-membro adotassem a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) para Ibero-América. Bush foi humilhado e a ALCA não chegou a lugar algum.
Agora o objetivo é impor em todo continente alguma versão atualizada do derrotado esquema de Bush. Para alcançá-lo, os interesses financeiros imperiais devem tirar o “B” dos BRICS, mergulhando o Brasil no caos institucional e destruindo suas mais avançadas capacidades científicas e tecnológicas, como na Argentina, que são vitais tanto para o desenvolvimento regional quanto nacional, particularmente no contexto do paradigma dos BRICS.
A dinâmica dos BRICS na Ibero-América surgiu de fato em julho de 2014, no encontro anual dos BRICS, em Fortaleza, tendo como anfitriã Dilma Rousseff. Quase todas as nações da América do Sul e Central e o Caribe, através de suas organizações representativas regionais (a União das Nações da América do Sul, UNASUL; o Mercado Comum do Sul, Mercosul; e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), abraçaram ali os BRICS, vendo em seu Novo Banco de Desenvolvimento e nas ofertas de cooperação no desenvolvimento da economia física feitas pelo presidente chinês, Xi Xinping, e pelo presidente russo, Vladimir Putin, uma alternativa real à agenda ambientalista e de “austeridade” oferecida pelo governo de Obama, o Banco Mundial e o FMI.
Antes e depois do encontro, Xi, Putin e o Premier chinês, Li Keqiang, visitarem separadamente vários países da região e assinaram importantes acordos, incluindo financiamentos – alguns deles para grandes projetos de infraestrutura nas áreas de energia nuclear, transporte, manufaturas, comunicações e transferência de tecnologia. Dois dos grandes projetos postos sobre a mesa – que inspiraram grande entusiasmo pelo seu potencial em transformar toda a região – são o grande Canal Interoceânico da Nicarágua e a proposta da ferrovia transoceânica do Brasil ao Peru, incluindo uma possível rota através da Bolívia.
A “delação premiada” desenfreada
Foi para destruir essa perspectiva ganha-ganha que a Lava Jato foi posta em ação, com a coordenação direta entre o DOJ norte-americano, o FBI, e o juiz Moro e seu time de jovens e ambiciosos procuradores, muitos deles treinados em Harvard.
Moro não é só um juiz ambicioso. Em 2007, respondendo aos apelos do embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel, Moro conseguiu uma bolsa de estudos para passar três semanas nos Estados Unidos, que incluía um programa de treinamento no Departamento de Estado. Sobel, anteriormente um dos fundadores e sócio-gerente do Grupo Capital Valor em Nova Iorque e no Brasil, esteve muito bem conectado com os círculos financeiros internacionais. Condoleezza Rice estava à frente do Departamento de Estado no momento, sob as ordens do presidente George W. Bush, cujas políticas econômicas não eram diferentes daquelas esposadas pelas tropas de choque da Fundação Atlas nas ruas de São Paulo – e pelo governo Obama.
Fora a vanglória com que modelou sua caça às bruxas com a mani pulite, Moro louvou as virtudes do sistema de delação premiada do FBI, peça central do modus operandi da Lava Jato. Usando prisões preventivas de seus alvos para extrair “delações premiadas”, e o vazamento seletivo de informações e insinuações extraídas das delações para a grande mídia, o que se iniciou com o ataque à Petrobrás hoje atinge cerca de 230 empresas brasileiras e tem como alvo um número incontável de políticos. Nenhum banco ou fundos hedge foram tocados!
O FBI e o DOJ justificam seu papel central na Lava Jato utilizando como pretexto a lei anti-corrupção estadunidense (Foreign Corrupt Practices Act, FCPA), que diz que qualquer empresa estrangeira que emitir ações no mercado dos EUA pode ser investigada e monitorada. Carlos Fernando dos Santos Lima, educado na universidade de Cornell e membro da equipe de procuradores que trabalha para Moro na capital do Paraná, Curitiba, se jactou para a Reuters em novembro de 2014 que os procuradores brasileiros estavam em coordenação “por meses” com o DOJ, a Securities and Exchange Comission (SEC), e o FBI. Isso foi menos de um mês após a reeleição de Dilma Rousseff, evento que impediu momentaneamente o ataque generalizado ao Brasil.
Por volta de agosto de 2015, um encontro decisivo ocorreu envolvendo o advogado do doleiro detido Alberto Youssef, que acordou uma delação premiada com os procuradores da Lava Jato em troca de informações. No encontro estava um agente do FBI, mas também representantes britânicos e norte-americanos dos fundos de pensão e dos fundos hedge que abriram acusações criminais contra a Petrobrás, na esperança de ganharem bilhões com as alegadas “perdas” resultantes do esquema de corrupção! Foi acordado naquele encontro de agosto, que Youssef assinaria sua delação premiada com as autoridades dos EUA – e não com as brasileiras.
Em 22 de setembro, o advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, viajou aos Estados Unidos para negociar os termos específicos da “cooperação” de seu cliente com o FBI e o DOJ.
Nesse encontro foi combinado que Patrick Soles, então diretor do FCPA, entidades do DOJ (agora subchefe sênior do Departamento de Fraudes), viajaria pessoalmente para Curitiba, em outubro, para encontrar por quatro dias com o juiz Sérgio Moro, sua equipe de procuradores, e Youssef, para traçar quais seriam os próximos passos da Lava Jato. Durante esse mês, o presidente da câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, ele mesmo alvo da Lava Jato, anunciou que estava abrindo o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.
A presença contínua do FBI no caso é tão flagrante, que George “Ren” McEachern, diretor do escritório anti-corrupção do FBI em Washington (Field Office International Corruption Squad), esteve no Brasil faz duas semanas, onde ele foi o orador principal para o “Quarto Congresso Anti-Corrupção”, ocorrido entre 17 e 18 de maio, em São Paulo, organizado por Thompson Reuters e a companhia LEC (Legal, Ethics, Compliance). Anunciada como a maior encontro sobre “compliance empresarial” da América Latina, a Lava Jato é o grande tema desse ano.
É também relevante que o DOJ e o FBI ofereceram recentemente ao Ministro da Justiça argentino, Germán Garavano, a troca de experiências na “clarificação” de dois casos em que os juízes e procuradores aliados de Macri abriram para implicar Cristina: o do atentado a bomba ao centro social judeu AMIA em 1994, em que o Irã foi acusado, e as suspeitas sobre a morte do procurador federal Alberto Nisman, em janeiro de 2015, que estava investigando Cristina por um suposto encobrimento do papel do Irã nos atentados no AMIA.
Em 20 de janeiro de 2015, Nisman agendou apresentar no Congresso um dossiê pouco sólido elaborado por ele com as supostas evidências que Cristina Fernández encobriu o papel do Irã no atentado, mas ele foi morto um dia antes da data agendada. Imediatamente a mídia que fala por Wall Street e Londres, tanto na Argentina quanto internacionalmente, levantou a acusação sobre a culpabilidade de Cristina, ainda que três diferentes juízes federais descartaram o dossiê de Nisman por falta de evidências.
Destruição econômica
Até agora, a Lava Jato, funcionando como bola de demolição, teve sucesso em paralisar a economia do Brasil, partiularmente mirando naqueles setores fundamentais para o desenvolvimento da economia física, os de avançada capacidade científica-tecnológica, enquanto deixavam aproximadamente dois milhões de pessoas desempregadas. Foi preso o pai do programa nuclear brasileiro, o Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, acusado de corrupção, o que ameaça o próprio desenvolvimento da Petrobrás, assim como o presidente da Odebrecht, o herdeiro Marcelo Odebrecht, dona da maior empreiteira da América do Sul, sentenciado a 19 anos de prisão.
O Aurelius Capital Management – o maior fundo abutre que entrou em litígio com a Argentina por anos, e cujo presidente Mark Brodsky é um protegido do maior dos fundos abutres, de Paul Singer – também se movimentou de forma intensa para destruir a Petrobrás. Poucos dias após a posse da presidenta reeleita, em primeiro de janeiro de 2015, Aurelius tentou inutilmente forçar o default da Petrobrás, o que traria consequências devastadoras para a economia. Durante o mesmo período, começou também a comprar ações da Petrobrás, com seu valor em baixa, hoje possuindo cerca de 5% do valor total das ações da companhia.
A Lava Jato também mirou o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), por décadas o centro dos créditos direcionados à infraestrutura, responsável também por muitos dos acordos recentemente firmados com a China, membro dos BRICS. O banco é acusado na participação de subornos e corrupção associadas à Petrobrás, e pedidos vem sendo feitos para que seja privatizado fechado por completo.
Mauro Santayana, figura de certo destaque nos círculos nacionalistas e socialistas, agora na casa dos oitenta anos, alertou num artigo em 24 de maio na Rede Brasil Atual, que a Lava Jato é um instrumento do fascismo, algo que nem Dilma ou outros opositores do golpe ousaram dizer publicamente. A Lava Jato, ele alerta, é “a criminalização permanente da política e o nivelamento por baixo de todos os partidos e homens públicos, utilizando a  ‘justiça’ e a população (…) que só pode fortalecer (…) o fascismo” que ameaça o país.
Manobras pré-guerra
Os desenvolvimentos relatados aqui não devem ser vistos como meramente uma luta pela “política econômica”, o como o simples compromisso “atemporal” de Londres e Wall Street com a pilhagem fascista das economias. Pelo contrário – como no caso da batalha agora mantida dentro do Japão e as recentes indicações de resistência à escalada de guerra da OTAN na Alemanha –, o que vemos é uma série de intensos “teatros” de batalha dentro de uma guerra mundial estratégica.
Longe de gozar de uma posição de poder inquestionável, a partir da qual se pode conduzir o assalto econômico e a especulação financeira, o império transatlântico enfrenta a iminente bancarrota financeira e a rápida destruição da economia física. A perspectiva BRICS, a Nova Rota da Seda eurasiática, e a iniciativa chinesa de “Uma faixa econômica, uma estrada”, tem confrontado o tambaleante mundo transatlântico com a realidade da perda completa da hegemonia global. Sua resposta, até agora, tem sido levar o mundo um passo à frente rumo a uma guerra mundial.
Isso é o que Obama tem feito. Isso é o que os Britânicos tem feito.
O que estamos assistindo no Brasil e na Argentina, e a perseguição – ou algo pior – de Dilma Rousseff e Cristina Fernández de Kirchner, é apenas o precursor numa série de ataques sucessivos e ameaças para levar o mundo todo para um inferno. Essa é a lição e a realidade estratégica que deve ser entendida nesse momento.

A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal (2): a resposta dos Mestres da Verdade




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A antropologia histórica francesa, da qual podemos destacar basicamente três nomes, Jean-Pierre Vernant, Marcel Detienne e Pierre Vidal-Naquet, se destacou pela análise minuciosa de diversos temas da Grécia clássica que antes se demoravam nas mãos de filósofos. Renovação é uma palavra que não define em toda sua amplitude os desdobramentos da abertura deste novo campo do saber, pois desloca da Alemanha determinado monopólio sobre o dizer verdadeiro, sobre a cultura clássica, e desloca esse saber num momento crítico, no pós-guerra, ou seja, após a derrota do nazismo na Alemanha. Por exemplo, Nietzsche se tornara definitivamente nazista com as leituras de Heiddeger. As análises mais renovadoras e que recolocaram o filósofo no circuito cultural, porém com propostas de leitura completamente inovadoras, são sem dúvida a abordagem “genealógica” de Michel Foucault e a “gargalhada de Nietzsche”, como nas análises nem um pouco ortodoxas feitas por Gilles Deleuze. No que concerne a historiografia, um retorno aos Mestres da Verdade é feito em livro publicado originalmente em 2005 por Marcel Detienne. No artigo, podemos ver pelas palavras do historiador a vitalidade conservada ainda hoje por seu pequeno livro, assim como a fuga de determinada metafísica alienadora. Sobre o tema da verdade e sobre o conceito de político, se exprime assim Detienne sobre o “filósofo-religioso” conhecido pelo conceito de Dasein:

Na verdade, olhando mais de perto, desde O ser e o tempo, o político, no sentido que se tornou vulgar, e mesmo muito vulgar, cobriu-se de desprezo. É um obstáculo ao processo do Dasein, do Existente determinado pelo cuidado de si e que só pode apropria-se de si distanciando-se do cotidiano, do social, e da cidade com seus lugares públicos inutilmente ruidosos. Nessa via, um filósofo, lúcido e mais corajoso que os outros, buscou compreender como o pensamento de Heidegger se arriscou “àquilo que lhe aconteceu”. Sim, em 1933, memória de um passado recente: adesão do filósofo do Daseinao nacional-socialismo de Adolf Hitler; silêncio hermenêutico sobre o genocídio dos judeus; impotência do filósofo, tarde demais para fazer a crítica de sua adesão “circunstancial” ao partido nazista. Não estamos aí junto à Verdade, tão grega, mas não estamos tão longe do mesmo desprezo sobre quanto ao que Heidegger chama a “antropologia” e que engloba para seus discípulos e devotos as pesquisas realizadas pelos historiadores da Grécia arcaica sobre os meios filosófico-religiosos e sobre as formas do pensamento descobertas por caminhos que não conduzem, de fato, nem aos recintos conhecidos nem ao coração das “grandes obras[1].
Heidegger aparece na seção “Os gregos e nós: com ou sem contexto?” parece que na intenção de ressaltar a necessidade de, através da contextualização entre dois métodos diferentes de pesquisa, diferenciar as análises alienantes das mais fecundas. Pelo menos desta maneira é como lemos o livro de Detienne. Mas tal posicionamento não é exclusivo da historiografia, e pode ser corroborada pelas palavras de alguém que ainda hoje tem uma das melhores leituras de Foucault, sem ser prejudicada pela admiração pessoal nutrida pelo escritor:
Sempre houve em Foucault um heraclitismo mais profundo do que em Heidegger, pois, afinal, a fenomenologia é pacificadora demais, ela abençoou coisas demais.
Foucault descobre então o elemento que vem de fora, a força. Foucault, como Blanchot, falará menos do Aberto que do lado de Fora. É que a força se relaciona com a força, mas de fora, de tal forma que é o lado de fora que “explica” a exterioridade das formas, tanto para cada uma quanto para sua relação mútua. Daí a importância de Foucault afirmar que Heidegger sempre o fascinou, mas que ele só o podia compreender através de Nietzsche, com Nietzsche (e não o inverso). Heidegger é a possibilidade de Nietzsche, mas não o inverso, e Nietzsche não esperou a sua própria possibilidade. Seria preciso reencontrar a força, no sentido nietzscheano, o poder, no sentido específico de “vontade de potência”, para descobrir esse lado de fora como limite, horizonte último a partir do qual o ser se dobra. Heidegger se precipitou, dobrou rápido demais, e isso não era desejável: daí o equívoco profundo de sua ontologia técnica e política, técnica do saber e política do poder. A dobra do ser só se podia fazer a nível da terceira figura: será a que a força pode se dobrar, de modo a ser afecção de si sobre si, afeto de si por si, de tal forma que o fora constitua por si mesmo um dentro coextensivo? O que os gregos fizeram não foi um milagre. Há em Heidegger um legado de Renan, a ideia da luz grega, do milagre grego. Foucault diz: os gregos fizeram muito menos ou muito mais, como quiserem[2].
Numa ponta o posicionamento historiográfico a respeito de diferentes abordagens sobre uma mesma disciplina; na outra ponta, uma abordagem de cunho pessoal a respeito do trabalho de um filósofo. Em ambas as pontas as questões se entrelaçam: Detienne realça o saber alienado dos antropólogos ou filósofos que se comprazem em comparar os gregos com os gregos. Quer dizer que gostam de comparar supostos “originais” gregos com seus herdeiros, ou seja, aqueles que se acham portadores dos ideais de um modelo de civilização que supostamente tem a Grécia como matriz. Voltando a Deleuze, é a mesma questão do “legado de Renan”, da luz grega, do milagre grego. Mas tais padrões civilizacionais abençoaram coisas demais, erros em demasia, como o próprio nacional-socialismo. A antropologia surge como uma espécie de refugo das ciências humanas, não captando determinada profundidade “filosófico-religiosa”. Ou surge como legitimadora de ideais de superioridade que teimam em constranger a pluralidade de formações sociais, de constituições diversas dos povos no mundo. Por isso Foucault está mais situado no Fora do que no Aberto (e assim também entendemos a terceira geração dos Annales, especificamente a antropologia histórica). Por este se entende o refúgio procurado pelos sábios heideggerianos. Pelo Fora compreendemos as conexões com a sociedade, com as relações de poder, de captar as diferenças (talvez seu “inventário”). Por isso Heidegger é uma possibilidade de Nietzsche, enquanto este não esperou por sua possibilidade: consumiu-se em seu próprio tempo, em sua atualidade, e não na busca de possíveis, como nas investigações do filósofo do Daisen.


[1] DETIENNE, Marcel. Os gregos e nós: uma antropologia comparada da Grécia antiga. São Paulo: Edições Loyola, 2008, p. 90-1.
[2] DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2013, p. 120-1.

Guimarães Rosa e a Nomadologia: Três tempos de uma história (PARTE 2 – O ROMANCE NA HISTÓRIA)

Créditos a Arlindo Daibert

PARTE 2 – O ROMANCE NA HISTÓRIA



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A primeira parte pode ser acessada aqui: PARTE 1 – A HISTÓRIA DO ROMANCE

Segunda parte do texto que entrelaça história, literatura e filosofia, especificamente as relações do Grande Sertão: Veredas e a nomadologia. História que se contrapõe aos cânones clássicos sobre o “jaguncismo”, notavelmente a história do grupo de Lampião, e que permitiu, através da literatura, desvendar a montagem de uma máquina de guerra nômade em pleno sertão, com posicionamento geográfico delimitado (não o nordeste da narrativa clássica) e que teve início na virada do século XIX para o XX. Como um romance pode contar tal história? Seria ela real?
Ao contrário da tese clássica de Hobbes segundo a qual o Estado é criado para conjurar a guerra, a nomadologia segue as diretrizes da “sociedade contra o Estado”, de Pierre Clastres: Ela só existe na medida em que conjura a existência do Estado, das formas “estriadas” de existência. Deleuze e Guattari invertem também a conhecida tese de Clausewitz, onde a guerra seria a continuidade da política. Na nomadologia, a política é entendida como extensão da atividade guerreira, mas não se limita nem à prática de guerra, tampouco aos usos tradicionais da “política”.
Como essa história tem relação com a expulsão dos insurgentes, durante a Independência, pelas tropas mercenárias contratadas por José Bonifácio? Mais ainda, como João Goulart planejou a criação de uma máquina de guerra nômade para tentar fazer reverter o golpe que se avizinhava? Logo, como hipótese de trabalho, podemos perguntar: a máquina de guerra rosiana, a história por ele relatada, teria relação com os movimentos autóctones que começaram a surgir no pré-golpe, como as Ligas Camponesas, ou seja, com movimentos nacionais pela soberania e por independência? Seria o próprio romance “Grande Sertão: Veredas” construído em seu tempo como uma máquina de guerra?




O romance na história
Edward Said, no seu “Cultura e Imperialismo”, fez breve e excelente interpretação do platô “Nomadologia”, que trata exatamente da “máquina de guerra nômade” e seus efeitos em todos os ramos do conhecimento e do poder humanos.
O capítulo intitulado “Traité de nomadologie: La machine de guerre”, baseia-se na obra de Virilo e estende suas idéias sobre o movimento e o espaço num estudo altamente excêntrico de uma máquina de guerra itinerante. Esse tratado profundamente original apresenta uma metáfora sobre uma espécie disciplinada de mobilidade intelectual numa era de institucionalização, arregimentação e cooptação. A máquina de guerra, dizem Deleuze e Guattari, pode ser identificada com os poderes militares do Estado – mas como ele é fundamentalmente uma entidade separada, não é necessário que o seja, da mesma forma que as perambulações nômades do espírito nem sempre precisam ser posta a serviço das instituições. A origem da força da máquina de guerra nômade não está apenas em sua liberdade nômade, mas também em sua metalurgia – que os autores comparam à arte de composição musical –, que forja os materiais, moldados “para além das formas separadas; [essa metalurgia, tal como a música] acentua o desenvolvimento contínuo da própria forma, e para além dos materiais individualmente diferentes, ela acentua a variação contínua dentro da matéria”. Precisão, concretude, continuidade, forma – todas elas possuem os atributos de uma prática nômade cujo poder, diz Virilio, é não agressivo e sim transgressivo. (SAID, 1995: pp. 406 – 407).
Segundo os autores, o Estado possui uma violência que não passa pela guerra, ao contratar policiais e não guerreiros, ou adquire uma força armada, mas que pressupõe uma organização jurídica da guerra e uma organização da função militar. A máquina de guerra não funciona por tratos, mas por traições. “Il serait plutôt comme la multiplicité pure et sans mesure, la meute, irruption de l’éphémère et puissance de la métamorphose” (DELEUZE; GUATARRI, 1980: pp. 435). Hobbes diz ser o Estado contra a guerra e a guerra contra o Estado. Caso não concluirmos que a guerra é um estado natural, ela seria, ao contrário, um modo de estado social que conjura e impede a formação estatal. Segundo Pierre Clastres, a guerra impede as alianças, as trocas comerciais, ou seja, impede o “fator” Estado, impede a fusão de grupos. A partir desse ponto de vista, é impossível enxergar uma continuidade, uma evolução que levaria as sociedades primitivas chegarem à complexidade estatal. As sociedades primitivas e o Estado são pólos distintos e irredutíveis.
Em nossa exposição que se pretende sumária, definiremos de uma vez o que os autores entendem como nomadologia a partir da fórmula que os mesmo usam de Clausewitz, na qual “a guerra é a continuação por outros meios das relações políticas”. É claro que guerra, no texto que ora analisamos, não se reduz aos campos de batalha, sendo toda a disputa cientifica, social, econômica, etc., ou seja, existe toda uma relação que se empregam na relação entre o Estado e os mecanismos que formam seu exterior. A fórmula de Clausewitz não seria uma idéia pura que levaria a um aniquilamento abstrato do adversário. Ela teria a guerra como objetivo e que entretém com a mesma uma “relação sintética potencial ou suplementar”.
Na nona e última proposição do texto, se afirma que “a guerra não necessariamente tem por objeto a batalha, e acima de tudo a máquina de guerra não tem necessariamente por objeto a guerra, apesar de a guerra e a batalha assim resultar necessariamente (sob certas condições)”. Portanto, seria a guerra ela mesma objeto da máquina de guerra? Ela é a invenção dos nômades, por sua essência ser constituída pelo espaço liso, da ocupação desse espaço, do deslocamento para esse espaço e para a correspondente composição dos homens: “c’est là son seul et véritable objet positif (nomos). Faire croîte le désert, la steppe, non pas les dépeupler, bien au contraire” (DELEUZE; GUATARRI, 1980: pp. 519). Se a guerra acontece “necessariamente” é porque a máquina de guerra se choca com o Estado e as cidades, “como as forças (de estriagem) que se opõem ao objeto positivo”. Assim começa a guerra, ao se procurar anular as forças do Estado, ao tentar conseguintemente destruir a “forma-Estado”.
O problema propriamente dito não seria da realização ou não da guerra, mas da apropriação da máquina de guerra nômade pelo Estado. Enquanto aquela possuir um “devir abstrato”, procura perpetuar sua própria forma para além das inibições da estratificação social – como a história do bando de moleques de rua e sua vida livre e carregada de poesia em os “Capitães de Areia”, de Jorge Amado –, este (o Estado) procura se apropriar dos mecanismos fluídos do nomadismo a fim de que ele trabalhe para si, para seus objetivos políticos, os quais consequentemente aparecem como forma de guerra. É interessante o conceito de Deleuze e Guattari sobre a guerra total praticada pelos Estados e sua gênese na apropriação da máquina de guerra:
La question donc moins celle de la réalisation de la guerre que de l’apropriation de la machine de guerre. C’est en même temps que l’appareil d’Etat s’approprie la machine de guerre, la subordonne à des buts “politiques”, et lui donne pour objet direct la guerre. Et c’est une même tendance historique qui entraîne les Etats à évoluer d’un triple point de vue: passer des figures d’encastement à des formes d’appropriation proprement dite, passer de la guerre limitée à la guerre dite totale, et transformer le rapport du but et de l’objet. Or les facteurs qui font de la guerre d’Etat une guerre totale sont étroitement liés au capitalisme: il s’agit de l’investissement du capital constant en matériel, industrie et economie de guerre, et de l’investissement du capital variable en population physique et morale (à la fois comme faisant la guerre, et la subissant). En effect, la guerre totale n’est pas seulement une guerre d’anéantissement, mais surgit lorsque l’anéantissement prend pour “centre” non plus seulement l’armée ennemie, ni l’Etat ennemi, mais la population tout entière et son économie. Que ce double investissement ne puisse se faire que dans les conditions préables de la guerre limitée montre le caractère irrésistible de la tendance capitaliste à développer la guerre totale. Il est donc vvrai que la guerre totale reste subordonée à des  buts politiques d’Etat et réalise seulemnt le maximum des conditions de l’appropriation de la maquine de guerre par l’appareil de’Etat. Mais il est vrai aussi que, lorsque l’objet de la maquine de guerre appropriée devient guerre totale, à ce niveau d’un ensemble de toutes les conditions, l’objet et le but entrent dans ce nouveaux rapports qui peuvent aller jusqu’à la contradiction. D’où l’hésitation de Clausewitz quand il montre tantôt qu’elle à effectuer l’Idée de la guerre inconditionée. En effect, le but reste essentiellement politique et determiné comme tel par l’Etat, mais l’objet même est devenue illimité. On dirait que l’appropriation s’est retournée, ou plutôt que les Etats tendent à relâcher, à reconstituer une immense machine de guerre dont ils ne sont plus que les parties, opposables ou apposées. Cette machine de guerre mondiale, qui “ressort” en quelque sorte des Estats, présent deux figures successives: d’abord celle du fascisme qui fait de la guerre un mouvement illimité qui n’a plus d’autre but lui-même; mais le fascisme n’est qu’une ébauche, et la figure post-fasciste est celle d’une machine de guerre qui prend directement la paix pour objet, comme paix de la Terreur ou de la Survie. La machine de guerre reforme un espace lise qui prétend maintenant contrôler, entourer toute la terre. La guerre totale est elle-même dépassée, vers une forme de paix plus terrificant encore. La machine de guerre a pris sur soi le but, l’ordre mondial, el les Etats ne sont plus que des objets ou des moyens appropriés à cette nouvelle machine. C’est là que la formule de Clausewitz se retourne effectivement; car, pour pouvoir dire que la politique est la continuation de le guerre avec d’autres moyens, il ne suffit pas d’inverser les mots comme si l’on pouvait les prononcer dans un sens ou dans l’autre; il faut suivre le mouvement réel à l’issue duquel les Etats, s’étant appropriés une machine de guerre, et l’ayant approprié à leurs buts, redonnent une machine de guerre qui se charge du but, s’approprie les etats et assume de plus en plus de fonctions politiques (DELEUZE; GUATARRI, 1990: pp. 524 – 525).
A guerra total promovida pelo Estado é, nos dias atuais, a guerra do Afeganistão e do Iraque, os dois exemplos mais notáveis. Sem nenhuma base na realidade, cooptando os meios de comunicação (três ou quatro que são os maiores do mundo e que portanto tem suas notícias ecoadas por todas as partes sem possibilidade, a priori, de maiores averiguações), criam factóides para continuar a construir civilizações à base da rapina. A apropriação da máquina de guerra pelo Estado é a guerra do Paraguai cooptando escravos e os escalões inferiores da sociedade para defender um expansionismo despótico e é também encarnada nos cientistas nazistas, onde cada um fazia uma parte minúscula de uma pesquisa bem mais ampla e que no fim daria como resultado a bomba atômica, muito bem barganhada pelos EUA através dos serviços de Robert Oppenheimer.
A apropriação da máquina de guerra nômade pelo Estado é atestada no caso brasileiro durante a formação da Marinha Imperial. A historiografia acostumou-se a tachar simplesmente de mercenários os capitães ingleses que dominaram as revoltas no Pará, Maranhão e Bahia após a Proclamação da Independência. Um estudo independente dos cânones, feito por Nélio Galsky (sua tese de mestrado), na UFF, vem clarear um pouco as origens de nossa Marinha e, por contraste, a de seu fundador nativo, Tamandaré. Vamos a uma pequena biografia do Almirante Cochraine, antes de se engajar nas lutas brasileiras, escrita por Nélio:
De origem aristocrática, herói das Guerras Napoleônicas, ele se transformaria rapidamente em crítico do almirantado britânico. Depois de acusar alguns superiores de covardia, discutiria a lisura dos tribunais de presas, e principalmente, investiria contra as condições desumanas impostas aos marinheiros. Em uma época em que o recrutamento forçado ainda era a tônica nas Marinhas européias, ele atacaria a falta de alimentação adequada nos navios, de recursos médicos, e a ausência de pensão no caso de incapacidade dos feridos. Suas críticas à corrupção nos altos escalões da Royal Navy o aproximariam dos radicais da política britânica, ao mesmo tempo em que lhe criariam inimizades em vários setores da elite. Eleito para o Parlamento em 1807, ele defenderia várias posturas do jacobinismo inglês, como a ampliação do sufrágio universal. Porém uma questão mostraria os limites do seu radicalismo: a cada vez que um dos seus colegas pedia a retirada das tropas que lutavam na Espanha. Cochrane retirava-se da sala e não participava dos trabalhos parlamentares. Lutar contra a corrupção na Marinha e pela melhoria das condições de vida dos marinheiros era uma coisa, lutar pelo término da guerra, que representaria o fim das possibilidades de apresamento de barcos e cargos, era outra.
Em 1814, foi expulso do Parlamento, em consequência de um escândalo na Bolsa de Valores: um coronel, conhecido de Cochrane, espalhou o boato da morte de Napoleão. A notícia era falsa, mas fez com que houvesse uma alta súbita das ações, beneficiando certo número de investidores, entre os quais estava o próprio Almirante. Embora tenha protestado inocência e atribuído seu envolvimento no escândalo a uma conspiração política dos seus inimigos conservadores, ele perderia todas as suas condecorações e títulos. Após 1818, o Almirante deixaria a Inglaterra e dedicaria a sua energia e coragem à criação e/ou liderança das forças navais do Chile, Peru, Brasil e Grécia (GALSKY, 2006: pp. 16 – 17).
Continuando seu estudo, o autor nos narra que o corso servia como forma de sobrevivência ou uma espécie de fonte de renda dos oficiais da marinha britânica durante a época moderna, já que não se havia instituído no país a racionalização da administração estatal, fruto, entre outros motivos, das guerras napoleônicas, as quais fizeram as monarquias européias aparelharem seus mecanismos de poder com uma força armada forte, numerosa e de alistamento compulsório. A perda da lealdade ao capitão em favor da lealdade ao Estado é o corolário desse movimento, tornando anacrônica a cumplicidade entre os oficiais e seus subordinados provocadora do corso, da “pirataria oficial” realizada até então.
Os meios de coesão entre os integrantes das esquadras britânicas mudam de feição à chegada da burocratização cada vez maior do Estado surgido após as revoltas e revoluções que marcam o fim da Era Moderna. O fim do corso também é conseqüência da introdução dos navios a vapor nas navegações de grande distância e a resistência à profissionalização da Royal Navy pode ser imputada à mentalidade independente dos nascidos na Bretanha, que se outorgavam o direito de servir aos países que falavam mais próximo às suas concepções de deveres de oficial.
Cochrane, depois se sair vencedor nas guerras brasileiras e ao nomeado Marquês do Maranhão, iria enfrentar graves empecilhos para reaver as terras e o dinheiro que achava em seu direito após as conquistas realizadas. Grenfell, o qual mais tarde se tornou o mais prestigiado marinheiro estrangeiro a serviço do Império, por seu lado, além dos problemas relativos às presas (situação quase cotidiana enfrentada por esses comandantes e seus tripulados), foi também protagonista quando ainda possuía 26 anos e comandava a frota de Cochrane na pacificação do Pará de um dos episódios mais obscuros da reconquista das terras brasileiras por eles promovida. Além de ter executado, aparentemente de forma aleatória, cinco revoltosos da situação política no Pará, teve em seu navio uma rebelião de presos cujo final resultou na morte de praticamente todos que lá estavam condicionados, ou seja, mais de duzentas pessoas. Não se sabe ainda hoje com plena certeza como o tumulto se iniciou e muito menos a causa de um desfecho tão trágico. O comandante fez sua defesa, mas levou a fama, apesar de não ter levado a pena (que não conseguiu ser provada) pelo massacre.
Não queremos aqui um julgamento pessoal desse ou daquele herói. A Marinha ou os historiadores dos feitos militares é que carregam a responsabilidade sobre tais discussões. Queremos posicionar as frotas de Lord Cochraine dentro da perspectiva da apropriação da máquina de guerra nômade pelo aparelho de Estado e da grave importância do militarismo frente à desagregação do país promovida principalmente pelas Cortes de Lisboa.
Guattari e Deleuze expõem o aspecto negativo da cooptação de elementos exteriores ao Estado. Invertendo a lógica dos autores franceses e tendo em frente a importância de uma Independência que manteve o Brasil senhor de todos seus territórios, de todas suas riquezas, sem maiores derramamentos de sangue (pois estes existiram e saltam aos olhos de quem os estuda, apesar de relativamente menor do que se as Províncias, instigadas por forças externas, quase todas se insurgissem), poderemos entender o poder nômade capturado pelo Estado como fundamental para a união nacional. Os oficiais britânicos que por aqui passaram, todos eles pertencentes à “velha escola” naval de seus países e como tal relegados a segundo plano, erravam pela América do Sul, ajudando nas guerras de independência de nações ora aqui ora lá.
O aparelho de Estado, no caso brasileiro, admitindo esses guerrilheiros em seus quadros oficiais através da criação por José Bonifácio da Marinha Imperial, promove uma “guerra total” contra as Províncias aliadas a Lisboa desprezando a organização da guerra que cada vez se tornava maior, em grande parte, depois que passaram pelo Velho Continente as tropas arregimentadas pelo gênio militar de Napoleão. O fator surpresa, assim como a mentira pura e descarada (a traição, nas palavras dos teóricos de França), foram os motores desses combates, como na conquista da maior província brasileira, a do Grã-Pará, por Grenfell, um oficial de apenas vinte e três e que chefiara somente uma expedição anteriormente – e de muito menor importância, a de busca e captura de fragatas no litoral da América Central. Chegara com uma carta de Cochraine que o mesmo e sua esquadra estavam realizando uma operação na foz do Amazonas e não tardariam.
A realidade é que Cochraine partira após os sucessos no Maranhão para o Rio de Janeiro a fim de agilizar questões relativas aos apresamentos realizados no norte. Com a bravata, a adesão dos paraenses ao Império de D. Pedro não tardou, apesar dos problemas que surgiram posteriormente, resolvidos ainda sim por um comandante jovem e sem grande habilidade política, mas com indomável coragem.
É interessante nesse momento de nosso trabalho colocar um fator de condicionalidade ao que ocorreu factualmente. Quero problematizar o ocorrido. Cochraine herdou extensas e numerosas terras no Maranhão, assim como boa parte da riqueza lá produzida. O que levou de fato do governo brasileiro, diz o Almirante, foi muito aquém do que se julgava merecedor. Qual seria o destino do lord caso quisesse entrar em guerra franca com as autoridades nacionais, se instalasse no Maranhão com seu poder que fazia temer aos habitantes daquela terra e se tornasse, sem sombra de dúvida, um verdadeiro Marquês do Maranhão (título realmente concedido a ele pelo imperador)? Tal pergunta, claro, só saberíamos com plena certeza caso tal fato se materializasse em nosso horizonte histórico. Por outro lado, não seria difícil prever as dificuldades que iria encontrar o nobre saxão, principalmente se aspirasse a se tornar uma espécie de Gárcia D’Ávila com sua Casa da Torre.
A morte, por que não, poderia ser seu fim. Caso transformasse o temor dos provincianos em amor, talvez tivéssemos um território dividido dentro do conjunto nacional. Um estrangeiro, dado o preconceito e as reservas dos homens da época a esse tipo de elemento com alguma espécie de poder, teria contra si os meios oficiais de repressão e intrigas gigantescas sem maiores esforços poderiam surgir. E o lord deveria tocar mais uma vez os clarins da guerra, só que agora em total contradição com sua luta inicial, a de manter íntegro o Brasil. A fuga, o exílio do Almirante, sem sombra de dúvidas foi a melhor escolha que poderia fazer. Tal figura não viveria pacificamente num Estado que lutava com todas as forças para encontrar sua própria identidade.
A realidade do exílio – voltando ao grande tema que ora estudamos -, a ficção de Guimarães Rosa, qual seria seu corolário na realidade plena, a da vida, tal como vemos até aqui, onde o romance em muito prefigura os acontecimentos nacionais pré-64? Jango, acredito ser a resposta correta. A realidade da máquina de guerra nômade mais uma vez se inverte ao defrontarmo-la com a história brasileira. O conceito de nomadologia se insere não exatamente em grupos que se formam às margens da sociedade ou se desenvolvem como as grandes empresas globais em seu centro, mas que guardam certa independência da regulação dos mecanismos estatais. No caso da república brasileira pré-64 existe um governo cuja representatividade está nos movimentos sociais – incipientes à época se comparados aos de hoje –, fundamentalmente inserido na questão trabalhista, que vai de encontro à tradição do oligopólio dos plantadores de café que sustentaram o Império e financiaram o início de nossa vida republicana.
Jango, com uma aprovação popular de 47 % meses antes do golpe, pode ser considerado um político bem aceito pela sociedade como um todo, devido tanto aos seu pouco tempo na chefia do Estado, como também pela ausência de canais amplos que promovessem seu governo, tal como hoje fazem a mídia partidária da tradição direitista ou como Getúlio fez para se autopromover. Tudo isso excluindo os graves conflitos que o presidente teve de enfrentar devido à tentativa de golpe de Jânio Quadros, gerando um quadro político de grande instabilidade e da insistência das Forças Armadas e das alas conservadoras do país em impedir sua posse como vice-presidente eleito.
A falta de representatividade do presidente, com os movimentos sociais pouco ramificados dentro da sociedade; os conflitos dentro dos mesmos, muitas vezes instigados por agentes exteriores neles infiltrados; a herança conservadora de nossa política desde a colonização pelo elemento português junto à marcha conservadora afim de dar legitimidade ao golpe, levantando a bandeiro de Deus e da Família, minaram as forças da política desenvolvimentista, trabalhista e autóctone que lutava por se implantar em nosso país. Tivemos a posse da presidência pelo vice-presidente eleito feito dentro dos ditames legais, mas o mesmo não obteve êxito em se legitimar como dirigente nacional. Tivemos um caso em que os elementos oriundos dos extratos marginais ao Estado, os trabalhistas, chegaram ao poder. A máquina de guerra nômade se apossou do aparelho de Estado.
Como Cochraine, Jango buscou dominar o Brasil, mas não através das armas. O plano ideal buscado por ele foi o de fazer comícios como o da Central do Brasil por todo o país, e assim conseguir o apoio popular que lhe faltava à época. Percorreria a nação, utilizando de seus poderes como dirigente máximo da pátria, e espalharia, como numa cruzada, as idéias que ele e sua base defendiam, através de um Brasil ainda deveras provinciano, no qual os acontecimentos políticos ocorridos no centro-sul pouco ou nada interessavam ao restante do país. Ao contrário de 64, a mobilização popular nas eleições de 2010 representaram grande avanço na consciência política nacional, contra uma campanha do ódio e do preconceito, os velhos trunfos da velhacaria udenista. Jango não teve tempo nem meios para conquistar o povo como um todo.
Como representante de um poder nômade, alheio às estruturas sedimentadas do conservadorismo político que dava seu golpe máximo naqueles anos, teve por bem evitar a guerra civil e procurar o exílio no Uruguai. As forças que se movem paralelas à sociedade tradicional não necessariamente têm a guerra como objetivo na conquista de seus ideais. Cochraine voltou à Inglaterra; Jango partiu para o Uruguai. O exílio como opção foi a saída justa para não comprometer de maneira irreparável a coesão nacional.
Como Guimarães Rosa resolveu tal conflito entre poderes extremamente opostos em sua ficção? A oposição representada por seu personagem Zé Bebelo, centralista e se preciso cruel, como os príncipes idealizados por Maquiavel, contra a contratualidade entre a população e os líderes jagunços proposta pelo bando iniciado por Medeiro Vaz – o jagunço que busca pacificar o sertão – , é o sinal, na realidade política brasileira, de uma possível união, não perene, mas de conjectura, entre a esquerda e a direita moderadas. Tanto é uma posição de situação que Zé Bebelo é líder dos jagunços enquanto não possuíam um líder de fato. Após a emergência de Riobaldo como chefe, Zé Bebelo volta a Goiás e não mais aparece.
Talvez em nossa realidade institucional pré-64 não houve situações pertinentes para tal união. Após o golpe, sim, apesar da coalizão de forças não ter saído vitoriosa. O fato é que o exílio proposto por Guimarães Rosa não é sua exclusão das relações diretas com o poder estabelecido. Seu diálogo durante todo o romance com a figura do Doutor é exemplo disso. Realmente, não vemos em sua prosa a questão do exílio como tal, mas é concreta sua posição de independência frente aos símbolos considerados sagrados pela sociedade de então. A vitória do jagunço Riobaldo e de seu bando, a pacificação do sertão mineiro com o fim do banditismo, é uma espécie (talvez falando vulgarmente) de “destino manifesto” para as forças populares que chegaram a alguma espécie de poder ou de independência frente ao Estado, através de lutas internas e de acordos mútuos. É a sabedoria de Lord Cochraine em não reivindicar como um todo o que achava legítimo para si após suas conquistas e a sabedoria de João Goulart ao não fomentar a guerra civil e dividir o país, como parece ter havido essa movimentação nos bastidores da política norte-americana a partir do domínio (político e econômico, não militar) do estado de Minas Gerais.
A “máquina de guerra nômade”, o conceito criado pelo psicanalista Félix Guattari e pelo filósofo Gilles Deleuze, não é nada além do que as forças exteriores, as quais vivem paralelamente ao Estado e que em relação a sua órbita transitam em um movimento por este considerado excêntrico. Podem partir como uma Idéia Pura (conceito de Deleuze), ou seja, algo absolutamente desvinculado dos poderes oficiais; ou podem tanto ser cooptados por esses mesmos poderes, mas não com o fim de uma guerra total (o simples dualismo que os autores por vezes insistem em cair) e sim de promover, através dos mecanismos legais, o bem comum. Podem, de outra forma, estar mesmo dentro do centro de poder, porém sem o consenso geral (ausência que pode ter inúmeras causas), se tornando um movimento exterior ao próprio aparelho que administram (o caso de Jango). Não nos esquecendo da guerra sertaneja narrada por Guimarães Rosa, a qual se encaixa melhor na primeira opção, se bem que sem maiores conflitos (a não ser a ida eventual das tropas do governo nos sertões) com o Estado.
O romance de Guimarães Rosa é um “destino manifesto” de nossa independência no sentido em que propõe um contrato civil entre o povo e suas lideranças, quando nos mostra uma união altamente livre e democrática já no início de seu romance ao relatar que, caso houvesse necessidade de guerra, mesmo Riobaldo não sendo o senhor do sertão, teria amplas condições de se reunir a quantos sertanejos fossem necessários para não trazer novamente a desordem para o lugar onde vivem. É a diplomacia do embaixador da causa de Zé Bebelo em seu julgamento pelos jagunços inimigos: quieto, confiante, pacífico e fundamental no desfecho para um sentença justa. É a negociação que prevê imagens edênicas (Diadorim), mas abraça a realidade dada com toda sua beleza (seu casamento com Otacília), não se calcando pelo remorso odiento, fermentador de disputas e conflitos. Acima de tudo, é representação de um povo que através de sua história mais e mais vai tomando consciência de si e de sua integração na comunidade nacional como um todo e que por movimentos independentes dos poderes oficiais reúne-se pelo pacto mútuo para atingir os objetivos prementes que sua situação social lhes sugere.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. “Capitalisme et schizophrénie 2 – Mille plateaux. 1”. Ed. Paris: Éditions de Minuit., 1980.
FAUSTO, Boris. “História do Brasil”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.
GALKY, Nélio. “Mercenários ou libertários: as motivações para o engajamento do Almirante Cochrane e seu grupo nas lutas da independência no Brasil. 2006”. 138 f. Tese (Mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói. 2006.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil”. São Paulo: Brasiliense, 2004.
SAID, Edward W. “Cultura e imperialismo”. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Guimarães Rosa e a Nomadologia: Três tempos de uma história (PARTE 1 – A HISTÓRIA DO ROMANCE)

Créditos a Arlindo Daibert


PARTE 1 – A HISTÓRIA DO ROMANCE


O texto integral pode ser acessado em pdf na Academia.edu ou na Revista Ideias/Unicamp



Utilizando do conceito de “máquina de guerra nômade”, de Gilles Deleuze e Félix Guatarri, analiso de forma sintética, a partir dos movimentos autóctones narrados no “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, as forças exteriores, aquém ou além do Estado, inserido dentro dele ou não, que lutaram consciente ou inconscientemente pela soberania nacional, através de passagens no Império, na República pré-64 e no Brasil dos dias atuais. O romance de Guimarães Rosa é visto como síntese das forças políticas que atuavam no país antes do golpe militar de 1964, mostrando suas raízes no Império e que se desenvolveram até a nossa década, num de seus desdobramentos não-vistos, porque originado nos Sertões (Nonada).




A história do romance
É no Segundo Reinado que se inicia o fortalecimento das instituições nacionais e se estabelece uma ampla consolidação da soberania brasileira dentre todo o seu território. Do início da década de 40 até 1848 foi um período difícil para nosso Estado. Uma imensa fileira de insurrectos em Pernambuco, rebuliço na capital do Império frente ao avanço dos Conservadores, a restauração do Poder Moderador e do Conselho de Estado. Na realidade, a transição para Independência, a instituição da Regência, o fardo da escravidão, entre outros fatores, quase fragmentaram o país em pequenos pedaços. Do Rio Grande ao Maranhão, da Farroupilha à Balaiada, o Brasil agitava-se nas dores extremas do parto.
O governo, procurando assemelhar-se ao parlamentarismo inglês, mas extremamente dependente de uma força capaz de unir interesses tão diversos no país que mal iniciara sua caminhada de nação livre, o poder do imperador se fez valer como nunca antes, poucos anos depois da subida ao trono do ainda jovem monarca. Vale lembrar o decreto de 1847 que criou o cargo de presidente do Conselho de Ministros, equivalendo ao cargo de Primeiro Ministro, cujos membros se alteravam no poder ao desejo do imperador. Contudo, como destacou Boris Fausto:
Na verdade, tratava-se de um sistema flexível que permitia o rodízio dos dois principais partidos no governo, sem maiores traumas. Para quem estivesse na oposição, havia sempre a esperança de ser chamado a governar. Assim, o recurso às armas se tornou desnecessário (FAUSTO, 2009: pp. 180).
A atitude firme do imperador, apesar das enormes dificuldades enfrentadas pelo sistema político do país nascente, garantiu, ainda que sob mãos de ferro, uma relativa alternância de poder entre liberais e conservadores, se bem que ainda longe do modelo que inúmeras vezes os homens públicos brasileiros procuraram imitar das nações consideradas mais evoluídas. Com o Regresso, o qual garantiu a tomada de posse pelo jovem príncipe, o país entrou em ebulição novamente, reeditando o período conturbado da Regência. As revoluções liberais de 1842 agitaram os grandes proprietários da região sudeste, causando um clima de pânico nas esferas próximas ao poder. A Praieira, em 1848, marca o fim das revoltas mais conhecidas, assim como o ciclo revolucionário pernambucano iniciado com a expulsão dos holandeses.
Para prosseguir, quero fazer uma rápida incursão pelo pensamento dos descobridores da América, com o intuito de chegar a um paralelo entre o pensamento e atitudes políticas no Brasil oitocentista (adesistas ou não à monarquia) e o Romantismo no país. Farei uma breve leitura, na verdade um pequeno corte, em “Visão do Paraíso”, de Sérgio Buarque de Holanda.
No início, o que moveu os expedidores europeus à busca de ouro e pedras preciosas na América, fora a ambição natural de cada homem e – por que não? – a alimentando, foi principalmente os mitos e lendas. Estes, originários muitas vezes da Bíblia ou remontando a Antiguidade ou a narrativas orais ou escritas de diversas espécies e origens, eram modificados por cronistas da época ao sabor dos acontecimentos e dos desejos dos homens de então. No caso do Brasil, passaram mais de dois séculos até a confirmação da existência de riquezas em abundância no interior do país.
Mesmo com a descoberta anterior nas terras de Castela a fantasia foi o que moveu aqueles colonos. Tendo os portugueses criado ou não as lendas, foram por elas movidos, pois a confirmação de achados lá não necessariamente presumia os daqui (num mundo onde as distâncias eram tão grandes, a fantasia era quem as reduzia, como no caso das terras peruanas que ficariam às margens do sertão nordestino, segundo o imaginário popular). O ouro espanhol pode ter recrudescido as buscas, mas dificilmente se tornou seu motivo principal.
Caberia aqui perguntar se apenas a procura da Coroa por jóias e ouro, no intuito de enriquecer o reino, ou seja, por motivos meramente políticos e econômicos, seriam capazes de levar tantos e por tão longo tempo a esse objetivo. Se não couber também uma outra, a de que a própria casa real foi ou não embalada nos mesmos sonhos retirados do afã renascentista. Esquecendo os monarcas, fica do mesmo modo passível de comprovação se somente o “ouro do sertão” era a busca daquelas gerações (patrocinadas ou não pelo Reino), ou se as diversas maravilhas edênicas, como a da ilha repleta de amazonas, não foram algo que aqueles homens procuravam realmente encontrar.
A Natureza é, em suma, “o livro da Natureza”, escrito por Deus e, como a Bíblia, encerra sentidos ocultos, além do literal. Até a razão discursiva, feita para uso diário, deixa-se impregnar, não raro, da influência do pensamento mítico, e entre os espíritos mais “realistas” encontram-se as marcas dessa atitude, que traz no bojo um sentimento vivo da simpatia cósmica. (HOLANDA, 2004: pp. 66)
Apesar de Sérgio Buarque não se aprofundar no que diz respeito às crenças dos reinóis, no seu fundamento puramente religioso, não estaria por detrás das visões endêmicas da América o desejo de fundar definitivamente aquele Paraiso Terreal, o Reino de Cristo na Terra? Ao invés de conquistar Jerusalém, sua rota se deslocaria para o Ocidente, onde, navegando por um dos afluentes que provinham diretamente do Éden (Nilo, Ganges; depois São Francisco, Amazonas – como chegaram a pensar os conquistadores e aventureiros), conquistariam definitivamente a cidade santa, instaurando enfim, sob os escudos da coroa lusitana, o reino de glórias prometido por Jesus.
O mito da Cidade Santa teve seu aparecimento com o povo judeu. Buscavam, premidos pelas necessidades inerentes a escravidão, uma cidade de glórias aonde poderiam se tornar soberanos. Com o advento do Cristo, o reino celeste passa a “não ser deste mundo”. Mas a afirmativa segundo a qual nosso planeta nunca irá se transformar num Éden é interrompida pela revelação do “dia do juízo final”.
Na idealização da Colônia do Sacramento, a qual, se nos limitarmos à análise do imaginário social, podemos atribuí-la conotações escatológicas, como a edificação, na realidade, de um “mito das origens” ou a concretização do paraíso terrestre baseando-se na simbologia dos sacramentos eucarísticos. Não houve tal engenho por parte dos portugueses na ocupação do Maranhão ou da Amazônia, de Sergipe ou do Rio Grande do Norte. O Rio da Prata foi o aglutinador das “visões” dos colonizadores, concretizando o ideal numa cidade sagrada que haveria de ser construída em meio às belezas douradas da Eternidade. A “Serra da Prata” igualmente serviu como mito que conduziu Martim Afonso de Souza à colonização do litoral sul do Brasil, porque então dali partiram os conquistadores ao interior, em busca dos cimos dourados.
…..
O Romantismo foi exatamente a identificação do homem oitocentista com os locais de sua origem. Se antes o mito da cidade sagrada se encontrava fora dos limites da pátria natal, depois esta passou a prevalecer como perspectiva ideal. O que Pedro II encontrou como situação e oposição, todo o multifacetado jogo político a que ele teve de harmonizar, não era nada além das reivindicações da terra a surgirem por todos os lados. É o momento onde o Brasil passa a ter uma população de sedentários, em nítido contraste com a Colônia.
Assim como o Iluminismo precedeu o Romantismo, o Modernismo brasileiro foi o precursor do Regionalismo. O Modernismo foi, na literatura, o último movimento onde se expressaram diretamente as idéias do Iluminismo, nele encerrando sua imensa zona de influência e que teve o regionalismo de Jorge Amado e Guimarães Rosa como seu corolário. Os críticos e teóricos da literatura podem afirmar que GR não pertence exatamente ao movimento regionalista. Diversas vezes procuram colocá-lo como um gênio isolado, avesso às influências exteriores. É certo que sua prosa é única em sua época. Como também pode ser atribuído o mesmo adjetivo a qualquer outro grande escritor do período. Sua singularidade está antes no local de onde é produzida a sua escrita, os sertões mineiros – talvez mais obscuro por ser o contraste da grande Minas dos coronéis, dos políticos ilustres, do ouro e da religiosidade triunfante. Quanto a sua figura imponente de diplomata, poliglota e erudito, nada tradicionalista, “europeu”, os Gerais poderiam nos proporcionar desde a revolta ilustrada chamada Inconfidência e a distinção e inteligência tantas vezes auto-atribuídas por JK ou Tancredo Neves.
As manifestações autóctones do século XX (as que começam, no máximo, na virada deste século), o regionalismo expresso na cultura, primeiro na literatura e depois na música com o fluxo migratório para os centros urbanos, nada mais são do que o corolário do Romantismo do século passado, sua emanação alcançando os rincões do país e de caráter ainda mais popular, sem líderes ilustres ou amoedados a projetar suas aspirações nas lutas populares. O Modernismo foi urbano, paulista, centralizador – dos poetas “iluminados” como os Andrades. Com o regionalismo conhecemos os limites de nossa pátria.

…..

No que consistiu, finalmente, a luta armada nos sertões mineiros na primeira metade do século XX? Medeiro Vaz, chefe dos jagunços, se desfaz de todos os seus bens, inclusive os sentimentais, ao descaracterizar a sepultura de seus parentes, e reúne um grupo de homens para acabar com a desordem nos Gerais. No romance, o assalto à cidade de São Francisco em 1896 é o relato de que em Minas os grupos armados bastante fortes antes até das primeiras décadas do século XX e do tempo de reinado de Lampião no nordeste. Quando este possuía todo o poder que já lhe atribuíram Medeiro Vaz com suas tropas corria o sertão para moralizá-lo. É nesse sentido que o estado mineiro precedeu o nordeste em relação às milícias rurais. As razões para essa afirmativa pode estar na interiorização mais recente no norte. Com a busca do ouro no centro-oeste os pequenos povoados mais cedo se fortaleceram, preludiando a situação que era, por exemplo, a da Itália no tempo de Maquiavel. De outro modo, devido às plantações costeiras e a produção voltada para o mercado externo, somente mais tarde se interiorizou os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas, etc.
Foi preciso, no nordeste, a entrada da força repressiva oficial para conter o cangaço; em Minas, segundo o relato de Guimarães Rosa, foram os próprios jagunços os responsáveis pela extinção do banditismo. O reinado dos jagunços mineiros não teve todo o esplendor ou causaram todo o choque que as tropas de Lampião e Corisco lançaram no sertão. Mais afastados das zonas produtoras de riquezas do país, no caso a lavoura canavieira – longe também da produção aurífera, há muito extinta –, o declínio da jagunçagem ocorreu perto ou simultaneamente ao período dourado do cangaceirismo.
Os Sertões se dividem em dois grupos, o de Zé Bebelo, que é uma espécie de legalista do sertão, cujo sonho é acabar com a jagunçagem e ir para capital colher os louros de seu feito elegendo-se deputado. Depois voltaria para suas terras e promoveria o bem estar social apoiado pelas tropas do governo e através das finanças do Estado. É como se Zé Bebelo fosse uma espécie de Maquiavel do sertão, aonde somente um príncipe forte e respaldado em plenos poderes pudesse por fim à barbárie daquelas terras sem dono. O grupo encabeçado por Joca Ramiro e Medeiro Vaz, o qual depois da morte de ambos é liderado pelo protagonista, Riobaldo, está mais para John Locke e os contratualistas da época das Luzes. Riobaldo estabelece um governo de consenso entre os sertanejos, respeitando-se as liberdades individuais de cada um em tempos de paz. Se necessária a guerra, arregimentaria tropas, também por consenso geral, pela necessidade de se manter o estado a que todos passaram a gozar depois de sua vitória.

É significativo em relação a essa filosofia as primeiras páginas do romance, onde despontam tiros, mas não de homens. Logo depois, Riobaldo enumera seus companheiros que vivem em terras próximas, alguns que moram em terras distantes, e conta como todos estariam prontos para pegarem em armas – muitos desses são seus antigos companheiros jagunços – caso a desordem tente voltar a reinar no sertão. Também se percebe como todos vivem em relativa paz, livres do banditismo dos últimos anos, e como os mesmo têm, no máximo, uma relação “protocolar” ou “diplomática” com os homens da capital, como é o caso do Doutor, cuja conversa com o ex-jagunço percorre todo o romance. Finalmente, o governo é feito entre o consenso das gentes, dos sertanejos, a despeito de qualquer medida centralizadora implementada pelo Estado.

CONTINUA NA PARTE 2 – O ROMANCE NA HISTÓRIA (COM A BIBLIOGRAFIA COMPLETA)

O Abertinho ensina: como não ganhar um prêmio literário

Friedrich von Hayek – os nazis também ganham prêmio (Nobel)

Resolvi concorrer ao luxuoso prêmio – há muito não reeditado – Contos do Rio. Levei um susto quando li as exigências. Se fosse um concurso de poemas seria mais original. É tudo muito curto. A gente pensa no Baudelaire dos spleens. Mas porque são poemas antes que histórias curtas propriamente ditas que sua narrativa sumária em palavras fez sucesso. Tendo em vista a extravagante imaginação dos vencedores do prêmio, logo pensei: não se trata de poemas, de spleens, de melancolia ou determinadas “visões noturnas” baudelairianas. São tentativas de historietas – essa a palavra. Segue nosso conto, que, para quem quer gastar seus milhões, pode encontrá-lo ainda por valor de contrabando no site da Amazon. Aprenda aqui n’O Abertinho como não ganhar um prêmio literário, ainda mais se for dos assim chamados “contos curtos”.


Dois noturnos cariocas
Um salão, um vasto espaço em que ao redor se estendiam móveis de cor rubra, cobre. Objetos firmes, cor de sangue e como que dourados. Espaço iluminado por uma luz crepuscular. De um lado a firmeza que parecia se revestir todo o ambiente, de outro esta atmosfera de um brilho difuso, quase encantado. Estaria o fundo em vermelho a se sobrepor a qualquer das coisas que nos rodeavam – móveis de madeira maciça, cadeira de material semelhante e assentos de tecido vermelho, talvez detalhes dourados ou o inverso –, e nada disto existia, apenas um espaço como que em branco. Apenas os dois, espaços noturnos por onde passavam trilhos velhos e distendidos a ranger palavras sobre memórias, choques de natureza quântica em meio ao casebre de teto abaulado, cujo exterior sempre fora de segredo para todos e para qualquer um.
– Quando as chances se acabam?
Natureza terrível pelo simples fato de se submeter ao claustro de perguntas que não a contém, telhados da memória sobre o qual não se vê mais nenhuma casa. No entanto, ela está ali. Se é única, se suas paredes e móveis são tão firmes, se a luz é perene ou se apaga como em cerrações noturnas – nada pode ser respondido. Dois seres noturnos transitando num espaço ignoto, cerrações noturnas a empalidecer a luz da lua enquanto eu peço mais uma cerveja. Quantas chances? Todas aquelas que não se desfazem logo após se firmarem como sorriso. Espaço enluarado, tensão de chuva que não chega, natureza que não se move. Pequenos guarda-sóis como pirulitos da garota que não conheceu o azul. Tetos abaulados, luz difusa, amarelo dourado, rubro, quase como púrpura, como se entre o lilás  e o avermelhado houvesse mais espaço do que entre a avenida larga e as esquinas onde não se encontra ninguém.
Estaria num bar, num bom restaurante, numa rua e um vento fresco, sorriso acompanhado, andanças barrocas pelo Rio sem fim. É quando o cobre vale mais do que o ouro, o rio é mais extenso que o mar, o mármore menos resistente do que o adobe. Entender em termos de “se”, de “chances”, equilíbrio tão insólito é ignorar toda e qualquer natureza noturna. As palavras somente se encaixam rangendo nos trilhos que levam às mais remotas memórias, num choque inexplicável em termos de eletricidade, bruta demais por maltratar a matéria e por vezes ser escandalosamente vista pelos olhos. Trilhos noturnos que atravessam a casa como se esta fosse um espaço aberto, uma bucólica, interiorana, pitoresca estação ferroviária… Mas a verdadeira caça é a que se faz no trem que leva a Éden, no ramal onde podemos nos estender até Japeri: trajeto de sombras no interior dos vagões, clarões acobreados matizando a paisagem, crepúsculo adorado duplamente por ser céu que se dobra sobre si mesmo. O subúrbio afinal nos leva somente ao Éden.
Quero dizer que as casas, casebres, prédios feios, sujos e velhos (nunca altos), ruas tortas (daqui não dá para ver as condições do asfalto, os remelexos e rebuliços de quem viaja pelo interior da terra ignorada), lojas pobres, comércio antigo, talvez fábricas e usinas (nada moderno), nos faz lembrar Éden a exata acepção da palavra, deste tom de cobre que agora se reveste a paisagem translúcida, a casa abaulada que talvez exista somente em sonhos. Cruz e Souza e Lima Barreto, andanças barrocas pelo Rio sem fim, como caçador em meio às serras das minas gerais del Reyno, cabana ocre, jangada indígena, linhas em grafite, menos escritura do que tela. O céu se dobra sobre o céu, retângulo gris, janela aberta, o trem que range. Estamos de fato no Éden, ainda… A locomotiva vai até Japeri. Antes, porém, salto na estação ainda em busca de um jardim… A parede acobreada novamente nos sufoca. Olho para a lua que surge entre as nuvens como se estas traçassem no flanco aberto que desenham a imagem de um rio. Assim, a lua reflete a si mesma num céu visto como que sobre transparências, a claridade difusa se espalha. É como se, na casa, no casebre, nos iluminasse a luz das velas, o dourado, o avermelhado, não a claridade elétrica. A lua reflete-se no rio estelar por onde boia, na casa que se dobra sobre a paisagem ignorada. Na linha que segue do Leme ao Posto Seis, num ponto, numa dobra, naquele lugar que poderia ter sido construído em adobe, os trilhos rangendo por sobre a memória, tomamos mais um chopp.
As mãos dispostas sobre a mesa, quatro mãos que dialogam. A mesa sólida, madeira maciça, tampo de mármore, cor acinzentada. É como se jogassem. Uma espécie de baralho, um tipo de jogo de adivinhações. O olhar se desvia do rosto um do outro, da paisagem que se move lá fora. Concentram-se nos jogos que fazem as mãos, como se as palavras inúmeras procurassem contar sobre os limitados, porém intermináveis gestos. Por sobre o olhar concentrado, se sobrepõe, se agiganta, a paisagem ao redor. Tudo ocre, cobre, adobe. O próprio chopp parece atingido de súbito rubor. É porque procuram e, de fato, querem. Sabem que a poesia na Morada tem sua paisagem. Passagens.

Enrolar bagres, às sextas? Um estudo sobre os bestiários medievais


Para entender atualmente o discurso da mídia, tão mais óbvio e ao mesmo tempo tão mais surpreendente, tive que recorrer ao estudo dos bestiários medievais, de suas imagens grotescas, escatológicas, que multiplicavam em imagens o já esotérico Apocalipse. Somente com suas visões de fim de mundo, de caos e desordem, conseguem manter a hipnose e a histeria coletiva.




Enrolar bagres, às sextas?

Pegaram todos os números do Apocalipse
E decifraram todas as contas
E os bagres cantam na pluvial alta roda
Que são os moinhos de vento dos incendiários
Que são as lápides escritas como mostruários
São as azenhas dos campos, sem pastagem
O mar dos corsários, a procura de imagens
Decifraram todas as contas
E são nossos profetas do caos
Em seu bestiário não há seres mitológicos,
Mas monstruosos.
Escrevem o livro que carrega
A marca da besta
E o lemos todos os dias
Nem se for para saber o horário
                           Do cinema.
Ou para sairmos a noite,

                           Às sextas.

Fluência

Essa também poderia ser a foto de abertura d’O Abertinho

(sem título)
Com esse cheiro de flor,
De rosa, de rosa aberta, desfolhada;
Que cava fundo enquanto calo,
Que tropeça enquanto berro,
Que arqueja quando falo –
Venha, corpo inquieto.
A tudo, tudo vejo;
Desde o sol, miríades em flor
Aninhadas em teu leito,
Até os pássaros-cantos,
Lindos, tristes, rubros, sacros e
                                   Molhados,
Que na face ficam com teus beijos.
Não o teu rosto ou quisera
O meu ou qualquer rosto
De preferência como cobertor
À pele eriçada a que chamas de
                                 Leito,
Mas teu fragor que deixo
Escapar como de sulcos abertos
Que com meu peito faz verter
Em chamas douradas – só então
Pude ver olhos tão piedosos –

Com que me deleito.

O historiador viajante e o éthos moderno: o caso Manoel Salgado (estudos sobre o cinismo II)

Depois dessa conversa, a gente se encontra em Dublin. Que tal?

Texto em pdf disponível em Academia.edu

Paulo Knauss e Temístocles Cezar relacionam a obra histórica de Manoel Salgado a condição intelectual característica do século XIX, a saber, a de um historiador em movimento. Rapidamente descrevem seu itinerário:
Sempre partindo do Rio de Janeiro, sua cidade natal, para a qual sempre retornava e da qual não se cansava de apreciar a beleza. Da capital carioca a Lisboa, em plena Revolução dos Cravos, em abril de 1974, passando por Madri, a Casablanca. Do Rio de Janeiro a Berlim, passando por Manaus, Brasília, Porto Alegre; do Rio de Janeiro a Paris, passando pelo sertão nordestino, pelo centro-oeste, a Atenas e Roma; do Rio de Janeiro aos Estados Unidos, passando por Cartagena, Quito, Buenos Aires, Montevidéu, a São Paulo e Fortaleza. Tantos países, tantas cidades, tantas paisagens, tantas ruínas, tantas bibliotecas, arquivos, museus… Finalmente, em 2009, Jerusalém. Sua última viagem acadêmica[1].
Atribuem ao professor estar na ponta da renovação dos estudos acerca de sua própria disciplina, a história da historiografia, momento de virada, pois até então a historiografia brasileira estivera tão empenhada em estudar os temas da história do Brasil que a reflexão sobre sua prática não recebera a devida atenção. A orientação de Manoel Salgado contribuiu, “nos últimos anos, o acréscimo significativo de dissertações, teses e artigos relacionados à história da historiografia brasileira[2]”, junto a  outros estudos que passaram a ganhar volume na década de 1980.
Depois de sua tese de doutorado escrita na Alemanha, com o enfoque na escrita da história no século XIX, seus interesses se diversificam.
Viajante contumaz e leitor erudito, sua biblioteca, ao longo dos anos, cresce vertiginosamente (é preciso explicar às novas gerações que o acesso ao mundo virtual dos livros para compra ou consulta, foi uma descoberta tardia para boa parte de sua geração…). História, filosofia, psicanálise, arte, literatura, ensino, patrimônio etc. compõem um rico e amplo acervo que demonstra sua curiosidade científica e um resquício, que ele não fazia muita questão de dissimular, de um antiquário moderno.
O resultado foi uma produção intelectual regular, porém dispersa, e, sobretudo, rigorosa. Nesse sentido, Manoel Luiz Salgado Guimarães pode ter escrito menos do que se esperava dele, e mais, talvez, do que tenha desejado. Ele gostava mais de ler, ensinar e orientar do que de escrever. Não que haja alguma incompatibilidade entre essas competências. Contudo, para ele, escrever requeria ler cada vez mais, fosse na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no IHGB, na Biblioteca da Universidade de Berlim, na Biblioteca Nacional de Portugal, na Biblioteca Nacional da França, na Biblioteca do Arsenal em Paris (onde explorou o acervo do Institut Historique), em tantas outras, em qualquer lugar onde houvesse “luz”, ou simplesmente em seu apartamento em Santa Teresa. Se para Foucault escrever era resistir, para Manoel Luiz Salgado Guimarães escrever era parar de ler. Os leitores, mesmo os menos compulsivos, reconhecerão a dificuldade do gesto. Logo, a escrita não poderia ser outra coisa senão perseverança, rigor e erudição[3].
O escrito dos companheiros do professor alude a uma dupla dificuldade. Primeiro, dificuldade de acesso aos livros antes da difusão da internet. Como consequência, faz parte do viajar, do ser historiador-viajante, a busca pelas obras mais diversas em países dos mais diferentes para se formar, com um charme discreto, num moderno antiquário, num verdadeiro erudito e caçador de relíquias. Segunda dificuldade, a escrita como interrupção da leitura. Entre viagens e livros, aulas e orientações, escrever era como interromper esses percursos. Escrever, talvez, fosse como anular a auto-imaginação, a constituição de si mesmo como esse historiador moderno, viajante, conhecedor não de livros, doutrinas, mas do mundo em sua pluralidade. “Memória, esquecimento e escrita da história, a crítica ao poder do discurso e aos usos do passado, enfim, a ética do historiador[4]”, tais são os temas praticados pelo professor já no fim de sua vida, o que o levou a ser chamado de “mestre do rigor”, mesmo sem ter construído um corpo doutrinário através de sua produção acadêmica[5].
Ele fez da arte de ensinar o centro de sua vida e de sua profissão, se não deixou uma obra escrita volumosa em formato de artigos e livros, deixou uma obra monumental em formato de horas e horas de aulas rigorosamente preparadas e brilhantemente executadas, nas conversas e palestras sempre educativas e formadoras, nas meticulosas e eruditas arguições que realizou em inúmeras bancas de avaliação de trabalhos de pós-graduação, e nas horas e horas dedicadas a orientação. Se considerarmos como sendo parte de sua obra, contra o que com certeza protestaria, todos os trabalhos que orientou, poderemos dimensionar corretamente o efeito Manoel Salgado para a historiografia brasileira. (…) O Manoel foi um mestre não apenas naquilo que escrevia ou dizia, mas em como vivia, em como praticava sua profissão, em como se comportava em tudo aquilo que fazia, ele foi um mestre do viver. Ele em si mesmo servia de ensinamento. Todos aprendemos com ele, não apenas lendo os seus textos, ouvindo suas conferências, assistindo suas aulas, mas convivendo com ele. Com ele aprendi, por exemplo, o que é ser amigo, o que é ser companheiro, o que significa a amizade, o que significa gostar do outro apesar e por causa das diferenças. Como todo mestre, o Manoel serviu de guia para muitos, talvez por isso ainda hoje estejamos meio perdidos desde que ele partiu. Mas mestres não morrem, porque seus exemplos quedam imorredouros na memória daqueles que tiveram a sorte de serem seus aprendizes[6].
Um mestre do viver que fez discípulos, construiu amizades sólidas não só na capital, na espécie de centro intelectual brasileiro que nunca deixou de ser o Rio de Janeiro, mas Brasil afora, como no relato do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ou de Temístocles Cezar, da federal do Rio Grande do Sul. A partir desta prática do viver se diferencia do intelectual objeto de seu estudo durante o doutorado, Francisco Adolfo de Varnhagem, que soube amealhar a simpatia de poderosos para a publicação de sua Obra, para difusão de seu Intelecto (iluminista na mesma medida que civilizador, à moda de Renan, a moda imperialista e racista como a praticada na Grã-Bretanha da época). Manoel, contudo, pode ser relacionado ao paradigma construído por seu professor a partir da obra de Heródoto[7], a do etnógrafo, a do cidadão consciente dos limites e das fronteiras do mundo moderno. Analisar sua vida como historiador e sua produção historiográfica e reescrever o inventário das diferenças, o que Paul Veyne chamou também de poesia do distanciamento.
Há uma poesia do distanciamento. Nada mais longe de nós que essa antiga civilização; é exótica, digo, está extinta, e os objetos trazidos por nossas escavações são tão surpreendentes quanto os aerólitos. O pouco que nos passou da herança de Roma existe em nós em quão diluídas doses, e ao preço de que reinterpretações! Entre os romanos e nós, um abismo foi cavado pelo cristianismo, pelaFilosofia alemã, pelas revoluções tecnológica, científica e econômica, por tudo o que compõe nossa civilização. E é por isso que a História romana é interessante: faz-nos sair de nós mesmos e obriga-nos a explicitar as diferenças que nos separam dela. Uma civilização menos distante não teria essa virtude; teríamos com ela uma linguagem comum, de modo que a maior parte do que o historiador viesse a dizer poderia passar por óbvia; seria então possível à historiografia demorar-se mais tempo na penumbra em que flutua o que é apenas vagamente concebido[8].
A distância que nos separa do Império, a distância entre a formação das democracias modernas, das repúblicas, com as velhas formas de oligarquia tão amplamente difundidas no continente europeu e transplantada para o Brasil, com a revolução dos Bragança, que levou a nossa Independência. Distância dos primeiros rudimentos da experimentação historiográfica com a criação do IHGB, criação de um instituto histórico que, nas palavras de sua historiadora, fez tecer um capítulo com o título inusitado à primeira vista para os propósitos de tal instituição, quero dizer, com o nome de “Portas fechadas para a história[9]”. Era o tempo do “tribunal da posteridade”, título de ofício daqueles iluministas que se privam de contar a história da monarquia que adoravam para não correr o risco de colocá-la em maus lençóis, barreira contornada décadas, talvez um século depois. Talvez seja melhor ficarmos no “século depois”. Nem a talentosa geração da década de 1930 soube superar o tribunal, o que um pesquisador chamou de “nostalgia imperial”:
Finalmente, cabe ressaltar que a revisão mais crítica de nossa história, cujo marco essencial é a Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior, de 1942, detinha a atenção de sua análise na época colonial, relegando o Império quase que a uma continuação daquele período. Excetuando-se o clássico de Raimundo Faoro, Os donos do poder, podemos dizer que apenas mais recentemente, praticamente a partir dos anos 60, o século XIX brasileiro passou a ser revisitado pela nossa moderna historiografia. As instituições políticas imperiais e a grande produção cafeeira escravista passaram a ser objeto de análise, muitas vezes no sentido de se melhor compreender a própria formação do Estado brasileiro contemporâneo e a transição para uma economia capitalista. As décadas de 70 e 80 assistiram a uma significativa produção historiográfica em torno do tema do século XIX, particularmente no que diz respeito à análise da escravidão[10].
O pesquisador se esquece de inventariar uma produção que, se bem que atípica e que de alguma forma ficou isolada dos chamados “grandes marcos”, que é o tomo inteiro escrito por Sérgio Buarque de Holanda na obra que dirigia, a HGCB, sobre o segundo reinado. Maria Silva Odila Dias, orientada por Buarque, igualmente lançou luzes sobre o período. Mas nisso tudo, ainda estamos em plena década de 1970. Salles é preciso quando toca no tema da análise da escravidão, grande foco por meio do qual surgiram novas e originais análises, no que destacamos aqui, entre muitas, os trabalhos singulares de João José Reis e Flávio Gomes. Manolo Florentino, João Fragoso, mas também Francisco Doratioto e próprio Ricardo Salles sobre o tema da Guerra do Paraguai. Tudo isso são produção recentes, entre tantas, de alta qualidade, e que fez parte da renovação historiográfica brasileira no último quarto do século XX.
Portanto, como nosso historiador, para marcar sua distância, seu inventário de diferenças, se posiciona em sua arte de viver, de escrever, em relação ao cânone por ele estudado, o não pouco “iluminista” e realista Varnhagen? Obra fundamental para se entender a formação deste mestre da velha escola, O tempo saquarema (outro foco de novos estudos, da abertura de novas sendas para a pesquisa dos historiadores), através do escrito de um especialista em literatura, mas que pesquisou com todos os detalhes a vida – “sobre as ruínas do Capitólio” – de Um moralista nos trópicos, o partidário do partido da ordem, um saquarema. Qual distância o separa Cairu de um Varnhagen?
Sobressai, no discurso de Cairu, a busca de uma Ordem anti-revolucionária, ameaçada, no Brasil como na Europa, pelos ideais racionalistas herdados do século XVIII e proclamados pelas correntes maçônicas, dos dois lados do oceano. Compreendam-se os “filhos da luz” como estes “infiéis” que enfrentavam o poder temporal da religião, apoiado, este, na Revelação contida na figura do Cristo; Revelação cuja justa heurística proviria apenas da ortodoxia católica, mediante a obediência ao governo espiritual da Santa Sé.
O tema não nos desvia da Constituição moral, e deveres do cidadão. Pelo contrário, a recepção e a utilização das doutrinas dos moralistas do século XVIII, em especial escoceses, regem-se, na obra de Cairu, pela criteriosa seleção de seu conteúdo, restando a crítica que ressalva o deísmo de autores como David Hume ou o próprio Adam Smith, sempre aquém da Revelação. À primeira vista pertencente apenas ao plano teológico, a questão de fato adquire força e se desenrola no plano político, pois nos vemos diante dos primórdios de uma batalha secular da Igreja contra o racionalismo burguês, maçônico e logo mais positivista, anunciando não apenas a oposição do ultramontanismo europeu, mas, também, a posição católica brasileira cada vez mais atritada com o poder monárquico, e cuja máxima expressão seria, já na segunda metade do século XIX, D. Vital.
Esboçam-se, numa prática como a Constituição moral, as linhas de força da reação católica ao mundo manchado pela Revolução, o que podia representar um extraordinário alento para os partidários da Ordem, por conter as lições de um pensamento conservador capaz de aglutinar tendências várias, sempre que a ordem iminente – compreendida como a ameaça da turba – se coloque à vista da pátria congregada, pondo em perigo posições estabelecidas e hierarquias mais ou menos rígidas. Enfim, sempre que a arquitetura da sociedade seja contrastada, ameaçando arruinar-se o edifício civilizacional[11].
Pode-se apontar numa primeira leitura que Varnhagen não se inclinava tanto para uma atitude piedosa, católica, como por exemplo a respeito dos índios. Sem contar alguns fatos de sua carreira de estudioso que podem ser contadas quase como uma piada (como a respeito dos tupis: “Com base em estudos filológicos comparados, Varnhagen chegava à conclusão de que este grupo indígena teria vindo da região do Mar Mediterrâneo. Dessa forma, ele acreditava haver comprovado que a maioria da população brasileira era de origem europeia[12]”). Sua tomada de posição frente a Gonçalves de Magalhães com sua Confederação dos Tamoios, era para ressaltar o papel da força dos colonizadores diante dos selvagens em termos de violência e conquista diante da “Confederação bestial”. Varnhagen, a diferir do Visconde de Cairu, não se fazia de rogado ao defender a espada e se esquivar de qualquer menção à cruz. Contudo, ao invocar Joseph de Maistre para legitimar a violência na colonização, Varnhagen se aproxima do ultramontanismo, do católico fiel servidor do rei como Cairu, e se filia ao “elogio do executor”, como escreveu de Maistre para exaltar a figura tão torpemente vista dos homens que manejavam a guilhotina durante o Terror[13]. Católico e jacobino: o ultramontanismo faz escola ainda que para inventariá-lo teremos que traçar os inúmeros aspectos que compõem suas diferenças nos dois lados do oceano, ainda mais se se tratar de um iluminismo português, porém tão religioso como foi de determinados homens ilustrados de além Pirineus. Para se captar os diferencias de tais iluministas, podemos cotejar o texto extraído acima de Pedro Meira Monteiro com este de Manoel Salgado:
Ao descrever os acontecimentos, Varnhagen reduzia o movimento à “incrível ousadia e leviandade” do aspirante Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), que, como único dos inconfidentes condenado à morte, desde a inauguração da República era homenageado como heróis nacional apelidado de “Tiradentes” (epítetos que lhe foi conferido porque era conhecido como alguém que sabia extrair dentes). Com isso, Varnhagen tratava de menosprezar a importância desse movimento. Assim, Varnhagen considerava uma sorte a descoberta a tempo da conjuração, pois, a seu ver, a instituição da República, “em meio ao Império majestático de Santa Cruz, seria um mal”. E prosseguia: “Curvemos a cabeça ao decreto da Providência, que… veio conduzir-nos à única situação em que podemos, sem novos ensaios, procurar ser felizes, e fazer-nos respeitar como nação[14].
Racismo de um lado, intolerância de outro. Bárbaros eram os negros, selvagens os indígenas – somente a força, a subjugação poderia libertá-los. Afinal, nossa pátria não poderia se reduzir a uma “catinguenta Guiné”. Este medo era o mesmo que levou a ultramontanos ou iluministas do tipo, como Cairu, a defenderem o fim do tráfico de escravos, leis que modificassem as práticas da escravidão em pleno século onde mais se exportou africanos para cá, muito além do que em todo o período de colonização[15].
Manoel Salgado, um mestre da vida, um mestre do rigor. Antes um professor, um orientador, do que um erudito, alguém em busca de uma Obra (como Varnhagen ou o filósofo do Dasein). Um antiquário moderno, um novo historiador viajante, Ulisses da historiografia brasileira. Ante a Grécia, os clássicos, a civilização, a constituição de uma vida outra e não a preocupação com a outra vida (a obra), ou seja, o cinismo, a estilística da existência como nas mais lídimas expressões do modernismo. Manoel diante de Varnhagen: caminho específico que poderia se desdobrar em outros desenvolvimentos como o etnógrafo (lembrar seu professor, François Hartog) diante de Renan, Michel Foucault e a antropologia história frente a fenomenologia ou o existencialismo. Em sua estilística da vida, em suas viagens pelo mundo, não podemos mapear uma carta, um comunicado, uma conferência, uma réplica ou uma súplica a alguém como esta:
Concluo suplicando a V.M.I. que não me mande para nenhuma república, nem me mande a outra parte sem melhorar-me de categoria, pois qualquer das coisas equivaleria para mim verdadeira facada, que não creio ter merecido de ninguém e muito menos de V.M.I.[16]
Ele não queria uma república sul-americana, mas a Europa, a Civilização. Falaríamos o mesmo de Manoel? Como se constituiu, portanto, este modernismo, frente a modernidade oitocentista, frente ao início da preocupação com o bíos, com o nascimento da moderna historiografia, assim como da anatomia comparada, da anatomia patologia e da biologia? Como se pode retomar, através de um “inventário das diferenças”, de um “poema da distância”, esses temas clássicos que nada mais são do que a busca de todos os gregos pelo éthos, pela alétheia, pela parresía? Como se conforma, por fim, essa nova preocupação com a vida, com a ciência, na história de Manoel Salgado e em sua historiografia?



[1] CEZAR, Temístocles; KNAUSS, Paulo. O historiador e o viajante: itinerário do Rio de Janeiro a Jerusalém. Em: GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado. Historiografia e nação no Brasil: 1838-1857. Rio de Janeiro: Eduerj, 2011, p. 9.
[2] Idem, p. 16.
[3] Idem, p. 18.
[4] Idem, p. 20.
[5] JUNIOR, Durval Muniz de Albuquerque. Um mestre de rigor: Manoel Luiz Salgado Guimarães e a delimitação do campo de estudos da historiografia no Brasil. Revista História da historiografia. Ouro Preto, dezembro de 2013, nº 13.
[6] Idem, p. 148.
[7] HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.
[8] VEYNE, Paul. O inventário das diferenças. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 10-11.
[9] GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal. Debaixo da imediata proteção imperial: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1938-1889). São Paulo: Annablume, 2011.
[10] SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996, p. 28.
[11] MONTEIRO, Pedro Meira. Um moralista nos trópicos: o Visconde de Cairu e o Duque de La Rochefoucauld. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 196-7
[12] GUIMARÃES, 2011, p. 196.
[13] Ver as Soirées de Joseph de Maistre, publicado no apêndice do excelente ensaio de Isaiah Berlin, Joseph de Maitre and the Origins of Fascism. Em: BERLIN, Isaiah, The crooked timber of humanity: chapters in the history of ideas. Nova Jersey: Princeton University Press, 2013.
[14] Op. Cit., p. 218.
[15] Ver principalmente ALENCASTRO, 2000 e FRAGOSO; FLORENTINO, 2001.
[16] Carta de Varnhagen ao Imperador, de 9 de março de 1870, p. 340. Em: GUIMARÃES, 2011, p.195.

Um doutrinador não nega o carnaval: as desventuras iluministas no enredo do samba (estudos sobre o cinismo III)

Roupas freudianas – fotografia refoulenta (Mário de Andrade)

O texto em pdf pode ser acessado em Academia.edu
Atualizado em 23/07/2016
No programa estético esboçado pela Semana de 22 é flagrante o contraste entre sua visão de modernidade e a realidade brasileira e, por outro lado, as próprias conquistas artísticas, políticas, dos integrantes do movimento em contraposição a uma certa idealização de suas aspirações como doutrinários de uma nova ordem. Não foi pouco. Segundo Eduardo Jardim, o Manifesto da poesia pau-brasil “resume poeticamente toda uma doutrina[1]”, que, como expõe, não foi por causa da pobreza de suas concepções que encontrou os empecilhos para sua afirmação. “Elementos contrastantes compõem o retrato do Brasil do ‘Manifesto pau-brasil’: ‘Temos uma base dupla e presente – a floresta e a escola’. Ainda: ‘Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar’. A perspectiva ‘Pau-brasil’ apostava na possibilidade de combinar todos esses diversos componentes da vida brasileira[2]”.

No Clã do jabuti, livro de poemas que rivaliza com o manifesto em suas concepções estéticas e que acabou por deixar na sombra, frente ao Manifesto, essa obra mais amadurecida conceitualmente de Mario de Andrade, podemos ver no Noturno de Belo Horizonte: “que luta pavorosa entre florestas e casas… / todas as idades humanas / macaqueadas por arquiteturas históricas”, o mato invade a cidade, os homens fogem desta em “comboios de trânsfugas pra Rio de Janeiro”, no que surge o desenho: “clareiras do Brasil, praças agrestes!… / Paz”. E já no seu início, o impulso vital que unira e animara poetas, pintores e músicos de ânimos diversificados, era confrontado com disputas das mais diversas e, talvez quando o movimento parecia se firmar como algo para além de um ou uns “manifestos”, surge a Revolução de 30, o Estado Novo, e em mais uma fileira se reivindica se não as bênçãos da modernidade, pelo menos a glória da alcunha de modernistas. O Clã do jabuti reivindicava uma reflexão madura sobre a nova estética, sem descuidar das prerrogativas intelectuais exigidas por tal empreitada; o Manifesto da poesia pau-brasil, ante-sala do Manifesto antropófago, se apresentava como anti-doutrinário, anti-intelectualista. Pouco importa, todos desejavam uma determinada pureza em suas formas de expressão, em suas concepções de arte nacional e, não obstante, chocavam-se entre si como a revolução que devorou seus próprios filhos, ou seja, não muito diferente dos arbítrios da época do Estado Novo. E talvez estivessem certos dois intelectuais importantes, porém não tão centrais nas análises do Modernismo brasileiro. Paulo Prado e Manoel Bandeira talvez tenham visto melhor, nessa época, a tristeza e a melancolia do Brasil…
Outro intelectual que surge no período, filho da revolução e um dos sobreviventes, Sérgio Buarque de Holanda, em algumas poucas palavras transcreveu a sensação daqueles que de mais longe viam os ânimos exaltados e as aspirações utópicas da legião de doutrinários, pois “nós não fomos postos neste mundo para descobrir as verdades e sim para achar as conveniências[3]”. É sua, mais do que de Thomas Hardy, a percepção ética a respeito dos dilemas posto por idealizações das mais diversas que beiraram o ufanismo. Ele mesmo no início do movimento se pensava como uma peça da nova construção (palavra comumente empregada pelos modernistas, pelos construtores da nova ordem), “ele próprio procura se iludir e às vezes finge acreditar no prestígio eterno das categorias humanas e, até certo ponto, imagina-se um personagem necessário, um elemento de construção. Mas no fundo, é bem um espírito de negação, um adversário constante das ordenações que os homens se impuseram[4]”.
Como (ao contrário de Sérgio Buarque, de Thomas Hardy) a aspiração por pureza dos modernistas, essa moral expressa numa prática de ser artista, de ser moderno, que envolve menos uma questão de reflexões de ordem geral, metafísicas, ou de prescrição moral do que uma questão de “prática”, de vida cotidiana, pode ser compreendida sob a ótica da “analítica dos prazeres” feita por Michel Focault? A partir do campo, da “substância ética” onde são formados os aphrodisia, “isto é, atos determinados pela natureza, associados a ela a um prazer intenso, e aos quais ela conduz através de uma força sempre suscetível de excesso e revolta[5]”, como podem ter se constituído os modernistas em moralistas, em doutrinários do desejo, em hipotéticos construtores de uma nova era? Como isso pode ser relacionado à pintura extremamente caótica, que nos sugere enganos, erros dos mais variados, como na reconstrução da sociedade e da cultura paulista da década de 1920, como expressa no livro de Nicolau Sevcenko, Orfeu extático na metrólpole?
No confronto destas duas camadas de reflexões, sobre a aleturgia e sobre a crítica ao desejo dos doutrinários de 1920, é que se colocam nossos questionamentos. As formas aletúrgicas (as provas da alma, a coragem do dizer-a-verdade) nos modernistas brasileiros, a espécie de provação de sua própria verdade pela qual passam “nos frementes anos 20”, pode ser colocada de modo mais claro caso sobrepormos duas descrições de época, uma a vivida por Sérgio Buarque de Holanda como jovem crítico do movimento artístico ascendente, e outra a reconstituição quase como uma nova crônica de época, o trabalho por vezes de aparência mais estética do que científica feito por Nicolau Sevcenko.
Dos laboratórios para as indústrias, para o mercado, para as casas, o ciclo do prodígio se acelerava num feitio como que de moto-contínuo inesgotável. Do ponto de vista local, São Paulo, grande núcleo consumidor a partir de uma renda de cunho basicamente agrícola, a perspectiva era mais estática, só se tinha acesso à última etapa do ciclo produtivo tecnológico. A magia parecia maior. Daí o prestígio peculiar de certas simbolizações de realidades descontextualizadas e que, por isso mesmo, adquiriam uma áurea de deslumbramento, sendo portanto apropriadas como índices de discriminação social. Vimos já como o automóvel era aqui tudo, menos utilitário. Algo semelhante ocorre com os fiambres enlatados do Frigorífico Armour, o “o mais moderno da América do Sul”, quando ele aqui se instalou em 1921, iniciando um espantoso sistema de abate em série e processamento mecânico das carnes em escala colossal. E o que pensar da “Casa Edison”, que evocava o “gênio” por trás das novas tecnologias e se apresentava simplesmente como “moderno magazin”? Ou o que se passaria no misterioso “Gabinete de raios X do dr. Raphael de Barros”, sobre quem só éramos informados que “acaba de chegar da Europa”? Ao que parecia, havia virtudes no moderno, mas elas não eram para todos. Nem tanto assim. O “sapólio Radium”, por exemplo: a pequena barra do saponáceo irradiava uma auréola de brilho espontâneo ao seu redor, idêntica àquela do mineral radiativo descoberto pelos cientistas Marie e Pierre Curie apresentados no quadrinho ao lado, idêntica também à substância da equipagem terapêutica usada por médicos no quadrinho seguinte e idêntica, por fim, ao brilho radiante das loucas e panelas no último quadrinho[6].
Este o quadro, esta a crítica:
Parece claro que o próprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um desejo de libertação como já foi dito […], não de um esforço de resistência contra o aniquilamento, mas ao contrário e acentuadamente, ao desejo invencível de negar a vida em todas as suas manifestações. Surge assim em sua expressão artística mais rudimentar esse afã de reduzir o informe à forma, o livre ao necessário, o acidental à regra. O desenho regular e monótono dos primitivos, essa exclusão de todos os elementos especiais e acidentais que eles revelam, mostram claramente o significado e o sentido da tendência dos homens para uma regularidade abstrata e unânime[7].
Em que medida este desejo de verdade, o processo pelo qual os modernistas acreditavam que a verdade deveria atravessar para ser capaz de plena expressão – suas formas aletúrgicas, não veio mesclado aos deslumbres da modernidade, a um modo quase religioso de entender os novos tempos, onde o mais vil materialismo adquiria uma espécie de santidade enquanto vista como totem? Nada mais era do que “uma regularidade abstrata e unânime”, o “desenho regular e monótono dos primitivos”, que, contudo, procuravam imitar? Como desenvolveram a história de sua verdade, que seja, do que chamaram de “arte”, em meio a concepções tão distintas de sociedade e cultura de sua época? Como se constituiu para eles sua aleturgia, seu ritual da verdade?  O que era historicamente esta modalidade da Alétheia? Quais eram os desejos daqueles doutrinários de nossa primeira modernidade? Como o desejo – as miragens do prazer infinito – fazia a doutrina se liquefazer, se perder em meio a um interminável carnaval? Mário de Andrade talvez tenha sido aquele que com maior clareza – sinceridade mesmo – tenha exposto o drama:
Onde andou minha missão de poeta, Carnaval?
Puxou-me a ventania,
Segundo círculo do Inferno,
Rajadas de confetes
Hálitos diabólicos perfumes
Fazendo relar pelo corpo da gente
Semíramis Marília Helena Cleópatra e Francesca.
Milhares de Julietas!
Domitilas fantasiadas de cow-girls,
Isoldas de pijamas bem franceses,
Alsacianas portuguesas holandesas…
                                                              Geografia!
Para quê “missão de poeta”? Mário de Andrade cumpre sua promessa, “todos cumprem sua promessa de gozar”: “Êh liberdade! Pagodeira grossa! É bom gozar! / Levou a breca o destino do poeta, / Barreei meus lábios com o carmim doce dos dela…”. Num amor tão casto, do poeta que menos do que homossexual, talvez tenha morrido virgem… Sua cópula, no esfregar dos corpos numa multidão, num beijo roubado, num amor romanceado, num beijo fugaz, segundos talvez, em pleno Carnaval carioca:
Teu amor provinha de desejos irritados,
Irritados como os morros do nascente nas primeiras horas da manhã
Teu beijo era como o grito da araponga.
Me alumeava atordoava com o golpe estridente viril.
Teu braço era como a noite dormida na rede
Que traz o dia membros moles mornos de torpor.
Te possuindo, eu me alimentei com o mel dos guarapus,
Mel ácido, mel que não sacia,
Mel que dá sede quando as fontes estão muitas léguas além,
Quando a soalheira é mais desoladora
E o corpo mais exausto.
Um desejo sem fim, nunca corretamente saciado… Doutrinas que se perdiam em meio ao carnaval, do poeta que fez uma primeira viagem, “científica”, ao norte e nordeste do país, para depois, numa segunda viagem, se perder nos maracatus do Recife, solto, sem ter que integrar a nenhuma “expedição”. Perdeu-se nas delícias, nos desvarios, nas fugacidades: o carnaval carioca, frente a essa rápida passagem no Recife, parece um sonho dourado, cheio de Helenas e Domitilas, e não os festejos no estilo Pablo Picasso, aqueles do lobo solitário representado à maneira da “semelhança informe”, na feliz expressão de Georges Didi-Huberman em seu livro sobre Georges Batille.
Logo, uma quebra. Como comparar esses desejos com toda a doutrina construída apesar do carnaval? Não se formaria uma construção abstrata e monótona como lá atrás Sérgio Buarque alertou? Não seria aqui o caso, numa reverberação da História da Loucura, de perguntar à desrazão os limites da razão, aos loucos sobre a sabedoria dos médicos? Por qual racionamento se sustenta frente ao desbarato das ideologias construídas? Derrota com a ditadura, derrota carioca sob as ordens de Capanema, reconsideração sobre as diretrizes de 1920 minutos antes da morte: alcoolismo no apartamento da Glória, virgindade corporal ou ausência de sentimentos (sentidos?) concretos (Tarsila?) – para além da carne? Uma dor que não se cala, um poeta que se vai e deixa enigmas em que se parece que falar dele é ou a louvação de um momento utópico ou a discussão de sua sexualidade, suas desventuras românticas e sua itinerante genialidade. Onde o descompasso? Da crítica ou do poeta? Semana (santa?) que marcou a história nacional ou um simples desenredo de carnaval? Logo ele, o
Carnaval…
Porém nunca tive intenção de escrever sobre ti…
Morreu o poeta e um gramofone escravo
Arranhou discos de sensações…
Por qual “regime de veridicção” passou Mário de Andrade entre sua atuação na Semana de 22 e o seu Carnaval Carioca? Em que medida ele foi alguém capaz de verdade, da coragem de verdade? Em que medida seus discursos sobre literatura, o programa de modernização da literatura produzido por ele, não causou uma ruptura em seu próprio modo de dizer a verdade, entre o poeta e o teórico? Não se trata de uma escansão, de uma abertura da verdade, não entre “palavras e coisas”, mas de uma relação assimétrica entre as condutas cotidianas e os livros de preceitos morais como Foucault fez a utilização em seu terceiro volume sobre a História da Sexualidade? O livro de Artemidoro, texto que dá início ao livro, “não estabelece, em geral, de maneira direta e explícita, julgamentos morais a respeito desses atos [sexuais]; mas mostra esquemas de apreciação geralmente aceitos. E pode-se constatar que esses esquemas são bem próximos dos princípios gerais que já organizavam, na época clássica, a experiência moral dos aphrodisia[8]”. Logo, na sua livre expressão poética, Mário de Andrade expunha seu modo de lidar com os prazeres, prazeres esses estéticos, mas também amorosos ou sexuais. Isso traça um nítido contraste com a análise dos “programas” elaborados na época; na linguagem foucaultiana, um contraste entre os códigos de comportamento (o programa) e as formas de subjetivação (a conduta), isto é, o que se poderia chamar de determinação da substância ética ou os modos de sujeição do indivíduo a essa determinação, “à maneira pela qual o indivíduo estabelece sua relação com essa regra e se reconhece como ligado à obrigação de pô-la em prática[9]”.

[1] JARDIM, Eduardo. Eu sou trezentos: vida e obra. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015, p. 72.
[2] Idem, p. 73.
[3] HOLANDA, Sérgio Buarque de. O testamento de Thomas Hardy. In: MONTEIRO, 2012, p. 406.
[4] Idem, p. 407.
[5]FOUCAULT, 1984, p. 84.
[6]SEVCENKO, 1992, p. 229-30.
[7]HOLANDA, 1989, p. 68.
[8] FOUCAULT, 1985, p. 11.
[9] FOUCAULT, 1984, p. 27.


BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Mário de. Poesias Completas 2.Vols. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2; o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.
_________________. História da sexualidade 3; o cuidado de si. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 68.
JARDIM, Eduardo. Eu sou trezentos: vida e obra. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015.
MONTEIRO, Pedro Meira (Org.). Mario de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: correspondência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 229-30.