A Ponte Terrestre Mundial: Redescobrindo a América

A `Ponte-Terrestre Mundial
Nos momentos decisivos que vivemos na conjuntura mundial, que não se cinge à tentativa de estabelecimento de um estado de exceção no Brasil, à tentativa de prisão de Cristina Kirchner e até a de uma das mais conhecidas mães da Praça de Maio, na Argentina, o golpe no Paraguai e em Honduras, mas também com o avanço da OTAN nas fronteiras da Rússia e ao estremecimento das relações entre chineses e americanos no Mar da China, com risco iminente de confronto militar, temos que voltar nossa visão aos grandes projetos, aos grandes sonhos coletivos que inspiram à humanidade a buscar seus anseios comuns. O projeto da Ponte Terrestre Mundial, em sua versão asiática, está sendo implementada com a liderança chinesa e com forte apoio da Rússia, trazendo novamente à região, principalmente do Oriente Médio, uma alternativa à guerra e ao genocídio. Sua versão para a América do Sul é esboçada no artigo que segue, escrito por Dennis Small, sob a liderança de Lyndon LaRouche, dentro de parâmetros há muito estabelecidos no governo de William McKinley, último presidente dos EUA diretamente ligado à facção política de Abraham Lincoln.
Uma nova visão para a América é necessária. Não só o Brasil, mas os EUA devem ingressar na ordem BRICS e acabar com o jogo da geopolítica que pode levar à extinção a própria existência da humanidade enquanto espécie. Como exemplificado no artigo que publicamos sobre a Nova Rota da Seda, inspirada por Helga Zepp-LaRouche ainda no início da década de 1990 para criar uma real alternativa para paz no mundo, a vitória dos neocons, o “século americano” só veio trazer guerra após guerra, a se iniciar com a primeira, sob Bush pai, no Iraque, e uma falsa sensação de paz por causa da derrota da URSS. Essa falsa sensação de paz, que nos traz novamente uma declarada “nova guerra fria” (também tive oportunidade de escrever um longo texto aqui nesse blog, “Sobre a guerra que se aproxima“), somente será reposta caso propormos projetos que unam novamente as nações, como tem sido a reconstrução da Rota da Seda, e não por provocações militares ou de outras espécies, como sanções econômicas ou o desrespeito de se tirar todo o time paraolímpico da Rússia da edição atual dos Jogos.
Como bem lembrou no Fórum econômico realizado em São Petersburgo, em junho de 2016, o Ministro do Conhecimento e do Talento Humano do Equador, Andres Arauz (publicado aqui em outra oportunidade, quando defendemos a preponderância inequívoca dos poderes do executivo sobre qualquer chantagem parlamentar)

“Vemos com inveja os grandes projetos que mudam a história da civilização, como a Nova Rota da Seda proposta ao mundo pela China, a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, o projeto eurasiático defendido pela Rússia (…) nós estamos com inveja porque falhamos quando a América do Sul propôs isso dez anos atrás (…) Esperamos que as lições expostas no Fórum de São Petersburgo possam ser aplicadas em nossa região”.

Isso é restaurar o Fator Prometeu, o poder da criatividade contra os fatores que querem fazer crescer a entropia e levar o mundo a uma espiral de recessão e guerra sem volta, como bem lembrou Lyndon LaRouche

O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, anunciou em 21 de agosto de 2014, em uma conferência em Santa Cruz, Bolívia, que sua nação está orgulhosa de haver tomado a decisão de desenvolver a energia nuclear, “o fogo do século XX e XXI”, como base para cimentar “as condições de desenvolvimento tecnológico dos bolivianos para os seguintes 400 ou 500 anos”, certamente uma visão do futuro. Argentina leva um papel central em sua aliança com a Bolívia nesse esforço, frisou um dos palestrantes argentinos nessa conferência, o diretor da companhia argentina de tecnologia avançada INVAP, que disse aos bolivianos numa entrevista que deu a revista Repórter Energia que “desenvolver tecnologias é um caminho longo e difícil que requer determinação e perseverança, já que continuamente tem que enfrentar novos desafios… Aproximar a ciência das pessoas é o maior desafio. Fazer isso é tarefa dos dirigentes políticos”, afirmou, e citou o compromisso de John F. Kennedy ao levar o homem a lua como um exemplo de como assumir um propósito pode mobilizar toda a sociedade.


A Ponte Terrestre Mundial: Redescobrindo a América

Esse artigo, escrito por Dennis Small, foi publicado na revista EIR em 12 de setembro de 2014. Os gráficos são da tradução espanhola. Uma versão menor do artigo está incluída na Reportagem Especial da EIR, “A Nova Rota da Seda se Torna a Ponte Terrestre Mundial”, Um abrangente itinerário conceitual, e por vezes físico, para a Nova Ordem Econômica Mundial. Para a visualização da reportagem e do índice de matérias, veja: http://www.larouchepub.com/pr/2014/141119_silk_road_report.html Ela pode ser adquirida em: http://store.larouchepub.com/
Artigo traduzido por mim e publicado no site em português da Executive Intelligence Review (EIR), onde se pode encontrar uma versão do texto em PDF.
Foi o revolucionário filósofo do século XV e fundador da ciência moderna, o cardeal Nicolau de Cusa, que desempenhou um papel determinante no projeto que levou, em 1492, à “descoberta da América” por Cristóvão Colombo. Colombo trabalhava a partir de um mapa fornecido por Paolo dal Pozzo Toscanelli, íntimo colaborador de Cusa. Foi também Cusa que escreveu, em 1450, no O Leigo: Sobre a Mente: “A mente é uma substância viva (…). Sua função é dar vida ao corpo e por causa disso é chamada alma. A mente é uma forma substancial de poder.”
Se as Américas, como o resto do mundo, tivessem de ser salvos da desintegração econômica e da Nova Idade das Trevas que agora os assediam, isso teria de ser feito sobre a base da redescoberta – e reconstrução – do hemisfério, baseando-se nessa “forma sustancial de poder” evocada por Cusa. Esse processo agora está a caminho com o trascendental encontro das nações BRICS e Unasul, em 15-16 de julho, desencadeada pela corajosa luta da Argentina contra os criminosos fundos abutres.
Sob o atual sistema financeiro transatlântico, como algo distinto do processo iniciado com esses encontros, a região, especialmente sua juventude, não tem futuro algum, graças à pilhagem promovida pelas políticas imperiais Britânicas, impostas pelo FMI e Wall Street por décadas. Sob o antigo sistema, a juventude tem de escolher entre as opções fatais do desemprego, unir-se ao tráfico de drogas ou emigrar para buscar a mera sobrevivência. A densidade relativa potencial de população (a métrica de Lyndon LaRouche do poder de uma sociedade para sustentar níveis crescentes de produtividade) hoje está abaixo dos níveis populacionais reais na maioria dos países, o que significa que eles não podem mais manter viva sua própria população, baseada na atividade físico-econômica. Os jovens, são os primeiros a pagar o preço.
É exemplar o caso de El Salvador, na América Central, onde mais de um terço da população tem fugido para os EUA para tentar sobreviver. Na vizinha Honduras, a taxa oficial de desemprego está agora em 60%, mas fontes hondurenhas confiáveis dizem que, na verdade, ela está próxima de 80%. No México, no curso de duas gerações, aproximadamente 18% de sua população se viram forçados a dirigir-se aos EUA, por uma economia incapaz de prover o elementar para a sobrevivência. O papa Francisco, se pronunciando a respeito do impressionante nível de desemprego entre os jovens em muitos países, incluindo os da Ibero-América e sul europeu, descreveu a situação como “intolerável (…). Nós estamos excluindo uma geração inteira de jovens”.
A alternativa a essa destruição? Pôr em marcha grandes projetos de infra-estrutura como os compreendidos na Ponte Terrestre Mundial. Começar a reconstrução das economias nacionais e firmar acordos de comércio de benefício mútuo. Deslegitimar as práticas de livre-comércio e trabalho escravo. Com os milhões de trabalhos produtivos assim criados, o povo das Américas, principalmente a juventude, podem olhar para a construção, e não o abandono, de suas pátrias.
Essa é a transformação revolucionária desencadeada no processo BRICS. Um projeto é exemplar dentro do conjunto dos empreendimentos firmados na Cúpula dos BRICS: a construção de um canal interoceânico através da Nicarágua. Esse projeto não será apenas um componente vital da Ponte Terrestre Mundial; se projeta a criação de 50.000 novos empregos na construção da obra e, quando começar a operar, serão criados mais de 200.000 postos de trabalho. 
De fato, toda a região das Américas, do Alasca na ponta norte até a Terra do Fogo ao sul, apresenta enormes desafios à engenharia da biosfera que irão requerer a ativação completa da “forma substancial de poder” de Cusa para podermos conquistá-la. No extremo norte, existe o plano para o túnel no Estreito de Bering (Figura 1), provavelmente o projeto singular mais decisivo para a Ponte Terrestre Mundial, porque irá conectar a Rússia aos Estados Unidos, e toda a Eurásia à região inteira das Américas.
Movendo-nos ao sul, existe o Grande Deserto Americano (Figura 2), uma faixa de terras áridas ou semi-áridas que cobre grande parte do EUA, Canadá e México, que só pode ser revivida com bioengenahria massiva, a começar pelo domínio de grandes fluxos hídricos, não na Terra, mas na atmosfera. Existe também a região do Darien (Figura 1) conectando a América Central e a do Sul, onde ainda não existe nenhuma estrada – sem falar de um trem de alta velocidade – que deve ser construída para cortar a floresta e fazer a união das Américas, e prover uma contínua conexão por trilhos da América do Sul para toda Eurásia.
Na América do Sul propriamente dito, existe o maior rio do mundo, o Amazonas, com a enorme floresta amazônica com seus incalculáveis recursos por explorar. E existe o Andes, uma cadeia de montanhas que percorre toda a extensão da América do Sul ao leste da costa do Pacífico – uma barreira formidável para a construção necessária de uma ferrovia transcontinental através da América do Sul. Mas esse projeto também foi assumido na Cúpula dos BRICS como empreendimento tri-nacional entre Brasil, Peru e China, uma resposta apropriada ao modo como um peruano descreveu seu país: “O Peru é o desafio de Deus aos engenheiros”.
A perspectiva necessária é aquela do patriota peruano, Manuel Pardo, que, como presidente (1872 – 76), em aliança com a rede de colaboradores de Abraham Lincoln nos Estados Unidos, inaugurou um projeto nacional de ferrovias que incluía a travessia dos Andes. Seus inimigos sarcasticamente o apelidaram de “o trem para a lua”. Mas Pardo já sabia, em 1860, do enorme protagonismo a ser desempenhado pelas ferrovias:
“Una as três linhas centrais através da quarta e decida se, em dez anos, uma revolução não terá ocorrido no Peru, uma revolução ao mesmo tempo física e moral, porque a locomotiva – que, como mágica, muda a face do país por onde quer que passe – também civiliza. E essa talvez seja sua maior vantagem: as povoações se põem em contato. Isso faz mais do que civilizar; isso educa. Todas as escolas primárias do Peru não poderão ensinar em um século o que as locomotivas podem ensinar em dez anos”.
Os trilhos ligam as Américas à Ponte Terrestre Mundial
O tamanho do volume de terras da América Norte e Sul combinadas (16.300 mi2 ou 42.215 km2) é comparado apenas à Ásia (17.400 mi2 ou 45.065 km2). É vasto o potencial de desenvolvimento econômico das Américas, tanto em termos da base dos recursos naturais fornecidos, como pelos recursos “naturais” fabricados pelo homem – criados através de projetos de infra-estrutura. Os mapas mostrados aqui representam um breve sumário de alguns projetos-chave selecionados que a EIR tem promovido por décadas, muitos dos quais tem estado na planilha de muitos governos e de agencias internacionais também por décadas – e até mesmo por séculos! – esperando tão somente a ação dos governos.
As rotas ferroviárias de alta velocidade (de preferência as maglev) prioritárias, mostradas na Figura 1, não são simplesmente propostas de rotas de viagem de ponto a ponto em alta velocidade, com conexões a Eurásia e a África. Pelo contrário, essas rotas indicam corredores de desenvolvimento, cujos modelos se originam nos recursos topográficos, minerais, e demais recursos físicos, e em modelos historicamente estabelecidos (onde as populações já estão concentradas e onde são propostas novas zonas de desenvolvimento). Os corredores/rotas ferroviárias indicam localizações projetadas como novas concentrações de energia, água, atividade industrial e agricultora, como também centros de cuidado médico e atividades culturais e educacionais.
Na América do Norte o plano é simples. Primeiro, construir as linhas transcontinentais planejadas por décadas: a linha Estados Unidos/Canadá/Alasca – já mapeada pelos engenheiros das Forças Armadas (Army Corps of Engineers), na década de 1940. Segundo, construir os trilhos em direção ao sul da conexão Pan-Americana, ligando a América Central e Sul a do Norte, igualmente planejada há décadas – de fato, há mais de um século. Terceiro, atualizar a rede de ferrovias dos Estados Unidos, México e Canadá, que foi desenvolvida durante o século XX, mas que foi em grande parte abandonada nos últimos 40 anos de “pós-industrialismo”. As rotas de alta velocidade prioritárias são mostradas. Em particular, note como, na área central mexicana, a Cidade do México é interconectada com toda rede ao norte, como também no sul.
Figura 3
América do Sul: trem intercontinental
A América do Sul nos mostra rotas ferroviárias prioritárias a serem construídas (Figura 3), seguindo a espinha dorsal dos Andes no oeste, assim como através das montanhas, conectando as costas do Pacífico e do Atlântico. Esse tipo de rede irá integrar a atividade econômica crescente. Como nos meados do século XX, partes da Argentina e do Brasil tinham redes de ferrovias relativamente densas. Uma rede continental, contudo, nunca foi construída. O pouco que existe atualmente está indicado no mapa, refletindo frequentemente a clássica política colonial de construir ferrovias apenas das minas aos portos, para assim serem exportadas matérias-primas para o comércio exterior, que então era usado para pagar a sempre crescente dívida externa.
Esse projeto rodoviário global deu um passo à frente significante no encontro de julho entre os BRICS, onde a idéia de realizar o sonho secular de construir uma ferrovia transcontinental conectando as costas do Atlântico e do Pacífico na América do Sul, foi colocada na mesa pelo Brasil, Peru e China, em discussões entre o presidente chinês Xi Jinping e o presidente peruano Ollanta Humala, e depois com a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff. Foi alcançado um acordo para abrir uma licitação a companhias estrangeiras, incluindo chinesas, para participar na construção de um dos segmentos críticos desse projeto: a rota em forma de “T” no centro do Brasil, Palmas-Campinorte-Anapolis/Campinorte-Lucas.
A importância desse segmento no projeto global apresentado pela EIR fica claro na Figura 3, um mapa esquemático, primeiramente apresentado pela EIR em 1988. O terminal de Palmas, ao norte, fica a um passo do famoso projeto Carajás, no meio da selva amazônica, o maior (e mais puro) reservatório de minério de ferro do mundo, que hoje é conectado por trilho apenas ao porto atlântico de São Luís. Uma vez construído, o terminal ferroviário de Lucas ficará a meio caminho da fronteira Brasil-Peru, onde a linha ferroviária projetada se conectará, numa opção apresentada pela EIR, com o lado peruano que irá cruzar os Andes por Saramirisa – a parte mais baixa da gigante cadeia de montanhas – e dali para um ou mais portos peruanos para embarque através do oceano Pacífico. Isso irá cortar drasticamente os custos e o tempo do frete marítimo do Brasil (e outros países do Cone Sul como a Argentina) para as potências eurasiáticas, como China, Índia e Rússia.
Eficiência, crescimento e produtividade ainda maior podem ser alcançados assim que essa Ferrovia Transcontinental Sul Americana estiver capaz de se conectar diretamente por trilhos com a Ásia, quando as linhas ferroviárias de altíssima velocidade maglev forem construídas através da região do Darien e do Estreito de Bering.
Figura 4
Comisión del Ferrocarril Intercontinental:
Una pequeña sección del mapa de 1898 para el Ferrocarril Intercontinental. Después del asesinato del Presidente McKinley, nunca se construyó ningún ferrocarril para conectar América del Norte y del Sur.
Existem várias rotas possíveis para uma Ferrovia Transcontinental Sul Americana. Uma delas discutida entre Brasil, Peru e China se centra nos eixos São Paulo-Santa Fé do Sul-Cuiabá-Porto Velho-Pucallpa-Saramirisa-Bogotá-Panamá, com a travessia andina em Pucallpa ou Saramirisa. Outra opção viável, que foi estudada por muito tempo, é São Paulo-Santa Fé do Sul-Santa Cruz-Desaguadero-Saramirisa-Bogotá-Panamá, com a travessia andina em Desaguadero, Pucallpa ou Saramirisa. De fato, versões antigas precisamente desse projeto foram elaboradas pela Comissão Intercontinental de Ferrovias, iniciada pelo Secretário de Estado estadunidense James Blaine, que empregou engenheiros das Forças Armadas para a pesquisa e elaboração do projeto das linhas unindo os Estados Unidos com o Brasil e Argentina, apresentando o mapa completo com as rotas projetadas, ao presidente William McKinley, em 1898. McKinley, extremamente a favor do Sistema Americano, comemorou os planos de Blaine como o futuro da humanidade, em seu discurso de 1901 na Exposição Pan-Americana, em Buffalo – onde foi assassinado numa operação dirigida pelos britânicos.
Três Séculos de Grandes Projetos Hídricos
A Figura 5 mostra projetos hídricos prioritários para a navegação intracontinental, assim como para o controle de enchentes, irrigação, geração de energia, e demais usos. O continente é bem dotado de rios navegáveis (linhas sólidas no mapa). Os canais propostos (em pontilhado) formam pontos chaves para a interconexão contínua das rotas hídricas internas. Essa idéia remonta pelo menos ao século XIX, quando Alexander von Humboldt concebeu a integração da América do Sul através de três de seus principais rios – o Orinoco, o Amazonas e o Rio da Prata –, e igualmente com a América do Norte. Ele tinha em vista uma rota saindo da embocadura do Orinoco, ao norte, chegando ao mar do Caribe, e rumo a América do Norte via o Mississippi e a bacia de Tombigbee, ou pela costa de leste – portanto, uma “Grande Hidrovia das Américas” intercontinental.
Em data mais recente, no final do século XX, “A Grande Hidrovia” foi o nome dado pelo especialista brasileiro Vasco Azevedo Neto, para a ligação norte-sul do Orinoco ao sistema amazônico (nº 3 do mapa), e o Amazonas com o Rio da Prata (nº 7). Essa hidrovia intercontinental iria também fazer a ligação intermodal com o projeto ferroviário descrito acima. Por exemplo, o Amazonas pode tornar-se navegável mais a oeste até chegar a Saramirisa, no Peru, onde uma das possíveis rotas ferroviárias transcontinentais poderá cruzar os Andes rumo ao Pacífico.
A área marcada como de “concentração de produção”, abrangendo partes do Brasil, Uruguai e Argentina, se referem aquí à concentração de população, indústrias – particularmente a capacidade do setor de máquinas-ferramenta –, ciência, pesquisa e desenvolvimento, e potencial produtivo de todos os tipos (aviação, aço, automóveis, energia nuclear, agricultura de alta tecnologia), que podem prover a transferência tecnológica necessária para o continente inteiro, indicado nas setas do mapa.
Figura 6
Canal Interoceânico da Nicarágua
Outro grande projeto hídrico, a construção do canal interoceânico através da Nicarágua (Figura 6), foi anunciado em 9 de julho pelo presidente nicaraguense Daniel Ortega, às vésperas da Cúpula dos BRICS. O grandioso projeto será realizado pela empresa chinesa HKND, mas o presidente russo Vladimir Putin também fez uma escala inesperada na Nicarágua em 12 de julho, rumo à Cúpula, para igualmente oferecer a colaboração russa. O canal irá atravessar 278 quilômetros da embocadura do rio Brito na costa do Pacífico, no sudoeste nicaraguenses, até a boca do rio Punta Gorda, no lado caribenho. Ele terá dois diques e por 105 quilômetros passará pelo Lago da Nicarágua, com um tempo de travessia projetado em 30 horas, de costa a costa, para os 5.100 maiores navios do mundo que estarão capazes de cruzar esse canal.
Os engenheiros do projeto dizem que serão necessários 50.000 trabalhadores para a construção da obra, e que, uma vez em operação, serão gerados 200.000 empregos, incluindo os sub-projetos (aeroporto, dois portos, um centro turístico, etc.).
O presidente Ortega, ao anunciar a rota escolhida, disse que o sistema de educação do país está sendo renovado para formar os engenheiros e os técnicos capacitados requeridos pelo projeto. Ele também mostrou um livro contendo estudos de viabilidade para a construção desse canal, produzido pelo governo estadunidense e aprovado pelo Congresso em 1896, detalhando os benefícios que essa obra iria trazer.
Ninguém perdeu a ironía: enquanto a China está empenhada na criação massiva de empregos com projetos econômicos na América Central – o proverbial “quintal dos americanos” –, os EUA, sob Obama, tem ajudado a destruir aquela área com sua política de legalização das drogas, por cima de décadas de devastação econômica pelo livre comércio do Império Britânico.

Triplicando a produção de alimentos na Ibero-América
Com a infra-estrutura adequada, especialmente projetos de trens e hidrovias, a Ibero-América é capaz de quase triplicar em uma década seus níveis atuais de produção de alimentos. A Figura 7 foca em duas áreas com um vasto potencial agrícola: as planícies da Venezuela e Colômbia, e o Cerrado brasileiro. A floresta amazônica é o que separa as duas áreas.
As planícies da Colômbia e Venezuela são um trecho contínuo de aproximadamente 50 milhões de hectares na bacia do rio Orinoco. Uma quantidade considerável de chuvas banha a região anualmente – de fato, até demais em algumas estações – e existem vários grandes rios que a cruzam, incluindo o Meta e o Guaviare. O solo, uma vez adubado com cal (de 3 a 5 toneladas por hectar) para contornar o problema de acidez, está bem preparada para a agricultura. Hoje está enormemente sub-povoada, subdesenvolvida, em grande parte controlada por exércitos de narcotraficantes promovidos por Londres. Por exemplo, a parte colombiana da região (60% do total entre os dois países), constitui 27% do território nacional da Colômbia, mas tem apenas 3% de sua população – algo em torno de 1,5 milhões de habitantes. Existem poucas rodovias na região e nenhuma ferrovia.
Em tamanho, as planícies da Colômbia e Venezuela são equivalentes às áreas combinadas das grandes planícies dos estados norte-americanos do Nebraska, Kansas e Iowa.
Em seguida, ao contornamos à imensa área do Cerrado brasileiro, vemos que ele é quase quatro vezes maior das planícies da Colômbia e Venezuela. Seus 205 milhões de hectares são equivalentes aos três estados acima mencionados, mais Dakota Norte, Dakota Sul, Missouri, Oklahoma e Texas. Partes do Cerrado são um pouco mais desenvolvidas do que as planícies da Colômbia e Venezuela, muito por causa dos cartéis internacionais de grãos, que exploram largas extensões de plantações de soja, e a processa quase toda para a exportação.
O Cerrado é uma vasta savana tropical de pastagens bem irrigadas, que constitui 24% dos 846 milhões de hectares de terra do Brasil, que, por seu lado, é 9% maior do que a parte continental dos EUA. Três grandes sistemas hídricos irrigam a região: o Araguaia-Tocantins (dentro da bacia do Amazonas); o Paraná (que corre rumo ao sul, à bacia do Rio da Prata); e o São Francisco (que deságua no oceano Atlântico). Como as planícies da Colômbia e Venezuela, com fertilizantes corretos e aplicação de adubos da cal, é extenso o potencial agro-climático da região. O regime de temperaturas em boa parte do Cerrado também irá permitir duas a três colheitas ao ano.
Por volta de 50 milhões dos 205 milhões de hectares do Cerrado podem servir ao cultivo, o que irá produzir cerca de 210 milhões de toneladas de grãos por ano. Igualmente, nas planícies da Colômbia e Venezuela, 15 de seus 50 milhões de hectares, podem produzir 60 milhões de toneladas de grãos por ano.
Se adicionarmos o significante aumento do uso de terras irrigadas – e, portanto, da produção de alimentos – que pode ser alcançado no México com a implantação combinada dos projetos hídricos NAWAPA, PLHINO e PLHIGON, um total de 290 milhões de grãos podem ser adicionados à produção ibero-americana. Isso irá praticamente triplicar a atual, e inadequada, produção de 160 milhões de grãos por ano. Mesmo se levarmos em consideração: a) substituir as importações atuais (40 milhões de toneladas) por produção regional; b) aumentar o consumo de alimentos a um nível que elimine as 40% a 50% da população que hoje sofre de fome (60 milhões de toneladas); e c) sustentar os 3% de crescimento anual da população, no curso da década que será necessária para realizar esses projetos (90 milhões adicionais de grãos): a produção total de grãos requerida para 2018, 350 milhões de toneladas, será ultrapassada pelos 450 milhões de toneladas que serão produzidos. A auto-suficiência da agricultura regional é, inquestionavelmente, uma grande conquista alcançável.

Energia Para o Desenvolvimento Econômico
Crítico ao “redescobrimento” das Américas é a capacidade de prover energia de forma abundante e barata, com uma plataforma tecnológica caracterizada por altos níveis – sempre crescentes – de densidade de fluxo energético. Isso significa a combinação apropriada da exploração petrolífera de alta tecnologia, a disposição de recursos hidroelétricos e, o mais importante em qualquer lugar, a reativação do desenvolvimento da energia nuclear, que leve diretamente à cooperação em todo o planeta na construção de uma economia mundial baseada na fusão nuclear.
Logo após o anúncio em 1953 do presidente Eisenhower do programa “Átomos para a Paz”, a Argentina foi o primeiro país a assinar um acordo de cooperação para o uso pacífico da energia nuclear. Seu primeiro reator foi ativado em 1974, o Atucha I; e o segundo, o Embalse, em 1983. Para o ano 1979, quatro plantas estavam para começar a operar entre 1987 e 1997, mas as políticas “verdes” do Império Britânico e os ditados de austeridade do FMI pararam todos esses programas – até recentemente. Atucha II finalmente foi ativada em 2014.
No Brasil, a mesma política anti-nuclear dos britânicos foi imposta, ainda que os cientistas brasileiros conduzissem pesquisas em fissão nuclear já na década de 1930. Hoje, somente duas plantas estão em operação no país, Angra I (1982) e Angra II (2000).
No México, o presidente José López Portillo (no cargo entre 1976-82) fez planos para 20 plantas nucleares. Hoje, existem duas, ambas em Laguna Verde.
Em todas as Américas, existem 126 plantas de energia nuclear em operação em 2014: 100 nos Estados Unidos, 19 no Canadá, 3 na Argentina, e México e Brasil com duas cada um. Os engenheiros diziam há 50 anos: “2000 no ano 2000!” – o mundo precisará de 2000 plantas nucleares em 2000. Mas em 2014 temos apenas 437, com apenas 70 em construção.
Mas um novo impulso para a energia nuclear emergiu da Cúpula dos BRICS. A Argentina se move rapidamente para a construção de plantas adicionais, assim como o Brasil, com a colaboração russa e chinesa.
Mas o que é ainda mais comovedor – e indicativo da mudança de paradigma que está a caminho – é o vigor da decisão da Bolívia de se tornar nuclear. O vice-presidente Álvaro García Linera se expressou de modo bem eloqüente na conferência de energia em agosto último em Santa Cruz:
“O uso e o treinamento da energia atômica é uma de nossas obrigações como sociedade e como Estado. Nós tomamos essa decisão e iremos nos guiar em sua direção. Nos próximos anos, nós iremos implantar um programa de energia nuclear para fins pacíficos, com objetivos na área médica e agrícola, como corresponde, mas nós teremos uma elite, um núcleo de cérebros integrados com o mundo, com redes que atuam no campo atômico, que irão permitir a Bolívia aprender e utilizar este fogo do século XXI, a energia atômica.
“A energia nuclear é o fogo dos séculos XX e XXI. É o fogo que nossos ancestrais tinham 20.000 anos atrás, que permitiu a eles fazer filosofia, ciência tecnológica, cultura e agricultura. O conhecimento do átomo, suas regularidades, seus usos, seu funcionamento, são a pedra de toque dos séculos XX e XXI, o núcleo fundamental de novos conhecimentos e novas tecnologias, novas teorias e novos meios de produção (…).
“A Bolívia não pode ficar à margem, se esse é o caso, se o conhecimento atômico (…) é o fogo sagrado dos séculos XX e XXI, como o fogo foi para as civilizações agrícolas de 20.000 anos atrás. Hoje, uma sociedade que é respeitada – e respeitamos a nós mesmos – não pode ficar à margem, e nós não ficaremos à margem (…)”.
“O fogo por si mesmo não é destrutivo”, ele disse, e a energia nuclear não é destrutiva. Ela pode ser “a força criadora produtora de vida ou sua destruidora”.
“A energia nuclear existe independentemente de nós. Ela funciona na natureza, no corpo humano, nos processos físicos e químicos. A questão é, se tivermos a habilidade enquanto sociedade, aprendê-la, conhecê-la, respeitar sua força e saber utilizá-la coletiva e humanamente para propósitos benéficos (…).
“Quebremos as cadeias mentais e coloniais; quebrémo-las! Ousemos sair da caverna, como nossos ancestrais fizeram há 20.000 anos. Ousemos assumir nossa responsabilidade perante o mundo, diante de nossa história e de nossa sociedade. O conhecimento da energia nuclear é o conhecimento do ABC da natureza (…).
“[A Bolívia tem] a obrigação técnica, científica e moral, de ser responsável pelo conhecimento, o uso, o entendimento, e o desenvolvimento benéfico dessa força fundamental da natureza. Não importa quanto tempo isso tardar. Nós iremos fazer isso, pois estamos convencidos de que isso é como iremos cimentar as condições para o desenvolvimento tecnológico dos bolivianos para os próximos 400 ou 500 anos(…)”.

Investigações sobre a biopolítica I – A Empresa Mundial S/A e o modelo de governança jurídica no pós-Bretton Woods

A medicina moderna, segundo Foucault, é menos um lugar onde se explora a individualidade do paciente, a relação do médico com o doente, do que uma medicina social, focada primeiramente, no séc. XIX, no controle dos corpos e, com a instituição da psicanálise, do controle interno da família, da disposição dos quartos, da relação entre familiares, etc. Tudo isso adquire ares de ficção científica quando a eugenia se transforma em biopolítica, em controle menos dos corpos do que da produção humana, do individuo visto como uma “unidade-empresa”, de um capital humano em que “a competência-máquina de que ele é a renda não pode ser dissociada do indivíduo humano que é seu portador”. Chegamos aqui ao mundo da desregulação financeira, do sistema pós-Bretton Woods, do estabelecimento do sistema da dívida nos países do ainda chamado terceiro mundo. É o prelúdio para o advento do Assassino Econômico. Como a biopolítica, que substitui a forma particular da eugenia, assim como a ainda necessidade de parte do controle do Estado sobre os corpos por um meio legal suficiente, onde essas “unidades-empresas”, humanas, pudessem trabalhar dentro de um marco amplo de liberalização de mercado, se constituiu como o substituto perfeito do Estado nazista, derrotado na Alemanha, mas que, através da Escola de Frankfurt, dos economistas de Viena, na revista Ordo, são responsáveis hoje pelo liberal-fascismo em escala global. Ensaio como pequena introdução à investigações mais amplas sobre o conceito e biopolítica em Michel Foucault.


Investigações sobre a biopolítica I – A Empresa Mundial S/A e o modelo de governança jurídica no pós-Bretton Woods
Por Rogério Mattos: rogerio_mattos@hotmail.com
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Foucault, em sua conferência brasileira[1], Egito e Londres, o mundo antigo e a ciência moderna, ainda não estavam tão bem polarizados como posteriormente podemos ver em seus estudos. Porém – o que distingue os dois temas – e, com as escusas à imagem de nosso mais ancestral liberal, o conde de Cairu, e de seus modernos congêneres que sempre se acreditam tão “modernos”, o que procuraremos mostrar, ainda que por enquanto de forma bem simplificada (ao menos nessa linhas iniciais), é que “a medicina moderna tem por background uma certa tecnologia do corpo social; que a medicina é uma prática social que somente em um de seus aspectos é individualista e valoriza as relações médico-doente[2]”. Mas isso na medida em que podemos ir além de Foucault, de em certo modo seguir seus passos ultrapassando-o sem negligenciar o progresso realizado da conferência O Nascimento da Medicina Social até, por exemplo, a Hermenêutica do Sujeito, ou ao livro só imaginado, As Confissões da Carne; enfim, seguindo esse caminho que vai de sua tentativa de diferenciação da “medicina mental” da “medicina orgânica”, até suas duas últimas aulas magnas, O Governo de Si e dos Outros e A Coragem da Verdade, retrabalhar essa hipótese – principalmente se levarmos em conta a individualista concepção liberal –, onde, frente ao mundo grego reconstituído por Foucault diante de nós, temos que
com o capitalismo não se deu a passagem de uma medicina coletiva para uma medicina privada, mas justamente o contrário; que o capitalismo, desenvolvendo-se em fins do século XVIII e início do século XIX, socializou um primeiro objeto que foi o corpo enquanto força de produção, força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é a realidade bio-política. A medicina é uma estratégia bio-política[3].
Agora podemos contrapor a noção de Medizinichepolizei, polícia médica, com a que na língua latina ganhou o nome de therapeúein. Embora os historiadores não tenham se ocupado do problema do nascimento, na Alemanha, de uma ciência do Estado, esta foi a única capaz de organizar através de um corpo de funcionários disponíveis ao aparelho de Estado a justaposição de quase-estados, pseudo-estados, de principados, enfim, dentro do território alemão, visando o aproveitamento das relações de força entre seus vizinhos, assim como o emprego da mão-de-obra disponível na burguesia após a estagnação econômica que sucede a guerra dos 30 anos. Por isso o Estado, em seu sentido moderno, ter se desenvolvido primeiramente na Alemanha, ao invés de em outros países economicamente mais adiantados, como é o caso da França e Inglaterra. O uso de dados estatísticos por parte dos governos data do século XVII, relacionada às práticas mercantilistas de majoração da força produtiva da população e focada nas taxas de natalidade e mortalidade, numa época em que o numerário populacional era fundamental na contabilidade das riquezas das nações. A inovação alemã se dá no sentido em que ultrapassa esse mero cálculo cujo somatório geral tinha de ser positivo, mais nascimentos do que mortes, e passa a observar os diferentes fenômenos epidêmicos ou endêmicos nas diferentes cidades ou regiões do Estado, baseando-se numa observação das taxas de morbidade relatada pelos médicos e pelos registros hospitalares. Paralelamente, deixa-se às universidades e à própria corporação médica a atribuição dos diplomas e a formação acadêmica. “A medicina e o médico são, portanto, o primeiro objeto da normalização. Antes de aplicar a noção de normal ao doente, se começa por aplicá-la ao médico. O médico foi o primeiro indivíduo normalizado na Alemanha[4]”, enquanto na França, por exemplo, primeiro se normalizou os professores e os canhões.
O exemplo francês é discutido exaustivamente por Foucault não só em sua conferência sobre a medicina social, mas em diversos outros trabalhos – em suas aulas principalmente – sempre quando o tema versa sobre as políticas de urbanização, de modernização das cidades e da higiene pública. Daí temos o que é relacionado à chamada “teoria dos miasmas”, da abertura das grandes vias para fazer circular o ar, a questão da vigilância e do confinamento doméstico de toda uma população em períodos de surto epidêmico, a questão da criação da polícia, propriamente falando, não na maneira bem delimitada com a qual a enxergamos atualmente, porém como meio de se fazer valer a razão de Estado, de colocar os desocupados dentro das linhas produtivas da sociedade; a Lei dos Pobres inglesa, criando assistência médica gratuita aos pobres para garantir a saúde dos ricos e garantindo o controle das revoltas urbanas (no clássico caso carioca a normalização gerou o efeito inverso, a Revolta da Vacina), ou seja, tudo aquilo que os franceses colocaram em prática e que os alemães deram o nome de Polizeiwissenschaft, essa ciência da política que só existiu na mesma medida em que era uma ciência da polícia, cujo foco é a população:
Dentre os principais objetos de que essa tecnologia deve se ocupar, a população, na qual os mercantilistas viram um princípio de enriquecimento e na qual todo o mundo reconhece uma peça essencial da força dos Estados. E, para administrar essa população, é necessária, entre outras coisas, uma política de saúde capaz de diminuir a mortalidade infantil, de prevenir epidemias e de fazer baixar a taxa de endemia, de intervir nas condições de vida, para modificá-las e impor-lhes normas (quer se trate de alimentação, de hábitat ou de urbanização das cidades) e proporcionar equipamentos médicos suficientes. O desenvolvimento a partir da segunda metade do século XVIII do que foi chamado Medezinische Polizei, hygiène publique, social medicine, deve ser inscrito no marco geral de uma “biopolítica”; esta tende a tratar a “população” como um conjunto de seres vivos e coexistentes, que apresentam características biológicas e patológicas específicas. E essa própria “biopolítica” deve ser compreendida a partir de um tema desenvolvido desde o século XVII: a gestão das forças estatais[5].
No século XVII podemos ver o que é essa “gestão das forças estatais”, ou seja, a forma como se coloca as instituições, os funcionários, a administração estatal de um modo geral, a favor do controle dos corpos. Posteriormente, coincidindo com a ascensão da psicanálise, a incorporação por parte da família dos conceitos médico-psicanalíticos ainda no século XIX, a teoria do incesto que deu a ascendência moral ao controle físico que os pais exerciam sobre as crianças masturbadoras, a família-empresa, o indivíduo empreendedor, o estado de direito e a emergência da sociedade civil ordoliberal: é nesse horizonte que aparece a Ação Humana, de von Mises, a partir do qual, hoje, se pode traçar uma genealogia do behaviorismo, dos conselheiros políticos de Barack Obama, por exemplo, como também de toda uma concepção moderna de educação liberal – um tipo particular de “empreendedorismo”. O Nascimento da Biopolítica aponta para o fato de que onde essa política se torna mais ostensiva, onde o controle sobre os corpos e a sexualidade se dá de maneira mais efetiva – por isso o termo “biopolítica” é o que se contrapõe a mera “eugenia”, cujo valor como significado formal foi esgotado por Hitler –, através de um meio onde o homo oeconomicus pode produzir livremente. Mas produzir o quê? Simplesmente sua própria satisfação. Ele é consumidor e produtor ao mesmo tempo, por isso pode se falar de uma sociedade feita de unidades-empresa, de capital humano na medida em que a “competência-máquina de que ele é a renda não pode ser dissociada do indivíduo humano que é seu portador[6]”. Essa problemática atual adquire ares de ficção científica, porque
De fato, a genética atual mostra muito bem que um número de elementos muito mais considerável do que se podia imaginar até hoje [é] condicionado pelo equipamento genético que recebemos dos nossos ascendentes. Ela possibilita, em particular, estabelecer para um indivíduo dado, qualquer que seja ele, as possibilidades de contrair este ou aquele tipo de doença, numa idade dada, num período dado da vida ou de uma maneira totalmente banal num momento qualquer da vida. Em outras palavras, um dos interesses atuais da aplicação da genética às populações humanas é possibilitar reconhecer os indivíduos de risco e o tipo de risco que os indivíduos correm ao longo da sua existência. Vocês me dirão: também nesse caso não podemos fazer nada, nossos pais nos fizeram assim. Sim, claro, mas, a partir do momento em que se pode estabelecer quais são os indivíduos de risco e quais os riscos para que a união de indivíduos de risco produza um indivíduo que terá esta ou aquela característica quanto ao risco de que será portador, pode-se perfeitamente imaginar o seguinte: que os bons equipamentos genéticos – isto é, [os] que poderão produzir indivíduos de baixo risco ou cujo grau de risco não será nocivo, nem para eles, nem para os seus, nem para a sociedade –, esses bons equipamentos genéticos vão se tornar certamente uma coisa rara, e na medida em que será uma coisa rara poderão perfeitamente [entrar], e será perfeitamente normal que entrem, em circuitos e cálculos econômicos, isto é, em opções alternativas. Em termos claros, isso quererá dizer que, dado o meu equipamento genético, se eu quiser ter um descendente cujo equipamento genético seja pelo menos tão bom quanto o meu ou tanto quanto possível melhor, terei mesmo assim de encontrar para casar alguém cujo equipamento genético também seja bom. Vocês vêem muito bem como o mecanismo da produção dos indivíduos, a produção de filhos, pode se encaixar em toda uma problemática econômica e social a partir desse problema da raridade de bons equipamentos genéticos. E, se vocês quiserem ter um filho cujo capital humano, entendido simplesmente em termos de elementos inatos e de elementos hereditários, seja revelado, fica claro que será necessário, da parte de vocês, todo um investimento, isto é, ter trabalhado suficientemente, ter renda suficiente, ter uma condição social tal que lhes permitirá tomar por cônjuge, ou por co-produtor desse futuro capital humano, alguém cujo capital também seja importante. Não lhes digo isso, em absoluto, no limite da brincadeira; é simplesmente uma forma de pensar ou uma forma de problemática que está atualmente em estado de emulsão[7].
O indivíduo não é mais o súdito da teoria contratualista ou o sujeito da filosofia clássica, ele é um investimento/investidor cujas condições de vida são a renda de um capital. Daí o Estado ser para Foucault apenas uma peripécia do governo ou da governamentalidade. Não lembro em qual curso foi dito isso, mas penso ser importante que a “gestão das forças estatais” através da Medezinische Polizei, da hygiène publique ou da social medicine, da biopolítica de um modo geral, é feita a partir do pós-guerra, considerando o horror ao Estado nas formas brutais que adquiriu na Alemanha, com a pergunta: como instituir um Estado “do zero”, um Estado que ainda não existe e que irá, no futuro, garantir a liberdade econômica ao mesmo tempo em que pode manter sua existência? Daí o nascimento da revista Ordo, do Colóquio Walter Lippman, de como se passa a interpretar a teoria da racionalidade na irracionalidade do capital, de Weber (o que separa os austríacos da Escola de Frankfurt, apesar de partirem de pressupostos similares, ou seja, weberianos), da emergência do ensaio Crise das Ciências Européias, de Husserl, como texto fundador, pois “assim como para Husserl uma estrutura formal não se oferece à intuição sem um certo número de condições, assim também a concorrência como lógica econômica essencial só aparecerá e só produzirá seus efeitos sob certo número de condições cuidadosa e artificialmente preparadas” (FOUCAULT, 2008b, p. 163-4). Governa-se para o mercado, ao invés de se governar por causa domercado. Por causa do mercado, na época da “razão de Estado”, do Absolutismo, deixava-se um espaço onde as trocas comerciais poderiam ocorrer sem a interferência do soberano. Esse é o laissez-faireclássico. Segue o problema neoliberal, intrigante como “uma boa novela”, para seguir o dito de Foucault: “qual vai ser o tipo de delimitação, ou antes, qual vai ser, no que concerne à arte de governar, o efeito desse princípio geral de que o mercado é aquilo que, no fim das contas, é preciso produzir no governo?[8]”.Segue a resposta, Law and Order, o slogan dos neocons, ou seja, “o Estado nunca intervirá na ordem econômica a não ser na forma de lei, e é no interior dessa lei, se efetivamente o poder público se limitar a essas intervenções legais, que poderá aparecer algo que é uma ordem econômica, que será ao mesmo tempo o efeito e o princípio da sua própria regulação[9]”.
Daí a questão da arbitragem, da intervenção judiciária extremamente vinculada a esse sistema-empresa, a uma Empresa Mundial S.A., que se organizou no mundo durante o século XX e que, numa pesquisa mais aprofundada, data de antes das grandes guerras, pouco antes da crise de 29. Na verdade, provoca esses eventos e depois se sofistica – biopolítica – no pós-guerra, tendo sua maior vitória com o bloqueio da ascensão de lideranças significativas na Europa e nos EUA, o que leva à desregulação total da economia com o fim da lei Glass-Steagall, de Roosevelt, assim como pela livre flutuação cambial com o fim do acordo original de Bretton Woods, pelo governo Nixon. O tão criticado projeto do Mercosul, críticas originárias de quem compara esse projeto com o suposto avanço europeu com a União Européia, não considera um dado óbvio, o de que a UE é um sistema de união política via união monetária preconizada por outros tratados internacionais, mais exatamente falando, no caso sul-americano, a ALCA. Esta vem divergir da idéia de um Mercosul, de uma Unasul, suprimindo as barreiras comerciais num primeiro momento e logo após dolarizando a economia do sub-continente, processo acelerado pelas reformas monetárias neoliberais da década de 1990. Esse tipo de projeto político é o que levou os países banhados pelo Atlântico Norte a ainda hoje verem-se continuamente em hostilidade com grandes países como China e Rússia, prefigurando uma confrontação termonuclear cujo poder destrutivo faz Hiroshima e Nagasaki pertencerem à idade das pedras das confabulações sobre o Fim dos Tempos. E isso é relacionado ao tipo de “capitalismo financeiro” (um termo que nas configurações atuais ou até mesmo em sua origem como conceito, é insuficiente para dar contar do sistema “anglo-veneziano”, oligárquico, que existe agora) que prevaleceu com a criação do grupo Inter-Alfa após o processo de descolonização no pós-guerra e que impede um eficaz sistema de cooperação com o Oriente, de um modo geral, como previam os projetos de Gabriel Hanotaux e Seguei Witte na virada dos séculos XIX e XX, da construção de um eixo Berlim-Bagdá e de uma ferrovia trans-siberiana que chegaria até Paris. Essa é a falácia da “vitória” alcançada com a queda do muro de Berlim e que nos faz viver num sistema tanto ou mais perigoso do que no período em que, com Bertrand Russel, se defendia o MAD (Mutual Assurance Destruction) como forma de controle populacional (o bombardeamento de tempos em tempos com armas atômicas da URSS pelos EUA e vice-versa). A chamada “doutrina utópica da OTAN”, na qual um só ataque termonuclear bastaria para aniquilar o oponente, é utópica no sentido em que desconsidera a capacidade do “inimigo” responder quase que simultaneamente ao ataque fulminante, o que levaria a civilização a uma crise gigantesca, ou seja, o exato oposto de uma “crise existencialista” ao estilo de Husserl ou da psicanálise de um modo geral.


[1]FOUCAULT, Michel. O nascimento da medicina social. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
[2]Idem, p. 79.
[3]Idem, p. 80.
[4]Idem.
[5]Foucault, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2008, p. 494.
[6]FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 311.
[7]Idem, p. 313-4.
[8]Idem, p. 165.
[9]Idem, p. 239.

A Nova Rota da Seda nos mostra a visão para o futuro da humanidade

Helga Zepp-LaRouche
Helga Zepp-LaRouche, esposa do estadista norte-americano Lyndon LaRouche e fundadora do partido alemão Büso (Solidariedade), ganha atualmente fama inusual, somente menos inesperada no sentido em que, para lembrar o filósofo italiano Giorgio Agamben, vivemos nem tanto um “estado de exceção” (ainda não de todo consolidado, apesar da hegemonia mundial dos neocons a partir dos governos dos Bush, pai e filho), mas um momento excepcional. De um lado as ameaças inconfessáveis, porém não menos alarmantes, de guerra por parte dos atlanticistas; de outro, um novo mundo que se ergue, baseado fundamentalmente nos BRICS (mais da metade da população mundial), com liderança inconteste de Rússia e China, mas que tem no Brasil e nos países latino-americanos uma base perpétua para sua consolidação em escala planetária, influindo diretamente em nossos arrogantes vizinhos do norte do continente, os quais, se não adotarem “um novo paradigma civilizacional”, caminham inexoravelmente para o fracasso, para o genocídio, para a falência histórica, em suma.



Em momentos excepcionais como esse surgem grandes líderes. Na verdade, essa liderança é antiga e marcou boa parte de nossa história recente, aquela em que frequentemente tivemos que lidar com a ameaça de extinção em massa da humanidade. Lyndon LaRouche, no ápice da Guerra Fria, foi a liderança mais sagaz de seu país, e do mundo de um modo geral, ao propor a Iniciativa de Defesa Estratégica, um conjunto de medidas para cooperação militar entre os EUA e a URSS, sem a qual não se poderia pensar a paz e o desenvolvimento conjunto dos povos. Falho o intento de consolidar a IDE (fato que o levou junto a seus associados logo depois à prisão política, num processo secreto movido por Henry Kissinger), LaRouche propôs a criação de um triângulo produtivo Berlim-Paris-Viena, num prognóstico em que dizia ser irreversível a queda da União Soviética, mesmo quando ninguém ainda se dava conta disso.

Desse primeiro projeto sua esposa esboçou o que ficou conhecido como a Ponte Terrestre Mundial, um projeto de paz e cooperação econômica para todos os continentes do planeta. Viajando pela China no início da década de 1990, passou a ser conhecida por lá como a New Silk Road Lady: a Ponte Terrestre Mundial se transformava em Nova Rota da Seda. Nos últimos anos, nos últimos meses com ainda mais intensidade, os países asiáticos tem se desdobrado na execução e na finalização de um sem número de obras que compõem o grande projeto, que é o Colosso que se ergue para enfrentar os assustadores espectros de holocausto nuclear que cada vez mais claramente a OTAN promove. Convidada para participar dos preparativos para a próxima reunião do G-20, Helga Zepp participou recentemente de um desses encontros chamados Think-20, onde novamente defendeu os extensos projetos de desenvolvimento que compõe a nova rota, na perspectiva econômica chinesa da cooperação “ganha-ganha”, como a construção de trens de alta velocidade para integrar os países, corredores de desenvolvimento,  a construção de usinas nucleares para dessalinização da água e o reverdejar das áreas desérticas, assim como da ionização no ar – ou seja, a construção de novas cidade, novas rotas econômicas, incontáveis novos empregos e capitais direcionados para a economia física, produtiva, e não para a ciranda dos cassinos financeiros.

Como introdução a essa apresentação da sr. Rota da Seda, coloco primeiro um curto vídeo em que seu marido, ainda em 1997, defendia o projeto – infelizmente ainda sem tradução para o português. O vídeo que segue, filmado essa semana, é onde ela conta sobre suas impressões depois da participação do Think-20, na China, e os dois diferentes paradigmas econômicos que hoje perigam entrar em colapso. 






Mais abaixo, nos dois textos, são duas palestras delas traduzidas por mim para o site em português da Executive Intelligence Review (esses e outros mais textos da revista podem ser acessados por aqui), e que seguem a características de outras publicações minhas nesse blog, ou seja, como pensar “de cima” os paradigmas políticos; como se utilizar de uma concepção científica superior para atender aos grandes anseios da humanidade. Como destaque, são as postagem sobre o poderoso senso de imaginação de Johannes Kepler nas suas descobertas reveladas no livro Harmonia Mundi (POSTAGEM AQUI), escrito por mim, mas também os dois trabalhos de Shawna Halevy, Pensando o não-visto e o Pensando sem palavras. Também, para finalizar por enquanto, os dois textos sobre Prometeu, aquele que trouxe o fogo da ciência para a humanidade. Um, de Aaron Havely, O Princípio Oligárquico; o outro, Como o homem vê seus deuses, escrito por mim sob inspiração do texto anterior, que traduzi.
Em futuras publicações nesse blog trarei a visão da Ponte Terrestre Mundial, do paradigma dos BRICS, para a América como um todo. Como ressalva, meu texto recém-publicado sobre a história do Instituto Tavistock, de engenharia social e manipulação de massas, foi também amplamente inspirados nos trabalhos da Executive Intelligence Review, pioneira em desvendar essa história obscura, indecente, capitaneada pela realeza britânica. Mas, antes dos dois vídeos prometidos e dos textos que se encontra aí abaixo, segue como introdução uma fala recente de Helga Zepp-LaRouche nos Diálogos de Raisina, na Índia, em que apresenta e defende o – com muita probabilidade – projeto mais luminoso que hoje temos na humanidade, e em plena execução, o da Nova Rota da Seda. Em seguida, um curto vídeo com tradução para o português. Para quem tem interesse em ver mais outro vídeo sobre o assunto, pode acessar nossa antiga publicação “Se falar de Moro, por quê não falar dos BRICS”.

É imperdível também, para quem domina o inglês, a entrevista que deu à TV chinesa, onde se explica a gênese de toda essa história. Segue abaixo, para logo depois os dois textos prometidos.

NICOLAU DE CUSA NOS MOSTRA O CAMINHO PARA CRIAR UM NOVO RENASCIMENTO
Zepp-LaRouche fez estas observações (por vídeo-conferência) na conclusão de seu discurso para a 25ª conferência de aniversário do Conselho Eleitoral dos Cidadãos (Citizens Electoral Council, CEC), organização associada a LaRouche na Austrália, em 17 de maio de 2013.
Eu estou muito feliz por vocês terem feito de Nicolau de Cusa um fator tão importante em sua conferência, porque tenho me convencido, desde que descobri suas ideias há muitos anos atrás, que elas são o melhor fundamento para retirar o mundo de sua crise existencial. Nicolau era bastante consciente do que estava escrevendo, especialmente a partir do De Docta Ignorantia, tão revolucionária que nunca tinha sido pensada antes, que ele estava, com seus escritos, começando uma nova era. E se você olhar para trás para ver o efeito de seus trabalhos, você realmente poderá ver que ele estava absolutamente correto; que seus escritos marcaram a diferença entre a obscura Idade Média e os tempos modernos.
Ele conscientemente rompeu com o escolasticismo que dominava as universidades naquele tempo, que era o debate sobre quantos anjos podem sentar na cabeça de uma agulha, e também com as estúpidas visões mecanicistas dos Peripatéticos, que também era uma ideologia de destaque na época. E ele muito conscientemente introduziu um método completamente diferente de pensamento. A mais famosa ideia disso é a de coincidentia oppositorum, que é o princípio de que o Uno tem um poder superior ao Múltiplo, num modo que irei especificar imediatamente.
Também, na De Docta Ignorantia, como nos diálogos O Leigo e em vários sermões, ele rejeitou totalmente a ideia do homem adquirir conhecimento através da experiência sensorial. No famoso sermão da Trindade de 1444, ele desenvolve a ideia de que a concepção dos objetivos do intelecto humano determina a estrada sobre a qual a mente viaja rumo a esse objetivo; ele chamou isso de praesuponit – o futuro define o presente. Aquilo que a mente e a fé definem como um objetivo é o que define o modo de como consegui-lo e qual caminho tomar. O conhecimento, portanto, não é a extensão lógica da adição de todos os conhecimentos existentes do passado, mas aquilo que ansiamos por encontrar, que está igualmente em nossa fé e em nossa intenção.
Ele chegou numa concepção profunda da criação do universo físico, a qual foi a base para Kepler, posteriormente, descobrir a gravidade. Ele acreditava na união completa da fé e da ciência, e essa visão permitiu Kepler chegar a sua descoberta superando Copérnico e Ptolomeu. E Cusa igualmente teve a mesma ideia maravilhosa: de que quanto mais você estuda o universo, as leis da Criação, mais se torna claro de que tudo isso deve ser trabalho do tremendamente amoroso Criador.
Concordantia

Nicolau também teve a ideia de que o universo é totalmente determinado pela mudança, que essa mudança tem um desenvolvimento ascendente, e que nem a Terra ou o sol são o centro do universo – e isso foi realmente o início da ciência moderna. Ele também teve a ideia da concordantiano universo e entre a humanidade: de que existe uma coesão entre as leis do macrocosmo – o universo como um todo – e as leis do microcosmo, que são os poderes cognitivos do homem; e que essa concordantia só é possível se todo o microcosmo se desenvolver da melhor maneira possível, e não numa direção linear; mas toda a unidade na multiplicidade é baseada no princípio superior por meio do qual o processo inteiro da totalidade é desenvolvido de modo complexo, como no desenvolvimento de uma fuga, por onde o desenvolvimento de um é necessário para facilitar o desenvolvimento do outro.
Cusa presumiu a ideia da concordância no universo, baseado no princípio de desenvolvimento que também deve ser a base para uma melhor ordem mundial hoje. Isto deve ser absolutas nações soberanas como microcosmos desenvoltos, e essa é a ideia do Concordantia Catholica, baseado no sistema representativo, que os governantes e os governados devem se reportar ao outro numa relação recíproca, por meio da qual os governantes se encarregam de fornecer o melhor possível em termos de bem comum aos governados, e os representantes se encarregam dos interesses dos governados, e também representam o bem comum dos governantes.
Isso é uma ideia muito importante, porque essa concepção do sistema representativo foi realmente pela primeira vez realizada por completo na constituição estadunidense. Cada microcosmo, portanto, só poderá preencher todo seu potencial ao fornecer o melhor desenvolvimento possível para o outro microcosmo. Se você aplicar isso na política – e isso foi feita na Paz de Westfália [1648], aonde o princípio do “interesse do outro” veio exatamente dessa ideia cusana – e isso levou ao fim dos 150 anos de guerras religiosas na Europa. Se você aplicar isso na política atualmente, então o melhor desenvolvimento possível de uma nação deve incluir o melhor desenvolvimento possível de todas as outras.
Os “Objetivos Comuns da Humanidade”

O que isso significa concretamente para a Austrália é que a Austrália deve ter como interesse próprio que a China se desenvolva da melhor forma; também, o Japão e todos os países do sudeste asiático, e vice-versa. Obviamente, isso só é possível se todas essas nações estiverem unidas aos objetivos comuns da humanidade.
Quais são os “objetivos comuns da humanidade”? Obviamente, isso significa que essa condição indigna, miserável, na qual a maioria da civilização se vê como resultado das políticas do Império, deve ser superada. Essa pobreza deve ser eliminada, a fome deve ser eliminada, e isso deve ser eminentemente possível e factível através da realização de todos os diferentes projetos da Ponte Terrestre Mundial, que também pode ser a base para a paz nas relações com a Rússia, com a China, com o Japão, e com muitos outros países.
Isso só é possível porque o Uno é superior em poder ao Múltiplo. E a humanidade como um todo é uma ideia superior do que as das muito diferentes culturas e religiões. Isso igualmente foi a ideia básica de outro escrito de Nicolau de Cusa, escrito por ele depois da queda de Constantinopla, o De Pace Fidei, onde 17 homens sábios de diferentes nações, e culturas, e religiões, pedem a Deus conselhos; e enquanto outros falavam de um choque de civilizações, numa forma imatura, ele teve a ideia de que só havia um Deus, uma Verdade, e uma Religião, e ele também falou sobre uno religio in rituum varietate, “uma religião com diferentes ritos”, o que era uma ideia incrivelmente progressista para um cardeal do século XV!
A criação do universo físico, de acordo com Nicolau, acontece através da criatividade do homem, e ele ainda vai mais além ao dizer – e, de novo, isso foi no século XV – que depois do aparecimento da humanidade, o processo contínuo da Criação ocorre através dos atos criativos do homem, que são indubitavelmente importantes.
Ele também tinha a noção de manuductio, que é basicamente uma pedagogia, explicando como esse processo de desenvolvimento ocorre. E ele tinha uma imagem, como se fosse a metamorfose de uma planta, onde a mente começa com a semente, e então através de um múltiplo processo cognitivo, alcança a dimensão plena do desenvolvimento de uma árvore com seus ricos frutos, que então produz muito mais sementes e muitas outras árvores.
Um novo método filosófico

Nicolau era consciente de que tinha desenvolvido um histórico novo método filosófico, e ele também, no De Docta Ignorantia, especialmente no segundo livro, desenvolveu o que se pode chamar de uma antologia do universo. Ele chega a dizer que o preenchimento do universo é a cognição e a criatividade do homem, que isso é a vis creatrix, o “poder criativo” expresso na ação do homem como imago viva Dei, como “imagem viva de Deus”, que dirige o universo.
No De Docta Ignorantia, ele diz: “Toda nossa maior atenção afirma a unidade, de que a fé é o anseio por conhecer. Porque em cada faculdade, no significado de cada disciplina científica, estão colocadas algumas pressuposições, o credam praesuponum nuntur, o primeiro princípio que só pode vir da fé e fora da qual o discernimento sobre aquilo que precisa de investigação pode ser atingido”.
Isso é uma ideia muito interessante, porque é a ideia de que se a ciência e a fé são o mesmo, e se você tiver uma crença naquilo que tem de ser parte da ordem divina da Criação, então sua mente irá procurar isso, e na sua investigação, você irá voar como um pássaro rumo ao seu objetivo, onde o pássaro faz isso como que instintivamente; onde o objetivo é definido, a estrada segue daí.
Você encontra nesses pensamentos pela primeira vez em toda a escrita histórica e literária, uma discussão de como o método de hipótese realmente funciona, como você desenvolve o pensamento por flancos, como você cria uma ideia musical ou poética ao ter essa ideia superior, que é o objetivo que então pode ser desenvolvido, da mesma maneira que um grande compositor tem uma ideia musical antes de desenvolver a composição; como um poeta tem uma ideia antes de compor o poema. Isso é um método muito importante, que deve ser a base para colocar em coesão nosso presente ordenamento político e econômico.
Portanto, eu penso que em Nicolau de Cusa você encontra ideias cruciais, todas belas ideias; por exemplo, a prova sobre a imortalidade da alma, na qual Nicolau argumenta que o fato da alma criar todas as artes – as ciências, geografia, música – e isso permanece para sempre, significa que o que cria essas coisas obviamente deve ter um poder superior às coisas criadas, e desde que as coisas criadas são imortais, o criador, também, deve ser imortal.
Nicolau também teve a bela ideia de que o homem, em determinado ponto de desenvolvimento da humanidade, pode, com rigor científico, definir a próxima inovação necessária ao conhecimento. Agora, não é aquilo que conhecemos hoje, quando dissemos que o futuro da humanidade deve tornar a humanidade em sua identidade como uma humanidade no espaço? De que todo o conhecimento que temos sobre os perigos vindos do espaço, vindos de asteroides, dos perigos de nosso sistema solar num par de bilhões de anos até agora – de que devemos ter a ideia do objetivo, onde a próxima inovação científica deve estar, no intuito de garantir a existência da humanidade? Nicolau também teve essa ideia no século XV e assim, penso que quanto você o estuda se torna mais alegre e esclarecido.
Caso o Império Britânico prevaleça, tanto financeiramente, e no sentido de sua doutrina militar, é bem plausível que a humanidade seja extinta, e iremos provar que não tivemos mais inteligência do que os dinossauros. Mas eu tenho um otimismo fundamental de que o universo é tão belo, as ideias do Criador são tão poderosas, de que o plano do Criador é tão belo e forte para isso acontecer se fizermos nosso trabalho.
Então, portanto, vamos agir com todos os poderes que temos para usar essa mudança histórica que ocorre agora[1]para colocar a ordem política e econômica em coesão com as leis do universo. Se fizermos isso, penso que o futuro da civilização será o mais brilhante possível, e eu penso que estamos no meio da luta. Glass-Steagall[2]é agora uma proposição realista, então vamos nos mover com toda nossa força para implementá-la em sua totalidade globalmente, e avançar mais, para implementar um Renascimento.


[1]Na abertura de seu discurso, Zepp-LaRouche mencionou a introdução em 14 de maio, pelo senador Tom Harkin, do projeto de lei Glass-Steagall dentro do senado estadunidense, como representando “um largo passo em direção ao salvamento da civilização das garras do abismo”.
[2]Glass-Steagall é a lei de separação bancária aprovada durante a presidência de Franklin Roosevelt, fundamental para a constituição de seu New Deal. Separar os bancos de crédito (economia produtiva) dos bancos de investimentos (economia de cassino), junto a Comissão Pecora (de investigação dos crimes financeiros durante as especulações que levaram à bancarrota de 1929) e grandes projetos de infraestrutura foi a base de governo do talvez maior presidente dos EUA no século XX. A retomada desse projeto, destruído durante o governo Clinton, está na discussão dos congressistas norte-americanos, como também se discute versões dele para serem aplicadas na Europa, em meio à crise econômica atual, em especial em países como a Itália.


Nicolau de Cusa, autor do clássico A Douta Ignorância

UMA VISÃO PARA O FUTURO DA HUMANIDADE

Helga Zepp-LaRouche, fundadora do internacional Instituto Schiller (www.schillerinstitute.org), ministrou essa palestra para a sessão plenária de encerramento de 7 de outubro de 2013 para o World Public Forum Dialogue of Civilizations, realizado entre 4 e 7 de outubro, em Rhodes, Grécia. Zepp-LaRouche compareceu anteriormente aos Fórum de Rhodes em 2003, 2006, 2008 e 2009 (quando Lyndon LaRouche também palestrou). Subtítulos foram adicionados.
Senhoras e senhores,
Foram discutidas muitas questões importantes durante os últimos dias, mas eu concordo com o professor Dallmayr, de que nós não podemos concluir essa conferência sem antes focar a realidade que nós, como civilização, estamos na iminência de uma guerra termonuclear. A possibilidade de um ataque militar no Irã; a escalada da situação entre Síria e Turquia; a implantação de porta-aviões dos EUA no Pacífico Ocidental próximo a estas ilhas contestadas, e a afirmação [da Secretária de Estado] Hilary Clinton de que qualquer ataque a essas ilhas pode levar à ativação do tratado militar EUA-Japão; a concordância do governo espanhol dos escudos anti-mísseis da OTAN – todos esses desenvolvimentos demonstram que nós estamos em um perigo mortal.
Durante as últimas semanas, o perigo existencial na qual a espécie humana agora se encontra se tornou claro para todas as pessoas pensantes. A quase contínua política de “mudança de regime”, depois do colapso da União Sovética, bombardeou o Iraque “de volta a Idade das Pedras”, mergulhou a Líbia na anarquia, transformou o Afganistão num pesadelo, e vitimizou o Estado secular da Síria com intervenções estrangeiras e guerras religiosas, e, no caso de operações militares contra o Irã, pode levar a um incêndio incontrolável de proporções mundiais.
O Oriente Próximo e Médio ameaçam tornarem-se novos Bálcans, onde as alianças existentes, como aquelas anteriores a Primeira Guerra Mundial, os conduza à conflagração. O impensável pode acontecer: aquela Destruição Mútua Assegurada não mais funciona como um estorvo, mas armas termonucleares são empregadas, levando à extinção da raça humana. Não em algum tempo possível, mas dentro das próximas semanas.

Indo de encontro a uma parede de tijolos

A dinâmica que está conduzindo o perigo de guerra é acentuado pela aceleração do colapso do sistema financeiro trans-Atlântico. A expansão de liquedez que [o presidente do Federal Reserve Ben] Bernanke nomeou eufemisticamente de “Quantitative Easing III” é somente tão hiperhinflacionário quanto o “o que for preciso” de [presidente do Banco Central Europeu] Mario Conti, em relação à compra ilimitada de títulos públicos por meio do Banco Central Europeu. A impressão hiperhinflacionário de dinheiro, em conexão com a austeridade brutal – na tradição do Chanceler Brüning – contra a população e a economia real  já teve um efeito deencurtamento da vida de milhões depessoas na Grécia, Itália, Espanha e Portugal, e ameaça derrubar a Europa numa tempestade de fogo de caos social.
A humanidade está num processo de se abater contra uma parede de tijolos em alta velocidade. A questão que nós devemos urgentemente responder é se a espécie humana, confrontada com sua própria destruição, é inteligente o suficiente para mudar de rumo a tempo, do ruinoso paradigma presente de tentar consolidar um império mundial, e a legitimação fingida da resolução de ocnflitos geopolíticos pelos meios da guerra, e trocar esse paradigma por outro que seja viável para a humanidade.
Para resolver esse problema, nós devemos introduzir um problema epistemológico: Nós devemos repudiar as relíquias dos métodos de pensamentos ancorados no sistema oligárquico, incluindo conceitos de projeção dedutiva, positivista, empiricista, monetarista, ou de estatística linear que expressão um mal infinito, como pertencem a uma concepção de mundo que não tem nada a ver com as leis do universo físico real, nem com a criatividade da razão humana.

Pensando a partir “de Cima”

Em vez disso, devemos elaborar – com a mesma criatividade de Nicolau de Cusa, Johannes Kepler, Gottfried Leibniz, Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Friedrich Schiller, Vladimir Vernadsky ou Albert Einstein, para nomear só alguns – uma visão para um melhor futuro para a humanidade, que, com certeza, só poderá ser realizada quando forças suficiente se unirem entre si para esta boa causa.
Tal visão nunca poderá ser o resultado de um pensamento aristotélico, ou se transformar num “consenso” para a resolução de muito pequenas questões colaterais, isto é, pensando por “baixo”, mas vem de pensamentos “de cima”. Nicolau de Cusa, com seu método de coincidentia oppositorum, a coincidência dos opostos, por meio do qual o Uno é de uma ordem superior de poder que o Múltiplo, lançou a pedra fundamental em que não só o princípio da Paz de Westfália e o direito internacional foram construídos, mas também um método universal de problema / e resolução de conflitos, que ainda é válido atualmente.
Isso significa que devemos começar com a definição dos propósitos comuns da humanidade. O que pode ser mais importante do que a questão ontológica do “esse”, significando que nós somos capazes de assegurar a sustentação prolongada da existência da espécie humana?
Pela virtude da legitimidade do universo físico anti-entrópico, a existência duradoura da humanidade requer um constante aumento da densidade do potencial populacional relativo e uma contínua expansão dos fluxos de densidade energética nos processos produtivos. Se nós queremos encontrar uma solução para a dupla ameaça existencial da humanidade – o perigo de uma guerra termonuclear mundial e a crise econômica sistêmica – então o novo paradigma deve ser por si mesmo coerente com a ordem da criação. Nós precisamos de um plano para a paz nesse século XXI, uma visão que simultaneamente inspire a imaginação e as esperanças do homem.
Apesar de ter nas mãos todos os meios científicos e tecnológicos para garantir condições humanas de vida, enquanto existem por volta de um bilhão de pessoas sujeitas a fome e a má-nutrição, enquanto 25000 crianças – uma pequena cidade – morre diariamente por fome, enquanto 3 bilhões vivem na pobreza e lhes são negados os direitos humanos, isso não é então nosso dever sagrado implementar agora esses meios? Nós precisamos de uma estratégia de desenvolvimento de larga escala, construída sobre as idéias das Décadas de Desenvolvimento das Nações Unidas, dos anos 1950 e 60, rejeitanto totalmente a mudança de paradigma dos últimos 40-50 anos como a trilha errada, e assim reviver a idéia de “Paz através do Desenvolvimento”?

A Ponte-Terrestre Mundial

Tal visão pode ser a da implantação da Ponte-Terrestre Mundial com seus muito grandes projetos como NAWAPA, o túnel sob o Estreito de Bering, o desenvolvimento do Ártico, a expansão da Ponte-Terrestre Euroasiática, acima de tudo no Próximo e Médio Oriente e no subcontinente indiano, incluindo a ligação da Ponte-Terrestre Mundial com a África através de túmeis sob o Estreito de Gilbratar, ligando Espanha e Marrocos, e também entre a Sicília e a Tunísia.
Existem duas grandes regiões nesse planeta onde a falta de desenvolvimento clama por vingança, o primeiro sendo o continente africano, ao qual nunca foi permitido se recuperar dos longos séculos de exploração colonial; e o segundo sendo o Oriente Próximo e Médio, que estão atualmente muito atrás de seus períodos de ouro, quando Bagdá era o centro da cultura mundial, ou quando Palmira Tadmur, na Síria, era uma pérola na antiga Rota da Seda. Nós devemos colocar na agenda para discussão a visão para uma Renascença econômica e cultural, representando um elemento de razão de alto nível, ao invés dos conflitos locais, étnicos e históricos. Onde os representantes de um grande número de nações levem tal mensagem à comunidade mundial, mostrando que, de fato, existe uma alternativa real que possa fazer possível a sobrevivência de todas as pessoas nesse planeta, então os elementos de esperança podem ser postos em debate, que agora estão completamente ausentes.

A Defesa Estratégia da Terra

O mesmo tipo de pensamento que usa do ponto de vista da coincidentia oppositorum, o pensar “por cima”, como aplicável à superação do subdesenvolvimento na Terra pela Ponte-Terrestre Mundial, também é preciso para defender todos nós no planeta dos perigos que vem do espaço. A Rússia, com seu projeto de Defesa Estratégia da Terra, DET, fez uma proposta de cooperação de Rússia e EUA, e potencialmente mais países, que articule mísseis de defesa e a proteção da Terra de asteróides e impactos de cometa, que podem substituir a atual confrontação geopolítica e a escalada da ameaça existencial.
O projeto DET está na tradição da IDE, Iniciativa de Defesa Estratégica, que propõe a superação da ameaça nuclear e a divisão do mundo em blocos militares, desenvolvido por meu marido Lyndon LaRouche 30 anos atrás, e que o presidente Ronald Reagan tornou a política oficial do governo americano em 1983.
O projeto DET, o qual inclui sistemas de alertas prévios para catástrofes naturais ou feitas pelo homem, assim como cooperação em vôos espaciais tripulados, é o absolutamente necessário condutor científico que uma economia mundial dominada pela crise necessita para conquistar níveis elevados de produtividade e criar novas capacidades científicas e tecnológicas que também são precisas para a solução dos problemas na Terra. As viagens espaciais tripuladas feitas de maneira conjunta é o próximo passo necessário para a evolução da humanidade. E com esse “imperativo extraterrestre”, assim como chamado pelo renomado cientista e engenheiro espacial Krafft A. Ehricke, a humanidade poderá entrar agora no estágio de maioridade, deixando para trás, como doenças da infância, a resolução de conflitos por meio da guerra.

Os propósitos comuns da humanidade

Se nós prontamente tivermos sucesso em unificarmos a nós mesmos ao redor da visão de conquistar os propósitos comuns da humanidade, e conscientemente apresentar essa perspectiva como uma estratégia de anulação das guerras, então isso poderá inspirar a imaginação das gerações mais jovens, que agora são ameaçadas mundo afora pelo desemprego em massa e a desesperada falta de fé. Se as pessoas jovens desenvolverem as mesmas paixões e elevados conceitos como os pioneiros da viagem espacial uma vez fizeram, quem agora está encorajado pelos instrumentos que o viajante de Marte, Curiosity, está empregando, e que agora mudou a experiência sensorial do homem, reconhecidamente, com um atraso de 14 minutos, o mundo entrou numa nova fase espacial; se os jovens desenvolverem essa paixão, então nós ganhamos. Na nova fase da humanidade, o homem irá pensar como cientista e como os compositores das grandes obras de arte Clássicas.

Nós ou agimos agora, nesse momento de perigo existencial, pelos propósitos comuns da humanidade, ou nós não iremos existir.


O gráfico da tripla curva criado por Lyndon LaRouche: porquê as medidas hiperinflacionárias (bail-out) ou recessivas (bail-in) não condizem com o incremento da economia física (vulgarmente chamada de “economia real”)

A Nova Rota da Seda se transforma na Ponte Terrestre Mundial

Como o homem vê seus deuses

O homem-deus-besta egípcio e o homem grego representando Hermes e seu filho Dionísio, na escultura de Praxiteles

Na célebre peça de Ésquilo, Prometeu Acorrentado, três visões se dividem: uma em que Prometeu nada mais é do que um traidor, um integrante do grupo dos deuses oligarcas, e que deve ser castigado; na outra, a de um herói revolucionário, apaixonado, de conotações marxistas, e que traz o fogo à Terra; numa terceira visão, não é Prometeu, mas Zeus, o deus oligarca, o personagem trágico da peça.No escudo de Aquiles, descrito por Homero, também toda uma concepção distinta a respeito da visão do homem de seus deuses e heróis pode ser vista. Como isso molda nossa cultura? A qual espécie de deuses imaginamos servir, em nossas mentes e em nossas atitudes cotidianas como atitudes sempre políticas?

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Caos e Teoria Social: a história do Instituto Tavistock

 

Breve história do instituto de engenharia social do condado de Sussex, Inglaterra, responsável pela elaboração de determinantes padrões de manipulação social através da mídia, desde o Radio Research Project, liderado por Theodor Adorno e a Escola de Frankfurt, até a criação do conceito de Contracultura, em pleno festival de Woodstock, com a distribuição massiva, protegida por agentes de Estado, de pílulas de LSD. A famosa música Lucy in the Sky with Diamonds (LSD), foi um dos subprodutos desse projeto. Conhecer Tavistock é conhecer as mais intimas formatações dos programas televisivos e midiáticos atuais, a partir de seus padrões de atuação mais amplos, que dinamita boa parte das comparações “mídia brasileira versus mídia estrangeira”. A engenharia social é anterior ao conchavo civil-midiático com o grupo Time-Life, no Brasil, e passa pela criação de figuras como a do Mickey Mouse, até a de mitos sacrossantos (hoje nem tanto mais) como Bill Gates. 

 

Texto em PDF disponível na Academia.edu

 

Sede do Instituto Tavistock, no condado de Sussex, Londres.

Acredito que para a maioria das pessoas que pelo menos aprenderam a tarefa básica de checar suas fontes de informação, problematizando sua origem, seu conteúdo e os objetivos das mensagens delegadas ao nosso entendimento, não será tarefa difícil interpretar as palavras que seguem nesse texto. A nossa vida física é corolário de nossa atitude mental, portanto o cidadão médio, muitas vezes embrutecido não tanto pela diversidade de fontes de conhecimento, mas pela multiplicidade de informações não explicadas satisfatoriamente, pereça ante posturas inadequadas frente à vida, gerando se não a infantilidade em corpos adultos, sem dúvida as tristes cenas de depressão, niilismo e descaso perante a existência. Tal montante de desinformação é diretamente proporcional às altas taxas de suicídio nas metrópoles dos países considerados mais desenvolvidos e à imbecilidade e ao escapismo das massas.

Nos anos oitenta veio a baila um livro chamado A Conspiração Aquariana (FERGUSON, 2006), com um título em inglês sugestivamente diferente, The Changing Images of Man. A autora, procurando movimentos inovadores de transformação da sociedade humana, acabou percebendo um vínculo invisível entre os mais diferentes estratos sociais, os quais às vezes acabavam se comunicando apenas por sinais sutis, sem ao menos perceber que estavam interconectados. “Sim, essa é uma conspiração!”, clamou a jovem escritora. Seria uma conspiração do bem, holística, impregnada em cada ângulo, o mais estreito, de uma nova sociedade que surgia. Apolítico seria também esse movimento, podendo influenciar nos EUA tanto a republicanos como a democratas.

Tal revolução silenciosa começou a ser feita pelos jovens da New Age, os “filhos da flor” e toda denominação a mais que pode ser dada a geração que vivenciou a contracultura. Os baluartes dessa época, assim como seus filhos, trazendo em si todo o desejo de transformação da geração que lutou contra a guerra do Vietnã, pelo amor livre, etc., são hoje os que compõem os quadros dos partidos verdes espalhados pelo mundo, das organizações filantrópicas para o bem estar da humanidade. Dos globalistas, enfim.

Com certeza, na América Latina tivemos tentativas de nos fazermos “filhos da flor”. Mas tentativas apenas. Fora o contingente que simplesmente por serem drogados se denominavam hippies, os anos de chumbo das ditaduras militares espalhadas pelo continente dispersaram a unidade requerida para se criar um movimento como esses. Não usamos, aqui, como armas principais, charutos feitos com erva, ou mecanicamente promovemos o “desbunde”. Isso foi tarefa para nosso pequeno clube de intelectuais “iluminados” de classe-média, na esteira dos hippies, a partir dos anos oitenta e com a redemocratização do país. Durante os duros anos que sucederam ao golpe de Estado militar, a briga no Brasil foi feia, sem dar margem a devaneios.

 As drogas sintéticas e a contra-revolução da CIA

Daniel Estulin demonstrou à exaustão, com argumentos e provas abundantes, os vínculos entre a CIA, Instituo Tavistock e a Escola de Frankfurt, na criação do conceito de contracultura.

 

Robert Santelli, em seu libro, Aquarius Rising, escreveu: “O LSD circulava em abundância em Monterey. Davam-se tabletes de “Púrpura de Monterey” (uma substância similar ao LSD chamada também Bruma Púrpura) literalmente a qualquer um que quisesse experimentar um pouco”. Os dois personagens responsáveis pela distribuição em Coco Beach, Florida, se chamavam Peter Goodrich, e o legendario agente a soldo da CIA cujo nome chave era Coiote. (ESTULIN, 2001: 140)

 

Mais adiante lembra o autor de um aviso dado por um dos organizadores de Woodstock, Wavy Gravy (agente da conhecida operação MK-ULTRA), e noticiado pelo New York Times em 17 de agosto daquele ano de 1969: “Esta noite, um empregado do festival fez uma advertência no palco que se estava distribuindo ‘ácido mal fabricado’. Disse: ‘Vocês não estão tomando ácido mal fabricado. Vocês não vão morrer. […] Se vocês estão pensando que estão tomando veneno, não é verdade. Mas se estão preocupados, tomem só meia pastilha’”.

A fórmula que explica tamanha flexibilização nos costumes é a seguinte. Em Woodstock, por exemplo, quem fazia a segurança do festival era uma comuna de nome Hog Farm, conhecida pelo envolvimento com tráfico de entorpecentes. Essa comuna, como não poderia deixar de ser, era vigiada por agentes encobertos da CIA e FBI. No entanto, a infiltração de agentes como Peter Goodrich, o Coiote, permitia a entrada massiva das drogas produzidas nos laboratórios subordinados aos grandes institutos de engenharia social, como Tavistock – apoiado por antropólogos, psicólogos e cientistas sociais. De fato, o Festival de Woodstock foi o primeiro experimento massivo de lavagem cerebral através de alucinógenos clinicamente fabricados.

Mais tarde, se deu a criação da rede televisiva MTV, também baseada nos estudos da Escola de Frankfurt e Tavistock com o fim de promover uma guerra silenciosa, matando não os corpos, mas a própria personalidade das pessoas. Qual é a lógica e em que se baseia o estudo que inspirou a criação da MTV? Estudos psiquiátricos comprovavam que determinadas imagens, mas principalmente sons, ficavam impregnados na psique de jovens entre 15 e 25 anos, repercutindo vida a fora. Quando os baby boomers da contracultura ouviam, já na fase adulta, as músicas de sua adolescência, eram levados imediatamente às mesma sensações daqueles dias nos quais experimentaram a mistura de drogas e músicas estridentes. Essa modalidade de catarse espontânea, detectada pelos cientistas de Tavistock e provocada pelas rádios de músicas “clássicas” e pela programação televisiva, levava as cobaias do experimento massivo de LSD à mesma faixa mental de alienação provocada quando de sua juventude.

As “imagens cambiantes do homem” (do livro acima citado), LSD e baby boom (contingente de jovens com a programação mental adulterada através da cultura de massas do pós-guerra) guardam a mesma relação com a formatação da programação televisiva, alienação e controle mental. Quando se formata um programa jornalístico na TV, por exemplo, o princípio que se leva a cabo é o da euforia provocada por psicotrópicos, “the changing images of man”. Com notícias curtas e impactantes, geralmente com duração de trinta segundos a um minuto (um minuto e meio se a notícia é realmente importante), trazendo flashes de entrevistas (entrevistas que duram por vezes trinta minutos, uma hora ou mais) e depoimentos que, sob o manto da imparcialidade, confundem o espectador muito mais do que informam (pelo tempo curto e a fragmentação do conteúdo, com falas que acabam se chocando em vez de se contraporem), provocam uma euforia passageira em quem assiste e uma depressão que a sucede, dada a impossibilidade de o homem mais firme intelectualmente conseguir firmar uma opinião que seja em relação ao conteúdo assistido.

Nos EUA, diz o autor que trouxe à luz os métodos utilizados pelo instituto localizado no condado de Sussex, Inglaterra, geralmente as imagens terrificantes expostas pela mídia é contrabalanceada com a imagem do “super-presidente” que irá salvar a nação do caos. No Brasil, como não temos mais figuras como a do “caçador de marajás” ou a do “pai do Real”, a roupa de super-homem geralmente é vestida por analistas financeiros e demais agentes do mercado, assim como, atualmente, pela oposição janista cujo lema é a vassoura anti-corrupção, a qual no passado nos levou ao golpe de 64. Tal esvaziamento da política associando-a a tudo o que há de mal e perverso no mundo tem um só objetivo: enfraquecer a democracia corrente, dos políticos escolhidos pela população e da dialética desta com aqueles, e legitimar por outro lado o discurso produzido pelo “deus mercado” (produtor da crise financeira internacional) e seus analistas e especialistas, como também fortalecer os homens públicos porta-vozes da mesma ideologia, mas cujo poder está em franco declínio no país.

 

Walt Disney e a publicidade

Falo sobre drogas e corrupção, mas, sobretudo, de tirania e limitação das liberdades democráticas. De nada inútil se falamos de Wall Disney e de publicidade. E assim veremos aonde se encontra o êxtase produzido pelas “imagens cambiantes”, pelo LSD virtual produzido pela programação televisiva.

 

Os anúncios publicitários carregados de imagens repletas de valores que não guardam relação com o produto podem nos afastar dos mesmos valores que estão explorando, nos confundindo acerca de como haveremos de alcançar tais valores, e abrir a porta à desesperança, ao ressentimento e a apatia.

Como os produtos não proporcionam a recompensa psíquica que prometiam as imagens do anúncio, ficamos em dúvida se haverá algo que a proporcione. Se continuarmos com essa dúvida, terminaremos nos deprimindo e vendo quase todos os produtos rodeados por um fundo negro, o negativo fotográfico de seu antigo resplendor, o fundo negro das promessas não cumpridas. (ESTULIN, 2011: 217)

 

Depois de sermos tragados para um mundo onde subjaz soberano o reino da degradação humana, repleto de guerras, corrupção, intrigas e mentiras invencíveis, somos levados ao mundo mítico dos sonhos, das imagens arquetípicas baseadas no estudo do inconsciente coletivo. Mergulhamos em tal universo, sem darmos conta da estupefação causada pela miséria da condição humana, delegada pelas mensagens anteriores dos jornalões, firmemente controlados pelas elites financeiras e intelectuais de nossos países. Automaticamente – sem nunca ter uma pausa para procurar nos darmos conta do que está acontecendo nesse mundo paralelo no qual ora viajamos – passamos a associar como a única saída à nossa derrocada final enquanto seres humanos as telas repletas de fantasias dos anúncios publicitários. Semelhante lógica também se aplica quando assistimos ao outro pilar do embrutecimento cultural das massas: as novelas televisivas e suas tramas de perfídia, assassinato e luxúria.

Porém, “o fundo negro das promessas não cumpridas” não se estabelece simplesmente levando em conta o contraste que até aqui analisamos. Numa análise invertida (pois não devemos levar em conta apenas as classes ou as pessoas que chegam a aspirar realizar sua encarnação como pessoas em algum ideal publicitário), os próprios anúncios se tornam a fonte de angústia. Ao irmos tomar uma água ou fazer outra tarefa qualquer durante o intervalo, e subitamente nos darmos conta da realidade em que vivemos, financeira e ontologicamente (nesse sentido, naquelas pessoas que cumprem o ideal propagado e olham ao redor e se sentem profundamente insatisfeitas ou vazias). Daí aparece o jornalão ou a novela aguada como fonte de fuga da realidade. Os amantes das novelas encarnam nos personagens de sua admiração e passam a viver uma vida paralela; os interessados no noticiário encarnam a sabedoria dos apresentadores e repórteres, tão desprovida de conteúdo significativo quanto a densidade psicológica de um protagonista de novela.

Na verdade, há um processo dialético onde as pessoas criam correspondências entre seus ideais de produtos a serem consumidos e os ideais sócio-políticos ou afetivos a que aspiram, seja no jornal ou nas novelas. Nesse sentido, a programação “editada” – os programas que ora analisamos – se complementam com os anúncios publicitários, tornando-os todos, no fim, mera publicidade, ou seja, promessas. Tudo isso sob um pano de fundo tenebroso onde figura a degradação do ser humano no palco do mundo e a degradação do ser enquanto pessoa, ao simplesmente reagir com dor ou indiferença à frustrada realização dos desejos mercadológicos.

 

 Mickey e o Adolf Hitler

 

Caos e Engenharia Social
O gênio hereditário nas crianças, de Francis Galton.
A pessoa bonita comum de acordo com pesquisas modernas
As crianças saudáveis do Clube do Mickey são órfãs de Francis Galton? No alto, três tempos de uma mesma história.

Aqui entra Mickey Mouse e a substituição da suástica pelas orelhas de rato. Mas, como assim? Como ligar um personagem tão simpático a um símbolo extremamente repugnante? Simples, com uma palavra bem pouco complexa: paperclip. Ou seja, a Operação Paperclip, de cooptação de elementos nazistas pelo governo-norte americano durante o pós-guerra.

Tal operação não é somente aquela que ficou conhecida pela contratação de nazistas para ajudar no programa atômico norte-americano. Sabedores dos conflitos que naquele contexto geopolítico iria se travar entre EUA e URSS, os artífices da política em Washington contrataram desde especialistas em tecnologia de armas nucleares a médicos, especialistas em guerras psicológicas nazistas (junto com a organização Gehlen), espias, assassinos e sabotadores.

Segundo Estulin, as provas são fundamentalmente circunstanciais, mas podem ser encontradas na seção Captured German Documents dos Arquivos Nacionais norte-americanos e serem comparadas com memórias e biografias dos anos da guerra e do pós-guerra. As memórias de Wulff, astrólogo de Himmler, diz ter os nazistas o desejo de criar um programa dentro do Reich que reproduzisse o estado mental de um soldado japonês, “um ser humano ávido e desejoso de arriscar a vida por seu país sem fazer perguntas” (ESTULIN, 2011: 67), e do soldado comunista chinês, “capaz de lançar-se sem pensar rumo a uma morte segura” (ESTULIN, 2011: 67). Os cientistas nazis, entre eles Friedrich Hoffmann, um químico nazista que assessorou a CIA no uso de substâncias psicotrópicas de lavagem de cérebro, estiveram trabalhando em programas de controle mental com militares e a CIA.

Hitler e Mickey Mouse: nada poderia ser mais coincidente. Assim conta Lonnie Wolfe, em artigo para a revista New Federalist, falando sobre o Mickey Mouse Club:

 

Cada criança, em sua casa, era “doutrinado” com um ritual de iniciação na televisão, e instado a cantarolar ao mesmo tempo canções cuja letra ia aparecendo na  tela e a repetir coisas que ia indicando o chefe do grupo na televisão. Tudo fazia com suas “orelhas de rato” postas, que estavam desenhadas para serem identificadas com a figura animal de Mickey Mouse. Ao final do programa, o líder do grupo, um macho adulto jovem, pronunciava um sermão que era reforçado pelos Mouseketeers presentes no palco. Fazia-se tudo isso enquanto as crianças do estúdio e as que estavam em casa colocavam as orelhas e faziam a “saudação ao clube”. Quantas pessoas são conscientes de que cada vez que diziam a saudação estavam aceitando uma nova religião, semi-pagã, e um deus novo, o rato? […]

[Em outra época e em outro país europeu] outra geração de crianças recebeu uma série de valores de forma organizada de pessoas que não eram seus pais. A Juventude Hitlerista da Alemanha nazi. Eles também lhes diziam para não ouvir seus pais e que fossem Bons patriotas, que fossem educados e que se comportassem bem (WOLF, 2007).

 

Continua Estulin: “o truque radicava em fazer desaparecer os nazis, mas não seus ideais. O Estado e os valores nazis, mas sem a bagagem nazi. Mickey Mouse e Hiltler. Compreende o paralelismo?”(ESTULIN, 2011: 168).

A lógica que permeia os desenhos da Disney são os mesmos de nossa tradição televisiva. Geralmente personagens muito bons ao lado de outros muito maus (ou seja, a caracterização das “peças” televisivas se faz através dos contrastes mais óbvios) em meio a um conflito que nunca irá se resolver pela “fagulha divina da razão humana”. Em todos os desenhos da Disney sempre aparece uma espécie de deus ex maquina, geralmente uma entidade sobrenatural (uma fada gorda ou um monstro simpático, por exemplo) para resolver os conflitos sem qualquer intervenção humana. Tal subordinação da razão humana e sua capacidade para resolver conflitos a entidades sobrenaturais, vinculada a uma profunda carga emotiva exposta nesses desenhos, faz o intelecto das crianças permanecerem intactos naquela idade, sem ao menos começarem a desenvolver seu raciocínio lógico – o mais elementar que seja. Já a carga emotiva, principalmente, envolve os adultos naquelas tramas, fazendo-os também regressarem sua memória, porém sem o trabalho da razão. Nesse caso, toda a carga emotiva de nossos conteúdos mnemônicos jaz soberana em nosso intelecto, transformando-nos também em crianças – só que não fascinadas pelas resoluções mirabolantes dos dramas, como ficam os pequenos. Tornamo-nos simplesmente adultos chorões, infantilizados.

Porém, as novelas, com seus finais felizes, servem exatamente para isso: nos deixar mais e mais abobalhados. A questão atual dos autores de colocarem um contexto social em seus enredos deturpa ainda mais a finalidade de seu produto, a qual poderia ser verdadeiramente a educação das massas. Ambientado nos contrastes simplórios: os ricos de um lado e toda uma vida de sonho; os pobres do lado, às vezes injustiçados como cinderelas, nivela por baixo a capacidade intelectiva da população. A evasão dos problemas fundamentais de nossa existência enquanto cidadãos brasileiros, a da ascensão da pobreza por meio de oportunidades reais de trabalho, a subordinação de nosso país a interesses outros, como o das finanças internacionais, os objetivos do ensino escolar e superior, etc., são literalmente olvidados em favor de questões tais como “intrigas palacianas”, ou seja, ricos dando golpes em ricos ou pobres geralmente sofrendo com problemas no amor ou de injustiças realizadas por alguma “tia má”.

Os meios de desinformação, através do oligopólio de nossa mídia dominada pelo baronato ao estilo imperial, são abundantes. Como Alexander Hamilton tremeria ao ver a farra do sistema financeiro num país como os EUA o qual não possui nem ao menos um banco nacional e público, com certeza Dias Gomes tremeria ao ver seu teatro, o qual também transformou em novela, num meio claro de idiotização das massas.

Os heróis da mídia também são mutáveis como as “imagens cambiantes do homem”. Ora, numa campanha eleitoral, vemos as propostas ou (caso não as tenha) promessas dos candidatos. O cidadão identificado com um político ou partido se sentirá num mundo de sonho que pode até ser realizado, como nas campanhas publicitárias. Caso o cidadão seja de todo alienado do debate político, torcerá veementemente para voltar logo a programação habitual. O herói passa a ser o apresentador do telejornal, o moralista de plantão, mostrando as “verdades” sobre a política nacional ou internacional. Na verdade, é uma questão de troca de “reis taumaturgos”, como no livro homônimo de Marc Bloch. De fato, tal livro foi concebido bem na época da Escola de Frankfurt e no estudo sobre indústria e a psicologia das massas. Os “reis taumaturgos” são os reis (leia-se políticos) cuja coroação se deu com as bênçãos da Igreja (leia-se mídia, ou seja, o poder do conhecimento e do domínio da informação) e tinham poderes sagrados, como o de curar as escrófulas – doença, associada à tuberculose, comum na época.

 

Beatles e Tavistock

As ligações da assim conhecida Escola de Frankfurt com o Instituto Tavistock podem ser melhor compreendidas a partir da criação do fenômeno radiofônico dos Beatles. Daniel Estulin, através do acesso à correspondência privada entre EMI (Eletronic and Music Industries Ltd) e Theodor Adorno (ESTULIN, 2006), recontou a história da banda de música “limpa” que subitamente dominou o Ocidente depois de gloriosos anos tocando em prostíbulos impulsionados por drogas variadas. Adorno, levando a cabo experiências sociais cujos objetivos seria o controle das massas, escreveu a maioria das letras da banda inglesa. Adorno seria o cientista sem escrúpulos levando a efeito seus experimentos; Tavistock a organização responsável por reproduzi-los em grande escala no intuito de criar um novo paradigma a ser seguido pela sociedade.

No mesmo ano, 1937, a Fundação Rockeffeler fundou um projeto para estudar os efeitos do Dário na população. Recrutado para o que ficou conhecido como “Radio Research Project”, aquartelado na Universidade de Princeton, estavam seções da Escola de Frankfurt, agora transplantada da Alemanha para a América, assim como indivíduos como Hadley Cantril e Gordon Allport, que se tornaram componentes chave das operações americanas de Tavistock. Encabeçando o projeto estava  Paul Lazerfeld, da Escola de Frankfurt; seus diretores assistentes eram Cantril e Allport, junto a Frank Staton, que era o cabeça da divisão da CBS News, depois se tornando seu presidente, assim como chairman do conselho da RAND Corporation.

O projeto foi prefaciado pelo trabalho teórico feito anteriormente nos estudos de propaganda de guerra e psicose, e no trabalho dos operadores da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin e Theodor Adorno. Esse trabalho anterior se converteu na tese de que a mídia de massa pode ser usada para induzir estados mentais regressivos, atomizando indivíduos e produzindo crescente sujeição. (Esse condições mentais induzidas foram depois chamadas dentro do próprio Tavistock de estados de “cérebro lavado”, e o processo de o induzir chamado “lavagem cerebral”) (WOLF, 1997).

Se o objetivo da clínica (e depois instituto) era mudar as imagens dos homens, suas letras relatando a experiência do consumo de drogas, principalmente o LSD (Lucy in the Skies with Diamonds), faziam servir a banda inglesa como imã para os festivais regados a alucinógenos tavistockianos e servidos por agentes dos serviços de espionagem. Os Beatles como um fenômeno musical são um marco em nossa cultura. Quão contrastante se dá a comparação caso os coloquemos lado a lado com outras bandas que fizeram parte da mesma “contracultura”. São também cambiantes esses heróis, ao lado de uma pequena elite de “iluminados” rigidamente escolhida pela mídia de plantão e pelos mais variados “especialistas”. Foram tantos os “heróis” mortos por causa de drogas ou que tiveram sua carreira arruinada pela vida desregrada ou que simplesmente desapareceram que fica difícil falar num fenômeno como a contracultura, aparentemente tão abrangente, sem colocar no centro do discurso – sempre – dois ou três nomes preferidos por uma espécie de intelectualidade que os tornou vocabulário fácil de qualquer amante de rock. Podemos entender as mainstream bandas da contracultura como representação dos mesmos grupos de elite que as criaram. O que significa, sempre, poucas referências. Pode ser que nas palavras de um especialista relativamente erudito possam aparecer milhares de bandas completamente desconhecidas dos amantes ou amadores em rock’n roll. Mas serão no máximo cometas, órbitas errantes ao redor dos astros escolhidos por uma cultura que se auto-afirma através de um consenso ignorante e bestial.

As “damas” da TV e os atores “consagrados” atendem a mesma lógica. Depois de velhos – e devidamente batizados –, são colocados em papéis protocolares, exercendo o papel de grandes damas também nas ficções nas quais atuam. No máximo, caso seja uma dama não tão “auto-suficiente” podem se expor mais: papéis relativamente cômicos (não tanto para a “dama” não cair no ridículo) é que lhes basta. De resto, uma manada de atores que se revezam num sucesso completamente alucinante, como numa roda gigante sem controlador. Alguns poucos ganham notoriedade acima da comum (não são esquecidos tão facilmente); são o estoque, a reserva de atores caso haja algum contratempo na execução das peças ficcionais. São também os candidatos que se acotovelam para depois se encontrarem entre os diminutos “atores consagrados”. Mas consagrados por quem?

A lógica da contracultura, das imagens cambiantes, da subversão das imagens que os homens possuem como referência não pode estar fora do mundo político. Mas quem são os políticos respeitados, os verdadeiros chefes-de-Estado? Contracultura talvez possa ser traduzido como o oposto da cultura, ou seja, dos bens imateriais produzidos por uma civilização ao longo do tempo. Bens que só se tornaram imateriais, patrimônio comum de um povo, por sedimentado em sua mais profunda subjetividade. Daí entra a contracultura, ou a contra-insurgência, para transformar as referências nacionais remetendo-as a uma elite iluminada, representação da elite que cria essas imagens.

As elites, é claro, sempre existiram. Não houve o comunismo ou o tribalismo mais subdesenvolvido que não as tenha possuído. No primeiro caso, inclusive, se criou uma “ultra-elite”, talvez bem próxima da que averiguamos aqui quando falamos de TV. Quando se criam tais sistemas primários de comando-subordinação – artificialmente, é lógico, pois baseada numa sociedade inteiramente mais complexa –, se cria um vácuo tremendo entre a elite diminuta e a massa completamente carente de referências com as quais possam estabelecer parâmetros de comparação e posterior superação ou auto-afirmação de si próprios. Os heróis cívicos do nazismo, os oficiais da SS, seus cientistas ilustres e todo contingente de grupamentos cambiáveis na estrutura de poder da Alemanha hitlerista são os precursores de nossos heróis midiáticos. Uma hora oficial nazi; noutra traidor do regime ou simples refugo humano, pronto para ser eliminado. Assim o regime devorava a si próprio, mantendo sua elite como um grande cérebro num corpo propositalmente subnutrido. Assim o regime adicionava novos contingentes à sua horda revolucionária e entorpecia as massas criando oportunidades fictícias de ingresso no status quo. O fenômeno mais recente de criação de “heróis cambiáveis” é sem dúvida a criação do “Grande Olho”, o também nosso Big Brother.

Daí, podemos concluir, que entre os modelos de plantão das ficções televisivas noturnas e os bandos de especialistas nos telejornais diários não há diferença de natureza. Ambos se esforçam por aparentar a virtude que nunca terão. A verdadeira virtude, nas novelas, subjaz principalmente nas damas e nos venerados atores de cabelos grisalhos; no telejornal, no apresentador onipresente, mimeses perfeita da direção jornalística da emissora, de seu “grande olho”, de sua inteligência implacável, como a dos revolucionários do Terror. Entre a base e o topo, somente podemos enxergar as “imagens cambiáveis” propostas pela TV. Mais claramente: a base é o chão de estrelas permutáveis; o topo, o sol imorredouro, intocável.

Qual sistema se encaixa perfeitamente em tal configuração de poder? Somente o sinarquismo ou o nazi-comunismo. Sua elite geneticamente superior (pois não sabemos o que fez esse ou aquele para mereceram alcançar alguma espécie de topo na grade do poder a não ser um talento inato, próprio a uma raça superior) e a base dos servos da gleba, intercambiáveis e partilhando entre si as migalhas vindas do alto. O mesmo sinarquismo ou nazi-comunismo que querem nos impor através dos “organismos globais”, tais como ONU, OTAN, FMI ou ONGs internacionais. A política de crescimento zero dos ambientalistas e dos economistas lacaios do Banco Mundial. A política de desenvolvimento intelectual nulo de nossa imprensa e academia, profundamente comprometidos com os cânones mais retrógrados e perversos. A mesma inteligência “globalista” fundou nosso sistema televisivo e impôs um governo militarista, como o de Stálin, para usar a força, quando necessário. E depois abriram os mercados e desmilitarizaram o poder. Hoje, com a crise internacional, podemos enxergar com mais clareza no que consistiu a “liberdade de mercado” e a “liberdade de imprensa”. Esta justifica as guerras e a opressão criadas por aquela, numa operação dupla, tal como os banqueiros que financiavam os dois lados da guerra mundial e os empresários que em plena Guerra Fria saiam de Wall Street para construir fábricas na URSS (SUTTON, 1976). Quantos soldados americanos morreram por tanques americanos construídos em solo inimigo? Nossos estatísticos talvez ainda não tenham tempo para fazer esse tipo de conta.

 

Um caso de estudo: Gates e Hitler

Bill Gates interessa ao nosso relato sob dois aspectos. O primeiro é o do sinarquismo, como acima destacado. A fundação de Bill e Melinda Gates, junto a Fundação Rockfeller e outras organizações supostamente filantrópicas, trabalham junto a Monsanto e o agro-cartel internacional para desenvolver sementes geneticamente modificadas. Suas pesquisas com as sementes de arroz, batata, trigo, e outras, visam, aparentemente, desenvolver meios de melhorar a produção agrícola, principalmente africana. Por outro lado, injetam milhões em pesquisas que mantém a propriedade intelectual das mutações produzidas com as próprias firmas que as realizam. Fora o fato de produtos naturais não terem direito à patente na maioria dos países do mundo, o fruto das pesquisas depois é vendido aos agricultores dos países pobres, gerando um ciclo de dependência irreversível para com os produtos das multinacionais.

Não podemos pormenorizar aqui todos os malefícios trazidos pelos transgênicos. Apenas aludimos ao controle internacional exercida por pouquíssimas empresas nesse mercado, tendo a Monsanto como a maior líder: líder nas políticas de fome em qualquer lugar onde se faça presente. Genocídio poderia ser o codinome da Global Food and Agriculture Initiative, administrada pelo Banco Mundial: a política da redução populacional para um mundo sem recursos naturais.

O segundo aspecto, não menos evidente, é o da construção de uma imagem pública que em absoluto corresponde à realidade. Penso não serem desconhecida as histórias de Bill Gates antes da fama, principalmente seus atritos com Steve Jobs e a criação do Windows. Porém, tamanha contenda entre dois “gênios” só seria verdadeira caso se tratassem de seres excepcionais. No caso de Gates existe de tudo, menos honestidade, como tampouco originalidade criativa. A jornalista norte-americana Wendy Goldman Rohm descreve com detalhes escabrosos (na verdade, escabroso não é o relato, bastante refinado, mas o próprio protagonista) as jogadas de mercado do “gênio” do software para alcançar a hegemonia com sua empresa (ROHM, 2001).

Já de posse do sistema de janelas criado pela Apple, Gates prometia mundos e fundos à IBM quanto à conclusão do sistema operacional que estava sendo desenvolvido pela empresa para fazer frente ao DOS. Assim como não ajudou a IBM em seu projeto, se aproveitou das informações privilegiadas da empresa para, junto com seus próprios dados, construir o MS-DOS. Realizado seu intento, saiu da empresa e começou a busca que iria levá-lo ao topo do mercado. Com uma plataforma bastante similar ao do concorrente, o DR-DOS, o empresário iniciou suas práticas de venda predatórias ao associar seu DOS ao Windows. Obrigava aos vendedores a fazer pacotes onde o Windows deveria estar acompanhado do DOS da Microsoft. Caso contrário, aumentaria seus preços (os quais propositadamente eram colocados bem abaixo dos preços de mercado) tornando o produto praticamente inegociável. Mas esta foi apenas a tática inicial.

Querendo ampliar ainda mais sua parcela nas vendas depois da frustrada tentativa de compra do DR-DOS, com o lançamento do Windows 3.0 introduz capciosamente mensagens de erro quando o sistema operacional não funciona com o MS-DOS. Era como que, tal como hoje em determinados produtos, caso não tivéssemos Windows, eles não funcionariam corretamente. Mas a jogada de gênio se deu com o lançamento do Windows 95 e a possibilidade de domínio do sistema de redes. A internet oferecia um amplo mercado nunca antes vislumbrado pelo empresário. Segue daí a derrota incontornável da justiça norte-americana e a estabilização de Bill Gates como “gênio” da informática. O Internet Explorer assumiu a hegemonia nos CPUs, a qual foi duramente contestada nos anos subseqüentes. Ao atrelar o software ao sistema operacional, continuando com as práticas predatórias de vendas de produtos – sob concessões – em preços muito abaixo dos de mercado, legitimou finalmente a Microsoft como gigante do mercado e fez lançar sua imagem pública tal como ainda é vista nos dias de hoje.

É sintomática a afirmativa da autora quando da passagem crucial operada pelo lançamento do Windows 95:

Fazia apenas alguns dias desde que o gigante do software tinha iniciado a fabricação do Windows 95 e Gates assemelhava-se a um misto de entusiasmo e coragem.

– Talvez tenham reparado que fizemos uma boa divulgação do Windows 95 – afirmou. Seria a declaração mais atenuada até então, desde que um procurador da Microsoft havia admitido a um juiz federal, no final do ano anterior: “O Windows é um sucesso”.

No mundo inteiro, jornais apresentaram o produto como matéria de primeira página. Quando o produto de uma empresa – talvez um avanço científico, que não era o caso do Windows 95 – merecia tal destaque nos jornais?

Bem antes de sua disponibilidade no mercado, O Windows 95 parecia receber mais atenção, por parte da imprensa, do que a campanha presidencial de Clinton. E ainda não estava nítido a Joel Klein, que iniciara uma nova sindicância sobre a empresa, se o Windows 95 e o Network da Microsoft seriam uma enterrada na cesta para Bill Gates, com ou sem Shaquille (ROHM, 2001: 257).

 

O funeral da Netscape estava preparado. Infringindo todas as normas anti-truste, Bill Gates “acoplou” o Internet Explorer ao Windows, minando definitivamente com a concorrência. Foi a cartada final do “gigante” do software.

 

CONCLUSÃO

Procuramos mostrar nesse texto, da forma mais sucinta possível, as ligações da CIA, Escola de Frankfurt e o Instituto Tavistock na fabricação nos modelos de manipulação de massas, principalmente através de estudos de engenharia social. É claro que o tema é controverso. Na opinião de quem agora vos escreve, por vezes o autor do livro que usamos como base de análise, é algo unilateral em algumas de suas observações, principalmente no que diz respeito a certos autores em particular. Caso pesquisarmos o histórico dos estudos já feitos sobre esse Instituto, veremos não só Walter Benjamin, Adorno e Freud sendo duramente criticados. Jung, Georg Wells, Huxley, entre outros, igualmente aparecem nesse cenário.

Acredito que para dar conta da responsabilidade individual de cada um desses autores, precisamos de um estudo mais aprofundado. Não resta dúvida que participaram de todos esses projetos que depois se tornaram os modelos de manipulação midiática. O que, por vezes, fica difícil de apreciar, é o nível de consciência desses personagens durante a criação daquela monstruosidade. Para não reduzir nossa análise a termos “tavistokianos”, penso que maiores nuances podem ser traçadas nesse estudo, aqui e acolá.

Acima de tudo, a importância do livro de Daniel Estulin (que talvez seja o mais sintético e abrangente, porém só pioneiro na medida em que aporta nova documentação) é a de se identificar uma origem histórica determinada para a elaboração de conceitos a muito estudados pelas ciências sociais, e também identificar toda a “teoria social” que a partir de então se desenvolveu. Nesse sentido, a delimitação sobre o que é o Instituto Tavistock é extremamente precisa – e preciosa.

 

BIBLIOGRAFIA

ESTULIN, Daniel. El Instituo Tavistock. Barcelona: Ediciones B, Barcelona, 2011.

ESTULIN, Daniel. Los secretos del Club Bilderberg.  Barcelona: Editorial Planeta, 2006.

FERGUSON, Marilyn. A Conspiração Aquariana. Rio de Janeiro: Editora Nova Era, 2006.

ROHM, Wendy Goldman. “O caso Microsoft: a história secreta de como Bill Gates construiu seu império”. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

SUTTON, Anthony. “Wall Street and the rise of Hitler”. Nova Iorque: Buccaneer Books, 1976.

WOLFE, Lonnie. “Brainwashing: How The British Use The Media for Mass Psychological Warfare”. The American Almanac, 5 de maio de 1997.

WOLFE, Lonnie. “Turn off your TV”. New Federalist, 28 de agosto de 2007.

Pensando o não visto

Riemann descansando depois de seus experimentos em geometria física não-euclidiana
Texto traduzido por mim e publicado no site em português da Executive Intelligence Review. É o segundo texto da série, o primeiro, Pensando Sem Palavras, foi publicado aqui.



Por Shawna Halevy
Numa recente discussão no blog[1], nós estivemos debatendo a questão da natureza de certos tipos de pensamento. Eu gostaria de continuá-la com uma discussão mais prolongada em linhas similares, mas com um tema diferente. Comecemos com algumas questões básicas: podemos estabelecer os caminhos para nos expressar sutilmente e com pensamentos significativos (poesia, pintura, música, etc.), mas estaremos atentos às formas que esses pensamentos tomam primeiramente? Você pode se ver pensando? Como seus pensamentos apresentam-separa o seu subconsciente, antes de terem alcançado o estágio de serem traduzidos em alguma coisa comunicável? Buscando em Einstein as respostas, veremos que ele não pensa por palavras, mas em termos de música. Isso nos deixa a imaginar se os pensamentos científicos (e artísticos) cruciais são sensuais de qualquer forma, como comumente aceitado. Vamos olhar para o sentido mais valorizado em termos de pensamento, o pensamento visual[2]. Agora, não estou falando da imaginação visual que usamos ao ler um livro. O que eu gostaria de ver é o que Einstein está fazendo quando ele pensa visualmente sobre coisas que não podem ser vistas. Pense novamente em sua experiência criativa que foi o que o conduziu à sua relatividade especial: “Primeiro vem questões como: E se fosse para correr atrás de um raio de luz? Se alguém corresse rápido o suficiente, será que ele não irá mais se mover?” Ao que uma onda eletro-magnética parece? Alguém já viu a luz em si mesma? O que a luz parece quando ela está parada?




Como resumo do que vamos discutir ao abordar isto: Nós iremos ver como Nicolau de Cusa estende a imaginação para além de como pode ser visualizada ou raciocinada, usando o exemplo do círculo no infinito sendo o mesmo que a linha no infinito. Assim, olharemos o caso da demonstração do cálculo feita por Gottfried Leibniz (um ponto infinitamente pequeno que ainda mantém a proporção). Isso levará ao trabalho de Bernhard Riemann, e para a mesma questão do não-visual nas quatro dimensões do espaço-tempo curvo, de Einstein.
Como vimos em outros lugares[3], nós nem podemos ter como garantidos os objetos que nós pensamos ver; então, o que acontece quando tentamos visualizar não-objetos? Grandes pensadores não pensam em termos de objetos[4], ou ainda em termos de relação entre objetos. Existe a imaginação visual para construir modelos e navegar e tal; mas, quando estamos lidando com conceitos como o de átomo, gravidade, justiça, etc., todas as percepções se revelam como infinitamente pequenas. Isso parece com a discussão de um filósofo de poltrona? Bem, essas questões se tornam importantes quando nós estamos tentando imaginar o futuro da humanidade – algo que não pode ser visto porque isso ainda não existe fisicamente.
Visão Máxima

Comecemos com De Docta Ignorancia[5], de Cusa, como um exercício, que inicia com a premissa: “Quanto mais se sabe que algo é desconhecido, mais conhecido será esse algo”. Desde que toda inquirição usa relações comparativas, o infinito sempre será desconhecido desde que ele escapa a toda comparação. Como conseqüência, o intelecto nunca compreende a verdade tão precisamente que não possa compreendê-la de forma infinitamente mais precisa – nós podemos sempre aprender mais. Cusa usa a analogiade que o intelecto estápara a verdade “assim como um polígono inscrito está para inscrição do círculo” – um está sempre se aproximando, mas nunca obtendo o outro. Em seguida, ele passa a falar sobre o máximo, “porque nós queremos discutir o máximo aprendizado da ignorância”. No Livro 1, Cap. 13, eles estende a mente para além do físico ou visual, ao ir ao infinito com figuras, onde você pode apenas usar a imaginação para pensar nas suas possíveis características.
“Então, se as linhas curvas se tornarem menos curvas em relação à circunferência aumentada do círculo, então a circunferência máxima do círculo, que não pode ser maior, é minimamente curva e, portanto, maximamente reta”. Para complementar o entendimento do leitor, Cusa assim ilustra pedagogicamente o exemplo:
“… nós podemos visualmente reconhecer que é necessário para a linha máxima ser o máximo reta e minimamente curva. Nenhuma dúvida sobre isso pode permanecer quando nós vemos na figura aqui ao lado que o arco CD do círculo maior é menos curvo que o arco EF do círculo menor, e que o arco EF é menos curvo do que o arco GH do círculo ainda menor. Conseqüentemente, a linha reta AB será o arco do círculo máximo, o qual não pode ser maior. E assim nós vemos que o máximo, a linha infinita, é, necessariamente, a mais reta; e a isso nenhuma curvatura é oposta. Com efeito, no seu máximo a linha curva é reta”.
Seu senso lhe permite ver um círculo, a razão permite que você siga o processo contínuo do círculo crescente, mas apenas um saltodointelecto,um alongamentoda imaginação, permite a você ver o círculo infinito como uma linha infinita.
“Dessa maneira, você pode ver que o triângulo é uma linha. Qualquer dos dois lados de um triângulo quantitativo são, se conjugados, mais longos que o terceiro lado, quanto o ângulo que eles formam é menor que os dois ângulos retos. Por exemplo, porque o triângulo BAC é muito menor que os dois ângulos retos, as linhas BA e AC, se conjuntas, são bem maiores que BC, e menor é a sua superfície. Logo, se, por hipótese, uma ângulo pudesse ser dois ângulos retos, o triângulo poderia ser resolvido numa simples linha.
Com efeito, por meio dessas hipóteses, que não podem alcançar a verdade quantitativamente, podem lhe ajudar a ascender qualitativamente; o que é impossível quantitativamente, você pode entender como completamente necessário qualitativamente. Por isto, uma linha infinita é um triângulo máximo Q.E.D”.
Quando nós estamos lidando com funções de qualidade superior a das figuras geométricas usuais, nós podemos usar objetos quantitativos, empurrando-os para a sua fronteira de utilidade, para ver o que está infinitamentealém de seu alcance como uma espécie de filme em negativo.


Visão Mínima

Em seguida, indo do máximo ao mínimo, vamos dar uma olhada no Cálculo de Leibniz, uma invenção para lidar com o desafio[6]de Kepler para trazer a física para as mãos do homem. Como introdução ao problema, leremos o diálogo de Leibniz sobre a continuidade e o movimento:
Charinus: Se pudesse ser-me permitido oferecer uma opinião inexperiente em tais matérias, eu declararia que a transição da Geometria a Física é difícil, e que nós precisaríamos de uma ciência do movimento que conectasse a matéria às formas e a especulação à prática – algo que aprendi em experimentos de vários tipos em meus primeiros treinamentos militares. Pois eu fui constantemente mal sucedido em experimentar novas máquinas e outros deliciosos truques do comércio, porque os movimentos e as forças envolvidas não poderiam ser desenhadas e submetidas à imaginação da mesma forma que as figuras e os corpos podem. Pois sempre que eu concebi em minha alma a estrutura de uma construção ou a forma de uma fortificação, para começar eu deveria reforçar meu pensamento ondulante com modelos minúsculos feitos de madeira ou algum outro material. Posteriomente, quando eu estava mais avançado, fiquei contente em representar sólidos em desenhos planos; e, finalmente, eu gradualmente desenvolvi tal facilidade em imaginar que eu poderia desenhar na minha mente a coisa toda completa com todos os números, e poderia formar expressões vívidas par atodas as suas partes, e contemplá-las como se elas estivessem diante de meus olhos. Mas, quando isso começou a se mover, todo meu carinho e diligência foram de nenhuma utilidade, e nunca pude alcançar o ponto onde um deve compreender as razões e as causas das forças pela imaginação, e formar uma opinião sobre o sucesso das máquinas. Pois eu sempre fiquei empacado logo no início de um movimento incipiente, desde que eu notei que o que deve acontecer durante todo o tempo restante de alguma forma já deve ter acontecido no primeiro momento. Mas raciocinar sobre momentos e pontos, tenho que admitir, estava de fato além da minha compreensão. É por isso que, decepcionado com meus raciocínios, eu estava reduzido a confiar na experiência do meu e de outros povos. Mas esta experiência muitas vezes nos enganou, sempre quando assumimos causas falsas para as coisas que nós tivemos experimentado no lugar das verdadeiras, e estendemos os argumentos delas para coisas que nos pareceram similares”.
Modelar para engenhar alguma coisa é muito útil, sem mencionar os incontáveis outros usos das imagens, mas ainda existe algo acima disso que não pode ser tocado pela imaginação visual, p.ex., tudo o que envolve um processo (como as leis não vistas causadoras de movimento) ou a habilidade para prever resultados de tais processos.
Isso não pode ser abordado aqui em sua totalidade, mas o desenvolvimentos de Leibniz do cálculo (uma descoberta filosófica em sua essência), usando invisíveis para lidar com o mundo tangível, agitou algumas penas. Leibniz em uma carta a Varignon tenta explicar o infinitesimal, usando a lei da continuidade:
“… para ter certeza de que existem linhas na natureza que são infinitamente pequenas num sentido rigoroso, em contraste com nossas linhas ordinárias, [e] afim de evitar sutilezas e fazer meu raciocínio claro a todos, bastaria aqui explicar o infinito através do incomparável, ou seja, pensar quantidades incomparavelmente maiores ou menores do que as nossas… Isso é no sentido de que um pouco de matéria magnética que passe através do vidro não é comparável com um grão de areia, ou esse grão de areia ao globo terrestre, ou o globo ao firmamento… Segue de nosso cálculo que o erro será menor do que qualquer possível erro assinalável, desde que está em nosso poder fazer essa incomparável pequena magnitude tão pequena quanto desejemos… Segue disso que ainda que alguém recuse em admitir linhas infinitas e infinitesimais num rigoroso senso metafísico e como coisas reais, ele ainda pode usar delas com confiança como conceitos ideais que encurtem seu raciocínio, similar ao que chamamos raíz imaginária na álgebra comum…”.
Os matemáticos daqueles dias estavam desconfortáveis com medidas relativas (como se atados à crença em medidas fixas) e estavam, assim, com medo de usar uma “quantidade” que eles não poderiam comparar com suas próprias réguas. O infinitesimal como uma idéia teve de lutar num sentido muito próximo ao que “números” como o zero, frações, números negativos, “irracionais”, “imaginários” fizeram, afim de obter seus direitos civis. Novamente, Leibniz usa uma clara analogia para demonstrar sua idéia, pegando algo simplesmente visível e expandindo-o até o imaginativamente visível. A demonstração é a seguinte:
Justificação do cálculo infinitesimal pela álgebra comum:
Desde que os triângulos CAE e CXY são similares, segue que (x-c)/y = c/e. Consequentemente, se alinha reta EY mais e mais se aproxime do ponto A, sempre preservando o mesmo ângulo no ponto variável C, as linhas retas “c” e “e” irão obviamente diminuir de forma constante, enquanto a relação de “c” com “e” permanecerá constante. Aqui nós supomos que essa relação é diferente de 1 e de que o ângulo dado é diferente de 45 graus.
Agora supomos o caso onde a linha reta EY passa através mesmo de A; é óbvio que os pontos C e E irão dar em A, que a linha reta AC e AE, ou “c” e “e”, irão desaparecer, e que a proporção ou equação (x-c)/y = c/e se tornará x/y = c/e. Então no caso presente x-c = y. Contanto “c” e “e” não serão absolutamente nada, enquanto eles ainda preservam a relação de CX para XY. Pois se “c” e “e” não forem nada num senso absoluto nesse cálculo, no caso em que os pontos C, E e A concidem, “c” e “e” podem ser iguais, desde que um zero é igual a outro, e a equação ou proporção x/y = c/e se tornaria x/y = 0/0 = 1; isso é x = y, o que é um absurdo, desde que nós supomos que o ângulo não é de 45 graus. Consequentemente, “c” e “e” não são tidos como zeros nesse cálculo algébrico, exceto comparativamente em relação  a x e y; mas “c” e “e” ainda possuem uma relação algébrica entre si. E assim eles são tratados como infinitesimais, exatamente como são os elementos que o nosso cálculo diferencial reconhece nas coordenadas das curvas para incrementos e decrementos momentâneos.
Um triângulo infinitesimal tem lado infinitesimais, os quais possuem características diferentes entre si no intuito de conseguir uma relação. Em outras palavras, só porque você não pode ver essas linhas, isso não as torna simples zeros, nem as torna infinitas, isto é, incompreensíveis. A invenção apareceu num período antigo da ciência quando coisas como organismos microscópicos estavam apenas começando a serem compreendidos, ainda bastante distante do trabalho fornecido pelo conhecimento de moléculas e átomos. Cálculos eram mais laboriosos e menos precisos; os domínios que poderiam ser investigados eram bem limitados, dado a ausência de linguagem para trabalhar nisso. Nada tão rápido, nada tão pequeno ou grande, nada que mudasse muito rápido poderia ser considerado. Basicamente, tudo que estava acima da simples experiência sensorial era inacessível. É maravilhoso pensar que tudo isso foi destravado com algo que de forma alguma não é lógico, intuitivo, ou prático, de acordo com o senso comum. O infinitesimal é uma ferramenta não-sensitiva (“fora de senso” – também serve, apesar de não ser tão comum).


Entre o Infinitesimal e o Infinito

Bernhard Riemann fornece uma ponte na ciência, entre antigas fases de Leibniz lidando com a física e com a relatividade dos dias modernos, ao permitir a imaginação se livrar das cadeias do pensamento de nosso mundo nos termos dos corpos sólidos de Euclides, como apresentados aos nossos sentidos. Durante um tempo em que a proeminência do eletromagnetismo (um fenômeno poderoso e invisível) estava desafiando o domínio da física newtoniana, Riemann forçou os limites do que as pessoas estavam confortavelmente pensando sobre isso.
Riemann expandiu o trabalho de Gauss sobre as superfícies curvas anti-euclidianas ao incluir um crescente número de dimensões, sendo o espaço um caso particular de magnitude triplamente estendida. “Segue-se então como uma consequência necessária que as proposições da geometria não podem ser derivadas de noções gerais de magnitude, mas que as propriedades que distinguem o espaço de outras concebíveis magnitudes triplamente estendidas são para serem deduzidas somente pela experiência… Essas matérias de fato são – como todas as matérias de fato – não necessariamente, mas somente de certeza empírica; elas são hipóteses. Nós podemos, portanto, investigar suas probabilidades, as quais dentro dos limites da observação com certeza são bastante grandes, e perguntar sobre a justiça de sua extensão para além dos limites da observação, pelo lado tanto do infinitamente grande quanto do infinitamente pequeno”. Essa observação libertou a geometria dos axiomas de Euclides e permitiu a possibilidade de um espaço esférico e elíptico – isso é: um espaço finito cuja natureza é determinada pelas forças naturais. Assim como Leibniz, os feitos de Riemann foram totalmente guiados por suas ambições filosóficas, assim como expresso em seus fragmentos filosóficos. Vamos dar uma olhada agora em como Riemann lida com o pensamento do não visualizável:
Da Habilitação de Dissertação, de Riemann: III. Aplicação ao Espaço[7].
§ 3. “É sobre a exatidão com a qual nós seguimos o fenômeno para o infinitamente pequeno que o nosso conhecimento das relações casuais essencialmente depende. O progresso dos séculos recentes no conhecimento da mecânica depende quase inteiramente da exatidão da construção que se tornou possível através da invenção do cálculo infinitesimal… Agora, parece que as noções empíricas em que as determinações métricas do espaço são fundadas, a noção de um corpo sólido e de um raio de luz, cessam de ser válidas para o infinitamente pequeno. A questão da validade da hipótese geométrica do infinitamente pequeno é limitada pela questão do território das relações métricas de espaço… Portanto, ou a realidade subjacente ao espaço deve formar uma discreta multiplicação, ou nós devemos procurar o lugar de suas relações métricas fora disso, em forças cegas que agem sobre ela. Isso nos leva ao domínio de uma outra ciência, aquela da física, dentro da qual o objeto de seus procedimentos atuais não permitem ser por nós adentrado”.
Riemann afirma que para lidar com o que não é visualizável, os infinitesimais e a estrutura do espaço, nós devemos deixar o reino da matemática e entrar nos domínios da física. O reino visível dos símbolos e objetos no espaço euclidiano é abandonado por um embate mais imaginativo no mundo dos processos.
A tentativa de Einstein, com sua Teoria da Relatividade, em trazer a física mais próxima à realidade, foi o necessário passo à frente ao trabalho de Riemann. Cloro, os cientistas práticos dos dias de Einstein viram sua “teoria” como apenas isso, um pensamento abstrato que não tinha importância no domínio da física experimental, algo que era apenas útil para os temas filosóficos. A história provou que isso é uma idiotice.
Visualizando o espaço-tempo quadridimendional

Uma das consequências da teoria da relatividade é que as leis da física determinam a forma do espaço, a geometria na qual tudo acontece. Os princípios físicos não dobram um já existente espaço liso, mas criam o efeito que chamamos espaço curvo.
“Nas bases da teoria geral da relatividade, o espaço como oposto ao que ‘preenche o espaço’, não tem uma existência separada. Se nós imaginarmos o campo gravitacional para ser removido, lá não permanecerá nenhum espaço, mas absolutamente nada, e também nenhum “espaço topológico”. Essa é a idéia de espaço, não uma caixa vazia, mas um campo, e é exatamente o que Riemann chamou de busca pelas relações métricas de espaço “nas forças cegas que agem sobre isso”. A natureza da Gravidade é nossa geometria do espaço.
Se nós estivermos para ganhar mais poder e conhecimento sobre o nosso espaço-tempo (i.e., em viagem espacias de longa duração), nós, pelo menos, precisaremos estar aptos para compreender isso.
“Nenhum homem pode visualizar nem três dimensões. Eu penso em quatro dimensões, mas só abstratamente. Nenhuma mente humana pode conceber essas três divisões mais do que pode imaginar a eletricidade.  Contudo, elas não são menos reais que o eletro-magnetismo”.
Einstein usa uma simples analogia para mostrar como alguém pode começar a pensar nessas coisas abstratamente:
“Imagine uma cena num espaço bidimensional, por exemplo, a pintura de um homem se reclinando num banco. Uma árvore está após o banco. Então, imagine que o homem caminhe para a pedra no outro lado da árvore. Ele não pode alcançar a pedra ao menos que ande para frente ou para trás da árvore. Isso é impossível num espaço bidimensional. Ele pode tocar a pedra somente por uma incursão pela terceira dimensão.
Agora, imagine outro homem sentando no banco. Como o outro homem chegou ali? Desde que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, ele só pode ter chegado ali antes ou depois do primeiro homem sair. Em outras palavras, ele só se moveu a tempo. O tempo é a quarta dimensão”.
Isso é muito simples de entender, mas some a esses fatos que essas dimensões não são meramente lineares ou planas, mas que essas quatreo dimensões curvam-se sobre si mesmas, e assim você está lidando com algo que surpreende a mente das pessoas medianas.
“Nós podemos conceber para nós mesmos um universo tridimensional que é finito, ainda que não limitado?”
(Dica: não é uma esfera distorcida ou plana. Não é 3-D. Talvez você esteja pensando no espaço dentro da esfera? Mas o que significa ela ser curva?)
“A resposta usual é ‘não’, mas essa não é a resposta correta. A resposta deveria ser ‘sim’. Eu vou te mostrar isso, sem nenhuma dificuldade extraordinária, nós podemos ilustrar a teoria de um universo finito por meio de uma imagem mental, a qual, com alguma prática, nós paulatinamente nos acostumaremos. Uma teoria de geometria física é incapaz como tal é incapaz de ser diretamente imaginada, sendo apenas um sistema conceitual. Mas esses conceitos servem como propósito para trazer uma multiplicidade de experiências reais ou imaginárias em conexão com a mente. Para “visualizar” uma teoria ou explicá-la alguém, significa, portanto, dar uma representação a essa abundância de experiências para as quais a teoria fornece o arranjo esquemático. Meu único desejo tem sido mostrar que a faculdade humana de ver não é de forma alguma limitada à capitulação à geometria euclidiana.
Na fala de Einstein[8], ele cuidadosamente encaminha as pessoas para que elas possam mapear nosso universo para determinar o que atualmente é ou não o espaço-tempo curvo, que não é infinito em extensão, mas que não é constrangido por fronteiras – como as mesmas condições que nós temos num espaço tridimensional numa esfera. Novamente ficamos impressionados por Einstein corajosamente se aproximar de pensamentos que não podem ser exprimidos diretamente, quer perseguindo um feixe de luz ou trabalhando com uma curvatura (além das duas dimensões) do universo inteiro.



Essa conceitualização de um espaço-tempo curvo, multi-dimensional, que é finito, ainda que ilimitado, é exatamente o que ocorre na composição e na performance de uma peça de música clássica[9]. Quando a música é usada para evocar objetos visuais, como na suíte de Gustav Holst, “Os Planetas”, ou no “Carnaval dos animais”[10], não música clássica composta no nível de Mozart ou Beethoven (algo que nós discutimos antes como sendo a expressão do pensamento pré-consciente).
O positivista iria tentar pular fora do que estamos tentando fazer. “Se isso não é diretamente observável”, eles iriam reclamar, “então, isso não tem nenhum significado!”. “E como você ousa comparar a ciência com algo tão subjetivo como a música?”. Eles separam a imaginação criativa do homem da ciência, tornando a ciência o trabalho dos robôs que coletam dados de nossos sentidos animais. Já os empriricistas são completamente derrotados pelo espaço-temp não-euclidiano, sem mencionar a descoberta dos elétrons e o total advento da ciência atômica[11]. Como vimos, alguns dos mais inovadores pensamentos em ciência ficam por fora do alcance do que pode ser diretamente visualizado. Pense novamente nas experiências de pensamento de Einstein em perseguir um rastreo de luz, a qual nos leva a sua Teoria Geral da Relatividade; ou pense na sua habilidade em conceitualizar a cosmologia de nosso mundo. Qual aviso você seguiria? De Einstein, ou de alguém que precisa olhar antes para as coisas?


A mente, infinita ainda que infinitesimal

O trabalho de Cusa, e de outros, demonstra que a imaginação humana, quando contemplando objetos profundamente verdadeiros de nosso mundo, é inspirada pelo Máximo (o infinito, ou aquilo que é indetectável pelos sentidos), e é capaz, pela douta ignorância, de apreender o infinito como um todo no intelecto, em vez de ser escravo disso. Ao invés de sermos intimidados pelos objetos que ultrapassam nossos sentidos (a inacreditável altura das montanhas, a distância sem fim do horizonte dos mares ou ainda a beleza da vastidão do céu noturno), ao invés de sermos lembrados dos limites de nossa imaginação, nós chegamos à essas coisas no intuito de evocar completamente a imagem de um infinito sensorial, para exercitar o poder superior de nossa idéias sobre o sensualismo. Esse tipo de prática de pensamento nos liberta da opressão do pensamento materialista e estreito.
Do mesmo modo não devemos permitir que a geometria (uma ciência útil em seu próprio reino) domine a física, o pensamento visual, mesmo como simples analogia, não pode ser uma muleta ou um limite para o pensamento criativo. Como todas as ferramentas sensualistas devem ser vistas, quando lidando com princípios fundamentais, como negativas em respeito ao que estamos observando agora, uma sombra e um caso universal limitado, e apenas verdadeiramente útil quando deixado para trás por um salto semelhantemente infinito.
O fato não podermos depender do pensamento sensual para a realidade direta, não pode ser visto como uma desvantagem, ou algo deformador, mas ao invés como um grande poder que só a humanidade possui. Desses poucos casos de homens e idéias extraordinárias por toda a história, é claro que o pensamento humano que está longe de assemelhar-se a percepção da realidade dos sentidos, agora nos deixa próximo à realidade que mais interessa; os princípios agindo sobre o que nós vemos. Por que ir adiante aos recessos de nossa imaginação, mas longe do que a “realidade” exterior parece, nos leva à proximidade dos segredos íntimos do universo? Por um lado, a essência do universo não são os objetos materiais. Mas também, o rigoroso, destilado processo da mente criativa é um princípio do universo. É espelho do não visto processo criativo do “mundo objetivo”. Nós ainda devemos dialogar com o universo por meio dos sentidos, ao conduzir experimentos físicos e leitura de dados – nós não podemos simplesmente falar com nós mesmos e esperarmos encontrar “todas as respostas” – mas a imaginação não verbal, não visual, deve ser explicitamente nutrida e burilada, para manter o progresso desse diálogo. O primeiro passo é reconhecer isso, o princípio criativo da identidade humana como tal. Então, continuemos a praticar o pensamento em formas acima das vistas e dos sons de nossa experiência cotidiana.



[2]Para um bom contraponto ao argumento que eu NÃO estou tentando fazer, leia o capítulo final do livro de Oliver Sack, ’The Mind’s Eye’, e o texto de Gerald Hoton ’The Art of the Scientific Imagination’.
[4]Mas existem objetos-pensamento, o que Riemann iria chamar “geistesmassen” ou o que os psicólogos poderiam chamar “gestalt”. Um parente próximo de Einstein nos diz: “Ele trabalha como um artista. Primeiro ele vê os contornos, você pode dizer a visão, de um grande pensamento, depois ele trabalha para substanciar isto, para dar a isto corpo e alma”.
[5]Uma boa advertência de Cusa: “Quando nos propusemos a investigar o Máximo simbolicamente, devemos nos lançar para além das simples semelhanças. Tendo em vista que todas as matemáticas são finitas, por outro lado não podem sequer ser imaginadas: se nós quisermos usar coisas finitas como um meio para ascender ao inqualificável Máximo, nós devemos primeiro considerar figuras matemáticas finitas junto as suas características e relações. Depois, nós devemos aplicar essas relações, de uma maneira transformada, às correspondentes figuras matemáticas infinitas. Terceiro, nós devemos consequentemente por um meio ainda mais transformado, aplicar as relações dessas figuras infinitas ao Infinito simples, que é totalmente independente mesmo de todas as figuras. Nesse ponto nossa ignorância será ensinada mais incompreensivelmente sobre como nós iremos pensar mais corretamente e verdadeiramente sobre o Mais Alto como tateamos pelo meio do simbolismo”. Saltos de analogia.
[6]New Astronomy Website on WLYM.com Ch 60. Isso aparece junto com as órbitas elípticas, algo longe do linear, o qual está sempre mudando.
[7]Da Riemann’s Habilitation Dissertation (Tese de Habilitação, de Riemann). Tente também explorer (alguns trabalhos sobre a história e o método de Gauss) some works on Gauss’ history and method.
[8]Geometry and Experience (Geometria e Experiência).
[9]That Which Underlies Motivic Thorough-Composition (Sobre o que constitui a profunda motivação no compor)
[10]Camille Saint-Saens, estou certo, iria concordar.
[11]Olhe essa atual resposta ao manifesto positivista, Wissenschaftliche Weltauffassung: Der Wiener Kreis  (A Concepção Científica do Mundo: O Círculo de Viena):
“Asseio e clareza são procurados e as negras distâncias e os abismos insondáveis rejeitados. Na ciência não existem “abismos”; existe superfície em todos os lugares. Aqui está uma afinidade com os sofistas, não com os platônicos; com os epicuristas, não com os pitagóricos; com todos aqueles que estão para ser mundanos e do aqui e agora. A concepção de mundo científica não conhece enigmas insolúveis. A clarificação dos problemas filosóficos tradicionais nos parcialmente a desmascará-los como pseudo-problemas, e parcialmente em transformá-los em problemas empíricos e assim sujeitá-los ao julgamento da ciência experimental. O método dessa clarificação é aquela da análise lógica… A metafísica e a teologia acreditam, assim entendendo mal a si mesmos, que suas afirmações dizem alguma coisa, ou que denotam um estado de coisas. A análise, contudo, demonstra que essas afirmações não dizem nada, mas meramente expressam um certo humor e estado de espírito. Expressar tais sentimentos para a vida pode ser uma tarefa significativa. Mas o meio próprio para fazer isso é a arte, por exemplo a poesia lírica ou a música”.
– isto é, não a ciência. Engraçado, como apêndice ao manifesto, o Círculo de Viena lista Albert Einstein como um Importante representante da concepção científica de mundo, junto a Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein. Aqui o que Einstein tem a dizer sobre isso:
“Eu não sou um positivista. Os positivistas afirmam que o que não pode ser observado não existe. Essa concepção é cientificamente indefensível, por ser impossível fazer valer afirmativas sobre o que as pessoas “podem” ou “não podem” observar. Um poderia dizer “apenas o que observamos existe”, o que é obviamente falso.

Entrevista com Alfred Stern na “The Contemporary Jewish Record”,  Junho de 1945.

O Princípio Oligárquico

Prometeu Acorrentado, de Rubens

Zeus se tornou o deus mais degenerado de sua linhagem e foi mais tirano do que qualquer outro anteriormente. Conhecido por nós através da escrita de Homero, Zeus, um Don Juan de proporções épicas, viajou pelo mundo, raptando todas as mulheres em cada vilarejo, cada cidade, cada país, criando toda uma nova raça de bastardos os quais iriam herdar o reinado e mais tarde chamar a si mesmos de deuses, semi-deuses e heróis do povo. Esse ‘povo’ era verdadeiramente a posse animal da classe dos deuses.

O primeiro ato de Zeus foi mandar os Titãs (seus tios-avô e tias) que ajudaram-no na batalha, para a prisão. Depois planejou o genocídio em massa da população costeira, para livrar o mundo da carga da superpopulação e para matar qualquer possível sucessor que não fosse de sua própria linhagem. Como isso foi feito? Através da manipulação de guerras entre os homens, incitando-os a matarem-se entre si. Pegue uma citação de Cípria, um poema aproximadamente do sexto século a.C.: ‘Existiu um tempo em que as inúmeras tribos de homens, embora amplamente dispersas, oprimiam a superfície do âmago profundo da terra, e Zeus viu isso e teve piedade e no seu largo coração resolveu vazar o grande crescimento do homem na terra, causando o grande conflito da guerra de Ilíon, na qual a carga de mortes poderia aliviar o mundo. E assim os heróis foram assassinados em Tróia, e o plano de Zeus foi cumprido’”.

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Lula em “pratos limpos” (Investigações sobre a biopolítica II)

Você sabe quem é o Assassino Econômico?

Por muitos anos tentam incriminar Lula, bani-lo da vida pública. Desde os sequestradores de Abílio Diniz e que foram presos e mostrados aos jornais vestidos com a camisa do PT, passando pelos “aloprados”, pelo “mensalão”, pelo “triplex” do Guarujá, etc. Como de origem pobre, nordestino, bebedor de cachaça, não poderia ser diferente. Quando Foucault escreveu sobre a “sociedade disciplinar” o que estava em jogo era a “guerra das raças”, se criar a lei para benefício de uma elite e assim controlar, normalizar, os “loucos e degenerados”. Com o advento da biopolítica, no pós-guerra, a procura do ordo ou neoliberalismo é criar uma espécie de sociedade civil, sem Estado, onde um marco legal iria regular as relações entre os cidadãos. Não é a intenção desse artigo abrir o  marco histórico onde estas relações puderam mais e mais se efetivar, porém ela fica flagrante depois dos atentados de 11 de setembro, da criação do “ato patriota”, que levou não só a um sistema de vigilância em escala global (como no caso das espionagens relatadas por Edward Snowden, mas também da capacidade de se utilizar indiscriminadamente do instrumento da prisão preventiva (que passou a ser indefinida), e do tipo de acusação política que só a alcunha de “terrorista” poderia pressupor.

O caso é que esse sistema legal, uma sociedade de controle, como bem previu Gilles Deleuze já no final de sua vida, atinge escalas assombrosas com os novos mecanismos legais criados e utilizados com cada vez menos pudor ultimamente. Importados dos EUA, de seu Departamento de Estado, são os novos instrumentos dos Assassinos Econômicos, como nem sequer um dia iria imaginar John Perkins. Esse é o sistema da biopolítica que deixa cada vez mais os pobres com os pratos limpos e com fome. Ao contrário de Lula, que deixou pratos limpos à frente de pessoas saciadas. Quem é o nosso Assassino Econômico?




ARTIGO DISPONÍVEL EM PDF NA ACADEMIA.EDU

Desculpe a expressão, mas a referência é essa mesmo: a Lava-Jato não é Java-Jato, mas Mãos Limpas, mani pulite. Nela podemos ver o genial Sérgio Moro vivenciando seu “momento extraordinário na história contemporânea do Judiciário”. O “grande encarceramento” volta à baila, só a prisão dos “loucos e degenerados” pode trazer a sanidade à nação: “Dois anos após, 2.993 mandados de prisão haviam sido expedidos; 6.059 pessoas estavam sob investigação, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros”, diz Moro em seu artigo talvez já com sonhos de grandeza. Maravilha!

Os acentos foucaultianos do início desse texto servem também para destacar uma situação histórica: o primeiro “monstro humano” é o rei (não sei se foi o Foucault ou eu que disse isso, mas a ideia vem daí). Isso é um processo que se inicia na Reforma, mas pode ser visto nas tentativas, durante a Revolução Francesa, de dar bases legais à acusação ao rei: como infringir uma pena a quem não fez parte do pacto social? O rei está fora do pacto, como enquadrá-lo? Segue toda uma discussão que, para não sermos acadêmicos como o genial Moro, prefiro ignorar olimpicamente. O marco histórico, mais concretamente, foi a acusação a Maria Antonieta de ser incestuosa. toda uma literatura bizarra foi escrita em cima disso. Você tem no mesmo período o início dos romances de terror. O “Castelo dos Pirineus”, ou seja, o castelo como lugar da civilidade, em meio à natureza selvagem (no alto de um penhasco), onde crimes macabros acontecem; tem também o Jack, o Estripador; toda uma literatura popular ou produzida nos meios institucionais para caracterizar o “monstro humano”, o que Foucault irá estender também para as “crianças masturbadoras”. O que não deixa de ser uma ótima comparação, tudo isso exposto no curso dele intitulado Os Anormais.
Essa tradução da confissão de Mario Chiesa se aplica a Lula ou ao aliado de Moro, o mil vezes recabaçado Eduardo Cunha, o novo Maquiavel agora caído em desgraça? “Em substância, para entender as razões pelas quais eu tive de me expor diretamente no esquema de propina, é necessário entender que eu não me mantinha como presidente de uma organização como Trivulzio simplesmente porque eu era um bom técnico ou um bom administrador da área da saúde, mas também porque de certo modo eu era uma força a ser considerada em Milão, tendo um certo número de votos a minha disposição. Para adquirir o que atingiria no final sete mil votos, eu tive, durante minha carreira política, que sustentar o custo de criar e manter uma organização política que pudesse angariar votos por toda Milão”. Ou será que o Thomas Jefferson de Curitiba surfou nas águas do outrora afamado JB? Ainda falta os sociólogos confirmarem essa tese da continuidade democrática ser possível apenas através de corrupção e populismo. Um povo não pode ser minimante maduro. Queria seguir passo a passo o artigo de Moro mas corro o risco de não conseguir chegar ao fim. Desculpe, até me perdi no meio das gargalhadas. Quanta sapiência! Será que ele não daria um bom sociólogo ou historiador, tipo o ilustre que apresenta o jornal da noite?
De um modo geral, a fé do juiz em acabar com os crimes de colarinho branco de forma alguma tem qualquer relação com os objetivos da Lava-Jato, muito menos com o realizado com a mani pulite. Como não tem nada a ver, pelo menos no sentido mais amplo, com a lavagem de dinheiro, se explica o fato (que não deixa de causar estranheza ao juiz no seu artigo) da eleição de Berlusconi. Se a nova criminologia tivesse alguma coisa a ver com dinheiro ilegal, o ex-presidente do Milan não teria sido eleito. É uma operação para desacreditar políticos, e só. Uma caça a incestuosa Antonieta, ao monstro Luís XVI. E acaba por aí. Na Itália – o artigo não é explícito sobre isso, o que é sintomático de sua incompetência generalizada – pode ter havido uma relação com a máfia. De qual máfia se trataria no Brasil? Supostas ligações do PT com as FARC, ou pior, com Cuba? Ou a simples fabulação do “lulo-petismo”? Faz-me rir, de novo. O lugar fundamental do colarinho branco foi a Privataria. Mas “não vem ao caso”. O PT montou todo esse maquinário para se perpetuar no poder sem o auxílio de bancos, sem o auxílio de agentes, como Youssef, E esse doleiro entra no jogo no caso Banestado. Se a Mãos Limpas foi para acabar com a corrupção no partido cristão e no comunista, onde a isonomia aqui? São perguntas de ordem geral, mas vamos voltar ao texto.
Mas calma aê, tenho que voltar um pouco. São pontos “fundamentais”. Logo no início do texto, o caráter “new age” da conduta morinha: “a) uma conjuntura econômica difícil, aliada aos custos crescentes da corrupção; b) a integração europeia, que abriu os mercados italianos a empresas de outros países europeus, elevando os receios de que os italianos não poderiam, com os custos da corrupção, competir em igualdade de condições com seus novos concorrentes; e c) a queda do “socialismo real”, que levou à deslegitimação de um sistema político corrupto, fundado na oposição entre regimes democráticos e comunistas”. O primeiro ponto é sobre o sexo dos anjos e a queda na carne. Nada mais abstrato. No segundo e no terceiro dá para se ver porque ficou tão feliz com a visita do presidente da Anistia Internacional, organismo que também patrocinou a mani pulite. Queria não reivindicar a soltura de presos políticos, as infrações aos direitos humanos, etc. Pelo contrário, criou em série, patrocinou, uma lista imensa de presos políticos e de abusos aos direitos humanos.
A caça às bruxas na Itália acabou por levar diversos prisioneiros ao suicídio (e isso é encarado com certa naturalidade no artigo de Moro, como uma consequência, algo que possa ser sentida à flor da pele como efeitos do que consideram justiça), e promoveu em massa a prisão política porque o objetivo não era sanar o sistema político italiano. Como se com condenações, com o uso puro e simples da penalidade, se pudesse chegar a tanto. O que a Anistia Internacional ajudou a promover na Itália foi, com a derrubada dos partidos políticos tradicionais, a imposição do sistema euro. A eleição de Berlosconi é somente espuma, a parte mais evidente da história. Caberia aqui algumas considerações sobre a união de forças transnacionais para se impor o sistema euro, quais seus objetivos, etc., mas acabaria tendo que abrir um tópico à parte. Mas o euro era algo não visto com bons olhos pela população e precisavam de alguma coisa para legitimá-lo, principalmente a questão das privatizações, um dos objetivos maiores da “operação euro”. Na verdade, precisavam retirar as referências tradicionais para se poder impor algo novo. Esse o objetivo maior da mani lipute.
Falar de Berlusconi, colocar “três pontinhos” depois de seu nome, como se fosse uma aporia, quase que um momento trágico, de certa forma necessário ou inevitável, como parece afirmar Moro, não é o que importa. Como dito, Berlusconi é espuma. Mario Draghi dirigiu todo o processo de privatização italiano no pós Mãos Limpas como diretor do Comitê de Privatizações. Em 2 de junho de 1992, Draghi à bordo do iate real Britannia, frente a uma plateia de financistas e especuladores, deu uma palestra como diretor geral do Ministério da Fazenda italiano, onde disse que o maior obstáculo para se criar um mercado financeiro “moderno” na Itália, ou seja, a venda de todo o setor público ao mercado de ações, era o sistema político do país. A Mãos Limpas ao mesmo tempo que dava boas vindas ao euro, dava adeus às empresas públicas nacionais.
A “força tarefa” da mani pulite, composta pelos procuradores milaneses Antonio Di Pietro, Piercamillo Davigo, Gerardo d’Ambrosio e Gherardo Colombo, se engajaram na política, à exceção de Davigo. Este, junto a Colombo, foram membros fundadores da Anistia Internacional na Itália. Ainda que a TI tenha sido fundada nos país apenas em 1997, sua diretora, no mesmo ano, em entrevista ao Il Glornale, disse que os procuradores recebiam documentos diretamente do quarte-general da Transparência Internacional, em Berlim. Nos quadros políticos tradicionais, Antonio Di Pietro se tornou ministro e criou seu próprio partido, enquanto D’Ambrosio e Colombo foram eleitos ao Parlamento pelo Partido Democrático.

O setor político que começou a ganhar voz em meio à caça as bruxas (Giuliano Amato, Carlo Azeglio Ciampi, Lamberto Dini e Romano Prodi) fez o alerta sobre a necessidade de “reformas estruturais”, reduzir o déficit orçamentário para 3%, liberalização da economia – tudo isso para atender aos requisitos para se entrar na zona do euro. Segue trecho do memorandum da Executive Intelligence Review, traduzido em português de Portugal:

O setor público inteiro foi privatizado: notavelmente, quase todos os grandes bancos italianos, o setor do aço, o sistema de autoestradas, companhias de seguros, estaleiros navais, parte da companhia petrolífera nacional e da companhia de eletricidade. Isto ajudou a criar uma bolha no mercado bolsista italiano, no contexto da bolha do mercado bolsista global. Em 2000, sete companhias privatizadas capitalizaram mais de um terço da bolsa. 

As famílias italianas, que historicamente tinham investido em certificados de aforro da dívida soberana italiana (a dívida italiana era 100% nacional antes do Mãos Limpas), foram induzidas a mover o seu dinheiro para o mercado bolsista. Como resultado, quando a bolha rebentou em 2001, juntamente com o rebentamento da bolha da nova economia global, essas famílias perderam 216 bilhões de euros. 

Responsáveis por esse desastre foram economistas de “prestígio” tais como Carlo Azeglio Ciampi, o antigo chefe do Banco de Itália, que foi Primeiro-Ministro em 1993-94, Ministro do Tesouro em 1994-99 e Presidente da República em 1999-2006; e Mario Draghi, que dirigiu todo o processo de privatização como chefe do Comité de Privatizações. Ele demitiu-se em 2001 e foi a trabalhar para a Goldman Sachs. Em 2005 Draghi foi nomeado chefe do Banco de Itália e em 2011 foi nomeado presidente do Banco Central Europeu, desde onde ele tem ditado a política económica que tornou a União Europeia na economia mais deprimida do mundo. 

O sistema político italiano não recuperou ainda do golpe Mãos Limpas. A classe política italiana é constituída por amadores e incompetentes que obedecem cegamente a decisões tecnocráticas tomadas em Londres, Bruxelas e Frankfurt. A economia italiana está num estado de grande confusão, tendo perdido um quarto do PIB desde 2008, tendo-se movido da posição de quinta para a de nona maior economia do mundo.

Nenhuma relação com os objetivos econômicos pós-Dilma… É bom lembrar que com toda a caça às bruxas promovida pelos agentes oligárquicos curitibanos não encontram nada que possa incriminar Lula, nem a delação de Marcelo Odebrecht aponta nessa direção. Pelo contrário, acharam, como ficou relativamente bem esclarecido, a OAS envolvida, a partir do condomínio no Guarujá, com a Mossack Fonseca – daí a soltura imediata da empresária que supostamente lavaria dinheiro para a empreiteira e, logo, para Lula, e o posterior envolvimento da mesma firma na construção da “mansão de Parati” da família Marinho. Acharam até o Aécio! E Gilmar novamente negou duas vezes, como fez anteriormente com Dantas. Moro procura Lula e não acha: será que o procura com o mesmo desvelo com que fez com as imorais contas cc-5 do caso Banestado? Será tão bom detetive (mas ele não é juiz???) assim? Lula novamente sai limpo, totalmente. Mesmo com o sistema da crueldade implantado:

A publicidade conferida às investigações teve o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados, o que, como visto, foi de fato tentado. Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios. As prisões, confissões e a publicidade conferida às informações obtidas geraram um círculo virtuoso, consistindo na única explicação possível para a magnitude dos resultados obtidos pela operação mani pulite

Sim, Moro sempre cuidou devidamente da honra das pessoas com seu sistema da crueldade; cuidou do corpo físico também, como no caso das figuras sempre abatidas quando saem em suas fotos, o caso mais emblemático talvez seja o de José Dirceu ou o do herói nacional, o septuagenário almirante Othon. Agora, o sistema de tortura não funciona para quem delata certo, delata petista, delata o Lula. Deve ser muito bom viver numa mansão, ainda que com algumas restrições, mas milhões devidamente guardados no bolso – regalia do sistema de compensações curitibano. Não só Lula, mas até seus advogados saem lisos dessa história – verdadeira vergonha nacional – ainda que sofram com os grampos ilegais e ilegalmente vazados. 
O sistema da crueldade (o sistema punitivo, como Foucault entendia) é exposto no talvez mais belo texto de Nietzsche, sua Terceira Dissertação da Genealogia da Moral. Colocamos aqui alguns enxertos do aforismo 14 de seu texto para caracterizar o homem do ressentimento e da má consciência, “Grosso modo, não é absolutamente o temor ao homem, aquilo cuja diminuição se poderia desejar: pois esse temor obriga fortes a serem fortes, ocasionalmente temíveis – esse mantém em pé o tipo bem logrado do homem. O que é de temer, o que tem efeito mais fatal que qualquer fatalidade, não é o grande temor, mas o grande nojo ao homem, e também a grande compaixão pelo homem. Supondo que esses dois um dia se casassem, inevitavelmente algo de monstruoso viria ao mundo, a ‘última vontade’ do homem, sua vontade do nada, o niilismo”. 
O homem da má consciência, do ressentimento, são os doentes – na perspectiva nietzschiana, os poderosos – os verdadeiros monstros morais. Continua: “Ao menos representar o amor, a justiça, a superioridade, a sabedoria – eis a ambição desses ínfimos, desses enfermos! (…) Eles agora monopolizam inteiramente a virtude, esses fracos e doentes sem cura, quanto a isso não há dúvida: ‘nós somente somos os bons, os justos’, dizem eles, ‘nós somente somos os homines bonae voluntatis [homens de boa vontade]’. Eles rondam entre nós como censuras vivas [o escândalo de até de chegar ao que aproximadamente possa corresponder a uma defesa do “criminoso” lulopetismo], como advertências dirigidas a nós – como se saúde, boa constituição, força, orgulho, sentimento de força fossem em si coisas viciosas, as quais um dia se devesse pagar, e pagar amargamente: oh, como eles mesmos estão no fundo dispostos a fazer pagar, como anseiam a ser carrascos!”. Moro se desembaraça de qualquer escrúpulo moral ao enfatizar a importância da “cruzada judiciária”, da justiça utilizada como meio de se exercer a vingança. No caso nietzschiano, a cruzada dos doentes contra os são:

Um acontecimento da magnitude da operação mani pulite tem por evidente seus admiradores, mas também seus críticos. É inegável, porém, que constituiu uma das mais exitosas cruzadas judiciárias contra a corrupção política e administrativa. Esta havia transformado a Itália em, para servirmo-nos de expressão utilizada por Antonio Di Pietro, uma democrazia venduta (“democracia vendida”)

E vendeu, de fato, a partir de Curitiba, nossa democracia. Vendeu para interesses inconfessáveis de todos aqueles que o apoiam. O primeiro delator da história é Moro; delata o nordestino, o pobre, o bebedor de cachaça (nenhuma conta no exterior, Moro! Quanta pobreza esse Lula tem!), para se sagrar herói, efêmero e perverso como seu antecessor de roupas pretas, Barbosa.

A forma de se utilizar da justiça como meio de se exercer a vingança, é um tema foucaultinano e nietzschiano por excelência: “Entre eles encontra-se em abundância os vingativos mascarados de juízes, que permanentemente levam na boca, como baba venenosa, a palavra justiça e andam sempre de lábios em bico, prontos a cuspir em todo aquele que não tenha olhar insatisfeito e siga seu caminho tranquilo”. Essas são as “almas belas”, não só Moro, mas todos os que se indignam quando não repetimos como robôs os mantras anti-corrupção, todos os versos desse pessimismo quase sublime com que tentam recobrir a esperança natural do povo brasileiro, ainda mais acentuada, exercitada, depois dos governos nacionalistas, de afirmação nacional, do Partido dos Trabalhadores. “Nunca antes na história desse país”, e segue o outro mantra, etc. 
Como descrever, portanto, o neomacartismo – essa nova “nobre indignação” – que toma conta de parcela considerável de nossa população? Vamos voltar ao texto do século XIX: “Olhe-se o interior de cada família, de cada corporação, de cada comunidade: em toda parte a luta dos enfermos contra os sãos – uma luta quase sempre silenciosa, com pequenos venenos, com agulhadas, com astúcia mímica de mártir, por vezes também com esse farisaísmo de doente de gestos estrepitosos, que ama mais que tudo encenar a ‘nobre indignação’. (…) Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente de subterrânea vingança [ah, os coxinhas…], inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em mascaramentos de vingança, em pretextos para vingança: quando alcançariam realmente o seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? Indubitavelmente, quando lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo que um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos outros: ‘é uma vergonha ser feliz” existe muita miséria!'”. E assim se tenta inculcar toda a atmosfera derrotista, neocolonialista, viralatista, na mente de boa parte da população. O rancor, o ressentimento, a má consciência tentando se estabelecer, tentando fazer dos sãos pessoas doentes. É o que queremos com este texto: “Ar puto, portanto! Ar puro! E afastamento de todos os hospícios e hospitais da cultura! E portanto boa companhia, nossa companhia! Ou solidão, se tiver de ser! Mas afastamento dos maus odores da degradação interna e da oculta carcoma da doença!… Para que nós, meus amigos, ao menos por algum tempo ainda nos defendamos das duas mais terríveis pragas que podem estar reservadas para nós precisamente – o grande nojo do homem e a grande compaixão pelo homem!…”.
Lula na verdade fez o Brasil ver o futuro, quase senti-lo em suas mãos… Sair do mapa da fome da ONU, uma taxa de desemprego que chegou a 4,5% em 2014, toda a questão social tão ressaltada, a soberania quando se trata de política externa. “Nunca antes na história desse país”… Disse o FMI que a Lava-Jato impactou em pelo menos 2% o PIB de 2015. Olha quem diz! As perdas são incontáveis e vai numa espiral cujas consequências não estão somente nos números do economês, mas também na subida ao poder do “governo ilegítimo, interino e provisório”, como Dilma sempre destaca. A venda do país de novo nos noticiários, quando os canalhas perderam todo o pudor. Privatização de tudo, até das universidades, defendidas sem qualquer remorso nas manchetes e editoriais dos jornais; aumentos descarados (junto à criação de inúmeros privilégios) ao judiciário, à Polícia Federal; a maluquice da limitação dos gastos da União em saúde e educação; a dilapidação do pré-sal, já iniciada… Tantas loucuras que é impossível numerar (quantos mais podemos falar, loucuras do governo e loucuras dos fascistas espalhados em todos os cantos do país, sempre se utilizando de sua arma favoria, a violência), fora os casos clássicos de corrupção que, como ocorreu com Jucá, se tirou um ministro não foi capaz de retirá-lo das articulações do governo, das propostas de governo, como o “sombra” Moreira Franco, nunca derrubado, sempre “eminência parda”. Personagem deplorável agora com ainda mais poder (teve sua cota no governo do PT, caso clássico das exigências quase imorais da democracia de coalizão, da parceria com o PMDB), e que faz lembrar das razões porque o novo túnel no Rio de Janeiro, por debaixo da antiga Perimetral, ter ganho o nome de outro neo-fascista, Marcelo Allencar, responsável pelo desmonte dos CIEPs, anti-brizolista, entreguista clássico como o Moreira acima citado, que infelizmente não tem como sobrenome “da Silva”, para lembrar de uma figura iluminada de nossa cultura popular. 
O Brasil do atraso e não o do futuro é o que foi tão bem expresso por Uílian Homer (não sei se pseudônimo), publicado no Conversa Afiada

Notícias do Jornal Manipulacional

– Ex BBB Kleber Bambam confirmado pra acender a pira olímpica devido a sua contribuição ao esporte e cultura.

– Discurso de Temer terá 1 segundo na abertura dos jogos: “Welcome” e será lido por Alexandre Frota em português.

– Vila Olímpica foi construída por empresa que fez a ciclovia do RJ e edifícios Palace, mas prefeitura garante a segurança.

– Coréia do Norte diz que vai bombar nos Jogos Olímpicos.

– Estado Islâmico diz que criar galinhas e jogar paintball melhora desempenho de seus homens bomba.

– Brasil vai crescer 5% no segundo semestre e 15% em 2017. Em 2018 PIB brasileiro deve ultrapassar o da China.

– Feijão ficou caro porque brasileiro passou a comprar mais depois que a crise acabou.

– Automóveis no Brasil são caros por que vem com todos opcionais: quatro rodas, um volante, motor e três pedais, diz cartel das montadoras.

– Brasil descobriu que tinha US$ 370 bilhões em reservas que o PT tinha escondido no cofre do Banco Central em Fortaleza.

– Dilma diz que impeachment foi bom pro Brasil ver que há coisas piores que o governo FHC e que confia no Senado americano pra reverter o Golpe.

– Cunha propõe delação premiada pra entregar todo mundo que o traiu desde que cumpra a pena na Suíça.

– Aécio diz que aeroporto na fazenda do tio é do Lula e que nunca andou de helicóptero na vida.

– Trabalhar 80 horas semanais até os 70 combate o sedentarismo e doenças do coração diz ministro da saúde.

– Temer diz que Marcela se apaixonou por ele devido a suas poesias.

– Economistas são presos por manipular mercados ao afirmar que a crise acabou.

É com você Caju…

Com a nova jornada semanal proposta, as novas regras para a aposentadoria, são um exemplo bem clássico do país do atraso, do passado, em que querem novamente nos jogar. O inferno novamente para os pobres: “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança”, como escrito nas portas do Inferno de Dante. Não mais o Brasil do futuro, aquele que vemos, que quase sentimos em nossas mãos… Sem mais esperanças. Nada. Somente “medidas impopulares”, duras, e tão aguardadas pelo governo ilegítimo, interino e provisório. A cara de pau é tão grande que até do programa de governo retiraram a “distribuição de renda”, “fortalecimento dos programas sociais” e as “políticas sociais redistributivas”. O país do passado, novamente, como cantado na música Pobre Aposentado, de Bezerra da Silva, e que serve para toda classe trabalhadora, na ativa ou aos inativos.
O país do passado novamente. Mas enquanto Moro, em seu artigo de 2007, talvez ainda não esperasse que pudesse tornar real seus sonhos mais íntimos, Lula fazia história, fazia o governo mais bem sucedido de toda história de nosso país. Deixava os brasileiros com os pratos limpos, saciados da fome. Enquanto Moro – ah, Moro! – promoveu a paralisação das obras públicas, a criminalização de qualquer atividade política nacionalista, e se saciou com o ódio criado entre o povo brasileiro. Moro deixou os brasileiros com os pratos limpos, sem nada para comer, sem a esperança sequer de talvez conseguir um trabalho. Depois de quantos anos o pessimismo voltou a nos assolar? Será coincidência que ele aconteceu ao mesmo tempo da entronização do juiz de província como herói nacional? Ainda há muito a se saber sobre as metamorfoses do que uma vez foi chamado de Assassino Econômico.