CARNIVORE ou Facebook: da CIA às Revoluções Coloridas

 

Segundo episódio da série dedicada nesse blog sobre as manipulações midiáticas (para ler o primeiro episódio CLIQUE AQUI), porém agora recobrindo as mídias eletrônicas, a gênese dentro dos serviços secretos, das mídias sociais, e seu papel na criação das “revoluções coloridas”, conhecida no Brasil pelas manifestações de junho de 2013. As forças armadas dos países asiáticos, em especial Rússia e China, consideram as “revoluções de cor” como guerras irregulares modernas – guerra entre Estados, diga-se – como foi o caso na Ucrânia e da ascensão lá do governo neofascista dos apoiadores de Stephan Bandera e o passo atrás que se deu, consequentemente, na chance de criar relações pacíficas do bloco transatlântico com o continente asiático. A ascensão aqui no Brasil da ultra-direita e do conservadorismo de um modo geral não podem estar desvinculados dessa nova forma de guerra, uma das frentes do Império contra o desenvolvimento de um novo modelo econômico internacional, fundamentalmente o que acontece em torno dos países BRICS.

Quando falamos em engenharia social e mineração de dados; quando nos perguntamos sobre o que possibilitou as manifestações de 2013 como movimento declaradamente anti-político; quando vemos a evasão da vida e do debate políticos tão bem refletida nos últimos dois ou três anos, não podemos evitar a pesquisa sobre Octopus, ou do caso de mineração de dados ocorrido nos EUA durante a década de 1980 chamado de Inslaw Affair. Essa investigação só veio a público anos depois através do trabalho do jornalista independente Danny Casolaro, meses depois encontrado morto em condições suspeitas num hotel de beira de estrada nos EUA. O ex-agente da KGB e best-seller internacional, Daniel Estulin, retomou a história, num caso romanceado e que pode nos esclarecer na escrita desta publicação.

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Investigação sobre o conceito de parresía (II): o caso Hamlet e a necessidade de uma revisão literária e historiográfica.

Ser ou não ser: eis a questão?
Este texto dá sequência à publicação “Investigações sobre o conceito de parresía (I): o caso Hamlet, a soberania sobre si e os descaminhos da análise psicanalista-existencialista” escrita anteriormente por mim. Existe também uma relação direta com outra publicação, “Investigações sobre a biopolítica I – A Empresa Mundial S/A e o modelo de governança jurídica no pós-Bretton Woods“, cuja continuação sairá em breve. A relação entre os diferentes textos se dá especificamente sobre a análise do modelo Inter-Alpha e a construção no pós-guerra de um sistema de dívida, ao qual pudemos abordar de maneira menos erudita em nossa última postagem, “Sobre a chamada “inflação de demanda”: a necessidade de criação de crédito público“, que, por si, dá início a outra série em que nos dedicamos a debater o tema da dívida no Brasil e o histórico da criação de um sistema de crédito, cujo protótipo mais moderno foi o programa econômico liderado por Abraham Lincoln.
Foucault, no Vigiar e Punir (como também vimos no primeiro capítulo sobre o conceito de parresía), relata o espaço bolchevique, o da “cortina de ferro”, de Hamlet transformado de narrativa heroica em caso psicanalítico; Schreber (o famoso caso do presidente de província analisado por Freud) é aluno dos jesuítas, burgomestre, uma moça que defende a Alsácia dos franceses até atravessar o limiar ariano e devir príncipe mongol: não, ele é reduzido ao pai, triangulado em Édipo e forma um “ânus solar” (na expressão do Anti-Édipo). Seu delírio revolve massas históricas, geográficas e raciais, e no fim ele é um simples fascista, um paranoico. Como o Estado, que é sempre o Estado: Hitler, Mussolini e Stálin. Até renascer a eugenia, o saber sobre as raças e a teoria dos instintos: uma nova medicina legal, Nascimento da Biopolítica. A therapeúein epicurista agora sob o jugo de uma nova Medizinichepolizei, das unidades-empresa, o filho como capital humano, do sujeito sob o behaviorismo, sob a noção de conduta humana de von Mises (ver os dois capítulos da série sobre o suposto Foucault “liberal e fenomenólogo” – parte 1 e parte 2). Existem dois projetos que dividem a humanidade em relação ao seu futuro; dois modelos, o oligárquico e o republicano, nos dizeres do “poeta da liberdade”, Friedrich Schiller. No mais, temos o espaço bolchevique, o lugar da Revolução (lembremos da tese de F. Furet); o triângulo edipiano – família real; e a cortina de ferro, cujos descendentes somos nós. Sem a revisão dos parâmetros sociais, econômicos, que nos regem, não há espaço para uma crítica literária nem para uma historiografia inovadoras.


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Investigação sobre o conceito de parresía (II): o caso Hamlet e a necessidade de uma revisão literária e historiográfica.

A monarquia parlamentar, o banco central independente, ou seja, o predomínio da “soma dos egoísmos”, como defende a teoria dos sentimentos morais de Adam Smith, junto a um executivo fraco e refém dos parlamentares alçados à condição de representantes do povo com a força dessa mesma banca privada, é um sistema tão antigo que já existia sob diferentes formas na Grécia ou Roma. E isso de tal forma que não podemos compreender a história em termos da dualidade hegeliana, do materialismo dialético, da igualdade de contrários que, no mais, só hipoteticamente podem ser considerados diferentes: o Ser e o Nada, o proletariado e a burguesia, a sociedade civil ou o Estado[1]. Com o pano de fundo da humanidade e seus múltiplos eixos evolutivos, preferimos a distinção feita por Friedrich Schiller na sua Legislação de Licurgo e Sólon, dois sistemas dividem a humanidade, o republicano e o oligárquico. De modo semelhante, encontramos em Lyndon LaRouche a distinção entre Platão e Aristóteles, ou seja, a mesma feita pelos grandes renascentistas como Giordano Bruno e Nicolau de Cusa, para diferenciar o que LaRouche chama de “o culto pagão de Isaac Newton[2]” da “visualização do domínio complexo[3]”, baseado na física de Gauss e Riemann.
O sistema oligárquico, o dos fondi venezianos, foram os responsáveis pela criação um ano depois da extinção do acordo original de Bretton Woods, em 1972, do Grupo Inter-Alpha como forma de guerra financeira e de reorganização da primazia do império britânico ou anglo-americano depois da perda territorial resultado do processo de descolonização do pós-guerra[4]. O Inter-Alpha, reunião das casas bancárias entre as mais ativas hoje em dia (Santander, ING, Banco Espírito Santo), começou com o alavancamento de recursos das famílias reais europeias, que por si só não tinham recursos para transformar o planeta como planejado. Os fundos familiares proveram somente “the seed money, and leverage their power through the control of other people’s money, to create the markets and institutions they would ultimately need to control the world. This is the origin of today’s gaggle of hedge funds, private equity funds, and related financial pools, many of which are part of the hidden side of the Inter- Alpha Group[5]”. Essa também é a origem do que se conhece hoje como sistema da dívida, do Plano Brady nos anos 1980 que resultou na renegociação da dívida através de juros sobre os juros já existentes – sistema comum – e que se consagrou através do afamado Plano Real, que não contribui com 1 cent (para falar na linguagem da época) para o aumento do poder de compra do trabalhador (muito menos em transformar em força ativa o contingente enorme de desempregados), tampouco na industrialização e no desenvolvimento da economia física de um modo geral, obras de infra-estrutura e capital para a ciência e tecnologia.
Daí a necessidade da superação da questão da dívida, do amadurecimento do país para reunir forças suficientes para auditar não só a dívida pública, mas a remessa de lucro das multinacionais, e de retomar o debate menos do volume total de impostos do que de sua incidência. Devemos ultrapassar o problema de soberania criado com o sucesso da “operação Watergate” que, além de requentar velhas notícias de corrupção já sabidas antes das eleições, teve só o propósito de afastar um presidente não de todo confiável e serve hoje de verdadeira cortina de fumaça contra os feitos mais importantes do período Nixon, ou seja, sua atitude desesperada de desvincular o dólar do ouro e fugir das especulações feitas em Londres com a libra esterlina e o ouro, produtor de verdadeira fuga de capitais de dentro dos EUA[6]. A falácia do “sucesso jornalístico” de Watergate nos impede de ver o que, com a livre capacidade de impressão de dólares e a criação da “empresa mundial S.A.[7]”. Portanto, temos a partir daí um fluxo de capitais completamente inimagináveis até então, e completamente desvinculados da produção física da economia, e que seriam regulados ou pelo menos acompanhados pela atuação da sociedade civil (o avanço das ONGs) e por certas instituições de caráter tecnocrático que teriam como objetivo avaliar, multar ou impor determinadas sanções às empresas administradoras de serviço (as agências de regulação criadas no período das privatizações). A sociedade civil em termos de Movimento dos Sem Terra, por exemplo, não entram dentro desse esquema, pois agiriam nas margens do dístico Lei e Ordem; de modo semelhante, a independência do Banco Central seria sua autonomia jurídica para regular os fluxos de capitais (o câmbio, de modo específico), a dívida soberana, a inflação e o juros do país. Com isso, assiste-se a uma fuga dos deveres constitucionais e do órgão maior de sua execução, a esfera pública de representantes eleitos pelo voto popular. Não a constituição e sim o legalismo; e as diretrizes sobre o que é certo ou não, saudável ou não para a economia e para a ação dos indivíduos dentro do Estado nacional soberano passa às mãos de especialistas, juristas e advogados ou aquela perversa forma de diagnose clínica dos prognósticos para a “saúde da nação” feitos pelo Assassino Econômico[8].
Assim, duas conseqüências imediatas podem ser concluídas: 1) a usurpação da constituição que é a marca do Ato Patriota, marco legal para se investigar e prender cidadãos sem autorização judicial, e que tem como conseqüência da “guerra contra o terror” o presidente estadunidense passar por cima de seus deveres constitucionais e empreender sem consulta prévia ao Congresso ataques militares nos mais diversos países, como os agora planejados no Iraque e, talvez, um embate com Rússia ou China. 2) A insistência de determinadas candidaturas no Brasil, entre as mais populares, de restringir o mandato dos representantes dos poderes executivos, federal, estadual e municipal, com a anulação da reeleição, e a “sincronização” das eleições nacionais para todos os cargos a cada cinco anos, restringindo de maneira avassaladora a capacidade de mobilização popular para, no modelo atual, de pelo menos de dois em dois anos poder interferir na condução da política em todos os âmbitos no país. A fraqueza do poder executivo, agora modelada por uma medida salvacionista que esquiva de toda a discussão a respeito da necessária reforma política, adquire novos contornos diante da negação popular do parlamentarismo durante o processo de abertura democrática. Somada a insistência desses candidatos na independência do Banco Central, vemos atuar um sistema não tão novo, no século XIX chamado por determinados políticos estadunidenses de “máquina simples” [9].
Sempre o sistema da crueldade, o meio de ação do homem passivo, ressentido. O que o rei propõe a Laerte com o jogo das espadas envenenadas é aquele da máquina social primitiva – um regresso frente sua tentativa de eliminação por via despótica do futuro príncipe. Na conceituação de Deleuze e Guattari, máquina territorial onde, “l’unité primitive, sauvage, du désir et de la production, c’est la terre[10]” ; a terra como a pele, a unidade virginal, unidade do desejo e da produção: Corpo Pleno da Terra. Ao contrário, o que se instaura é o “système de la cruauté, terrible alphabet, cette organization qui trace des signes à même le corps[11]”, que se inscreve sobre o corpo pleno e o faz produzir. Por isso para Nietzsche era tão difícil o processo de criação no homem de uma memória, com seus holocaustos, suas mutilações, toda a crueldade dos ritos religiosos. Por quais processos penosos devem passar um povo para que dele nasçam pensadores… Não sem ironia, pois tais filósofos são os filhos do ressentimento, os portadores da má consciência e os vetores da crueldade numa sociedade. As espadas no Hamlet marcaria a “escritura”, “cette inscription en pleine chair, aloirs il faut dire en effect que la parole suppose l’écriture, et c’est ce système cruel de signes inscrits qui rend l’homme capable de langage, et lui donne une mémoire des paroles[12]”. Por isso o signo é a posição do desejo, a inscrição suas marcas na pele e o primeiro alfabeto aprendido pelo homem – sua terrível e primitiva mnemotécnica.
Toda uma outra representação é a da máquina despótica bárbara, quando o herói começa por desposar sua irmã, para depois desposar sua mãe. “Ce double inceste n’a pás pour but de produire un flux, même magique, mais de surcorder tous les flux existants, et de faire qu’aucun code intrinsèque, auncun flux sous-jacent n’échappe au surcodage de la machine despotique ; aussi est’ce par sa stérilité qu’il garantit la fécondité génerale[13]”. O incesto nada mais é do que uma representação destituída de desejo. Seu objetivo é sobrecodificar. As sociedades orais não carecem de grafismo; estes são independentes da voz e marcam sobre os corpos os signos que a reproduzem. As civilizações bárbaras possuem escrita; elas se subordinam à voz para subordinar a voz, suplantá-la, fazendo dela uma escrita. O campo lingüístico se desterritorializa, passa a ser definido por uma transcendência, por um significante. O pai não é nada mais que o representante da velha máquina territorial, pré-estatal, enquanto a irmã representa a nova aliança e a mãe a filiação direta: sistema jurídico baseado no despotismo do significante e na produção arbitrária de significados, o reino do desejo substituído pelo império da lei, a instalação do sistema de dívida infinita (através do vínculo com a mãe, com a linhagem), e pelas novas alianças que são sempre casamentos incestuosos: família real.
Por que os lingüistas não cessam de retornar à era despótica? [14]. É como na colônia penitenciária, a sanção é quem escreve o veredito e a regra:
Le corps a beau s’être liberé du graphisme qui lui était propre dans le système de la connotation, il devient maintenant la pierre et le papier, la table et la monnaie sur lesquels la nouvelle écriture peut marquer ses figures, son phonétisme et son alphabet. Surcoder, telle est l’essence de la loi, et l’origine des nouvelles douleurs du corps [grifos meus]. Le châtiment a cessé d’être une fête, d’òu l’œil tire une plus-value dans le triangle magique d’alliance et de filiations. Le châtiment devient une vengence, vengeance de la voix, de la main et de l’œil maintenant réunis sur le despote, vengeance de la nouvelle alliance, dont le caractère public n’altère pas le secret : « je ferai venir contre vous l’épée vengeresse de la vengeance d’alliance… » Car, encore une fois, la loi, avant d’être une feinte garantie contre le despotisme, est l’invention du despote lui-même : elle est la forme juridique que prend la dette infinie[15].
O casamento com a mãe, que garante os direitos de linhagem, faz do rei a forma jurídica da dívida infinita. O rei incestuoso mata Hamlet com a espada da vingança, na luta de corpos contra corpos, na tirania de artistas, como definiu Nietzsche o modo pelo qual o castigo se torna vingança nas formações imperiais. Mas ele age por traição e não por justiçamento, daí que retoma dentro do aparelho de Estado o devir da máquina de guerra nômade: “système de la simulation, tel est l’autre nom de la signification et de la subordination[16]”. Por isso quer marcar, incisar, escarificar o corpo de Hamlet com a espada de fio venenoso – trata-se de um tradicional duelo, ainda que traiçoeiro, mas não de um combate de vida ou morte. Não pode justiçar, porque a coragem do protagonista desfaz sua soberania. Coragem em dois momentos – é bom fazermos um contraponto. Coragem que o faz roubar a carta de quem iria lhe matar, modificando-a para que alvo do assassinato fosse não ele, mas os enviados pelo rei para matá-lo. Mesmo destemor que o coloca na luta de morte com Laerte, luta esta porém que marca o encontro do reino com a parresía, com o destemor frente à verdade. Esta a espada soberana do herói e um outro modo de se praticar a justiça. De outro lado ainda, o da história, a rainha frígida, Elizabeth, a sobrecodificação da máquina despótica que por sua esterilidade garante a fecundidade geral: o entronamento do primo, Jaime I. A nova aliança: os genoveses e a invasão veneziana na ilha bretã, círculo familiar, triângulo edipiano. Hamlet, tal como o corpo dos negros contrabandeados em massa pela espécie de multinacionais que eram as Companhias de Comércio[17], tem sua pele marcada, dessa vez até alcançar a morte. A simulação do rei déspota que se apossa de um devir da máquina territorial primitiva: os castigos corporais incididos sobre os escravos no Novo Mundo como sistema gráfico de conotação tal como praticado pelas tribos nômades, porém executados pelo déspota simulador, adquirindo assim um outro sentindo: mutação do sistema da crueldade. Hamlet escravo em seu próprio reino; Hamlet rei da parresía.
O problema da Revolução: como na citação acima, “o olho tira uma mais-valia do triângulo mágico da aliança e das filiações”. Por isso é preciso ter consciência da Revolução Francesa, é preciso memorizá-la (mnemotécnica, sistema da crueldade), é preciso tê-la sob o nervo ótico. É por isso que a “experiência da individualidade na cultura moderna está talvez ligada à da morte dos cadáveres de Bichat ao homem freudiano[18]”. Fascinado, estupefato, hesitante e entusiasmado, Michelet interroga os mortos, quer revivê-los; celebra a Bastilha, critica os jacobinos, sempre tendo em mira os documentos que amontoa em sua mesa, que se embaralham em suas mãos, procurando reconstituir a vida a partir desses retratos do passado, tal como Bichat procurava reconstituir a vida sobre os despojos mortais. E, assim como o médico seu conterrâneo e relativamente seu contemporâneo, “encontra na morte a lei de seu discurso[19]”. Os cadáveres para Bichat, os documentos para Michelet, em ambos se permite ver, “em um espaço articulado pela linguagem, a profusão dos corpos e sua ordem simples[20]”. Procurar, assim, a cura: “a Revolução e a Segunda República misturam-se inextricavelmente para forjar o juízo de Michelet. Ele traz significativamente como epígrafe a frase: ‘França, cura os indivíduos’, que resume a concepção da história de Michelet, em que só o coletivo é valorizado[21]”. E o que constitui esse coletivo, esse “povo” ou essa “revolução” nos dizeres do historiador? De quem é objeto esse sujeito “auto-autonomizado”, o da fileira dos cidadãos – esses novos personagens que nascem com a Revolução?
As disciplinas marcam o momento em que se efetua o que se poderia chamar a troca do eixo político da individualização. (…) O momento em que passamos de mecanismos científicos disciplinares, em que o normal tomou o lugar do ancestral, e a medida o lugar do status, substituindo assim a individualidade do homem memorável pela do homem calculável, esse momento em que as ciências do homem se tornaram possíveis, é aquele em que foram postas em funcionamento uma nova tecnologia do poder e uma outra anatomia política do corpo. E se a Idade Média mais remota até hoje a “aventura” é o relato da individualidade, a passagem do épico ao romanesco, do feito importante à singularidade secreta, dos longos exílios à procura interior da infância, das justas aos fantasmas se insere também na formação de uma sociedade disciplinar. São as desgraças do pequeno Hans e não mais “o bom Henrquinho” que contam a aventura de nossa infância. O Roman de La Rose é escrito hoje em dia por Mary Barnes; no lugar de Lancelot, o presidente Schreber[22].
Foucault relata o espaço bolchevique, o da “cortina de ferro”, de Hamlet transformado de narrativa heroica a caso psicanalítico; Schreber é aluno dos jesuítas, burgomestre, uma moça que defende a Alsácia dos franceses até atravessar o limiar ariano e devir príncipe mongol: não, ele é reduzido ao pai, triangulado em Édipo e forma um “ânus solar” (na expressão do Anti-Édipo). Seu delírio revolve massas históricas, geográficas e raciais, e no fim ele é um simples fascista, um paranóico. Como o Estado, que é sempre o Estado: Hitler, Mussolini e Stálin. Até renascer a eugenia, o saber sobre as raças e a teoria dos instintos: uma nova medicina legal, Nascimento da Biopolítica. A therapeúeinepicurista agora sob o jugo de uma nova Medizinichepolizei, das unidades-empresa, o filho como capital humano, do sujeito sob o behaviorismo, sob a noção de conduta humana de von Mises. Existem dois projetos que dividem a humanidade em relação ao seu futuro; dois modelos, o oligárquico e o republicano, nos dizeres do “poeta da liberdade”, Friedrich Schiller[23]. No mais, temos o espaço bolchevique, o lugar da Revolução (lembremos da tese de F. Furet); o triângulo edipiano – família real; e a cortina de ferro, cujos descendentes somos nós.



[1]Quando Deleuze, em seu livro sobre Nietzsche, afirma e desenvolve ao longo de todo seu trabalho que, se houve alguém que o filósofo alemão se voltou contra durante toda sua vida, ainda que sem nunca explicitar a mínima divergência, esse alguém foi Hegel, pensamos que semelhante análise pode ser aplicada ao caso do filósofo francês no que diz respeito ao legado de Sartre. Sua teoria das multiplicidades, suas múltiplas dualidades, o rizomático e o arborescente, a máquina de guerra nômade e o aparelho de captura, etc., ferem de modo incisivo a “razão dialética” do famoso existencialista. No mais, no pequeno livro que é uma coleção de ensaios sobre Foucault, Deleuze demonstra como somente com seus estudos sobre a sexualidade, Foucault rompe com o cerco da fenomenologia que parece flertar durante boa parte de sua vida intelectual. Fenomenologia alemã, existencialismo francês; capitalismo e esquizofrenia, e o mapeamento do proto-fascismo de Husserl no Nascimento da Biopolítica: o duplo como forma contraída do múltiplo e princípio de superação da razão dialógica (aqui no sentido da imagem-tempo), fenomenológica ou existencialista, soviética ou capitalista.
[2] LAROUCHE, Lyndon. Science and economic crises: the pagan worship of Isaac Newton. Executive Inteligence Review, 20 de outubro de 2003.
[3] LAROUCHE, Lyndon. Science for teachers: visualizing the complex domain. Executive Intelligence Review, 30 de maio de 2003.
[4]No contexto internacional, dois sistemas se dividem. De um lado, o representado por um sistema de crédito, de industrialização e soberania nacional defendida pelo quatro vezes eleito presidente Roosevelt. De outro, o sistema do império, de Churchill e Herbert Hoover, contrário à política de autonomia nacional defendida no pós-guerra por FDR, de mesma gênese de sua proposta de padrões de troca fixos para se proteger as moedas nacionais e assim estabelecer um sistema de crédito para o fomento de grandes obras de infra-estrutura, e da ciência e tecnologia mundo afora.
[5] HOEFLE, John. The Inter-Alpha Group: nation killers for imperial genocide. Executive Intelligence Review, 17 de setembro de 2010.
[6]Infelizmente, é praticamente impossível no exíguo espaço de 20 a 25 páginas a montagem de um projeto minimamente detalhado que consiga levar em consideração um número suficiente das consequências que os estudos de Foucault tiveram, tanto em relação à sua teoria da soberania, como ao caso da medicina social, cujas vertentes clínicas e psicanalíticas são casos particulares dentro da noção mais geral de medicina implícita no conceito de “cuidado de si”.
[7] Conceito cunhado por George W. Ball, banqueiro do Lehman Brothers durante a primeira reunião Bildberg, em 1954, segundo o qual “the new world company would replace the ‘archaic political structure of nation-states’ with corporations, which are far better at ‘efficiently utilizing resources’”(HOEFLE, 2010).
[8]PERKINS, John. Confissões de um assassino econômico. São Paulo: Cultrix, 2005. É o desbarato do oikós, como relatado nas mais belas páginas da Casa de Isômaco, no segundo volume da História da Sexualidade.
[9] Ver: ADAMS, John Quincy. Speech on the removal of the public deposits. Washington, 1834. In: KIRSCH, Michel. How Andrew Jackson destroyed the United States. LaRouche Political Action Committee, 2012. Quincy Adams em seu discurso é contra o total aniquilamento do banco nacional estadunidense, a volta dos pagamentos em ouro e em moeda convertível, e a anulação do sistema de crédito público, criado como dever constitucional por Alexander Hamilton – uma simplificação extrema do papel desempenhado pela máquina pública, não muito distante da “geometria euclidiana” proposta pelos liberais de agora e os defensores da sociedade civil estilo ONG.
[10] DELEUZE,, Gilles; GUATTARI, Félix. Capitalisme et schizophrénie: l’anti-Œdipe. Paris : Les Éditions de Minuit, 1972, p 166.
[11] Idem, p. 169.
[12] Idem, p. 170.
[13] Idem, p. 238.
[14] Todos à espera do rei abscondito, ora deslocado por uma metáfora ou escondido sob uma metonímia: “Tels les jeunes chiens du palais trop prompts à boire l’eau de verset, et qui ne cessent de crier : le signifiant, vous n’avez pas atteint le signifiant, vous en restez aux signifiés ! Le signifiant, il n’y a que ça qui les fait jouir”. Idem, p. 247.
[15]Idem, p. 251-2.
[16]Idem, p. 248-9.
[17]ROBINS, Nick. A corporação que mudou o mundo: como a Companhia das Índias Orientais moldou a multinacional moderna. Rio de Janeiro: Difel, 2012.
[18]FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014, p. 217.
[19]Idem.
[20]Idem.
[21]DELACROUX, Christian; DOSSE, François; GARCIA, Patrick. As correntes históricas na França: séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012, p. 63.
[22]FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 184-5.
[23]Na impossibilidade de dar maior destaque a Schiller, Leibniz, LaRouche e sua esposa Helga Zepp, seguem duas referências sobre um outro projeto para a humanidade: ZEPP-LAROUCHE, Helga. The Eurasian Land-Bridge: the most strategic question of today. Fidelio, Summer, 1997; SMALL, Dennis. The BRICS Summit: half of humanity launches a new world economic order. Executive Intelligence Review, 25 de julho de 2014.

Sobre a chamada “inflação de demanda”: a necessidade de criação de crédito público

Por uma auditoria cidadã da dívida!

Quando se fala em crédito público no Brasil o principal entrave encontrado é o dogma da inflação. O país não teria capacidade de absorver uma mão-de-obra bem remunerada, a criação de novos postos de trabalho, tampouco conseguiria reverter uma hipotética espiral inflacionária provocada por medidas “pró-cíclicas” como o do aumento real do salário mínimo, com impacto na Previdência Social, ou do grande volume de dinheiro investido em obras de infraestrutura. Os juros mais altos do mundo num país com inflação controlada não justifica o infame “regime de metas”. Outro lado perverso da balança, o regime de superávit primário, parece que meta mor de toda a administração pública, suga os recursos públicos, bloqueia investimentos, contingencia verbas e parece ser o manual dos chamados políticos fichas-limpa – um dos epítetos de um novo populismo. Mas, saindo um pouco dessa discussão um pouco trivial (pelo menos deveria ser), será que os chamados “programas sociais” do PT podem ser considerados como espécies de programa de micro-crédito? Teria esses programas alguma relação com o “food stamp” dos EUA? Como diferenciar o mero populismo de um legítimo programa de governo? Quando os EUA de Lincoln fizeram seus greenbacks, ou mesmo com outras medidas alavancadoras de créditos, suprimiram ou aumentaram a demanda por papel-moeda? Estaria o sistema de crédito vinculado à emissão de papel moeda? Seria sua pura emissão responsável pela inflação? Inflação e carestia são sinônimos? Essas e mais outras perguntas serão respondidas na série que esse blog dedicará ao tema da dívida pública e da criação de um sistema de crédito, iniciado com esse primeiro post sobre o tema da chamada “inflação de demanda”.


Tratarei de uma dupla inflação de demanda; uma relativa às conquistas sociais dos últimos anos no país, o que gera um desejo por mais conquistas, fortalece a democracia e inflou os protestos de 2013 – o pai de todos os fascismos atuais -, pois uma massa escravizada e esfomeada não se congrega de forma alguma para protestar sobre o que quer que seja. Essa massa, como sabemos, age solitária nos becos da indigência e só clama por esmolas. Por outro lado, existe o coro dos que sempre estiveram contra o progresso, ainda que o mínimo possível. Falo desses grupos globais, financeiros e midiáticos, que conhecemos tão bem com a extinção dos partidos políticos e a repressão há algumas décadas atrás. O mesmo capital transnacional que tutelou nossa mudança de regime nos fez depois sermos governados por uma espécie de elite letrada, iluminada, tão digna quanto os militares pareceram aos cidadãos nos tempos pretéritos.
Um dos exemplos na América Latina dessa política de “mudança de regime” (não custa lembrar do sucesso das forças do Atlântico Norte, e de seus aliados rebeldes, hoje no Oriente Médio) é o do Panamá pós-Torrijos. Este fez um acordo com Jimmy Carter para manter a soberania panamenha sobre o canal. É um sucesso simbólico para nós do continente, porém não se transformou num sucesso de fato para o povo daquele país, visto o assassinato de seu presidente e a entrada no poder de Manoel Noriega. Reeditando tardiamente o padrão das ditaduras militares sul-americanas, Noriega foi o porta-voz das elites que o colocaram no poder, e embaixador e protetor-mor dos grupos associados ao cartel de Medelín. Quando conveniente, foi afastado do poder e mandado à prisão dentro dos EUA. Foi condenado à pena elevada por seu envolvimento com o tráfico de drogas (a droga da Colômbia passava pelo Panamá antes de seguir rumo ao norte, com seus dividendos devidamente lavados na rede bancária globalizada[1]), mas cumpriu poucos anos, sem encontrar dificuldade em ser extraditado após pedido do governo francês aos estadunidenses. No Panamá pós-Noriega a dívida pública cresceu em escala geométrica, ao mesmo tempo em que por agora foi eleito seu “príncipe da Sorbonne”, o empresário também envolvido com o tráfico internacional, Ricardo Martinelli Berrocal. Este, logo colocou em ação uma política de dolarização da economia nacional, agravando ainda mais o déficit público, artifício utilizado pelos estadunidenses para entregar o controle do Canal às empresas multinacionais.
O caso do Panamá é paradigmático pelo seguinte: o regime imposto não é mais popular ou não atende com sucesso aos reclames estrangeiros, derrubemo-lo. O Panamá em 1989 foi vítima de uma invasão militar estadunidense, cujo número de vítimas ainda hoje seu povo não conseguiu contar. No caso brasileiro pós-constituinte, com a ajuda da mídia e dos grupos financeiros internacionais, se promoveu uma mudança de regime de acordo com os novos tempos, ou seja, a de abertura desenfreada da economia com o objetivo de derrotar a soberania nacional (da Constituição recém proclamada). Os exemplos conhecemos bem, ainda que Collor não tenha sido nem a sombra do que foi o sombrio governo do Farol, o Príncipe da Privataria.
Especificamente sobre a terminologia econômica “inflação de demanda”, é o que os economistas e analistas midiáticos entendem por ser a inflação causada pelo excesso de consumo das famílias. Como a produção (oferta) não acompanha a demanda por novas aquisições, os preços disparam. Porém, os preços só disparam por haver uma retração da oferta. Na histórica dependência dos países do cone sul ao chamado “sistema da dívida”, os analistas do mercado, sempre vigilantes, não sossegam enquanto não veem as taxas de juros devidamente ajustadas em relação ao “perigo inflacionário”. Supostamente, a oferta não acompanha a demanda. E nunca irá acompanhar caso a capacidade de investimentos e de fornecimento de crédito por parte do Estado ficar retido no pagamento das dívidas suntuosas. Com o aumento do consumo das famílias, o que assistimos é uma sucção dos recursos públicos que poderiam incentivar a multiplicação da oferta de produtos no comércio.
Assim, se ratifica a fraqueza dos bancos nacionais, Banco do Brasil e Caixa Econômica, cuja liquidez deve ser alcançada fazendo o mesmo jogo do mercado, ou seja, se tornando um global player ao invés de instituição nacional de desenvolvimento. Tudo isso devido ao enxugamento monetário a que procede a banca privada, que inviabiliza amplos investimentos estatais em setores basilares da sociedade, como educação, indústria e tecnologia, saúde, saneamento básico, assim como a projeção de grandes obras de infra-estrutura. Os bancos, caso quisessem operar no Brasil, deveriam atender aos imperativos de um sistema de crédito e não serem representantes do sistema da dívida. Só com crédito farto e barato e reformas políticas importantes, como a agrária e a eleitoral (chamada genericamente de reforma política), poderemos ter uma classe-média robusta e esclarecida, fundada no desenvolvimento nacional e não em modelos estrangeiros, como as clássicas “classes compradoras” dos países latino-americanos.
E aja liquidez, e crédito, e grandes projetos nacionais de educação, infra-estrutura, indústria e tecnologia, para o país crescer para muito além do malfadado superávit primário (o quanto sobra para pagar os banqueiros) e o PIB (crescimento nominal, monetário e não físico, da economia)! Não por outro motivo que o chamado Fome Zero (a quem muitos ainda hoje atribuem o epíteto de assistencialista, acreditando ainda por cima que Fome Zero é uma espécie de Criança Esperança estatal) é uma das mais bem sucedidas políticas publicas em todo o mundo. O bolsa família, o crédito rural e a política de troca de alimentos – integrantes do programa – dinamizaram a economia numa proporção só comparada às ações do segundo governo Vargas ou de JK, ficando tão popular, para o bem e para a maldição dos midiáticos analistas de mercado. O bolsa família é nada mais do que a mais legítima política do sistema de crédito, não muito distante dos greenbacks de Lincoln e das políticas do 2º banco dos Estados Unidos. A diferença é que, não podendo basear o crédito numa massiva produção futura (como no processo de industrialização estadunidense, quando o banco se endividava para poder emprestar mais e mais barato, sem pensar em lucro como os britânicos através de seu padrão ouro), baseou-o na necessidade de consumo das camadas mais empobrecidas da sociedade. Como no norte, não se procurava o lucro, mas o incremento da produtividade. Sem um banco verdadeiramente nacional, recorre-se ao Estado, tradição tipicamente latino-americana – falo aqui do surto coletivo do “concursismo”. Sem crédito para empreender, pensa-se na suposta – e toda poderosa – Estabilidade. Essa falta de esperança no futuro é por onde vem a melancolia na terra do carnaval.
Os “foodstamp” dos estadunidenses nem podem ser comparados ao Bolsa Família. O programa nortista é esmola no sentido próprio do termo, o populismo que nossas elites reacionárias só enxergam nos países ibéricos. Lá, quem necessita do foodstamp vai ao mercado com um cartão dado pelo governo e converte seu crédito todo no caixa. E ponto final. Aqui tivemos o privilégio de assistir Ali Kamel esbravejando contra os pobres que iam comprar geladeira e fogão ao invés de comida: “isso mesmo, nada de arroz, feijão e carne… (…) o que tem sido comprado é geladeira, microondas, máquina de lavar, fogão, liquidificador, forno elétrico, televisão e DVD[2]” Não lembro quem perguntou, mas foi direto ao ponto: ”Então quer dizer que os pobres tem que comprar a comida e cozinhá-la num buraco feito no chão de um canto da casa?”. Kamel só tem sua raiva e seus planos cinzentos para o país. Mas a questão não é só a da cozinha improvisada da população mais pobre. Importante é reconhecer que muitas dessas pessoas usaram o benefício como um verdadeiro crédito público, utilizando-o para criar pequenos negócios e movimentar a economia das áreas mais remotas do país. O papel da mulher na liderança desses empreendimentos também é notável, já que são elas que recebem o benefício. Mesmo o consumo privado – o que poupa a família de cozinhar num buraco no chão – por si foi capaz de dinamizar a economia e nos ajudar a enfrentar os desafios da crise de desintegração do sistema financeiro assistido a partir de 2008. E antes o programa se limitasse a esses dois pontos! As redes de assistência e de instrução pública convergem para dentro do programa, pois as crianças precisam freqüentar as escolas e procurar o cuidado médico. Nada de cartão para ir ao mercado e faturar as esmolas criadas pelos neocons – os populistas – estadunidenses. Pegue sua esmola e fique quieto em casa! Era uma vez um país, que há muito tempo atrás… Ah! Os deuses arianos, louros de olhos verdes – esse o mantra de nossos oligarcas liberal-fascistas.
Os greenbacks da época de ouro dos EUA, da época de sua industrialização (muito mais vigorosa e inclusiva do que a da Inglaterra), não tinham lastro em ouro; o crédito de Nicolas Biddle não se fazia com papel moeda, mas com cartas de crédito[3]. O incremento da economia nas menores cidades ou nos bolsões de miséria das capitais num crédito limitado, mas de fundo perdido, é o que continua salvando nossa economia na crise de desintegração do sistema financeiro que agora presenciamos. Como reverbera nas cidades médias e grandes, onde se encontram as indústrias nacionais, o bolsa família é uma política de assistência a todos os cidadãos brasileiros. Num país próspero, para além das taxas nominais com que trabalha o mercado, o pensamento futuro ficou por conta das políticas implantadas no segundo mandato de Lula, com destaque para os dois Programas de Aceleração do Crescimento (o Brasil hoje é um dos maiores canteiros de obra do mundo), o “bolsa família da infra-estrutura”, Luz Para Todos, e o ambíguo (devido a conjuntura especulativa atual, originada na política de “flexibilização quantitativa” dos EUA e dos seus correlatos da Troika) projeto de habitação popular, Minha Casa Minha Vida. Na verdade, a avalanche de dólares mundo afora assola todas as economias (onda hiper-inflacionária global), inclusive a chinesa, que mais e mais, junto aos BRICS, foge ao padrão dólar atual. Porém, garantindo o financiamento da moradia para quem ganha até três salários mínimos, o Minha Casa Minha Vida é um sucesso se pensarmos na faixa da população que está bem próxima ou é atendida pelas políticas assistenciais.
Sem querer nos fixar em como a atenção as classes populares influenciou na economia como um todo, podemos entender o que é esta outra “inflação de demanda”, ou seja, o desejo por melhoras ainda mais substanciais. Por outro lado, é quase uma tautologia dizer como o beneficiamento das classes populares afetou a melhora no padrão de vida das classes abastadas, já que é a primeira que compõe o Brasil real ou a grande parte do Brasil total (demograficamente falando), país que até hoje não se industrializou suficientemente por não ter formado uma sólida classe-média. Melhorar a vida dos mais pobres é praticamente aumentar o padrão de vida do país como um todo, consequentemente, inflacionando a demanda por melhora dos serviços públicos e demais avanços sociais. No sombrio governo do Farol de Alexandria (aquele que iluminava a Antiguidade e foi destruído num terremoto chamado Lula), segundo a mídia não assistimos qualquer inflação (a não ser a dos juros dos títulos da dívida pública), e, portanto, num país famélico e entregue ao arbítrio internacional, não se teve que enfrentar tais desafios.



[1]A então pré-candidata à presidência, Marina Silva, deu palestra em 2014 em São Paulo para os banqueiros do Credit Suisse e seus associados, onde defendeu firmemente a volta do famoso “tripé econômico” ao estilo FMI (o que parece ser o que ela chamou em outra ocasião de “disruptura” com o modelo atual). O Credit Suisse foi o responsável na década de 1980 pela lavagem do dinheiro do tráfico de passagem pelo Panamá  antes de chegar aos EUA, e, através do coronel Oliver North, guarda estreita vinculação com o escândalo dos Contras na Nicarágua. Ver a última da série de reportagens publicadas no site de Daniel Estulin (http://www.danielestulin.com) com o título “Caso Manuel Noriega”.
[2]Kamel, Ali. Bolsa Família agora compra eletrodoméstico. Jornal O Globo, 4 de março de 2008.
[3]No site do Comitê de Ação Política Lyndon LaRouche, LPAC (http://www.larouchepac.com), existe uma seção inteira dedica ao sistema de crédito como contraposto ao monetarismo britânico (hoje conhecido como liberalismo clássico). Segundo os excelentes estudos de seus pesquisadores, a herança da industrialização norte-americana não está na tradição sulista, associada a John Locke e demais britânicos, de “direito a propriedade”, mas na tradição científica de Leibniz aos reformadores prussianos, anti-newtoniana, de “busca pela felicidade”, assim como expressa na Declaração de Independência. Uma boa fonte em português é a tradução do projeto de lei proposto por LPAC, e que agora tramita no Congresso, de volta da lei Glass-Steagall, assim como instituída por Franklin Roosevelt. Ver em http://portugues.larouchepub.com/

O Caga-Regra

Para qual lado olha o “caga-regra”?
Vladimir Palmeira, militante de currículo recheado, apronta as suas no grupo dos novos dissidentes que já incluiu a inesquecível (ah!) Heloísa Helena, a súdita do Império Britânico e seu imperialismo “verdista” (vide WWF e correlatos), Marina Silva, o honorável senador Cristóvão e sei lá mais quantos. Num artigo intitulado “Desmarcarando a narrativa petista“, deitando os cabelos na derrota do PT no senado, quase se lambuzando, defendendo inclusive uma “meia-privatização” da Petrobrás e outras sandices de quem não encontrou um lugar ao sol nos últimos anos ou simplesmente se cansou de fazer política com mais conteúdo – e com mais caráter. Assim ele se exprime sobre a Petrobrás:

Ao mesmo tempo, a obrigatoriedade de participação da Petrobras em pelo menos 30% dos consórcios de exploração do pré-sal e o monopólio técnico da exploração foram profundamente maléficos para a estatal. Era melhor poder escolher os campos a explorar. Para a Petrobras, seria muito mais vantajoso ter uma participação maior ou até 100% do campo de Libra, por exemplo, abrindo mão de sua participação em outros campos menos rentáveis.

Agradar PSDB e PT parece ser a fórmula. Privatiza aqui e estatiza ali. Nada mais lógico, meu caro. Para quem teve a honra de conhecê-lo em plena campanha de 2010, quando se candidatou a deputado federal pelo PT, uma fórmula com esse caráter não engana. Em meio à campanha imunda promovida pelos tucanos e mídia, da época do “poste” respondida com o “biruta de aeroporto” (quem se lembra?), Vladimir defendida o “esquerdismo” de Serra (hoje cabalmente demonstrado) e ônibus ecológico. E eu cá com meus botões: “o cara quer ser deputado federal. Cadê o discurso de país? Por que sempre essa meia culpa? “FHC tava certo, Lula só continuou; ou Lula tava certo, mas FHC foi imprescindível, (não sei em qual ordem)” e assim seguia o lenga lenga, sem qualquer posicionamento inclusive sobre a campanha nacional, sobre os debates que estava em jogo. Como se sua biografia de “antigo militante” contasse, falasse meio que por si, como se fosse uma espécie de perfume que contasse mais do que qualquer palavra. Fique quieto, cheiroso, arrumado. Você é um cidadão de esquerda, consciente, engajado. Mas fique calado. Se falar, fale de temas belos, bonitos como ônibus ecológicos, ou sobre o tema eterno da moral e da ética. Ser bem comportado, acender uma vela para Serra e para o Diabo, para FHC uma de 7 dias e uma para Lula uma da pequenina, mas como tarefa diária (deve-se sempre deixar o capeta quieto; esse é um trabalho diário).
Agora, se currículo contasse, por exemplo, o zagueiro Wallace, hoje no Grêmio, provavelmente teria sua próxima estadia no Milan ou algum outro grande time europeu. Já acumulou Corinthians, Flamengo, o Vitória (que não é de se desprezar). Tem um currículo invejável. Tem futebol para tanto? Angelim, o herói do hexa, apesar de seu feito  de todo amor devotado por ele pela torcida, é classe internacional? Sem querer abusar das comparações ou achar que as posso fazer como fazia Lula, mesmo com as coisas mais esdrúxulas, não mostra visão nenhuma de país, ainda mais na conjuntura de extremo combate desde que o torneiro mecânico ganhou seu primeiro diploma, o de presidente da república. Por falar nisso, se Lula ouvisse Lula, os excelentes discursos que ele dava no modo improviso durante seus mandatos, não falaria tanta asneira. Quantas vezes se tentou um, se nem que “mini”, reforma tributária (tão enfatizada no texto de Vladimir), e todas as demais reformas. Sempre alvo das mais altas negociatas, hoje escancaradas com todas as mazelas de nossos presidencialismo de coalizão expostas, foi preciso se focar nos programas sociais, feitos mais por atos do executivo do que do legislativo (por isso o interesse de escrever nosso artigo, “Pela manutenção dos poderes da presidência“), do que por “reformas” (insistentemente repetidas no texto) que passariam pelo poder parlamentar, historicamente de pouco poder e visão, e que chega a uma situação calamitosa em nossa torta democracia. Tem pedaços do quitute para todos, e não sobra nada para os votantes. Para resumir o que todos já sabem.
Ele chega ao ponto descarado de dizer que foi o PT que fragilizou e destruiu a Petrobrás, como se toda a história do pré-sal e do fortalecimento dela nos últimos anos não desmentisse a sofística ponto por ponto. Com a palavra os petroleiros, bem mais qualificados nesse ponto – como provavelmente em muitos outros – do que Vladimir Palmeira. Nada de falar dos interesses estratégicos nacionais na área de defesa que são correlatos ao fortalecimento de nossa estatal, a construção dos submarinos nucleares e os não nucleares, os caças, toda a nova fronteira traçada que passou a ser chamada de Amazônia Azul. De fato, o PT não fundou a Petrobrás, mas fundou algo ainda maior, uma nova fronteira de desenvolvimento científico e tecnológico, completamente barrado pelo arresto conservador dos últimos dois anos.
Fora a questão dos fertilizantes, que teriam grande impulso com o incremento da exploração nacional do petróleo e seus derivados, Vladimir entra para o coro de Janot, ou seja, do politicamente correto daqueles que não podem criticar a Lava-Jato, inclusive considerá-la absurda do início ao fim, como cada vez mais é evidente para quem não gosta de cagar regras, como gostam esses novos pastores, disfarçados ou não dentro do funcionalismo público, escondidos atrás de seus indecentes contra-cheques (será que Moro ainda só recebe 77 mil? A informação é de 2014. Será que já passou dos 100 mil? Quanto recebe um membro desse, o wi-fi de deus pode ser, do ministério público?). Não foi o próprio FMI e outros órgãos internacionais que mediram em pelo menos 2% negativo o impacto da Lava-Jato no PIB de 2014-15? Isso não conta? A caça às bruxas vale e o que se deve punir são os “erros do PT”, palavra sacrossanta que cheira a sacerdotismo e tudo o mais que é velho e podre?
Um ponto final, a respeito de sua atitude “visionária” e dos demais do movimento Ação Crítica quando defenderam no pós-eleição as Diretas Já. P…!, querer eleições depois de um pleito recém realizado? Sob quais condições? Para se fazer uma reforma política? Então tira todo mundo e elege de novo para que isso aconteça? E a população vai escolher tão  bem quanto a Ação Crítica gostaria? Ou será que novas eleições serviriam só se fosse para escolher um grupo seleto? Será parecido com um grupo de “iluminados” (não importa se homens ou mulheres – a Ação Crítica talvez queira ser mais moderada, mais politicamente correta, e escolher alguns membros mulheres) do governo Temer? Faz-me rir. Pior do que isso, ou igual a isso, só o “iluminado” Sartre abençoado pelo Stalinismo.
Não percam o Lula em pratos limpos, o antípoda dessa visões de “nova esquerda” ao estilo marineiro, cristovista e – ah! – como o da saudosa Heloísa Helena. Por falar nisso, seria a Ação afiliada de algum modo ao PSTU, pelo menos ideologicamente? Não é esse partido que quer impeachment para nada, para a revolução permanente ao estilo jacobino?
O manual caga-regra de literatura sob o stanilismo.

Sombra Projetada: experimentações na modernidade



No grupo de estudos que mantenho no Facebook, sobre estudos “pós-foucaultianos“, a colaboração de um de seus membros, Edmílson Jr., numa pesquisa que fez junto a um professor, se não me engano da UFC, aponta para o que Foucault alertou, num texto bem tardio, de 1984, chamado “O que são as Luzes” (não confundir com o outro, o de 1983, “O que é o Iluminismo” – coloco os links para os textos no final da postagem) para a necessidade de se buscar certa homogeneidade na identificação dos processos modernos da constituição de si mesmo, de uma ontologia crítica de si mesmo, ou, mais brevemente, na identificação do que é o éthos moderno. Ele se expressa dessa maneira:

“Homogeneidade. Conduz ao estudo do que poderíamos chamar de ‘conjuntos práticos’. Trata-se de tomar como domínio homogêneo de referência não as representações que os homens se dão deles mesmos, não as condições que os determinam sem que eles o saibam, mas o que eles fazem e a maneira pela qual o fazem. Ou seja, as formas de racionalidade que organizam as maneiras de fazer (o que poderíamos chamar de seu aspecto tecnológico), e a liberdade com a qual eles agem nesses sistemas práticos, reagindo ao que os outros fazem, modificando até certo ponto as regras do jogo (é o que poderíamos chamar de versão estratégica dessas práticas). A homogeneidade dessas análises histórico-críticas é assegurada, portanto, por esse domínio das práticas, com sua versão tecnológica e sua versão estratégica”. (FOUCAULT, “O que são Luzes”)

É exatamente essa homogeneidade que é buscada através da utilização do software gráfico Isadora e a vídeo-instalação Sombra Projetada, ou seja, a capacidade de, a partir do uso desse dispositivo, criar um jogo que crie ao mesmo tempo uma espécie de contraponto e metalinguagem ao jogo jogado “do lado de fora”, e assim poder, como um artista, modificar as regras desse próprio jogo. Como ele diz com o co-escritor de seu artigo:

“Em vez de um software de acordo com usas possibilidades – ou, segundo Flusser, de acordo com a programação que me é dada -, eu poderia procurar uma forma de criar um uso. Poderia criar uma proposta artística que gerasse a discussão sobre o próprio aparelho, alimentando o diálogo cósmico e subvertendo o programa. Seria uma pista para a subversão do status quo, uma proposta de mudança partindo de uma variação de perspectiva. Seria necessário que, tomando a distância necessária, observássemos de fora. E, com isso, mudar.

“Essa nova perspectiva abriria as percepções justamente pela potência dialógica que ganha das imagens técnicas. Nessa possibilidade de reinterpretação, os próprios aparelhos, o gadgets, seriam a matéria-prima para uma produção de diálogos com uma riqueza criadora inimaginável. ‘Seríamos, de repente, ‘todos artistas’ (aqui o termo ‘arte’ engloba ciência política e filosofia)’. É então nos gadgets, de acordo com Flusser, que o engajamento revolucionário deve se concentrar. Devemos assumir uma postura crítica perante eles e invertê-los na direção de nossa liberdade”.

Diria mais, talvez. Esse objetivo de “subverter o gadget”, de reinterpretá-lo criativamente, criticamente, é o objetivo da criação do grupo de estudos Pós-Foucaultianos e, de um modo geral, da recente criação de meu blog. Feito essa ponderação, queria voltar à questão dos dois textos de Foucault (o de 1983 e o de 84) e como isso se relaciona com essa postura ou atitude moderna exemplificado pela vídeo-instalação Sombra Projetada. A diferença entre os dois textos é que, talvez, o mais antigo quase parece ser descartável frente à descontinuidade que Foucault acaba por introduzir, por exemplo, quando coloca Baudelaire ao lado de Kant. Diz ele que não é uma questão metafísica, uma questão sobre as origens, uma questão histórica num sentido tradicional que se coloca quando se pretende pesquisar o que é o ser moderno. Na verdade, se pretende entender o “modo de ser” moderno, e isso não passa por uma metafísica, por uma “questão última”, mas pela atitude de ser (ou “do” ser) moderno. Por isso que é introduzido Baudelaire.
Não se trata de saber o que é pré ou pós-moderno em contraposição ao que se chama de “período moderno”. Creio que seria melhor procurar entender a atitude de modernidade, desde que se formou, pôs em luta com as atitudes de ‘contramodernidade'”. Então, um caso de “atitude” e não de postura meramente intelectual como no caso de se “compreender” o que são as Luzes. “A modernidade não é um fato de sensibilidade frente ao presente fugidio; é uma vontade de ‘heroificar’ o presente”. Daí, a meu ver, a distinção fundamental entre Kant e Baudelaire.
Do mesmo modo, existiram muitos “humanismos” (como, de outra forma, “interpretações” do Iluminismo). Um humanismo socialista, marxista, mas também um nacional-socialista e um stalinista. São denominações genéricas, não capazes de compreender esse momento de atitude, de coragem (lembrar da “coragem da verdade” e sua vinculações com a alétheia), que caracteriza o éthos moderno. O texto do Edmílson, a narrativa apresentada ali, respeita bem esse princípio, segundo o qual “para a atitude de modernidade, o alto valor do presente é indissociável da obstinação de imaginar, imaginá-lo de modo diferente do que ele não é, e transformá-lo não o destruindo, mas captando-o no que ele é. A modernidade baudelairiana é um exercício em que a extrema atenção para com o real é confrontada com a prática de uma liberdade que, simultaneamente, respeita esse real e o vila”.
Sem mais palavras sobre todos esses assuntos terminamos com a frase, não mais de Foucault, mas de Baudelaire: “Vocês não tem o direito de menosprezar o presente”. Seguimos em frente!
LINK PARA O TRAABLHO DE EDMÍLSON, ONDE É DESCRITO EM TODOS OS DETALHES E COM A APRESENTAÇÃO DOS VÍDEOS: https://vejaoqueeufiz.wordpress.com/2013/08/13/sombra-projetada/

LINKS DAS REFERÊNCIAS FOUCAULTIANAS:

Metade da Humanidade Ingressa (?) numa Nova Ordem Econômica Mundial

Não foi só Putin quem olhou feio para Obama. O presidente Duterte, das Filipinas, também se posicionou frontalmente contra os arbítrios de Obama no Mar da China, onde se encontra estacionada 80% da capacidade nuclear da OTAN. (créditos da montagem para lpac.com)
Não foi só Michel Temer que foi colocado de lado na última reunião do G-20. Em sua última aparição no evento, Barack Obama foi visto andando pelos cantos, sem receber maior receptividade dos convidados. Sem dúvida, Xi Jinping foi a estrela da festa. Apesar do ataque aos BRICS realizado até agora com relativo sucesso na América do Sul (com as perseguições judiciais a Cristina Kirchner e Lula, o ataque aos grandes projetos de desenvolvimento e às empresas nacionais, estatais ou não, o processo de impeachment bem sucedido tanto no Brasil como no Paraguai, e os embustes que levaram Macri à presidência), a China foi a estrela maior do encontro, até por ter sido realizado em seu próprio território.
Obama se mostrou um fracasso total por ter se comprometido com o desarmamento mundial, com o final das guerras promovidas por seu país ao arrepio do direito internacional, por governar um país que dá sinais muito fracos de recuperação econômica e cujo perigo de nova quebra financeira está sempre presente. Um presidente fracassado, humilhado no chamado “combate ao terror” pelas ações da Rússia na Síria, e incapaz de conduzir negociações de paz com os russos na Crimeia e no Oriente Médio, o que nos está levando – se já não estamos – numa ainda mais perigosa Guerra Fria – agora “super-quente” (como analisamos no post Sobre a guerra que se aproxima). Imbecilidade ainda maior dessa guerra quando, na impossibilidade de excluir todos os atletas olímpicos russos do Jogos, exclui toda delegação russa das Paraolimpíadas. Ataques econômicos diretos (sanções econômicas), indiretos (especulação com o preço do petróleo), hostilidades puramente ideológicas baseadas em bases jurídicas frágeis e/ou hipóteses inverossímeis, como na farsa das Olimpíadas, mas também na história ridícula do vazamento dos dados da campanha de Hilary “Orgia” Clinton pela Rússia através de uma suposta conexão com Trump. Os fracos sempre tem que achar um inimigo externo.
Deve-se levar em conta que dentro da estrutura da “nova guerra fria” encontra-se o ataque econômico à Rússia. De um lado, pelas sanções, sempre inexplicáveis num mundo supostamente não mais regidos por ideologias. De outro, a manipulação dos preços do petróleo, que atingem frontalmente os russos, mas também levam ao caos à Venezuela e ao enfraquecimento da Petrobrás, já combalida com os ataques vindos da mídia e de Curitiba. No plano geral, não se vê medidas de envergadura nem nos EUA, nem na Europa, para se combater o declínio e o caos econômico. Nenhum retorno a Roosevelt, por exemplo. O que se teve foram supostas medidas “anti-cíclicas”, quantitative-easing, prontas para salvar os bancos “muito grandes para falir”, como se disse, desvalorizando o preço do dólar mundo a fora e sobrevalorizando sua entrada nos países com poucos controles cambiais – como o nosso -, o que explica determinadas expirais inflacionárias e movimentos especulativos, como nos preços de imóveis urbanos, mas também no preço de terras.
(Daniel Dantas como agente da City de Londres (ou do City Bank, como quiserem – no geral ou no particular) não só comprou e hiperinflacionou os preços dos imóveis, por exemplo, na rua da Carioca, querendo transformar aquilo numa espécie de shopping a céu aberto e expulsando comerciantes que trabalhavam lá há décadas – e isso é só um exemplo com outros componentes que devemos procurar para explicar de modo satisfatório a alta acelerada dos preços dos imóveis, e não só a “inflação de demanda” supostamente provocada pelo aumento do crédito imobiliário – ainda assim continuou muito caro, longe de padrões ditos “civilizados” – no governo petista. Dantas também virou latifundiário e controla terras no Pará, por exemplo, e faz seus usos comuns de trabalho escravo e sobrevalorização dos preços da terra, como manda seus patrões dos bancos improdutivos, especulativos, a quem serve. Para mais detalhes, leia entrevistas ou artigos de João Pedro Stédile, “amicíssimo” de Dantas. Como se desenharia esse quadro caso identificássemos outros agentes? O projeto para habitação no centro da cidade do Rio de Janeiro – fracassado -, com cotação na bolsa, feita pelo prefeito Eduardo Paes para dar liquidez às obras no Porto Maravilha são outro exemplo, bem documentado nas atas de seu Conselho da Cidade. E no Brasil afora, como se articularam esses agentes, dentro ou fora da esfera estatal, seja por dever ideológico ou de ofício?)
Do outro lado do Atlântico, a Europa fala em “dinheiro-helicóptero” (espécie de emissão monetária avulsa para “combater” a retração econômica), juros em 0%, países extremamente endividados, crise migratória e submissão aos ditames dos EUA, que penalizam diretamente a Europa, como é o caso da coação sofrida pelo continente, da proibição em fazer comércio com os russos. Imbecilidade e idiotice daqueles que dizem que os tempos de ideologia acabaram. Que agora houve um vencedor, que o capitalismo (não sei onde) ajudou a combater a pobreza (terá sido com os Chicago Boys?) e que não podemos mais questionar o final da história fukuyaniano imposto pelos neocons, iniciado nos anos 1980 e cuja primeira grande celebração pública foi a Guerra do Golfo. Tempos de neomacartismo, da construção de formas de pensamento desprezível, tanto expostos com os “ppt” do procurador wi-fi de Deus, ou numa suposta teimosia de Chico Buarque, que talvez devesse fazer como Gabeira e adotar uma postura liberal, reconhecer os erros, etc; ou como o FHC do “esqueçam tudo”; ou, ainda pior, como o poeta defensor do amalucado do Itamaraty, a figura quase digna de compaixão, se não de ojeriza (caso o compararmos com a postura contemporânea de Augusto de Campos), de Ferreira Gullar. O artigo é para dar gargalhas, publicados por um instituto chamado Liberal. Veja aqui.
Com a celebração da China no último encontro do G-20, resolvi publicar um artigo de 2014, traduzido por mim, onde se comemorava o pacto firmado pelos BRICS, formalizando sua aliança e estruturando uma série de medidas para o incremento da economia física de nosso sub-continente. O canal da Nicarágua (já em andamento, e muito superior ao canal do Panamá), a ferrovia Transandina e muitos outros projetos fizeram o autor do texto, diretor do departamento de estudos Ibero-americanos da Executive Intelligence Review, Dennis Small, falar que “metade da humanidade ingressa numa nova ordem econômica mundial”. O que estava (está, porque o golpe ainda não terminou seu último capítulo) em jogo é a soberania nacional, o papel de liderança exercida pela Petrobrás na construção de uma sociedade mais justa, articulando sua missão com um amplo projeto de defesa, com caças e submarinos de última geração, além de inovações nativas nas máquinas utilizadas pelo exército. Modelando tudo isso, a parceria BRICS (presente inclusive no primeiro leilão do pré-sal feito no modelo de partilha, com relevante participação chinesa) e seus avançados projetos de infra-estrutura (no caso clássico, já em andamento, da Nova Rota da Seda, como podemos relatar nesse post) discutidos para a América Central e do Sul, como relatados no artigo abaixo.

Como pode o entusiasmo alcançado ainda em 2014, quando o país, inclusive, chegou a níveis ditos “civilizados” de taxa de desemprego (pouco abaixo dos 5%) e que saiu ainda naquele ano do mapa da fome da ONU, etc., ter cedido tão rápido e parecer ter caído numa espiral rumo ao abismo e que ninguém consegue prever seu fim? Há pouquíssimo tempo atrás, quando os “liberais”, os paneleiros de plantão e ignorantes e/ou mal intencionados no geral, começavam a falar alguma coisa, frente aos avanços relatados por quem defendia o projeto de poder do PT (esse mesmo que alguns com muito poder chamam – e sempre o fizeram – de criminoso), sendo ou não petista, ou puramente nacionalista, não-entreguista, ou simplesmente tinha alergia a elitismo, os “reaças” tinham de se calar. E se calavam. O que houve que a canalhice em tão pouco tempo proliferou? Será que realmente perdemos? Será que só mesmo em 2018, com ou sem Lula, com ou sem um tucano novamente no poder, elegido por manipulações na justiça eleitoral como se pretende?

Falam muito da “longa noite” de vinte e poucos anos da ditadura militar. Mas, se pensarmos por outro lado, a falência da república oligárquica em 1930 teve à sua frente um governo Vargas, ainda claudicante, mas que foi tomando força até o excelente governo de JK – claro que entre desvios, interrupções, etc. -, e a derrota com o golpe sobre Jango. Aí temos 34 anos de luta franca, aberta, em que o nacionalismo parecia que iria triunfar. Como disse certa vez Darcy Ribeiro, como ministro da Casa Civil de Jango, “a gente achava que a partir dali o Brasil iria dar certo”. A nova república não começou propriamente com a mobilização das Diretas Já. Tivemos o longo intervalo do governo Collor, do ainda mais indecente governo FHC, e só começamos a novamente criar políticas soberanas depois de 2003. Em dois, três ou quatro anos não se vai conseguir destruir os anseios sociais que se materializaram depois de tanto tempo. Muito menos o ciclo de ascensão social durará parcos 13 anos. Há muito a se refletir e é sempre bom lembrar que há pouquíssimo tempo atrás ainda vivíamos momentos de grande jubilo e euforia.

O artigo traduzido foi publicado originalmente na página em português da Executive Intelligence Review,

Metade da Humanidade Ingressa numa Nova Ordem Econômica Mundial

Por Dennis Small

22 de julho de 2014 (EIR)—Na metade de julho, com o planeta sendo sacudido pelos horrores da Ucrânia, Iraque, e Gaza, e pela depressão econômica causada pelos estertores de morte do sistema financeiro transatlântico, chefes de Estados representando a metade da humanidade se reuniram no Brasil e deram os primeiros passos rumo a criação de uma Nova Ordem Econômica Mundial.
Os líderes das nações BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), se encontraram em 16 de julho em Fortaleza para a IV Reunião de Cúpula dos BRICS, e no dia seguinte foram recebidos pelos chefes de Estado da América do Sul na capital do país, Brasília. Os BRICS contam com 43% da população mundial e 27% da área terrestre do planeta; quando é adicionada a Ibero-América, juntos representam 48% da raça humana e um terço das terras do planeta (Figura 1).
FIGURA 1
Os BRICS e Ibero-América

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Na Cúpula e nas suas diversas reuniões bilaterais e multilaterais, essa metade da humanidade adotou o projeto que pressupõe a rejeição do atual sistema de cassino financeiro, e o substituiu por um que provê crédito para o desenvolvimento de projetos de alta tecnologia; na educação e treinamento da juventude para lidar com os crescentes desafios do futuro; no respeito pleno à soberania nacional, banindo a política imperial de mudança de regime e guerras; e numa explícita promoção do bem comum entre as nações – o princípio de Westfália.
“A história nos ensina que a lei das selvas não é o caminho para a coexistência humana”, disse o presidente chinês Xi Jinping em 16 de julho. “Cada nação deve obedecer o princípio da igualdade, confiança mútua, o aprendizado recíproco, a cooperação e a procura por benefícios mútuos… para a construção de um mundo harmonioso, de paz sustentável e prosperidade conjunta”.
A Rainha Inglesa não ficou satisfeita com esses desdobramentos, vendo neles uma ameaça existencial para o Império. Lyndon LaRouche ficousatisfeito pela mesma razão. Por 40 anos, o renomado homem de Estado tem idealizado programas e os organizado internacionalmente, como a reforma financeira global e grandes projetos de desenvolvimento – mais recentemente suas “Quatro Novas Leis Para Salvar os EUA Agora!” – precisamente do tipo que agora foi posto na agenda pelos BRICS.
“Os BRICS e seus aliados estão construindo um sistema mundial baseado no valor real, e não nos falsos valores de papel”, disse LaRouche em 18 de julho. “Eles estão decidindo o que é o valor real, e estão impondo isso, que é o custo dos poderes produtivos do trabalho numa situação de mudança”.
O problema subjacente que nós devemos encarar hoje, na elaboração de LaRouche, é a “assimetria do valor no mundo”, que vem de dois diferentes sistemas que estão operando em lógicas distintas e diferentes métricas: Eles são totalmente incompatíveis.
O primeiro sistema é o sistema transatlântico. “Esses bastardos”, disse LaRouche, “que carregam folhas de papel dizendo que valem quadrilhões, e que estão preparados a matar por causa disso”, como mostra o caso da batalha da Argentina contra os fundos abutres, assim como a decisão judicial a favor dos abutres, do idiota aristotélico outrora conhecido como o juiz da Suprema Corte, Antonin Scalia. O que essas pessoas carregam, esses papéis, LaRouche complementa, são absolutamente sem valor. “É como tirar panos de chão de um balde com água suja e tentar vendê-los como roupa nova”; ou ainda pior, é apenas a promessa de entrega futurados derivativos desses trapos que eles dizem ter valor.
Essa é a mão morta do passado tentando impedir a humanidade de criar qualquer futuro por si mesma.
Do outro lado, nós temos um sistema emergente, incompatível com o primeiro, que vem construindo um mercado baseado em valores reais. E valor real, como elaborado por LaRouche, se origina e é medido pelo desenvolvimento dos poderes produtivos do trabalho, ou seja, através da introdução de novas tecnologias criadas cientificamente, efetuando o processo produtivo que aumenta a densidade de fluxo-energético através da economia física de tal maneira que eleva exponencialmente os poderes produtivos do trabalho. Esse novo sistema irá criar um processo pelo qual o aumento da densidade de fluxo energético irá por si mesma crescer numa taxa acelerada.
O domínio sobre o progresso tecnológico e os avanços científicos, especifica LaRouche, é o que a espécie humana faz, de maneira única. Tal criatividade é realmente a fonte de valor na economia e o caminho no qual nossa ação para criar o futuro define o valor presente. Esse é o conceito central do Sistema Americano de Economia Política com o qual se formou os Estados Unidos.
A decisiva questão estratégica hoje, LaRouche, conclui, é se os Estados Unidos vai ingressar nessa Nova Ordem Econômica Mundial emergente ou ficará à sombra do Império Britânico – como está sob o presidente Barack Obama, quem merece um impeachment — e trazer a destruição sobre si mesmo e ao restante do mundo. O mesmo dilema existencial é enfrentado pela Europa.
Trazendo um Futuro Nuclear

A Cúpula dos BRICS publicou a Declaração de Fortaleza, com 72 pontos, que anunciou a formação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), inicialmente capitalizado em 50 bilhões de dólares, para financiar projetos de infra-estrutura nos BRICS e em outros países; assim como uma reserva de contingência de 100 bilhões de dólares para ajudar os países a lidar com a fuga de capitais e outras formas de guerra financeira.
Muitos comentadores internacionais se engajaram em acrobacias sem fim, dissecando frases da Declaração de Fortaleza e de pronunciamentos na Cúpula, para tentar determinar se essas novas instituições dos BRICS são meros complementos do Fundo Monetário Internacional do Império Britânico e outras instituições, ou se são para substituí-lo com uma nova arquitetura financeira. Mas a resposta para essa questão não reside no escrutínio das palavras escritas ou faladas, mas na intenção por detrás da criação de novas instituições, que é melhor refletida em dois pontos fundamentais que foram ignorados em todas as discussões: o futuro e a juventude, e a energia nuclear.
O primeiro ministro indiano Narenda Modi foi o mais eloqüente quanto a primeira tese, enfatizando para a sessão plenária da Cúpula “a singularidade dos BRICS como instituição internacional. Pela primeira vez, isso traz junto um grupo de nações sob o parâmetro do ‘potencial futuro’, ao invés da prosperidade existente ou das identidades compartilhadas. A própria idéia dos BRICS é, portanto, olhar para frente”. Ele rogou para os BRICS agora irem além de “ser Cúpula-centrista”, propondo que a juventude das nações BRICS tome a liderança na expansão de contatos interpessoais entre suas nações. Ele sugeriu o estabelecimento de um Fórum dos Jovens Cientistas dos BRICS, fundando as escolas de línguas do BRICS “para oferecer treinamento em cada uma de nossas línguas”, e explorando a criação de uma Universidade dos BRICS.
Modi concluiu: “Excelências, nós temos uma oportunidade de definir o futuro – não só de nossos próprios países, mas do mundo inteiro… Eu tomo isso como uma grande responsabilidade”.
O presidente russo Vladimir Putin seguiu o mesmo tom em seus comentários a imprensa em 17 de julho, valorizando os resultados de sua viagem: “Os BRICS são todos jovens Estados e o futuro pertence aos jovens”.
Sobre a questão da energia nuclear, a discussão do assunto e a conclusão de numerosos acordos concretos permearam a Cúpula e as tratativas bilaterais a ela relacionadas, especialmente as do presidente russo Putin e a presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner e a presidente brasileira Dilma Rousseff. Isso, fora o fato de que a Declaração de Fortaleza por si mesma – de muitas formas um “documento de consenso” típico de tais reuniões internacionais – não menciona o tema além da defesa do direito do Irã no desenvolvimento pacífico da energia nuclear.
A medida real de valor na economia, LaRouche enfatizou, é o impacto da ciência e da tecnologia em continuamente aumentar a densidade de fluxo-energético do processo produtivo. Embora a direção científica requerida para a economia mundial seja o desenvolvimento da energia termonuclear de fusão, a atual insistência na fissão nuclear entre os BRICS e países aliados é altamente significante, por refletir o compromisso em elevar a densidade de fluxo energético global da economia.
Bem melhor do que qualquer medida monetária ou baseada no PIB, a densidade de fluxo energético e outros parâmetros da economia física é o que melhor indica a direção seguida pelos BRICS.


FIGURA 2

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A Figura 2 mostra a porcentagem da energia nuclear no total da geração elétrica – que é um indicador geral da densidade de fluxo energético – em alguns países BRICS (Rússia, Índia e Brasil), comparados com representantes dos países europeus (Alemanha e Espanha), olhando tanto para os níveis atuais e os projetados. No caso da Alemanha, por exemplo, a criminosa política verde do Império Britânico de desnuclearização já levou a um drástico colapso das usinas nucleares, de um total de 28% da energia total em 1990 aos 15% atuais. O governo alemão de Angela Merkel tem adotado a política de reduzi-la a zero pelo ano de 2020! A Espanha está quase tão mal quanto.
Compare isso ao que a Rússia tem feito, aumentando a proporção da energia nuclear de 11% em 1990 a 18% em 2013, com um política de aumentar essa proporção para 27% em 2030. Outros países BRICS tem proporções menores de energia nuclear no total de produção energética atual, mas eles estão desafiadoramente comprometidos com um futuro nuclear. O Brasil, por exemplo, planeja aumentar sua matriz nuclear de 3% para 15% em 2030. Como a presidenta Dilma Rousseff declarou um pouco antes do início do encontro: “Nossos países estão entre os maiores do mundo e não podemos ficar contentes, no meio do século XXI, com qualquer tipo de dependência. Os eventos recentes demonstraram que é essencial que nós busquemos por nós mesmos nossa autonomia científica e tecnológica”.
A África do Sul também acabou de anunciar que está retomando seu programa nuclear, com o planejamento da construção de seis novas plantas.
É de notar que a China tem o maior programa de construção de energia nuclear no mundo hoje – uma distinção que na década de 1970 foi para oTenessee Valley Authority (Autoridade do Vale do Tenessee), criado por Roosevelt. De fato, das 66 plantas nucleares em construção mundo afora, 50 delas estão nos países BRICS. Em outras palavras, 43% da população mundial está construindo 75% das plantas nucleares no mundo; ou, a taxa de construção nuclear é maior 4,3 vezes per capita nos BRICS do que no resto do mundo.
A realidade é, com certeza, muito mais dramática do que o indicado pelos simples números apresentados, porque a energia nuclear está sendo resolutamente destruída na maior parte do setor transatlântico (e no Japão), como resultado direto das suicidas políticas verdes do Império Britânico. Os BRICS e seus aliados deixaram claro que não haverá nada disso: Eles pegaram a agenda verde da Rainha Britânica, como refletida na Resolução de Copenhagen, e a jogaram na lata de lixo.
LaRouche tece uma fina observação sobre isso:
“E o que falar de Frau Merkel, da Alemanha?”, perguntou em 18 de julho. Ela representa a mais inútil visão de valor; ela está desmantelando a energia nuclear, destruindo a economia e tornando-a absolutamente sem valor, disse ele. “Qual o valor de suas opiniões? Quase nada”. Os BRICS e a Ibero-América estão construindo um mercado mundial baseado em valores reais, e eles são bem mais produtivos do que os da Europa e Estados Unidos, que insistem em valores estabelecidos por um juiz louco – Scalia, no caso argentino.

Grandes Projetos de Infra-Estrutura

O que também reflete o foco dos BRICS no valor real foi a ênfase colocada sobre a criação de um sistema de crédito para financiar grandes investimentos em infra-estrutura. Dois desses importantes projetos avançaram na Cúpula dos BRICS e ao redor dela.


FIGURA 3

Ponte Terrestre Mundial
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O primeiro foi a ideia de finalizar o sonho centenário de construir uma ferrovia transcontinental que conecte a costa do Pacífico a Atlântica da América do Sul (Figura 3). Isso tomou forma na discussão entre o presidente chinês Xi e o presidente peruano Ollanta Humala, e depois com a presidenta brasileira Dilma Rousseff. Foi alcançado um acordo para que se abra uma licitação para companhias estrangeiras, inclusive chinesas, para participar na construção de um segmento importante do projeto: a rota em forma de “T” no Brasil central, Palmas-Campinorte-Anápolis/Campinorte-Lucas.
FIGURA 4
América do Sul: Ferrovia Transcontinental
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A importância desse segmento dentro do projeto como um todo é claro naFigura 4, um mapa esquemático publicado por primeira vez pela EIR já no ano de 1988. O terminal norte de Palmas fica a um passo do famoso projeto Carajás no meio da floresta amazônica, a maior (e mais pura) reserva de minério de ferro do mundo, que agora é conectada por trilho ao porto atlântico de São Luís. Uma vez construído, o terminal ferroviário de Lucas então estará na metade do caminho entre as costas do Brasil e do Peru, , onde a linha ferroviária projetada poderá se ligar com um ramal peruano que irá atravessar os Andes até Saramirisa – a passagem menos elevada da extensão gigantesca da cordilheira – e daí para um ou mais portos peruanos para o embarque através do oceano Pacífico. Isso irá cortar drasticamente o tempo e o custo do frete do Brasil (e de outros países do Cone sul, como a Argentina) para as potências euro-asiáticas, como China, Índia e Rússia.
Eficiência ainda maior em crescimento e produtividade pode ser alcançada assim que essa Ferrovia Transcontinental Sul Americana estiver em condições para se conectar diretamente por trilho com a Ásia, quando forem construídas as linhas de alta velocidade maglev, abrindo uma rota pela Região do Darién e no Estreito de Bering (Figura 3).
São variadas as possíveis rotas para uma Ferrovia Transcontinental Sul Americana. (Uma em discussão entre China, Brasil e Peru tem como foco São Paulo-Santa Fé do Sul-Cuiabá-Porto Velho-Pucallpa-Saramirisa-Bogotá-Panamá. Outra opção viável é São Paulo-Santa Fé do Sul-Santa Cruz-Desaguadero-Saramirisa-Bogotá-Panamá, que tem sido extensamente estudada) De fato, versões antigas exatamente desse mesmo projeto foram desenhadas pela Comissão Intercontinental de Ferrovias, iniciada pelo secretário de estado estadunidense James Blaine, que empregou engenheiros das Forças Armadas de seu país para examinar e projetar linhas que conectassem os Estados Unidos até a Argentina e o Brasil, apresentando um mapa completo da pretendida rota do projeto ao presidente William McKinley em 1898 (Figura 5). McKinley, ardoroso defensor do Sistema Americano, comemorou os planos de Blaine como o futuro da humanidade em sua fala de 1901 na exposição Pan-Americana em Búfalo – onde McKinley morreu baleado numa operação conduzida pelos britânicos.
FIGURA 5
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Uma parte do mapa, elaborado em 1898 para a Comissão Intercontinental de Ferrovias. Depois do asesinato do presidente McKinley, nenhuma ferrovia ou estrada conectando América do Norte e América do Sul, foi construído até hoje em dia.
FIGURA 6
Canal Interoceânico de Nicaragua
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Outro grande projeto, a construção de um Canal Interoceânico através da Nicarágua (Figura 6) foi anunciado em 9 de julho pelo presidente nicaragüense Daniel Ortega. O robusto projeto ficará a cargo da companhia chinesa HKND, mas o presidente Putin também fez uma escala não programada na Nicarágua a ser feita em 12 de julho, rumo à Cúpula dos BRICS, para oferecer ajuda russa. O canal irá correr 280 quilômetros, da embocadura do rio Brito na costa pacífica do sudeste da Nicarágua, até a embocadura do rio Punta Gorda, no lado do Caribe. Irá incluir dois eclusas, 105 quilômetros deles passando através do Lago da Nicarágua, com um tempo projetado de passagem de 30 horas, de costa a costa, para os 5.100 maiores navios do mundo que poderão utilizar esse canal.
Engenheiros do projeto contam que serão necessários mais de 50.000 operários na sua construção e que, uma vez em operação, gerará mais de 200,000 empregos, incluindo seus sub-projetos (aeroporto, dois portos, centro turístico, etc.).
O presidente Ortega, ao anunciar a rota selecionada, disse que o sistema educacional inteiro está sendo reformulado para produzir os técnicos e engenheiros necessários ao projeto. Ele também mostrou um livro com os estudos de viabilidade para a construção desse canal, produzido pelo governo dos Estados Unidos e adotado pelo Congresso estadunidense 118 anos atrás, em 1896, detalhando os benefícios que o canal trazeria.
Ninguém perdeu o fio da ironia. A China está ativamente envolvida em projetos econômicos com criação massiva de empregos na América Central – o proverbial “quintal” dos Estados Unidos – enquanto o EUA sob Obama tem ajudado a destruir aquela área com sua política de legalização de drogas, acima de décadas da devastação econômica do livre-comércio do Império Britânico. Hoje, um terço da população de El Salvador tem sido forçada a emigrar para os Estados Unidos, numa busca desesperada por meios de sobrevivência; enquanto o desemprego oficial na vizinha Honduras passa agora de 60%.
O mais amplo compromisso no desenvolvimento de infra-estrutura foi firmado no último dos múltiplos encontros históricos realizados em Brasília no meio de julho, aqueles dos chefes de Estado e representantes especiais da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que se encontraram com o presidente Xi e os líderes dos Estados da Unasul em 17 de julho. Sua declaração conjunta enfatizou a “importante oportunidade para o desenvolvimento mútuo” existente, anunciando “o estabelecimento de uma ampla parceria da igualdade, benefício mútuo e o desenvolvimento comum entre China, América Latina e o Caribe”.
O Novo Banco de Desenvolvimento

É uma questão elementar o fato de que o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Acordo de Reservas de Contingência (ARC) são as sementes de uma arquitetura financeira internacional totalmente nova – ainda que uma grandiosa batalha política esteja à frente para que essa política entre em vigor, contra as violentas objeções da City de Londres e Wall Street, incluindo seus agentes dentro de alguns dos países BRICS. O documento fundador do NBD cautelosamente toca na idéia de que o NBD e ARC tem o significado apenas de instituições “complementares” às existentes, como o FMI; mas os princípios sob os quais foram fundados não só contradizem os do FMI, como mutuamente eles se excluem.
Ainda mais relevante, o NBD fica claramente preparado a emprestar dinheiro para o desenvolvimento real, sem as odiosas condições de austeridade e as políticas ambientalistas associadas ao FMI e ao Banco Mundial. Por exemplo, a declaração conjunta entre CELAC e a China contém uma ruptura radical com as condicionalidades do FMI e do Banco Mundial, convocando “para o bom uso das concessões dos empréstimos concedidos pela China, de acordo com as necessidades e prioridades dos países beneficiários (…). Nós reiteramos a importância da construção e modernização da infra-estrutura”.
A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, que teve um comportamento de destaque (depois de sua anfitriã, Dilma Rousseff) na Cúpula Unasul-BRICS, deu a mais clara declaração para uma nova ordem financeira mundial: “Nós, senhores, estamos propondo então uma nova ordem financeira global, uma que não seja apenas justa e equitativa, mas indispensável (…). O que nós pedimos ao mundo é, objetivamente, a criação de uma nova ordem financeira global que irá permitir o crescimento econômico global e sustentável (…). Assim, o apelo a todas as nações é para que se unam forças nessa cruzada real para uma nova organização política, econômica e financeira global que terá consequências sociais, políticas, econômicas e culturais positivas para todas nossas nações”.
O presidente russo Vladimir Putin – que, como a presidenta da Argentina, não é estranho ao fato de ser alvo de guerras econômicas – apresentou uma proposta complementária: “As nações BRICS devem cooperar de maneira mais estreita no mercado de commodities. Nós temos uma base de recursos única: nossas nações detém de 30 a 50% das reservas globais de recursos variados. Portanto, creditamos que é imperativo desenvolver a cooperação em mineração e processamento, e organizar um centro para treinar especialistas das indústrias de metais das nações BRICS”.
Tal acordo irá desfazer o estrangulamento das commodities mundiais pelo Império Britânico e sua habilidade em especular com o sustento e a própria existência das nações.
Para esses propósitos serem viáveis, o NBD e o ARC devem funcionar com uma parede corta-fogo contra o canceroso sistema do dólar. É digno de nota que o NBD é autorizado tanto para receber no futuro capitalização adicional em moedas que não sejam o dólar, assim como conceder empréstimos aos BRICS e outras nações fora do dólar.
Uma vez que esses três, quatro ou mais países estiverem envolvidos em grandes projetos que recebam esses empréstimos fora do dólar, de fato uma nova moeda terá sido criada, a partir da qual entre as nações participantes taxas fixas de câmbio poderão ser seguidas. Esse novo passo por si só irá trazer instantaneamente um retorno ao sistema de Bretton Woods anterior a 1971, de taxas fixas (previsíveis) de troca, solapando com uma canetada trilhões de dólares em especulação em contratos de moedas a prazo.
Mas, para o NBD realmente estar apto a cumprir sua tarefa de reconstrução global, os Estados Unidos deve se tornar parceiro integral em sua capitalização e funcionamento, como peça central de um sistema global de crédito hamiltoniano, do tipo especificado por LaRouche em suasQuatro Leis. O “dólar” atual, que não é mais a moeda soberana dos Estados Unidos, sendo, pelo contrário, um instrumento de apostas supra-nacionais sob o controle do Império Britânico, também deve retornar ao seu papel adequado, como os “greenbacks” emitidos pelo Tesouro.
Resumindo, a questão estratégica central colocada em meados de julho na Cúpula dos BRICS é: Quando será que os Estados Unidos irá se livrar do presidente Obama e retornar às políticas do Sistema Americano no qual foi fundado, e no qual a metade da humanidade, liderada pelos BRICS, está agora implementando?

O Patriota


O artigo de Mauro Santayana escrito após a condenação do vice-Almirante e herói nacional, Othon Pinheiro, como noticiou o Jornal do Brasil, ecoou em publicações nos Estados Unidos e em Portugal. Republicamos aqui, conjuntamente, o texto do jornalista e patriota brasileiro, assim como a nota da Executive Intelligence Review. Como podemos demonstrar com todas as letras em nossa publicação Lula em pratos limpos, há uma nítida distinção entre patriotismo e charlatanismo. Que se contentem com migalhas os amantes de Moro!

Nessa publicação, portanto, se reúne a figura de três patriotas: Mauro Santayana, Othon Pinheiro e Lyndon LaRouche (já homenageado no post O profeta e a guerra).

A Lava-Jato e o vice-Almirante, por Mauro Santayana

Em uma sentença que chama a atenção pela severidade e a ausência de proporcionalidade, o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, foi condenado, ontem, por um juiz do Rio de Janeiro – com uma decisão que atingiu também a sua filha – a 43 anos de prisão por crimes supostamente cometidos durante as obras da usina nuclear de Angra 3.
O vice-almirante Othon é um dos maiores cientistas brasileiros, um dos principais responsáveis pelo programa de enriquecimento de urânio da Marinha, que levou o Brasil, há 15 dias, a fazer a sua primeira venda desse elemento químico – usado como combustível para reatores nucleares – para o exterior, para uma empresa pertencente ao governo argentino.
Em qualquer nação do mundo, principalmente nos EUA – país que, justamente por ser brasileiro, e não norte-americano, o teria espionado, “plantando” um homem da CIA ao lado do seu apartamento – o vice-almirante Othon estaria sendo homenageado, provavelmente com uma medalha do Congresso ou da Casa Branca, por serviços de caráter estratégico prestados ao fortalecimento da Nação e ao seu desenvolvimento.
No Brasil de Itamar Franco – um homem íntegro e nacionalista, que cometeu a besteira de confiar em quem não devia e abriu a Caixa de Pandora da tragédia neoliberal dos anos 1990, ao apoiar para sua sucessão um cidadão em cujo governo, segundo o Banco Mundial, o PIB e a renda per capita recuaram e a dívida pública duplicou, deixando ainda um papagaio, com o FMI, de 40 bilhões de dólares – o Almirante Othon recebeu, em 1994, da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico.
Ele também é Comendador da Ordem do Mérito Naval; da Ordem do Mérito Militar; da Ordem do Mérito Aeronáutico; da Ordem do Mérito das Forças Armadas; da Medalha do Mérito Tamandaré; e recebeu, além disso, a Medalha do Pacificador, a Medalha do Mérito Santos-Dumont e a Medalha Militar de Ouro.
No Brasil kafquianamente imbecilizado, midiotizado, manipulado, plutocratizado, deturpado, moralmente, da atualidade, que caminha a passos largos para a instalação de um governo – de fato – de exceção e fascista – e, ainda por cima, entreguista e anti-nacional – a partir de 2018, ele está sendo condenado por uma justiça em que muitos membros recebem acima do teto constitucional, perseguem jornais que os denunciam, e podem fazer palestras remuneradas sem ter que declarar quanto estão recebendo, conforme resolução do CNJ divulgada no início deste mês de julho. 
Com uma maioria de patriotas, nacionalistas, legalistas, constitucionalistas, os militares brasileiros tem suportado em silêncio digno a interrupção e as ameaças que pairam, como aves de rapina, sobre numerosos projetos de defesa que tiveram início na última década e sobre as empresas responsáveis por eles, como o dos submergíveis convencionais e o do submarino atômico – de cujo desenvolvimento do reator já participou o próprio Almirante Othon – sob responsabilidade da Odebrecht, um dos grupos mais prejudicados e perseguidos pela Operação Lava-Jato, que já teve que demitir mais de 120.000 pessoas no último ano, também encarregada, por meio da Mectron, da construção, em conjunto com a Denel sul-africana, do míssil A-Darter que irá armar os novos caças Gripen NG-BR, que estão sendo – também por iniciativa dos dois últimos governos – desenvolvidos com a Suécia por itermédio da SAAB.
Tudo isso, em nome de um pseudo combate à corrupção hipócrita, ególatra, espetaculoso e burro, em que, para descobrir supostos desvios de um ou dois por cento em programas estratégicos de bilhões de dólares, condena-se ao sucateamento, atraso ou interrupção – como era o caso, há anos, das obras de Angra 3 antes de sua retomada justamente pelo Vice-Almirante Othon – os outros 97% dos projetos, sem nenhuma consideração pela aritmética, a lógica, o bom senso, a estratégia nacional, o fortalecimento ou o desenvolvimento brasileiros.
Isso, ainda, para vender, falsa e mendazmente, com a cumplicidade de uma parcela da mídia irresponsável, apátrida, estúpida e venal, a tese de que se estaria “consertando” o país, quando o que se está fazendo é jogar o bebê pela janela junto com a água do banho, e matando a boiada inteira para exterminar meia dúzia de carrapatos, no contexto de um projeto de endeusamento de um personagem constantemente incensado por uma potência estrangeira – justamente aquela que espionou o próprio Almirante Othon – quando se sabe que para prender corruptos não era preciso arrebentar com as maiores companhias de engenharia do país, como se está arrebentando, nem com os principais projetos bélicos e de infraestrutura em andamento, ou com a Estratégia Nacional de Defesa, arduamente erguida nos últimos anos, ou com um conjunto de programas do qual toma parte, ainda, o Astros 2020 da Avibras; a nova família de fuzis de assalto IA-2, da IMBEL; o Cargueiro Militar multipropósito KC-390 da Embraer; a nova linha de radares SABER; os 1050 novos tanques Guarani, desenhados pelo Departamento de Engenharia do Exército, até algum tempo atrás – ao que se saiba – ainda em construção pela IVECO; os novos navios de superfície da Marinha; ou o novo satélite de comunicações que atenderá às Forças Armadas.
Os alegados 4 milhões de reais em “propina” eventualmente pagos em consultoria ao Almirante Othon – uma das razões de sua condenação a mais de 40 anos de prisão – seriam, caso sejam comprovados, uma migalha diante do que ele mereceria receber, em um país mais patriótico e menos hipócrita, como cientista e como compatriota, e uma quantia irrisória, se formos considerar, por exemplo, o preço de um apartamento de quatro quartos em Higienópolis, em São Paulo – há os que são vendidos a preço de “ocasião” – ou o fato de ratos como Eduardo Cunha, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, com dezenas de milhões de dólares na Suíça, terem sido soltos pelo Juiz Sérgio Moro e, tranquilos, estarem em casa neste momento.
Só no Brasil, também, um cientista desse porte é enxovalhado, como o Vice-almirante Othon está sendo, nas redes sociais, por um bando de energúmenos, ignorantes, preconceituosos e estúpidos que não tem a menor ideia do que está ocorrendo no país, e que pensam mais com o intestino do que com a cabeça. 
Só não dá para dizer que dá vergonha de ser brasileiro porque o Brasil é maior que esta corja tosca, anti-nacional, vira-lata, manipulada e ignara, e porque mesmo que os cães ladrem a caravana irá passar, finalmente, um dia, altaneira e impávida.
Como diria Cazuza, o tempo não pára.
Aos que estão arrebentando com a Pátria – e com as suas armas, seus heróis e seus exemplos – sacrificando-os no altar de suas inconfessáveis, imediatistas e rasteiras ambições, sobrará o inexorável e implacável julgamento da História.



Nota da Executive Intelligence Review sobre a condenação ao vice-Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva

5 de agosto de 2016 – Terça-feira, o juiz Marcelo da Costa Bretas emitiu uma indecente sentença contra o vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, cientista militar de 76 anos, que iniciou e supervisionou o desenvolvimento dos programas de pesquisas de ponta em ciência e tecnologia nuclear desde a década de 1970.
O almirante Othon foi diretor-executivo da Eletronuclear quando foi preso pela primeira vez, em julho de 2015, por acusações decorrentes da 16ª fase da Lava-Jato, ataque dos banqueiros patrocinados pelos britânicos e por Obama à nação brasileira, chamada Operação Radioatividade, por ter sido dirigida à indústria nuclear. Enquanto outros acusados capitularam à caça às bruxas judicial, o almirante negou as acusações e se recusou a aceitar a delação premiada.
Em dois anos, a Lava-Jato tirou a presidenta legítima do Brasil de seu cargo, paralisou e quase levou à bancarrota a Petrobrás e todas as empreiteiras importantes do país, levando para a prisão seus maiores líderes, tanto civis como militares, sob o pretexto de “combater a corrupção”. Mas a sentença contra o Almirante Othon é muitas décadas superior a qualquer outra emitida contra as vítimas da Lava-Jato. Sua filha, que trabalhou com ele na indústria nuclear, foi condenada a 14 anos e 10 meses de prisão, sob a mesma alegação de corrupção.
Em todos os campos, o almirante Othon foi um dos líderes mais criativos e audaciosos nas últimas quatro décadas. Em 1974, com a idade de 35 anos e capitão da Marinha, pediu a seus superiores para ser enviado ao MIT para estudar engenharia nuclear, uma área que ele não tinha nenhum conhecimento anterior. O Brasil começou a construir sua primeira planta nuclear em 1972, mas ficou sujeita a ataques e obstruções pelos anglo-americanos à sua indústria nuclear desde o início. Quando Pinheiro retornou de seus estudos em 1978, ficou conhecido como “aquele maluco” por sua defesa da necessidade do Brasil dominar o ciclo completo da energia nuclear, e desenvolver sua própria tecnologia de enriquecimento de urânio para assegurar sua indústria nuclear. Ele convenceu seus superiores do projeto e estabeleceu as bases do programa de criação da centrífuga brasileira de enriquecimento de urânio. Foi igualmente sua ideia desenvolver as capacidades autóctones da propulsão nuclear naval, isto é, um submarino nuclear. Ele convenceu o governo brasileiro a lhe dar um salvo-conduto e foi em frente, liderando sua execução. O programa nuclear naval criado por ele tem sido até hoje a espinha dorsal da indústria nuclear civil brasileira.
A sentença para que mofe na cadeia emitida contra o almirante foi por acusações que variam de lavagem de dinheiro, obstrução da justiça, até a participação em “associação criminal” por supostamente receber 1.2 milhões em propina para a construção da usina nuclear Angra-3. A força-tarefa da Lava-Jato diz que os crimes do almirante Othon são particularmente abomináveis por ele ter mantido contato com a diretoria da Eletrobrás.
Haverá uma trégua. O proeminente jornalista, nacionalista, Mauro Santayna, escreveu hoje em artigo publicado no Jornal do Brasil, que em qualquer país são, o almirante Othon Pinheiro, “um dos melhores cientistas brasileiros” – ganhador em 1994 da Grande Cruz do Mérito Científico Nacional, entre outros prêmios –, seria considerado com honra. Referenciando antigos incidentes, quando a CIA foi pega plantando um espião ao lado do apartamento do almirante, Santayana escreveu que o mesmo “poder estrangeiro” que fez isso está por detrás dos julgamentos da Lava-Jato. Mas ele alertou que o julgamento da história chegará e diz que “como a maioria dos patriotas, nacionalistas, legalistas e constitucionalistas, os militares brasileiros tem tolerado com um digno silêncio (…) as ameaças que, como abutres, pairam sobre os numerosos projetos de defesa iniciados na última década, e contra as companhias responsáveis por eles (…) em nome da hipócrita pseudo-batalha contra a corrupção”.

Investigações sobre o conceito de parresía (I): o caso Hamlet, a soberania sobre si e os descaminhos da análise psicanalista-existencialista


Assim como na Grécia antiga o conceito de governo de si, pelo menos desde Sócrates ou do diálogo Alcebíades, tornava explícita imediatamente sua vinculação com o governo dos outros, as análises “psicanalistas-existencialistas”, ao cometerem a barbárie de pensar uma existência do ego completamente descolada de problemas sociais mais complexos (como no Anti-Édipo, o presidente Schereber tem delírios histórico-políticos e não um “culto restaurado da castração”) são tanto incapazes de compreender o fenômeno literário, quanto – ainda menos – o próprio mundo onde vivem uma infinidade de Édipos, tão proliferantes quanto os micro-fascismos, os neo-fascismos, como entendiam Guattari e Deleuze.
O “caso Hamlet” é um épico pela presença do herói que não se dobra à qualquer mal-consciência, seja a das aparições fantasmáticas, das conspirações opressoras, ou medo ou remorsos ao fragor das batalhas. Um caso clássico do uso da parresía, um caso clássico também de tragédia, mas talvez nem tanto do herói – que se consagra –, mas do reino dividido pela stásis, pela guerra civil sem tréguas, e que pode falar de psicologia ou de psicanálise, mas também de literatura, com por meio da qual nos colocamos num ponto de vista privilegiado por onde podemos ver a história sem o rigor dos positivistas, dos documentalistas… mas sem remorsos de ver surgir a mais lídima figura histórico e literária como cantada no Nascimento da Tragédia.


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Investigações sobre o conceito de parresía (I): o caso Hamlet, a soberania sobre si e os descaminhos da análise psicanalista-existencialista


“Acontece que as Memórias de Schreber estão tomadas por uma teoria dos povos eleitos por Deus e dos perigos que corre o povo atualmente eleito, o alemão, ameaçado pelos judeus, pelos católicos, pelos eslavos. Nas suas metamorfoses e passagens intensas, Schreber devém aluno dos jesuítas, burgomestre de uma cidade onde os alemães se batem contra os eslavos, a moça que defende a Alsácia contra os franceses; por fim, atravessa o gradiente ou o limiar ariano para devir um príncipe mongol. Que significa esse devir aluno, burgomestre, moça, mongol? Não há delírio paranóico que não revolva tais massas históricas, geográficas e raciais. O erro seria concluir disso, por exemplo, que os fascistas são simples paranóicos; isto seria um erro, precisamente, porque no estado atual das coisas seria reconduzir o conteúdo histórico e político do delírio a um determinação familiar interna. E o que nos parece mais perturbador é que todo este enorme conteúdo desapareça completamente na análise feita por Freud: nela não subsiste traço algum de tudo isso; tudo é esmagado, moído, triangulado no Édipo, tudo é apoiado no pai, de maneira a revelar o mais cruamente a insuficiência de uma psicanálise edipiana”.
“Que operação mais perversa é a psicanálise: culmina-se nela esse neoidealismo, esse culto restaurado da castração, essa ideologia da falta que é a representação antropomórfica do sexo!”.

(O ANTI-ÉDIPO, de Gilles Deleuze e Felix Guattari)
O caso de Hamlet não difere do “problema inglês”, cuja resolução foi imaginada por Thomas Hobbes no seu Leviatã. A guerra de todos contra todos nunca existiu. Ela é hipotética na medida em que faz as abstração de um fato marcante na história inglesa e que se desenrola com o problema sucessório criado após a morte da rainha Elizabeth. “O adversário invisível do Leviatã é a conquista[1]”. E esse adversário provoca a questão do “sofrimento linguístico”, o fato da prática do direito se tornar inacessível à população por ser escrito em língua estrangeira; provoca a questão suscitada pela mitologia popular, Robin Hood, a volta do rei Haroldo ou o culto aos reis santos, em contraposição a um conjunto de lendas aristocráticas, quase monárquicas, reativadas com a dinastia Tudor, mas desenvolvidas durante o reinado dos reis normandos, ou seja, essencialmente a lenda do ciclo arturiano, não exatamente uma lenda normanda, porém não saxã. “Logo, dois conjuntos mitológicos fortes, em torno dos quais a Inglaterra sonhava, em modos absolutamente diferentes, seu passado e sua história[2]”. Junto à questão mitológica, a memória histórica das revoltas, ora com nítido caráter racial, ora ocasionando a limitação do poder régio e a expulsão dos estrangeiros. Morre o rei Haroldo e Eduardo, antes mesmo dessa morte, já havia designado Guilherme como seu sucessor, prestando o juramento de que caso Guilherme, o Conquistador, subisse ao trono inglês, ele o aceitaria. Se perdesse a guerra contra os normandos, Eduardo cederia a coroa voluntariamente; como seu sucessor faleceu, cabe de direito ao conquistador o reino.
Foi esse problema sucessório, problema de conquista, que Hobbes procurou resolver tendo em vista uma guerra total baseada num esquema binário onde, pela primeira vez na história, pôde ser articulado a partir dos fatos da nacionalidade: língua, origem, hábitos e leis ancestrais, o legado de um passado comum. Legado histórico que permitiu a avaliação de toda a extensão do desenvolvimento das instituições nacionais, assim como analisá-las em termos de enfrentamento e de guerra, “a um só tempo cientificamente, hipocritamente, mas violentamente travada entre as raças[3]”. A revolta agora não se legitima pela simples constatação de que a situação das classes inferiores se tornou insustentável (o que era, de modo geral, o discurso na Idade Média); ela se legitima como uma espécie de direito absoluto, pois “corresponde a certa ordem social que é a da guerra, à qual ela dará fim como derradeira peripécia[4]”. Temos na Inglaterra dos séculos XVI e XVII a gênese do discurso racista e/ou racial, aquele que posteriormente irá suplantar a história monumental da Idade Média (herdeira da Oração Fúnebre de Péricles, do ardil de Tucídides: a legitimação da Guerra do Peloponeso), a do louvor aos nobres e monarcas, pelo ressurgimento da história bíblica dentro do mundo secular, a sociedade de classes e os embates entre Caim e Abel, entre a raça dos escolhidos e a dos párias. Daí a constatação de Foucault de que todo o discurso socialista em seu princípio é também um discurso racista. Assim, no socialismo do século XIX estaria a pré-história da eugenia, ainda que, de nosso ponto de vista, de Malthus a Marx (passando pelo papel central exercido aí por David Ricardo), os dois discursos sejam simultâneos e não excludentes, assim como há mais diferença de forma do que de fundo entre a sociedade Monte Pelerin (a escola austríaca de economia) e a escola de Frankfurt , ou entre a social-democracia e o neoliberalismo[5]. Porém é inviável desenvolver por aqui toda essa discussão.
Em Hamlet, ao contrário das crises existencialistas que veem nele uma síndrome do “eu-rachado” ou dividido, podemos ver todas as peripécias pelas quais, tal como Platão em Siracusa, na Ciropédia de Xenofonte, ou em Sócrates diante do tribunal, se constitui a parresía ou coragem de se falar a verdade, ainda que, ou principalmente se, em perigo de vida. O “caso psicanalítico” Hamlet, supostamente o caso fundador da moderna dramaturgia e como que “metáfora do homem moderno”, é esvaziado de sentido ao não se considerar os fins do que Foucault estudou como o cuidado de si:
Para aquele fim seria preciso uma outraespécie de espíritos, diferentes daqueles prováveis nesse tempo: espíritos fortalecidos por guerras e vitórias, para os quais a conquista, o perigo e a dor se tornaram até mesmo necessidade; seria preciso estar acostumado ao ar cortante das alturas, as caminhadas invernais, ao gelo e aos cumes, em todo sentido; seria preciso mesmo uma espécie de sublime maldade, uma última, securíssima petulância do conhecimento, própria da grande saúde, seria preciso, em suma e infelizmente, essa mesma grande saúde![6]
Somente assim venceríamos os homens bons, os cansados, os sentimentais, os vãos – o homem da reação, do ressentimento e da má consciência, forjados numa terrível arte da memória, aqueles que sacralizam a vingança sob o nome de justiça. Passividade para Nietzsche não quer dizer não atividade – aquela é somente a reação no momento em que esta não mais está em ação. “Passif désigne  le triomphe de la réaction, le moment où, cessant d’être agie, elle devient précisément un ressentiment[7]”. O homem do ressentimento é aquele que não mais ama, mas o que é amado, acariciado, cultivado pelos outros como uma rosa frágil, posto para dormir como uma criancinha: o rei adúltero, o irmão, assassino e marido da mulher do antigo rei. Por isso, aparece na peça com seu amargor constante, seu ressentimento, sua impotência, sua suscetibilidade. Ele é o escravo que “face à tous les exercices qu’il est incapable d’entreprendre, il estime que la moindre compensation qui lui est due est justement d’en recueillir un bénéfice. Il considere donc comme une preuve de méchanceté notoire qu’on ne l’aime pas, qu’on ne le nourrisse pas[8]”. Por isso o rei sempre desconfia do ar sorumbático de Hamlet, seu acanhamento, suas constantes reclusões. Queria ser aclamado e amado pelo príncipe como o novo rei, como o adorado e idolatrado pelo futuro herdeiro. Hamlet não desconfia do rei, porém não aceita o casamento tão rápido de sua mãe com ele, e acha toda a história da morte de seu pai e tudo o que sucede difícil de digerir. Mas, até Hamlet obter, com a peça de teatro, o que ele considera a prova irrefutável das acusações feitas pelo fantasma de seu pai, não há clima de guerra entre o novo rei e o príncipe. A suposta loucura de Hamlet é definitivamente prognosticada pelo detentor do poder após esse incidente e sua consequência imediata, a morte do conselheiro de Estado, Apolônio. E deixemos aos doutores, aos que conhecem a mente humana e as mais sublimes expressões artísticas reverberarem a voz do rei, do soberano, a respeito do “caso clínico” de Hamlet, pois sabemos:
L’homme du ressentiment est l’homme du bénéfice et du profit. Bien plus, le ressentiment n’a pu s’imposer dans le monde qu’en faisant triompher le bénéfice, en faisant du profit non seulement un désir et un penseé, mais un système économique, social, théologique, un système complet, un divin mécanisme. Ne pas reconnaître le profit, voliá le crime théologique est le seul crime contre l’espirit. C’est en ce sens que les escraves ont une morale, et que cette morale est celle de l’utilité[9].
O vínculo da utilidade é o que liga o rei a seu conselheiro[10], o que separa Ofélia de Hamlet, e o que provocará mais tarde o desfecho dantesco da peça, iniciado com o embate entre o protagonista e Laerte, e que vitimará todos os principais personagens, deixando vivo em meio à cena, em meio aos corpos, apenas Horácio e o príncipe da Noruega, Fortimbrás. Considerando que “a parresía é, portanto, em duas palavras, a coragem da verdade naquele que fala e assume o risco de dizer, a despeito de tudo, toda a verdade que pensa, mas é também a coragem do interlocutor que aceita receber como verdadeira a verdade ferina que ouve[11]”, vemos como o ciclo que representa a parresía vai da coragem do protagonista ao voltar à sua terra, a terra do rei traidor que matou seu pai e logo em seguida desposou a viúva sua mãe, para restabelecer a verdade depois de ter levado à morte aqueles que, enviados pelo rei da Dinamarca, iriam lhe matar antes da chegada ao exílio do louco Hamlet, na Inglaterra, até seu encontro olho a olho com o irmão ferido pela morte de Ofélia – acusa também a Hamlet – e que, ao se esclarecer através do ato de coragem toda a verdade, recebe o perdão daquele antes ofendido, porém liberto depois de ter ouvido a ferina revelação sobre quem armou todos os infortúnios que ocorreram sem cessar até então. O ciclo da parresía está completo, o rei devidamente desmoralizado, a rainha morta, porém jaz na cena Horácio, o fiel amigo de Hamlet, e Fortimbrás. Novamente o problema sucessório, o problema da conquista, o problema do monarca estrangeiro que reivindica seus direitos em terras estranhas.
Diz Fortimbrás depois de consumada a chacina: “Vamos ouvir os fatos, sem demora, e chamar a nobreza como audiência. Quanto a mim, com tristeza aceito a sorte: tenho tradicional direito ao reino, que agora sou chamado a reclamar[12]”. Novamente o problema da conquista estrangeira, do direito normando versus as tradições saxãs, agora reavivada pela morte sem herdeiros da rainha frígida, Elizabeth, pela sobrecodificação dos fluxos operada pelo império territorial, pelo incesto do rei déspota – opção por se manter “em família”. Jaime I, primo da rainha falecida, sobe ao trono em detrimento do jovem Essex, filho do suposto amante de Elizabeth, e conclama seu direito divino de governar a ilha, não sem antes se resguardar nas garantias financeiras dos genoveses, asseguradas por sua vez pelo monopólio real sobre o débito público e no recolhimento dos impostos, assim como pela pena de sir Francis Bacon, legitimadora da monarquia – situação combatida, porém fracassada durante a Guerra Civil, que fez aprofundar ainda mais a dependência inglesa frente aos interesses econômicos estrangeiros, principalmente depois da Restauração dos Stuart. Aí, a tal ponto esses interesses chegaram que podemos falar que Londres se transforma na nova Veneza. O escritor do primeiro Fausto, Christopher Marlowe, que descreve o impacto da chegada dos venezianos à ilha, dos distúrbios de que são provocadores, é assassinado pouco depois de tornada pública sua peça.
People, writing at that time, were very aware, and very explicit, that the new financial model was derived from Venice. Thus, in the years preceding the 1688 “Glorious Revolution” in England, we find the 1651 proposal by Sir Balthazer Gerbier for the creation of a “bank of payment in London after the style of either the bank of Amsterdam, or that of Venice;” the 1678 book by Dr. Mark Lewis, Proposals to the King and Parliament, where he calls for the creation of a national “bank of issuance,” based on the design of the Bank of Venice, which he praises as “the perfect credit bank;” and the 1690 call by Nicholas Barbon for the creation of a national public bank, modeled on those “in Venice and Amsterdam.” It is therefore, no exaggeration to say that the 1582 Giovani Revolution was the point of origin for the AngloDutch System[13].
A constatação dessa mudança é clara ainda no século XIX, quando o neto de mercador veneziano e primeiro-ministro britânico, Benjamin Disraeli, escreve em 1844:
 The great object of the Whig leaders in England….in 1688, was to establish in England a high aristocratic republic on the model of the Venetian. William III…told the Whig leaders, “I will not be a Doge.“ The reign of Anne was a struggle between the Venetian and the English systems… George I was a Doge; George II was a Doge…George III tried not to be a Doge…but he could not rid himself of the Venetian constitution[14].
A Revolução Giovani rapidamente mencionada na citação acima é a que derrotou o partido dos vecchios, parte da nobreza veneziana ainda ligada à decadência da república após a quebra das casas bancárias dos Bardi e Peruzzi no século XIV, arrastando junto de si toda a Europa que, sem as mínimas condições materiais ou produtivas para se sustentar – com sua riqueza toda empenhada nas mãos dos banqueiros em bancarrota – sucumbiu à Peste Negra, vinda do Oriente em navios venezianos que para lá iam trocar ouro por prata ou vice-versa e sustentar assim a especulação financeira e a usura que praticavam no velho continente. Os Giovanis vão para Amsterdã, onde reiniciam as antigas práticas comerciais e financeiras de seus antepassados, logo após mudando-se para a Inglaterra, quando finalmente triunfam com a ascensão de Guilherme de Orange[15], a criação de um banco central independente e a vitória final do parlamentarismo, ou seja, de um poder executivo fraco – o que se torna uma verdadeira derrota quando coadjuvado por um banco nacional privado forte. Problema de soberania, não problema estatal. Se Shakespeare como poeta é capaz de parresía, do falar franco e corajoso – o que vitimou seu contemporâneo Marlowe –, na arena política vemos se desenhar uma situação que mais tarde irá afetar a mais idolatrada das revoluções, a de 1789 na França.
Das pesquisas de Pierre Beaudry publicadas na revista Executive Intelligence Review, apreende-se o vínculo entre o livro de Félix Louis Montjoie, enterrado por séculos na Biblioteca de Paris e até hoje ignorado pela inteligência francesa, a Historie de la Conjuration de Louis-Philippe-Joseph D’Orléans, surnommée Egalité, os despachos do embaixador veneziano em Paris durante a Revolução, Antonio Capello, e o paradoxo que o presidente da Assembleia Constituinte, o cientista Jean Sylvain Bailly, e o general La Fayette procuraram resolver, o de dois projetos distintos de governo para a França frente à superação necessária do único governo conhecido até então, a monarquia absolutista. O paradoxo propriamente dito era como transformar uma monarquia absolutista numa monarquia constitucional – foi essa tentativa de superação epistemológica que se tentou alcançar com os debates da Assembleia[16]. Do outro lado existia o projeto de se formar uma monarquia parlamentar ao estilo britânico, projeto este defendido pelo ministro das finanças, Jackes Necker, e por quem seria o futuro rei francês, Felipe de Orléans, chamado de Felipe Igualdade. A conjuração apontada no título do livro de Montjoie se refere a duas provocações maquinadas pelos dois e pelo grupo a eles ligado[17]: a da fome, agravada em Paris depois da exportação dos grãos da França para a Inglaterra depois da chuva de granizo de 13 de julho de 1888 através de agentes financeiros e o auxílio de homens fortes no governo inglês; e a provocação da Bastilha, que na verdade seria o próprio golpe de Estado, com o plano inicial de se atacar Versailles e não a decrépita Bastilha. A ideia era levar as tropas estrangeiras que cercavam Paris até Montmartre armadas com lanças e armas de fogo, e provocar a população. As armas que seriam entregues à Guarda Nacional estariam no Hospital dos Inválidos, onde a população poderia se armar e resistir a provocação estrangeira. La Fayette viu as caixas onde deveriam estar os 12.000 rifles encomendados para a Guarda repletas de roupas velhas, enquanto o mesmo armamento era utilizado para revidar ao tiro de canhão saído da Bastilha. O chamado “governador” da prisão, alertado anteriormente dos tumultos que poderiam acontecer na cidade, revidou ao que ele acreditava ser a confusão anteriormente anunciada, confiando também no reforço prometido de 10.000 homens, a chegarem por passagens subterrâneas. Aí começa o reinado do vox popoli, com Camille Desmoulins anunciando por Paris a vitória doIgualdade e o triunfo da Revolução.



[1]FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 82.
[2]Idem.
[3]Idem, p. 92.
[4]Idem.
[5]Não falo só do contesto brasileiro, como do Europeu de um modo geral, da amálgama dos dois ideários, ainda não compreendida em sua totalidade nas críticas pioneiras feitas por Rosa Luxemburgo.
[6]NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 78.
[7] DELEUZE, Gilles. Nietzsche et la Philosophie. Paris : Quadriage/PUF, 2007, p. 135.
[8]Idem.
[9]Idem.
[10]Apolônio tem as características do homem bom, o da boa moral e dos bons conselhos, o da palavra útil no momento oportuno. É assim que trata sua filha Ofélia ao aconselhá-la a se afastar de Hamlet tendo em vista que ele iria se casar em linhagem nobre, logo seu romance seria simples aventura juvenil que poderia colocar em risco a pureza da donzela; é assim que trata seu filho Laertes, ao enviá-lo para Paris e levar em seu encalço dois espias para rastrear qualquer desvio de conduta do jovem. Suas falas, expostas por Shakespeare, parecem o supra-sumo da sabedoria, como se o velho fosse uma espécie de Sêneca em pleno cultivo de suas faculdades intelectuais em meio à senilidade, e não um velhaco cultuador do status quo.
[11]FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 13.
[12]SHAKESPEARE, William. Hamlet. In: Tragédias e comédias sombrias: teatro completo, volume 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, p. 544.
[13] INGRAHAM, Robert D. The Modern Anglo-Dutch Empire: it’s origin, evolution, and anti-human outlook. Pág. 18. Disponível em: http://www.oaklandasp.comcastbiz.net/
[14]KIRSCH, Michael. The Sarpi Model: The True History of Today’s Scientific and Economic Empiricism. Publicado em 11 de março de 2011 e disponível em: http://www.larouchepac.com
[15]Posso citar aqui mais um texto sobre o assunto, todos os três até aqui de pesquisadores ligados ao filósofo Lyndon LaRouche, dos EUA e ao Instituto Schiller, da Alemanha: GALLAGHER, Paul B.  How Venice Rigged The First, and Worst, Global Financial Collapse. Fidelio Magazine, Winter/2005.
[16] BEAUDRY, Pierre. Jean Sylvain Bailly: The French Revolution’s Benjamin Franklin. Executive Intelligence Review, 26 de Janeiro de 2001.
[17] BEAUDRY, Pierre. Why France did not have an American Revolution. Executive Intelligence Review, 18 de janeiro de 2002.

A viagem de Ulisses e a hipótese solar

 
No século XVIII, em meio aos tumultos revolucionários – políticos e científicos -, o presidente da Assembléia Nacional Constituinte, Jean Sylvain Bailly, e Voltaire, trocaram cartas, numa troca de ideias acirradas, que colocou em questão diferentes interpretações sobre a origem das línguas e da civilização na Terra, da distinção entre astronomia e astrologia, num debate amplo que remete aos círculos republicanos na Europa durante o Renascimento. Nicolau de Cusa, Tosacanelli, e Infante Dom Henrique sabiam da descoberta da forma esférica da Terra feita no século II a.C. pelo grego Erastóstenes, e levaram à frente a hipótese de uma antiquíssima astronomia, que remonta à viagem de Ulisses relatada por Homero, séculos antes do tempo de Sócrates e Sólon: a possível circunavegação do globo em eras remotíssimas, 
 
Bailly, com sua “hipótese solar”, diz que os povos que colonizaram a Europa e a Ásia vieram no norte e não do oriente, já se utilizando de barcos e alcançando vastas extensões geográficas, feito somente repetido com os Descobrimentos. A façanha dos Descobrimentos foi tão grande que, no bojo da Missão Apolo, um dos diretores da NASA que lideravam o projeto, dizia ser seguido pela sombra do Infante Dom Henrique. Essa foi a “hipótese solar” novamente levada a cabo, essa foi a grande revolução científica da era moderna, a primeira delas, a partir da Escola de Sagres e os estudos científicos levados adiante nos círculos republicanos de Florença. Hoje, a partir da década de 1970, novas descobertas corroboram essa tese, mostrando que muito antes de Galileu ou Kepler, o ser humano, seguindo as hipóteses científicas adequadas, há muito já tinham superado o medo de uma Terra plana e povoada de monstros. E assim se deram as primeiras colonizações que criaram as civilizações por nós conhecidas.

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