A alternativa para o sistema falido do Euro e do monetarismo

O sono da razão econômica produz monstros

Até o momento do Brexit, pouco se discutia ou até se contestava a soberania do sistema euro. Eram considerados radicais setores políticos que criticavam a imposição da moeda supra-nacional desde seu início, com a qual procuravam forçar uma união política europeia via união monetária. A perda do poder de emissão de moeda e de crédito por parte dos Estados nacionais em favor de uma elite supranacional que comandaria os destinos do continente era a principal ponto atacado pelos críticos do euro. Com a crise de 2007-8, fico ainda mais evidente a fragilidade de se desenvolver grandes projetos na região para afastar a sombra do desemprego e do subemprego, que devastaram principalmente os países mais frágeis, como Portugal, Espanha, Grécia, mas também a Itália. Com a crise financeira, a relação dívida/PIB desses países cresceu monstruosamente, e a frustração de se cancelar as dívidas com a Troika experimentada pela Grécia deixou evidente a tirania dos poderes transnacionais, oligárquicos, que comandam toda a vida econômica da região.
No século XIX, haviam engenheiros americanos auxiliando russos a construírem a ferrovia transiberiana; Gabriel Hanotaux e Carnot, na França, procuravam ligar Paris ao Oriente Médio, e Bismarck, baseado na ferrovia transcontinental de Lincoln, projetou criar um eixo Berlim-Bagdá. São esses grandes projetos que estão em vigor na Ásia, sob a liderança da China, a partir da iniciativa da Nova Rota da Seda, e que tem em um de seus segmentos a integração eurasiática. Sonho antigo, como disse, e que agora ressurge com a liderança oriental, sob os escombros do sistema financeiro transatlântico, em frangalhos. O Deutsche Bank foi considerado pelo FMI como o banco com o maior risco de quebra no mundo, acumulando dívidas em derivativos na casa dos 42 trilhões de euros, 12 vezes maior do que o PIB alemão. Recentemente, lhe foi perdoado uma dívida de 14 bilhões de euros por conta de manipulações durante a crise das hipotecas em 2007-8. O valor agora cobrado é de 5 bilhões, uma soma nula frente aos débitos com os papéis voláteis do mercado financeiro.
Diante de uma nova crise financeira que pode estourar a qualquer momento, procura-se nos EUA e Europa volta da separação bancária como fez Roosevelt com a lei Glass-Steagall, além do cancelamento das dívidas em derivativos e a reorientação bancária para funcionarem num sistema de crédito, superando a estagnação econômica de toda a economia ocidental. O monetarismo, em seus últimos suspiros, revive agora no Brasil com a infame PEC 241, e a orientação da economia para atender aos interesses do mercado, do sistema financeiro, em favor da fome, morte e destruição nacionais. Como temos bancos públicos ainda, a discussão da separação bancária deve ser colocada no Brasil em outro patamar, com prioridades diferentes, como a Auditoria Cidadã da Dívida (nossa Comissão Pecora, ainda que sem o caráter criminal que esta se revestiu – o que, no caso, não é demérito), algo leve portanto se considerar as medidas de FDR. Assim podemos alavancar novamente os investimentos públicos, o crédito para o desenvolvimento da empresa privada e entrar novamente na era dos grandes projetos nacionais, cotidianamente atacados por Curitiba, como se teratológicos não fossem a gana persecutória e não a criação de postos de trabalho e o desenvolvimento nacional.
Segue um artigo com as críticas ao sistema euro, algo difícil de se ver, e como ele é diametralmente oposto às suas aspirações de união política, e muito menos é capaz de recriar um sistema de desenvolvimento conjunto, como no princípio da Paz de Wesfália, e que, seguindo as pegadas dos passos de Bismarck, Hanotaux e Carnot, se poderia de fato criar uma integração intercontinental que acabaria com o flagelo das guerras e a assustadora onda de refugiados planeta afora. Roosevelt é o paradigma, como podemos demonstrar em outra publicação nesse site. “Pensar de cima”, esse o paradigma dos visionários.


Texto originalmente publicado no site em português da Executive Intelligence Review, traduzido por mim e que pode ser acessado em PDF aqui.



EXISTE VIDA DEPOIS DO EURO!
Um milagre econômico para o sul da Europa e o Mediterrâneo!
Por Helga Zepp-LaRouche
Todos nós – cada nação da Europa, com os seus cidadãos – agora enfrenta uma dupla crise existencial: O sistema euro e o sistema transatlântico inteiro estão em processo de total desintegração, que poderá ser postergado por apenas algumas semanas mais, por meio de injeções hiperinflacionárias de liquidez. Esse é o resultado do sistema falido do Império Britânico, que também, sob as bases da assim chamada Doutrina Blair, agora ameaça nos arrastar para uma confrontação termonuclear com Rússia e China.
 Uma solução existe. Essa solução, no entanto, é absolutamente impossível dentro do nosso atual sistema. A falência inequívoca do sistema de globalização, e da atual economia de cassino, deve ser substituída por um sistema de crédito orientado exclusivamente para investimentos futuros na economia real, com altas densidades de fluxo energético. Re-atingir a soberania nacional é o pré-requisito absoluto tanto para recuperação econômica quanto para a preservação da paz. Nós precisamos imediatamente estabelecer os dois níveis do sistema bancário na tradição de Franklin D. Roosevelt, com um sistema de créditos na tradição de Alexander Hamilton e da era de FDR, a Corporação de Recuperação Financeira, e nós devemos retornar às moedas nacionais, com taxas de câmbio fixas e um programa de reconstrução econômica para o sul da Europa, a região do Mediterrâneo, e o continente africano.
 O Euro Criou Um Monstro
 Podemos muito bem parafrasear o título de Francisco de Goya em sua famosa gravura para descrever a atual política da União Europeia: “O sono da razão econômica produz monstros”. Para quem pode haver ainda alguma dúvida de que o euro foi uma experiência fracassada? A situação na Grécia, Espanha, Portugal, Itália, e também nos Estados bálticos, é, de fato, horrível, e continua a custar muitas vidas humanas. Esse não é um fracasso dos cidadãos desses países; antes, são falhas da política europeia de união de moedas, e das políticas monetárias da UE e dos governos europeus, os quais, especialmente depois da eclosão da crise financeira em julho de 2007, tem simplesmente continuado com a política de favorecer especuladores e banqueiros, contra os interesses do Bem Comum.
 A zona do euro, desde seu nascimento, não é uma “zona ótima de circulação de moeda”. Deve estar bem claro desde o início para todos com senso comum em economia, que Estados com estruturas econômicas tão divergentes, e línguas e culturas diversas, como Alemanha, Finlândia, Grécia e Portugal, não podem se desenvolver harmonicamente com uma simples união de moedas.
 Como é bem conhecido, o euro não nasceu de considerações econômicas sólidas, mas, pelo contrário, da intenção geopolítica de vincular a Alemanha reunificada ao cinturão da UE, forçando-a a abandonar o marco alemão. O ex-assessor de François Mitterrand, Jacques Attali, mais tarde admitiu que era claro para todos os participantes daquele tempo, que uma união de moedas não iria funcionar sem união política, e que esse defeito de nascença do euro foi intencionalmente designado para forçar a Europa para uma união política posteriormente! É precisamente isso que estamos testemunhando agora, com os advogados da união tentando nesse momento, sob condições de crise extrema, introduzir contratos em euro como passo final para um Estado federativo da UE.
 Os extensos poderes concedidos ao Mecanismo de Estabilidade Europeu – seu conselho de governo e diretoria irão gozar de uma longeva imunidade, sem nenhuma prestação de contas – poderão tornar esse Estado federal numa completa ditadura servindo aos interesses dos banqueiros da City de Londres. Isso irá garantir a bancarrota econômica e política da Europa, e o caos social.
 Vinte anos após a assinatura do Tratado de Maastricht um monstro foi criado; e onze anos após a introdução do euro, várias nações da zona do euro estão em perigo de cair em condições africanas – colapso social, altas taxas de morte, infra-estrutura sem manutenção, a maioria das atividades econômicas paralisadas, um a cada dois ou três jovens desempregados, e trabalhadores qualificados deixando suas pátrias por não verem mais futuro nelas. O alegado boom da zona do euro, que teria surpreendido as nações, foi de fato uma bolha – e agora essa bolha estourou. Quando a inundação de turistas passou a minguar, e quando as pessoas não podiam mais se proporcionar uma segunda casa para férias, ficou claro que não houve nenhum aumento do bem estar social nesses países, e que continua a não existir infra-estrutura adequada e capacidade industrial. A Grécia, por exemplo, não possuir sequer uma única ligação por trilhos com o resto da Europa, ou para a Ásia!
 Mas até os cidadãos dos países assim chamados aproveitadores do euro, como a Alemanha, foram deixados de mãos vazias. Durante esses 11 anos de euro, seu mercado doméstico encolheu, os investimentos reais declinaram, o poder de compra desabou, o sistema de saúde tem crescido consideravelmente mal, e a estrutura de empregos tem piorado em direção ao trabalho barato. Essa ostensiva posição especial como “campeã mundial de exportações” – a qual primeiramente beneficiou as 500 corporações DAX, e muito menos as pequenas e médias empresas – está entrando em colapso claramente, bem no ponto em que os mercados exportadores estão secando.
 As políticas da UE não asseguraram a paz na Europa, como os propagandistas da integração europeia querem nos fazer acreditar; antes, a animosidade entre as nações nunca foi tão grande desde a Segunda Guerra Mundial. Ao invés de fomentar o Bem Comum e o senso de comunidade, a Lei da Selva está difundindo sua influência, com cada um tentando salvar sua própria pele. A continuação dessa política, seja através da brutal austeridade na tradição de Brüning[1], ou na forma de uma coletivização hiperinflacionária do débito, representa alta traição contra a própria ideia de Europa na tradição humanista cristã.
 A Confrontação Estratégica Vem em Seguida
 A subjugação das nações europeias ao diktat do Império Britânico não só significa contenda interna, isso também está levando a Europa inexoravelmente para uma confrontação estratégica com Rússia, China, e outras nações asiáticas. Ambos, o presidente russo Vladimir Putin e seu primeiro-ministro Dmitri Medvedev, têm deixado claro que a Rússia não aceitará o enfraquecimento do direito internacional, conforme estabelecido na Carta das Nações Unidas, e a política de violação da soberania nacional sob o pretexto de “intervenção humanitária” que levará ao uso de armas nucleares.
 A administração Obama adotou como dela própria a assim chamada Doutrina Blair, a qual clama que a era da Paz de Westfália acabou, e que “intervenções humanitárias” ao redor do mundo devem daqui em diante seguir o Império, negligenciando o Estado nacional. O assim chamado Conselho para Prevenção de Atrocidades da administração de Obama elaborou uma longa lista de Estados, incluindo Síria, Sudão, e muitos outros, que poderão ser marcados para uma intervenção militar.
 Tony Blair, o autor das mentiras que levaram à Guerra do Iraque, ofereceu a si próprio a Obama para ser seu conselheiro escolhido para os próximos seis meses, e enquanto Blair estava nos Estados Unidos em maio, ele abertamente estabeleceu que, depois de ajudar Obama a ser reeleito, ele irá fazer outra tentativa para ocupar o cargo de Primeiro Ministro britânico. É claro o plano para controlar o mundo nas bases das “relações especiais” anglo-americanas. Portanto, nós temos o confronto de duas doutrinas opostas e irreconciliáveis: a Doutrina Blair do mundo como um império, onde as nações soberanas não mais existem, e a Doutrina Putin, baseada na defesa do direito internacional e na defesa da soberania nacional.
 A sobreposição da Doutrina Blair – de acordo com a qual as intervenções da OTAN contra “Estados perigosos” são possíveis em qualquer parte do mundo, mesmo que seus Estados-membros não sejam “diretamente afetados” – com a própria política da OTAN próxima a dos EUA, especialmente depois do Tratado de Lisboa em 2009, significa que todos os países na Europa irão cair numa potencial confrontação com a Rússia, China, e outros Estados asiáticos, sem nunca terem sido perguntados, e sem nenhum direito a veto.
 O sucessivo processo de renúncia à soberania nacional para a ditadura supranacional de Bruxelas – um processo que tem sido amplamente escondido dos olhos públicos – nos levou para uma perigosa conjuntura. O estabelecimento político pró-europeu, em seu desejo de adesão, ficou tão acostumado em jogar fora sua soberania, que qualquer resistência contra essa política de intervenção imperial – como a que o ex-chanceler Gerhard Schröder recusou aceitar com a Guerra do Iraque, e o Ministro do Exterior Guido Westerwelle recusou ao não participar da guerra com a Líbia – tem sido continuamente erodida.
 Num contexto algo diferente, fica claro a atitude de mutismo dos políticos europeus sobre a colocação de um sistema antimísseis norte-americano na Europa, o que o governo russo descreveu como um potencial casus belli, é nada mais do que mera “propaganda”, como alguns políticos tem irresponsavelmente assegurado.
 A mesma tendência é evidente no novo conceito da OTAN de “Defesa Inteligente”, o qual foi apresentado pelo comandante das Forças Armadas britânicas, Gen. Sir David Richards, entre outros, num encontro recente da OTAN em Chicago. De acordo com este conceito, os 28 Estados-membros da OTAN devem renunciar a todos os direitos de soberania tanto em relação à implantação de suas próprias tropas no exterior e a requisição de material bélico. Richards anunciou também que outra conferência da OTAN, a acontecer em setembro, colocará essa questão de total acesso da OTAN, sem nenhuma possibilidade de os governos nacionais ou parlamentos eleitos a bloquearem por veto. Richards é o Comandante da Ordem do Império Britânico, junto ao seu colega, CBE Hans Joachim Schellnhuber, assessor alemão do Conselho de Mudança Global (WGBU), condecorado pessoalmente pela rainha da Inglaterra pelos seus serviços ao Império.
 O Ocidente, e boa parte do resto do mundo, são dominados por instituições do Império Britânico, pelo qual eu não quero dizer a Grã-Bretanha em si mesma, mas antes o quartel-general londrino do sistema de globalização, isto é, o nexo entre os bancos centrais, bancos de investimentos, fundos de derivativos (hedge funds), sociedades gestoras de participações sociais (holding companies), empresas de seguros e resseguros, cujos principais objetivos são maximizar os lucros para uma classe parasita, e forçar uma gigantesca redistribuições de bens de baixo para cima. E na prática, a UE, de Maastricht a Lisboa, não é nada mais do que uma expressão regional desse sistema.
 Em razão desses dois problemas – auto-interesse econômico e auto-interesse em segurança nacional – as precondições para as nações europeias coexistirem dentro da UE não mais existem. Portanto, cada nação tem o direito, do ponto de vista do direito internacional, de sair dessa união.
 Por outro lado, a auto-subjugação sob o regime de globalização do Império Britânico, e sob a UE como sua expressão regional, assim como foi desenvolvido do Tratado de Maastricht a Lisboa, irá alcançar precisamente o oposto desse objetivo ostensivo de preservar a paz na Europa. Isso irá levar ao caos econômico e a guerra, e, logo, equivale à alta traição contra os povos da Europa.
A Alternativa: os dois níveis de banco e sistema de crédito, e um milagre econômico para o sul da Europa e para a região do Mediterrâneo.
 Ainda que tenhamos psicologicamente digerido o fato de que o atual sistema monetário transatlântico está fora de salvação – ambos irão se desintegrar numa repentina reação em cadeia, ou então isso irá destruir todos os ativos da Europa e dos Estados Unidos numa explosão hiperinflacionária, como a ocorrida na Alemanha em 1923 – só assim nossas mentes estarão prontas para mudar para soluções construtivas. Ao implementar um sistema bancário em dois níveis na tradição exata do padrão Glass-Steagall estabelecido por Franklin D. Roosevelt em 1933: os bancos comerciais poderão ser postos sob proteção estatal como um primeiro passo, enquanto todo o esquadrão de “instrumentos criativos financeiros” e contratos em derivativos deverão ser removidos dos livros. Uma moratória deve ser declarada em todos os débitos estatais, e a porção de endividamento resultante do financiamento de todos os tipos de medidas de resgate, deverão também ser riscados dos livros.
 Os tratados da UE, de Maastricht a Lisboa, devem ser cancelados, e a soberania nacional sobre a política monetária e econômica deve ser restabelecida. Competentes estudos de viabilidade para um “Plano B”, abrangendo preparações técnicas, e executando uma saída do euro, já foram preparados por especialistas como o Prof. Dirk Meyer do Colégio Federal Militar de Hamburgo. Um fim de semana prolongado pode ser utilizado como um feriado para preparar a conversão de moeda e para lidar com saldos de conta corrente e poupança em bancos. Os cidadãos alemães, estrangeiros residentes e firmas estrangeiras com ramificações na Alemanha podem ter seus depósitos em dinheiro marcados por tinta magnética. Controles de tempo limitado sobre transferências de capital e tráfico de fronteira podem prevenir os euros não setorizados de serem levados embora, e procedimentos para produção de relatórios temporários de ativos podem ser adotados no interesse de servir à ordem pública.
 A saída do euro deve ser seguida da transferência da soberania monetária que estava sob as mãos da UE, de volta aos seus respectivos Estados nação; isso pode ser realizado por uma rápida resolução lavrada pelo Conselho Europeu. Uma nova lei nacional de moeda permitirá a legislação para a adoção do marco alemão, e igualmente para outras respectivas moedas nacionais. O euro pode continuar a ser usado como uma unidade de contabilidade entre bancos nacionais, como foi feito anteriormente na Unidade Monetária Europeia.
 Nosso retorno às moedas nacionais pode na maioria dos casos ser simples, porque podemos fazer uso das experiências e dos procedimentos quando da introdução do euro. Os custos resultantes são relativamente baixos, comparados com o que pode acontecer com uma caótica desintegração da zona do euro.
  
Exemplos Históricos da Utilização, ou da Não Utilização, do Sistema de Crédito
 Nos Estados Unidos, Roosevelt, com a ajuda de um pacote de medidas – a legislação Glass-Steagall, a Comissão Pécora, o New Deal, Corporação de Reconstrução Financeira, e a Autoridade do Vale do Tennesse – exitosamente tirou seu país da Depressão. Mas enquanto isso, como sabemos, a Alemanha seguiu a rota da política de austeridade de Brüning, junto a Hjalmar Schacht e Hitler. O governo alemão, contudo, aparentemente não aprendeu nada com esses vários exemplos, e a infame Troika – o ECB, EC, e FMI – está impondo a mesma política que levou a Alemanha à catástrofe, só que agora em toda a Europa.
 Mas, mesmo naquela época, existiam críticas na Alemanha contra Brüning; e existiam também políticas econômicas paralelas àquelas propostas por Roosevelt. O russo Vladimir Woytinsky, de São Petersburgo, comandou o departamento de estatísticas da União Geral de Comércio alemão (ADGB), junto a Associação de Trabalhadores da Floresta comandada por Fritz Tarnow, e a política econômica do Partido Social Democrata e seu porta-voz Fritz Baade, elaboraram um programa internacional para resolver a crise econômica mundial, a qual foi nomeada depois por seus autores, como o Plano WTB.
 Woytinsky escreveu: “Todos estão sofrendo pelo fato de a economia mundial estar doente. Por essa razão, eles precisam concentrar seus esforços para articular uma ação de superação à crise global”. E mais adiante: “Os fundos que serão liberados pela política internacional de criação de crédito, devem ser usados para criar postos de trabalho e para implantar um ambicioso programa de reconstrução da Europa”. Esse programa previa a criação de empregos produtivos para 1 milhão de desempregados, financiado por um empréstimo de 2 bilhões de marcos. Além do mais, créditos de longo prazo seriam emitidos com baixas taxas de juros e taxas de amortização contra títulos que poderiam ser resgatados no Reichskredit AG. O ADGB concordou com esse plano, mas foi rejeitado por Otto Wels, na liderança do SPD, e pelos chamados especialistas em economia do SPD, Hilferding, Naphtali e Bauer.
 Como Woytinsky mais tarde escreveu em sua autobiografia: “Era como se eu estivesse vendo sob meus olhos como Brüning estava levando a Alemanha rumo à catástrofe. Mas ninguém deve ser tão duro com Brüning e seus erros. Suas falsas ideias eram compartilhadas por muitos de seus assessores tanto no seu próprio partido, quanto pelos social democratas. E se eles não tivessem apoiado sua política, ele provavelmente a teria abandonado”.
 Em paralelo com o Plano WTB, Dr. Wilhelm Lautenbach, economista do Ministério da Economia alemão, apresentou um memorando baseado em princípios similares, intitulado “Possibilidades de Recuperação Econômica através de Investimentos e Expansão de Créditos”, o qual afirmava:
 “O caminho natural para resolver uma emergência econômica e financeira é (…) não a contração, mas o incremento da produtividade”. Ele escreveu que é a “situação paradoxal” por onde, “apesar do extraordinário estrangulamento da produção, a demanda continua a ficar atrás da oferta, assim [dando origem] ao estrangulamento crescente de produção”. Sob essas condições de depressão, existe “excedentes de bens, instalações e equipamentos não utilizados, e força de trabalho não utilizada”. A exploração dessa forte, porém inutilizada área para um free-play produtivo, ele escreveu, é “a verdadeira e mais urgente tarefa de política econômica, e a princípio, é relativamente simples de ser resolvida”.
 O Estado deve “criar novas demandas econômicas, as quais, economicamente, representem um capital de investimento. Nessa conexão podemos pensar nessas tarefas como (…) obras públicas, ou obras sob patrocínio estatal, que irão significar economicamente um crescimento no valor dos ativos, que teriam que ser cumpridos de qualquer maneira em condições normais de retorno” – construção de estradas, melhoria e extensão de ferrovias, etc.
 Lautenbach escreveu como conclusão: “com tais investimentos e políticas de crédito, o desequilíbrio entre a oferta e demanda de produção doméstica será removido, e assim toda produção terá novamente uma direção e um objetivo. Se nós renunciarmos a essa política positiva, seremos dirigidos inevitavelmente a um subsequente colapso econômico e à ruína total da economia nacional – uma situação com a qual, a fim de evitar uma catástrofe econômica, forçaria um novo e grande endividamento público de curto prazo para fins puramente de consumo – enquanto que, hoje, nós ainda temos a opção de tirar sobre esse crédito projetos tão produtivos que podem trazer tanto a economia quanto nossas finanças públicas de volta ao equilíbrio”.
 Lautenbach também destacou que nesse nível precoce, a criação de crédito pode ser posta em direção de investimentos produtivos, enquanto que mais tarde, poderá ser utilizado para financiar o fim do desemprego.
 Se o Plano WTB ou o Plano Lautenbach fosse adotado em 1931, as condições sociais que fizeram o golpe de Hitler possível dois anos depois poderiam nunca ter existido. Hoje nós sabemos com o que a catástrofe prevista por Woytinsky parecia, e que podemos nos precipitar em uma catástrofe muito pior, ou então nós podemos escolher seguir os passos de Roosevelt.
 O Sistema de Crédito
 Em 1923, os alemães tiveram que aprender com uma experiência amarga que o dinheiro não tem um valor intrínseco. Dentro de poucos meses, eles viram o trabalho de uma vida inteira jogado fora, ainda que, nominalmente, eles eram bilionários, trilionários. Hoje, na era da multiplicação eletrônica de dinheiro, securitização, e contratos em derivativos, a natureza evanescente da maioria do nosso dinheiro é ainda mais óbvia. O estouro de várias bolhas no novo mercado, o mercado secundário de hipotecas nos Estados Unidos, Lehmann Brothers e AIG, e a iminente falência de um sem número de bancos que estariam há muito tempo defuntos, se não fossem os “pacotes de resgate”: em todos esses casos, as perdas foram de dinheiro virtual, e assim elas são, de fato, perdas imaginárias. Algo que realmente você nunca teve, e para o qual só existe um valor virtual, você realmente não está perdendo nada.
 O sistema monetário atual acumulou tal volume gigantesco desses instrumentos de débito na forma de contratos de derivativos em aberto, securitizações, etc., que qualquer tentativa de honrar esses débitos passados levará invariavelmente à hiperinflação. A única diferença atual entre e a República alemã de Weimar, é que agora não estamos lidando com apenas um país, mas com a região transatlântica inteira.
 O sistema de crédito que irá substituir esse falido sistema monetário é baseado em princípios completamente diferentes. O dinheiro per se tem a função de pagar transações, porém, muito mais importante, é o crédito que o banco nacional de um Estado soberano irá emitir tendo em vista futuras produções. O objetivo dessa emissão de crédito é construir a economia real, criar o pleno emprego, e incrementar toda força de trabalho produtiva, por meio de um comando científico e em direção a pesquisas fundamentais. Isso é a aplicação do princípio de economia física, tal como foi desenvolvida por Leibniz, List, Carey, Witte, chegando a Lyndon LaRouche.
 A emissão de créditos é direcionada para a produção futura – um valor real, no qual a habilidade produtiva humana, matérias-primas refinadas, e capacidade industrial, criam uma mais-valia que aumenta em conjunto com o nível científico e tecnológico onde essa produção tem lugar. Cada país deve também criar um banco nacional na tradição do primeiro Secretário do Tesouro norte-americano, Alexander Hamilton. Esse banco deve abrir linhas de crédito para financiar projetos bem definidos, como NAWAPA (North American Water and Power Alliance), a construção de um túnel sob o estreito de Bering, um programa de reconstrução para o sul da Europa, a Passagem Africana, Transaqua, e assim por diante. Via bancos comerciais regionais e locais, esses créditos serão emitidos para as firmas participantes desses projetos, e elas, por seu lado, contratarão fornecedores e admitirão empregados, os quais, por sua vez, gastarão seus salários em itens normalmente requeridos para a sustentação de seu padrão de vida.
 E assim, acima e além do estimulo à produção resultante diretamente dos projetos, haverá um reavivamento secundário da economia como um todo. Dado o grande escopo dos projetos acima mencionados e similares, a completa e duradoura produção de empregos será alcançada, enquanto ao mesmo tempo, o espectro de empregos será deslocado para fora do setor de serviços e para dentro de trabalhos produtivos na indústria, pesquisa e agricultura.
 Os exemplos históricos em que casos como esses, de criação de crédito produtivo, têm sido aplicados, demonstram que os benefícios colhidos pela recuperação econômica em geral, junto ao aumento concomitante de receitas fiscais, irão superar de longe o volume dos créditos emitidos originalmente.
  
“Para as Futuras Gerações”
 No entanto, estamos falando aqui de grandes projetos que irão beneficiar a vida de várias gerações de seres humanos que estão por vir. Para essas pessoas que estão no mercado mundial de ações, que preferem mais se saciar na dança hedonística ao redor do Bezerro de Ouro, pode parecer um pensamento surpreendente, mas, de fato, o propósito subjacente de uma economia é garantir a sobrevivência de longo prazo da espécie humana em um nível que se eleve de geração a geração. O propósito do sistema de crédito é pegar a prosperidade criada pelas gerações passadas e “passá-la adiante, ampliada e enriquecida, para as gerações futuras”, como Friedrich Schiller definiu o significado da história universal.
 A humanidade não é somente outra espécie animal que se reproduz no mesmo nível de desenvolvimento no curso dos séculos e milênios: antes, o homem é a única espécie com capacidade para a criação, isto é, a capacidade para desenvolver seus próprios recursos naturais para níveis ainda mais altos de organização. Com nossa criatividade, nós podemos criar algo que supera nossa própria expectativa de vida: nós investimos em algo que irá beneficiar as gerações futuras, algo que irá permitir-lhes um grau de liberdade material e espiritual que se estenda bem adiante do que nós, como iniciadores, teremos alcançado durante as nossas próprias vidas.
 A ideia do sistema de crédito não é, por isso, uma simples melhoria técnica em nosso sistema bancário; antes, é a harmonização do lado financeiro de nossa economia, com a existência contínua da humanidade em muitas gerações futuras. Portanto, isso tem, se você desejar, uma dimensão espiritual. O sistema de crédito é assim o instrumento que irá nos ajudar a ultrapassar os valores criados por uma geração, e enriquecida por nós, adiante para as gerações seguintes. No intuito de deixar claro que o sistema de crédito deve ser pensado como um conceito humano, o qual coloca a humanidade no verdadeiro centro da economia, deixe-me citar a sentença conclusiva do ensaio de Friedrich Schiller: “O que é, e para que fim, nós estudamos a História Universal?”.
 “Deve queimar dentro de nós um desejo nobre de tomar o rico legado da verdade, moralidade, e liberdade que herdamos de nossos antepassados, e passar isso adiante, ricamente aumentado, para o mundo futuro, e também dar uma contribuição de nós mesmos, e firmemente ligar nossa própria efêmera existência à chama eterna que flameja através de todas as gerações humanas. Tão diversamente quanto os futuros modos de vida o esperarão na sociedade, todos podem colaborar com algo em relação a isso! Toda ação meritória abre um caminho para a eternidade – para a imortalidade verdadeira, eu digo, onde as boas obras vivem e se movem ao longo desse caminho, mesmo que seu nome original tenha sido deixado para trás”.
 A crise da civilização que está nos mergulhando dentro do colapso do sistema financeiro transatlântico, tem de ser clara até para a pessoa mais cabeça-dura entre nós, que devemos levar nossos assuntos políticos e econômicos à harmonia com o ordenamento do universo físico – se, assim, pudermos evitar o destino que levou à extinção as antigas espécies. O universo, contudo, não é um sistema fechado, com um “orçamento que precisa ser equilibrado”, mas, antes, ele é desenvolvido de maneira anti-entrópica, criativa, no qual a densidade do fluxo de energia e a complexidade das estruturas organizacionais são sempre crescentes. E é mais que tempo de adaptar a economia humana a essas leis básicas do universo.
 A tarefa concreta do sistema de crédito na reconstrução do sul da Europa, da região do Mediterrâneo e África, decorre diretamente dessa tarefa universal. De um lado, um sistema bancário nacional em que cada Estado participante deve financiar projetos como os das seções seguintes desse informe, pela criação das requeridas linhas de crédito. Ao mesmo tempo, tratados de cooperação de longo curso devem ser concluídos entre Estados soberanos para gozar de trabalhos em projetos internacionais que ultrapassem as fronteiras nacionais, como a extensão dos corredores de transporte da Ponte-Terrestre Euro-Asiática em direção ao Oriente Médio, e, através de pontes e túneis, chegar a Europa e África.
 Se nós abandonarmos a ideia de lucros rápidos, e, ao invés, nos dedicarmos à tarefa de eliminar as lamentáveis condições de subdesenvolvimento, por meio de um programa de reconstrução que irá formar a base principal para a expansão da infra-estrutura e para o estímulo econômico, assim, saindo do colapso da crise presente, junto a projetos tais como NAWAPA e a construção da Ponte-Terrestre Mundial, poderemos colocar em movimento o maior milagre econômico da história humana. Uma nova era da humanidade poderá se iniciar.



[1] Heinrich Brüning foi Chanceler da Alemanha (1930­32), durante a República de Weimar. Sua imposição de austeridade selvagem é creditada em parte à ascensão de Hitler ao poder em 1933 – Ed. 

Madrigal em homenagem a Guimarães Rosa

Como se pode ver em discussões sobre o Ulysses, de Joyce, ou de qualquer outra desses considerados clássicos, “fundamentais”, etc., o entrelaçamento de histórias, o jogo de escalas, as diferentes temporalidades mesmo quando a narrativa se dá no presente – o uso da memória em meio ao fluxo de consciência -, às vezes não importa tanto o que se “achou” do livro. Muito menos importa aquela história mais linear, a espuma das ondas, como Braudel fala da parte factual da narrativa historiográfica, repetida nas aulas mais comuns de literatura. O que de fato aconteceu? É sempre uma pergunta. E gera as especulações mais infecundas –  e para alguns são essas as mais interessantes – como a respeito da traição ou não de Capitu, sobre a espécie de amor homossexual de Riobaldo em relação a Diadorim (ele é “redimido” ou não, esse amor, quando descobre o sexo da amada?), e por aí vamos.
Como nas loucas especulações de Joyce sobre Hamlet, o que importa não é se o poeta, Goethe, no caso de seu Willian Maister, dialoga com outro poeta (ainda que seja algo admirável); tampouco importa se foi Shakespeare quem escreveu tudo o que está na peça. Joyce, de maneira não menos obscura do que astuciosa, coloca aqui e ali referências à polêmica Madame Blavatsky, à iluminação da glândula pineal, etc., e especula se não seria o Hamlet o fantasma que assombraria Shakespeare, ou seja, este seria filho daquele. na verdade, como toda narrativa de Joyce, fica difícil precisar determinados marcos, mas a ironia está quando ele diz que o pai, o fantasma, seria o filho do herói. O fantasma criador – isso que importa -, e essa é a moral, por assim dizer, das reflexões sobre o Hamlet e sobre a criação poética de um modo geral. Temos que ver se na criação há espírito, há inspiração, e não ficar, como nas loucuras a respeito de Capitu, em diálogos intermináveis e infecundos, discutindo autoria nos autores desse período, algo contumaz, veja o problema autoral em Camões.
Portanto, como já tive oportunidade de publicar aqui um trabalho mais analítico, menos solto, poético, sobre o Grande Sertão:Veredas, ainda que lá tente fazer – ao arrepio de boa parte da crítica literária e historiográfica – o romance contar uma história que não apenas a ficcional, mostro agora meu segundo trabalho, que é aquele, imitando o capítulo das Sereias, no Ulysses do Joyce, o que importa é a questão da musicalidade. Aí se encontra a aparição fantasmática, como sempre fala Didi-Huberman, e como disse em seu modo labiríntico Joyce, e que nos diz até que ponto somos capazes ou não de ter entrado, de ter penetrado de fato, a obra inteira: reestruturando-a como música, seja construindo uma nova narrativa ou mesmo em alguns versos.

(no final, um trecho sobre o “princípio hereditário” de acordo com Joyce, em seu Ulysses)

Madrigal em homenagem a Guimarães Rosa
Quando a toada da noite surgir
O chefe vai cantar seu madrigal
A lua ponteia em Jacuí
É quando segura mais forte seu embornal
Quando aparece o Alaripe
Mano bom de mui fina moral
A lua ponteia em Jacuí
Anunciando a luta do bem contra o mal
O velho já ouviu o juriti
Pássaro voa no matagal
Já se anunciou no Serro-Curí
Chefe-velho apareceu no matagal
Quando aparece o Alaripe
Já se anunciou em todos Gerais
Chefe-velho está plantado no sertão
                                  Como buriti

É senhor do bem e do mal



Uso aqui da nova edição da Companhia das Letras, tradução de Caetano Galindo:

“A história prova que isso é verdade, inquit Eglintonus Chronolologos. As eras sucedem-se umas às outras. Mas sabemos por alta autoridade que os piores inimigos de um homem serão os da sua própria casa e da sua própria família. Eu acho que o Russell tem razão. O que é que nos importam a mulher e o pai dele? Eu diria que só poetas de família têm vidas de família.” (…)

“-Sabélio, o africano, o mais sutil heresiarca de todas as bestas do campo, sustentava que o Pai era Ele mesmo Seu próprio Filho. O buldogue de Aquino, com quem palavra alguma será impossível, refuta-o. Bem: se o pai que não tem filho não for pai pode o filho que não tem pai ser filho? Quando Rutlandconsouthamptonshakespeare ou outro poeta do mesmo nome na comédia dos erros escreveu Hamlet ele não era o pai do seu próprio filho meramente mas, não mais sendo filho, era e se sentia pai de toda a sua raça, o pai do seu próprio avô, o pai do seu neto por nascer que, por isso mesmo, jamais nasceu pois a natureza, como o senhor Magee a compreende, abomina a perfeição”.


Se “só poetas de família têm vidas de família” é porque de fato não são poetas. E se Shakespeare foi pai de seu próprio avô, porque não, ao levarmos em consideração o sentido desse princípio hereditário que implode qualquer princípio desse tipo por princípio, não podemos ser o avô de Guimarães Rosa, já que podemos virar pais de toda nossa raça. “A natureza, como o senhor Magee a compreende, abomina a perfeição”. Finis

Adolfo Hoffman – São Paulo, 1986 (do dicionário de caracteres de Roberto Bolãno)

Em tempos sombrios não tem como não relembrar de textos antigos, quando já víamos a literatura de contra-insurgência se multiplicar por todas as partes, e seu maior foco intelectual, a cidade de São Paulo. O pensamento se entortou tanto de não mais de dois anos para cá (Sérgio Moro e seu aparato midiático-judiciário é o catalizador desse fenômeno) que se chega a culpar os “pobres de direita”. É igual quando se trabalha numa escola e vemos a constante reclamação por parte dos professores e seus superiores a respeito dos alunos. O colégio, um caos; os professores, meu Deus!, mais vítimas de todo um processo de degradação do que propriamente ignaros contumazes, como é o caso de nosso Adolfo Hoffman, legítimo personagem da literatura fantástica borgiana, transfigurada por Roberto Bolaño em seu dicionário de caracteres La literatura nazi en América. Não falo aqui de setores à direita, como se diz, e seu pensamento bestial tão facilmente derrotável, ainda que sua raiva, ódio e rancor, não. Como já publicamos aqui sobre o Caga-Regra, ou sobre Marina Silva (outra “progressista” desmascarada, com um partido agora em ruínas), os utopistas de plantão da chamada “esquerda limpinha”, refugos do cano de esgoto colocado para jorrar em plena avenida com matéria-prima midiática (o caso do “mensalão), ou até – não se deve esquecer – do até pouco tempo atrás “tucano moderado”, mais à esquerda, Jose Serra, em franca decrepitude, a literatura nazi não segue o esquema da reunião dos Estados Gerais na França pré-revolucionária. Na verdade, tudo isso é um bolo bem indistinto, com figuras se aglomerando na esquerda ou na direita, como foi no caso dos Estados Gerais. Esquerda e direita não servem para determinar o verdadeiro patriotismo, se bem que tucanos e pflistas, de tão degenerados de sua toca à extrema direita (ou seja, a carapuça sempre lhes server, a não ser no caso do ex-ministro tucano e agora Clark Kent nacional, Ciro Gomes) ou que não tenhamos Montanheses a levar a república – e já levaram – invariavelmente ao Terror.

O texto que segue é uma homenagem a Roberto Bolaño, mas também ao inesquecível arquétipo construído por Borges, Pierre Menard, que foi a inspiração do escritor chileno ao escrever seu dicionário de caracteres. No ano de 2009, quando escrito esse texto, não imaginava a densidade do nazismo em nosso mais decadente estado da federação, tampouco que Hoffman iria fazer tanto sucesso, à esquerda ou à direita. Tempos sombrios, tempos de ideologias de conflito por se ampararem em purezas dadas a priori ou sobre discursos; tempos de neomacartismo, terrorismo e ameaça de guerra termonuclear; tempo de proliferação dos caracteres escritos por Bolaño, de hegemonia de Pierre Menard: as potências do falso.

O TEXTO PODE SER ACESSADO EM PDF NA ACADEMIA.EDU


Adolfo Hoffman – São Paulo, 1986.
Do dicionário de caracteres de Roberto Bolãno

Por si, só gosta de ouvir histórias. Nada faz, tampouco se presta a algo. Gordo desde a infância, foi um aficionado por histórias em quadrinhos, monstros e super-heróis. De espada na mão era sempre o herói, e invencível. Com o passar do tempo foi se tornando resolutamente gordo e bonachão. Era o rei das piadas fáceis e da picardia. As espinhas que entravam em guerra para encontrar um espaço em seu rosto branco como neve, caracterizavam finalmente tal criatura. Relativamente alto para sua idade, já na adolescência se fazia notar por certa alegria, fruto de um entranhado sadismo, e pela crueldade, fruto de um conhecimento nato da estupidez humana.
Parecia querer exteriorizar em quem quer que seja o que há de tosco através de suas piadas de gosto duvidoso; quando contrariado, gostava de mostrar pela força o quão estúpido era esse outro alguém, sem economizar nos ataques a massa desproporcional de seu corpo. Por um lado, se fazia solitário; por outro, temido. Tinha um certo número de seguidores já no colégio, cujo respeito era devido a um não ignorado ar enigmático que parecia aureolá-lo.
Não por outro motivo gostava de histórias, em torno delas tecendo todo seu mistério. Os outros eram literalmente jocosos quando expostos em seus relatos, quando não sujos ou vergonhosos. Delas se alimentava, como o filósofo ou o peregrino na mais pura fonte de contentamento espiritual. Só que sua vida era como um círculo, indo do tosco ao abjeto, e daí para o inacreditável. Repelia as pessoas que viviam ao seu redor, mas precisava freneticamente delas para viver, pois delas sugava todo seu conhecimento e para elas transbordava sua insensatez.
No comum do dia-a-dia parecia um garoto normal, com problemas com a balança e vício de video-game e de biscoitos. Um puro alienado, que as pessoas gostam indiferentemente, sem prestar maior atenção. Seu micro mundo imundo fazia parte de sua epopéia particular. Para quem lhe era imediatamente exterior parecia até um garoto esperto e espirituoso. O que lhe interessava sempre é que lhe contassem histórias.
Sua cabeça parecia se erguer no topo daquelas torres construídas encima de prédios altos, qual antena de tv superdimensionada. Sem luz própria, de quando em quando ao seu redor saem fagulhas da corrente elétrica que percorre sua cabeça e corpo. Talvez por sua onipotência e seus raios fugazes, por lhe conferirem uma áurea de radioatividade – força ainda não suficientemente conhecida – parece ser a guardiã de sua cidade, na qual se exilou irremediavelmente qualquer beleza natural. A cabeça redonda guardando a torre ou a torre sendo o corpo que a sustenta, esse sim o sonho final do gordo Adolfo.
Por incrível que pareça escreve livros. Sem cultura letrada nenhuma, mas de posse de dezenas de histórias de literatos e de seus seguidores, escreveu uma incrível História da literatura e da contra-insurgência brasileira, na qual desfilavam poetas de pendores simbolistas afundando-se em bordéis, a intelectualidade pseudo politizada destilando veneno dentro de suas gravatinhas que agora são bermudas e chinelinhos, o poeta boêmio e com fama de conquistador vivendo sua tragédia pessoal na noite interminável, patricinhas libertárias perdendo toda a poesia e acreditando ter encontrado finalmente sua verve artística. Enfim, tudo o que há de mediano e que parece ser a nova inteligência brasileira.
Lógico que seu livro ganhou status dentro da academia, a qual com sua perspicácia conseguiu superar todas as etapas sem maiores dificuldades até ser um afamado aluno de pós-graduação. Pseudo-cientista, leitor de Borges às avessas (pois este se contentava com resumos ou notas de livros, claro que todos imaginados), também lia resumos e usava toda sua imaginação nas provas. Fundou uma revista acadêmica virtual de análise do jornalismo e de poesia, usando o primeiro para exercitar sua imaginação capciosa e a segunda para comprovar a indigência que tanto proclamava com ares cândidos. Portanto, seguia-o poetas e aspirantes como a mirar num espelho sempre almejado, sem reparar como suas criações eram cuidadosamente editorializadas para indiretamente comprovar suas teses sobre a mediocridade do meio intelectual. Para cada poesia insalubre, um correlato no jornalismo de plantão.
Pensando no mesmo, organizou uma coletânea de prosas acadêmicas, onde os jovens libertários descarregavam todo seu pendor autobiográfico e pouco imaginativo em relatos tão chocantes como duvidosos. Dizia, não destituído de ironia, ser aquelas histórias o mais fiel retrato ficcional de como era feito o considerado bom ou excelente jornalismo dos dias atuais. Dizia até que tal era a fidelidade dos autores às suas biografias e tamanha a imaginação dos publicistas, que pareciam estes os inspirados pelas Musas e aqueles os lídimos redatores do cotidiano.
Foi estrondoso o sucesso de seu Prosas seletas: literatura e marginalidade. Dividido entre um convite para trabalhar na redação de um famoso jornal e a admissão no curso de doutorado de sua universidade, os que o liam e todos aqueles que somente respiravam sua áurea de puro mistério e hilaridade, diziam que mesmo sem publicar mais nada, quando se tornasse mais velho poderia ingressar triunfalmente na ABL. De livros a velha academia não precisa, diziam seus admiradores. Se não de quantidade, muito menos de qualidade, pois o Adolfo a tem de sobra. Além do mais têm um sobrenome excelente – não era um simples Silva, Pereira, ou coisa que o valha. Tinha um sobrenome de Clássico, como gostam nossos imortais.
Realmente, nada fazia e continuava a nada prestar. Não descobriu a roda tampouco aprendeu a estudar. Passou simplesmente a contar suas histórias da mesma maneira de quando era adolescente, só que agora as escrevendo e com o aval acadêmico. Publicou seus dois livros na editora da faculdade que fazia parte, ganhando ainda mais sucesso entre os seus. Notório escriba de artigos, citava autores como quem cita amigos numa conversa com outros amigos. Destes sabia tão pouco como dos livros, mas por ser um colecionador de casos incansável, recendia erudição. Com a maturidade, trocou os socos e pontapés por uma ironia que se fazia tão cândida que beirava a ternura. Conquistador nato, angariou um grupo numeroso de seguidores. Seu olhar esperto ora parecia como de alguém desalentado. O brilho dos olhos de próximo e vivaz, soube se tornar longe e fugidio, porém sempre a raiar. Sua inteligência era farol imprevisível, a todos fascinando com sua meia bruma. Olhar de peixe morto, alguns diriam. No entanto, às vezes se fazia de uma claridade notável para logo em seguida cair na mais completa escuridão. Era quando dava sua deixa, sua ironia, para logo voltar ao olhar de múmia mal embalsamada. Poderia renascer a qualquer hora, o mistério por todos esperado.

Sua vida sentimental não é clara para quem o conhece. Relativamente esperto, sempre aparentando inteligência, nunca foi visto com alguém que irrefutavelmente seria sua namorada ou coisa que o valha. Embora não se costume duvidar de sua sexualidade, parece com aqueles atores ou apresentadores gordos que à primeira vista parecem celibatários. Não demonstra pudores nesses assuntos, já se declarou inclusive adepto fervoroso da pornografia virtual. Mas, de fato, com alguém, talvez só os amigos mais próximos tenham visto ou saibam de alguma coisa. Deve ser curioso escrever sobre a vida sexual de um tipo assim, o qual sempre demonstra superioridade, só que no fim nunca sabemos se aplicada em quê. Sabe, sim: simplesmente para contar mais novidades.

Ah, você sabe quem é o Roosevelt! Mas nunca ouviu falar da lei Glass-Steagall? Sei…

Hamilton não era pernambucano, mas também foi Federalista

Roosevelt ficou conhecido por suas medidas econômicas que fizeram reverter a até então maior crise financeira da história, a de 1929. Associaram e ainda associam a relevância de tais medidas a uma suposta influência keynesiana, ou seja, de intervenção estatal na economia e de medidas monetárias expansionistas. Contudo, o afluxo de crédito na produção e a intervenção estatal são modelos anteriores a Keynes, e foi o modelo, conhecido como sistema protecionista, que guiou os Estados Unidos e logo depois a Alemanha, nos dois casos de maior sucesso no processo de industrialização no século XIX. O chamado Segundo Banco dos EUA, dirigido por Nicolas Biddle, por exemplo, seguindo as diretrizes hamiltonianas, foi o responsável pela criação de crédito para a economia física (chamada por alguns de economia real), dentro de um panorama de política econômica que limitava não só as importações, mas também as exportações, no intuito de diminuir a influência das moedas estrangeiras no mercado interno; no caso, a guerra econômica contra a Inglaterra, contra o ouro inglês, visto como inflacionário e anti-produtivo, já que era usado para pagamentos imediatos (fora do sistema de crédito) ou para a poupança que, na época, não utilizava em escala minimamente relevante o ouro como lastro para a liquidez do sistema bancário. Ou seja, poupança, ao contrário da leitura econômica mais tradicional, não significava segurança bancária nem oferta de crédito. Foi a utilização desse sistema econômico que fez os EUA, mesmo com muito menos ouro do que o Brasil, por exemplo (como mostra, por exemplo, Jorge Caldeira em seu livro A nação mercantilista), guiar o maior processo de industrialização jamais visto até então, logo depois seguido pela Alemanha de Bismarck, admirador de List e dos irmãos Carey, ferrenhos opositores do liberalismo britânico.

Essa é a pré-história do que depois será sucedido por debates mais ideológicos, como por exemplo entre os que admiram Adam Smith como precursor de uma política econômica justa e daqueles que preferem Karl Marx. Seu subproduto, é o tipo de discussão nos moldes da Guerra Fria, ou seja, a oposição meramente nominal entre comunistas e capitalistas. Analisar as discussões políticas e econômicas do século XIX é ver sob outros moldes os debates atuais sobre o desenvolvimento e a afirmação da soberania social, para além dos parâmetros de um mundo sob a cortina de ferro.

Continue lendo “Ah, você sabe quem é o Roosevelt! Mas nunca ouviu falar da lei Glass-Steagall? Sei…”