Por uma nova proposta (as falsificações da história 3)

Em 2013 Putin alertava, em meio às “primaveras” que se espalharam pelo planeta, e que levaram à difícil situação de seu país com a Ucrânia, “nós podemos ver na TV como esses ‘bandos de militantes’ bem treinados estão funcionando”. Hoje se vê no Brasil como “funcionam” esses bandos de militantes bem treinados, elogiados enquanto “movimentos espontâneos”, ao mesmo tempo em que são jogados ao esquecimento tudo o que vem dos movimentos organizados, da “esquerda petralha”, ou seja, dos movimentos sociais organizados como a CUT, a FUP ou o MST. Daí se vê o fascismo de um frente à consciência política de outros. Apesar de tudo, o que diferencia um movimento do outro é menos a falta de propostas (como se atribuiu aos protestantes de junho de 2013) do que o tipo de propostas que encabeçam. Contudo, a maré da negação política tem o lema do niilismo. Moralistas criticam da esquerda à direita da maneira mais acrítica possível e são incapazes de, fora de medidas genéricas, apontar uma única saída política para o Brasil. Seguindo os rastros de uma “micropolítica”, organizamos aqui de maneira bem breve uma proposta para mudança de paradigma em nossa política. De tão concreta, beira à irreverência, sem a qual, contudo, não se faz política. Nas últimas duas publicações de nossa série, criticamos até o cansaço uma série de bizarrices, começadas em junho de 2013, que nomeamos As falsificações na história. Segue a contraprova de tudo que tenho dito, “para não dizer que não falei das flores”.

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Por uma nova proposta (as falsificações da história 3)


Para quem acha que estar informado é seguir a pauta do Jornal Nacional e do sub-jornalismo que lhe é periférico; para quem acha que catástrofes provocadas ou não por humanos, um mundo repleto de supostos ladrões enquanto o deus mercado regurgita suas exigências e explora sua diária tarefa de genocídio e destruição; para quem, através de um suposta indignação, pelo simples fato de se vestir de luto e auto-proclamar-se o que quer que seja, ou para quem se indigna pelo simples fato de não ser possível não se indignar com tanta roubalheira – por que não uma nova proposta? Não falo de coisas bizarras como o Instituto Global-Judicial Innovare ou da bizarrice de acreditar que nada dá certo no país, mas que a justiça (ou os justiceiros?) estão fazendo sua parte. Nem que a ocidental e progressista Coréia do Sul possa usar hábitos menos comunistas do que a manipulação em massa através da nova prostituta no altar, as redes sociais[1] – ou, o que é pior, acreditar que é progressista por se rebelar em massa, em rebanho, no sacrifício de sangue exigido pela deusa pagã.  Quem sabe achar que a Rússia ainda é a velha terra do famoso “despotismo asiático”, decantado e distorcido por progressistas como Karl Marx (aquele que escreveu o panegírico ao lorde inglês Palmerston, o que controlava o zoológico europeu das revoluções oitocentistas), e sequer pode tentar ouvir Vladimir Putin, o Autocrata:
The events in Ukraine remind me less of a revolution, than of pogroms. And, strange as this may seem, they have little to do with Ukraine’s relations with the European Union. Note that nobody bothers to actually delve into those draft agreements, nobody sees anything and nobody hears anything. They say that the Ukrainian people are being deprived of their dream, but if you look at the content of those agreements, then [it’s clear that] many people would simply not live to see their dream — and dreams, in principle, are good; but they wouldn’t make it, because the conditionalities are very tough.
 As I said, I don’t think what is happening is directly connected with EU-Ukraine relations. This is a domestic political process, an attempt by the opposition to destabilize the current, and, I stress, legitimate, government of the country. Everything now happening indicates that this is no revolution, but a carefully prepared action. I don’t believe they were being prepared for now, but for the 2015 Presidential election campaign. … We can see on TV how these well-trained ‘bands of militants’ are functioning. The opposition either doesn’t have control over what’s going on, or they are just a political screen for extremist acts[2].
“Nós podemos ver na TV como esses ‘bandos de militantes’ bem treinados estão funcionando”. Eles estão se preparando para as eleições de 2015 e, para aproveitar o embalo, seguindo as manifestações de militantes bem treinados que acontecem mundo afora. E a Ucrânia não pode de forma alguma fugir da Troika, e todos esses tipos de rebeldes confirmam-se assim como verdes – marinistas? A Ucrânia não pode se juntar numa aliança euro-asiática. De forma alguma. Pois aí ela poderá desenvolver ainda mais seu programa espacial, ter energia nuclear e participar de amplos projetos de infra-estrutura (como a que refaz a antiga Rota da Seda com trens de alta velocidade, capitaneado pela China) que estão ocorrendo nesse eixo, por fora da caduca Europa que temos um contato mais direto, a que beira o Atlântico norte.
Então está combinado: vamos esperar para fazer a revolução. Ok? Esperar até a Copa (mas já passou…), esperar ao lado da Marina (sempre!), do Sardenberg, Elio Gaspari e da Miriam Leitão. Como vai ser agradável esperar! Que companhia!!! Ai, ai… Acho que assim falaria igual ao pastor Jacob, de Camões: mais esperaria “se não fora, para tão longo amor, tão curta vida”. Pode parecer que estou puxando nomes ao léu, mas eles dizem esperar, Gaspari (que mente ilustrada!…), Sardenberg (“olha como cresceu!” Calma, ele falava do Tio Sam, quero dizer, de sua economia – seu apelido é “termômetro de Viagra”) e tantos outros. Que lindo jardim! Que tal chamarmos Palmerston, o lorde loucado por Marx, para cuidar do jardim zoológico onde estaria a reunião feita por ele das sub-espécies humanas? Ao lado de companhias tão ilustres acho que vai se sentir em casa. Portanto, chamemo-lo. Vamos ser tão bons cavalheiros quanto todos esses cidadãos são. Queria até chamar outros seres bastante encantadores que vivem no jardim… Imagina dormir ouvindo falar Olavo de Carvalho! Nossa, perco até o sono de tanta vontade. Vamos chamar então o Instituto Mises para fazer uma administração imparcial de nosso zoológico, com a meritocracia sempre em primeiro plano. Imagina só como vão se tornar ainda mais imparciais todos esses habitantes do lindo reino… Ah! Só de pensar… Um zoológico de animais domésticos. Já pensou? De animais domesticados pelo Império. Britannia, cuide de seus filhos. Amém.
Não há jaulas, só alegria. Afinal, vamos chamar também o Google e o Facebook para a parte tecnológica de nosso parque gnosiológico. Os visitantes vão entrar sem precisar passar por catracas, como utopiza o pessoal de 20 centavos. Já pensou? Mas qual mágica, qual tecnológica é essa? Não é mágica, amor, é internet. O gigante não acordou, você não sabe? É a realidade virtual, só isso. Por isso que os visitantes entram sem catracas. Mas sem catracas mesmo, sem virtualidade. Empresas que trabalham para o Facebook desenvolvem um projeto a partir do qual seus usuários terão as fotos reconhecidas mesmo sem serem marcados. É um sistema algo complexo que envolve a sobreposição de camadas das fotos, num sistema de leitura que procura imitar a capacidade do cérebro no reconhecimento de fisionomias. O Olho Que Tudo Vê somente se aprimora: “O sonho da AI é a construção de conhecimento do mundo e saber tudo o que está acontecendo[3]”.   Vigilância massiva e mineração de dados, esse o paradigma. Curtiu? Associado às câmeras que se espalham pelo mundo afora, o Google Earth, e demais sistemas, imagina que tipo de “revolução” isso poderá criar. E todos achando que é algo espontâneo, inclusive a perseguição maciça a todo e qualquer cidadão. Finalmente, seremos habitantes do mais aprazível jardim zoológico.
Para respirar ares mais puros, fugir um pouco do cheiro dos mamíferos que dizem ter ultrapassado seu estágio na linhagem dos primatas, dou como mote algumas palavras do sempre esclarecido professor Wanderley Guilherme dos Santos. Temos que propor algo, temos que ter consciência das forças históricas que movem nosso país – esse o lema de todo o nosso texto até aqui. Como contribuição singela, faço aqui uma proposta concreta que pode ser uma alternativa viável para o país economizar bilhões ao ano e fugir de vez de qualquer “medo inflacionário”, na verdade um pesadelo que quer plantar a mídia na cabeça de cada brasileiro. Vamos ao mote:
Cada área econômica, cada segmento social, cada relação com o exterior, guarda surpresas para Executivos de boa fé. Por isso, trombetas jornalísticas à conta de insuficiências governamentais indicam incapacidade de descobrir, sob o óbvio do cotidiano, as razões dos problemas. Toda crítica desacompanhada de alternativas aceitáveis de ação, com efeitos relativamente previsíveis, em custos e benefícios, não passa de pedantismo intelectual. No momento, é evidente que as propostas bem articuladas da inteligentziada oposição evitam apresentar a conta dos custos dos benefícios que teoricamente as medidas trariam. Mas a advertência cabe também à esquerda caolha, que faz muxoxo porque a revolução não está sendo feita. Parecem russos que ainda não foram avisados: não há nenhuma revolução à vista, nem em métodos, nem em objetivos aceitáveis. Esse papo não pertence à democracia[4]
Tocamos, portanto, em tema sensível. O Google bolchevique, nascido nas entranhas da ditadura, o sistema Globo de comunicação, faz alarde em editorial a partir de uma suposta análise realizada pela probíssima agência Mood’s[5]. É o velho blá blá blá sobre gastos excessivos com todos os componentes de perversidade a ele correlacionado. A joia da coroa é a crítica ao aumento automático do salário mínimo, uma fonte inesgotável de “gastos”. Sabemos que essa medida arejou as negociações habituais entre empresas, trabalhadores e o governo, pois a discussão em torno ao salário mínimo cedeu lugar para outras propostas, aprofundando o debate entre os setores da sociedade. Vamos com outro incansável lutador contra as forças do regresso. Mas faço somente um contraponto ao lema do brizolista Fernando Brito. Ele está corretíssimo quando destaca que “a política, sem polêmica, é a arma das elites”. A política também sem irreverência é sempre aquela do discurso dos “entendidos”. A polêmica sempre é algo irreverente, até porque os adversários são figuras tão despreparadas, tão “primitivas”, por assim dizer, que só troçando de pessoas que se acreditam tão iluminadas a gente pode colocar as coisas nos seus devidos lugares. Assim Fernando Brito responde à Moody’s:
O canalha que emprestou sua mão para escrever o editorial de O Globo, capaz de dizer que um real de aumento do salário gera R$ 340 milhões por ano de despesa, no meu tempo merecia ser puxado pela orelha até uma mãe pobre, com suas crianças no modesto barraco, e ser mandado dizer isso a ela.
Esta mesma pena de aluguel não diz que, para os juros pagos à turma da grana alta, para os quais sempre defendem a indexação para cima, um mísero ponto percentual a mais custa 80 ou 90 vezes mais que aquele R$1 no salário[6].
A conquista representada pela indexação do aumento do salário mínio ao crescimento do PIB mais inflação não pode ser a frente única no combate ao capital rentista. As obras do PAC, a Petrobrás, e muitas outras ações do governo que teve que recomeçar a história dos grandes projetos nacionais, realizados com grande maestria por JK, além das contribuições importantíssimas de Getúlio, provocaram toda uma reviravolta no modo de se fazer política no país, do chamado pacto federativo até as legislações que permitem os projetos nacionais de infra-estrutura. A indexação do salário mínimo pode ser completada com outro tipo de indexação, mais aperfeiçoada: ao invés da “inflação + PIB” podemos propor “PIB + juros”. Caso os juros estejam menores do que a inflação, voltamos ao antigo sistema, mantendo dessa maneira o crescimento real do salário mínimo. É esse tipo de irreverência que deve pertencer à política. É uma proposta real e muito mais eficaz do que o sistema que faz o governo ficar sempre de olho no fantasma inflacionário. Na verdade, esse fantasma se dissipa nas trevas em que tem sua origem. Quanto mais investimento no trabalhador, menor a inflação. Até chegarmos ao ponto em que irão se confundir na irrisão tanto os juros quanto a inflação, momento este em que devermos pensar em outras formas ainda mais aperfeiçoadas de se pagar os trabalhadores. No mais, essa é a medida mais justa, já que é impossível se pensar em sistemas tresloucados, esquizofrênicos, como o que assalaria rentistas internacionais bem mais do que dá poder de compra ao povo. Como qualquer pessoa que compreende minimante o que representa a dignidade humana, é o capital especulativo estrangeiro que arrebenta com a economia dos países, em surtos ora de inflação zero, ora de hiper-inflação – nos dois sistemas e na transição de um para outro, a submissão completa da pátria aos insalubres ventos internacionais –, e não o aumento do poder de compra da classe trabalhadora, indutora da produção industrial, promotora das mais naturais barreiras comerciais, e geradora do bem estar geral.
Contribuímos assim, sem a melancolia dos homens de luto, dos black-blocks e similares, para um debate progressista tem em vista o futuro da sociedade. E que a polêmica se faça sempre que necessário, que a luta aconteça, a luta de Heitor e não de Aquiles, a luta justa em defesa da pátria e não a raiva incontida, lutuosa, biliosa, daquele que se sentiu ofendido por causa de algum ferimento causado em seu amor-próprio.


[1]Gugelmin, Felipe. Inteligência da Coréia do Sul usou o Twitter para manipular eleição. Publicado em 29 de novembro de 2013 em http://www.tecmundo.com.br/.
[2]Pronunciamento extraído de: http://larouchepac.com/node/29075
[3]Jornal GGN. Facebook vai aprender tudo sobre você a partir de suas fotos. Publicado em 23/12/2013 no portal http://jornalggn.com.br/
[4]Santos, Wanderley Guilherme. Observações críticas sobre o muxoxo da crítica. Publicado no portal Carta Maior em 10 de janeiro de 2014. Disponível em: http://wwww.cartamaior.com.br
[5]Jornal O Globo. Os malefícios da indexação do salário mínimo. Editorial publicado em 12 de janeiro de 2014.
[6]Brito, Fernando. Os feitores do salário mínimo. Publicado em http://tijolaco.com.br, em 12 de janeiro de 2014.

Sobre o tema da “instrução pública” (as falsificações na história II)

Saramago fala da “musa democracia”. O povo vai votar, tirar um candidato que acha ruim por um outro que acredita que será melhor, mas não se atenta para as esferas onde as reais decisões são tomadas, as esferas financeiras, a dos grandes círculos oligárquicos internacionais, que, para sua sobrevivência, tem que manter essa democracia de fachada – até mesmo sob golpes, militares ou não, para se ver o nível de desenvolvimento do que se chama de “democracia” pelos círculos liberais. A necessidade da instrução pública não é fazer um cidadão ideologizado, esse tipo de esclarecimento que se requer desde as Luzes, desde a Revolução Francesa. O ser ideologizado, o cidadão como se entende, por exemplo, nas palavras da atuante ministra, atual presidenta, do STF, Carmen Lúcia, é como o “homem esclarecido” da época de Kant: ilustração, direito de falar em público, mas na mesma medida em que Frederico da Prússia aumentava mais seu exército e policiava o Estado. Liberdade sobre repressão, essa a confusão do duplo empírico-transcendental em Kant, a “ilusão antropológica”, nas palavras de Foucault. A ilusão de que uma certa educação que sabe explicar tudo dentro dos parâmetros do bom senso e do senso comum (por que prego afunda? por que ovo não tem pelo? qual diferença entre o comunismo e o socialismo), passa longe de compreender, e que só funciona com um Estado repressivo atuante: esta a ideologia liberal, o seu paradoxo.

Publico a segunda parte de “as falsificações da história”, texto ainda mais longo, produzido durante a atuação dos protestantes de junho de 2013: louvado pela esquerda cheirosa, udenista, e logo depois pelos fascistas descarados, que foi o ponto de inflexão para o golpe, preparado desde o – ainda por se provar – mensalão de 2005. A esquerda udenista se ufanou nos “desvios” do governo do PT durante o mensalão, e foram criando partidos alternativos, até culminar com a cooptação de Eduardo Campos e seu partido, e no protagonismo do verdismo de “crescimento zero” de Marina Silva. Acabamos por ver uma situação ainda pior, desconfortável tanto para os liberal-fascistas quanto quanto para os ideólogos a partir da entrada do mordomo da Casa Grande no poder, trazendo junto a si todo o pior do fisiologismo nacional, junto com as entranhas das altas finanças, definitivamente posta na agenda com a PEC da morte, a reforma autoritária do ensino (e o consequente protagonismo dos “sistemas de ensino” no quadro que será formado) e as horripilantes cláusulas da futura reforma da previdência.

Enfim, mais uma oportunidade para pensarmos o que compreendemos como “instrução pública”, como se ensina o que é democracia, tanto em 2013 quanto depois que esse movimento atingiu seu fim com o golpe de Estado consolidado este ano. Segue o texto: 


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Sobre o tema da “instrução pública” (as falsificações da história II)
A confusão empírico-transcendental: o social-comunismo e o liberalismo (cubanos, comunistas e o caminho para a soberania nacional)
Assim nos expressamosno breve texto em que introduzimos o tema mais geral por aqui tratado: “o Anonymous surge onde há um vácuo entro setor público e o desejo de bem estar privado. O vácuo se dá não tanto por uma ‘questão atual’, mas a realidade retratada atualmente, ainda mais se levarmos em conta o nível de consciência social, é que o resultado da instrução pública em relação ao desenvolvimento histórico e político nacional ainda se ressente das décadas de oligarquismo, do Golpe ao Plano Real”. Uma das lutas políticas mais dignas travadas atualmente é pela memória dos presos e torturados pelo regime, o consolo das famílias, mães, filhas e esposas, e a afirmação da verdade que os torturadores continuam a negar: que mataram, torturaram, estupraram e desfizeram inúmeros núcleos familiares. A partir do princípio dessa verdade, numa das comissões da verdade descobriu-se o PIB da tortura. O jornal Folha de São Paulo não só emprestava suas kombis aos torturadores, como os financiava junto a outros empresários que se beneficiavam do regime. Foi nessa época também que floresceu o jogo do bicho e a Globo se firmou como instituição bolchevique, ou seja, como órgão de propaganda do aparelho de Estado. Roberto Marinho comemorava os réveillons na cobertura em Copacabana que comprou de Castor de Andrade, mítico bicheiro. Na tela do Jornal Nacional, Médici se regozijava de ver o Brasil de seus sonhos – tudo funcionava perfeitamente. Nesse mundo utópico, qual foi a relação entre o PIB da tortura, o capital dos bicheiros e a transferência massiva de renda (suga de recursos) que o jornal de Médici chamou de Milagre? As entranhas da invasão imperial bem no momento em que, no dizer de Darcy Ribeiro, todos achavam que o Brasil ia dar certo, precisa ser melhor compreendida. Um ótimo exemplo disso são as pesquisas lideradas pelo filho de Jango, João Vicente Goulart, que nos levam ao assassinato dos líderes da Frente Ampla, projeto político que nos traria dividendos políticos muito mais significativos do que a “saída negociada” da década perdida.
Precisamos articular os fatos, encontrar suas correspondências, contar a história de uma maneira ampla e não atomizada, pois as dores das famílias dos presos políticos é diretamente proporcional ao regozijo dos vencedores de então, não menor do que a dor dos familiares dos líderes políticos, e ainda mais veemente a dor de uma nação que perde seus líderes incontestes, seus bravos patriotas anônimos, ao ceder a um pacto oligárquico em pleno período de emancipação, caindo nas garras de factóides como o do “caçador de marajás” e do “criador do real”. O império realiza uma mudança de regime no país e ainda que a derrota da ditadura (sempre parcial – veja lei da anistia e tantos outros exemplos) deva ser comemorada, o império afundou ainda mais suas garras sobre nós. Quem é mais sombrio: FHC ou Figueiredo e Médici? Quem é mais tristemente glorificado, Geisel ou José Serra – os supostos progressistas? São 39 anos de ditadura continuada, se entendermos como ditadura não só a questão da repressão, da censura, e outros assuntos repudiados por qualquer um com o discurso politicamente correto. Caso entendermos a ditadura em seu sentido de derrota da soberania nacional frente aos interesses do império, e que a repressão (veja, por exemplo, o MST e as contínuas derrotas – quando lutavam unicamente para perder menos – do movimento sindical durante os anos 90), a censura (a acentuação do oligopólio midiático), o imobilismo parlamentar (qual debate político de relevância foi feito no Congresso durante esses anos?), a desnacionalização da economia (o que é ainda mais óbvio do que com os fardados) se acentuaram ainda mais durante a década neoliberal (ainda que por meios mais engenhosos do que os usados pelos militares). Enfim, qual liberdade, qual esperança, possuiu nossa pátria durante esses longuíssimos quarenta anos? É sempre o mesmo império – não podemos atomizar nossas pesquisas.
Alguns irão falar que o melhor a se fazer é realizar uma instrução uniforme, de cunho socialista e fundo comunista. Essas misturas tão heterogêneas só acontecem no Brasil, e na América Latina de um modo geral, porque, por exemplo, se compararmos o “socialismo moreno” de Brizola com o comunismo tradicional só encontramos correspondências vagas e abstratas. Não por acaso os soviéticos chamavam os cubanos de cubistas, pois eram nacionalistas e só cediam a determinadas diretrizes da Internacional por coação econômica (“De Martí a Fidel”, o livro de Muniz Bandeira que, mesmo sem acreditar no assassinato de Jango, não perde seus méritos). Muniz Bandeira ainda está vivo e suas pesquisas podem ser melhor aprofundadas. Seu livro sobre Jango ainda guarda preciosidades, ainda mais se atualizadas com as novas pesquisas (falo, claro, principalmente de João Vicente Goulart). Poderíamos também recorrer às pesquisas de um falecido estudioso, um “patriota americano” num sentido quase holywoodiano, que, indignado com as mortes dos cidadãos de seu país na guerra do Vietnã, resolveu entender a superioridade tecnológica e militar soviética para causar tal desconcerto no mundo. Sim, ele não ficou satisfeito com as velhas explicações em termos de “floresta”, “tática vietcongue” e “fanatismo comunista”, e procurou entender a inteligência por detrás da fragorosa derrota estadunidense. Quem matou nossos patriotas? Pois bem, após descobrir que as armas que mataram os jovens que admirava eram estadunidenses ou europeias, Antony Sutton foi às raízes de tal descalabro e escreveu seus três livros sobre Wall Street. No que nos interessa aqui, “Wall Street and the Bolshevik Revolution”, podemos ver, com documentos abundantes, como o translado de Lênin para a Suíça depois da revolução fracassada de 1905 foi organizada pelos banqueiros (entre outros episódios protagonizados por Lênin), e o caso exemplar de Trotski, também irmanado a interesses não tão filantrópicos.
Trotski, em seu exílio a partir de 1905 em Paris, escreveu periodicamente até setembro de 1916 textos incendiários para um diário russo da cidade. Nesse ano, a polícia francesa o escoltou até a fronteira com a Espanha, mas foi detido em Madrid, ainda que tenha ficado numa “cela de primeira classe”. Sem maiores problemas, chegou a Nova Iorque em 13 de janeiro de 1917, sem falar a língua local e vivendo, segundo declarou, “unicamente como um socialista revolucionário”. Escrevia para um periódico de limitada circulação, Novy Mir. Ainda assim, sua família pôde adquirir um excelente apartamento na cidade, com três meses de aluguel adiantado, e ainda andava numa limusine com chofer (seu filho reclamava sobre o porquê do motorista não entrar nas festividades que frequentava com seus pais). Talvez não precisasse de tanto, pois em 26 de março de 1917 embarcou de volta a Rússia, devidamente protegido (Woodrow Wilson interviu para que lhe fosse concedido o passaporte), para liderar sua revolução. Lênin recebeu doações de vulto dos banqueiros estadunidenses e europeus, com destaque para o Chase National Bank (atual JP Morgan Chase, antes Chase Manhattan, e sempre instituição genocida, internacionalista que, posteriormente, teve seu presidente como criador dos planos quinquenais soviéticos) e a Fundação Rockfeller. A ideia, segundo Sutton, era criar uma economia cativa, subordinada aos Estados ocidentais. Caso a Rússia se desenvolvesse tecnologicamente e se industrializasse, a oligarquia – o império – vivente na região transatlântica teria um concorrente de vulto. No início da década de 1920, no nº 120 da rua Broadway, esquina com Wall Street, se abriu uma sede central mundial para proporcionar ajuda aos bolcheviques. A Standard Oil conseguiu na mesma época explorar o petróleo russo, alvo da cobiça americana, cuja produção superava a deste país. Enfim, ainda há de se abrir a disciplina de História Comparada do que foi o socialismo na América Latina e o comunismo/capitalismo da época da Guerra Fria. Nessa época estão os porquês de hoje eles (o povo americano que passa no teste eugênico de Hitler) terem de aprender com nós e com Rússia e China. Se a União Soviética fosse um estado nacional soberano não teria parado de produzir inteligências como a de Dostoievski e Tolstoi, Vladimir Vernadski e Nicolas Tesla. Nenhum destes teve como berço o comunismo. Depois deles nada comprável nasceu do comunismo.
David Rockefeller pode nos explicar melhor: “Seja qual for o preço da Revolução chinesa, é evidente que conseguiu com êxito criar uma administração eficiente e integrada, senão também estimular uma moral alta e um propósito comum (…) O experimento social realizado na China sob o mandato do presidente Mao é um dos mais importantes e exitosos da história da humanidade[1]”. O “internacionalismo” das revoluções comunistas é a base do governo único ditado pela banca privada que os oligarcas globais pretendem impor através de sua ditadura de mercado. Para eles é ainda melhor um Estado sem qualquer liberdade individual – um olho que tudo vê: um Google, uma Globo –, esse o motivo dos experimentos da banca internacional com o fascismo e nazismo, como também em muitas medidas que vemos hoje nos EUA, como a Lei Patriota, e o fascismo da Troika europeia. Por isso David Rockefeller pôde dizer em suas memórias, sem qualquer medo de seus planos serem descobertos: “Alguns creem inclusive que formamos parte de uma cabala secreta que atua contra os melhores interesses dos Estados Unidos, qualificando-nos a minha família e a mim mesmo de ‘internacionalistas’ e acusando-nos de conspirar com outros indivíduos do mundo para criar uma estrutura econômica e política global mais integrada; um mundo, caso se queira chamá-lo assim. Se essa é a acusação, me declaro culpado e estou orgulhoso disso”. Para superar esse falso “binarismo’, essa política, essa estética, essa educação da época da Guerra Fria, temos que falar igual a Che Guevara: não podemos ficar entre dois imperialismos. Até porque, no fim, eles se fundem em um só. Na verdade, são um só desde o início, mas ora acentuam seu caráter mercadista, outras estatista. Sempre são o que é conhecido por sinarquismo ou nazi-comunismo.
A afirmativa acima atribuída a Che Guevara, ainda que não literal, expressa sua luta pós-guerrilha para que Cuba não escapasse de um imperialismo e caísse noutro. Como ministro, esteve presente em muitas das reuniões panamericanas que se realizavam à época e foi sistematicamente rechaçado com suas propostas, apesar de seu inegável talento político e intelectual. Queria – e esse é o desconcerto que nos causa o livro de Muniz Bandeira – uma parceria com os Estados Unidos com o objetivo de preparar a industrialização cubana. Deixar de ser vendedor de cana-de-açucar para os EUA, tornando-se vendedor do mesmo produto para União Soviética não estava em seus planos. Tampouco os revolucionários almejavam ficar à mercê de deliberações estrangeiras, completamente outras ao que necessitava a realidade de seu país – falo da Internacional Comunista. Porém o império, com a 4ª Frota e todo seu poder de propina e dissuasão ideológica, avançava ao sul, cooptando o Brasil e lançando seus tentáculos em todo o sub-continente sul americano. Faltavam bases de apoio para os planos do Che Guevara sem as orelhas de Mickey, não comunista, socialista na mesma medida em que era nacionalista, guerrilheiro no front político e intelectual tal como foi com as armas em punho. Daí surgiu a tentação do bloqueio, realizado pelo império em seu afã bonapartista – bloquear não o comércio, mas a revolução em toda a América Latina. Frustrado em seus planos, Che rodou o mundo até aportar na Bolívia. Lá encontrou a morte como Sócrates a sicuta – impassível, sem nada a temer além da própria consciência: a morte de Che Guevara é sua realidade enquanto Mickey, enquanto comunista guerrilheiro nos paraísos artificiais da Guerra Fria. Mas o que seria essa consciência tão cara ao guerrilheiro, essa necessidade de industrialização, de autonomia, de independência, por fim? Não é ironia termos de recorrer ao posto avançado do império atualmente, os EUA, para encontrarmos a resposta.

O que afinal tem a ver a lei Glass-Steagall de Roosevelt com o final de nosso sistema da dívida?
  O que o economista estadunidense Lyndon LaRouche definiu como “fluxo de densidade energética”, baseado no conceito leibniziano de “ação mínima” (a definição conceitual de tecnologia no sentido de industrialização, ou seja, bem diverso da techne aristotélica), é o sentido de todo o desenvolvimento social da humanidade per capita e por metro quadrado. Em uma sociedade de caça e coleta, estima-se que para não esgotar os recursos naturais, um máximo de 10 milhões de pessoas podem viver em todo o globo. Hoje passamos dos 7 bilhões porque nossa sociedade é capaz de produzir fluxos energéticos mais densos. Isso é ilustrado pelas sucessivas transformações anteriores de uma sociedade baseada na energia retirada da madeira, depois do carvão até o petróleo e o gás natural, seguido pelos altos potenciais energéticos da fissão nuclear. Quanto mais denso o fluxo energético, mais e melhor se desenvolve a sociedade, per capita e por metro quadrado. O resto é feudalismo, o que sempre nos foi imposto com o nome de “terceiro-mundismo” e toda sua carga de escravidão e atraso cultural e tecnológico. A missão Apollo é conhecida hoje quase como no Brasil entendemos a Copa de 70: um ponto fixo no espaço que trouxe dividendos à pátria – e só. Na Copa de 70 existe todo um caráter problemático, por assim dizer, que nos escapa à vista toda vez que idolatramos a história em forma de mito tal como narrada pelo Grande Olho, a rede Globo. Seleção montada por João Saldanha, foi campeã por causa de um outro Brasil: Pelé vascaíno, Saldanha comunista, o povo no rádio – o regime então se apropria da máquina de guerra nômade, na expressão de Deleuze e Guattari. O futebol como fator de unificação cultural viria a coroar a obra do trabalhismo, do desenvolvimentismo (para lembrar JK). Darcy Ribeiro relata as dificuldades encontradas para a construção dos CIEPs, muito deles construídos onde antes existiam campos de futebol. Todos sabem – pelo menos é o que parece: como seria belo o Brasil sem o Golpe. A unificação proposta pelo futebol advém da maturidade da nação enquanto coletivo de indivíduos. É a mesma maturidade que assusta os entendidos em política em relação a popularidade da “xerifona” Dilma. Não há mais espaço para a oligarquia em nosso país. Não que isso seja eterno, mas vivemos um longo ciclo virtuoso, retomando o curso histórico perdido na década de 70.
Quando falamos nos saltos qualitativos – saltos quânticos –, nos chamados surtos de desenvolvimento (como se isso fosse alguma espécie de paranóia, histeria ou esquizofrenia – ou seja, algo aparentemente sem explicação causal), podemos falar no que representará a produção energética baseada na fusão (para além da fissão) termonuclear. Essa descrição é sucinta e apropriada para o que queremos dizer sobre a “tocha de fusão”, o maçarico de altíssimas temperaturas, transformador da matéria em plasmas energéticos:
The “fusion torch” design, first proposed in 1969 by Bernard Eastlund and William Gough of the U. S. Atomic Energy Commission, uses an ultra-high temperature fusion plasma, diverted from a fusion reactor core, to reduce virtually any feedstock (low-grade ore, fission by-products, seawater, garbage from landfills, etc.) to its constituent elements. Once the feedstock has been injected into the plasma. the elements become dissociated into electrons and ions, and the desired elements (or isotopes) can be separated from another by atomic number or atomic mass, creating pure, newly synthesized mineral “deposits” from virtually any substance[2].
Nosso país, como é do senso comum e não por isso expressa uma ideia errônea, é rico em recursos naturais. Baseamos nossa matriz energética na energia hidroelétrica, apesar dos TCUs, dos ambientalistas, dos marinistas, dos globais e globalistas. Então, o que dizer da sempre nomeada (para o mal) Bolívia? E dos desertos atlânticos da África ocidental? Dos países da Europa mesmo, sem nada comparável em recursos naturais como o Brasil? Dos desertos de areia e de gelo do norte da América? Transformar água do mar em energia, lixo em minério, minério de pouca qualidade em minérios superiores… O futuro da humanidade é atômico, termonuclear. Ah! Mas nos afrontam com o perigo de guerra. Fato. Fato se não olharmos para iniciativas como a de Lyndon LaRouche, a da Iniciativa de Defesa Estratégica, proposta em plena Guerra Fria e anulada pelo grupos de Henry Kissinger na União Soviética, baseado no Imperativo Extraterrestre, de Krafft Ehricke. A chamada “guerra nas estrelas” do governo Reagan, iniciativa pela qual LaRouche e todos os seus associados foram presos em 1989, é a única saída para a humanidade desenvolver plenamente seus recursos tecnológicos, mitigando o perigo de guerra nuclear e de colisão de asteroides, para assim colonizar os planetas do sistema solar e além. Uma prisão política (a acusação de Kissinger e demais foi de “conspiração” – conspiração política, claro) no mesmo ano em que cai o muro de Berlim, ou seja, no ano da suposta afirmação das liberdades ditas ocidentais (ou afirmação do “modelo asiático” mais arcaico, porém tecnologizado?) é um paradigma de quem quer sair das inúteis dualidades propostas pela Guerra Fria deve estudar. Transformar lixo em ouro: isso já é realidade para a fusão termonuclear, só não atingida até agora por desleixo político completo, pois as propostas de desenvolvimento de tal potencial energético remontam à década de 1970.
O ouro por si nada vale. Isso é óbvio para qualquer um, inclusive todos nós que falamos como o mais autocrático déspota que dinheiro é merda (por essa merda somos espoliados!, por essa merda espoliamos!, etc.). E isso é verdade, porém não a verdade do déspota, mas sim de uma maneira geral, universal. O ouro fica importante pela sua raridade. Daí a América para os ibéricos e a Ásia para os venezianos. O mito do petróleo finito é um dos argumentos mais fortes de sustentação dos preços exorbitantes que esse produto é vendido. Mito que corrobora o monopólio sacramentado nos escritórios adjacentes à bolsa de Amsterdã após a criação da Opep e do posterior enriquecimento da Arábia Saudita e aliados (como narra o “assassino econômico”, John Perkins, o sistema de coleta de lixo árabe feito por cabritos até os 70). O chamado sistema econômico é medido pela regra criada pela mente humana. É esse o único motivo do sistema de trocas elaborado por Roosevelt no pós-guerra, o sistema de Bretton Woods. Vincular o dólar ao ouro foi a maneira encontrada para impedir a impressão descoordenada de papel moeda, causando uma hiper-inflação internacional. Foi o boicote a Bretton Woods o que permitiu a bolha financeira atual, assim como o desmantelamento, nos EUA, da lei Glass-Steagall, que separava a banca comercial da banca especulativa. O desenvolvimento da energia de fusão ultrapassa as barreiras impostas pelo petróleo como grande matriz energética internacional (o uso pleno da energia nuclear que é a consequência do domínio da fusão atômica) devido a fonte abundante de recursos que podem ser trabalhados a partir dela, como abre uma via de desenvolvimento alternativo para os países com recursos naturais menos abundantes. O fim do monopólio energético internacional se dá em duas pontas, mas que deve ser complementado pela soberania no campo econômico, ou seja, um sistema econômico baseado no crédito (não um sistema econômico internacionalista, onde todas as economias ficam devedoras de uma oligarquia não nacional e invisível), assim como grandes projetos de desenvolvimento nacional coordenados pelo Estado. O crédito é emitido pelo Estado na medida de suas expectativas futuras, sempre atrelado à produção (fim da inflação), sendo a única barreira legítima contra a bolha especulativa do sistema econômico entrópico mundial. Para adotar as medidas de Roosevelt depois da crise de 1929 é necessário a separação da banca de crédito da banca privada (lei Glass-Steagall, de 1933), a criação de um fundo nacional para auxílio do desenvolvimento e organismos estatais coordenadores de projetos de desenvolvimento nacional. Não menos fundamental é a iniciativa da Comissão Pécora, não no sentido restrito de encarcerar os ladrões e criminosos do sistema financeiro, mas no sentido amplo de nomear os inimigos da nação e compreender as entranhas do complô armado contra o país, no caso o EUA vítima da especulação financeira de 29 e no caso da satrapia do império que se tornou os EUA atual, e o nosso no dogma insuperável conhecido como “sistema da dívida” – desde os militares, para relembrar isso e esquecer Geisel e Gaspari de vez.
Daí, caímos na questão dos fundos. A lei Glass-Steagall aplicada em escala global automaticamente cancela os débitos da banca privada. Os ganhos especulativos não seria tarefa do Estado saná-los. Lembramos o Proer, de triste memória. Mas o que se chama atualmente de “resgates internos” (“bail-in” em contraposição a “bail-out”, os resgates feitos pelo Estado para sanar, mas na verdade para aumentar ainda mais, a bolha especulativa) é a tentativa de responsabilizar os correntistas pela inconsequência dos acionistas dos bancos. Reclama-se do Estado socorrer bancos; pois bem, fazemos como no Chipre ou como fez o Bankia, na Espanha, e confiscamos a poupança e as aplicações dos cidadãos. Essa é a política que pretendem implantar em escala global, a qual o Brasil não está isento:
O anteprojeto do BC procura assegurar a continuidade dos serviços e da estrutura financeira necessária ao bom funcionamento da economia real em caso de problema de solvência em alguma instituição sistemicamente importante com o uso de novos mecanismos para lidar com a situação. Entre eles está o modelo atualmente em fase de intensa discussão internacional depois de sua adoção na reestruturação da dívida da Grécia e no resgate aos bancos do Chipre (“bail-in”). Com esse regime, a ideia é fazer com que um banco insolvente seja recapitalizado com recursos do seu próprio passivo, sem a necessidade de aportes do governo. É o oposto do “bail-out”, que esteve diariamente no noticiário da crise de 2008 e que levou o Tesouro de diversos países a situações críticas em função dos gigantescos recursos públicos injetados no sistema financeiro[3].
Matreiramente, o projeto propõe que igualmente os acionistas devem sacar de seus recursos para resolver os problemas de solvência da instituição bancária. No entanto, isenta-os de qualquer responsabilidade criminal por uma insolvência que é resultado tão somente da inconsequência destes. Quem se responsabiliza? Bem, os correntistas nada têm nada a ver com as irresponsabilidades dos que jogam nas roletas dos cassinos financeiros. É só olhar para o que acontece atualmente no Chipre e ver quais são as consequências do que no Chipre se constituiu apenas como um balão de ensaio de algo mais amplo. As discussões, de fato, como ilustra o caso do Brasil, são para ampliar esse modelo, chegando a casos em que as pessoas já nem podem mais usar cartões ou cheques, e ficam limitados, como no Chipre, de sacar um máximo de 300 euros por dia. Mesmo assim, os saques têm que ser justificados, ou seja, voltamos a idade da pedra em termos econômicos. Só uma separação da banca comercial da banca especulativa, como fez Roosevelt para escapar com sucesso da crise de 29, é capaz de dar conta das charadas impostas atualmente pelo sistema bancário ao Estado: “somos instituições completamente frágeis e daninhas, mas vocês não podem viver sem nós!”. Por isso a criação de fundos para o auxílio ao desenvolvimento é o passo posterior ao fim do “sistema da dívida”. Nos Estados Unidos, um país decadente desde pelo menos a década de 1970 (ou a partir da data simbólica, porém não menos real, da morte de JFK), não se encontra uma burguesia tão próspera para alavancar o crescimento econômico, a industrialização, e a criação de milhões de empregos. Como compor esse fundo, ainda que o Estado não esteja mais endividado como na época em que “salvava” os bancos?
Daí a singularidade do Brasil. Possui um banco central nominalmente independente – e que tem poderes para ser cada vez mais ou de fato independente –, mas refém de um pequeno grupo de bancos que controlam a “dívida interna”. Entre aspas porque os grupos que controlam o FMI e o Banco Mundial são os mesmos que detêm em quase sua totalidade os títulos da dívida do governo. E não adianta somente baixar os juros pagos pelo BC aos predadores estrangeiros. Eles são a quadrilha tão procurada pelos amantes do mensalão e entre si determinam o quanto vão receber pelos papéis[4]. É indispensável para nós sairmos do “sistema da dívida” uma auditoria. Assim chegaremos a resultados similares ao que foi o cancelamento dos débitos privados nos EUA de 1933, ou, pela auditoria que Maria Lucia Fattorelli participou no Equador, ao desconto de 70% do total das dívidas quase 100% ilegais (um resultado mais político do que legal).
O que é menos uma ironia da história do que um sintoma do ritmo ascendente de desenvolvimento que se encontra nossa pátria é a questão do pré-sal. Os EUA, mesmo com todas as medidas de Roosevelt retomadas, renovadas, não possuem a mesma facilidade do que na década de 1930 para criar um fundo nacional para o desenvolvimento econômico. O dólar está cada vez mais desvalorizado. Por um lado, se desvaloriza por causa dos mecanismos como o de “flexibilização quantitativa” (impressão abundante de papel moeda para encher de liquidez os tubarões financeiros), e de outro porque os países que chegam agora como peças importantes no cenário mundial (em especial os BRICS) procuram escapar da submissão irrestrita ao dólar causada pelo desmantelamento do regime fixo de trocas pressuposto em Bretton Woods. O pré-sal entra aqui com importância duplicada. De um lado, porque cria um fundo nacional para o desenvolvimento em um país que nunca teve burguesia (essa a importância da reforma agrária, sempre postergada), e de outro porque, baseado o sistema de partilha na necessidade de abastecimento de países com fortes empresas estatais (portanto a predominância chinesa nesse modelo), pode servir como um marco no sistema de “cesta de moedas” dos BRICS, para assim afrouxar as correntes que nos prendem aos petrodólares cotizados nas bolsas da City e de Wall Street. O monopólio do petróleo fica rachado com as grandes reservas descobertas no Brasil. Com a liderança exercida pela Venezuela e agora pelo Brasil, e o aprofundamento da integração regional a partir da UNASUL, não reeditaremos a falácia que acabou se tornando a criação da Opep. Para além de qualquer “cesta de moeda”, o binarismo existencialista-hegeliano da Guerra Fria é o futuro de um mundo que não sofre mais de crises “bi-polares”.
O caráter antididático da ação penal 470 e as verdadeiras aspirações nacionais
O pré-sal é o claro modelo do que significa o aumento do fluxo de densidade energética nas nações soberanas. Quantos engenheiros navais, biólogos marinhos e demais técnicos e especialistas o país irá precisar? Não temos sequer cursos abertos para qualificar toda essa mão-de-obra. E hoje em dia uma velha classe média segue em seu fideísmo ao funcionalismo público, como aquilo que irá dar Estabilidade, ainda que ganhemos tão pouco que descendamos de classe. Qual a diferença entre as classes B ou C? Nunca fomos classe A. Pois bem…  Se antes uma elite poderia – similarmente a uma classe média que gera doutores padrão Capes – produzir jovens “concurseiros” (vale PM ou BC: tudo vale no Topa Tudo do mundo globalizado), não importa qual salário venha a ganhar uma classe média tradicionalista que está em pleno ocaso, hoje novas alternativas surgem. Claro, a Odebrecht continua a ganhar sucessivas concessões públicas. No livro surrealista, dadaísta, de Florestan Fernandes, vemos a proposta de uma revolução de uma classe que nunca existiu (revolução de qual burguesia?). A burguesia brasileira, fora casos excepcionais, só pode ser entendida em sua sobrevida na articulação tecida com o capital estrangeiro. Portanto a importância do pré-sal na complexificação de nossa divisão social do trabalho.
Hoje, por exemplo, muitos originários da chamada classe D, que foram ou não para a C pelas medidas do governo, chegam a classe B ou A fora do circuito do concursismo, e na maioria dos casos sem ao menos o nível superior. Esse é o cúmulo da exaltação esquizofrênica de um tipo como Luciano Huck, que vai a todos os lados, em todas as mídias e publicidades não só ganhar dinheiro, mas defender seus iguais. Ele é mais um dos gigantes, dos ogros medievais que se levantam contra a prosperidade de nosso país. E quem dera não uma nova cortina de aço separando o povo, mas uma cortina negra, de veludo, sutil, como a de Joaquim Barbosa, para trazer de volta à Terra a justiça dos gigantes, dos oligarcas, dos deuses do Olimpo. Mas o frenesi do concursismo também é consequência do desenvolvimento nacional, pois o Estado se fortaleceu com sua fuga do arbítrio tucano. Temos concursos para todas as áreas, para um sem número de profissões, o que criou uma verdadeira indústria concurseira. Indústria similar a criada em torno da expansão do ensino básico e superior. Em um vemos a adoção do “modelo apochilado” nas escolas dos municípios pequenos, que contratam firmas particulares para padronizar o ensino. Tem mais dinheiro por causa do Fundeb e dos repasses do governo federal, porém não o suficiente para coordenar projetos educacionais amplos. Poderia nos municípios menores haver um regime de parceria como se tenta em medicina para superar os impasses da educação e criar um ensino de caráter popular. No entanto, contratam as firmas e, num estilo Telecurso 2000 de padronização, tudo parece estar resolvido. Os maiores municípios igualmente adotam esse tipo de padronização, mas por via bolchevique, ou seja, com o patrocínio da estrutura pública. E há toda uma correspondência entre essas instâncias, a do ensino particular “apochilado” com os antigos cursos pré-vestibulares, que por sua vez vão se tornando em entidades invisíveis ao estilo Adam Smith, não muito diferente da administração “técnica” de grupos como o Galileu nas faculdades particulares. Quem verdadeiramente administra essas instituições, a forma como seus dividendos são cotizados na bolsa, pode nos remeter a uma forma de Governo Único no estilo clássico britânico e de David Rockefeler. Talvez haja pouca distinção entre os grupos invisíveis que controlam o ensino nos pequenos municípios, e nos grandes via Estado, e as entidades que agora levam ao descalabro o ensino superior. Precisa-se um jornalismo genuíno para revelar esses meandros, cuja outra ponta se encontra na “indústria do concurso público”, e se enraíza na estrutura pública através dos agentes privados que passam a trabalhar aí[5].
Por isso o professor Wanderley Guilherme dos Santos está certo quando diz que ignoramos com as manifestações públicas (e não necessariamente populares) a evolução de nossa sociedade democrática[6]. Falam, por exemplo, do movimento negro: coisas do tipo “para que serve?” ou “aqueles radicais!”. Enfim, não se pode pensar numa política de cotas públicas sem a articulação do movimento negro. Não se pode pensar, inclusive, na escolha de Joaquim Barbosa para o STF sem o fortalecimento adquirido pela representatividade negra na sociedade. A História da África que agora é obrigação na graduação em História e no ensino básico do movimento negro unido. O que falar dos sindicatos, dos movimentos pela terra, das minorias (que muitas vezes são as maiorias) de um modo geral? Para sabermos o que falar, é só lembrarmos, como indica o professor, das décadas da república oligárquica só derrotada em 1930. E por aí temos todo um jogo de ir e vir, mas principalmente a maturidade brasileira no período pré-golpe, quando se acreditava fielmente que o país iria finalmente entrar no rumo certo. A consolidação dos sindicatos, do movimento estudantil, do MST, do movimento negro, e tantas outras instituições da sociedade civil – com todas as críticas que se possa fazer a elas – são uma conquista legítima dentro da evolução social[7]. Qualquer sindicalista que não o Paulinho da Força pode relatar sem dificuldade dos desafios do sindicalismo durante o triste reinado do Farol. Chamar esses movimentos simplesmente de adesistas ou encampar a velha retórica udenista que os tem (às vezes uns mais e outros menos) por radicais, é a lógica da simplificação massificadora, midiática, que não dá conta dos desafios enfrentados pela sociedade civil ao longo da história.
Por isso também o professor é claro ao dizer que “a ação penal 470 não teve qualquer efeito pedagógico[8]”. Parte da premissa básica de que a acusação relativa ao partido, o PT, querer se perpetuar no poder não possui nada de escandalizante: “Até aí nada, pois é aspiração absolutamente legítima de qualquer partido em uma ordem democrática. Não obstante, é também mais do que conhecido que o realismo político recomenda, antes de tudo, a busca da vitória na próxima eleição”. Óbvio. E tão óbvio quanto é que só a confissão ou prova de que se quer perpetuar no poder de maneira ilegítima, ilegal, nada pode ser feito a respeito disso. Mas quem é o PT para querer “se perpetuar no poder”? Daí se criou o escândalo. O professor é didático:
Era patético, repito, o espetáculo em que cada ministro procurava nos textos legais quer a inocência, quer a culpabilidade dos acusados. Em momentos, fatos que eram apresentados por um ministro como tendo certa significação, derivada da premissa, e por isso condenava o acusado pelo crime supostamente cometido, os mesmos fatos eram apresentados como significando o oposto e, todavia, servindo de comprovação da culpabilidade do acusado. Exemplo: a ministra Carmem Lucia entendeu que o fato de a mulher de João Paulo Cunha ter ido descontar ou receber um cheque em gerência bancária no centro de Brasília comprovava a tranqüilidade com que os acusados cumpriam atos criminosos à luz do dia, desafiadoramente. Já a ministra Rosa Weber interpretou o mesmo fato como uma tentativa de esconder uma ação ilegal e, portanto, João Paulo Cunha, seu marido, era culpado. Uma ação perfeitamente legal, note-se, o desconto de um  cheque, sofreu dupla operação plástica: uma transformou-o em deboche à opinião pública, outra o encapotou como um pioneiro ato blackbloc. Dessas interpretações contraditórias, seguiu-se a mesma conclusão condenatória, pela intermediação da premissa maior, segundo a qual qualquer ato dos indiciados estava associado àquele desígnio criminoso.
E daí se instaura o ritual macabro que culmina com Genoíno:
Estando os acusados condenados conforme tal rito subversivo, o julgamento de outras acusações (sendo o julgamento “fatiado” como bem arquitetou o relator Joaquim Barbosa, enfiando-o aos gritos pela goela de nove dos 11 ministros) se iniciava assim: tendo ficado provado que o réu cometeu tal e tal crime, lá se ia nova acusação como se se tratasse de um reincidente no mundo do crime em momentos diferentes no tempo. E mais, como se a condenação já estabelecida houvesse confirmado a veracidade da premissa maior sobre a existência de um plano político maligno.
Como conclui Wanderley Guilherme dos Santos, “não há nada a copiar neste julgamento de exceção – a Ação Penal 470”. O sociólogo, numa série de artigos dos mais significativos publicados no blog O Cafezinho sobre o mensalão, lembra em um dos seus textos de uma analogia feita por um leitor de Paulo Henrique Amorim entre os black blocks e os economistas de Marina Silva. Só divergimos com o pesquisador por não encontrarmos qualquer exagero nessa afirmativa, ainda que tenha tido como objetivo o humor, comum no site de PHA: “O exagero normal de piadas não deixa de ter fundamento, neste caso, na convergência real entre ideais confessos de uns e ações delinquentes de outros[9]”. Esse texto em particular é uma boa referência à série de artigos, pois a esta analogia temos a anterior feita pelo professor e não pelo leitor do blog Conversa Afiada, entre as manifestações de junho e o mensalão – os factoides arranjados para a fabricação do Golpe. Logo, colocamos tudo na mesma série histórica, ainda que caiba traçar as especificidades de cada caso e das pessoas e grupos envolvidos. Assim, a citação a seguir vale para mensalão, liberal-marinistas (ou fascistas) e black blocks:
Entre as convergências avulta a doentia incapacidade de organizar algo construtivo. São parasitas dos movimentos sociais. Não se conhece uma instituição de defesa de coletividades que tenham criado. Mas estão sempre presentes no aproveitamento das atividades e organizações de construtores sociais, sugando-lhes a fama, a energia ou os propósitos. Foi o que fizeram em tempos idos, os sem máscara, com as empresas estatais criadas com os recursos e sacrifício da população. E voltariam a fazê-lo se lhes fosse concedida outra oportunidade. Não facilitaram a emergência de ações coletivas, empreitada sempre difícil e não raro cheia de perigos. Mas os mascarados se aproveitam das naturais e legítimas mobilizações dos setores mais carentes para sugá-los e macular os propósitos de suas paradas e manifestações.
A “doentia incapacidade de organizar algo construtivo” é uma das vertentes que unem as forças desagregadoras do desenvolvimento nacional. Por isso se unem sempre através de factoides: Plano Real, Privatizações, Tripé, Mensalão, Tudo O Que Está Aí. É por isso que o mensalão não ensina nada à nação, só as bruxarias de um julgamento medieval. Por isso:
Desprezam as instituições de representação popular (sindicais, políticas, pacificamente reivindicatórias) a elas dirigindo permanente crítica difamatória e humilhante, no que são coadjuvados pela imprensa blackbloc, muito mais do que marrom. Pontificam nas colunas jornalísticas os acometidos de dandismo intelectual, cheios de si pela ausência de contraditório que lhes devolveria a altura própria. Esnobes, só conversam entre si e acham lindas, exemplos de “democratização da democracia” (redundância charlatanesca), as tentativas selvagens de invasão de assembléias legislativas.
Ah! Para quê perguntar aos liberal-fascistas se conhecem a importância do movimento negro nas conquistas sociais atuais? Para quê perguntar se conhecem o papel de liderança mundial exercida pelo MST na agricultura familiar, através de suas cooperativas agro-industriais? Para quê fazê-los discorrer acerca dos desafios dos trabalhadores na superação do modelo neoliberal (de sua herança e suas metamorfoses)? O que sabem falar sobre a dívida pública? Os impostos? Nada. Somente são contra O Que Está Aí e se organizam em factoides (a base de sustentação populista) ao estilo Plano Real, mas com o nome não tão belo, mas enternecedor, de 20 Centavos. Se vier Reforma Agrária, seremos contra. Pré-sal? Somo contra. Bolsa Família? Assistencialismo, Esmola. Queremos ganhos reais! Mas quais? E no fim clamam por uma rotatividade do poder, como se o modelo inaugurado pós-Nixon fosse a realidade do país que se tem por modelo da democracia ocidental. É só lembrar dos quatro mandatos sucessivos de Roosevelt só interrompidos por sua morte. Rotatividade para quê? Fazer um pseudo-parlamentarismo à moda britânica, onde o sistema partidário binário é manipulado pelo banco central independente? Ah, sim! Aí está o modelo de modernidade. Ah, não! Queremos um modelo de Estado atuante, onde não haja empresas nem empresários, uma burguesia nacional, forte, consistente, nacionalista (não só como a do pós-guerra europeu e estadunidense, mas mesmo como a Florença dos Médici). Todos seremos funcionários públicos, inclusive os professores dos cursinhos para concurseiros! E continuamos, qual Lênin, a depender do capital privado, privatista, da banca internacional para sobrevivermos. E sem qualquer perspectiva de inovação, de aliança científico-tecnológica com os ramos industriais, de aumento do fluxo de densidade energética, de complexificação da divisão social do trabalho, da criação de milhões de novos empregos, do trabalho humano se tornar mais digno e inteligente. Sejamos agrários, feudais, comunistas, fascistas ou liberais – todos pertencentes à mesma série histórica. O importante é a rotatividade no poder, nossa incapacidade de propor algo construtivo e nosso talento em criar factoides!
Ah!, mas agora irão me acusar de ser petista, bruxo, ladrão, feiticeiro e macumbeiro – tudo junto. Então vamos ver rapidamente quem vota no PT. Assim iremos adicionar mais um item às séries históricas que estamos elencando.
Em tempos remotos existia o mito de que José Serra tinha um eleitorado “cativo”. Essa afirmativa é ambivalente, porém o mito não expressa um princípio originário. Pelo menos 30% seriam de José Serra. Existem variações sobre a história original, assim como toda a narrativa mitológica tem seus correlatos nas epopeias nacionais. Alguns dizem que esses 30% são do PSDB. Se o candidato fosse mais forte, e não o Aécio, esses 30 seriam desse candidato. Como seriam de Marina caso saia candidata, ainda mais se alinhada aos liberais tradicionais, os tucanos. Um terço da nação estaria “tomado”, por assim dizer. As pesquisas para as próximas eleições presidenciais mostram um panorama diferente. Não vemos o valor fixo que atribuíam a Serra, como vimos em eleições passadas. Pois esse valor pode ser fixo, mas é tal como as manifestações: apartidário. Com relativa facilidade, pois, a partir desses parâmetros, podemos entender o voto conservador no Brasil atual. A primeira e óbvia conclusão é que atribuíam a José Serra uma percentagem que não pertencia a ele, mas ao conservadorismo. A soma de votos que esse candidato angariou para além da base de 30% pode ser atribuído a outros fatores, onde os factoides ganham corpo considerável, ainda mais se considerarmos a fabricação de sua figura pública, de ministro da saúde e economista competente, o “candidato mais preparado”, como disse a propaganda e os comentaristas globais. Nas eleições de 2006 (quando Serra não concorreu a presidência), houve o caso célebre do acidente sofrido pelo avião da Gol, rasgado pelo jato Legacy. A notícia do acidente simplesmente não apareceu para dar lugar a uma edição inteira do jornal nacional sobre os “aloprados”. Chegamos assim ao caso do único candidato, o Picolé, que teve menos votos no 2º turno do que no primeiro. Haja deslocamento de votos!
Mas as pesquisas desde 2002 (e por que não lembrar das de 1989 e 1994?) sempre mostraram uma vantagem considerável para Lula ou até para Dilma, em 2010, alimentando a expectativa de vitória no 1º turno. O 2º colocado muitas vezes sequer alcança o patamar dos 30% (ou não sai dessa casa decimal), sendo que o 1º ultrapassa com margem suficiente para ganhar no primeiro turno. O que se consolidou com as sucessivas vitórias do PT foi uma espécie de voto cativo não cartografado por todos aqueles que enxergam no Brasil um governo populista, ou seja, aquela soma de votos atribuídos ao que denominam assistencialismo governista. Podem votar nos setores conservadores, reacionários, Marina e Serra à frente, mas flexibilizam suas escolhas na “hora do vamos ver”, no 2º turno. O número de indecisos ou dos que não sabem em quem ou para quê votar, como não é difícil de entender, é bem maior do que os magros percentuais apresentados nas pesquisas. Fora os factoides e as pesquisas tendenciosas, o percentual dos últimos anos do PT seria ainda maior. Na verdade, ultimamente já no 1º turno uma tendência se estabiliza e essa tendência seria ainda mais visível caso tivéssemos uma correlação de forças menos dessimétrica no que concerne à difusão da informação. Podemos olhar para a militância do PSDB, por exemplo, e perceber que seus votos cativos são donas de casa e demais trabalhadores com outras preocupações que não as políticas. São os votos manobrados pelos factóides e pelas pesquisas. Mas ao que atribuir um percentual tão grande de votos ao PT? Como compreender uma tendência tão grande em votar nesse partido?
Seria quase como entrar num êxtase xamânico ou algo do gênero visualizar as pessoas com um nível minimamente razoável de conhecimento científico (não no sentido liberal, claro), e por isso político, para optar conscientemente pelo desenvolvimento nacional. O que temos é um voto cativo, conservador, que é uma massa considerável dos votos que chegam até o PT, no 1º ou no 2º turno. Como caracterizá-lo? Por exemplo, o bolsa família, muito criticado no início, hoje não há político ou até mesmo sofista capaz de tentar negá-lo. Com as cotas acontece o mesmo e com demais programas governamentais. Quanto ao PAC, Minha Casa Minha Vida, e demais programas, só críticas laterais são feitas mesmo pelo oligopólio financeiro-midiático. só criticam através das medidas do TCU e demais inconstitucionalidades. A questão do mensalão, na capa preta de Barbosa, ninguém acredita, a não ser uma ínfima minoria (que muitas vezes afirmam essas verdades mesmo tendo consciência de sua falsidade), que foi um avanço para o Brasil. São conservadores parcelas consideráveis dos votos recebidos pelo PT, pois receberam a educação dita liberal desde o berço, comungaram e comungam desses valores agora e sempre, mas dizem, por exemplo, “Ah, mas fez bem aos pobres”, “É uma espécie de remédio”, “É uma tentativa”, etc. E aderem, simplesmente aderem. Ou falam da “micro-economia das favelas”, da “ascensão da classe C”, ainda que sejam incapazes de falar, por exemplo, da política externa e do papel do Brasil na África. Aceitam as cotas com a postura do cidadão politicamente correto – na verdade, aceitam tudo com essa postura. São os conservadores que se agarram ao PT como os financistas que se agarram e sugam os dividendos do crescimento econômico real (para além do tripé e da matemágica dos economistas). Não por outro motivo vemos uma série de petistas, e dos que se consideram os mais fiéis, aderindo a manifestações Anounymas e apolíticas com o mais profundo zelo. É aí que o PT se aproxima do PSOL, e cria o PSOL – partido fundado sob um factóide, o desvirtuamento do PT, ou seja, o mensalão.

A necessidade de se conhecer e de se apoiar nossos históricos movimentos sociais
Não por outro motivo falamos aqui da instrução pública e o que isso tem a ver com o mapa eleitoral e com os níveis de consciência e participação política da população. Lembro agora das camadas mais humildes da população que tiveram um aumento real da qualidade e da expectativa de vida, e que parece que por esse motivo aderiram ao que há de mais reacionário em nossa vida pública. Podem se aferrar ao brizolismo ou considerá-lo um paraíso perdido; podem proclamar aos quatro ventos suas raízes humildes e como por conta própria ascenderam socialmente, mas para exaltar Adam Smith.           Que tipo de consciência é essa que demonstra cabalmente que a mente humana nunca foi nem nunca será uma “tabula rasa”? O que os move com a casa reformada (muitos com dívidas, ainda que quitáveis), aparelhos domésticos impensável num espaço historicamente curto de tempo (5 – 10 anos), carro novo, etc., acharem que foi por simples vontade própria que conseguiram esse Grande a mais? E o que é pior, se colocarem dentro da Casa Grande e criticarem como o mais ilustrado liberal as transformações do país… Só sendo brasileiro mesmo, espírita ou macumbeiro, para explicar situações como essas… E no outro lado tem os liberal-conservadores que, com alucinações fascistas como o presidente Schereber, ainda assim votam no PT, como se com os músculos à mostra empurrassem a locomotiva do progresso… Nada mais do que ser politicamente correto – ou tirar vantagens disso, social ou financeiramente (ou ambos conjugados). Aí, se falarmos de Eduardo Cardozo, Palocci, Paulo Bernardo e etc. (cadê os Três Porquinhos?), com certeza nos daria um desânimo geral da política e nos anestesiaríamos vendo qualquer Porta dos Fundos – infelizmente nos tornando ao fim, para direita ou pra esquerda, um liberal conservador. A triste vida dos melancólicos: ah, Freud! Ah, Analista! SALVE-ME. Quanto custa? E a cura, vêm quando? O importante é a análise (quer dizer auto-análise). Ah, tá. Quanto é? Não, vou vender livros, romances: assim faço auto-análise (e a auto-análise estética – muito refinada) e ainda faturo algum.
Então vamos falar de João Pedro Stédile. Melhor: deixe ele falar do PT e dos desafios atuais do Brasil. Deixe ele falar do Brizola. Deixe ele falar do que quer que seja. Pelo menos deve falar das cooperativas do MST e dos desafios desse modelo de desenvolvimento no Brasil atual – modelo histórico, mundial, NUNCA DANTES visto. Deixe ele falar muito inteligentemente tudo o que quiser. E deixe o Trim-trim e o Plim-plim do Bernardo e todo o Tripé edipiano para lá. Assim se progride na instrução pública nacional.
Mas, falaria alguém: essas todas são ilusões perdidas… Como se conhecesse a Via Campesina Brasil, o que se debate nos acampamentos do MST, nos sindicatos com compromisso com o país, nas câmaras, com políticos competentes que lutam pela educação em todas as esferas da federação – quais os desafios futuros da educação? Aonde se dá o debate sobre a saúde? Quais seus desafios? Enfim, todos esses preferem ficar desiludidos, em luto e melancolia, ouvindo ao fundo as companhias do Plim-Plim – quer queira, quer não. Ah, não! Vamos virar black blocks e quando mais velhos nos filiar a um movimento no estilo do Cansei. E ostentar um colar de tomates como o da Ana Maria Braga! Ah, a inflação… Realmente ela está ali; realmente ela está ali para  inflação como os vinte centavos para o problema do transporte público.
E o cidadão consciente, politicamente esclarecido, gosta do Verde, do desenvolvimento da bioesfera planetária. São estudiosos de Vladimir Vernadsky, de Lyndon LaRouche e da concepção de ciência e tecnologia de Leibniz. Mas não… Não?! Sim, querem, com certeza, cada vez mais ciência e tecnologia para incrementar sua vida privada. Mas qual ciência e qual tecnologia vão abastecer de energia seus belos aparelhos modernos? Moinhos de vento? E não só seus pequenos aparelhos egóticos. Qual ciência e qual tecnologia irá saciar a sede e a fome de tantos? A África explorada pelos seus minerais, como também o Brasil. Aqui não possuímos diamantes de sangue, mas temos a energia e o sangue de nosso país sendo roubados pela Vale, vendida ao preço de um picolé de chuchu e deixa uma vazio no tesouro mais significativo que o sorriso de FHC. Sangue exsudam aqueles trabalhadores para fazer render diamantes aos seus dirigentes. E falam contra Belo Monte e a Vale segue sendo um Paraíso Terreal. Mas o que tem de comum entre o evangelismo de Marina e o ambientalismo que optou por adotar e a questão dos limites? Como disse o Clube de Roma e falam todos os verdes: “há limites para o crescimento”.
Para os evangélicos, os neopentecostalistas, os radicais do Velho Testamento que não compreenderam o evangelho de amor do Cristo, o conhecimento ancestral do apóstolo Paulo que soube traçar a distinção entre a velha e a nova sabedoria, igualmente existem limites, limites para a salvação. Reeditam as fogueiras eternas dos padres conhecedores do infernal Tomás de Aquino, seu espírito de Cruzada contra todos aqueles que vão contra suas opiniões. Somente seguindo os ditados das civilizações arcaicas que deixaram seu testemunho escrito no velho livro bíblico (quem sabe até as recomendações de Moisés relativas ao roubo de bois, quando o proprietário era culpado por causa da ausência de víveres comum ao povo exilado) é que se encontrará, segundo eles, a salvação. Os mais bizarros ditados, os mais toscos padrões de justiça, os mais bizarros personagens: todos são alçados à estatura de Sua Santidade para ditar ao rebanho da sociedade agro-pastoril as normas do bom viver. Aquecimento global, não proliferação nuclear, energia limpa: vocabulário tosco e arcaico. Existem limites para o crescimento no mesmo sentido que nunca cresce uma sociedade feudal dominada pelos oligarcas. Só o ditado de feudalistas vivendo no regime de moinhos de vento pode pressupor o genocídio, pois o que clama o Clube de Roma, a rainha da Inglaterra e todas as famílias oligárquicas européias, e o governo invisível do mundo é o genocídio. Assim foi no Mahabharata. Assim é relatado na Ilíada: guerra de extermínio. Em quase todos, senão em todos os relatos antigos, os grandes avanços científicos foram postergados pelas guerras de extermínio. O que querem os que pressupõem limites para a salvação? Quem é que poderá viver nesse mundo? Que tipo de preparo é esse? Qual oligarquia sobreviverá?
Para fechar esse texto mais longo do que o previsto, vou me prolongar um pouco mais, porém com a ajuda de Hildegard Angel. É tão cristalina sua indignação quanto sua visão do momento atual pelo qual passa nosso país. Na verdade, há um país que surge: isso é bem claro quando falamos da dignificação do pobre e da ascensão social dos que antes eram miseráveis. Agora, quanto ao nosso passado, quanto a nossa elite que acostumamos acreditar que não era uma oligarquia, nosso homens representativos – quanto a esses Hildegard é bem enfática enquanto compreende profundamente os mais complexos meandros pelos quais tateia nossa via pública atual. Com o perdão da citação inteira, e destaques meus, segue o luminoso texto:
Recebo diariamente comentários carregados de ódio contra José Genoíno, que me abstenho de publicar até por vergonha de seu teor, vergonha pelo desequilíbrio e o descontrole dos remetentes. A falta de discernimento, querendo atribuir a este homem combativo todos os males do país. Daí que a prisão não basta. É preciso a morte. A imolação final. A cruz.
É preciso a volta das torturas. Da ditadura. Este, o subtexto das tantas mensagens enviadas.
A que ponto essa mídia manipuladora, essa pseudo esquerda democrática, esse suposto “centrão” levaram o nosso país!
A que abismo a omissão daqueles que poderiam se posicionar, protestar e agir, está levando a nossa Nação.
A quanto estamos chegando com o silêncio dos nossos formadores de opinião influentes, nossos artistas politicamente conscientes e articulados. Os intelectuais, pensadores, jornalistas de porte.
São tão poucos os que ousam falar, se manifestar. Um, dois, três, quatro ou cinco. A pasmaceira, a imobilidade, o acomodamento prevalecem. O Brasil que pensa e raciocina está congelado, em estado de letargia.
Os com bagagem intelectual, política, de memória, conhecimento histórico e político para se manifestar se calam. Certamente envelhecidos, provavelmente acomodados, talvez acovardados, quem sabe desesperançados.
Os jovens de nada sabem. Não viveram a História recente do país. Não lhes deram a chance de saber. Lhes sonegaram o conhecimento nas escolas sobre os fatos. O patriotismo caiu em desuso. Os sonhos globalizaram. Soberania virou palavra empoeirada que se encontra no sótão – se é que ainda existe sótão -, dentro de algum baú – se é que há baú -, no interior de um papel amarelado, se houver ainda alguma folha de papel sobrevivente nessa era digital.
Os velhos sábios não falam. Se calam. Voam para Nova York, refugiam-se em Paris. Precisamos dos velhos, imploramos aos velhos. Falem, reajam!
Não é questão mais de uma posição partidária, trata-se de uma postura de Soberania brasileira, de Pátria, de Estado de Direito.
Triste ver crescer sobre nosso Céu, nossos tetos, nossa alma, nossos ambientes, nossa consciência, a mancha escura da obtusidade, do receio da livre manifestação, do silêncio, do embrutecimento coletivo. Do medo.
Quando eu me vejo, aqui, escolhendo palavras para não resvalar num erro, num equívoco, num excesso que me possa custar a liberdade ou que me valha antipatias graves, retaliações, sinto a gravidade do momento que estamos vivendo.
Quando uma única cidadã de bem não respira a liberdade, a Pátria não está mais livre.
Quem permitiu, por omissão, inoperância, ambições e conveniências políticas que o Brasil caminhasse para trás, chegando a tal retrocesso de consciência, a ponto de apagar os méritos de sua própria História e ao extremo de aclamar a vilania de seus opressores, ainda vai se arrepender demais. Pagará alto preço por isso. Estamos entrando num caminho sem volta. E que Paris tenha muitos apartamentos charmosos para acolher a todos os valorosos omissos.
Perdoai-os, Senhor, por sua omissão![10]
Comparados aos supostos luminares, quem são estes que não ousam falar? E esses jovens de educação tão rala, tão mal intencionada? Como a educação pressuposta no mensalão ou o moralismo suposto no PSOL. Cadê a pátria? Está na cadeia. Na verdade, é preta, pobre e petista. Além de tudo é terrorista, pois lutou ao lado e hoje continua a admirar Marighella. E a tortura, a ditadura e a lógica da Guerra Fria continuam. Não foi por outro motivo que discorremos até agora sobre o gravíssimo tema da instrução pública.


[1]Em: Estulin, Daniel. La historia definitiva del Club Bilderberg. Barcelona: Editorial Planeta, 2008.
[2] Texto dos editores da revista 21 st Cetury Science & Technology. A call for a international crash program: creating the fusion economy. Reportagem especial: Nuclear NAWAPA XXI: gateway to the fusion economy.
[4]Ver as excelentes palestras e publicações de Maria Lucia Fattorelli. http://www.auditoriacidada.org.br
[5]Um caso classe desse tipo de “caixa de fundo falso” é a editora Companhia das Letras. Nominalmente pertence a família Moreira Sales e ao casal Schwarcz. Depois de uma pesquisa simples encontramos Itaú, Peguin Books, e firmas controladoras de publicações democráticas como The Economist e Financial Times como os verdadeiros proprietários e controladores da editora.
[6]Ele fala isso, mas não deixa tão claro (digo explícito) em seus artigos, num programa da Brasiliense.org (apresentado por Luis Nassif) da época dos protestos.
[7]Igualmente, como fala o professor na entrevista, saímos de uma democracia oligárquica como a Grega para almejarmos novos patamares democráticos no mundo moderno.
[8]Santos, Wanderley Guilherme dos. Ação Penal 470: uma exceção para a história. Publicado no portal Carta Maior em 15/11/2013.
[9]Santos, Wanderley Guilherme dos. Black blocs: os primos sem máscara. O Cafezinho, 31 de outubro de 2013. Disponível em: http://www.ocafezinho.com
[10]Angel, Hildegard. Brasil entra em caminho sem volta: que Paris tenha muitos apês charmosos para acolher a todos os omissos. Publicado em 28 de novembro de 2013 em: http://www.hildegardangel.com.br

Os enganos e desenganos da teoria racial

É correto atribuir a Casa Grande & Senzala o papel de fundador do mito da democracia racial? Existia de fato esse debate quando o livro foi escrito ou, caso afirmativo, como ele se dava? A década de 1930 nos fornece não só o clássico de Gilberto Freyre, mas também dois outros pelo menos, de Caio Prado e Sérgio Buarque. Todos dialogavam entre si, e a discussão do papel da escravidão na sociedade brasileira quase pode ser atribuído ao primeiro dos clássicos temporalmente, a do sociólogo pernambucano, que ajudou a impulsionar o debate sobre o tema durante aqueles anos.

Em que medida a teoria da “democracia racial” não foi elaborada em período posterior, quando adquiriu passaporte de cidadania universal, num mundo que se tornava cada dia mais “politicamente correto”? Em que medida Casa Grande & Senzala não foi relido em período posterior, e logo alçado à condição de legitimador da desigualdade, se aproveitando do lamentável posicionamento político de seu autor depois dos anos que ganhou fama? Aí entram na história não mais figuras como a dos historiadores acima mencionados, mas nomes impressionantes como os de Elio Gaspari, Reinaldo Azevedo, Míriam Leitão e Ali Kamel. É todo um debate racial reencenado desde pelo menos a década de 1980, legitimado dentro e fora da academia, com seus detratores e defensores invariavelmente defendendo posições análogas a partir de pontos de vista diferentes. É um pouco dessas duas histórias que vou contar aqui.



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Uma resenha para Gilberto Freyre

Introdução
Casa Grande & Senzala é hoje apontado como obra fundadora do mito da democracia racial do Brasil. Frente à originalidade do autor pernambucano e à relevância de sua obra, quem se depara com tal afirmativa não deixa de ficar, no mínimo, surpreso. Para dar sustentação ao espanto – e já relativamente acostumado à prosa dos autores que começaram seu trabalho intelectual na década de 1930 –, procurei refazer o debate intelectual daqueles anos, tendo sempre em mente as discussões acerca da mestiçagem e da herança do escravismo na sociedade brasileira. Que surpresa! De minha parte, nada encontrei, nem remotamente, que nos trouxesse a lembrança do famigerado mito. Na verdade, aspirava por encontrar indícios, uma materialidade qualquer que me levasse a compreender as raízes, pelos menos, da interpretação atual sobre o afamado livro.
Pois bem, voltei-me aos atuais propagandistas não de um “Brasil sem misérias”, mas de um “Brasil sem cor”, sem racismo – como se a miséria de nosso povo não fosse sempre relacionada ao fardo da escravidão, negra, e que hoje é defendida com ares de candura por aqueles enxergam no atraso o sinal legítimo da modernidade. Elio Gaspari, dublê de intelectual e jornalista da mídia hegemônica, e cultor do chamado “historialismo” (nem história nem jornalismo), após defender em incontáveis páginas um suposto estadismo de Geisel e um lado bom, progressista, na ditadura, dá o tom ao seu grupo restrito de “cidadãos esclarecidos” acerca do conteúdo “real” de Casa Grande & Senzala. Claro, aqui não nos deparamos com qualquer surpresa, mas com aberrações infindáveis.
Logo, nosso trabalho não visa reconstituir um determinado percurso intelectual de Gilberto Freyre, desde sua formação intelectual até a fase de maturidade. Tampouco fazer um recorte e estabelecermos paralelos entre sua vida e sua obra. O interessante foi, unicamente, resgatar o grande debate intelectual da década de 1930 e restabelecer nem que sejam diretrizes gerais pelas quais autores dos mais respeitáveis se guiaram ao lidar com questões prioritárias para nossa cultura e sociedade. Assim, reencenar o debate atual sobre o legado racista e escravocrata brasileiro é refutar definitivamente qualquer filiação com este debate que hoje procuram fazer. Agora, em um único ponto peço a compreensão do leitor: não ser acusado de anti-academicismo. Nossa historiografia está impregnada de debates políticos e não é desprezível o número dos que dentro da academia defendem visões revisionistas como a de Elio Gaspari, endossando academicamente seus desatinos, ainda que com as velhas palavras, todas de tristonha beleza, de nossa tradição cordial. Esses intérpretes, preocupados com uma fórmula política pouco usual, porém que se quer hegemônica, ou seja, a afirmação dos direitos privados a fim de aprimorar os direitos do povo, acabaram, em história recente, por diminuir esses no claro intuito de inflacionar aquele. Como se a afirmação dos direitos coletivos fosse mera tergiversação da verdadeira política, e que o brasileiro preocupado com o bem estar social nunca tivesse se dado conta de que a afirmação da vantagem privada passa sempre pelo primado do bem público.
O resultado acabou por não ser muito diferente desse quadro exposto por José Luis Romero ao dar conta da América Latina no período pós-Independência:
Al cabo de poco tiempo – hacia la última década del siglo – se había diferenciado en el seno de los sectores medios una alta burguesía que tenía ya una inequívoca figura como clase económica y social, y claros designios que, en algunos aspectos, no coincidían con los grupos señoriales. Mantuvieran éstos sus convicciones básicas y sus ideas políticas, y cuando aceptaron su nuevo papel dentro de la economía en cambio, pretendieron conservarlas aun cuando colaboraban en la modificación de la estructura económica. Esta contradicción se advirtió en sus relaciones con la nueva burguesía liberalburguesa, que, cada día más, alcanzaba mayor preponderancia. (…) Cada vez más se perfiló la existencia de dos derechas (Romero, 1970: 104).
Essa nova burguesia liberal-burguesa é um estrato similar a do que se associou aos fazendeiros ligados ao capital estrangeiro, do século XIX até pelo menos 1920, no Brasil e nos países vizinhos. A diferença com a ideologia liberal atual, é que hoje seus protagonistas não precisam mais se ligar à figura intermediária dos senhores de terra. São os grandes financistas que agora levam à bancarrota nações com elevado grau de desenvolvimento social, com seus agentes brasileiros, tanto no mercado financeiro e empresarial quanto nos meios que espalham os dogmas do monetarismo, os que procuram fundar o tema do racismo e da escravidão brasileira sobre novas bases. Essas duas direitas deram o tom para importantes debates em nossas ciências humanas, pelo menos desde o período de redemocratização, sem encontrar interlocutores à altura para lhes desfazer as ilusões. Que essa pequena reencenação de debate tão caro a quem ama a inteligência em nosso país, contrastando com os padrões globalmente vigentes hoje, possa servir como um dos inícios de um debate que inapelavelmente terá de ser feito no futuro, dentro e fora da academia.

O debate na década de 1930
Comparemos a concepção de Gilberto Freyre com a de outros autores da época, também clássicos, e posteriormente poderemos ver o que esse trabalho guarda de realmente importante para o pensamento atual. Analisando mais profundamente sua obra, podemos concluir que, à parte todos os erros e lacunas que podem ser mencionados, não existe qualquer deturpação epistemológica grave. Pelo contrário, talvez tenha sido um nítido, e ainda inédito até então, panfleto político para o movimento negro que ainda estava para surgir. Irei me adiantar: o que estava em jogo é que esse autor foi o primeiro a perceber, e a desenvolver de maneira magistral, que o erro que, em sua época, enxergavam nos negros, não era um erro negro. Era um erro e uma depravação branca, e portuguesa. É esse espelho que é posto na cara de todos os patriarcas de nosso país.
Comecemos por olhar um dos ângulos de visão que nos fornecem esse espelho:
José Bonifácio, ao escrever libelo tão forte contra a escravidão, não sabemos se teria consciência dos vícios de caráter por ele próprio adquiridos no contato dos escravos: seu estranho sadismo, por exemplo. Revelou-o bem ao assistir por puro prazer, sem nenhuma obrigação, ao castigo patriarcal que a soldados portugueses mandou infligir de uma feita o Imperador D. Pedro I no Campo de Santana: cinqüenta açoites em cada um. Castigo de senhor de engenho em negros ladrões. Arrumaram-se os soldados em grupos de cinco, conforme a estatura. Despiram-se-lhes as fardas e camisas. Os homens então ficaram nus das espáduas às nádegas, curvadas para frente. E começaram os açoites. Alguns soldados terminaram deitados de bruços sobre o chão, vencidos pela dor da chibata. José Bonifácio, que assistiu a tudo por gosto, conservou-se no campo até o final da flagelação. Até o cair da noite. Sinal de que a cena não lhe desagradara. Outras evidências poderiam se juntar de vários traços, no caráter de José Bonifácio, que se podem atribuir à influência da escravidão. E se destacamos José Bonifácio é para que se faça idéia da mesma influência sobre homens de menor porte e personalidade menos viril (Freyre, 2006:434 – 435).
Freyre não retrata apenas o país das boas “mães pretas”, da cozinha, do linguajar e dos demais dons trazidos da África. Existe, sim, essa exaltação da figura dos negros. Porém não se despreza o pano de fundo da desigualdade, das relações assimétricas e violentas. A amálgama cultural retratada pelo autor pernambucano em nenhum momento apaga, antes realça, o que trouxe de perverso a escravidão. Não existe um paraíso onde a ausência de diferenças reina soberana, com diferenças somente pontuais, como num discurso atual feito em termos de “aldeia global”, “mundialização”, “globalização”, “nova ordem mundial”, e outras mentiras do gênero. Repito, não há erro científico fundamental em Gilberto Freyre. Caso fosse o ideólogo puro e simples da “democracia racial”, fatalmente erros epistemológicos haveriam de ser encontrados. Não aceitamos, porém, recortes parciais em sua obra que sirvam ora para legitimar um discurso hipócrita, ora para acirrar determinada luta de classes. Neste último caso, fazendo não muito diferente dos jacobinos franceses, ou seja, “devorar seus próprios filhos” e, quem sabe, abrir as portas para uma nova espécie de salvador, tal com foi encarnada pela figura perversa de Napoleão – ou nem tão má: para nós brasileiros é só lembrarmos do triste Jânio Quadros.
Se não retratou os castigos indizíveis sofridos pela raça negra durante todos os séculos antes da alforria (e por quantas décadas depois dela, sob múltiplos disfarces?), é porque Freyre trata de um outro momento da história do Brasil, do tempo em que os portugueses “arranhavam as praias como caranguejos”, no dito do famoso frei. Não se deteve para averiguar as condições terríveis das minas, dos escravos no Maranhão trazidos por Pombal, dos negros no grande mercado do Rio de Janeiro na passagem do século XVIII para o XIX. No mais, a visão que Freyre tem da escravidão no período que compreende o apogeu da vida de casa grande e senzala não é diferente de outros autores não menos importantes, e que não paira a mesma dúvida sobre a obra deles, como Caio Prado Jr. e Manuel Bonfim. No mais, Capistrano ou Sérgio Buarque também nunca dedicaram grandes páginas à escravidão. Isso, por si, o dedicar-se a, ou dar uma visão considerada perfeitamente correta da instituição escravista, nunca foi atestado para se medir a importância de uma obra ou de um pensador. Analisado em sua especificidade, Freyre é o teórico da miscigenação, o que é óbvio. Mas não de uma miscigenação que apaga todas as diferenças. Muito pelo contrário, e isso é o que estou tentando demonstrar aqui. Freyre não é Freire nem nunca ousou o disparate de escrever um livro no qual, por exemplo, se afirma que “não somos racistas”. Só se re-fundasse a historiografia. Genialidade tinha para tanto, ao contrário de outros. E, realmente, trouxe outro parâmetro de análise da instituição da escravidão e do negro no Brasil. Quem é seu precursor? Nina Rodrigues não chegou aos seus pés. Quem nos sobra? Oliveira Vianna? Mais tarde colocaremos o problema de Casa Grande & Senzala em sua devida colocação no espaço-tempo, no devir histórico.
Antes de prosseguirmos, sem nos deter simplesmente nas nuances da prosa do autor pernambucano, deveremos entendê-lo não só como o autor que encarna, quase cem anos depois, a tese defendida por Martius. Ele não é um simples propagandista da miscigenação racial e cultural no Brasil. É um dos primeiros a reconhecer o valor superlativo dos negros em nossa sociedade, indo para além da “teoria da miscigenação”, tão mal usada por muitos; usada com tantas más intenções, por outros. Em todo o seu clássico, não podemos enxergar alguma espécie de carnavalização da figura do negro. Qualquer espécie de banalização de sua imagem, ao contrário do que faz com os senhores de engenho, é sequer cogitada. Lembremos de suas palavras em relação aos malês, sendo talvez um dos primeiros a destacar o avanço de sua civilização e mostrar a sua humilhação perante a condição de escravo – e não simplesmente de negro. Não, Freyre não pretende apagar as diferenças entre as classes, entre as raças, como no discurso “globalizado”, como no triste fim da história neoliberal de Fukuyama.
Se há hábito que faça o monge é o do escravo; e o africano foi muitas vezes obrigado a despir sua camisola male para vir de tanga, nos negreiros imundos, da África para o Brasil. Para de tanga ou calça de estopa tornar-se carregador de tigre. A escravidão desenraizou o negro do seu meio social e de família, soltando-o entre gente estranha e muitas vezes hostil. Dentro de tal ambiente, no contato de forças tão dissolventes, seria absurdo esperar do escravo outro comportamento senão o imoral, de que tanto o acusam. (Freyre, 2006:398)
Como disse Freyre, refutando Nina Rodrigues: “Impossível a separação do negro, introduzido no Brasil, de sua condição de escravo” (Freyre, 2006:398). Vejamos contra quem Freyre combate com a força de sua oratória:
Mas logo de início uma discriminação se impõe: entre a influência pura do negro (que nos é quase impossível isolar) e a do negro na condição de escravo. “Em primeiro lugar o mau elemento da população não foi a raça negra, mas essa raça reduzida ao cativeiro”, escreveu Joaquim Nabuco em 1881. Admiráveis palavras para terem sido escritas na mesma época em que Oliveira Martins sentenciava em páginas gravíssimas: “Há decerto, e abundam os documentos que nos mostram o negro um tipo antropologicamente inferior, não raro próximo do antropóide, e bem pouco digno do nome de homem”. (Freyre, 2006:397)
Veremos, mais a frente, quem hoje se outorga o título de cientista (social ou o que valha), o que lhe outorga a suposição de neutralidade. Não mais Oliveira Martins, Nina Rodrigues ou Oliveira Vianna. Não é de se admirar, portanto, que esses mesmo cientistas contemporâneos sejam aqueles que fornecem as bases políticas e intelectuais para a propagação do mito da democracia racial. É contra esses que ainda devemos fazer reviver Gilberto Freyre, para que sejam expostas todas as falácias nas quais se baseiam sua retórica; os que constroem sistemas de forma tal que vão de encontro ao que de melhor produzimos, deslegitimando-o. E com toda a admiração a Gilberto Freyre!, pois veremos.
O negro hoje na mitologia da democracia racial encarna uma espécie de versão renovada do mito do “amante latino”. É só olhar todo o racismo compreendido nessa visão: o “sangue quente”, atributo da raça; o porte físico avantajado, muito mais forte do que o branquicelo europeizado; e, o órgão sexual igualmente avantajado, com que a dar legitimidade a toda essa visão estereotipada. Em Casa Grande & Senzala é o português, cabeludo, lascivo, que aparece como o dono dos maiores falos. Os negros, além de depravados, tinham um sexo frágil, sifilítico, o que não o tornava o “amante”, mas a figura, geralmente encarnada pela mulher, de destruidora de lares, de prostituta, etc. Com a democracia racial o negro passa a ser valorizado por um atributo duvidoso e, com as mutações que essa imagem adquire de acordo com as modas, se torna facilmente verificável seu papel de mito puro e simples, como desmascarado por Gilberto Freyre na década de 1930:
Passa por ser defeito da raça africana, comunicado ao brasileiro, o erotismo, a luxúria, a depravação sexual. Mas o que se tem apurado entre os povos negros da África, como entre os primitivos em geral – já o salientamos em capítulo anterior – é maior moderação do apetite sexual que entre os europeus. É uma sexualidade, a dos negros africanos, que para excitar-se precisa de estímulos picantes. Danças afrodisíacas. Culto fálico, Orgias. Enquanto no civilizado o apetite sexual ordinário se excita sem grandes provocações. Sem esforço. A idéia vulgar de que a raça negra é chegada, mais do que a outras, a excessos sexuais, atribui-a Ernest Crawley ao fato do temperamento expansivo dos negros e do caráter orgiástico de suas festas criarem a ilusão de desbragado erotismo. Fato que “indica justamente o contrário”, demonstrando a necessidade, entre eles, de “excitação artificial”. Havelock Ellis coloca a negra entre as mulheres antes frias do que fogosas: “indiferentes aos refinamentos do amor”. E, como Ploss, salienta o fato dos órgãos sexuais entre os povos primitivos serem, muitas vezes, pouco desenvolvidos (“comparatively undeveloped”)(Freyre, 2006:398).
O português, com uma rotina organizada que lhe fornece horas extras de prazer (e o que dizer dos portugueses das casas grande, os homens que tudo faziam deitados em suas redes?), ao contrário da rotina de uma tribo guerreira, profundamente preocupada em conseguir os mantimentos para a manutenção física de seus habitantes, ou ocupadas em guerras contínuas com outras tribos, de modo algum sobra tempo para exercitar a perversidade sexual tal como nas sociedades com uma divisão do trabalho mais complexa, e na qual mais e mais seus habitantes desfrutam horas de lazer e de conforto. Daí a necessidade dos cultos fálicos, das danças afrodisíacas e até das orgias. Como essa sociedade sobreviveria se não excitasse esses impulsos entre seus integrantes? Daí também o caráter religioso desses rituais. Necessita-se ordenar da melhor maneira possível a reprodução dos habitantes dentro das normas rígidas que a vivência naquela sociedade condiciona. Nada impensado, nada excessivo, nada depravado. Agora, onde o mito da democracia racial ao enxergar dessa maneira os negros? Talvez seja por isso que boa parte dos que insistem em ver esse mito em Casa Grande voltem sua atenção para as palavras sobre a cozinha, a língua, sobre as mães negras, etc., sem atentar para um fato crucial que ocupa quase a metade do livro e que é o assunto central dos capítulos dedicados exclusivamente aos negros: “o escravo negro na vida sexual e de família brasileiro”.
A organização da família também está centrada nos tipos de relação sexual que os senhores exercem sobre seus escravos, sobre toda a casta de negros e mulatos. A mãe negra, a introdução da culinária africana na dieta portuguesa, o linguajar que se aproxima, tudo isso existe por causa de uma organização social específica, a chamada “escravidão familiar”. Esta só poderá ser compreendida de maneira mais ampla se colocada em sua vertente atlântica, ou seja, se comparada, por exemplo, à escravidão nas minas ou a realizada pelas Companhias de comércio, tanto brasileiras quanto a que Pombal criou posteriormente. Para se analisar com mais amplitude os tipos sociais de Casa Grande & Senzala, precisamos ampliar nossa escala de análise. Não obstante, para o objetivo desse trabalho, a questão em si da vida cotidiana, e a sentimental que tudo perpassa nesse panorama, é a principal. Portanto, continuemos com Freyre, continuemos com sua imagem caricatural, e na qual não falta seriedade, do patriarca:
No senhor branco o corpo quase se tornou exclusivamente o membrum virile. Mãos de mulher, pés de menino; só o sexo arrogantemente viril. Em contraste com os negros – tantos deles gigantes enormes, mas pirocas de menino pequeno. Imbert, nos seus conselhos aos compradores de escravos, foi ponto que salientou: a necessidade de se atentarem nos órgãos sexuais dos negros, evitando-se adquirir os indivíduos que os tivessem pouco desenvolvidos ou mal-conformados. Receava-se que dessem maus procriadores.
Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas. Rede rangendo, com o senhor copulando dentro dela. Da rede não precisava afastar-se o escravocrata para dar ordens aos negros; mandar escrever suas cartas pelo caixeiro ou pelo capelão; jogar gamão com algum parente ou compadre. De rede viajavam quase todos – sem ânimo para montar a cavalo: deixando-se tirar de dentro de casa como geléia por uma colher. Depois do almoço, ou do jantar, era na rede que eles faziam longamente o quilo – palitando os dentes, fumando um charuto, cuspindo no chão, arrotando alto, peidando, deixando-se abanar, agradar e catar piolho pelas molequinhas, coçando os pés ou a genitália; uns coçando-se por vícios; outros por doença venérea ou da pele. Lindley diz que na Bahia viu pessoas de ambos os sexos deixando-se catar piolhos; e os homens coçando-se sempre de “sarnas sifilíticas”. (Freyre, 2006:518)
Essa imagem do senhor da rede, com mãos de mulher e pés de menino e “só o sexo arrogantemente viril”, é o retrato tosco que o autor faz do cotidiano da vida dos patriarcas na colônia. Ele não coloca o branco como um patriarca bondoso que perdoa as travessuras de seus filhos, as vaidades de suas meninas, e as estripulias de seus jovens criados. Os meninos com nove ou dez anos já andavam com o cabelo “frisado à Menino Jesus; o colarinho duro; calça comprida; roupa preta; botinas pretas; o andar grave; os gestos sisudos; um ar tristonho de quem acompanha enterro” (Freyre, 2006:499). As meninas, preferiam as com ares de santas, “o ar humilde que filhas de Maria ainda conservavam nas procissões e nos exercícios devotos da Semana Santa, as meninas de outrora conservavam o ano inteiro” (Freyre, 2006:510). Todo esse ambiente que exteriorizava seriedade, gravidade, respeito à família e à religião, estão nas raízes do autoritarismo brasileiro. Todo esse ar, e que sabe ao mesmo tempo ser “elástico” como era o português, maleável até determinado ponto – o ponto em que se tem mais e mais espaço para se impor os seus desejos e regras. E assim houve a dupla degradação da raça negra. Dupla, pois consideramos a primeira, que foi torná-los escravos. Em seguida, profanaram seu complexo afetivo (é isso que está em jogo quando se fala de sexualidade), seus valores morais, sociais e a intimidade de sua experiência religiosa. Substituíram a figura do negro com sua camisola male, pela do “senhor na rede” a mandar o negro, já de tanga, a carregar tigre, ou seja, os seus excrementos. Nada mais trágico. Nada menos carnavalesco. Nada menos mitologia. Nada mais brasileiro.
O ócio, a libertinagem, a vagabundagem: temas constantes entre os estrangeiros que vinha cá para nossas terras. Diziam ser até culpa do açúcar, o qual causaria uma espécie de “abundância desse humor”, talvez um “humor açucarado” que faziam os negros moles e os senhores ficarem nas redes. Ah! vamos culpar tudo o que achamos coisas: o açúcar, o escravo, o negro… Responde Gilberto Freyre: “O açúcar não teve, por certo responsabilidade tão direta pela moleza dos homens. Teve-a, porém, e grande, como causa indireta: exigindo escravos; repelindo a policultura. Exigindo escravos para ‘mãos e pés do senhor de engenho’, como disse Antonil” (Freyre, 2006:517). Não o escravo por ele mesmo, não a cor. Mas a Escravidão, introduzida por mãos brancas. Do mesmo modo, Manoel Bomfim rechaça as acusações de raça inferior atribuída aos latino-americanos. Sua corrupção inerente? Fruto da velha metrópole que se tornara um organismo parasitário frente a colônia que dava provas de vigor e fortaleza, através de sua gente, através de sua gente miscigenada. É esse tom que assemelha o autor pernambucano ao sergipano. Onde encontrar um “espetáculo das raças”, um “país de pardos” (nos dizeres do Freyre com “i”, Ali Kamel) na obra deles? Precisamos averiguar qual a noção que os autores contemporâneos a Gilberto Freyre tinham para entender o quão longe estão as críticas que fazem agora ao autor pernambucano.
Manoel Bomfim, se crítico da literatura estrangeirada que via como degeneração as raças misturadas, por sua vez não destacou os conflitos entre as raças como hoje estamos acostumados, principalmente por causa do desenvolvimento tradição marxista. Antes, valorizou a mestiçagem, colocando como a mola mestra da formação da nacionalidade brasileira. Portanto, não via no índio uma raça que foi simplesmente subjugada. Pensava que houve, apesar dos conflitos, assimilação de uma raça com outra, a de brancos, negros e indígenas entre si. Mas faz um paralelo, consciente da crueldade que se tornara a escravidão africana em nossa terra. Responsabiliza Pombal e suas Companhias de comércio pela entrada massiva de negros no país. Resultou disso a dificuldade de assimilação entre as raças, o que não houve até aproximadamente 1750, data simbólica de quando passa a entrar cada vez mais escravos por nossos portos. Não iremos no ocupar com seus números relativos a entrada de negros no Brasil, e que datam de quase um século atrás (1929 foi a data de publicação de seu livro). Só que, ouvindo pesquisador mais moderno, temos que: “Por razões explicadas adiante, os números do tráfico negreiro são problemáticos para os séculos XVI e XVII. Na circunstância, a análise quantitativa da deportação de africanos para a América só ganha verdadeiro alcance nos séculos XVIII e XIX, período que será objeto de um próximo livro” (Alencastro, 2000:9 – 10). O fundo do que Bomfim nos diz se mantém intacto, fazendo eco a Gilberto Freyre (grifo meu):
O trabalho escravo retardou longamente a evolução do país, além dos maus efeitos morais e políticos. Em si mesma, porém, a sorte dos cativos foi menos dolorosa aqui, do que em qualquer das outras colônias modernas, inclusive a América inglesa. É um testemunho, repetido até pelos anglo-saxões. Muito difundido os negros, dada a índole fácil das populações, a vida em geral se fazia com relativa aproximação de senhores e escravos, e havia para estes mais humanidade. Por isso, o reflexo do mal teve outros tons. Se é possível apontar algumas relativas cruezas nos quadrados de senzalas dependentes dos cafezais, pelo resto do Brasil era uma inocente escravidão rural ou doméstica. Inocente porque, dadas as condições de cultura os escravos, as formas de vida tinham piores efeitos para os próprios senhores, do que para aqueles humanamente tratados. Uma coisa é o efeito de massa de cativos, quase isolados, jungidos ao trabalho da mina, ou nos ergástulos dos latifúndios, outra é a ação de escravos misturados ao viver da família: dezenas de negros e mulatos, no recesso das cozinhas, no segredo das alcovas. (…) Nesse cativeiro, a alma do negro não se sentia intransigentemente amesquinhada; havia relativa expansão, uma qual liberdade, e sombras de felicidade. E porque assim se fez o cativeiro dos pretos, nunca houve, aqui, daquelas sangrentas reações de escravos, com se encontram na história de outras partes da América. Afora casos individuais, contra um ou outro senhor mais desumano, as revoltas se limitavam aos quilombos de negros fugidos, e que não eram caçados a dente de cães de sangue… O próprio desenvolvimento dos Palmares e outros grandes quilombos, mostra que os pretos escravos tinham, no Brasil, possibilidades de que não existiam noutras colônias. Palmares foi uma organização política, e não um reduto de ódios. (Bomfim, 1997: 203-4)
A mesma idéia diretriz que guiou Gilberto Freyre pode ser encontrada nessas palavras. Os senhores, ao mesmo tempo em que são os grandes responsáveis pela redução do negro à escravidão, são os que sofrem mais diretamente as conseqüências da instituição por eles criada. Freyre, Bomfim, Prado Jr. (veremos adiante), e mesmo Sérgio Buarque, traçam esse tipo de “moral das senzalas”, como nos dizeres do autor paulista. Denunciam – falo aqui de Bomfim e Freyre – o cientificismo de seu tempo, o qual pretende reduzir o negro, ou mesmo os latino-americanos, a uma sub-raça da espécie humana. Assim, elevam ao patamar de igualdade, e mesmo de superioridade, a parcela da espécie humana que defendem, não esquecendo de, para isso, rebaixar a categoria tão exaltada dos homens brancos, sejam eles brasileiros ou europeus. Mais uma vez com Bomfim: “É certo que durante dois séculos, de 1660 a 1860, a grande produção do país brasileiro foi pelo trabalho dos negros cativos. Isto só prova que havia, na raça, mais valor do que admitem os partidários do lourismo alongado” (Bomfim, 1997: 204). Nenhum daqueles que pretendiam fazer uma história moderna, baseada em modelos científicos avançados, pelo menos até a produção da escola que se inicia em 1930 (incluindo entre os precursores Capistrano de Abreu), se ocupa em denunciar os malefícios da escravidão enquanto coerção física ou mesmo como degeneração econômica do país. Tratam das degenerações morais da instituição escravista, destacando o papel dos senhores de engenho como corruptores e, como conseqüência, corrompidos. Só mais tarde aparece uma vertente nas ciências humanas, como a encabeçada por Florestan Fernandes e também por Jacob Gorender, que aprofunda a visão que temos sobre os males da escravidão e suas conseqüências nefastas para o país. Analisar uma geração de estudiosos por outra é erro crasso.
Acreditar que Caio Prado, Sérgio Buarque, Manoel Bomfim, Capistrano de Abreu e, claro, Gilberto Freyre, não tinham uma noção clara das crueldades do regime escravocrata é reduzi-los à insignificância moral, já que nenhum autor que possa prezar seu nome não só denuncia os malefícios desse sistema, mas procura, com seus estudos, direta ou indiretamente, combater suas conseqüências na sociedade como um todo. Não por acaso, Sérgio Buarque foi o primeiro a falar da caça aos índios quando, procurando o Paraiso Terreal ou as minas de Potosí, os bandeirantes acabavam trocando “pedras por peças”. Igualmente, acreditar que Gilberto Freyre fosse o criador do mito da igualdade racial é atribuir a mesma autoria aos seus contemporâneos, sejam os que fizeram valer seus escritos no ocaso da república Velha ou na aurora do varguismo. Ignorar dessa maneira as raízes sociais e políticas que dão as bases para que o mito da igualdade racial seja repetidamente exaltado em nosso cotidiano, é esquecer todo um discurso a nós contemporâneo que legitima a desigualdade, o preconceito, o racismo. Falo, e não poderia ser diferente, de teorias como a da dependência, tal como foi encabeçada por Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ou seja, a teoria da dependência que faz apologia da dependência – e da minoria de “cabeças-de-planilha” que enriquecem à custa da dependência do povo.
Falo, como não poderia ser diferente, do discurso da globalização, do Consenso de Washington, que quer abarcar em si todas as diferenças, carnavalizá-las. É só lembrar dos albores do Plano Real, quando os pobres deveriam se orgulhar de poder comer frango e comprar dentaduras (será que FHC reencarnou o brizolismo?, boa pergunta para uma tese irreverente, e independente). O povão nunca mais será brizolista, com certeza pensaram os artífices desse novo mito populista. É só lembrar dos negros na televisão brasileira, fieis ao seu papel submisso, ocupando favelas onde as vielas se podem respirar, com casas bem feitas e sempre com “muita alegria” e proporcionando diversão – como palhaços de circo. Do carnaval enquanto fenômeno de massas atual. Do negro festeiro, do negro sexualizado, do negro espontâneo e criativo desde que não levante a voz contra o Estabelecido (é só olhar o movimento sambista atual e toda a sua repercussão midiática, inclusive em programas dominicais). É o discurso que pretende apagar as diferenças a partir da criação de plágios, de artifícios como “colorir” favelas. É a velha política do ópio para o povo, mas a qual a massa de negros e mulatos foi incorporada por necessidades do “mundo globalizado” atual.
Não! Não existia a carnavalização do negro na virada da República Velha para o regime varguista. Existia o mesmo discurso neutralizador, científico, que colocava o negro em todos os lugares possíveis, menos o seu de direito. Quando falar em racismo se transformou numa heresia, nos deparamos com o reverso da moeda das teorias evolucionistas do século passado. Falar que os negros ocupam um lugar diferente na sociedade vai contra o “apagar das diferenças” do discurso inerente ao que se chama de globalização. Todos passaram a ser iguais, desde que alguns, pouquíssimos, se transformassem em mais iguais que todos os outros. É a mesma oligarquia que plantou a especulação financeira na República Velha, que enriqueceu até cansar com essa mesma especulação (Rui Barbosa incluído, claro), que lucrava com a exclusão dos negros frente a toda sua retórica em prol da Modernidade. É a mesma oligarquia que dá frango e dentadura para os pobres, em sua esmagadora maioria negros e mulatos, enquanto enriquece com especulações financeiras de altíssimo nível (falo também de Gustavo Franco, claro) e leva o país à bancarrota em meio a todo um palavrório neo-modernista ou neoliberal. É a mesma política de exclusão, a mesma cultura de exclusão, mas com vocabulário e práticas renovadas. É a mesma política que dá o frango para logo após tirar a vida; é a mesma cultura que passa a compreender a raça dentro duma perspectiva científica, integrando-a no discurso ocidental, tornando-a, de algum modo, parte da Civilização. Grande conquista, ontem ou hoje!
Caio Prado Jr., de honestidade intelectual imbatível e de lucidez incomparável, assim se expressou também na década de 1930:
Quanto à função desempenhada pela escravidão, ela é, não preciso acrescentá-lo, considerável. Ao tratar da economia da colônia, já vimos que praticamente todo o trabalho é, entre nós, servil. Mas é preciso distinguir nestas funções da escravidão dois setores que têm caracteres e sobretudo conseqüências distintas: o das atividades propriamente produtivas e as do serviço doméstico. Apesar da amplidão e importância econômicas muito maiores do primeiro setor, o último não pode ser esquecido ou subestimado. Não só ele é numericamente volumoso – pois intervém, a par das legítimas necessidades do serviço doméstico, a vaidade dos senhores que se alimenta com números avultados de servos –, como é grande participação que tem na vida social da colônia e na influência que sobre ela exerce. Neste sentido, e excluído o elemento econômico, ele ultrapassa mesmo o papel do outro setor. O contato que o escravo doméstico mantém com seus senhores e com a sociedade branca em geral é muito maior, muito mais íntimo. E é certamente por ele que se canalizou para a vida brasileira a maior parte dos malefícios da escravidão. Do pouco que ela trouxe de favorável, também: a ternura e afetividade da mãe-preta, e os saborosos quitutes da culinária afro-brasileira.(Prado Jr., 2011:295)
Caio Prado tinha em vista nessa passagem a obra de Gilberto Freyre (como diz explicitamente na nota correspondente à passagem). A imagem da escravidão familiar, patriarcal, ficara, já naquela época, marcada definitivamente na cultura brasileira. Daí a importância que o autor paulista dá a escravidão familiar, considerando-a inclusive mais degradante dos que a escravidão ocupada exclusivamente com as atividades produtivas. Os castigos físicos aviltantes, a prostituição desbragada (como nas Minas), foram bem mais constantes nesse segundo setor. Mas, segundo Caio Prado, devido à proximidade, ao convívio íntimo entre senhores e escravos, a instituição escravocrata presente nos núcleos familiares passou muito mais de seus males à sociedade como um todo do que no segundo caso. Tese passível de debate, em minha opinião. De um enriquecedor debate, pois ambos se baseiam em pressupostos sólidos. Mas Caio Prado também teima em destacar a superioridade negra apenas nos quesitos culinária e carinhos domésticos (até porque não se aprofundou no tema). Gilberto Freyre, entretanto, procura dignificar o negro, ressaltando a superioridade civilizatória de muitos negros que por aqui aportaram (além dos temas acima destacados), mas ainda está longe de exalar a cultura negra como hoje diversas pesquisas o fazem. Mas Freyre é mestre em caricaturar os brancos, os senhores de engenho. Talvez não tenhamos chegado ainda hoje à fineza psicológica com que desempenhou essa tarefa. Os senhores na rede, mãos femininas, pés infantis… E a coragem que os portugueses sempre acreditaram ser um de seus maiores valores? E os indômitos mamelucos a conquistar os sertões, a dominar do Rio de Janeiro ao Maranhão o Brasil aos franceses? Só molemente Freyre reconhece esses atributos. No mais, parece mesmo que zomba de todos esses “donos do poder”.
Não foi por outro motivo que escolhemos os dois capítulos finais de Casa Grande & Senazala para nosso trabalho. São os que falam exclusivamente dos negros – que e ri dos brancos. Quanto à suposta “maleabilidade” portuguesa, aos atributos valorosos dos indígenas, sobre tudo isso Freyre discorre, ainda que não com a mesma habilidade com que fez sobre os segundos Manoel Bomfim; ou que logo depois fará sobre os primeiros Sérgio Buarque. É dos negros que Freyre trata, e da mestiçagem que se fará através deles, sendo assim o pioneiro em reconhecer a extensão desse casamento, e denunciar todas as suas atrocidades, ainda que sifilíticas – e lusitanas. O negro depravado de sua sociedade cientificista, evolucionista, passa a não mais existir. Através da “escravidão familiar” denuncia a depravação portuguesa e patriarcal. Falar de chicotes e estupros talvez fosse menos sutil. No doce cotidiano dos engenhos é onde o elemento branco se revela, muito mais do que nas práticas que ainda hoje, no pensamento mais autoritário, sejam consideradas legítimas ou perdoáveis. Como os presídios hiper-lotados; como nas mortes sumárias e encobertas pelo Estado e pela Mídia; como no castigo físico e moral que toda a população, ainda mais se negra, deve sofrer segundo esses mesmos “cidadãos” de nosso país. Qual o destino dos corruptos? Se possível a guilhotina, a pena de morte. E, ainda mais importante: quem são os corruptos? FHC ainda está a espera do julgamento sobre o que representou sua política nefasta e todos os atos lastimáveis que foram escondidos “brilhantemente” durante seu governo “globalista”, “internacionalista”, “depedentista”. Mas depois trataremos do “Príncipe da Sorbonne” e de seus acólitos midiáticos. Continuemos por enquanto respirando melhores ares. Continuemos com Caio Prado.
O que há em tudo isso é que o escravo brasileiro parece ter sido melhor tratado que em algumas outras colônias americanas, em particular nas inglesas e francesas. Terá influído aí a índole portuguesa, sobretudo quando amaciada pelo contato dos trópicos e a geral moleza que caracteriza a vida brasileira. Também o regime patriarcal, de que falarei abaixo, abrandará o contato de senhores e escravos, dando àqueles um quê de paternal e de protetor dos seus servos. (Prado Jr., 2011:294)
A mesma relativização da escravidão no Brasil que faz Bomfim encontramos em Caio Prado. Este, mais cuidadoso, usa a palavra “parece” para dar menos certeza ao fato da escravidão no Brasil ter sido de algum modo mais branda. A mesma visão de Freyre ao tratar do caráter português, em especial do português nos trópicos, para falar da moleza generalizada do regime patriarcal nas casas grandes. Destacando mais um ponto de conexão entre Caio Prado e Gilberto Freyre destacaremos mais uma passagem. Esta, no entanto, também contém os elementos que irão diferenciar absolutamente os dois autores:
A contribuição do escravo preto ou índio para a formação brasileira é, além daquela energia motriz, quase nula. Não que deixasse de concorrer, e muito, para nossa “cultura”, no sentido amplo em que a antropologia emprega a expressão; mas é antes uma contribuição passiva, resultante do simples fato da presença dele e da considerável difusão do seu sangue, que uma intervenção ativa e construtora. O cabedal de cultura que traz consigo da selva americana ou africana, e que não quero subestimar, é abafado, e se não aniquilado, deturpa-se pelo estatuto social, material e moral a que se vê reduzido seu portador. E aponta por isso apenas, muito timidamente, aqui e acolá. Age mais como fermento corruptor da outra cultura, a do senhor branco que se lhe sobrepõe.(Prado Jr., 2011:289)
Darcy Ribeiro talvez ficasse arrepiado de indignação ao ouvir expressões como “contribuição passiva” ou a frase que se inicia com “o cabedal de cultura que traz consigo”. Quem dera então se tivéssemos a oportunidade de assistir a uma leitura atenta de trechos como esse por parte de Clóvis Moura, Décio Freitas ou Edison Carneiro. Quanto teve que evoluir a pesquisa em ciências humanas para que o negro não se visse mais, na mais bem intencionada ou bem fundamentada obra, como elemento passivo e corruptor. Como é passivo e corruptor ao mesmo tempo é o que fica difícil de ser explicado. Se corrompe é porque age – é simples assim. Portanto, Freyre é o pioneiro em destacar os elementos positivos da ação do negro na cultura não somente no sentido antropológico, mas na sua acepção mais abrangente da cultura nacional, fazendo com que o negro e sua cultura apareçam como elementos virtuosos frente à decadência da cultura branca e lusitana.
Caso tenhamos que criticar Freyre absolutamente como o criador ou o fundador do mito da democracia racial, ou colocar sua obra como referência fundamental para se conhecer esse mito, teremos que ser mais cuidadosos e passarmos a estudar todo um tipo de concepção do negro vigente nos livros que se tornaram clássicos de nossa ciência, e entender com quem Freyre dialogava naquele momento. Colocá-lo como bode expiatório, ou como uma espécie de Carl Smith das ciências sociais brasileiras é tarefa temerária. E o que dizer de Sérgio Buarque de Holanda e sua “moral das senzalas”? São tíbios dois parágrafos nos quais Sérgio Buarque se ocupa ao longo de toda sua obra, hoje clássica, para falar especificamente do problema do negro. Assim finaliza todo seu trabalho reflexivo sobre tão grave problema:
Sinuosa até na violência, negadora de virtudes sociais, contemporizadora e narcotizante de qualquer energia realmente produtiva, a “moral das senzalas” veio a imperar na administração, na economia e nas crenças religiosas dos homens do tempo. A própria criação do mundo teria sido entendida por eles como uma espécie de abandono, um languescimento de Deus. (Holanda, 1995:62)
Contudo, todos os autores até agora arrolados são unânimes em um assunto, em uma distinção fundamental: a do negro e a da instituição escravista. A “moral das senzalas” é a moral que degradou o elemento branco a partir do embrutecimento dos negros ao escravizá-los. Essa moral conseqüente de um país firmemente estabelecido sobre base escravista é o que irá contaminar todas as nossas instituições; é por isso que a cultura negra não irá penetrá-las, é nesse sentido que Caio Prado observa; é nesse sentido que Freyre procura dar voz a toda multifacetada contribuição africana para nossa cultura; é nesse sentido em que Freyre se distingue claramente de “cientistas” como Nina Rodrigues, adepto dos dogmas eugênicos do período. A eugenia hoje, contudo, está expressa em contribuições para nossa cultura através de termos reducionistas como “aldeia global”, “mundo globalizado”, “ausência de barreiras físicas ou comerciais”. Como também podemos vê-la presente dentro do aspecto específico desse tipo de ciência, o genocídio, em instituições como o falido projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), da união monetarista da União Européia, e no filhote do Nafta, ou seja, a grande explosão dos cartéis de drogas mexicanos durante a última década. Genocídio, eugenia, enfim…
3.     O debate atual
É de um interesse antropológico digno de um Gilberto Freyre o debate que se travou em nosso país há não muitos anos sobre a questão das cotas raciais. São argumentos tão primários, ora a favor, ora contra, e vindo de personagens tão exóticos de nossa cultura, que só com o espírito de um antropólogo ou de um viajante do século XIX podemos começar a abordar esse problema. Falo especificamente de um debate travado dentro da mídia oficial, mais precisamente entre três de seus baluartes, Miriam Leitão e Reinaldo Azevedo, e que teve como pano de fundo a “nação parda”, de Ali Kamel. Portanto, demos voz às minorias de nosso país para procurarmos compreender suas reivindicações.
Reinaldo Azevedo, um jornalista independente principalmente pelo seu estatuto jurídico que o liga a empresa onde trabalha, a revista Veja, não sendo funcionário desta mas pessoa jurídica contratada, se alça à condição de mediador do debate entre Gilberto Freire e Miriam Leitão, dois baluartes do pensamento nacional. É um espectador neutro que expõe suas impressões sobre o debate que parece ter sido, sem nunca ter chegado próximo a ser, de grande mobilização nacional. É um espectador neutro, sem sombra de dúvida, por ser através de seu CNPJ, e não o da revista para a qual trabalha, que recebe os costumeiros processos por calúnia e difamação. Trabalha por sua conta e risco – eis sua independência.
Em um texto publicado em 08 de março de 2010, Reinaldo Azevedo escreve uma espécie de carta a Miriam Leitão, lamentando sua atitude que considera militante, ao defender as cotas raciais. Não toca em nenhum momento no nome de Ali Kamel, o responsável por deslanchar o debate a partir de suas teses de um país pardo e sem quaisquer conflitos raciais. Uma figura que aparece bem no meio do debate, e é agilmente defendida por Azevedo, é a do senador Demóstenes Torres. Miriam Leitão se indigna com a tese do “mosqueteiro da ética”, na qual os responsáveis pela escravidão no Brasil foram os próprios negros. Reinaldo Azevedo corrobora a tese mosqueteira, dizendo que os negros faziam parte da pauta de exportação africana para o Brasil, e que isso simplesmente é um dado histórico, não passível de valorações morais. Portanto, fiquemos com o imoral, porque interpretar a história dignamente pode ofender aos nossos “barões”, ou os “donos do poder”, na expressão de Faoro.
Depois de desqualificar a sua interlocutora (a apaixonada militante), e defender um varão de nossa república e sua tese inquestionável (simplesmente um fato histórico), a discussão alça vôo e passa a tentar definir um conceito. É aí que aparece Gilberto Freyre. A economista Leitão fala do genocídio cometido aos africanos durante todo o período da escravidão. Mas para nosso analista político parece que a palavra genocídio não tem sentido universal, já que aplicado somente para determinados períodos considerados de maneira consensual como de selvageria pura e desmedida. É claro que Hitler, e talvez Stálin, sejam um dos pouquíssimos exemplos históricos nos quais aplicamos corretamente o termo “genocídio”. Já o autor que agora escreve estas linhas, pensa que o termo é de cunho universal e atualíssimo. O que são as políticas de austeridade ao estilo FMI se não genocídio? O que é a política da chamada Troika européia se não morte e desmonte de sociedades inteiras? A escravidão, não só pelo trabalho diário degradante, mas ainda pelos degradantes “tumbeiros” ou navios negreiros, não pode ser reconhecida como uma instituição genocida? E os campos de concentração construídos pelas multinacionais IG Farben, Bayer, e demais, não são o ideal delas de trabalho? Toda degradação sistemática, e portanto intencional, de um povo, é genocídio. Mas, vamos ver como o ilustre Reinaldo se apropria de Freyre:
Há uma boa possibilidade de que Miriam Leitão não saiba o que é “genocídio”. Até como metáfora ou hipérbole, a palavra é ruim. Por maus motivos do ponto de vista moral, mas atendendo a um sentido econômico, senhora repórter e colunista de economia, fosse a cor de pele sinônimo de raça, a economia colonial não incentivou o genocídio, mas a multiplicação de negros. Era capital. O fato de praticamente a metade dos brasileiros ser mestiça indica a facilidade com que, depois, a miscigenação aconteceu. Quando ela decidir se reunir com Aiatoélio Gasparti para ler Casa Grande & Senzala, vai descobrir, inclusive, que o negro foi o elemento mais, digamos, hígido da formação do povo brasileiro. A tese do genocídio é parente da tese do “estupro original”, e ambas são manifestações da ignorância militante. Miriam Leitão escreve sobre economia. Espera-se dela um aporte racional. O que afirma acima tem muito de fígado e nada de cérebro.(Azevedo, 2010)
É de tirar o fôlego, é de arrepiar a perspicácia não tanto intelectual, mas moral, desse expectador impassível da História. E ainda querem insistir em ler Gilberto Freyre a partir de lentes como essas… “A tese do genocídio é parente da tese do ‘estupro original’” – com certeza uma frase como essa é digna da genialidade do melhor dos brasileiros. Simplesmente brilhante! Se atentarmos para o contexto geral onde a frase foi produzida, não nos resta outra reação se não ficarmos estupefatos. A propósito de genocídio ser uma palavra “perigosa”, que não se pode usar com muita freqüência, já nos pronunciamos. À essa constatação segue que a escravidão não gerou o genocídio, mas a multiplicação de negros (que horror!, deve ter pensado o articulista). O problema é que a multiplicação de negros só pode ser entendida no sentido é que mais e mais o tráfico de africanos recrudesceu. Primeiro, no Brasil de Frei Vicente de Salvador e da casa grande e senzalas nordestinas; já no século XVII, a criação das Companhias de Comércio baianas para dar conta da demanda das minas, multiplicando o tráfico de negros; depois com Pombal e novas Companhias, agora inundando o Maranhão de trabalho escravo; vemos posteriormente o Rio de Janeiro dos grandes traficantes autóctones do fim do século XVIII e início do XIX; por fim, quase o paroxismo máximo com a corrida por escravos frente à ameaça da extinção do tráfico. Realmente, devemos concordar com nosso interlocutor, a escravidão multiplicou o número de negros em nosso território. Só que não por eles se casarem, constituírem família, trabalharem e terem uma vida digna. Os negros aqui morriam aos montes e eram rapidamente substituídos por outros, mais novos e mais saudáveis, seguindo a lógica imoral do escravismo. Qualquer cidadão com o mínimo de bom senso conhece ou não tem dificuldade de reconhecer isto. Porém, seus guias, Ali Kamel ou o outro cidadão de origem islâmica, mas fundamentalista, cujo primeiro nome é Aiatoélio, devem ter um bom senso mais acurado do que o mais pedestre senso comum pode reconhecer. Este último, é sempre bom lembrarmos, é o precursor de outra mitologia do mesmo jaez da produzida por Freire, a da “ditabranda”, na sua volumosa obra sobre a ditadura, particularmente no que se refere ao governo do general Geisel.
Da reunião de nosso interlocutor com o baluarte acima mencionado, nasceu a tese do negro “hígido”. Genial! Gilberto Freyre nunca teria a capacidade de cunhar termo tão impactante. É bom que Reinaldo Azevedo deixa claro que só sob a intermediação do “aiatolá” podemos reunir forças suficientes para extrair de Casa Grande & Senzala um posicionamento tão perspicaz sobre o tema. Nenhuma palavra sobre a degradação do negro pelo branco através do instituto da escravidão (quanto a isso, as palavras do articulista sobre a multiplicação da raça negra dizem tudo); sobre a prostituição das índias, do estupro das negras; sobre a proliferação da sífilis por toda a sociedade; sobre os negros obrigados a despir-se de sua indumentária male para vestir-se com tangas e carregar “tigre”, o excremento dos senhores. Não, o negro é simplesmente “hígido”. Que belo! Aqui, sem sombra de dúvida, podemos ver o mito da democracia racial em toda sua pujança.
Miriam Leitão é muito boa defensora, apesar de seu parco saber militante para apoiar sua própria militância, do direito dos negros e, mais importante, dos malefícios de não se terem procurado desde a época de Nabuco acabar com as conseqüências sociais da escravidão. São frases e idéias belíssimas se lidas fora de contexto:
Melhorar a educação pública sempre será fundamental para construir o país futuro, mas isso não conflita com outras políticas desenhadas diretamente para derrubar as barreiras artificiais e dissimuladas que impedem a ascensão de pretos e pardos.
O vestibular não mede a real capacidade do aluno de estar numa universidade, mas, sim, quem aprendeu melhor os truques dos cursinhos. Há muito a fazer pelo muito não feito neste longo tempo em que se esperou que, deixando tudo como está, tudo se resolveria. Ajudaria se intelectuais, ou não, quisessem avaliar as políticas de ação afirmativa, em vez de ter medo delas.
O racismo brasileiro é ardiloso e dissimulado. A luta contra ele será longa e difícil. Será mais eficiente se unir brancos e negros.
Será mais rápida se o país não acreditar nas falsas ameaças de que tocar no assunto nos trará o inferno da divisão por raças. Ora, a divisão já existe; sempre existiu. O que precisa ser construído são os caminhos do reencontro. (Leitão, 2008)
Voltemos mais abaixo ao tema da educação. Mas não podemos, por hora, deixar de contrapor essas belas palavras a outras não menos belas, dessa vez sobre nosso ilustre “bacharelismo”:
É freqüente, entre os brasileiros que se presumem intelectuais, a facilidade com que se alimentam, ao mesmo tempo, de doutrinas dos mais variados matizes e com que sustentam, simultaneamente, as convicções mais díspares. Basta que tais doutrinas e convicções se possam impor à imaginação por uma roupagem vistosa: palavras bonitas ou argumentos sedutores. A contradição que porventura possa existir entre elas parece-lhes tão pouco chocante, que alguns se alarmariam e se revoltariam sinceramente quando não achássemos legítima sua capacidade de aceitá-las com o mesmo entusiasmo. Não há, talvez, nenhum exagero em dizer-se que quase todos os nossos homens de grande talento são um pouco dessa espécie. (Holanda, 1995:155)
Aqui existe uma diferença sutil. Quase todos os nossos grandes talentos têm um pouco esse caráter ou disposição. Vejamos bem, não podemos considerar a economista como integrante desse rol simplesmente ao considerarmos o que acredita como correto para a nação de um modo geral. Sua pregação insistente sobre o livre-mercado, sua militância contra empresas públicas como a Petrobras – e sendo a favor das privatizações – não a credenciam para falar, sob qualquer ângulo, sobre educação ou inclusão social. Essa notória mentalidade “cabeça-de-planilha”, na feliz expressão do jornalista Luis Nassif, perde-se ao analisar gráficos e tabelas, enquanto a especulação financeira graceja e o país tomba irremediavelmente. Na verdade, todo o palavrório algébrico-aritmético serve apenas para legitimar o assalto ao país, especular com a moeda ou vender as grandes empresas nacionais na “bacia das almas” – tudo isso no afã de manter viva artificialmente nossa economia. Viva o Plano Real!
A igualdade de condições proclamada por todos esses súditos da oligarquia financeira internacional não é nada mais do que a igualdade que faz alguns mais iguais do que os outros. Não interessa, aqui, se Miriam Leitão tem certos escrúpulos ou de boa fé defende as políticas chamadas afirmativas. Nunca a educação será boa e inclusiva se nas mãos dos barões dos grandes sistemas de ensino privados; nunca teremos capacidade técnica e extensa formação teórica por parte de nossos cidadãos se continuarmos pagando bilhões e mais bilhões anualmente de serviço da dívida pública; nunca seremos uma nação verdadeiramente integrada se não tivermos maciços investimentos públicos, grandes planos nacionais de desenvolvimento, para fomentar, aí sim, a iniciativa privada. Nunca seremos qualquer nação enquanto não tivermos uma política econômica voltada ao crédito, e não refém do sistema monetarista vigente. Crédito não só para consumir eletrodomésticos ou carros, mas crédito para dar um grande salto na infra-estrutura de nosso país, no desenvolvimento científico e tecnológico – para assim chegarmos à “harmonia dos interesses”, como bem definiu Henry Carey, um dos inspiradores de Bismarck durante o surto de desenvolvimento industrial alemão. Tributário do alemão Friedrich List, Carey andou junto a Lincoln nos grandes projetos de desenvolvimento econômico norte-americanos durante o século XIX. Harmonia de interesses, porque através de um sistema de crédito e de grandes projetos desenvolvimentistas, todos e cada um da nação podem ter a oportunidade de se posicionarem dentro do tecido social de acordo com suas características e capacidades. Um banco nacional, não rendido a interesses rentistas estrangeiros, e uma suficientemente poderosa visão política, visão de futuro, planificadora, intervencionista (por que não?): nada disso, ou próximo, ou similar, encontraremos nas palavras de Reinaldo Azevedo, Ali Kamel, Elio Gaspari, Miriam Leitão, ou o que mais seja. Furtado, Caio Prado, Rui Mauro Marini? Esconjuro! Talvez prefiram, como sempre, o Golpe…
Voltemos ao debate com os porta-vozes do tipo de monetarismo, de capital fictício, rentista-financeiro, que vêm destruindo a economia norte-americana pelo menos desde a década de 1970, e procura espalhar o pânico social e a recessão aos até então considerados países de primeiro mundo. Ali Kamel está por detrás de todo o debate entre nossa micro-elite, a suposta “ilha de letrados” (na expressão de José Murilo de Carvalho) em meio a um mar de analfabetos. Um dos elementos mais destacados das minorias que compõe nosso país, Ali Kamel, também codinome de um ator pornô da década de 80, desenvolve a idéia de uma espécie de “nação parda” para dar conta de sua afirmativa algo pornográfica na qual diz que “não somos racistas”. Vamos ver como expõe seus argumentos de primeira importância para o futuro nacional:
Há toda uma gama de historiadores sérios, dedicados e igualmente bem-intencionados, que estudam a escravidão e se deparam com esta mesma constatação: nossa riqueza é esta, a tolerância. Nada escamoteiam: bem documentados, mostram os horrores da escravidão, mas atestam que, não a cor, mas a condição econômica é que explica a manutenção de um indivíduo na pobreza. Não negam o racismo, porque sabem que onde quer que haja homens haverá todos os vícios que se podem supor. Mas, com números, argumentam que a inexistência da intolerância racial tem raízes na nossa História. A verdade é que a escravidão não assentava sua legitimidade em bases raciais, pois era grande a mobilidade social dos escravos. Tão grande que, na região de Campos, na virada para o século XIX, um terço da classe senhorial era de “pessoas de cor”, segundo censos da época. Isso se repetia em Minas e na Bahia. Ou seja, uma vez alforriados, a cor não era impedimento para que os negros fossem aceitos como iguais entre os brancos: bastava dinheiro. Hoje, se a maior parte dos pobres é de negros, isso não se deve à cor da pele. Não existe isso, no Brasil: “É negro, deixa na pobreza.” Nos últimos cem anos, nosso modelo foi concentrador de renda: quem era pobre boas chances teve de continuar pobre. Há menos de uma década o país tem enfrentado esse desafio. Com uma melhor distribuição de renda, a condição do negro vai melhorar acentuadamente. Porque, aqui, cor não é uma questão. (Kamel, 2003)
À primeira vista, já podemos entrever a afirmativa diligentemente velada: assim que puderem ter alguma oportunidade, os negros também tornar-se-ão senhores e escravocratas. Para melhor velar a afirmativa de que o pobre assim que se faz rico adquire os mesmos vícios dos senhores, não chega ao cúmulo de destacar os traficantes de escravos negros, ou a escravidão nas sociedades africanas, como o fez o lídimo senador Demóstenes. Aqui a cor não é uma questão porque o negro pode se tornar viciado quanto o mais lídimo senhor branco – basta dar-lhe oportunidade. Não se aprofunda na questão sobre como os negros que escravizavam viviam, sua terra natal ou os dilemas que enfrentava em terras outras, pois talvez isto soasse racista ou poderia dar a aparência de uma cruzada contra a raça negra. Simples insinuações já são o suficiente, e assim se monta um argumento.
O problema todo para ele é o dinheiro e só o dinheiro (os números que, segundo ele, provam o improvável). Não espanta que sua prosa seja tão árida, tão difícil de ser lida em alguns momentos apesar da falta de profundidade contumaz: afora o preconceito, acha que, como um legítimo “cabeça-de-planilha” tudo pode resolver por numerologia – e tudo encobrir e ocultar. Tudo bem, senhor Kamel. Se a questão toda se resume numa suposta melhor distribuição de renda, que a sociedade a qual você defende possa fazer jus a esse princípio. Não consta que as políticas econômicas que defende, fora toda a ufanização que se cria ainda hoje sobre o Plano Real, tenha trazido o resultado pretendido em qualquer época ou em qualquer lugar do mundo. Não aponta isso agora a crise que Europa e EUA vivem. Não aponta para isso as políticas neoliberais em qualquer país da América Latina. A Rússia, na década de 1990, desabou sob esse tipo de reforma, transformando-se numa Meca para os banqueiros inescrupulosos e os traficantes internacionais de todos os produtos. Como se entre banqueiros e traficantes houvesse alguma diferença; como se houvesse qualquer diferença entre a política que prega o diretor de jornalismo da rede Globo e a moeda ancorada nos juros mais altos da história mundial, que acabou com a inflação reduzindo o poder de compra do trabalhador, criando um monstruoso desemprego e elevando a dívida externa e pública nacionais a patamares nunca antes vistos. Haja igualdade!
O que dá dinheiro para Ali Kamel, e para Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo e tantos outros, é essa utopia de igualdade que acirra ainda mais as desigualdades sociais. É o mesmo argumento neutralizador dos cientistas do fim do oitocentos e inícios do novecentos. É a eugenia que procurava abarcar todas as raças, colocando todas num determinado patamar de igualdade através de argumentos pseudocientíficos, caso não fosse certas características pontuais. O negro não poderia se destacar em qualquer área por não ter o cérebro suficientemente desenvolvido ou por simplesmente pertencer a uma raça inferior, de baixo grau de desenvolvimento civilizacional. Havia exceções não explicáveis e que admiravam ou intrigavam os cientistas. Agora as exceções continuam a existir e só não se transformam em regra por um simples detalhe: não mais o cérebro não evoluído, mas a conta bancária minguada, a incapacidade talvez congênita de não ganhar dinheiro. Sua utopia de distribuição de renda não se afirma, pois no sistema que defende os negros irão continuar congenitamente incapazes e, caso transformados em senhores, com certeza tão corruptos quanto todos esses irão continuar a ser. É o discurso não mais simplesmente eugênico, mas “globalizante”, integrador, politicamente correto, igualmente pseudocientífico, mas que sabe que nunca todos aqueles que são considerados inferiores irão poder ombrear com os da Casa Grande, e caso os igualarem nunca os irão superar. Padeceram dos mesmos vícios. Não possui a mesma franqueza dos cientistas proto-nazistas, mas com sua retórica defende o desmantelamento de toda a estrutura social em prol de uma minoria de iluminados, geralmente de cunho estrangeiro e alourado. Fica, por fim um último dizer de um dos nossos maiores representantes do mito da democracia racial, e toda sua fala doce e açucarada, como a dos senhores nos velhos engenhos:
Não, Leílson[negro bem sucedido profissionalmente] ganhou todas as vagas que disputou porque nós, brasileiros, conseguimos construir um país que, apesar de muitos defeitos, tem uma grande qualidade: a inexistência de ódio racial. Isso não é sorte. É o fruto da construção de gerações que experimentaram sempre a tolerância. Perder isso, agora, não será azar. Será o resultado de boas intenções que não conseguem ver a riqueza que temos. (Kamel, 2003)
Algum eco de Gilberto Freyre? Onde?
Referências bibliográficas
Livros
BOMFIM, Manoel. O Brasil na América: caracterização da formação brasileira. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. São Paulo: Global Editora, 2006.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
ROMERO, José Luis. El pensamiento político de la derecha latinoamericana. Buenos Aires: Paidós, 1970.
Artigos
AZEVEDO, Reinaldo. Assim não, Miriam Leitão! http://veja.abril.com.br/, 08/03/2010.
KAMEL, Ali. O racismo e os números. Jornal O Globo, 12/12/2003.
LEITÃO, Miriam. 25/05/2008 Ora, direis. Jornal O Globo, 25/05/2008.
WERTZ, William. Obama Saudi-connection: the Obama – Al-Qaeda alliance. http://larouchepac.com/, 04/05/2013.

Para desfazer qualquer engano: esse blog nunca foi Fresco

“Será preciso dizer que o retorno a Nietzsche implica um certo estetismo, uma certa renúncia à política, um “individualismo” tão despolitizado quanto despersonalizado? Talvez não. A política também é questão de interpretação. O intempestivo, do qual falamos há pouco, jamais se reduz ao elemento político-histórico. Porém ocorre às vezes, em momentos grandiosos, que eles coincidam. Quando pessoas morrem de fome na Índia, esse desastre é histórico-político. Mas quando um povo luta por sua libertação, há sempre coincidência entre atos poéticos e acontecimentos históricos ou ações políticas, a encarnação gloriosa de algo sublime ou intempestivo. As grandes coincidências são, por exemplo, a gargalhada de Nasser nacionalizando o canal de Suez, ou sobretudo os gestos inspirados de Castro, e essa outra gargalhada, a de Giap entrevistado pela televisão. Ali, há algo que lembra as injunções de Rimbaud e de Nietzsche e vem duplicar Marx – uma alegria artista que coincide com a luta histórica”.

 Deleuze, A gargalhada de Nietzsche.

Para desfazer qualquer engano: não é porque falamos aqui de Hamlet e o conceito de parresía, Nova Rota da Seda e falência do modelo euro, Nietzsche, Foucault e a biopolítica, etc., que queremos uma “nova esquerda”, espécie de terceira via daquele que disse que se deve acabar com os princípios que embasaram a Paz de Wesfália, da soberania dos Estados nacionais, no caso, Tony Blair. Somos da “ixquerda”, como se fala em boa carioquês, mas não só na pronúncia, mas também no estilo; estilo cafajeste, que também é dos bons nordestinos, não dos elitistas de lá, e que sabem, com todo respeito, que “dinheiro não é tudo, mas é 100%”. Em que sentido, contudo? Para começar nossa retórica…

Quero não falar do “dinheiro em si”, famosa categoria transespecífica, protometafísica, algo muito valorizado quando se fala – e com que paixão – de “esquerda caviar”. São lindas todas essas denominações! Gostei mais de não sei em qual lugar que ouvi o termo “esquerda udenista”, moralista, e também no voto brizolista em Crivella. Isso é lindo! Não a vitória do pastor, mas os tortuosos caminhos eleitorais. Em 2012, para os de memória curta, junto à aliança do PT com o PSB de Eduardo Campos, foi considerada a maior vitória eleitoral das esquerdas de toda história. Daí teve a bruxa malvada, a Marina, que deu o remedinho pro Eduardo, abduziu o cara, e toda a série de ataques cujo cúmulo é, sem dúvida, o moralista-mor Sérgio Moro. Quero só dizer como as coisas mudam. Como disse o Fernando Brito, o brizolista-mor, há pouco tempo elegia-se FHC numa cegueira louca com o incontestável Plano Real, que não trouxe um grão de feijão a mais na mesa do pobre nem fez uma obra sequer de cimento. As que se fazem com barro humano, contudo, foram múltiplas e advindas das mais profundas entranhas. O cheiro foi tão forte que até hoje ficam por aí desnorteados e acham que a fezes não fedeu e que o Plano foi um “passo necessário” (como o capitalismo para o socialismo?) para o sucesso do governo Lula. Muito fumo para cobrir a muita merda. E continuamos com os mesmos paradigmas do superávit, da âncora cambial, das metas inflacionárias, etc. 
Mas, isso tudo foi como que esquecido e veio o fenômeno tectônico que derrubou o Farol de Alexandria (como diz PHA), aquele que iluminava a Antiguidade e foi destruído por um terremoto chamado Lula. Certas realidades ficaram em suspensão, meio que flutuando nessa nuvem de fumo. O governo do PT por prática deliberada, consciente, não atacou os “grandes paradigmas”. Com coisas mínimas, foi fazendo suas revoluções, tirando o país do mapa da fome da ONU, tirando não sei quantos da misérias, outros tantos indo pra classe-média, para o ensino técnico e as universidades, e tudo o mais e a nuvem de fumo novamente porque o pobre foi culpado, pobre que virou evangélico, logo livre-mercadista, se embruteceu com a ascensão e todas as demais especulações metafísicas que nos remetem à Roberto Piva que falava sem nenhum udenismo:
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
seu eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
             sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
            fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?
Agora o pobre é de direita e todos os mais bodes expiatórios que se tem de arrumar para nos desculpar de nossa profunda indigência moral como nação. Cú-de-ferros, senhoras piedosas e amantes de Roberto Carlos, comerciantes preocupados com os rumos do Brasil e, ah!, perguntam… O que mesmo, Piva? Os comunistas vão lhe responder… Os freiscos por aí, os puros, a “esquerda udenista”, como se disse, e que não gostam de dinheiro, frise-se bem, mas de ideias. Não gostam de poder, nem de alianças programáticas. Nunca farão, portanto, um PAC, um Luz pra todos, um Programa de Compra de Alimentos, um Bolsa Família e nada nada nada mais. E no fim, como não gostam de dinheiro nem de nada sujo nunca poderão falar como o Lula que, com tudo o mais que aconteceu e ocorre, não há homem mais honesto do que ele no Brasil. E como não seria? Foi presidente, o Brasil movimentou recursos nunca antes visto e teve protagonismo internacional jamais sequer sonhado. E o que acham dele? Ah!, não me venha com essa! Até o estádio do Corinthians! É um safado mesmo.
A única resposta que esse humilíssimo blog pode dar ao Freixo e seus eleitores é o primeiro verso do gigantesco poeta Falcão do ceará – só o primeiro já é mais do que suficiente – e é o que diz o que Freixo nunca será:
Nessa, há uma definição quase kantiana da beleza; uma descrição do sublime e que só podemos entender, infelizmente para os psolistas, em termos de Lula e Brizola: aqueles que sempre fedem:
“É porque eu sou feio que sou lindo, imagina se eu não fosse”. Essa é a impossibilidade freixista, nunca serão lindos dessa maneira e preferirão morrer cheirosos do que escaparem fedendo. Só uma objeção sobre o óbvio: feder não significa fazer merda. A merda do plano real, com seu cheiro nauseabundo, até pelo efeito de estupor que a carga tóxica acarreta, tem o efeito contrário, ou seja, é o bonito, o sublime kantiano. Tem cheiros e cheiros e suas metamorfoses e quem faz a merda devemos saber, principalmente no olor de santidade que sem dúvida sairá do caixão do professor (eita categoria sofrida: com quais representantes, me digam!).
Uma outra consideração a respeito de um vídeo de um tal de “Mamãe”, contratado do MBL, que provocou eleitores freixistas no Rio de Janeiro, querendo mostrar seu desconhecimento das medidas do candidato, ou seja, querendo provar, de acordo com preconceitos básicos, que tudo o que recende a socialismo não se sustenta frente à triunfante ideologia liberal. Porcariada pura e que pegou de surpresa os eleitores desatentos e desinformados, até pela forma ostensiva com que ele aborda as pessoas, inclusive numa escola. Um amigo me falou que era falta de estudo dos entrevistados. Respondi que não podia ser. Não se precisa ser “doutor” para responder a meia dúzia de baboseiras. É falta de imaginação mesmo e até estupor por parte daqueles que foram abordados na rua. 

Respondendo ao meu amigo que ficou perplexo por não ter sido publicada a resposta dele no vídeo do youtube, onde com toda a educação que esse amigo tem ao pedir um legítimo direito de resposta frente àquelas arbitrariedades, foi olimpicamente ignorado pelo Mamãe do MBL. Respondi na hora um pouco assustado. A quantidade de besteiras é muito grande. Tive que evocar a gloriosa Janaína Paschoal para embasar minhas impressões: “Vi o negócio do Mamãe e me liguei menos no negócio do assédio do que no da palhaçada. Mas a tática dele é de intimidação mesmo. Tu viu a Janaína Paschoal falando de invasão russa pela Venezuela? Porra!, é só loucura. Nunca vi tanto maluco junto, tanta merda sendo falada”. Mas a questão não era essa somente e meu amigo, com toda aquela educação, me falou da necessidade por parte da juventude de ler “livros tipo códice”. Putz!, pensei. O que é isso? São as Críticas kantianas? Max Weber? Que porcariada mais? Aí peguei o fio da questão:

“Mais do que de erudição é falta de imaginação. Outro dia ouvi uma coisa muito legal sobre esse negócio de terem desenterrado o mito da primeira dama (outra idiotice que só pode aparecer nessas épocas – e isso nos meios “ilustrados”, nos colunistas da Folha, etc.). Falaram que finalmente não chamam mais a primeira-dama de “dona”. Mas é claro, a pessoa respondeu. A mulher do Tancredo era dona porque era uma senhora; a do Collor não era porque era nova. A do Temer não é “dona” pelo mesmo motivo, e idem, por motivos contrários, para a mulher do Lula. Aí a pessoa falou, e isso que achei genial, é que a história da Marcela Temer, fadada a ser no máximo uma miss de interior, é narrada pela música do Zé Ramalho, “Mistérios da meia-noite”. E porra, o cara fez a música pensando nela. Só pode”.

Quem quiser relembrar, segue a música. É impressionante a capacidade profética do Zé nesse caso:

O pior é a análise do PSOL no pós-eleição. Num dia Freixo culpou parte da derrota dele aos “erros do PT”, sendo que um pouco antes o presidente do PSOL falou que o partido estava ocupando os espaços do PT. Aonde? No imaginário dos ufanistas, dos verde-amarelistas do século XXI. “Esquerda udenista”, acho a melhor definição que ouvi. Udenista porque moralista. Esses cheirosos são foda, sem imaginação nenhuma e sem nenhum senso de humor. Muito aquém da Gargalhada Nietzsche, como interpretada pelo Deleuze. Isso é muito mais foda, inclusive a analogia com os “mistérios da meia-noite” (achado genial), do que qualquer “obra em formato códice”. Que também é uma definição bem engraçada, hilária. Guattari e Deleuze estavam certos no Anti-Édipo: o riso que importa não é o de superioridade, característico da ironia. O que importa é a gargalhada, é mexer com o baixo-ventre, o riso gargantuesco, pantagruélico, deformador da face e de destruidor de todos os fascismos, que, no fundo, nada mais é do que uma filosofia do bom-comportamento e para os bem comportados (do bom senso e do senso comum, para falar em termos deleuzianos). Com o resto a gente não se mistura e se puder mata.

O riso que forma as obras de arte, o Intempestivo, o momento em que a Arte encontra a Política: a gargalhada de Castro e não a superioridade algo irônica dos doutores que analisam as “revoluções”, os “fenômenos sociais”. O Intempestivo é momento de festa. Sem qualquer capacidade de mobilização popular, sendo um partido elitista num dos piores sentidos, seus eleitores e partidários nunca irão compreender o sentido do humor – e o da vitória.

A ESQUERDA UDENISTA NÃO REPRESENTA ESSE BLOG, MUITO MENOS SEU ESCRITOR, APESAR DESSE AMAR ENLOUQUECIDAMENTE MUITOS AMIGOS QUE, POR PURITANISMO E/OU FALTA DE IMAGINAÇÃO, VOTAM NO CANDIDATO DA UTOPIA, NAQUELES QUE OPTAM PELA UTOPIA E NEGAM A PRÁTICA DA MUDANÇA.
Réquiem para o psol – finis – que nada mais foi do que os ecos dos escandalizados pelo suposto mensalão – ainda por se provar.