Quem tem medo da China?

O “perigo vermelho” ainda está no ar

Depois de duas publicações “sobre a guerra que se aproxima” (clique aqui para acessar a parte 1 e aqui para a parte 2), é normal perguntarem para esse escritor aqui (“blogueiro” é o c…) sobre conspiranóias e algumas taras similares. A aporia imediata é: “tudo bem, os EUA são um poder imperial, etc…. mas a China não é esse santinho que pintam”. Pergunta retórica, como é evidente. Quem coloca em risco a segurança planetária atualmente? São os “comunistas”? Discípulos de Brzezinski e Fukuyama, de esquerda ou de direita (dane-se sua filiação ideológica), vocês me fazem ter que responder a questionamentos muito elementares. Por favor ideólogos, “cidadãos críticos”, neokantianos, leitores da Folha e cidadãos que prezam o bom senso e o senso comum, compreendam minha paciência apesar do “extremo nojo, fastio, pelo homem”, para falar na linguagem de Zaratustra. Quem tem medo da China, afinal? Preferem Obama, Hilary, Bush, FHC, “ilustrados” ou estrangeiros de todas as modas e matizes… Nada pior do que a verdade quando nos situamos no ponto de vista extra-moral.

Como adiantamos quando falamos sobre as “fake news” ou sobre o racismo nativo a respeito da figura de Cabral, o suposto patriarca nacional, não haverá vida fácil nos próximos meses, com Trump ou sem ele. O fato é que Hilary se comprometeu a adotar a política de zona de exclusão aérea na Síria, o que inevitavelmente levaria a um confronto com os russos. A “no-fly zone” não apenas permitiria que só aviões autorizados (da OTAN) usassem o espaço aéreo sírio, como teria que destruir toda a força aérea estacionada em terra, ou seja, na maioria aviões russos. Já imaginou, seu coxinha super-prudente, a super cagada que isso daria? Isso é a causa de Trump ser uma brisa, não sabemos até que ponto, passageira. Sem os neocons, ou parte deles, a Terra dá alguns suspiros aliviados.
O 99% provável Secretário do Tesouro estadunidense é o honorável Steven Mnuchin, especulador financeiro que trabalha para George Soros, aquele que disse que Trump irá sofrer um “efeito-Dilma“, mas não sobreviverá tanto quanto a “petralha”. Mulher, vocês sabem como é, sobrevivem mais do que os homens… Pelo menos de acordo com nosso Temerário e ilegítimo presidento, já que elas recebem salários iguais ou melhores do que o dos homens e a gestação é uma “brisa” – como uma dose de Rivotril, uma temporada em Maromba – elas  devem trabalhar tanto quanto nosso legítimo presidente – o operário, é o que estou falando (que continua na labuta e até um ap. alugado é digno de escândalo à altura dos Panamá Papers. Quem diria se ele morasse em Parati!).
(não é só Soros que quer o selvagem fora da presidência. Veja o editorial do Washington Post)
São muitas as dúvidas que o homem da muralha nos coloca. De fato, Tite, quando escalou o goleiro do Maior do Mundo, levantou inúmeras suspeitas. Tratava-se de um time de altíssima qualidade, com promessas e craques experientes que poderiam sobrar na seleção da CBF. Mas ele resolveu escalar o até então recém-reserva do Mengão, até porque se usam três goleiros, e os dois que sobram nunca são lembrados, pouco importa a ordem. Já que o time estava indo tão bem, vamos chamar alguém. Tite antecipou as tendências nórdicas, como é próprio dos bons chefes nativos, e escalou Muralha – para terceiro goleiro. Complexo tupiniquim, já que lá Muralha parece estar na lista primeira de qualquer ação de Donald Trump. O chefe do esquete da incomparável seleção, talvez não esteja a altura visionária obtida daquele homem em que se pendura – via saco – do país nórdico… Uma pena para nós.
Bom, então vamos agora para as notícias boas. A foto vai com a legenda em inglês, já que os coxinhas gostam de ser Liberais…
Chinese missiles with long-range nuclear capability have reportedly been deployed within striking range of the US Getty.
O que isso significa? Primeiro, eles foram para a fronteira Russa. Nenhum problema, já que a aliança militar russo-chinesa vem desde o ano passado pelo menos. Contra a OTAN, sempre. Eles estão lá por causa de uma suposta agressão do presidente Trump. É uma estratégia que agora mescla o perigo russo com o perigo chinês-comunista. Trump quer “dar o balão” nos chineses, e usa igual Obama, suas armas ameaçadoras. Mas vamos lembrar que a ameaça de guerra nunca foi tão recente, principalmente depois que o Nobel da Paz veio ao poder:
But also in the attempt to pin down the narrative, it was John Kerry who, a week or so ago, gave a speech saying that it was the British Parliament which prevented a U.S. military intervention in Syria. Now—I mean, all of these people must think that the whole world has a very short memory, because I remember very vividly that it was Gen. Michael Flynn, in his capacity as head of the DIA [Defense Intelligence Agency], who had put out a public statement that it was the intention of the Obama administration to build up a caliphate in the region, in order to have regime-change against Assad, and he was then fired by [DNI] Clapper. And it is of a certain irony that, just last Friday, when Trump met with Clapper, Brennan and Comey in Trump Tower, where these three gentlemen wanted to impress Trump with their story about the Russian hacking,—the other person who was with Trump was General Flynn, who is now in the driver’s seat as the incoming National Security Advisor. In any case, you can expect the truth not be suppressed forever. And as a matter of fact, it was in the moment shortly before the U.S. military intervention in 2013, when the U.S. military action was prepared to occur Sunday evening; we had gotten that from well-informed circles in Washington,—and then at the very last minute, the chairman of the Joint Chiefs of Staff, Gen. Martin Dempsey, went to Obama and said: “You should not start a war where you don’t know how it ends. And if you don’t ask the Congress, you will be impeached, or you run the risk of being impeached.” And only because of that, did Obama go to ask the U.S. Congress. The U.S. Congress voted no, and the U.S. military intervention was prevented. 

 

Quantos passos o governo Trump andou com suas nomeações? Fora o general Martin Dempsey, um dos maiores críticos do Obamacare com os países estrangeiros, e que é apenas um conselheiro, é difícil situar a diferença com o governo anterior. Não estamos falando de Steven Mnuchin, o herói, que por si só antecipa as tendências trumpianas, mas do ex-dirigente da Exxon, o secretário de Estado Rex Tillerson:

They believe they deserve a rightful role in the global world order because they are a nuclear power. And they are searching as to how to establish that. And for most of the past 20-plus years since the demise of the Soviet Union they were not in a position to assert that. They have spent all of these years developing the capability to do that. I think that now what we are witnessing is an assertion on their part in order to force a conversation about what is Russia’s role in the global world order. So the steps being taken are simply to make the point that Russia is here, Russia matters, and we are a force to be dealt with. That is a fairly predictable course of action they are taking.


Será que tanta cautela é diferente dessa assertiva do nobelíssimo da Paz:

The Russians can’t change us or significantly weaken us. They are a smaller country. They are a weaker country. Their economy doesn’t produce anything that anybody wants to buy, except oil and gas and arms. They don’t innovate. But they can impact us if we lose track of who we are. They can impact us if we abandon our values.

Não vou falar novamente da Doutrina Utópica da Otan, do MAD (Mutual Assurance Destruction), do sistema de mísseis TAAD, já amplamente explicados nas outras publicações “sobre a guerra” e que coloquei os links lá em cima, bem na introdução. É possível um mundo não nuclear? Que os utópicos respondam, ainda mais depois da descoberta da tocha de fusão – nem tão recente assim. O fogo de Prometeu não é para tiranos, como Zeus, ou para nobéis, como Friedman ou Hayke. São aporias que devemos ultrapassar. Quem serão os líderes?
Como estou dizendo, isso não é coisa de um simples petralha: http://www.reuters.com/article/us-norway-usa-military-idUSKBN1501CD
Que olhem as fontes e que não questionem por merrecas, igual a um leitor desse magnânimo blog que quis, como historiador, questionar as fontes, e apresentou como fonte de questionamento apenas um artigo traduzido, do Jornal GGN, e ignorou as dezenas de links que fornecemos em cada publicação. Mais um com medo da China, mais um achando que “não é isso tudo”. Então tudo bem, seu petralha pouco esclarecido. É por isso que fala mal da JK de saias, da moça do isenção fiscal para as empresas… Quem dera seu nível de debate chegasse para debater esse mínimo. Vá encontrar com o pessoal do MBL, o dos 20 centavos e toda a “petralhada” que você se identifica! Uma estrela brilha! Não será o Temeroso que vai apagá-la! Com ou sem o maior presidente na raia, o ilustríssimo Luís Inácio, que sabe mais do bem estar das pessoas mais pobres do que você, seu coxinha vestido de vermelho, seu petralha enrustido. A classe-média é uma merda. Por isso precisamos da verdade no sentido extra-moral. De verdades, a merda dos atlantes e as classes mérdias já encheram esse mundo.
Quem duvida de mim sobre o perigo e guerra que ouça as falas do Ministro das Relações Exteriores da Alemanha ou as do líder da oposição britânica. E nada mais.
Na sequência, a antecipação, no transcrito, do documentário sobre a Nova Rota da Seda (chinesa, claro), que brevemente postarei nesse blog. De onde vem o perigo para a segurança planetária? São dos asiáticos, seu estúpido? Vá chupar caju!
UM TOUR PELA PONTE-TERRESTRE MUNDIAL
Por Helga Zepp-LaRouche

Você já ouviu falar da antiga Rota da Seda que conectava a China a Europa através de uma longa rota de viagem. Foi pelo comércio da seda, da porcelana e de livros impressos, porém mais importante que os bens foram as trocas em tecnologia. A antiga Roda da Seda trouxe enormes benefícios econômicos para todos os países participantes, mas foi também uma troca de ideias e de belezas culturais. Hoje a China está oferecendo uma nova Rota da Seda e uma roda da seda marítima, em já estão cooperando mais de 60 países. A China realizou um milagre econômico nos últimos 30 anos, em que parte de seu desenvolvimento demorou nos países desenvolvidos de 150 a 200 anos para serem realizados. Agora a China está oferecendo esse mesmo modelo para todos os países que queiram cooperar com essa perspectiva. A Nova Rota da Seda é baseada na perspectiva “ganha-ganha”, isto é, cada país que participar terá benefícios culturais, políticos e econômicos iguais. Essa é a verdadeira ideia para a superação da geopolítica, o mal que causou duas Guerras Mundiais no século XX. Ela oferece a perpectiva de um verdadeiro desenvolvimento global em parceria para que toda a humanidade trabalhe junto pelos anseios comuns da humanidade.

Produzimos agora um estudo de 370 páginas chamado “A Nova Rota da Seda se Torna a Ponte-Terrestre Mundial”. VocÊs devem ler isso. Está disponível em inglês, chinês e árabe e, brevemente, sairá na Alemanha e na Coréia, e em muitas outras línguas. Veja esse vídeo e você terá noção de como é fácil mudar o mundo para melhor.

Quando Helga Zepp-LaRouche viajou para a China em 1996 com a proposta do que ela e seu marido Lyndon LaRouche chamaram de a Ponte-Terrestre Euroasiática, ela chegou com um prognóstico de que, se as nações da Europa e da Eurásia falharem economicamente na integração das regiões marginais do continente, forças políticas e econômicas poderosas – com o intuito de preservar sua hegemonia no planeta do pós-Segunda Guerra – iriam se aproveitar da fraqueza dessas regiões subdesenvolvidas para desestabilizar o poder dos continentes maiores, em particular, Rússia e China. Vinte anos atrás, num mundo onde crises econômicas sistemáticas e guerras por procuração (proxy war) se tornaram o novo normal, não é uma hipérbole dizer que estamos – como um planeta – no final do paradigma da Segunda Guerra Mundial. Agora, um grande número de líderes mundiais estão propondo uma mudança de curso e, ao fazer isso, estão fundamentalmente desafiando os axiomas subjacentes que tem modelado a política econômica global no último século.

Realmente é desejo de uma nação ter a hegemonia global no planeta?

Se a política de segurança de uma nação ou um grupo delas criar um planeta menos seguro para todos, isso é realmente eficaz?

Quais interesses econômicos são esses que mantém populações inteiras e seus continentes mal-nutridos e subdesenvolvidos?

A proposta do presidente chinês Xi Jinping para a cooperação ganha-ganha com a iniciativa do Um Cinturão, Um Rota é uma oferta pra a mudança desse paradigma, fazendo uma oferta a todas as nações – amigas ou não – para reconhecerem que está nos interesses vitais de cada uma das nações de se desenvolverem economicamente, culturalmente, espiritualmente.

E enquanto a maior parte da população sinalizou estar pronta para se empenhar no paradigma ganha-ganha, os chineses não tem qualquer ilusão sobre as implicações por chamarem por uma nova ordem econômica global.

Nesses três anos desde que Xi Jinping primeiro anunciou a estratégia do Cinturão e a Rota da Ponte-Terrestre Euroasiática na universidade de Nazarbayev, a China tem feitoprogressos significativos trazendo à tiracolo nações europeias. Contudo, enquanto a reconstrução dessa vibrantes rotas comerciais por terra e mar irá dramaticamente incrementar a economia global, a iniciativa ainda não é global. Continuam a existir significativos obstáculos geopolíticos. Para um verdadeiro paradigma global ganha-ganha, toda a região transatlântica deve reconhecer seus interesses inerentes nessa nova ordem econômica. O quanto vai demorar para que essas nações vejam parceiros onde agora só vêem inimigos? Quem no Ocidente compartilha a visão dos anseios comuns da humanidade? Essas e mais respostas podem ser encontradas na edição especial da EIR, “A Nova Rota da Seda se Torna a Ponte-Terrestre Mundial”.

Vamos fazer um tour pela Ponte-Terrestre Mundial e ver o que parece um verdadeiro paradigma global ganha-ganha.

Os 65 países ao longo do OBOR contam 63% da população mundial (4,4 bilhões de pessoas), mas seus ganhos são de somente 29% do total dos rendimentos mundiais. Igualmente, o PIB chinês ultrapassou a metade do total do PIB dos países da OBOR, o que significa que com a coordenação adequada a máquina da economia chinesa irá destravar o potencial latente e subutilizado ao longo da rota OBOR.

A integração Euroafricana

O continente europeu geralmente é associado a um alto pradrão de vida – uma vasta rede de transportes por rodovias, hidrovias e ferrovias, eletricidade abundante e uma história rica – uma parte crucial sendo o que uma vez foi o maior ponto de trocas através da Rota da Seda.

Mas a que custos a Europa conseguiu alcançar e manter esse padrão de vida – e por quais custos o defenderá? A hegemonia econômica da Europa e de seus aliados enfraqueceu a a segurança dos outros e, fazendo isso, comprometeu a si própria? Hoje, a migração de cerca de um milhão de refugiados do Oriente Médio e do norte da África para a Europa demonstra, inquestionavelmente, que a resposta é afirmativa.

E enquanto a condição desses refugiados que chegam rapidamente está se deteriorando, assim também as condições na Europa. Desde o final da Guerra Fria, a lealdade europeia à City de Londres e a Wall Street tem sabotado sua própria habilidade de sustentar seu padrão de vida. Hoje a Europa sofre com o crescente desemprego entre os jovens e uma dívida crônica e a crise de austeridade, tudo isso fazendo crescer as organizações políticas extremistas e destruindo a fachada da unificação europeia.

Como a China vem demonstrando com sua iniciativa OBOR, o maior investimento que podem fazer para sua própria segurança e prosperidade, está assegurando a estabilidade e o avanço de seus vizinhos. Esse também é ocaso da Europa. O maior investimento para a Europa será coordenar o desenvolvimento da África e do Oriente Médio com o continente europeu.

É uma as duas características da integração euro-africana com a Ponte-terrestre Mundial, um plano extensivo para dinamizar a Grécia e os países bálticos com uma rede de transportes, energia e hidrovias, utilizando sua localização geoestratégica no leste mediterrânico para se tornar uma ponte de acesso entre a Eurásia em direção ao norte e a África, e com o sudoeste asiático ao sul.

Segundo, complentando o elo perdido entre os dois continentes e o Estreito de Gilbratar com um túnel de 25 milhas conectando a Espanha ao Marrocos. Aqui, a Espanha, já um líder em trens de alta velocidade, não estará mais na “periferia” europeia, mas se tornará um eixo para uma multidão de culturas e trocas econômicas.

A Integração africana

Nesse novo paradigma, a África requer aliados, não ONGs. Eles precisam de acesso a eletricidade abundante e barata, não “tecnologia apropriada”. Nesse novo paradigma, deve ser vista como o continente rico e subutilizado que é, não como um fardo ou um lugar para se mandar ajuda, coo muitos comodamente pensam hoje.

O vasto potencial do continente pode ser destravado com alguns poucos projetos-chave. Primeiro, o Projeto Transaqua. O projeto irá desviar 5% ou 100,000 metros cúbicos de água potável por ano do rio Congo ao lago Chad. Reabastecer o lago dará à África central força hidráulica, irrigação para a agricultura, transporte aquaviário, e irá aliviar a condição de terra interditada da região.

Um segundo projeto, cocenbido cerca de 100 anos atrás, é uma linha de trem voltada ao percurso Dakar, Senegal, na costa atlântica através do continente, até o porto de Sudão, no Mar Vermelho. A linha principal passa através do Senegal, Mali, Niger, Chad e Sudão, conectando os oceanos Pacífico e ìndico, num total de 14 mil quilômetros de rede ferroviária.

E um terceiro projeto, criado pelo engenheiro egípcio Aiman Rsheed, é o Corredor Africano – caracterizando dois corredores de desenvolvimento que integram o potencial hídrico e de transporte ao continente. O Corredor Africano conecta a produção agrícola das nações banhadas pelos Grandes Lagos à modernas rodovias e trens de alta velocidade, levando a um grande porto moderno na fronteira entre Egito e Síria, em Sidi Barrani, criando uma saída para as exportações dos produtos agrícolas que agora são desperdiçados pela falta de acesso aos mercados e aos depósitos. Depois, a Somália e a Eiópia serão conectadas a essa rota e, finalmente, esse corredor continental pode ser conectado à Ásia. O Corredor Africano também traça um canal de irrigação que se extende dos planaltos no leste do Congo, dirigindo-se rumo ao norte através da República da África Central, Sudão do Sul e do Norte, e até o Egito para preencher a Depressão de Qattara no oeste do Cairo.

O sucesso e os avanços do Egito não só são fundamentais para a África, mas também para o Oriente Médio. Essas duas regiões do mundo são as que mais tem sofrido sob o presente paradigma, e são as que tem mais a ganhar com um novo.

O desenvolvimento do Oriente Médio

“Todas as vantagens dessa região tem se tornado desvantagens porque tem se tornado o centro de um conflito global e guerras por procuração”.

Hussein Askary, um colaborador muito antifo de Lyndon e Helga LaRouche, traduziu a edição ao árabe e viajou ao Egito para o seu lançamento em março de 2016.

“Essa é uma área única, nenhum lugar na Terra tem as características únicas dessa região. Ela está entre três continentes, tem mais de dois terços das reservas de óleo e gás do mundo, porém mais importante ainda, ela tem mais de 450 milhões de pessoas e a maioria delas estão abaixo dos 30 ano9s. Logo, eles tem todo o futuro diante deles”.

Uma das linhas principais da Nova Rota da Seda passa através da Ásia Central e do Irã, através da Turquia até a Europa. Suas ramificações já estão sendo pensadas, incluindo planos iranianos para estender a oeste uma ferrovia até Bagdá, depois pelos rios Tigres e Eufrates até a Síria. A linha de trem pelo Eufrates pode ser conectada à Rota da Seda Marítima através do Golfo Pérsico e do porto de Basra no sul do Iraque, e a noroeste através de Deir Ezzour, Raqqa e a antiga cidade comercial de Alepo.

Essa rota, construída em cooperação com o Iraque, será um grande passo rumo a integração regional e um corredor de desenvolvimento entre o Golfo Pérsico, o Mar Arábico e o oceano Índico, com o leste mediterrânico e o sul europeu.

Uma ligação ferroviária ao Teerã também dará acesso a Síria para a região do Mar Cáspito. atravessando o novo projeto do Porto de Chabahar, um corredor econômico iraniano, russo e indiano, da Índia pelo mar até o porto de Chabahar, no Irã, rumo ao norte por trem até a Ásia Central e a Rússia.

A estabilização dessa região do planeta estabilizará o planeta como um todo. Daí em diante, a integração em potencial com o mundo por terra e por mar será imensa.

A integração do Sudeste Asiático


Colocando a cooperação ganha-ganha em teste, a China está propondo um desenvolvimento real, não simplesmente ajuda, para seus vizinhos ao sul no sudeste asiático. A China ofereceu estender ao sul sua impressionante rede de trens de alta velocidade, integrando a grande população do sudeste asiático no corredor OBOR. A construção do longamente planejado corredor ferroviário de Kunming até Singapura está em pleno andamente graças ao financiamento e a contribuição das construtoras chinesas. A linha central irá atravessar o Laos e a Tailândia antes de chegar ao sul, na capital da Malásia, Kuala Lumpur. A linha oeste irá atravessar o Vietnã e o Cambodja antes de se ligar com a linha central em Bangkok. A linha oeste irá atravessar ainda mais o sudoeste chinês e boa parte de Miamar antes de terminar em Bangkok.

Mais trabalhoso do que manter as pobres rotas terrestres do sudeste asiático são seus corredores marítimos. Aproximadamente um quarto dos bens comerciais do mundo viajam através apertado Estreito de Malaca, o principal canal naval entre os oceanos Pacífico e Índico. Mesmo com projeções de crescimento de curto prazo para a região mostrando a total saturação e níveis inseguros de congestionamentos, rotas alternativas estão sendo consideradas como parte da iniciativa OBOR da Rota da Seda Marítima. Uma dessas rotas, defendida há anos por Lyndon e Helga LaRouche, assim como por décadas pelos governos regionais, e apresentado na edição da EIR sobre o Canal Kra.

A construção e operação do canal não só irá prover uma última e dramática melhoria na economia tailandesa, por causa de sua posição estratégica, como esse simples caminho hidroviário irá turbinar a eficácia do comércio mundo afora.

A Nova Rota da Seda dá boas-vindas às Américas


Como parte da economia transatlântica, os Estados Unidos tmabém são associdados a um alto padrão de vida. Contudo, o paradigmada pós-Segunda Guerra, dominado por Wall Street, extendeu suas garras à economia americana – e ao seu povo. Destruindo seu setor agro-industrial pelas indústrias de finanças e serviços, com a promessa de que isso tornaria a economia “mais competitiva”, trabalhadores com alta capacitação e salários foram terceirizados para mercados extrangeiros, mais baratos, que não remuneram dignamente seus funcionários. Essa versão falsificada da globalização diminui como um todo a produtividade das Américas, aumento as taxas de pobreza através do hemisfério e convidou fluxos bilhões de dólares em dinheiro ilegal do comércio mundial de drogas, que até agora representam uma porção significante do dinheiro em espécie do setor bancário ocidental.

Ainda assim, mesmo depois da crise de 2007-08, quando a bancarrota do sistema financeiro transatlântico não pôde mais ser escondida e precisou de um resgate imediato, nenhuma reforma estrutural séria foi feita no estabelecimento financeiro ocidental, colocando o Ocidente – e o resto do mundo – no risco de uma crise ainda maior.

Ninhuém imagina que nos últimos anos a China, Rússia e outras economias emergentes começaram a criar novas instituições financeiras internacionais, baseadas num conceito de relações ganha-ganha entre as nações e criaram facilidades para o desenvolimento econômico e para o comércio para todos os participantes, ao invés de preservar a hegemonia de alguns. Ao invés da exclusividade dos acordos comerciais dos EUA, como a Parceria Transpacífica, a China extendeu um convite aos EUA e ao resto das Américas para se juntar a eles no estabelecimento de uma nova era de desenvolvimento econômico global.

Mas pode os EUA enxergar um mundo onde ele não é o único superpoder e, pelo contrário, compartilha essa responsabilidade com outras nações, conquistando mais em união do que jogando uns contra os outros?

O potencial da participação dos EUA no programa da Nova Rota da Seda é imenso. Um projeto chave da edição da EIR sobre a Nova Rota da Seda finalmente conecta o continente euroasiático com a América do Norte no Estreito de Bering. Uma ligação pelo Estreito de Bering provirá a simetria necessária para fazer da estratégia Um Cinturão, Uma Rota algo global e pode transformar os dois continentes do mesmo modo que a antiga Rota da Seda abriu a Ásia para a Europa.

Imagine embarcar num trem que levita magneticamente nos centros de Paris ou Berlim, viajando a 250 milhas por hora pelas estepes siberianas, através de um túnel sob o Estreito de Bering, e emergir no outro lado, no Alasca, em seu caminho para Manhattan. Linhas ferroviárias adjacentes de carga e passageiros viajando de norte a sul, do Alasca para os 48 estados continentais até chegar à Eurásia: essa é a construção da tão esperada Aliança Norte Americana para Água e Energia, um sistema de gerenciamento de águas continentais da envergadura do Projeto Apolo, que levará aguá potável escoando do Alasca e do Canadá e desviado em direção ao sul para o uso no árido sudoeste dos Estados Unidos.

E enquanto os americanos médios dirão a você que esse projeto é impossível, o chinês médio, hoje, o está construindo. Na última década, a China – comparável em tamanho aos EUA – construiu mais de 11 mil milhas de trens de alta velocidade e anseia por triplicar esse número em 2020. Igualmente, os projetos chineses dos Três Gorges Dam e das Águas Sul-Norte são alguns dos maiores esforços em infraestrutura hídrica jamais feitos.

No novo paradigma ganha-ganha, o investimento em grandes infraestruturas é o novo normal – em qualquer lugar.

Inspirado pelo projeto do Canal de Swuez recentemente finalizado no Egito e pela promessa da integração marítima com o novo paradigma OBOR e das nações BRICS, outro projeto característico da edição sobre a Ponte-Terrestre Mundial está agora em curso: o governo nicaraguense ganhou uma árdua batalha para construir um canal interoceânico de 173 milhas através do país, criando um passagem para alguns dos maiores cascos de navios do mundo que agora não conseguem atravessar o Canal do Panamá.

Um sistema norte-americano revitalizado de trens e hidrovias estará incompleto sem a integração com a américa Central e a do Sul. Planos para uma ferrovia transcontinental leste-oeste do Brasil para o Peru já estão a caminho com investimento chinês. Num paradigma econômico global orientado para a integração econômica e o desenvolvimento, a América do Sul poderá desenvolver uma rede ferroviária continental para o século XXI.

Ainda existem muitos que dizem que essa visão é apenas um sonho – que é impossível. Contudo, essas nações onde os grandes poderes atuais estão batalhando nas guerras por procuração da geopolítica, como o Iemem e a Síria, irá dizer a vocês que é o atual paradigma que é impossível e não pode continuar.

Construir a Ponte-Terrestre Mundial significa um renascimento cultural e econômico do planeta, um novo paradigma para a humanidade. Os projetos e os conceitos econômicos chave estão funcionando, o desafio agora é trazer de volta os Eua para suas raízes e transformá-lo num poderoso aliado dessa nova ordem econômica.

Da suposta Atlântida aos Descobrimentos

KLAUS: Note como Pacifico oriental foi uma das ultimas áreas humanizadas da Terra. Note as tecnologias navais muito antigas já na saída de Africa. Note como o primeiro H sapiens sapiens pode ter sido nigeriano.

Existiu de fato uma Atlântida? Pierre Vidal-Naquet, em seu livro sobre o tema, diz que Platão reconstrói o mito para criar um diálogo com a historiografia de Heródoto e contar, a partir da história do continente desaparecido, as raízes não gregas de sua cultura, como na introdução ao Timeu, quando Sólon e seus conterrâneos são tratados como crianças perante a antiguidade do Egito. O Platão de Naquet não estaria interessado em entrar no mérito sobre as especulações sobre a existência ou não do suposto continente. Estaria, pelo contrário, tal como Heródoto, dando conta da diversidade, da alteridade a partir da qual foi formada a cultura de sua época. Atenas não nasceu de súbito, como se acredita, mas de influências de outros povos, no contato com outros povos, até mesmo com os citas, como aponta Heródoto.

A explicação sobre as raízes da cultura grega são tão obscuras como as especulações sobre o mito atlântico. Martin Bernal fez sucesso com seu Black Athena, onde afirma que as origens da civilização clássica estaria no continente africano e não na Índia, como se costuma supor.

Numa discussão iniciada depois de uma publicação minha sobre a Hipótese Solar, retirada do astrônomo francês Jean Sylvain Bailly, prefeito de Paris na época da Revolução e presidente da Assembleia Constituinte, um leitor desse blog resolveu, com muitos conhecimentos acumulados, questionar a tal da hipótese, segundo a qual são os povos marítimos, e não as tribos nômades, que deram início à civilização – o que esbarra sempre na volta da especulação sobre o continente desaparecido e sobre o papel da Índia no início da humanidade. A publicação que segue é sobre a discussão que mantivemos, firme apesar da incredulidade inicial de meu interlocutor diante “de mais uma coisa que se vê na internet”…




KLAUS: WTF? Voltaire e a Revolução Francesa são do séc. XVIII. O Norte europeu era iceberg inabitável. Até bem depois de 10000 a.C., quando começou o degelo da última glaciação e os humanos iniciaram a agropecuária na Anatólia. Agropecuária é condição imprescindível para as civilizações. A possibilidade de civilizações complexas antes de 4000 a.C. entre mesopotâmios é mais que plausível. Mas seria produto de povo vindo do Sul e possivelmente negros africanos! Este papo todo de Hiperbóreos e Thule me cheira a arianismo nazista ou nao-nazista. Finalmente, reerguer hipóteses de iluministas no século XXI, teria que ter respaldo maciço em evidências inéditas. Pior que isso só Terra Oca ou Terra Plana ou Criacionismo. Às vezes lendo na Internet tenho a impressão de estarmos involuindo.


ROGÉRIO: Klaus, desculpe o lapso imperdoável da introdução que fiz. Realmente é no XVIII. Falha grave. Agora, no texto (não sei se chegou a ler) tem outras pesquisas. Não é uma apropriação dos “iluministas” no século XXI, e das bem anacrônicas. Você chegou a ler sobre o Erastóstenes, sobre as descobertas nos anos 1970 no Chile, sobre coalizão ítalo-lusitana para os Descobrimentos? O debate do Voltaire e do Bailly serve mais como uma introdução (aí sim, a introdução que eu fiz é na verdade uma pequena apresentação do texto para acessarem o link), até por uma questão de tamanho. O texto Voltaire-Bailly é no máximo um terço do texto todo. Agora, se você realmente acessou o link, acho que você talvez possa estar sendo apressado demais nas suas conclusões. Coisas de internet… O que não nos impede de, caso outros temas apresentados sejam colocados na mesa, a gente prosseguir, sem qualquer problema, uma troca maior de ideias.

KLAUS: Li tudim. Sou fã incondicional do Carl Sagan desde criança e lembro como hoje como Eratóstenes mediu a circunferência da Terra usando as sombras de varas em Siena e Alexandria com geometria euclidiana simples. Tacada de mestre. Grande Eratostenes. A coalizão de italianos e ibéricos para explorar Atlântico é consenso entre historiadores sérios. Nada de ovo de Colombo. Colombo se apresentou primeiro ao rei português. Este só gargalhou porque viu que o cálculo do genoves estava errado ( inclusive da vida e água a levar) . Sortudamente para Colombo havia uma massa gigante de terra firme com água e comida entre Espanha e China.

ROGÉRIO: Valeu, Klaus. Corrigi lá no blog a data. Foi na pressa de colocar a apresentação. Tem uma questão que acho mais importante, não tanto sobre se veio do norte, do leste ou do sul. Até porque não tenho conhecimento suficiente para debater isso. A hipótese que achei interessante são as dos antigos exploradores, já navegadores, muitos séculos antes do período clássico, na Antiguidade. E quanto à união Portugal-Itália, gostaria que fosse um consenso grande assim, até por determinadas implicações epistemológicas. O que acho interessante, o texto referenciado do Tim Rush, sobre o Projeto Apolo e a sombra do Infante D. Henrique, os Descobrimentos como uma espécie de Projeto Apolo daquela época. Tem mais alguns elementos, mas de uma maneira geral é isso. E quanto a hiperbóleos e não sei mais o quê, sou completamente incapaz de fazer qualquer comentário, por não saber nem do que se trata. Sem pressa a gente consegue fazer coisas boas! (inclusive não errar tão feito uma data…)

KLAUS: Sem dúvida, o Colombo foi um avant premiere do projeto Apolo, e com mais dificuldade e mais mérito porque encontrou vida inteligente no outro mundo. O choque cultural entre nativos americanos e europeus foi tão enorme que eu gosto de dizer que nativos estavam diante de ET ‘s. Nada os preparara para aquilo.

Façanhas navais humanas são muito, muito antigas! Humanos surgiram na África. E de lá foram para Ásia. Da Ásia foram pra outros três continentes! Mas não foi só uma onda emigratória, foram varias, algumas simultâneas, outras sequenciais. O pulo da África pra Ásia teve duas rotas: por Suez andando a pé enxuto, pois não havia o canal famoso. E outra, de Etiópia pra Iêmen atuais. Mesmo durante glaciação não houve ponte de terra ou água rasa ali, de modo que foi uma façanha naval humana. Idem quando humanos passaram da Ásia para Oceania. Na Glaciação, com nível mínimo do mar, ainda assim, a travessia entre península Sunda e supercontinente Sahul exigia barco, no mínimo, jangada improvisada. Mesmo pra travessia Siberia-Alaska porque a ponte de terra Beringia só estaria presente no pico da glaciação! Assim seria uma terceira façanha necessariamente naval e de cabotagem (com visualização da linha da costa). A costa da Beringia, porém, estaria mais ao sul, facilitando a coisa. Alguém poderia sair da Coréia, pipocar nas n ilhas e chegar ao Oregon. Mas há limites tecnológicos em todas estas façanhas!! Não dá para imaginar uma viagem de Magalhães feita por uma trirreme do Ulisses /Odisseus. Elas não tinham autonomia necessária: tripulação era grande porque envolvia remadores. Assim necessitaria muita água doce e muitas paradas em ilhas de escala. Usando só veleiros sem remos, exigiria a técnica do barlaventear (velejar contra vento usando vela triangular ou um mastro com velas compostas imitando triângulo) que só surgiu com dromons bizantinos após século VII d.C. e daí para dpughs islâmicos e caravelas lusitanas do século XV.

Um rei do Mali, no Sahel, África ocidental ,no século XIII (antes de Portugal tomar Ceuta, sua primeira façanha naval) foi destronado. Cercado pelo usurpador, ele reuniu provisões, seus fiéis seguidores e se meteu no Atlântico, para não ser pego pela esquadra do usurpador. Este imperador males certamente não chegou ao Brasil. Sua esquadra era de pirogas. Esta tentativa suicida está documentada. Quantas outras parecidas ocorreram? Os relatos de Heródoto, sobre faraó Nekau financiando uma esquadra fenícia pra rodear a África devem ser levados a sério. Mas só porque não perdiam a costa de vista, porque o barco era a remo e a vela, porque iniciaram circunavegação no sentido correto: do mar Vermelho ao Mediterrâneo. E coisas narradas por Heródoto em tom de pilhéria fazem supersentido. Ainda assim, a viagem durou anos, porque tinham que plantar estoque de comida e esperar colheita antes de prosseguir viagem!


ROGÉRIO: Klaus, não deixe de me fornecer mais dessas informações. Acho que consigo responder a cada uma delas, não para te “refutar” ou coisa que o valha – está falando coisas muito interessantes. Acho que o primeiro princípio que podemos discutir é a questão das inovações técnicas. Como você viu no texto, o que está em jogo – talvez essa seja a evidência material mais importante, junto a inúmeras considerações epistemológicas – foi a descoberta, na década de 1970, da circunavegação do globo pelos egípcios, contemporâneos de Erastótenes e do rei Ptolomeu III, Rata e Maui. Deixaram traços de sua passagem no Chile, Polinésia e Nova Guiné, registros esses que foram traduzidos por Barry Fell (professor da universidade de Harvard e de seu Museu de Zoologia Comparada) e pelo geógrafo George Carter, como se tratando da mesma viagem e com as inscrições que remetem à descoberta do tamanho e do formato da Terra por Erastóstenes. Acho que esse é um primeiro ponto – e bem concreto – caso formos discutir implicações maiores apontadas pelo texto. Não duvido da dificuldade de outros povos em empreender um “projeto Apolo”, seja em qual século for. O que foi provado foi a circunavegação do globo no século II a.C. e, como hipótese (não existem provas materiais), existe a sugestão de que Homero narra uma circunavegação em tempo ainda mais remoto, na Grécia antes de sua chamada “idade das trevas”, ou seja, antes da era clássica de Sólon e Sócrates. Resumindo, a prova material aponta a possibilidade de o ser humano conseguir cruzar o planeta em tempos mais remotos do que admite atualmente a ciência, sendo que já o fez bem antes do que a “ciência popular” costuma considerar – o que não impede de estendermos ainda mais esse tempo, para eras ainda mais remotas. Esse também o interesse epistemológico do livro de Bailly e de sua troca de cartas com Voltaire. Mas a esse tema, e outros, podemos voltar depois. Isso nos leva a um domínio não só da “hipótese solar” (que teria amplas considerações a fazer a respeito), mas do que hoje pensadores importantes chamam da necessidade de uma “arqueologia das ciências” (Michel Foucault, Giorgio Agamben, etc.). Todo avanço científico deixa uma vasta zona de penumbra por detrás, e são essas camadas que cabe a arqueologia a desvendar (essa espécie particular de arqueologia, claro). Tem uma relação bem específica com a antropologia britânica, mas nessa resposta é impossível esgotar o assunto.

KLAUS: Tudo bem, mas há muito mais coisa a se discutir: HiperbóreosAtlântida. Mas para se definir a improbabilidade de viagens transoceânicas no tempo de Ulisses ou de Ptolomeu III, tive que recuar.  Outros pontos de interesse: conhecimentos náuticos dos portugueses poder se basear em fenícios? Imposto papal sobre marfim da Islândia pode ter relação de conhecimento de italianos sobre América?  Real alcance da marinha chinesa. Poder é querer? Circunavegação africana: Fenícios do faraó Nekau e Heródoto. Portugueses no Congo e Pero da Covilha e Preste João.

ROGÉRIO: Ótimo, mas queria te perguntar se tu sabe tudo isso de cabeça?!

KLAUS: Hehe. Tirando a expansão polinésios que eu fui colar do livro do Diamond, foi meio de cabeça sim. Tenho 50 anos de planeta e acho que desde 15 anos leio história antiga. Isto é ruim por um lado, porque fico me perguntando: porra, onde li mesmo isto?!

ROGÉRIO: Tranquilo, Klaus. Não foi por isso que perguntei. É muito bom ter fluência e sem os chatos das “referências”. É uma conversa e academia não gosta muito disso. Gosta mais de procedimentos de tipo cartório, burocrático e infértil.

KLAUS: Rogério, há um professor paraibano dedicado originalmente ao estudo dos germanos, especialmente vikings. Povos inicialmente abraços ele teve que se concentrar em iconografia e tradição oral, onde abundam temas religiosos e diante de tantas coincidências com mitos e astronomia de outros povos, ele acabou mergulhando na etno-astronomia e arqueoastronomia. Ele se chama Johnny Langer. Sua pág. pessoal no Facebook é a do grupo NEVE da UFPB. Seria de grande valia no teu estudo da hipótese solar ( que o conhecimento aberto pela construção e adoção de calendários dólares precisos possibilitou navegações avançadas entre outras tecnologias em um povo muito recuada no tempo). É quase consensual entre pivôs antigos o respeito a tradição e certa cautela com inovações ( daí o famoso time que tá ganhando não se mexe). Está crença poderia ser eco do medo de não copiar direito os preceitos de um povo milenar? Porém é fato que muitas ideias realmente novas foi vendida como antigas. Como resgate da verdadeira pureza e antiguidade, apenas como forma de melhorar a aceitação da inovação, assim fez Confucio, Mohamed e outros. A precessão dos equinócios parece ser algo conhecido há muito tempo, mas Johnny Langer afirma explicitamente que não seria possível conhece- la antes de Hiparco ( da época de “nossos” navegadores greco-egipcios). Na época, debati muito com ele, a respeito, pois apesar deste ciclos terem periodicidade enorme ( muitas vidas humanas), os babilônios tinham registros organizados desde muito tempo. Registros organizados de dados por muito tempo de Tycho Brae que possibilitou Kepler chegar a seus modelos. Observação é o primeiro passo do método científico. Construir modelo é um dos últimos. Hiparco só poderia construir seu modelo do que é a precessão com registros de dados sendo feitos há muitíssimo tempo. E os próprios babilônios não poderiam já ter concluído modelos a partir de seus dados? Segundo ele não por uma série de motivos. Lembre Johnny Langer. Ótimo cara pra se dialogar. Precessão dos equinócios é um dos movimentos lentos que a Terra faz além da rotação e da translação. Equinócio do latim “noites iguais” é a data do ano ( na verdade ocorre duas vezes ao ano) onde um dia completo tem mesmo número de horas de Sol e de escuridão. É melhor percebido nas latitudes temperadas . As várias mitologias se concentram em datas opostas só solstícios. Perceber que os equinócios variam lentamente e levam mais de 12000 anos para coincidir novamente é coisa difícil, mas é o fundamento pra divisão mística da história em eras de signos.
Astronomicamente, o que é a precessão. A Terra gira em um eixo que passa pelos polos N e S. ATUALMENTE este eixo pode ser prolongado do pólo Norte até uma estrela chamada ( por isto mesmo) Polar. Mas há 6000 e poucos anos( nascimento da Suméria) o polo N apontava pra outra estrela, Thuban! Olhe a importância disto pra Navegações em período recuado!

Em 14000 aC em plena glaciação wurmiana ( possível conquista da América por humanos, um feito naval), pólo N apontava para estrela Vega.

Estas noções de tempo não podem ser imaginadas imediatamente. Nosso cérebro é produto da evolução em savana africana, apreendemos automaticamente tamanhos , distâncias, tempo e velocidades de cousas ocorridas na savana. Nosso bom senso apreende formiguinhas e rios, mas tropeça nessas eras e no que ocorre nelas. Tropeça nas distâncias oceânicas e astrais. 40000km de circunferência terrestre passa a parecer com 4099km. 12600 anos com a duração do império egípcio. A nossa posição física usa um sistema versátil, mas não preciso! Distinguimos bem 1,2,3 kg e não distinguimos 21,22,23kg.

Estas noções de tempo não podem ser imaginadas imediatamente. Nosso cérebro é produto da evolução em savana africana, apreendemos automaticamente tamanhos , distâncias, tempo e velocidades de cousas ocorridas na savana. Nosso bom senso apreende formiguinhas e rios, mas tropeça nessas eras e no que ocorre nelas. Tropeça nas distâncias oceânicas e astrais. 40000km de circunferência terrestre passa a parecer com 4099km. 12600 anos com a duração do império egípcio. A nossa psico- física usa um sistema versátil, mas não preciso! Distinguimos bem 1,2,3 kg e não distinguimos 21,22,23kg.

O Norte está deixando de apontar para A estrela Polar. Ele só voltará a começar a apontar ora estrela Polar novamente apos 25800 anos! Como podemos imaginar grandes civilizações num passado tão recuado? O Norte está deixando de apontar para A estrela Polar. Ele só voltará a começar a apontar ora estrela Polar novamente após 25800 anos! Como podemos imaginar grandes civilizações num passado tão recuado ou num futuro tão a frente?

Se me permite, prof. Rogerio, vou inverter temporariamente os papeis e comentar trecho a trecho do que dirijo de ti. Por favor, fique a vontade para comentar sobre meus comentários, se julgar necessário. Bailly, com sua “hipótese solar”, diz que os povos que colonizaram a Europa e a Ásia vieram no norte e não do oriente, já se utilizando de barcos e alcançando vastas extensões geográficas, feito somente repetido com os Descobrimentos Sou fã de Benjamin Frankilin. um verdadeiro polimata, perito em muitos assuntos e não foi um acadêmico nefelibata, mas homem que botava para jogo suas preocupações ético-politicas, tendo papel fundamental no pedido de voto paritário ao parlamento inglês (que fracassou) e de auxilio militar francês de um rei absoluto para uma revolta iluminista na América (que conseguiu!). Se Baily é o Ban Franklin francês, então eu já sou seu fã. Eu não o conhecia antes de teu texto. Sou fã de Voltaire, este conheço bem. Mas aqui Bailly não encontra respaldo em evidências conhecidas hoje. Os gregos nomeavam os ventos vindos dos quatro quadrantes e chegaram a cultua-los como deuses do tipo força-da-natureza ( a distinção, temporária que seja, mas necessária, entre deuses-forças da natureza x deuses-ancestrais na mente greco-romana , é destacada pelo autor do sec. XIX Foustel desCoulanges). Eram deles Borias (vento Norte), Notos (vento sul, vindo do Saara), Hesperos (vindo do Oeste (Atlântico) e o vento Leste(cujo nome não lembro). Muito tempo depois, o intelectual e turista grego antigo strabo classificou a Europa em tres camadas de crescente barbarismo (afastamento geografico e mental da Helade ; A Europa Mediterrânea helenica, a Europa Barbara Céltica (Europa Temperada boscosa: Galia, Britânia, Germania) e a Europa Hiperbória (alem-Norte). A última correspondendo basicamente a Escandinávia e o que vislumbravam da estepe Cítia e da taiga. Os Hiperbórios eram os seus habitantes e se imaginava que na Hiperbória, teria nascido Apolo. Em outras palavras no Extremo Norte. O que os gregos conheciam de fato de lá vinha dos relatos do navegador Piteas de Marsela que conseguiu furar o bloqueio fenicio-cartagines de Gibraltar e descobrir de onde vinha o estanho (Britânia) e ambar (lama biliar de baleias do Báltico). Ele pode ter avançado por terra pela Galia e perto de Calais atual ter montado sua trirreme. O mito de Apolo é muito complexo. Ele é originariamente um deus-lua lobo dos Lukka/licios um dos anatólios ocidentais. É um deus-ancestral que se mesclou a uma força da Natureza. Seu culto esmgou o de vários outros deuses e foi em sincretismos bem forçados adquirindo os superpoderes dos deuses que esmagava (lembrando o que houve com cristianismo. Ele adquire o seu caráter solar (com biga dourada e cabelo loiro derrotando Helios, um titã), ele adquire seu poder de prever o futuro derrotando a dragonesa Pítia de Delfos, adquire novos poderes com Hermes (este sim Hiperborio e ligado aos pastores indo-europeus da estepe cítia), um deus ele não derrota (Dioniso). As muitas horas de Sol e escuridão anômalas da Hiperboria podem ter dado origem a uma diarquia de deuses supremos no panteão da estepe, não se trata de um deus bom ooutro mão como no maniqueismo persa , uma religião filha da religião da estepe. Os nomes Helios, Hermes e Apolo, são todos recentes seus nomes originais na estepe e em Licia talvez não fossem estes.

ROGÉRIO: Klaus, e quanto aos chineses? Dizem que por pouco eles não descobriram a América antes dos Europeus. Você sabe alguma coisa a mais sobre isso? 

KLAUS: Isto é do Atlas da historia do Mundo DK, editado pelo prof. Jeremy Black e publicado pela DK , no Brasil pelo Jornal Extra. Note o espatacular conhecimento chines em 1490. Por terra devido a ter sido parte do enorme império mongol e por mar devido ao almirante Zheng He, pouco antes do 1490:

Expansão austronesia e viking vem do Gns, Germs and Steel do Jared Diamond 2007 (premio Pultizer). Editora:Norton

Expansão austronésia e viking vem do Gns, Germs and Steel do Jared Diamond 2007 (premio Pultizer). Editora:Norton
Ja li também o livro do oficial da Marinha Inglesa e historiador nas Horas Vagas (coisa que também sou) Menzies. Mas ele se baseia num suposto mapa chines que ele adquiriu mostrando costa ocidental da Africa. Mas como já disse objetivo da esquadra de superbarcos chineses bem melhores que as cravelas contemporâneas de Portugal (1450) era dominar comercio do Indico, só . Mapa do Manzies não foi datado por outra fonte que não ele. Poderiam ter chineses chegado a costa pacifica da América ou costa atlântica da Africa, sim mas não quiseram e não fizeram. Logo depois o sucessor deste imperador Ming anomalo, voltou a tradição plurissecular chinesa de objetivos terrestres, que faz supersentido, as poriridades deles eram manter mongois de novo na Mongolia e não abrir falência (os navios eram carissimos dai o nome de junco-tesouro e talvez os lucros conseguidos com ZhengHe foram poucos ou nao cobriram custos. Foram imediatistas? Talvez.
ROGÉRIO: Então tá explicada a história.Mas analisar as razões de estado das dinastias chinesas deve ser coisa de louco. Não tenho ideia nem de fontes. Com certeza é um trabalho extenso a beça.

KLAUS: Nem chegou a mudar dinastia. Os Ming conseguiram destronar a dinastia Yuan (Mongol) com ajudinha da peste negra. No meio da dinastia, um de seus imperadores, posso descobrir nome pra ti, resolveu bancar a superesquadra de Zheng He que fez 3-4 viagens de longo curso e realmente dominou o Indico. Veio o sucessor dele também Ming e aposentou Zheng He e os superbarcos (tipo Portavioes da Shield – hehhee).

ROGÉRIO: Em qual século? Quero dizer, contemporâneo aos portugueses ou anterior?


KLAUS: 
De todo modo para fins de Hipótese Solar . Chineses só conseguiram tecnologia capaz de circunavegar em seculo XV, espanhóis realizaram a coisa em 1519 (Magalhaes + Elcano). Polinésios que também tinham tecnologia naval transoceânica, dominaram quase todo Indico + Pacifico, mas não chegaram em Pascoa e Havai ANTES de seculo I d.C. e e não foram alem! Fenicios pode esquecer, eram demais , mas só com Mediterrâneo e circunavegando Africa e indo até Inglaterra , talvez até Canarias. Não tinham bussola e nem a tal autonomia e vela latina para barlaventear. Gregos do Egito aprenderam muito com hindus chegavam fundo com monções no oceano Indico,mas não passaram do Vietnam. os nomes que tu citaste são bem polinésios. No Brasil a pedra da Gávea foi um embuste de puxa-saco do P2, para dar um up na sua imagem dentro da corte ou mesmo do Brasil, Anforas romanas na baia da Guanabara foram plantadas de proposito e um figurão do seculo XVIII acidentalmente trouxe em barco da época que sofreu naufrágio (ânforas romanas em veleiro Ibérico iluminista).
Seculo XV, portugueses estavam mapeando costa atlântica da Africa com muito método culminando com Vasco da Gama, que rei portugues diante da noticia da sorte de Colombo, mandou perder o metodo! Enquanto lusos estavam mapeando costa oeste da Africa , Zheng He estava mapeando todas as cotas que dão para Indico.
Árabes e hindus mestres das monções visitavam “a Costa”-Suahili desde antes de Mohamed e conseguiam a preço bom marfim, ouro e gente. Os negros escravizados eram conhecidos como zanj e houve uma revolta famosa nas plantations da Mesopotâmia islâmica medieval. Um de seus comandantes foi “punido” se tornando general do califa.

Na época do iluminismo, a historiografia ocidental exaltava muito Índia e China como modelo de civilizações mae do mundo que degradaram. EStavam começando estudos de paleoliguistica que cuminaram na descoberta do protoindoeuropeu. Hoje se reconhecem outras macrolinguas do passado e que houve uma mãe do protoindoeuropeu que abrangeria o porto semita e outas do tal do Nostrático.

Já se conhece até um vocabulário reconstruído de nostrático (algumas palavras) que foi usado no espetacular filme de fim do seculo XX , guerra do Fogo. Mapinha das marcrofamilias linguisticas se refere à distribuição ATUAL das línguas derivadas dos troncos e não a distribuição original.. Território azul já foi muito maior em 4000 a.C. E mancha verde do sudeste da Austrália só surgiu com a conquista inglesa em seculo XVIII. Note a manchinha vermelha amarronzada na fronteira franco-espanhola, a língua euskara (basca) é mais próxima do chines que de todos os idiomas europeus dominantes atuais. A Hipótese Solar do Bailly esbarra na profundíssima questão de como os humanos conquistaram o planeta, mas mesmo eu considerando possibilidade de civilização complexa entre 10000 e 4000aC.  Não tinham menor chance de grandes navegações. Há uns caras que falam em civilização mediterrânea em plena ultima era do gelo (os famosos atlantes), mas isto também é muita viagem.

Note em especial o nível do mar no age da ultima glaciação em 18000 aC. Veja como era Mediterrâneo e a fronteira Africa-Arabia e Sunda-Sahel (Supersudeesteasiatico-superaustralia)

Área mediterrânea tinha três lagos. A fronteira Arabia-Africa e Sahul-Sunda mesmo assim era de água. E o que dizer da Beringia? Dava para o sujeito ir margeando praia da Coreia ao Oregon. Havia um lago no atual mar do Japao e se passava a pé do Japão pra China pelo norte ou pelo sul deste lago. Estes caras ousam chamar estava civilização mediterrânea de, negra (ai tudo bem) e matriarcal (ecos de Bachofen) e atlante. Houve um terremoto + o degelo e estreito de Gibraltar, Mediterrâneo atual e Diluvio foram criados. É quase Thomas Morus com Utopia!

ROGÉRIO: Deixa eu te fazer uma pergunta. Não tem nada a ver aparentemente, mas tem tudo a ver. Você conhece o Zecharia Sitchin?

KLAUS: Tb estou com esta impressão de estarmos olhando ângulos diferentes do mesmo objeto. E não conheço Zecharia Sitchin. E vou continuar enviando bibliografia, se vc me permite. E comentando trecho a trecho teu texto da hipótese solar. Pode ser? 

A coisa vai levar tempo para se concluir porque tb estou enrolando com outras iniciativas. Estou investindo seriamente em um romance que escrevi há tempos. Espero não estar sendo chato contigo ou chovendo no molhado. E meu forte e em História antiga e militar. De preferência a interseção das duas. Trabalho todo fim de semana euiyas noites. Tenho mais tempo pra escrever sobre meus hobbies quando maioria das pessoas está trabalhando. Parece Quela música do Cazuza: Pro dia nascer feliz… Hehe Abraços Rogério e desculpa se te insultei quando disse que as vezes parecia que os textos de internet pareciam ir no retrocesso do conhecimento. 
VC pde começar a ver o por que de minha reserva com relação a ressuscitar Bailly aqui no trecho wikipedia inglesa: 

“Nazism and occultism See also: Nazism and occultism Blavatsky was also inspired by the work of the 18th-century astronomer Jean-Sylvain Bailly, who had “Orientalized” the Atlantis myth in his mythical continent of Hyperborea, a reference to Greek myths featuring a Northern European region of the same name, home to a giant, godlike race.[61] Her reshaping of this theory in The Secret Doctrine provided the Nazis with a mythological precedent and pretense for their ideological platform and subsequent genocide.[61] Julius Evola’s writing in 1934 also suggested that the Atlanteans were Hyperborean, Nordic supermen who originated at the North Pole (see Thule). Similarly, Alfred Rosenberg (in The Myth of the Twentieth Century, 1930) spoke of a “Nordic-Atlantean” or “Aryan-Nordic” master race”

ROGÉRIO: Você tocou num excelente ponto. De quem tirei a história, o Pierre Beaudry, e principalmente Lyndon LaRouche, eles tem a mesma reserva em relação ao ocultismo, à Blavastky de um modo particular. Como não a li nem conheço a teosofia (ainda que ache curioso), não faço juízo de valor. Até porque quem melhor estudou esse tema para mim, e infelizmente não sou um leitor mais assíduo dele, foi o Peter Levenda, mas também o Joseph Farrell. Então quero te dizer que dentro dos princípios das fontes que usei, como também nos meus objetivos, nada de teosofia entra. Vou te responder explicando o ponto desses pesquisadores, que em linhas gerais é um conceito aplicado à economia, o de densidade de fluxo energético.

Mas, querendo resumir um pouco. Me interesso mais por certas conexões com Levi-strauss, num certo nível, e noutro, com Leibniz e Vladimir Vernadsky. O que seria um libelo contra a antropologia britânica, essa escola de racismo, e que também é o motivo do post sobre essa metáfora, a “hipótese solar”. Aliás, tem dois artigos do Nelson Rodrigues, daqueles bem satíricos, em que desanca com essa antropologia, principalmente com os escritos profundamente racistas do Marx e do Engels. Esses britânicos e seus associados do século XIX são a raça mor produtora do racismo e, claro, do imperialismo.
KLAUS: Nelson Rodrigues era gênio.
Mas, voltando ao assunto: 
O relato de Heródoto de que a geometria começou no Egito, conectada aos problemas de divisão das áreas agriculturáveis depois do período de transbordamento das águas do rio Nilo, e que esse conhecimento posteriormente atravessou o Mediterrâneo e atingiu Íon, é relevante no sentido em que nos conta uma história da geometria que não a estudada por Tales, Anaximandro, Pitágoras ou Platão. Bom, aqui já vemos que povos meros agricultores” poderiam chegar ao triangulo de Pitágoras. Mas eles foram mais que isto. Como dizia Aristóteles : Tudo que hoje é grande e complicado já foi pequeno e simples. Portanto volte no tempo e tu iras entende-lo melhor. A historia egípcia pode ser recuada a 5500 aC quando começa o estranho secamento ( fora de época) do Sahara. Novamente nossa limitação humana cerebral de entender tempos, tamanhos, velocidades e distâncias… Os egípcios tiveram tempo de sobrar para aprender por tentativa e erro a chegar a teorema de Pitágoras e a pratica de pirâmides. Paul Johnson no livro Eito Antigo publicado no Brasil pela Ediouro, fala que a matemática egípcia era até fraca comparada com a dos babilônios. Muito da agrimensura e da construção de pirâmides foi descoberta por tentativa e erro. Tendiam a registrar soluções de problemas muito similares sem se esforçar para notar que podiam fazer generalizações. Custaram a alcançar a multiplicação. Resumindo eram fracos em teorizar. mas tiveram muito tempo para tentativa e erro. Somos arqueologicamente cegos para muito da construção das mastabas porque inicialmente eram feitas com material que não sobrevivia ao tempo. Mas assim que investem em granito, (dinastia zero), percebemos muitas etapas intermediárias. Da mastabas chega-se a pirâmide escalonada que é uma superposição de mastabas, com tamanhos decrescentes (solução já percebida pelos sumérios em seus zigurates), em dinastia III. Daí passa-se para o alisamento dos degraus (rei Sneferu). Há registro arqueológico de que este problema não foi fácil de ser resolvido há pirâmides tortas e inacabadas, toda uma escala de coisas intermediarias e transições, antes da poderosa pirâmide de Khufu (IV dinastia), única das 7 Maravilhas Antigas sobrevivente e a mais antiga delas! . Às origens “práticas” da geometria opõem-se os calendários estelares dos Vedas Por que há oposição? Bons calendários tem relação pratica com o plantio em época correta. Mas coisas partem do unicelular para o sofisticado, do chão para o teto. O sânscrito não começa idioma de filosofia grandiosa. Arianos dos textos védicos são mendigos numerosos e armados (como bárbaros germanos invadindo Roma) de civilização Harapense que não falava sânscrito, mas dravidiano. Os invasores só mantiveram deuses e língua, adotaram todo restante. Os harapenses por sua vez vieram do Zero, somente aproveitando influxo de produtos, ideias e alguns humanos (comerciantes sumérios) vindos do mar. Mas nem adotaram sua escrita em bloco ( o que é uma pena, pois do contrario poderíamos ler seus textos). , o Timeu, de Platão, e ainda as fontes mais antigas e acessíveis somente de forma indireta, como os relatos sobre Urano e os atlantes. Alguém lendo Utopia de Thomas Morus crê que exista tal lugar? Por que seria diferente com o conto de Platão? Mas dando crédito ao mito, Atlântida seria uma civilização em plena Idade do Gelo?! Em uma terra enorme situada a Ocidente das Colunas de Herakles/Melkart, maior que Líbia ( que nesta época se referia a toda Africa a oeste do Egito)e Asia (que nesta época era termo para Anatólia apenas)! Se eu tivesse que chutar apontaria para a própria América, já que astecas diziam que vinham de Aztlan, o que não impede de ser mais uma homofonia sem relação etimológica como Teo em nahuatl e Theo em grego serem Deus. O “pequeno” problema é a impossibilidade técnica! Nem mesoamericanos e nem mediterrâneos tinham barcos com tal autonomia. Muito menos homens do auge ou do fim da Era do Gelo. Tentemos outros sítios. Thera e Creta já foram apontados. Sofreram cataclismos, eram navegadores, especialmente depois de contato fenicio em 2000aC.Mas data não bateria. Antes disso, marinha dos anatólios pelasgios era sofrível, como era a marinha dos aqueus (primeiros gregos). Note que depois de vitoria sobre Troia, Menelau vai para no Egito. E Ulisses demora 10 anos para voltar a Itaca!. E minoicos (cretenses=egeus) e nem aqueus (protogregos=micenicos) NÂO estão a Oeste das Colunas. E a conexão Atlântida-Amazonas? As guerras dos atlantes contra Mirina das Amazonas (estas por si só tem chance de serem meros mitos) e as de atlantes contra Atenas. Faria então Atenas ser coetânea da Era do Gelo! Nem o sacerdote egipcio que conversa com Solon no MITO platônico, que faz afirmação que o seu próprio povo era criança perto do povo atlante e o povo grego criança perto do povo egípcio , concordaria com isto. Com relação as Amazonas, a vida na estepe era durissima! Desde os cimérios aos citas massagetas e aos mongois, as mulheres destes povos tinham que também se virar bem com o arco. Uma posição de quase igualdade com seus homens in extremis, ok. Matriarcado nunca, como propos Bachofen nunca. Já li também sobre a hipótese de que apelaram para armar mulheres no Império Hitita acossado por “Povos do Mar “ (que eram na Anatolia eram bem de terra e velhos conhecidos dos hititas e aqueus, o apelido só cola do ponto de vista egipcio!). A posição das mulheres da elite hitita talvez se assemelhasse a das mulheres da elite egípcia, mas isto está bem longe de matriarcado. Nas duas sociedades, as adulteras eram executadas. Platão viu democratas injustamente matarem seu mestre Sokrates. Desencantado, pesquisou sistemas de governo ideais. Chegou a um sistema teorico em A Republica, uma verdadeira transformação de um Estado em uma colmeia. Já estava pensando em sistema politico ideal ao escrever Timeu? Certamente. O Oeste, para todos os Povos Mediterrâneos, era o lugar da Morte do Sol e, portanto, dos mortos humanos e seus espíritos, porque só se via o mar aparentemente infinito. Quem ousou voltar de lá para dizer o que havia? Era o lugar no mínimo dos deuses –ancestrais , dos velhos, dos sábios. Osiris foi para o Amenti. Os Celtas diziam que no HiBrazil/Albion estavam os heróis. Para os Gregos, estavam as Ilhas dos bem-aventurados. Por isto Platao, poe sua Utopia lá. Na Terra Ignota. Paralelamente , os tupis migravam para o Leste, para a terra sem Males. Para os mesoamericanos Qetzalcoatl decepcionado com a humanidade se exilou no Leste. Nada mais esperado que considerar a grama mais verde do outro lado da cerca. Se ela realmente é mais verde, ou se realmente pularam a cerca, só outros fatos. No relato platônico, diz que os atlantes eram sábios, que os 10 reis da Federação Atlante se entendiam e que chegavam a um estranho ritual onde lavavam toda roupa suja entre si. Não ha maior sinal de maturidade! É uma civilização velha e, portanto, com muito a ensinar. Inovações só são aceitas se travestidas de tradição (como Confucio fazia, como Augustus faia). Mas já havia um mito de Atlântida antes de Platon? Até agora não temos texto, iconografia, resto arqueológico ou tradição oral mais antiga que Platon. O brasileiro Junito Brandao em seu Mitologia Grega fala bastante de Atlântida, das Amazonas e do seu ponto de contato Mirina, que era uma berbere! O mito sendo as primeiras tentativas humanas de explicar fatos reais, as vezes é canhestro , as vezes é genial. Por trás do mito, sempre há algum fato, eu sou evemerista, mas também há muitas camadas de metáforas.
ROGÉRIO: Eu estou com Foucault nessa leitura da República: Platão procura mais construir um mito do que predicar uma boa sociedade. O Pierre-Vidal Naquet, historiador francês, levantou a hipótese de um Platão historiador exatamente por causa do texto do Timeu. Seria uma reinvenção de alguns topos de Heródoto. Klaus, eu vou arranjar o texto se não isso vai ficar uma confusão incrível. Essa hipótese solar é claro que é uma metáfora. O debate entre o Bailly e o Voltaire acho mais interessante do ponto de vista sobre o que é astrologia e o que é astronomia. Era mais ou menos isso que eles estavam debatendo. E, claro, não li as fontes, mas o texto do Pierre Beaudry que fiz a referência. Aliás, é um ótimo texto se você quiser consultar. O site dele como um todo é bem legal. É um amigo meu. Se não tiver dificuldade com o inglês, possivelmente você goste http://www.amatterofmind.us
E FICAM AS DICAS DE LEITURAS E FICA A OPORTUNIDADE PARA NOVAS CONVERSAS!

A INTERNET, COM CERTEZA, NÃO SINALIZA O FIM DOS TEMPOS.

Solilóquio et urbe



Por Rogério Mattos


Pode ser acessado, completo, no Academia.edu




Solilóquio et urbe

Des Geist in der Natur, Camille Flammarion
Um garçom, que talvez tivesse acabado de sair de sua hora de almoço, estava muito sério a pensar na mesa em que ainda se demorava. Era um bar ou um restaurante de pessoas relativamente abastadas da região onde moro. Um dos frequentadores, membro assíduo daquelas reuniões em que homens barrigudos e de barbas feitas sentavam-se para proferir suas sonoras gargalhadas servidos a gordos pedaços de carne no pão acompanhada de cerveja, acabava, como o garçom, seu almoço. Estava sozinho por ser pleno dia. Fazia – o gordo – sua hora extra no bar. Ao ver o trabalhador tão absorto em seus pensamentos, retrucou:
– Não se pensa sério nessa vida, meu rapaz! Caso esteja blasfemando contra as mil pragas que te perseguem, ainda assim não tem razão. Haverá um dia em que tudo isso acabará e nós nunca, por fim, teremos razão.
No que o rapaz fez cara de pouco entendimento, em parte tentando dar razão ao interlocutor através de um olhar de ignorância que era ressaltado pelo susto tomado pela bravata do cliente, que nem o cumprimentou; de outro lado, reforçando seu papel de completo abestalhado, não entendia absolutamente nada do que lhe falavam, talvez por não ter encontrado dentro de si o mínimo eco daquelas palavras.
Observando o aparente despreparo intelectual do jovem, completou o senhor de meia-idade, aumentando a ironia, sempre algo apertado em seu traje que dificilmente cabia no corpo, devido ao excesso de gordura, e inteiramente desconfortável em seu terno em meio ao forte calor dentro do ambiente que só tinha alguns poucos ventiladores para refrescar sua clientela faminta:
– Caso pense tão gravemente no Holocausto, basta apenas quando tiver sentado colocar as mãos sob o traseiro até que elas fiquem completamente dormentes. Depois tente escrever tudo o que lhe tiver passado na cabeça nesse meio tempo. Verás que existe um meio muito mais confortável de se sentar e que se cansas as mãos permanecendo com elas demasiado tempo em posição incômoda, imagine seu cérebro procurando engendrar conceitos por demais complexos. Tenho dito o que me passa e falei até o que não devia. Boa tarde – completou limpando a boca brilhante de gordura antes de ir-se embora como se nada houvesse acontecido.


Depois de assistir a tão interessante e jocoso diálogo, gostaria de expor minhas impressões, já que carrego há tempo as ideias que suscitaram essas linhas escritas após participar anonimamente daquele colóquio.
Nenhuma força, venho pensando, cá eu, têm o inimigo sombrio. Entre a força e a matéria existe uma distinção tão clara quanto a das noites que sucedem os dias. A força organiza a matéria, sem o que esta se tornaria tão somente as partículas elementares que os cientistas estudam, e a vida se esvaziaria de beleza e significado. Nem a mínima célula poderia se organizar caso dispensasse a força que a preestabelece. A beleza do estudo do mundo microscópico não existiria, pois as células não são somente carbono, hidrogênio ou o que seja. A conjugação dos elementos dentro de uma ordem que se sucede em todos os reinos, guardando cada uma suas particularidades relativas ao grau de desenvolvimento alcançado nos incontáveis milênios desde a criação do planeta são produtores de mistérios infindos. E tanto é o poder dessa força que a tudo molda conforme sua vontade que é muito provável que no dia em que a humanidade conseguir recriar a espécie humana em laboratório, com toda perfectibilidade possível, nada nos garante que esta roupagem esplendorosa terá vida própria. Já que não somos simplesmente um simples aglomerado de matéria – como se os mais variados tipos de pó pudessem, por si só, se organizarem e refletir toda a vida, por exemplo, de uma obra de arte –, a força molda e anima a matéria. Dentro desse paradigma, a recriação do corpo humano sem vida é como a arte sem alma, sem significado: apenas uma cópia mais ou menos perfeita de um modelo antecedente; seria nada mais do que um manequim.


A conjugação das moléculas até a formação de células e destas aos mais variados corpos terrestres, em todos os reinos, se repete incontavelmente no universo, já que não podemos concebê-lo sem vida. Caso pensarmos que existam as mais variadas conjugações elementares e vibrações da matéria no espaço que nossos sentidos não captam, mas que alguns são pesados e medidos em laboratório, como as ondas de rádio e elétricas, podemos concluir não só que o universo é vivo, mas entrever as inúmeras possibilidades de vidas no mesmo. Como são feitas de composições diferentes e vibram em campos distintos do nosso, podem estar tão próximos de nós que caso as vermos é bem provável que nos assustem.
Imaginando a quantidade de vidas no universo a fora e a quantidade de formas que as mesmas podem assumir, às vezes chegando a resultados bem distantes aos que estamos cotidianamente acostumados a assistir, podemos conceber mundos tão diversos do nosso que, quem sabe, até a felicidade plena poderíamos encontrar em um deles. De nossa pequena condição humana, a qual veleja por mares tão tenebrosos para às vezes encontrar os portos mais duvidosos, até se chegar a esse ideal que a História ainda não registrou em seus anais, quantas graduações devem existir, ou seja, quantos níveis de felicidade relativa devem ter alcançado outros mundos mais civilizados que o nosso?
Não precisamos ser astrônomos, nem físicos ou químicos para compreender que as propriedades da matéria se estendem por todo o espaço, numa ordem tal e com tal senso harmônico que dificilmente atribuiríamos ao azoto ou ao potássio inteligência própria capaz de congregar tamanhas maravilhas. O universo e seu bailado infinito e toda multiplicidade, todas as cores, toda beleza do mundo microscópico e toda sua organização cuja síntese pode ser sinalizada no conceito de evolução, são frutos de uma inteligência que é a própria modeladora da matéria. A força rege à matéria e, caso levarmos em consideração que seu produto final é a harmonia perfeita, tal qual o espelho do universo, como também o papel determinante da matéria em todo seu conjunto – quero dizer em todas suas uniões mais ou menos perfeitas do elemento mais simples até chegar à espantosa força solar –, diremos, tal qual na lei da evolução, que ela tende a se tornar, em suas formas múltiplas, cada vez mais incompreensível ou inapreensível para nós e, portanto, invisível. Não é por outro motivo que a conquista do reino microscópico por parte dos cientistas caminha lado a lado com as descobertas no universo, e ao que tudo indica ainda estamos longe de encontrar o estágio fundamental da matéria.
Comparando-nos ao esplendor celeste e levando em conta a lei de evolução que hoje é vista com naturalidade por boa parte dos seres humanos podemos, outrossim, concluir de nossa situação passageira enquanto humanidade. Outras belezas, como nos atesta a História em seus dramas e superações incontáveis, um dia nos serão facultadas. Portanto, entender a o Inimigo sombrio como uma força, seguindo todo nosso raciocínio até aqui, é uma contradição em termos, já que esta submete a matéria e a leva à perfeição. O inimigo, antes, procura a destruição da matéria para se apossar de uma força que em absoluto o pertence. Como ele procura a corrupção e a força a criação, não, nos esforçamos em conceder à esta a primazia, já que o universo inteiro é um ato criador constante. Se não observamos nas alturas a corrupção que a olhos nus nos assalta, tendo em vista nossa realidade particular e limitada dentro de um todo completamente coeso e que nos transcende por inteiro, concebemos que o domínio da matéria em seus estados corruptos também é uma realidade que tende a ser superada.


Falamos do Absoluto diversas vezes, porém não o definimos por entendermos ser tal tentativa inútil. O que nos transcende de pronto nos escapa. Não é por outro motivo que toda ciência se faz por comparações, criando hipóteses que restrinjam ao máximo a abrangência do fenômeno, porém sem descaracterizá-lo, para assim podermos controlá-los através dos pressupostos por nós estabelecidos. Portanto, Deus, em sua inteireza, é a nós completamente desconhecido. Não podemos idolatrá-lo, porque ídolos são feitos de homens, animais ou objetos, e a mais tímida comparação – quer seja do reino hominal – com o Todo, descaracteriza por completo sua presença.
O Amor talvez seja a categoria mais compreensível para fazermos nossa analogia, já que o mesmo não é feito de ídolos, e sim de uma imagem celeste que é a nós totalmente subjetiva. O amor é a própria imaginação celeste, o pensamento criador, já que nele não há corrupção. Logo, igualmente, temos uma grandeza que nos escapa em sua integralidade. No entanto, como a Natureza viva, o amor se manifesta para nós na mais ridícula e por vezes rara banalidade, como a asa da borboleta, que é a polifonia de formas do pensamento feminino.
O que é o amor se não o que é igual, vivente, e até mesmo inferior em suas expressões diminutas e graciosas, e é ao mesmo tempo sempre algo superior a nós? Olhamos a criação ou o criador, o ser amado ou o amor? A personificação da vida é a criação em si mesma; o amor, a maravilha que podemos tocar, mas nunca compreender por si mesma.

Viver o Anti-Édipo: Gilles Deleuze na “Carta a um crítico severo”

 

Murilo Corrêa foi, talvez, quem colocou com maior sucesso esse texto na web. De fato, é um texto que deve ser destacado. Curto, denso, revela a seu leitor boa parte da biografia de Deleuze. A hipersensibilidade na ponta dos dedos mostra a pessoa que sempre atravessou a vida com problemas mais ou menos graves de saúde, e os pensou em termos mais “mentais”, por assim dizer, do que fisiológicos. “Porque não teria direito de falar da medicina sem ser médico, já que falo dela como um cão?”. Em raros momentos, talvez, se tenha visto em Deleuze esses constantes problemas de saúde, sendo visto esta como um todo e não em partes como “tuberculose” de um lado, “falta de impressões digitais” de outro, ou ainda outros problemas que aparecem aqui e ali na entrevista intitulada Abecedário. A frase preferida do Anti-Édipo: “não, nós nunca vimos esquizofrênicos”. Nós nunca vimos um Deleuze com problemas de saúde, com uma hipersensibilidade não só na ponta dos dedos. Algo que nos faz lembrar muito o Nietszche… 

Continue lendo “Viver o Anti-Édipo: Gilles Deleuze na “Carta a um crítico severo””

Discutindo a Fundação Ford

Não é costume desse blog, mas como gostamos muito dessa matéria, de um modo geral, e do texto de Marcus Correa, e um modo particular, republico aqui para os leitores de meu blog. Falta ainda a quarta parte, ansiosamente esperada por mim. Espero que se fale da Fundação Ford no Brasil, de seus vínculos com a CEBRAP, com Fernando Henrique Cardoso, e com, a partir daí, a falsificação da Teoria da Dependência, de Rui Mauro Marini e Vânia Bambirra, pelo Farol de Alexandria.

Publico o texto na íntegra, as três partes, já que não são tão longos.
É espantoso como entidades, ONGs, ativistas e pesquisadores no Brasil, identificados com a esquerda, em sentido amplo, ainda hoje permanecem recebendo recursos da Fundação Ford, mesmo diante de tantas informações e pesquisas disponíveis a propósito da estreita relação existente entre essa entidade, a política externa dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência.
Pressupondo que a razão para esse aparente paradoxo político decorra apenas de um profundo desconhecimento de fatos básicos da história dessa instituição, este artigo procura reunir alguns desses fatos, a maior parte deles recolhidos de importantes trabalhos já publicados.
O artigo apresenta-se dividido em quatro partes: a primeira aborda os primeiros anos da Fundação, do período que vai da sua criação no ano de 1936 até o término da Segunda Guerra Mundial em 1945; a segunda parte se debruça sobre o período entre o início da chamada Guerra Fria até os anos de 1960; a terceira traz fatos a respeito da atuação da Fundação Ford no Brasil, sobretudo, durante a ditadura militar; a quarta parte aborda as atividades da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais.
Cabe observar que, nesse delicado momento atual do país, é cada vez mais relevante que se avolumem discussões sobre o imperialismo, uma vez que, ao que consta, o Brasil não é o centro do capitalismo global e está mais sujeito às suas intempéries do que parece a muitos analistas da esquerda autóctone. E aqueles que não concordarem com essa breve história da Fundação Ford, que contem outra mais idílica.

As origens: de 1936 a 1945
Em uma cerimônia solene ocorrida na cidade de Dearborn, em Michigan, nos Estados Unidos, no dia 30 de julho de 1938, o cônsul da Alemanha acreditado em Cleveland, Karl Krapp, e seu congênere em Detroit, Fritz Heller, presentearam o industrial estadunidense Henry Ford pelo dia do seu aniversário. A pedido do führer, ofereceram-lhe a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã (Großkreuz des Deutschen Adlerordens). Essa alta condecoração do Estado alemão havia sido criada no ano anterior por Adolf Hitler com o intuito de homenagear estrangeiros que desfrutavam da sua admiração. Outros dois indivíduos que receberam a referida medalha honorífica foram Benito Mussolini e o espanhol Francisco Franco.
Adolf Hitler há muito manifestava uma forte simpatia por Henry Ford e manteve uma foto dele em seu escritório em Munique. No início dos anos 1920, Henry Ford escreveu execráveis escritos antisemitas, os panfletos The International Jews: The World`s Problem, transformados ulteriormente em livro e que inspiraram o líder nazista na sua perseguição implacável aos judeus na Europa. Traduzidos para a língua alemã, os escritos de Ford tiveram ampla circulação nos meios nazistas antes de 1933. Por essa razão, a primeira edição de Mein Kampf Hitler, dedicou a Henry Ford.
Afora as concepções lunáticas da existência de uma conspiração judaico-comunista internacional contra a qual ambos lutavam, a admiração de Hitler por Henry Ford advinha também dos métodos de racionalização industrial. Essa racionalização serviria como exemplo tanto ao modelo industrial do Reich, como ao sistema, igualmente fabril, de extermínio bárbaro de milhões de pessoas em campos de concentração, a exemplo de Auschwitz, Sobibor e Treblinka.
Desde os anos 1920, Ford vinha contribuindo com o financiamento do Partido Nacional-Socialista na Alemanha e enviava de 10 a 20 mil marcos alemães como presente de aniversário para Adolf Hitler todos os anos, até 1944. [1]
Nos Estados Unidos, Henry Ford manteve um sistema conhecido pelos críticos como a “Gestapo de Ford”, o que também lhe rendeu o apelido dado pelo New York Times, em 1928, de “Mussolini do Highland Park” [2].
Ford, além de perseguir e reprimir sindicalistas, organizou um sistema de vigilância e controle da vida privada de seus funcionários, por meio da criação de um Departamento de Sociologia da Ford Motor Company. Tal órgão procurava intervir nos aspectos privados dos trabalhadores das fábricas, como moradia, alimentação, lazer e modo de vida. Ford até mesmo contratou um ex-pugilista que serviu como “fiscalizador” do serviço privado de repressão política e social aos trabalhadores da Ford em Dearborn e que lhes fazia visitas inesperadas em seus lares. [3]
A condecoração de Henry Ford com o maior título honorífico dado a estrangeiros pelo governo nazista nada mais foi do que um reconhecimento inter pares. Dois anos antes, no início de 1936, Edsel Ford, filho de Henry Ford e então presidente da Ford Motor Company anunciou a criação da Fundação Ford, que tinha por objetivo dispender recursos “à caridade, à educação e à ciência”. Mas, de fato, a criação da fundação filantrópica familiar servia a interesses econômicos muito claros aos contemporâneos.
Em 1934, um grupo de empresários, banqueiros e oficiais militares estadunidenses patrocinaram uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Franklin D. Roosevelt, golpe esse que visava à instauração de um regime filofascista nos Estados Unidos.[4]
Malfadada a tentativa de golpe contra Roosevelt e no contexto econômico do New Deal, em 1935, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Revenue Act, uma espécie de taxação de grandes fortunas que chegava à casa dos 70%. [5]
O maior prejudicado com a nova legislação seria justamente a multimilionária família Ford. Para dissimular do fisco a cobrança dos novos impostos foi, portanto, criada a Fundação Ford, transferindo-se, assim, 90% das ações da Ford Motor Co. pertecentes à família para a nova entidade “filantrópica”.
Desde então, diferentemente do que se pensa, a Fundação Ford tornou-se a proprietária da Ford Motor Company. [6]
Os três únicos diretores da Fundação Ford no período eram Edsel Ford, presidente da Ford Motor Co. e igualmente presidente da Fundação; Bert J. Craig, secretário e tesoureiro da Ford Motor Co; e Clifford Longley, advogado da Ford Motor Co.
Pressionada pelo governo a dar, então, início a qualquer atividade filantrópica de relevo, a Fundação Ford anunciou, em dezembro de 1937, a doação de um terreno em Dearborn, Michigan, EUA, para a construção de quatro mil “moradias modelo” para operários locais. A Ford doou o terreno e o projeto, enquanto a construção ficaria a cargo de outros empresários que tivessem interesse no empreendimento.
Originalmente anunciado como filantropia a operários, pelos baixos custos de aluguel ou venda, logo o projeto foi desconfigurado, tornando-se um empreendimento imobiliário de mais alto padrão, com centro de negócios, escolas, clínicas médicas, lojas, entre outros. De acordo com uma matéria da época, a iniciativa passou a beneficiar trabalhadores de “white collar”, conforme a expressão do jornal [7].
Essa foi a única iniciativa “filantrópica” da entidade que teve ampla repercussão antes de 1945. O real interesse por trás da criação da Fundação, i.e., dissimular a fortuna familiar adquirida ao longo dos anos de exploração da classe trabalhadora pela Ford Motor Co., fez com que ela permanecesse inexpressiva nas suas ações “humanitárias” durante os primeiros dez anos de existência.
Já na Europa, a Ford Motor Co. mantinha fortes investimentos econômicos desde os anos 1920. Em particular, na Inglaterra e na Alemanha. Neste último, encontrou certas dificuldades decorrentes da ascensão do nacionalismo de ultra-direita no país, uma vez que parte da população sabotava a compra de produtos de empresas estrangeiras. Mesmo assim, a relação com o governo nazista que ascendeu em 1933 era mais amena e a Ford fabricou um terço dos caminhões do exército nazista, por exemplo, e dobrou de tamanho na Alemanha entre 1939 e 1945 [8].
Entre 1941 e 1945, a subsidiária da Ford Motor Co. em Colônia, na Alemanha, a FordWerke, utilizou, inclusive, trabalho escravo de presos estrangeiros e judeus, oriundos da Europa Oriental, da União Soviética, da Itália e da França [9].
Esses são alguns poucos e relevantes fatos do período de origem da Fundação Ford. Frente à oposição política que a família Ford mantinha ao governo de Franklin D. Roosevelt, até o final da II Guerra, a Fundação não atuou em parceria com o governo dos Estados Unidos. E suas atividades de caridade restringiam-se a poucas iniciativas em Michigan. A relação estreita com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência estadunidenses passaria a ocorrer a partir do início da chamada Guerra Fria, objeto da próxima parte desse artigo.
Pós-Guerra e Guerra Fria: de 1945 aos anos 1960
Com o término da Segunda Guerra Mundial, grandes empresários e financistas estadunidenses, muitos dos quais haviam apoiado a ascensão do nazi-fascismo na Europa, bem como muitos quadros técnicos do partido nazista alemão, passaram a colaborar com os Estados Unidos num esforço pela hegemonia global e pelo combate à expansão do comunismo. Entre os frustrados com a derrota nazi-fascista encontrava-se a família Ford, que passaria então a atuar junto à política externa dos Estados Unidos a fim de justificar a série de isenções de impostos que obtivera com a criação da sua fundação “filantrópica” em 1936.
Em 1943, porém, faleceu Edsel Ford, o primeiro presidente da Fundação e presidente da Ford Motor Co. O patrono, Henry Ford, faleceu quatro anos depois, em 1947. Por esta razão, as presidências da Fundação Ford e da Ford Motor Co. ficaram a cargo do filho de Edsel, Henry Ford II. Ele é quem vai reestruturar a Fundação Ford, fazendo com que a entidade passasse a atuar na política internacional, como ocorre ainda hoje.
O intuito aqui não é o de enumerar as diversas atividades e financiamentos promovidos pela Fundação Ford ao longo dos anos, porque isso excederia muito os objetivos desse artigo, não havendo, ademais, um levantamento exaustivo dessas atividades. Optou-se apenas pela apresentação de dados dos principais indivíduos que compuseram o staff da Fundação Ford, destacando suas relações com o aparato estatal dos Estados Unidos e seu complexo industrial-militar-acadêmico.
A partir de 1947, no contexto do lançamento da Doutrina Truman, a Fundação Ford passou por uma reestruturação que, em razão da sua expansão à atuação internacional, necessitava operar em parceria com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, como com a recém-fundada Agência Central de Inteligência, a CIA.
Essas novas diretrizes da entidade foram elaboradas por um conjunto de indivíduos, entre os quais o então presidente da entidade, Henry Ford II, Ernest Kanzler, antigo executivo da Ford Motor Co.,Donald K. David, da Harvard Business School, e Karl T.Compton, presidente do Massachusetts Institute of Technology. Mas, o principal formulador da perspectiva de internacionalização da Fundação foi Horace Rowan Gaither Jr.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Donald David e Karl Compton eram elementos de ligação entre a industria armamentista e as pesquisas acadêmicas nos Estados Unidos [1]. Já Horace Rowan Gaither Jr. era um executivo de corporações privadas ligadas ao Departamento de Defesa e ao Exército dos Estados Unidos, como a RAND Corporation e MITRE Corporation [2].
O primeiro presidente da Fundação, fora dos quadros de diretores da Ford Motor Co.,foi Paul G. Hoffmann. Entre 1948 e 1950, Paul Hoffmann havia sido diretor-chefe da Administração de Cooperação Econômica, organismo que administrava o Plano Marshall na Europa depois da Guerra [3]. No período em que ocupou a presidência da Fundação Ford, apareceram as primeiras denúncias da relação entre a entidade e atividades clandestinas do serviço secreto estadunidense no exterior.
Em dezembro de 1951, por exemplo, o presidente Harry Truman nomeou como embaixador na União Soviética George F. Kennan. Kennan era um especialista em política soviética e foi o formulador da política de “contenção” do comunismo. Em 1944, Kennan já havia composto a embaixada dos Estados Unidos em Moscou. Quando retornou aos Estados Unidos, em 1946, ocupou cargo no Colégio de Guerra e no Departamento de Estado. Entre 1949 e 1950, Kennan “licenciou-se” das suas funções públicas, passando a trabalhar para a Fundação Ford, no seu Fundo do Oriente Europeu para o Entedimento Internacional.
Quando foi novamente nomeado ao cargo de embaixador em Moscou no final do ano de 1951, o Pravda, órgão oficial de imprensa soviética, denunciou Kennan como sendo o responsável pela distribuição de fundos da Fundação Ford para auxiliar “organizações anti-soviéticas” [4]. A nota dizia ainda que o objetivo de tais doações era o de “fomentar atividades clandestinas” no país [5].
Em 1952, com a campanha presidencial do ex-comandante supremo das Forças Aliadas na Europa e ex-comandante supremo da OTAN, o general Dwight Eisenhower, Paul Hoffmann fundou, e igualmente presidiu, a Liga dos Cidadãos Favoráveis a Eisenhower. No mesmo ano, Hoffman trouxe para a Fundação Ford ninguém menos que Richard Bissel, chefe do serviço clandestino da CIA [6] e que havia trabalhado com ele na administração do Plano Marshall. Como membro da agência de inteligência, Richard Bissel era muito próximo de Allen Dulles, que, com a administração Eisenhower, tornou-se o diretor geral da CIA. Bissel recebeu o convite de Dulles para ser seu principal assistente na agência em 1954 e deixou a Ford. [7] Na Fundação, Bissel obteve o auxílio de Allen Dulles e outros altos oficiais colegas seus da CIA na formulação de várias ações da Fundação Ford pelo mundo [8].
Também em 1953, ingressou na Fundação Ford, Frank Lindsay, antigo veterano do OSS – Office of Strategic Service (órgão precursor da CIA). Como Bissel, Lindsay foi um dos primeiros formuladores, em 1947, de técnicas de operações encobertas do serviço secreto dos Estados Unidos. Lindsay foi levado para a Fundação Ford por um de seus diretores, Waldemar Nielsen, também um agente da CIA [9].
Em 1954, foi empossado o novo presidente da Fundação Ford: John McCloy. Antes de ocupar esse cargo, McCloy havia sido Secretário Assistente do Ministério da Guerra dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Depois do conflito, foi Alto Comissário da Alemanha ocupada, foi presidente do Banco Mundial e presidente do Chase Manhattan Bank, pertencente à família Rockefeller. Além de ser diretor de grandes corporações, McCloy foi advogado em Wall Street, representando nessa posição as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos. Como Alto Comissário da Alemanha ocupada, trabalhou junto com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos na Europa no final da Segunda Guerra Mundial, período em que vários quadros técnicos do nazismo passaram a trabalhar para os Estados Unidos [10].
Em 1953, com John McCloy a frente da Fundação Ford, Shepard Stone também ingressou na instituição na área de Relações Internacionais. Shepard Stone havia trabalhado com McCloy como assessor de relações públicas no período em que o segundo fora alto comissário da ocupação da Alemanha depois da Guerra e, depois de ter “recusado” ocupar um cargo na área de operações psicológicas (psy-ops) na CIA, passou a trabalhar para a Fundação Ford [11].
O presidente seguinte da Fundação Ford foi Horace Rowan Gaither Jr. Além de ter sido o responsável pela formulação das diretrizes que estabeleceram o vínculo entre a entidade e o aparato estatal estadunidense em 1947, uma ação sua que vale menção foi que, em novembro de 1957, o presidente Eisenhower encarregou um grupo de cientistas para um estudo, altamente sigiloso, a respeito de possíveis ataques nucleares da União Soviética contra os Estados Unidos. Foi encarregado da presidência do grupo de pesquisadores justamente Horace Rowan Gaither Jr, [12].
O relatório final do grupo, apresentado ao Conselho Nacional de Segurança e ao Departamento de Defesa, previa que, sob risco de uma ameaça nuclear soviética, era necessário um forte aumento dos gastos militares pelos próximos treze anos, ou seja, até 1970, [13], o que fortaleceu a posição do complexo industrial-militar e, em particular, da indústria bélica.
Nesse mesmo ano em que Horace Rowan Gaither Jr. ocupava a presidência da Fundação Ford, em fevereiro, o ministro das Relações Exteriores da União Soviética, Dmitri Shepilov, havia apresentado uma nota à imprensa internacional em Moscou em que denunciava que “organismos oficiais do governo dos Estados Unidos desenvolvem atividades subversivas e de espionagem, sob o disfarce de toda sorte de comissões, fundações e instituições particulares”. A nota citava como cobertura do serviço secreto a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller e a Fundação Carnegie. A nota ainda dizia que a chamada “libertação das democracias populares” havia se convertido na “pedra fundamental da política exterior norte-americana” [14]
Depois de H. Rowan Gaither Jr. o presidente da Fundação Ford foi Henry T. Heald, que ficará no cargo até 1965. Não existem muitos dados a respeito da sua relação com o aparato estatal e de inteligência dos Estados Unidos, apenas que era um indivíduo igualmente vinculado ao chamado complexo industrial-militar-acadêmico estadunidense, uma vez que, entre 1940 e 1952, presidiu o Illinois Institute of Technology [15]. Mas é lícito afirmar que essa relação não deixou de acontecer durante sua administração como presidente da Fundação, a exemplo da atuação da entidade no Brasil desde 1961, como se verá na próxima parte do artigo.
Em 1966, McGeorge Bundy tornou-se presidente da Fundação Ford, ficando no cargo até 1979.Imediatamente antes de ocupar a presidência da Fundação Ford, McGeorge foi Assistente de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson, cargo que,entre outras funções, tinha como prerrogativa o monitoramento das atividades da CIA.
Bundy também havia trabalhado na organização do Plano Marshall e, posteriormente, como reconhecido intelectual de política exterior nos meios conservadores nos Estados Unidos, a ele e ao irmão também é atribuída a formulação de falsos pretextos que justificaram ao Congresso a escalada militar do país na Guerra do Vietnã em 1964 [17].
No mesmo ano, McGeorge Bundy compôs um comitê do governo para formular ações encobertas no Chile para a eleição de Eduardo Frei.[18]. Seu irmão, William Bundy, era membro do Conselho de Avaliação Nacional da CIA e genro do antigo secretário de Estado Dean Achenson [19].
Os dados aqui apresentados são apenas breves exemplos. O fato é que a maior parte dos funcionários de alto escalão da Fundação Ford entre 1945 e 1979 eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com a CIA, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com o alto escalão do complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos. Essas redes de relações do poder imperialista foram estabelecidas durante a Segunda Guerra Mundial e, no pós-Guerra e na Guerra Fria, estenderam-se e aprofundaram-se em decorrência da disputa contra a União Soviética por hegemonia global.
Conforme aponta ainda Frances Stonor Saunders, um dos intuitos principais que movia a relação orgânica entre a Fundação Ford, a CIA e o Departamento de Estado era livrar-se de eventuais embaraços na política interna dos Estados Unidos em relação a ações de inteligência no exterior. As fundações, em particular, a Fundação Ford, e outras entidades privadas, desburocratizavam ações sigilosas (na maioria das vezes ilegais) em outros países, sobretudo, na área cultural e de operações psicológicas (psy-ops), uma vez que não precisavam prestar contas das suas ações ao Congresso do país.
No Brasil
Depois da Revolução Cubana, a política externa estadunidense voltou-se mais atentamente para a América Latina e, em particular, para o Brasil. A pretexto de conter a ameaça comunista internacional, o Departamento de Estado, a CIA, o Pentágono e grandes corporações patrocinaram uma série de regimes militares sanguinários por todo o continente. Foi nesse contexto que a Fundação Ford passou a atuar como organização “filantrópica” no Brasil, em 1961, abrindo um escritório no país ano seguinte, mesmo período em que também o fez no Chile e no México.
Dois elementos que foram abordados nas partes anteriores do artigo merecem atenção aqui. O primeiro deles é o fato de, à época, a Fundação Ford deter a maior parte das ações da Ford Motor Company, diferente do que comumente se pensa (Cf. Parte 1). Em 1962, por exemplo, a Fundação Ford era proprietária de mais de 50% das ações das indústrias Ford e sua principal controladora [1]. O segundo elemento refere-se à relação desenvolvida no pós-Guerra entre a Fundação e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Como já foi mencionado, depois da Segunda Guerra Mundial, a maior parte dos altos funcionários da entidade eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com os órgãos de inteligência, com o Departamento de Defesa, com o Departamento de Estado e com o complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos (Cf. Parte 2).
No Brasil, desde 1962, alguns executivos da Ford Motor do Brasil estiveram vinculados à conspiração civil-militar que levou ao golpe de Estado de 1964. Estavam ligados principalmente ao financiamento do chamado “complexo IPES/IBAD”, cujos recursos advinham, entre outras pessoas jurídicas, da Atlantic Community Development Group for Latin America (ADELA), da qual a Ford Motor era participante, e da American Chamber of Commerce, onde participavam vários diretores da Ford Motor do Brasil (Mario Bardella, Robert F. Carlson, Luiz B. Carneiro da Cunha, Joseph Radleigh Dent, H. H. Eichstaedt, John C. Goulden) [2]. Inclusive, em 1963, o Congresso brasileiro instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades do IBAD no financiamento da campanha eleitoral anterior. O predidente da CPI foi o deputado federal Rubens Paiva.
Mas o principal nome vinculado à Ford Motor do Brasil com participação no golpe de 1964 foi Humberto Monteiro. Monteiro era membro-diretor da seção de São Paulo do IPES. Também integrava o Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de São Paulo, da American Chamber of Commerce. [3] Monteiro foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Ademar de Barros e presidente da União Cultural Brasil-Estados Unidos. [4]
Logo após o golpe, em setembro de 1964, chegou ao Brasil, Peter Dexter Bell, um dos mais importantes representantes da Fundação Ford para a área internacional e responsável pela distribuição dos recursos da entidade no país. Antes de ocupar tal posto, Peter Bell havia estagiado na área de Relações de Segurança Internacional do Pentágono. Meses depois da sua chegada ao Brasil, no início de 1965, ele fez sua primeira visita a uma instituição de ensino superior, a Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Lá, foi recebido com a explosão de uma bomba, detonada por estudantes a fim de que ele “mantivesse distância”. [5]
É importante relembrar (Cf. Parte 2) que, em 1964, McGeorge Bundy, que assumiria a presidência da Fundação Ford dois anos depois, era Assessor de Segurança Nacional do presidente Lyndon Johnson e uma das suas prerrogativas era monitorar e assessorar as atividades da CIA ao redor do mundo. McGeorge Bundy compôs, também em 1964, um comitê especial da Casa Branca, junto com outros membros do governo e das agências de inteligência, a fim de determinarem ações clandestinas no Chile para auxiliar na eleição de Eduardo Frei.[6] É provável também que, ocupando o cargo, tenha sido um dos formuladores da parceria golpista para o Brasil.
Na mesma época, o irmão de McGeorge, William Bundy, compunha o Comitê Nacional de Avaliação da CIA. Os irmãos Bundy são ainda apontados como os formuladores de falsos pretextos apresentados ao Congresso dos Estados Unidos para justificar a escalada militar do país na Guerra do Vietnã a partir de 1964. [7] McGeorge ficará na presidência da Fundação Ford entre 1966 e 1979, período de maior influência da entidade no Brasil. Portanto, Peter Bell foi o principal representante, no Brasil e na América Latina, da administração de McGeorge Bundy na Fundação Ford.
Seguindo as diretrizes de internacionalização da Fundação, formuladas por Horace Rowan Gaither Jr. depois da Segunda Guerra Mundial (Cf. Parte 2), a principal atividade de Peter Bell no Brasil era promover o financiamento de atividades nos campos social, acadêmico e cultural. No pós-guerra, uma série de colaborações diplomático-empresariais foram firmadas entre o Brasil e os Estados Unidos. Duas delas foram a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, criada em 1951, e ligada ao Ponto IV do Plano Marshall [8] e, em 1961, a Aliança para o Progresso. Ambas as parcerias, no entanto, destinavam-se sobretudo ao campo econômico-industrial. Logo, na estratégia da política externa dos Estados Unidos, um dos papéis a ser cumprido pela Fundação Ford no Brasil seria o de atuar em áreas que as iniciativas anteriores não abrangiam e essa foi a atuação de Bell.
Peter Bell ficou no Brasil entre 1964 e 1969 e ele próprio narra que encontrou-se com agentes da CIA por aqui, a pedido do embaixador dos Estados Unidos, a fim de conversarem sobre os financiamentos promovidos pela Fundação Ford. [9]
Em março de 1968, o presidente Arthur da Costa e Silva solicitou ao Congresso uma autorização, em caráter especial, para que a Fundação Ford fosse considerada de “utilidade pública”, o que era uma prerrogativa apenas de entidades nacionais. Na exposição de motivos formulada pelo ministro da Justiça, Luis Antônio da Gama e Silva justifica-se para tal medida em “face aos relevantes serviços prestados pela entidade através da realização de intenso programa social objetivando o bem estar humano…” [10]. Em junho, o Senado aprovou a solicitação do general.
Seis meses depois dessa aprovação, tanto Costa e Silva, como o professor e ex-reitor da USP, Gama e Silva, foram signatários do Ato Institucional n. 5 (AI-5), expressando a preocupação de ambos com o “bem estar humano” no país, promovendo expurgos, torturas, assassinatos, perseguições e toda a sorte de barbárie contra a população organizada contra o regime.
Em 1 de julho de 1969, na esteira do AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes e a Ford Motor Co., cuja maior acionista era a Fundação Ford, tornou-se uma das suas principais financiadoras [11]. O intuito central da operação era o extermínio dos militantes comunistas do país. A Ford Motor Co. dispendeu recursos também para a criação dos DOI-CODI, conforme, entre outras fontes, o depoimento à Comissão da Verdade do ex-agente da repressão Merival Chaves, do setor de inteligência do Exército [12]. É desnecessário mencionar aqui as atrocidades perpetradas pelo órgão contra os revolucionários brasileiros do período.
Entre as muitas iniciativas “filantrópicas” da Fundação Ford no Brasil, a mais conhecida foram os recursos que, também em 1969, a entidade destinou à criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), cujo principal pesquisador veio posteriormente a ser presidente do país, o procônsul do império Fernando Henrique Cardoso. O centro foi fundado por professores que haviam sido demitidos da universidade em razão do AI-5 e, no primeiro momento, a embaixada dos Estados Unidos e a CIA no Brasil, talvez um pouco desinformados, viram com preocupação o auxílio da Fundação Ford. Porém, segundo o próprio Peter Bell, depois que ele se reuniu com um agente da CIA no país, a preocupação se desfez e a entidade destinou recursos à criação do centro de pesquisa. [13]
Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em 2012, Peter Bell afirmou, com toda razão: “No contexto do período, entendo que alguns brasileiros possam ter desconfiado de mim.” [14]
Conforme o processo de abertura política no país a partir de meados dos anos 1970, a Fundação Ford foi “camaleonicamente” adaptando-se ao novo ambiente e sua nova linha de atuação passou a ser os chamados “direitos humanos”. A quarta e última parte do artigo irá abordar alguns fatos relevantes da história da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais. É possível afirmar que também nesse período a promoção do “bem estar humano” e dos “direitos humanos” foi mais uma vez apenas uma cobertura na defesa dos interesses do imperialismo yankee.

NOTAS DA PARTE 1:
1 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Desordem Mundial: o espectro da total dominação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p. 44-46
3 – Idem.
4 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. cit. p. 44-46
5 – CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 26-27
6 – Idem. p. 26-27
7 – De La Crosse Tribune, La Crosse, Winconsin, EUA, 6 jul. 1939.
9- REICH, Simon. Tha Nazi Party: Ford Motor Company and the Third Reich. Jewish Virtual Library. A própria Ford Motor Co. em 1998 abriu um amplo processo de investigação interna sobre a conduta da sua subsidiária na Alemanha, provocada por processos legais de sobreviventes do Holocausto que foram movidos contra a empresa por haverem trabalhado como escravos na FordWerke.

NOTAS DA PARTE 2
1– CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 28
2 – CHAVES, Wanderson da Silva. Idem.p.28 ;História da RAND Corporation no seu sítio eletrônico.
3 – O Estado de S. Paulo, 18 mar. 1952
4 – O Estado de S. Paulo, 28 dez. 1951
5 – Jornal do Brasil, 28 dez. 1951, p. 7.
6 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 655 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974. Este último livro traz muitas informações sobre Bissel.
7 – STONOR, Francis Saunders. The Cultural Cold War: the CIA and the world of arts and letters. New York/London: The New Press, 1967.
8 – STONOR, Francis Saunders. Op. Cit. ; PETRAS, James. The Ford Foundation and the CIA. Rebellion, 5 dez. 2001.
9 – STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p. 119
10–Biografia de John McCloy no sítio eletrônico do Bando Mundial; PETRAS, James. The Ford Foundation and the CIA. Rebellion, 5 dez. 2001; STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p. 120.
11–; STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p.120
12 – O Estado de S. Paulo, 27 nov. 1957, p. 2
13 – O Estado de S. Paulo, 21 dez. 1957, p.5
14 – O Estado de S. Paulo, 7 de fev. 1957, p. 2
16 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz.Op. cit. p. 270,318, 772.
17 – MARCHETTI, Victor & MARKS, John D.Op. Cit. Este livro traz muitas referências sobre os irmãos Bundy.
18 – STONOR, Francis Saunders. Op. Cit. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. Cit.; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974

NOTAS DA PARTE 3
[1] – O Estado de S. Paulo, 9 de março 1962
[2] – DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classes. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.
[3] Idem.
[4] – O Estado de S. Paulo,
[5] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos.https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ e Entrevista com Peter Bell. O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221
[6] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 259, 318, 772 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974.
[7] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op.cit. p. 259, 318, 772.
[8] – CANEDO, Leticia Bicalho. Op. cit.
[10] – O Estado de S. Paulo, 23 mar. 1968
[11] – BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília: CNV, 2014. Vol. 1. e Vol. 2.
[12] – Comissão Nacional da Verdade. Tomada pública de depoimento de agentes da repressão: Merival Chaves. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pKcnTDCcDuw (a partir dos 21 minutos)
[13] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos.https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ ; E Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012. http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

Um Rio e muitas Baixadas: uma questão social

Vista sobre a Baixada Fluminense

A produção de resíduos tóxicos provenientes dos lares, mais do que das indústrias (como a farmacêutica ou a metalúrgica, por exemplo) são um caso de estudo para se compreender como se deu a urbanização da região metropolitana do Rio de Janeiro. A exclusão das famílias mais pobres para as áreas periféricas, o incentivo à favelização dos morros (não é algo que, como a morte de Teori, se deu ao acaso), o tipo de urbanização com que se conformou as áreas consideradas nobres (o processo de “verticalização” das moradias junto à especulação imobiliária), mostra não só o caos urbanístico, porém revela as bases frágeis da economia da região.
De um lado, numa zona mais industrializada, o lixo abundante e de alta carga tóxica seria o problema ululante, e nem nos piores pesadelos seria sobreposto em gravidade pelo lixo doméstico. O que mostra, como no exemplo da proliferação dos táxis e ubers na cidade, assim como do tráfico de drogas (como componente do terceiro setor), uma cidade que tem boa parte de sua mão-de-obra relegada à informalidade, com salários baixos e expectativa de vida oscilante. Por outro lado, a questão do lixiviado demonstra o quão longe ainda estamos de ser a cidade bela que presumimos, devido ao grave problema social e ambiental que sua falta de tratamento produz (o saneamento básico, com certeza uma das maiores tarefas brasileiras). Vide a nunca impoluta, a bela sempre com alguma mácula, Baía de Guanabara.
Por isso resolvemos publicar nesse blog o texto belo e nem por isso menos objetivo de Lays Rodrigues, bióloga e mestre em engenharia ambiental, sobre nosso Rio e suas muitas Baixadas.



Um Rio e muitas Baixadas: uma questão social

Os resíduos sólidos de origem doméstica não só em quantidade, mas em variedade, ultrapassam a produção de dejetos industriais ou de outras fontes, como o produzido pelos hospitais. É impossível mapear a origem dos componentes que são encontrados no lixiviado, ainda que uma averiguação acerca da cartografia que compõe este aglomerado tóxico não possa ser descartada completamente, pois os detritos domésticos e as estruturas familiares produtoras do que se tornará o material tóxico são certamente conhecidas. A questão da inclusão ou não destas categorias no planejamento urbano concernente à coleta e ao tratamento do lixo não exclui a necessidade de considerar, nem que com os conceitos mais básicos possíveis, a inclusão da produção realizada por estes contingentes humanos na escala dos agentes tóxicos encontrados nos aterros sanitários.
Transformações químicas ou biológicas ainda na fase sólida ou no lixiviado podem levar a formação de substâncias tóxicas a partir de componentes orgânicos relativamente inócuos. Exemplos disso são o 1,4 dioxano (uma substância controlada), tanto quanto o tetracloreto de carbono, princípio constituinte do PVC (Slack et al, 2004). Farmacêuticos ou resquícios de metais pesados como o mercúrio (de difícil tratamento) são encontrados nos lixiviados provenientes de grupos familiares, ainda que neste aspecto específico tenhamos que fazer uma distinção entre os aterros sanitários dos municípios de diferentes países. Contudo, tanto os componentes orgânicos quanto os industriais ou farmacológicos compõem a produção de resíduos sólidos das famílias, numa mescla difícil de ser descriminada por qualquer legislação. Seu tratamento impõe inúmeras dificuldades não catalogadas no conjunto do que meramente é chamado de “lixo familiar”.

Aterros sanitários construídos em Roma há mais de 2000 anos ainda produzem lixiviado, assim como os aterros sem revestimento num clima bastante úmido conterão perigosos elementos químicos, acima dos padrões aceitáveis para o consumo de água, por algumas centenas de anos. A intromissão nos aterros sanitários de componentes de alta toxicidade é acontecimento da história recente (falamos da Revolução Industrial). O fato de a Roma imperial continuar a exalar o gás de seus lixiviados é uma advertência ao que hoje temos como comum a partir da decomposição dos resíduos sólidos retirados de nossa mais cotidiana existência. Lá os produtos sintéticos ainda não existiam, enquanto para nós quase nada do que consumimos deixa de estar amarrado, embrulhado, envolvido em algum produto desta espécie.
Quando falamos dos resíduos sólidos produzidos dentro dos grupos familiares, a mera distinção entre “industrial”, “doméstico”, “farmacêutico”, não é suficiente para dar conta dos componentes tóxicos da degradação destes resíduos em sua forma líquida, o lixiviado. O fenômeno urbanístico caracterizado como “explosão demográfica da Baixada” (Abreu, 2011) resultou do crescimento no número de loteamentos desta região em taxas elevadíssimas, em muitos casos superiores a 140%, por mais de três décadas. A abertura da rodovia Presidente Dutra, os incentivos fiscais concedidos pelo antigo Estado do Rio com o objetivo de reverter a queda das receitas tributárias ocasionadas pela crise da citricultura e a eletrificação dos trens que seguiam até Queimados e Paracambi ou da Linha Auxiliar até Belford Roxo, contribuíram para a rápida propagação do povoamento da região metropolitana do Rio de Janeiro, para além dos limites estabelecidos das regiões da Pavuna e Anchieta.

Coevo do fenômeno de povoamento da Baixada Fluminense, a problemática caracterizada pela geografia urbana carioca de “verticalização da Zona Sul” foi a resposta da empresa imobiliária à Lei da Usura, da década de 1930, que “impedia o reajustamento de prestações e saldos devedores em contratos de financiamento”, e ao congelamento dos aluguéis também decretado pelo Governo, o que representou “um desestímulo a mais à compra de habitações para renda” (Abreu, 2011). A saída para o impasse não necessitou a extrapolação dos rígidos limites legais, pois a lei federal determinava o que um apartamento ou casa deveria ter, mas não previa áreas nem formas. O raciocínio econômico que levou à verticalização da Zona Sul carioca, baseada no modelo de apartamentos quarto-e-sala e conjugados, é simples: poderiam vender imóveis que atenderiam nos valores às determinações da legislação, enquanto majoravam os lucros do empreendimento com o incremento da oferta quantitativa de unidades à venda.
Ainda que não necessitemos nos deter neles, ainda há outros fenômenos urbanos correlatos aos dois acima expostos. A favelização da zona da Leopoldina e de suas proximidades, também reflexo da expansão demográfica e da questão de como os empregos eram criados à época (mais serviços e comércio, menos indústria), assim como o crescimento de importância de áreas suburbanas como Madureira, atendendo às demandas dos núcleos urbanos recém criados (na área metropolitana, distante do centro), são exemplos do que o pesquisador encontrará nos aterros sanitários cariocas, precisamente o que os distingue quando consideramos pesquisas em aterros sanitários primordialmente de países desenvolvidos ou com grau elevado de industrialização, como a China.

O processo de expansão urbana do Rio de Janeiro evidencia o aumento da densidade demográfica da região baseado na lógica da especulação imobiliária ou na necessidade do Estado de criar novas fontes de renda por meio do loteamento das terras próximas à nova Rodovia Rio-São Paulo. A divisão e cerceamento do território na Baixada Fluminense é simulado pela proliferação de apartamentos de pouca metragem na zona sul carioca. Os incentivos fiscais para o estabelecimento de indústrias ao longo da rodovia Presidente Dutra é um processo interrompido com a paulatina perda de importância do Rio de Janeiro no cenário nacional (construção de Brasília), assim como pelo estabelecimento do governo autoritário que preferencialmente abonava indústrias estrangeiras produtora de bens de consumo de alto valor agregado, em detrimento do subsídio à indústria nacional. Como resultado, temos altas percentagens da população vivendo em condições rurais ou semi-rurais, suburbanas no sentido em que não recebem as benesses das melhorias públicas implantadas pelo Estado, tampouco usufruem das elevadas remunerações dos trabalhadores mais qualificados do setor industrial, e que por isso possuem um perfil de consumo diametralmente oposto ao das zonas altamente industrializadas do planeta.

Os resíduos sólidos e o lixiviado do Aterro Controlado Metropolitano de Jardim Gramacho devem ser abordados em qualquer pesquisa a partir desta perspectiva. Portanto, a problemática dos desreguladores endócrinos aparece ainda mais evidenciada nestas condições devido ao perfil de consumo das famílias e, de um modo geral, ao tipo de expansão urbana carioca experimentada na metade do século passado. Caso nos debrucemos exclusivamente sobre os perigos dos resíduos sólidos domésticos, das contaminações encontradas nos lixiviados no aterro sanitário de Jardim Gramacho, o foco nos desreguladores endócrinos é ainda mais saliente. Ao contrário das análises dos aterros municipais realizadas em países com processos de industrialização mais complexos do que o nosso, os desreguladores em ambientes como o nosso são de vital importância, tendo em vista a gama de produtos sintéticos consumidos por todos os tipos de famílias, mas principalmente as de renda menos elevada.
O paralelo com a toxicidade dos aterros construídos na Antiguidade, na Roma imperial, em níveis considerados elevados até os dias de hoje, mostra apenas uma face dos desafios impostos por quem se ocupa da toxicidade produzida pelo lixiviado do aterro municipal de Gramacho. Não tanto pela ampla variedade de materiais novos produzidos pela sociedade com o advento da Revolução Industrial no que concerne ao uso de metais pesados e componentes químicos, mas pelo advento mais recente de produtos sintéticos, cuja capacidade de incorporação ao consumo doméstico em todos os extratos da sociedade é ainda mais forte. O aterro sanitário de Jardim Gramacho, com suas atividades encerradas no ano de 2012, experimentou em seu período de funcionamento pouco contato com a atual expansão de consumo das classes menos abastadas, ou seja, no que isso se reflete no descarte de aparelhos eletrodomésticos e eletroportáteis, assim como no incremento do consumo doméstico de produtos farmacológicos, resultado da expansão da rede farmacêutica ainda na década de 1990 e da proliferação das farmácias populares nos últimos dez anos. Portanto, o foco, tratando-se do aterro de Gramacho, é nos produtos sintéticos e químicos de ampla circulação entre a população, com resultados evidentes na problemática dos desreguladores endócrinos.

Fora da faixa de alto consumo da exígua classe abastada carioca, encontramos muitas Baixadas num Rio não tão caudaloso, pois não soube dar curso apropriado ao seu desenvolvimento industrial – único vetor para a mudança de sua paisagem urbana em amplo espectro, na produção de uma burguesia nacional consolidada e de elevado padrão de vida. Este, ao contrário, é o legado dos países cujo surto industrializante soube beneficiar sua população de um modo geral. Contudo, a questão do tratamento do lixiviado, da presença ou não de desreguladores endócrinos mesmo após a passagem pelas etapas de tratamento, tem a capacidade de reverter à população um tipo específico de malefício. É que nos limites do Rio encontra-se a Baía, receptora de todos os poluentes e tóxicos para a saúde humana resultantes de um tratamento não adequado durante sua estadia no aterro sanitário.


REFERÊNCIAS

ABREU, M. A., Evolução Urbana do Rio de Janeiro, Instituto Pereira Passos, pp.126- 129, Rio de Janeiro, 2011.
SLACK, R. J., GRONOW, J.R., VOULVOULIS, N., Household hazardous waste in municipal landfills: contaminants in leachate, Science of The Total Environment, v. 337, pp.119–137, 2005. 



OLIVEIRA, Lays Rodrigues Santos de. Avaliação da toxicidade aguda do lixiviado tratado pelos processos de wetland e nanofiltração. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Engenharia: 2014. 

ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS I: “Libertar-se do ‘velho chinês’ de Königsberg”

Michel Foucault e Benedito Nunes na praia do Marahú – Belém, 1970. Será que ali discutiam Kant? Ou foi por inpiração do “velho chinês” que Foucault foi parar na praia do Marahu?

ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS I
Por Rogério Mattos: rogerio_mattos@hotmail.com
Essa série, Antropologias foucaultianas, se destina à discussão depossíveis leituras foucaultianas, desde a tradição filosófica até a história da arte, da historiografia e, mesmo, da própria história das leituras que se fizeram de Foucault, com destaque para o “Foucault leitor de Foucault”, como nomeou Roger Chartier. Nessa primeira parte, utilizando de fontes primárias da época da auge da chamada “ideologia alemã”, questionaremos: como se libertar do “velho chinês” de Königsberg, a suposta bela alma, Kant?

Libertar-se do ‘velho chinês’ de Königsberg

Escrevo essas palavras para levantar, por parte dos meus leitores, indagações sobre leituras que “casam” com os conceitos de Foucault. Por exemplo, escuto muito falar de Peter Sloterdijk, a “Crítica da razão cínica”, mas ainda assim não me empolgo para sua leitura, por ter me parecido um autor muito influenciado por Heidegger, Hegel, etc., (o que talvez barbaramente podemos chamar de “ideologia alemã”, ou seja, o que de pior a Alemanha produziu em termos de filosofia, a começar por Kant). Claro que não falo de Nietzsche, que é alguém que pensa “de fora” (como Foucault fala sobre Blanchot), e que não é muito diferente da História da religião e da filosofia na Alemanha, do excelente Heinrich Heine que, em sua excelente História da religião e da filosofia na Alemanha, diz: “Afastem-se, espíritos! Pois falo agora de um homem cujo próprio nome carrega consigo um poder de exorcismo; falo de Immanuel Kant. Dizem que espíritos da noite se alarmam com a visão da espada de um executor. – Com que terror eles não devem ter ficado quando a Crítica da Razão Pura foi colocada diante deles. Esse livro é a espada com que o deísmo foi executado na Alemanha1”. Depois disso, faço um breve recorte e anotações das palavras de Heine, quase um exilado na França (escreve para periódicos franceses na língua para ele estrangeira), um crítico feroz da falta de liberdade que assolou o país desde Kant, pelo menos, e que chega aos cumes na época de Hegel (que adorou esse estado), e nos sofrimentos, por exemplo, do gênio da matemática, Carl Gauss, na publicação de suas descobertas e escritos…

A Crítica da Razão Pura, como eu disse, é a principal obra de Kant, ao passo que seus outros escritos podem ser vistos como mais ou menos dispensáveis ou, no máximo, como anotações. A importância social de sua principal obra irá se tornar aparente no que se segue.

Os filósofos antes de Kant pensaram, isso é fato, sobre a origem de nosso conhecimento e, como já demonstramos, seguiram duas trajetórias distintas, dependendo de se aceitavam ideias a priori ou a posteriori. Entretanto, houve menos pensamento a respeito da faculdade de conhecimento em si, sobre sua extensão ou sobre seus limites. Essa, então, tornou-se a tarefa de Kant: ele submeteu nossa faculdade de conhecimento a uma investigação rigorosa; examinou todas as profundezas dessa faculdade e estabeleceu seus limites. A bem da verdade, descobriu que não somos capazes de saber absolutamente nada a respeito de um grande número de temas que antes pensávamos conhecer de maneira mais profunda. Isso foi extremamente cansativo. Mas é inegável que tenha sido útil saber sobre quais das coisas que existem não podemos ter conhecimento algum. É tão vantajoso o fato de nos prevenirem a respeito dos caminhos inúteis como o de nos mostrarem o caminho correto. Kant nos provou que nada sabemos a respeito das coisas do modo como elas são em si mesmas; em vez disso, nós as conhecemos apenas na extensão em que elas são refletidas em nossa mente. Sendo assim, somos exatamente como os prisioneiros de que Platão fala de modo tão sombrio no sétimo livro de sua República: aqueles infelizes, amarrados pela garganta e pelos pés para não conseguirem virar suas cabeças, sentados em uma prisão com uma abertura no alto, de onde recebem uma certa luz. Essa luz, porém, vem de um fogo que queima atrás e em cima deles, e que, além disso, está separado dlees por um prqueno muro. Pessoas que carregavam todo tipo de estátuas e imagens de madeira e pedra andam ao longo desse muro, conversando uns com os outros . Os pobres prisioneiros não conseguem ver nada dessas pessoas, que não são tão altas quanto o muro. Eles veem apenas as sombras das estátuas que as pessoas carregam, que ficam visiveis acima do muro, e essas sombras andam para cá e para lá na parede à frente deles. Eles acreditam que essas sombras são coisas reais e, enganados pelo eco de sua prisão, acreditam que são as sombras que conversam umas com as outras.

A filosofia antes do aparecimento de Kant, vinha farejando coisas por todo o lado, coletando e classificando suas características. Com Kant, isso teve um fim, pois ele conduziu uma investigação da mente humana e examinou o que era revelado por ela. Como consequência, ele comparou sua filosofia, de maneira justíssima, ao método de Copérnico. Antes, quando se acreditava que o mundo se mantinha imóvel e se pressupunha que o Sol girava em torno dele, as medições astronômicas não eram especialmente congruentes. Copérnico tornou o Sol imóvel e fez a Terra orbitar em torno dele; e, olhe, agora tudo se resolvia de maneira esplêndida. Antes, a razão, como o Sol, orbitava o mundo das aparências e buscava iluminá-lo; Kant, porém, manteve a razão, o Sol, imóvel e fez o mundo das aparências orbitar a seu redor e se iluminar sempre que entrasse em seu domínio.2


Isso, na verdade, porde ser chamada de uma piada culta. A filosofia de Kant é a luz do sol, foco imóvel que ilumina a Terra, ou seja, o mundo das aparências. A única coisa que existe de verdadeira é essa luz da razão, a luz do prórpio Kant, em suma. Por isso, na filosofia kantiana, habitamos a caverna de Platão: “Só podemos conhecer algo sobre as coisas como fenômenos; não podemos saber nada delas como coisas em si. Estas são simplesmente problemáticas; não podemos dizer ‘elas existem’, tampouco ‘elas não existem’. Na verdade, a expressão ‘coisa em si’ é diferenciada da palavra ‘fenômeno’ apenas para que possamos falar de coisas porquanto nos sejam conhecíveis, sem que nosso juízo esbarre nas que são incognoscíveis3”. Não é por outro motivo que os cálculos de Kepler sobre a órbita solar foram os únicos planamente satisfatórios para a época. Copérnico, como tantos outros, vendo os astros se moverem de modo circular, poderia colocar até a lua como centro do sistema, que ele não seria alterado. Logo,

Para Kant, Deus é uma coisa em si. Segundo sua argumentação, o ser ideal e transcedente que, até então, chamamos Deus, não é nada além de ficção. Ele surgiu de uma ilusão natural. Na verdade, Kant mostra que não podemos saber nada dessa coisa em si, Deus; além disso, qualquer prova futura de sua existência é impossível. Somos forçados a escrever as palavras de Dante, “Abandonai toda a esperança!”, sobre essa seção de Crítica da Razão Pura4.

Kant é comparado por Heine a Robespierre. Este, um assassino, aparentemente nada tem a ver com um pacato professor universitário, mais pontual que o próprio relógio da província onde morava (diziam que o relógio era corrigido de acordo com as horas que Kant passava na rua – de fato, era ele quem estava sempre certo). Mas, como grande iconoclasta (“grande destruidor na esfera do pensamento”), teve suas similaridades – e algumas diferenças – com o líder do Terror.

No entanto, se Immanuel Kant, o grande destruidor na esfera do pensamento, ultrapassa de longe Maximilien Robespierre no quesito terrorismo, ambos, por outro lado, tinham certas similaridades, que nos convidam a compará-los. Em primeiro lugar, encontramos nos dois a mesma honestidade inflexível, mordaz, prosaica e objetiva. Em segundo, vemos em ambos a mesma aptidão para a desconfiança, exceto pelo fato de o primeiro aplicá-la sobre o pensamento e chamá-la de criticismo, ao passo que o segundo a utiliza contra as pessoas e a chama de virtude republicana. Ainda assim, ambos revelam no mais elevado grau a espécie do petit-burgeois – a natureza os havia destinado a medir café e açúcar, mas o destino os forçou a pesar outras coisas, e pôs um Deus e um Rei, respectivamente, em suas escalas…
E eles encontraram seu verdadeiro peso!5


Algo relativamente marginal na obra de Foucault, a preocupação com a filosofia aristotélica, aparece de maneira bem desenvolvida em sua genealogia no primeiro ano de curso no Collège de France, no volume entitulado Aulas sobre a vontade de saber. Fazemos alusão ao curso pela alusão algo rara entre Aristóteles e Nietzsche. Falemos do primeiro antes de chegarmos ao outro.

Texto muito conhecido, muito banal e que a localização nas linhas iniciais da Metafísica parece manter na margem da obra: “Todos os homens têm, por naureza, o desejo de conhecer; o prazer causado pelas sensações é prova disso, pois, além de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as sensações visuais”6.


Aqui começam a se estabelecer as premissas do contentamento do homem sábio. O saber encarado como algo se não totalmente corporal, pelo menos com origem no corpo, nas sensações. Seu pendor intelectual se ampara nas sensações visuais, mas de um modo tal que “imediatamente o corpo, o desejo são elididos; o movimento que no próprio nível raso da sensação leva rumo ao grande conhecimento sereno e incorporal das causas, esse movimento já é, em si mesmo, vontade obscura de alcançar essa sabedoria, esse movimento7”. Logo, conhecimento que nasce de um instinto, de uma motivação puramente corporal, cujo objetivo é o gozo (mas “sublimado”, intelectualizado) e que, assim, solapa o próprio corpo e seus desejos no cadafalso da comtemplação e das puras teorias. “Sua função é assegurar também que, apesar da aparência, o desejo não é nem anterior nem exterior ao conhecimento, visto que um conhecimento sem desejo, um conhecimento feliz e de pura contemplação já é, em si mesmo, a causa desse desejo de conhecer que tremula nos simples contentamento da sensação8”. Por isso, “o escândalo que há em recolocar a vontade e o desejo fora da consciência, como fizeram Nietzsche ou Freud9”.

Nietzsche vai colocar toda essa verdade apoiada na consciência, já presente na forma mais elementar da sensação – o contentamento com si mesmo – como algo ilusório. “A vontade é aquilo que diz com voz dupla e superposta: quero tanto a verdade que não quero conhecer e quero conhecer até o ponto e até um limite tal que quero que não haja mais verdade. A vontade de poder é o ponto de ruptura em que verdade e conhecimento se desatam e se destroçam mutuamente”. Palavras fundamentais. Toda vontade de saber não é a busca pelo contentamento com um teoria pura. Vontade de saber é, antes, vontade de poder. Para tanto, a verdade deve ser irremediavelmente separada do conhecimento. A verdade não opera nos cinco sentidos do animal aristotélico. Por isso a vontade de poder é um ponto de ruptura, que opera tanto “o grande nojo do homem” de Zaratustra quando este deve voltar à planície, como também a sensação de escalar alturas imensas, fazendo cobrir suas orelhas de chumbo: quanto mais ao alto, mais próximo a queda trágica. Vertigens.
Uma nota curiosa desse texto de Foucault, relativamente raro, sobre Aristóteles (e que tenta situá-lo na história da filosofia, com Platão, sofistas, mas também com o saber dos poetas antigos como dos trágicos – trilhas de Os mestres da verdade da Grécia arcaica), é que coloca-o como uma exceção à filosofia antiga. Como exceção, seus textos são os mais próximos dos modernos: o sujeito do puro conhecimento, como em Descartes, como no próprio Kant, refazem, na modernidade, a diferença que constituiu Aristóteles para os outros gregos.
Conclusão:

Deleuze foi bem sábio quando disse (em Nietzsche e a filosofia) que se houve alguém que Nietzsche lutou contra durante toda sua vida, ainda que sejam muito poucas as referências explícitas e qualquer de seus textos, esse alguém foi Hegel. Não poderia o filósofo da afirmação se conformar com o da negação. E é esse mesmo espírito anti-negacionista, afirmativo da vida, que faz Heine criticar de maneira até satírica, humorística, os sábios de seu tempo, de Kant a Hegel. A Alemanha teve o dom de fazer renascer a filosofia (tem uma coisa muito socrática, até mesmo “anti-sofística” e anti-aristotélica nos escritos de Lutero, que quase podemos colocá-lo – além de certos escrúpulos religiosos – como alguém que iniciou esse processo, mas que teve um desenvolvimento notável com Leibniz e, a partir desse, com toda uma escola que veio a fundar a física moderna, com Gauss, Riemann, Abel, até os tempos de Planck e Einstein), mas que também foi sua tumba, onde se enterrou, com a suposta “ideologia alemã”, com suas influências britânicas principalmente, o lugar que parecia ter sido criado como uma espécie de nova Grécia. Como disse, ainda, Heine, em seu Poemas dos tempos:

Ribombe o tambor e não tenha medo
E beije a mulher boateira!
Essa é toda a filosofia
É o que dizem de verdade os livros.
Desperte o povo com seu tambor
Ribombe o toque de alvorada com a força da juventude,
Marche adiante e adiante, ribombando seu tambor,
Essa é toda filosofia.
Essa é a filosofia hegeliana,
É o que dizem os livros.
Eu entendi porque sou brulhante,
E porque sei ribombar tambor como ninguém.

Bom, voltando ao tema de se achar boas “leituras foucaultianas”, penso que, ao invés de querer achar um livro pronto, acabado, dá para se desenvolver várias linhas de pesquis, como se vê no “Foucault leitor de Foucault” (artigo do Roger Chartier publicado no livro À beira da falésia), do que, por outro lado, na publicação francesa recente, “Foucault contra Foucault” (Foucault against himself, na publicação em inglês). Devo escrever pra esses dias um texto sobre esse “confronto” aqui no blog.
Do meu ponto de vista, se fosse para dar apenas uma opção (e é o que me pedem e ficamos sempre nessas limitações de tantas referências, mas às vezes tão poucas), o que considero fundamental é a leitura do Mestres da Verdade, do Marcel Detienne, e depois sua releitura do mesmo livro no Os gregos e nós. Ele fala ali do Foucault, faz uma crítica bem contundente, do ponto de vista da antropologia, ao Heidegger, e talvez seja a chave para o que o Foucault chamou nos últimos cursos dele de “aleturgia” ou modelos de veridicção. Se não é uma “chave”, com certeza é uma porta que leva a lugares bem interessantes.
Sobre o cinismo propriamente – esse é um tema definitivamente popular -, gosto muito das leituras do Walter Benjamin feitas pelo Georges Didi-Huberman, numa série de livros, mas principalmente nos 6 volumes (não tão grandes, apenas o último é um pouco maior), de uma série chamada L’oeil de l’histoire. Mas acompanho os livros dele desde que escreveu sobre a Salpetrière e sobre Fra Angelico. Baudelaire, Benjamin e Didi-Huberman, eu considero bastante em relação aos estudos sobre o cinismo, mas também especificamente no que Foucault escreveu sobre a arte moderna, como com Manet ou Magritte.
Tem também alguns livros “de situação”, sobre o contexto intelectual da época de Foucault. Gosto de aconselhar não só o livro do François Disse, a biografia dele sobre o Guattari e o Deleuze, mas como complemento, o From Revolution to Ethics, do Julian Bourg, e o After the Deluge, do Dosse e o Bourg. Sem contar o livro indispensável, o “Foucault”, do Deleuze, que provavelmente todos devem conhecer.
É isso. tem um nexo com a historiografia (principalmente a antropologia histórica, a chamada terceira geração dos Annales), com a história das ciências também (aí entraria o Canguilhem, o Koyré, etc., mas isso eu ainda não tenho muitas leituras), com a própria filosofia – claro – e com uma vertente mais literária, a do Bataille, Blanchot, etc. Grosseiramente, quase, é isso. É porque é um mundo de leituras e fica difícil apontar um ou dois. Seria isso, no caso, o Didi-Huberman e o Marcel Detienne (que passaria pelo Levi-Strauss das Mitológicas). Uma opção, claro (dentre tantas), estritamente pessoal.
Tudo isso deve ser desenvolvido ainda em pelo menos duas publicações futuras. A aguardar.


FONTES
1HEINE, Heinrich. História da religião e da filosofia na Alemanha e outros escritos. São Paulo: Madras, 2010, p. 131.
2Idem, p. 135-6.
3Idem, p. 136.
4Idem, p. 137.
5Idem, p. 132.
6FOUCAULT, Michel. Aulas sobre a vontade de saber. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014, p. 6.
7Idem, p. 13.
8Idem, p. 14.

9Idem, p. 17.

Sobre a guerra que se aproxima 2 – Um Pearl Harbor cibernético

Os idiotas pensam que nazismo e guerra mundial é coisa de alemão…
A histeria que fez criar um novo tipo de macartismo, as perseguições a líderes progressistas na América do Sul e na Europa, a demonização da figura de Putin… São processos de longo curso, com muitas variáveis, mas que apontam para o perigo iminente de guerra. Eu pude escrever um texto relativamente longo sobre o assunto ainda no começo do ano passado (que pode ser acessado aqui). Com a eleição de Trump, por incrível que possa parecer à primeira vista, os rumores de guerra parecem ter diminuído. Sempre afirmou como algo positivo a reaproximação entre russos e americanos. O problema de você não ter nenhuma linha de diálogo entre os dois países é o que faz dizerem que podemos estar numa situação ainda pior do que durante a Crise dos Misses. Claro, a falta de diálogo associada a um aumento exponencial das tropas ocidentais na fronteira russa, mas também no Mar da China.
De um modo geral, não sabemos quais os limites da vontade de Trump de se aproximar dos Russos ou até que ponto pode resistir às pressões. O certo é que Obama mandou o U.S.S Carl Vinson, um submarino de alta capacidade nuclear, para o Pacífico. Chegará no Mar da China no dia da posse de Trump… Os neocons irão levar o mundo a esse precipício? Um nova guerra fria com certeza já está instalada, e “super quente”, até porque silenciosa – para quem nada quer ouvir. Como diz Giulietto Chiesa, “siamo in presenza di decisioni che la Nato sta prendendo nell’imminenza di un cambio di direzione politica degli Stati Uniti d’America: cioè, per dirla chiaramente, ci sono forze nella Nato e negli stessi Usa che tendono a predefinire le condizioni in cui dovrà agire il presidente Trump. E questo è molto, molto preoccupante”. A OTAN está por definir a política dos EUA e não o contrário. Os neocons, os ultras de todos os matizes, se utilizando do controle que detém sobre o aparato militar de maior envergadura no ocidente, podem prescindir de maiores controles sobre o poder executivo norte-americano e, por pressões, ou seja, por meios indiretos, e mesmo por ameaças diretas (como o destacamento de tropas e submarinos nucleares).
Chiesa ressalta que 2,5 mil tanques e outros transportes e materiais bélicos estão no que Stephen Cohen chama de Suwalki Gap, a fronteira milimétrica que separa os países dos Bálticos da fronteira russa. Só do lado americano, o grupo de brigada de tanques da quarta divisão do exército norte-americano conta com 3,5 mil efetivos, 87 tanques, 18 obuses autopropulsados Paladin, 144 veículos de combate de infantaria e mais de 400 veículos Humwee. E isso, claro, não deixa de ser estimativas conservadoras, por considerar apenas o que os EUA colocaram por si só – e isso apenas nos Bálticos.
No blog O Cafezinho, um panorama pouco digerível do tema: 

O fato é que essa situação pode levar a um confronto entre nações dotadas de um arsenal nuclear muito mais potente do que o usado pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki. As mensagens de militares ocidentais de que a Rússia está se preparando para a guerra, ao mesmo tempo que a OTAN envia tropas para os Países Bálticos, na fronteira russa, mostra o nível de nervosismo entre os dois blocos. Rússia, China e Irã continuam sendo constantemente provocadas pelos americanos e pela OTAN, seja na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na violação do espaço aéreo e marítimo iranianos.

O secretário de Defesa de Trump (o presidente imprevisível) é bem dúbio sobre o tema. Acusa Putin de tentar romper a OTAN. É uma afirmativa complicada para alguém que vai ocupar um cargo de tamanha importância. O que o presidente russo sempre destaca é que a OTAN não respeita a soberania dos países que não fazem parte da instituição. A multiplicação do aparato militar no oriente aponta para um nível de insegurança jurídica anterior aos do acordo de Ialta. Isso é muito grave, como se pode perceber. Mostra-se preocupado também com os supostos ataques cibernéticos russos contra os EUA. John Batchelor criou uma expressão bem interessante para a histeria coletiva criada com as acusações sem qualquer fundamento (não apresentam um mínimo de provas, somente a tosca afirmação de que Trump teria participado de uma orgia na Rússia e que os agentes desse país teriam fotos que usariam para chantagear o presidente eleito): a expressão é Cyber Pearl Harbor. Acho que por aí não temos mais nenhuma palavra a adicionar…
(vale a pena, nesse último link, ouvir o programa de John Batchelor com o professor Cohen)
Por incrível que pareça, seu coxinha ignorante, a segurança planetária, hoje, depende muito mais desses dois aí do que da camarilha no poder nos EUA e na UE.
É risível a acusação contra Trump. Se coisas como essa podem ter algum efeito, o que falar do Pizzagate?, algo completamente bizarro, ainda que não sem algum fundamento… Preocupante é o papel dos EUA, da Alemanha em dar apoio às tropas nos Bálticos, as mobilizações no Mar da China, a ridícula posição do ocidente pró-terrorismo (os chamados “rebeldes moderados”, fora a criação ocidental do ISIS). Preocupante é a questão econômica (logo, social) que atravessa todo o ocidente, o chamado setor transatlântico da economia mundial. Bancos insolventes por toda a Europa. Ah!, mas vão dizer: esse é o caso da Itália, onde querem implantar o ball-in de maneira ostensiva (o uso da poupança e de pequenos e médios investimentos do cidadão médio para cobrir os gastos do setor financeiro com derivativos). A Itália é o caso número um de próxima saída do sistema euro, com bancos insolventes e com a população (como no último referendo) literalmente de saco cheio de mais medidas de austeridade. Com o fracasso grego não se estabilizou de maneira alguma os planos da Troika. A queda agora, caso a Itália siga em frente em sua espiral de crise, promete uma derrubada ainda maior ao status do eurogrupo, praticamente um golpe de morte nesse paradigma, que tentou forçar uma união política via união monetária, promovendo uma nova colonização das economias periféricas. A morte do euro parece já decretada. Falta marcar a data de seu tribunal (não podemos esquecer, nesse caso, do sepultamento de Michel Jackson: quanto tempo pode durar da morte física até à descida do caixão?, são esses o momentos que aguardamos).

Ver, para quem tiver maior interesse, o texto que traduzi de Helga Zepp-LaRouche (há alguns bons posts sobre a sr. Rota da Seda, como é chamada na China), um réquiem para a política dos tecnocratas atlanticistas. Podem clicar aqui.

Ver também o artigo detalhado da situação italiana escrito por Claudio Celani na última edição da Executive Intelligence Review. Podem clicar aqui.

O projeto da Nova Rota da Seda (um vídeo completo, de quase 30 minutos, brevemente será lançado por mim nesse blog, com as legendas). Por enquanto, indico o curto vídeo que legendei, mas bom o suficiente para entender quais alternativas temos contra as armas da geopolítica e ao caos e à histeria do neomacartismo que hoje os ultras, os neocons, tucanos e demais degenerados de toda as espécies estão lançando no mundo. Esse vídeo mostra, sob determinada perspectiva, o porque a segurança planetária (como disse na legenda da foto acima) está mais nas mãos de Putin e do presidente Xi do que dos bárbaros ocidentais.

Enquanto isso, a CIA adverte Trump das dificuldades que terá de enfrentar dentro dos EUA para normalizar as relações com a Rússia, talvez mesmo de criar novamente um canal formal de comunicação, esfacelado depois da vitória síria-Russa contra o ISIS. Na TV russa, a guerra é iminente. Podem criticar os russos por estarem reeditando comportamentos atávicos de sua cultura, vindos da época da guerra fria oficial, mas essa guerra fria não oficial é cada vez mais quente do que a de décadas atrás. Por que não estaríamos nos aproximando, com a retórica dos ultras cada vez mais virulenta (como aqui no Brasil com os consortes de Sérgio Moro), de um inverno nuclear? Quem tenha a capacidade suficiente que responda.

Para não dizer que não falei das flores, da alegria – na verdade do trágico-cômico da situação atual – vemos o militante anti-impeachment e seu grupo fazendo propaganda para os ultras paneleiros daqui, os amantes de Moro, os verde-amarelistas. Coisa ridícula! É para rir de desprezo, para gargalhar com ódio. Coisa nefasta! Cidadãos que não conhecem o assassino das terças-feiras e acha que política é simplesmente coisa de “se colocar bom senso”. Vamos lembrar o Gilles Deleuze do Diferença e Repetição: os dois enganos da filosofia tradicional, kantiana, cartesiana, hegeliana e por aí vai: se mover sempre no circuito do bom senso e do sendo comum. E discutir se fulano é “hegeliano” de esquerda ou de direita (“hegeliano é o caralho!, como podemos falar no bom português). Pouco importa, em suma. Conheça seu inimigo: essas são as palavras para não se produzir toneladas de baboseira, mesmo que com as maiores das melhores intenções comerciais… Sem mais palavras:

Para quem quiser saber um pouco mais dessa tensa atmosfera internacional, pode ir até minha publicação sobre o Cabral. É de racismo sempre que se fala, e de genocídio, seu estúpido! Por isso a guerra, cada vez mais, se aproxima.

A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad

Quando se fala de um “estado jurídico do nazismo” este estado é o chamado “de exceção”, e seu teórico, Carl Smith. Como se sabe, o nazismo não foi só um movimento político, mas conjugou um projeto econômico, leis específicas, um regime médico e policial, além de ter seus parâmetros estéticos próprios. Contudo, o que não faltam são histórias do nazismo, porém não consta o que foi a sua geografia. O nazismo foi um movimento que precedeu a Hitler e continuou depois de falhar na Alemanha. O projeto econômico e político atrelado ao ativismo judiciário atual, com estreita vinculação ao Departamento de Justiça norte-americano, torna premente a necessidade de se conhecer a geografia nazi. Os arbítrios cometidos sob o que se chama “lawfare” nos remete não à uma suposta “pós-modernidade”, a um regime de “pós-verdade”, mas ao que se conhece por Operação Condor e, mais ainda, à colônia nazista La Dignidad.

Continue lendo “A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad”

O tema e o tom do Camões de José Saramago

O mercado editorial não é o campo de flores dos “campeões de venda”, como a Companhia das Letras. É uma mercado sombrio, como o as brumas do Porto como descrita por Saramago, quando faz reviver Camões em sua peça teatral. Na foto, o mínimo cuidado editorial, com as ilustrações de Günter Grass, até para compensar, visualmente, os apelos para a venda de um livro incompleto (Alabardas!). Não tem café grátis e, no dia a dia, só mediocridade, como descrito na crítica ao projeto gráfico da imperial Companhia editorial brasileira.

O Império suposto responsável por fazer de Camões um maneirista ao invés de um classicista, tinge com as mesmas cores melancólicas obras brilhantes de autores contemporâneos. No caso, Saramago, reeditando a partir da figura de Camões o furor heroico de Heitor, na mais exata acepção grega de acordo com a leitura renascentista, como atesta Giordano Bruno, tenta restabelecer as bases legítimas da guerra, ao contrário da fúria aquilina, do auto-amor magoado, do sujeito vingativo, do agente imperial capaz de cometer todas e quaisquer sandices, como Homero retratou com a descrição do lamentável funeral de Pátroclo.
A caixa de fundo falso que é a Companhia das Letras, repetindo paradigmas filosóficos-editoriais-mercadológicos que ecoam práticas do século das Luzes, como a caixa de fundo falso montada por Joseph de Maistre em seu Elogio ao Executor, mostra claramente as diferenças da civilização heroica do Renascimento, fundamentalmente mediterrânico, contra os prejuízos da hipotética ilustração dos países da civilização científica banhados pelo Mar do Norte.
No mais, fazemos às vezes do dr. Challenge (para mim, na humilde tradução, o dr. Charada), de Gilles Deleuze e Félix Guattari, no Mil Platôs. Confundimos os estratos, os tempos verbais, as camadas geológicas que formam o substrato da história terrestre. Nada mais atual do que os arcaísmos, como na arqueologia foucaultiana, na história da arte de Didi-Huberman, ou pelo amor ambivalente do historiador pelo passado. Qual seria, hoje, a cidade do Porto que José Saramago quis reescrever?



O tema e o tom do Camões de José Saramago
Um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto não se divisasse, como de costume, as naus; muito menos suas longas velas, brancas, porém que antes serviam como se fossem a bandeira nacional, como se estandartes da antiga gloria lusitana no mundo. Não que faltassem velas ou barcos, o porto estava movimentado como de costume. Contudo, tampouco pessoas podiam ser vistas como normalmente as vemos. O cheiro da canela, da pimenta, a voz dos marinheiros embriagados confundida com a gritaria dos vendedores que se apinhavam no ponto nodal da cidade, tudo isso parecia também imerso em trevas, na treva cinzenta que se apoderava naquela manhã da cidade do Porto. Um retrato mudo como mudos foram todos os retratos que os antigos se acostumaram a admirar, sem cinema, sem o domínio da reprodução eletrônica do som, sem a eloqüente figuração de personagens e eventos nas páginas dos romances modernos. Naquele momento em Portugal, somente silêncio e versos, versos ainda menos inteligíveis do que o inexpressivo burburinho do porto frente à névoa cinzenta, versos heróicos e bravos que são ainda maiores e mais altos do que a eloqüência humana frente a vitória lusitana nos tempos passados. Versos heróicos não como os do velho Camões, mas versos líricos acompanhados da mais profunda solitude, como vivenciou com grandeza o velho Camões. Por isso, um tom de névoa cinzenta tomba sobre a cidade, como se no cais do porto…
O tema da capa do livro de José Saramago, Que farei com este livro?, é ainda mais enigmático do que imaginar uma cidade do Porto coberta de névoa pesada, cinzenta, pois nada diz e, portanto, pode dizer qualquer coisa. A capa do livro editado pela Companhia das Letras pode servir para qualquer outro livro de Saramago, como a qualquer outro autor de qualquer área do conhecimento. É do tipo de arte abstrata como incentivada por Rockfeller, Fundação Ford e outros think-thanksdurante o período conhecido como Guerra Fria cultural. Esse tipo de arte, não metafórica, nos conduz não apenas à simplicidade expressiva de sociedades consideradas menos evoluídas (quanto a esse tipo de “pensamento primitivo”, foi trabalho feito por Levi-Strauss durante toda sua vida em demonstrar a complexidade estética, religiosa e lingüística dessas sociedades), mas ao que se entende por desvio de foco. O mal não se encontra em deliberadamente, conscientemente, fazê-lo; antes, o próprio fato de não conscientemente, voluntariamente, fazer o bem, deixando as “coisas correrem” ou ser indiferente ao potencial de bem que posemos alcançar, por si só já é o início do mal. Portanto, quando deliberadamente se escolhe por um bem menor, ou por uma fórmula expressiva que não remete à complexidade da mentalidade humana, ou seja, a potencialidade da ação humana sobre o mundo, ainda que esta arte não seja em si má, é uma operação que encobre todo o bem potencial a ser realizado. No caso do livro, nada em seu exterior, muito menos em seu tratamento editorial, remete à metáfora produzida por Saramago ao falar através de Camões, talcomo Kepler fez em sua hipótese vicária ao falar como se fosse umantigo, porém para esgotar suas limitações e trazer a descoberta de um novo princípio físico para a humanidade.
A editora Companhia das Letras poderia, em determinado sentido, ser considerada um orgulho nacional devido ao seu inegável sucesso editorial. No entanto, o que enxergamos quando analisamos um pouco mais detidamente a estrutura dessa companhia é uma caixa de fundo falso, que remete a um outrem não devidamente reconhecível. Detém o controle acionário “nacional” o sistema bancário Itaú-Unibanco; contudo, 45% de suas ações foram compradas pela Penguin, outro sucesso editorial, só que do mundo anglo-saxão. A Penguin, por sua vez, se uniu a outro gigante do setor, a editora britânica Randon House; todas são controladas pela Person, empresa controladora de revistas como a The Economist e do jornal Financial Times. É notório o vínculo da chamada mainstream mediacom os bancos transnacionais, a indústria armamentista e instituições culturais como as de Ford e Rockfeller. Todo o pacote embutido no controle acionário da Companhia das Letras remete a essa caixa de fundo falso com uma bela embalagem, no caso em questão, a administração da editora por Luiz Schwarcz e sua mulher, historiadora e antropóloga, Lilia Moritz Schwarcz, e também a família Moreira Sales. Essa teia cujas cabeças nos são desconhecidas, por ser similar a mitologia Hidra, ainda controla grandes centros educacionais no Brasil e mundo afora, como é o caso do Sistema Educacional Brasil (SEB), do empresário Chaim Zaher, de Ribeirão Preto. Com isso, a afilhada da Person-Penguin-Randon House e co-irmão da The Economist e do Financial Times, Companhia das Letras, passou a ter mais alguns irmãos em sua família, no caso as marcas que trabalham com a educação COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name1.
Poderíamos compor um elenco de capas esdrúxulas dos livros editados pela Companhia das Letras, abstraindo um pouco do tema central de nossas palavras, ou seja, a peça de José Saramago. Não podemos fazer isso para não prejudicar o restante da análise com temas correlatos, porém é importante enfatizar que a relação entre livro e capa é oposta a da relação embalagem-caixa. Se o Itaú-Unibanco nada tem de nacional, antes trabalhando de acordo com as diretrizes financeiras dos think tanksinternacionais, atuando dessa maneira como um global playerna economia nacional, sem ao menos lhe passar pela cabeça a idéia de fomentar o desenvolvimento do país, a feia capa que esconde o livro de José Saramago e demais escritores não é suficiente para apagar o que foi escrito, ainda que as diretrizes editoriais dessas indústrias antes zelem pela ausência de um trabalho científico-editorial, ou seja, um posicionamento político-filosófico, que a permita contribuir e dialogar com a educação e a cultura no Brasil, e não fazer um trabalho de encobrimento dos valores culturais através da ostentação de suas supostas virtudes no mercado global e dos meros “títulos” que ostentam em seu catálogo.
O que está em jogo aqui é o contraposto claro a atonia dos personagens que se acotovelam numa cidade do Porto imersa em sombras. O escândalo, pressuposto necessário a paralisação das reações humanas normais e rotineiras, somente pode ser superado por um ato de natureza bem distinta e superior. Ao escândalo produzido pela corte corrompida do mitológico rei Sebastião, com seus vestais da ética fantasiados com os panos negros que semeiam o dissídio entre os seres humanos – cardeais, bispos, o papa – se contrabalanceia a razão camoniana, focada não tanto em palavras de ordem, em discursos moralizadores e gestos grandiloqüentes. A historiografia mais rudimentar é capaz de reconhecer a distância enorme que separa Camões e seu espantoso conhecimento erudito, do eruditismo de movimentos letrados como os dos iluministas franceses. Porém, essa historiografia rudimentar conhece apenas uma espécie de espaço-tempo newtoniano, uniformemente regular dentro de uma sequência infinita de eventos que ocorrem dentro de um espaço plano. O que separa a erudição camoniana da encontrada nas Luzes não é um suposto caráter mais moderno, científico, desta última. Se Rousseau pregava a ausência de representação para combater os problemas inerentes ao sistema representativo, no seu caso o personalismo à romana embutido no Absolutismo, Camões sai da ordem do discurso, do espaço plano newtoniano, das meras palavras ou do que se conhecesse hoje como “matemática pura”, e se posiciona no centro do escândalo que absorve todas as energias de sua pátria outrora gloriosa. Camões, como Heitor após ouvir o clamor de Helena, pode cantar assim:
Cortês e afável,
Não me contes reter: esta alma ferve
Por ajudar os que por mim suspiram.
Ativa Páris, que dos muros dentro
Se me reúna: a despedir-me corro
Da família, da esposa e do filhinho;
Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
Ou se domar-me ordene às mãos Gregos2.
A ironia do texto homérico não compreendida por Platão é a concepção que separa Heitor de Aquiles. Este é conhecido não só pelo calcanhar, mas por sua “fúria” e uma suposta descrição fantástica do seu escudo por Homero. Aqui, inclusive no mito do calcanhar, reside a ironia homérica. Aquiles, furioso com a morte de seu escudeiro Pátroclo, resolve esquecer os dissídios com Agamenon e entrar na guerra. Seu alvo é Heitor, o maior guerreiro de Tróia. Pode-se conceber uma ironia em Homero porque ele não faz uma crítica direta aos deuses; ele os louva, ao mesmo tempo em que mostra toda a confusão gerada por eles. Os deuses fomentadores de guerra da Grécia arcaica são contrapostos pela nobreza guerreira de Heitor, amante da pátria, da sua família e de seus conterrâneos. A destruição da lendária Ílion, dos construtores de cidade nas terras banhadas pelo mar Egeu, dos filósofos pré-socráticos e do início do renascimento do mundo antigo ocorrido a partir da Grécia, é retratada por Homero como uma trama dos deuses, dos deuses oligarcas, tal como no império invisível que assolou com guerras e destruição todo o século XX e continua espalhar o caos no século atual, principalmente nas sociedades construídas no norte do Atlântico. A intriga dos deuses, o escândalo por eles provocado a fim de levar a destruição a formosa cidade retratada na Ilíada, é a ironia incompreendida por Platão, incapaz de reconhecer Heitor como protótipo do guerreiro que menospreza a vida com o objetivo de salvá-la. Por isso, Saramago relembra, dentre tantos versos dos Lusíadas, especificamente estes, dramatizando-os:
LUÍS DE CAMÕES
(lendo e acentuando progressivamente a ênfase)
Dai-me uma fúria grande e sonorosa, / E não de agreste avena ou frauta ruda, / Mas de tuba canora e belicosa, / Que o peito acende e a cor ao gesto muda; / Dai-me igual canto aos feitos da famosa / Gente vossa, que a Marte tanto ajuda: / Que se espalhe e se cante no universo, / Se tão sublime preço cabe em verso. (Falando como se pensasse). Aqui é que deverá entrar a dedicatória a el-rei… (Lendo outra vez). E vós, Tágides minhas… (Fala). Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio… Grandes coisas são estas que sonha el-rei… (Torna a ler). E vós, Tágides minhas… (Fala). Um verso, para começar, que emparelhasse com este, um vocativo… (Começa a ouvir-se a sineta da galera dos mortos da peste). E vós, ó bem nascida segurança… Sim, isto será… (Senta-se à mesa, puxa pena, papel e tinta e começa a escrever. A sineta vai aumentando de intensidade) E vós, ó bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade, / E não menos certíssima esperança… (Vai diminuindo o tom, enquanto diminui também o toque da sineta e a luz baixa)3.
Diogo do Couto vê tudo em sombras, é o seu feitio… Grandes coisas são estas que sonha el-rei…”. Assim pensa Camões enquanto escreve seus versos. Segundo Saramago, Diogo do Couto vê sombras. Como ser diferente, devido a sua longa estadia nas Índias, com a visão de todos os descalabros cometidos pelos portugueses naquelas terras? Camões, pelo contrário, canta o alvorecer da glória portuguesa, a faina guerreira que levou seu povo às maiores glórias. Ao contrário da prosa crepuscular de Couto, Heitor renasce em seus versos, como o único caminho capaz de tirar sua pátria do atoleiro imposto pelo rei lunático e o fanatismo imposto pelo Santo Ofício. Porém, são crepusculares os diálogos teatrais de Saramago, como também foi a conturbada vida de Camões. Este conseguiu publicar sua grande obra, ninguém ainda hoje sabe ao certo como. O que é certo é que só publicou depois de assistir ao aprisionamento e depois assassinato de seu amigo, o humanista e historiador Damião de Góis, um dos mais ácidos críticos da decadência portuguesa. É pela bravura, pela coragem indômita, tal como a dele, a de Diogo Couto, a de Damião de Góis, que clama o poeta. É a partir dessa coragem que nasce sua vontade de saber, não importa sob quais circunstâncias. Na pobreza e miséria da Índia ou de Portugal, Camões esculpiu seus bravos versos, não como o intelectual bem remunerado ou agraciado nos salões como os “iluminados” da sociedade científica dos séculos XVII e XVIII. Estes, por sua vez, são os pressupostos necessários para se entender a luta pela ausência de representação, pela supressão da ordem e ascensão da personalidade carismática, tal como ocorrido no período do Terror jacobino.
O jacobinismo, regiamente pago pela Companhia das Índias Orientais britânica, procurava fazer subir ao poder seu “carismático” rei, carinhosamente chamado, em tradução livre, de Felipe Igualdade4. O Bourbon, amigo do banqueiro suíço Jacques Necker, foi a tentativa falha realizada posteriormente pelo primeiro fascista moderno, Napoleão. Queimados na pira revolucionária – onde parece que se ergueu a primeira guilhotina como para lembrar a primeira fogueira acessa na fatídica Noite de São Bartolomeu –, Robespierre, Danton, Marat, são os modelos do tipo de criticismo contemporâneo em torno fundamentalmente de assuntos políticos. Reeditam a fúria do semi-deus Aquiles, e encontram a morte por meio de destino semelhante ao de seu ídolo. Quando sua mãe Tétis o avisa que caso entrasse na guerra, ao pelejar contra Heitor, não escaparia da morte, é o mote para Homero brilhantemente construir a fábula do calcanhar do herói, sendo a flecha que o acerta nada além do velho significado deste símbolo, ou seja, a verdade, filha da precisão e da destreza dos nobres heróis que corajosamente a lançam. No caso, o errante Páris, incitado a guerra por Heitor, é quem coroa a tragédia, cobrindo de vileza o funeral do idolatrado semi-deus, capaz apenas de lançar poeira ao alto e contribuir ainda mais para a confusão, o escândalo e o genocídio que representam o fim da gloriosa Ílion. Este tipo de semi-deus que se ergue com a revolução na França, com toda sua fúria à moda de Aquiles, é do tipo de indignação que nasce do amor-próprio ferido, e da reação desproporcional que segue como a ação dos filhos dos deuses do Olimpo, no caso francês o império britânico patrocinador do fim do movimento científico que tinha por fim estabelecer as bases de um governo constitucional no país, ao invés do tipo de parlamentarismo refém dos interesses de um banco central independente, tal como o modelo britânico pressupunha, modelo este idêntico ao babilônico-aristotélico responsável pela queda de Ílion e da Atenas de Sócrates e Platão.
A distinção entre Heitor e Aquiles é fundamental para se entender o que desde a Grécia compreendemos como Ideia, ou seja, o modelo espitemológico platônico, e a ideologia da “grande prostituta”, como retratada por João em seu Apocalipse, que é aquela que fala muitas línguas e confunde os homens a fim de enredá-los em sua rede de intrigas – como nas redes tecidas pelos panfletos acusatórios jacobinos, rede fratricida cujo intuito era o colapso da ordem social vigente e dos debates que se faziam para superá-la através de um princípio epistemológico superior, o ordenamento constitucional. Esta rede são as que hoje cotidianamente produzem o escândalo ou a perversão cultural, como na Guerra Fria cultural, todos tendo a forma de uma caixa de fundo falso, como o cadafalso admirado por Joseph de Maistre, amante da revolução jacobina e teórico preferido de Napoleão; essa é a caixa de fundo falso que nos conduz a análise de instituições como a da global player Companhia das Letras, achada no mesmo saco de think tankscomo The Economist, Financial Times, a editora Penguin, Itaú-Unibanco – sem esquecer da face admirável, da antropóloga e seu marido, mais a família Moreira Salles, como supostos controladores da editora. É bom relembrar as célebres palavras de Maistre em seu elogio ao Executor, o qual, segundo Isaiah Berlin, estava nas origens do fascismo, como bem exemplifica seu maior seguidor, Bonaparte:
Qu’est-ce donc que cet être inexplicable qui a preféré à tous les métiers agréables, lucratifs, honnêtes et même honorables qui se présentent en foule à la force ou à la dextérité humaine, celui de tourmenter et de mettre à mort ses semblables ? Cette tête, ce coeur sont-ils faits comme les nôtres ? ne contiennent-ils rien de particulier et d’étranger à notre nature ? Pour moi, je n’en sais pas douter. Il est fait comme nous extérieurement; il naîte comme nous; mais c’est un être extraordinaire, et pour qu’il existe dans la famille humaine il faut un décret particulier, un FIAT de la puissance créatice. Il est comme un monde. Voyez ce qu’il est dans l’opinion des hommes, et comprenez, si vouz pouvez, comment il peut ignorer cette opinion ou l’affronter ! A peine l’autorité a-t-elle désigné sa demeure, à peine en a-t-il pris possession, que les autres habitations reculent jusqu’à ce qu’elles ne voient plus sienne. C’est au milieu de cette solitutde, et cette espèce de vide formé autour de lui qu’il vit seul avec sa femelle et ses petits, qui lui font connaître la voix de l’homme : sans eux il n’en connaître que les gémissements… Un signal lugubre est donné ; un ministre abject de la justice vient frapper à sa porte et l‘avertir qu’on a besoin de lui: il part; il arrive sur une place publique couverte d’une foule pressée et palpitante. On lui jette un empoisonneur, un patricide, un sacrlège : il le saisit, il l’étend, il le lie sur une croix horizontale, il levé le bras : alors il se fait un silence horrible, et l’on n’entend plus que le cri des os qui éclatent sous la barre, et les hurlements de la victime. Il la détache ; il la porte sur une roue : les membres fracassés s’enlancent dans les rayons ; la tête pend ; les cheveux se hérissent, et la bouche, ouverte comme une fournaise, n’envoie plus par intervalle qu’un petit nombre de paroles sanglantes qui appellent la mort. Il a fini: le coeur lui bat, mais c’est de joie; il s’applaudit, il dit dans son couer: Nul ne roue mieux que moi. Il descend : il tend sa main souillée de sang, et la justice y jette de loin quelques pièces d’or qu’il emporte à travers une double haie d’hommes écartés par l’horreur. Is se met à table, et il mange ; au lit ensuite, et il dort. Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille. Est-ce un homme ? Oui : Dieu le reçoit dans ses temples et lui permet de prier. Il n’est pas criminel ; cependant aucune langue ne consent à dire, par exemple, qu’il est vertueux, qu’il est honnênte homme, qu’il est estimable, etc. Nul éloge moral ne peut lui convenir ; car tous supposent des rapports avec les hommes, et il n’en a point.
Et cependant toute grandeur, toute puissance, toute subordination repose sur l’exécuteur : il est l’horreur et le lien de l’association humaine. Ôtez du monde cet agent incompréhensible ; dans l’instant même l’ordre fait place au chaos, les trônes s’abiment et la société disparaît. Dieu qui est l’auteur de la souveraineté, l’est donc aussi du châtiment : il a jeté notre terre sur ces deux pôles : car Jéhovah est le maître des deux pôles, et sur eux il fait tourner le mond5.
No tom épico do texto de Joseph de Maistre, a saga do Executor é retratada como a do Cordeiro imolado, porém nunca morto. Ele ressurge após a execução, volta para casa, come e dorme: “Et le lendemain, en s’éveillant, il songe à tout autre chose qu’à ce qu’il a fait la veille”. Ele é um homem, pergunta Maistre? Claro, Deus o recebe em seu seio e permite que ele ore, ainda que nenhuma voz ouse se levantar para chamá-lo de virtuoso, de honesto, de admirável. Toda grandeza, todo o poder, contudo, reside nele. Tal como a caixa de fundo falso, ele é ambivalente, ambíguo como o Deus bipolar que faz o mundo girar. Ele é o Deus do cadafalso, da guilhotina, do jacobino Tribunal da Razão, da acusação sem provas, do amor pelo terror. É como o doutor Angélico fornecendo as premissas teóricas para as Cruzadas dos papas ultramontanos: o problema não são os infiéis, mas o que eles podem representar. Faremos, portanto, uma guerra de prevenção contra todos aqueles que podem, algum dia, levar a perder a hegemonia católica no mundo. Façamos guerra aos que chamamos infiéis, presumindo-os culpados por um crime que talvez nunca venham a cometer. Assim se chega às guerras preventivas de Bush Jr. e Dick Cheney no Iraque e no Afeganistão; assim chegamos ao tipo de acusação tendenciosa dia a dia feita pelos conglomerados midiáticos que se ramificam mundo afora, e dos quais a estimada Companhia das Letras faz parte.
Depois de condenar os hereges à morte, ainda que revogável com o perdão papal caso se submetam às diretrizes católicas, o doutor Angélico assim se expressa (em tradução livre do inglês, por não ser redação original):
Existem alguns infiéis como os gentios e os hebreus que nunca aceitaram a fé cristã. Esses não podem de nenhuma maneira serem forçados a acreditar… A força apropriada deve ser usada pelos fiéis para prevenir que eles interfiram na fé com a blasfêmia ou vis estímulos, ou perseguição aberta… Essa é a razão pela qual os cristãos freqüentemente fazem guerra aos infiéis, não para forçá-los a acreditar… mas para prevenir que eles interfiram na fé cristã. Contudo, existem outros infiéis, como os heréticos e todos os apóstatas que uma vez aceitaram e professaram a fé. Esses devem ser obrigados, ainda que pela a força física, a cuidarem do que eles prometeram e manter o que eles uma vez aceitaram6.
Como José Saramago poderia compartilhar de semelhante sentimento ao destacar os bravos versos camonianos? O que podemos destacar como uma tendência recorrente em toda sua extensa bibliografia (que não se evade, antes procura os temas espinhosos, históricos e políticos), é a serenidade, a capacidade de julgamento lúcido, ainda que incisivo, sem ter sido pego nas teias das ideologias fabricadas mundo afora, cujo intuito é reeditar o tipo de cisão cultural e política entre os homens, tal como na Guerra Fria. Guerra ao terror, guerra à corrupção, como se faltassem alternativas viáveis para se discutir dentro do terreno político, como por exemplo projetos de infra-estrutura e integração entre a Europa e o Oriente Médio. Não, só guerra e acusações infundadas. Como se no combate a corrupção não estivesse em jogo o modelo do sistema político, no caso brasileiro moldado por Golbery, numa espécie de parlamentarismo disfarçado, onde vemos o poder executivo refém dos interesses de um Parlamento que atende às vozes dos interesses bilionários que o patrocina. A moralização da política nesse sentido serve apenas para levar ao poder figuras carismáticas, controladas por interesses complexos dentro da rede de tramas do oligopólio financeiro internacional – ninguém é mais símbolo desse estilo de poder “moral” do que Hitler…
Por isso Saramago não se enreda nessas redes. E é por esse mesmo furor guerreiro ou furor heróico, como nomeou Giordano Bruno, que Camões, como Gil Vicente em sua época, incita a pátria à guerra. Como os reis guerreiros da Idade Média, ainda na Renascença é impossível pensar em riqueza sem a expansão das fronteiras nacionais, o que implicava a guerra de conquista. A Conquista de Ceuta é o marco do novo estado que surge com a dinastia de Avis. O que já em Gil Vicente, e de maneira ainda mais veemente, quiçá desesperada, aparece em Camões, é a necessidade do Estado voltar a se expandir, trazendo a riqueza do comércio para a população, e não se enredando nos descaminhos do ganho fácil, dos nobres que parasitam a corte já no reinado de D. Manoel. É de sacrifício próprio e não o alheio que fala Saramago, Camões e Gil Vicente. Este, na voz de Annibal, em Exortação da Guerra, assim se expressa:
Deveis, Senhores, esperar
Em Deos que vos ha de dar
Toda Africa na vossa mão,
Africa que foi de Christãos,
Mouros vo-la tem roubada.
Capitães ponde-lh’as mãos,
Que vós vereis mais louçãos
Com famosa nomeada.
Ó Senhoras Portuguesas,
Gastae pedras preciosas,
Donas, Donzellas, Duquezas,
Que as taes guerras e emprezas
São propriamente vossas.
He guerra de devação,
Por honra de vossa terra,
Commettida com razão,
Formada com discrição
Contra aquella gente perra.
Fazei contas de bugalhos,
E perlas de camarinhas,
Firmaes de cabeças d’alhos;
Isto si, Senhoras minhas,
E esses que tendes dae-lh’os.
Oh! que não honrão vestidos,
Nem mui ricos atavios,
Mas os feitos nobrecidos;
Não briaes d’ouro tecidos
Com trepas de desvarios:
Dae-os pêra capacetes.
E vós, Priores honrados,
Reparti os Priorados,
A Suiços e soldados,
Et centum pro uno accipietis.
A renda que apanhais
O melhor que vós podeis,
Nas igrejas não gastais,
Aos pobres pouco dais.
E não sei que lhes fazeis.
Dae a terça do que houveres,
Pera Africa conquistar,
Com mais prazer que puderdes;
Que quanto menos tiverdes,
Menos tereis de guardar.
Ó senhores cidadãos,
Fidalgos e Regedores,
Escutae os atambores
Com ouvidos de christãos.
E a gente popular
Avante! não refusar.
Ponde a vida e a fazenda,
Porque para tal contenda
Ninguem deve recear7.
O objetivo das guerras de conquista ou pelo menos a admoestação a esse tipo de prática por poetas como Vicente e Camões, ou seja, de D. Manoel a D. Sebastião, é para impedir o parasitismo cortesão, como minuciosamente demonstrado na recriação da Portugal quinhentista por José Saramago. A soberania do reino fora extinta pela submissão ao Santo Ofício, fato verificado a partir de D. João III. O rei jovem, D. Sebastião, sem visão estratégica de governo e influenciado de forma malsã pelos padres da Companhia de Jesus, empreende uma guerra com objetivo utópico no Marrocos, com pouca ou quase nenhuma possibilidade de sucesso. As trevas que caem sobre Portugal são tão densas no período em que a nação é dominada pelos jesuítas, que a simples convocação para a guerra como feita por Vicente não era mais possível. Havia antes de se lutar contra o inimigo interno, o inimigo alojado no coração do Estado, que sugava todas as suas forças materiais e mentais, num quadro em que o parasitismo se instalara talvez de modo definitivo. O próximo passo seria se submeter a um rei estrangeiro, este também um monarca católico, bem distante da tradição peninsular de independência frente a Igreja, tradição essa que lhe rendeu os maiores frutos, como os advindos dos Descobrimentos.
É pela voz de Heitor que chama Saramago, no horizonte distante que faz ecoar os versos de Camões, já fatalmente submerso nas trevas entrevistas por Gil Vicente décadas antes. Saramago-Heitor tateia nas sombras da escuridão milenar que procura separar o mais legítimo sentimento de defesa da pátria e de seus iguais, num Portugal refém de um suposto “concerto europeu” que iria desembocar no Tratado de Lisboa8, ou seja, na tentativa de artificialmente criar uma unidade política européia a partir da união monetária. A Troika, como o jesuitismo alhures, nesse momento em que Saramago não tem mais olhos para ver o destino de seu país, ergue seu manto cinzento sobre o “concerto europeu”, levando a velha dama Europa a um passo do abismo, incapaz de ouvir a voz de Heitor que ecoa na planície – incapaz de ouvir o tema que incita à coragem. O tom é de névoa cinzenta e o tema é desagradável para todos aqueles que se acostumaram a viver na caixa de fundo falso, nas sombras da caverna platônica, no mundo dos sentidos, no mundo do escândalo jacobino,e da impotência do cidadão médio fascinado frente ao esplendor das luzes que descem do Olimpo – como se realmente fossem luzes, e não névoa cinzenta. Divide et impera, como sempre, o lema.
2 Homero, Ilíada. Tradução de Odorico Mendes. Campinas, Editora UNICAMP, 2010. Canto VI, p. 249.
3 Saramago, José. Que farei com este livro?. Lisboa: Editorial Caminho, 1980, p. 54.
4 Uma excelente referência ao assunto são dois artigos, feitos a partir de inéditas fontes primárias, publicados por Pierre Beaudry no semanário norte-americano Executive Intelligence Review, com os títulos de Jean Sylvain Bailly: The French Revolution’s Benjamin Franklin e Why France Did Not Have an American Revolution?. Podem ser lidos em: http://www.larouchepub.com
5 Extraído das Soirées de Joseph de Maistre, publicado no apêndice do ensaio de Isaiah Berlin, Joseph de Maitre and the Origins of Fascism. Em: Berlin, Isaiah, The crooked timber of humanity: chapters in the history of ideas. Nova Jersey: Princeton University Press, 2013.
6 Aquino, Tomas de. Summa Theologia, ii, ii, Q.10, Art. 8. Extraído de: Beaudry, Pierre. The Ultramontane Papacy. Publicado no site pessoal do autor: http://www.amatterofmind.org
7 Vicente, Gil. Exortação da Guerra. Obras Completas, Porto: Lello & Irmão Editores, 1965, p. 214 – 215.

8 A Carta de Lisboa pode ser um eixo de análise a partir do qual se contrapor ao infame Tratado. A história de Darcy Ribeiro é fonte merecedora da mais legítima atenção, caso queiramos nos contrapor ao estilo de fascismo imposto atualmente, ainda mais se pensarmos no ocaso da civilização que se desenvolveu às margens do Mar do Norte (chegando ao norte da América), e no fascismo que hoje a derruba e querem nos impor. Fascismo londrino por excelência e norte-americano por descendência.