O caso Arendt: Eickmann como o Cordeiro do nazismo

Nos debates entre Lévi-Strauss e Fernand Braudel sobre as diferentes temporalidades que regem a história, em nenhum momento se discutiu quais povos ou raças teriam ou não direito à história. A publicação dos Cadernos Negros de Heidegger, em 2014, veio mostrar porque existe uma separação às vezes tão contundente entre filosofia e história, áreas que poderiam estar irmanadas.

Há grandes prejuízos no estudo da filosofia, principalmente se pensarmos em Kant, Hegel e toda uma escola alemã – sem contar a fenomenologia ou seu duplo, o existencialismo – que ainda é leitura obrigatória nos cursos. Não que a leitura historiográfica não tenha seus prejuízos, porém é menos oneroso confiar em Marc Bloch, Hobsbawm, Ginzburg ou Koselleck, do que nos difíceis autores alemães, do séc. XVIII ao XX. Não é uma questão de leitura fácil. É uma questão de que não se fala nada com nada, ou quando se fala alguma coisa é para louvar deuses questionáveis. Não vou me aprofundar aqui no que já venho debatendo tanto nos dois textos que publiquei aqui sobre “Foucault e a fenomenologia” quanto na série Antropologias. Como aponta muito bem João Ricardo Moreno na apresentação da tradução brasileira do livro de Emmanuel Faye, imagine estar no Brasil e, com Heidegger, pensar nos “cafres“:

A natureza viva ou morta tem a sua história. Mas como acabamos de dizer que os cafres são sem história? Porque eles têm tanta história quanto os macacos e os pássaros. Ou bem seria possível, apesar de tudo, que a terra, as plantas e os animais não tenham história? Parece certamente incontestável que o que é perecível pertence logo ao passado; mas tudo que é perecível e que pertence ao passado não entra necessariamente na história. O que são as rotações da hélice do avião? A hélice pode muito bem girar dias inteiros; entretanto, fazendo isso, não acontece nada. Mas, claro, quando o avião transporta o Führer de Munique em direção a Mussolini em Veneza, então isso é história. O voo é um evento histórico, mas não o funcionamento da máquina, ainda que o voo só possa acontecer se a máquina girar. E, entretanto, não é somente o encontro dos dois homens que marca a história, mas o próprio avião entra para a história, e um dia, talvez, ele seja exposto no museu. Mas o caráter histórico não depende do número de rotações da hélice que passaram no tempo; depende do evento futuro que resulta desse encontro entre os dois Führer.

A discussão sobre os Cadernos Negros é bem longa… O livro de Faye, contudo, é anterior a essa publicação. Trabalhando com fontes primárias, reedita a história dos cursos de Heidegger enquanto reitor da universidade de Freiburg e cidadão de primeira-classe do nazismo. Chega a defender o fim das bolsas de estudo para os judeus, pois quem deveria recebê-las são os estudantes que trabalhassem na SA ou SS. E por aí vai a adesão quase acidental do filósofo do Daisen ao nazismo. Mas, e quanto a Hannah Arendt, a filósofa judia que nunca renegou seu mestre? Seria Eickmann uma metáfora dele, aquele que se utilizou do nazismo sem culpa, uma simples peça numa engrenagem gigante? A indiferença entre assassinados e assassinos pode ser vista nessa passagem da filósofa judia: “Une fois que l’on avait pénétré dans les usines de la mort, tout devenait accidentel et échappait complètement au contrôle de ceux qui infligeaient les souffrances et de ceux qui les enduraient. Et il y eut bien des cas où ceux qui infligeaient les souffrances un jour devenaient le lendemain à leur tour des victimes”. Uma boa desculpa para anistiar os, dependendo do caso, mártires que pertenceram ao nazismo. Ou quando , de modo mais claro, “o mito da dignidade humana é um conceito arrogante”. Na biografia que escreve sobre a alemã judia Rahel Varhagen, em que explicita seus apelos autobiográficos na confecção do texto, Arendt fala assim: «”Dans une société qui est, en gros, antisémite – et cela valait jusqu’à notre siècle dans tous les pays où vivaient des juifs –, on ne peut s’assimiler qu’en s’assimilant à l’antisémitisme””. O que mais falar?
Ficam mais algumas palavras de Faye, no livro ainda não publicado no Brasil:

“Arendt ne veut voir en effet dans Auschwitz et le génocide des Juifs qu’une “politique permanente de dépeuplement”! Elle se refuse à y reconnaître la traduction en actes d’une vision du monde élaborée et légitimée – dans des registres de langage différents mais qui plus d’une fois se croisent et se recoupent – tout à la fois dans les écrits des idéologues et acteurs directs du nazisme, comme Alfred Rosenberg et Adolf Hitler, mais également dans les œuvres de l’élite intellectuelle du mouvement, exemplairement représentée par Martin Heidegger et Carl Schmitt. Dans la vision arendtienne, l’intentionnalité du génocide des Juifs d’Europe s’estompe au profit d’une conception fonctionnaliste indéfiniment reprise après elle, pour laquelle l’extermination nazie n’aurait fait que porter à son paroxysme et à son point de rupture la dévastation de la modernité technicienne. Arendt aura ainsi pu passer, sans se contredire sur le fond, d’une interprétation du totalitarisme nazi comme expression d’un “mal radical”, dont l’“absence de patrie” de nos sociétés modernes serait porteuse, à la description des acteurs de l’extermination comme de simples exécutants, dépourvus de tout motif, incarnant la “banalité du mal”. (…) Dans cette conception, Martin Heidegger n’apparaît plus pour ce qu’il est véritablement, à savoir celui qui porte la responsabilité d’avoir procuré à la vision du monde et au mouvement nazis une légitimité d’apparence philosophique (…). Il se voit au contraire magnifié comme celui dont l’engagement hitlérien même confirmerait la “grandeur” et dont la pensée ouvrirait la voie à de salutaires contre-mouvements”.

O úncio livro de Faye publicado por aqui.

O livro de Faye publicado por enquanto somente em francês tem um dossiê interessante, do qual extraímos algumas partes, e que segue aqui embaixo para os leitores desse blog. antes, a capa do livro objeto dessa postagem, que parece colocar muitas questões interessantes, e que em breve leremos.

O prisioneiro do Palácio da Alvorada

Créditos para o blog O Cafezinho

Precisamos pedir a prisão de todos os genocidas? Temer, aparentemente, dorme tranquilo em seu Palácio. Seu sono com certeza lhe traz os dilemas da sucessão, ou seja, não a do futuro do país (que pouco lhe interessa), mas a da sua pele e a de seus comparsas. O senhor “quase bonito” (nas palavras de Noblat) reflete na Alvorada seus sonhos de quase príncipe. Qual será a imagem de herdeiro que embala suas noites de insônias enluaradas? A do Friedman carioca, devidamente morto e ainda não enterrado, FHC, ou ainda outra figura ainda mais obscura? Nas aporias que esbarra nossa tão indecisa classe-média, se agiganta o monstro fascista, genocida. Você, graciosa princesa que vaga pelas noites no jardim de flores enlutadas – filha de gente fina -, já nutriu pesadelo mais sublime? Quantos prisioneiros agora, em nosso país, acordam sob a prisão em seu palácio em plena alvorada? Identificamos um, como se vê na ilustração, e conversamos com os anões que lhe inspiram os desejos mais sensíveis.


1. A pergunta que permanece desde o impeachment de Dilma é se Temer continuará sua façanha histórica. Figura sem qualquer grandeza, articulou sua saída política nas sombras, com Eduardo Cunha, desde a reeleição. Embora Moro tente jogar cinzas sobre a obra-prime que então se construía, a façanha que a confissão de Yunes criou nubla os céus de quem decora, com toda propriedade para este tipo de serventia, as práticas pós-modernas no campo econômico, e que necessitam de um fiel executor a seguir o PSDB. Fernando Brito é bem perspicaz, como sempre, ao colocar em evidência a grosseria que foi a entrega de milhões em espécie por parte do amigo fiel do Traíra. Estaria já naquele momento – e como falamos agora de movimentos precoces – Eduardo Cunha deixando pegadas que poderiam ser depois exploradas caso “essa porra” não desse certo? Colocamos mais uma questão então: Jorge Luz estaria se entregando simplesmente, abandonando sua fortuna construída no exterior, pra servir a justiça do país? Seria somente para legalizar seus desvios financeiros, através de uma generosa colaboração de Moro, que ele se entregou? Seria por fidelidade aos seus mestres e àqueles que “ficaram no caminho”, para lembrar o caso do Paulo Afro-descendente? Seria só pelos 40 milhões, como alertou Hildergard Angel?
Mais um dos ambientes do antigo palácio da duquesa de Alba que hoje pertence a Jorge Luz.

2. É terrível a sina do ex-vice. Como seria isso? “A decorrência natural é que Temer, para fugir do isolamento, demande cada vez mais a presença de quadros do PSDB que possam apoiá-lo e com quem trabalhe com um grau de confiança maior. Lamentavelmente, ele perdeu esses interlocutores de confiança no PMDB, não sobrou ninguém e a bancada é um deserto. Ele tem chamado o Aécio cada vez com mais frequência ao Planalto, e o Imbassahy vai crescer muito. É discreto e confiável. Vai gerar ciúmes? Vai. Mas lamentavelmente eles não têm como reagir a isso”. É um movimento arriscado, como é evidente. Ele deixa boa parte do baixo clero descontente. Imitando a política da República Velha (como em tudo, até no slogan), querem mais espaço para Minas Gerais. Ué?! Mas Temer não está fazendo isso ao se aproximar, segundo a fonte, de Aécio? Triste sina, movimentos perigosos, tempos tenebrosos – Temerosos. O ilustre deputado Fabinho ameaçou romper com sua base de apoio na Câmara por não terem colocado um ministro mineiro na Justiça. O “essa porra” assume tons apocalípticos: “Ao ouvir a ameaça, Temer respondeu: ‘Que seja feita a vossa vontade’, descreveu o mineiro, que emendou: ‘Se prepara que o senhor vai ter muitas derrotas no Parlamento'”. Na sanha de proteger Cunha, de proteger sua própria pele, Temer se isola cada vez mais. Perdeu um ministro, seu mais próximo e poderoso aliado até agora (sempre esquecemos de Jucá, que não ocupa cargos oficiais…), para uma cirurgia de próstata. O destino anda conspirando contra Temer, o até agora invencível presidente decorativo para as aspirações pinochetianas-tucanas.

3. Uma tendência parece se tornar cada vez mais forte: sempre foi um ato da mais descarada aventura política toda a trama (como se viu, tecida desde 2014) do impeachment; seu governo não tem nenhum respaldo popular, somente histeria. A pergunta óbvia é: como dar sustentação a algo tão tosco? Somente o que foi mais tosco, mais brutal, a prática do genocídio em larga escala. Esse é o programa dos tucanos, dos executores de fato das políticas da camarilha empoleirada em Brasília para ou estancar essa porra ou transformar logo tudo numa orgia, como disse o contemporâneo poeta. Para não perdermos a linha de meu raciocínio: qual diferença que separa a política belicista, assassina, do democrata Péricles, da de Obama com a Rússia, a China e o Oriente Médio? São os meios militares, a capacidade de matar em escalas cada vez mais inimagináveis. Hitler construiu toda sua áurea porque tinha em seu país uma indústria forte e seu governo foi muito ajudado financeiramente. Qual diferença desse mito para Mussolini, Franco, Salazar ou qualquer outro desses ditadores “clássicos”? Ele estava num país com uma potência industrial muito forte com a qual pôde construir uma máquina mortífera impressionante. Os novos democratas (não importa se social-democratas, pefelistas ou qualquer porcaria do gênero) continuam com a política de guerra ao povo, não importa qual bode expiatório escolhido. No nosso caso, a política de ascensão social criada pelos petralhas. O que importa do século XX para cá, principalmente, é matar em massa, seja com Friedman, Pinochet, Médici, FHC ou Malan. Temer cumpre sua missão; sua sina, para falarmos um termo mais apropriado.

4. Como sustentar algo tão tosco? Somente aceitando passivamente a política de genocídio imposta a partir dos últimos meses. Teremos baixeza o bastante?

5. Somente um homem sem nenhum caráter para dizer que “Temer é um senhor elegante. Quase diria bonito“. Contudo, deve-se achar escolhas, ainda que para isso se deva ter menos caráter ainda. A petralhice não parece ser uma escolha apetecível. Colocar outro sapo barbudo, analfabeto, ou uma mulher que, além do mais, queriam forçar como se fosse outra analfabeta, ao ridicularizarem sem nenhum pudor seus discursos. Logo ela, uma das pessoas mais conscientes dos dilemas de nosso país. Logo, deve-se achar alguém o mais casto possível, se possível um príncipe (não importa se da Sorbonne ou de outro reino) do mais puro sangue para desposar nossa pátria mãe gentil. E é nessa aspiração ridícula da classe-média, como tantas outras, se encontra o perigo de cairmos de novo no fascismo. É sobre esse ideal de pureza, de novo ascetismo, de “economia limpa”, quase diria, sustentável, que devemos refletir.

O dia que a mídia ocidental fizer uma capa assim sobre quem realmente não vale nada estaremos definitivamente vivendo entre os marcianos. No detalhe, a gravata vermelha de Trump o leva para a Esquerda…

6. A renúncia é o caminho mais provável. Diante da fragmentação de seu apoio, depois de experimentar as primeiras e fragorosas derrotas – como a da reforma da Previdência e Trabalhista -, pode-se ver ainda mais acuado. Os movimentos são perigosos. Sobre a renúncia pensamos quando vemos tantos ataques e confissões, mesmo daqueles que faz pouco tempo estavam bem ao seu lado. Não teria a grandiosidade de enfrentar todo um processo de impeachment, como também Collor não teve. Gostaria de manter da forma mais mesquinha o máximo dos privilégios que poderia alcançar. Sempre a mínima exposição. Antes do vexame, a renúncia. Sua mais acalentada esperança, a eterna obscuridade. É o máximo, talvez, que podemos experimentar de um caráter como esse. Maior do que qualquer figura desprezível, com a vaidade tão desproporcional que conseguiu construir uma Teoria só para si, sendo, de certa forma, mero poeta e professor; de outro lado, absurdamente menor do que o menor dos Patriotas (Mateus 11:11).

7. A renúncia, no entanto, seria, se feita com a máxima antecedência, um ato de grandeza. Quais são os anões que o guiam para desfiladeiro? Esse é o problema da sucessão com todas as suas consequências, inclusive para Lula. O mais estarrecedor é que o movimento para bloquear a Lava-Jato pode cortar as asas de Moro e impedir a sempre esperada prisão de Lula. Os tempos, atualmente, não se encaixam mais. Quem será, nos próximos meses, os beneficiários desse complicadíssimo jogo?

Eu agora, aqui como Romulo Fróes (na foto de Rodrigo Sommer), a cada nova notícia, cantamos Luz Negra e nos divertimos.

ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS II: o caso Schiller sob o signo da cortina de ferro

Busto de Friedrich Schiller feito no séc. XIX por Arnold Hermann Lossow.
Na série iniciada chamada de Antropológicas, discutimos a formação da “bela alma”, num claro repúdio à filosofia kantiana. Na sua História da Religião e da Filosofia na Alemanha, Heinrich Heine compara o “chinês de Königsberg” ao líder máximo do Terror, Maximilien Robespierre: “No entanto, se Immanuel Kant, o grande destruidor na esfera do pensamento, ultrapassa de longe Maximilien Robespierre no quesito terrorismo, ambos, por outro lado, tinham certas similaridades, que nos convidam a compará-los. Em primeiro lugar, encontramos nos dois a mesma honestidade inflexível, mordaz, prosaica e objetiva. Em segundo, vemos em ambos a mesma aptidão para a desconfiança, exceto pelo fato de o primeiro aplicá-la sobre o pensamento e chamá-la de criticismo, ao passo que o segundo a utiliza contra as pessoas e a chama de virtude republicana. Ainda assim, ambos revelam no mais elevado grau a espécie do petit-burgeois – a natureza os havia destinado a medir café e açúcar, mas o destino os forçou a pesar outras coisas, e pôs um Deus e um Rei, respectivamente, em suas escalas…E eles encontraram seu verdadeiro peso!”.
O homem ideal de Schiller, para Hegel, é uma espécie de Napoleão das letras, síntese do indivíduo e do coletivo, espécie de cidadão consciente das atribuições de um homem público (numa versão atualizada, responsabilidade fiscal, má consciência em relação aos impostos e ojeriza ao Estado?). Esse novo tipo também revela “o mais elevado grau a espécie do petit-burgeois”, do “cabeça-de-planilha” (para lembrar Luís Nassif), o “micro-fascista”, sem saber que o terror jacobino é tão universalizante quanto o imperialismo napoleônico. O que Schiller demonstra é que a liberdade individual não tem nada a ver com a regulamentação pública, com a legislação e não o Estado como querem os novos liberais, e que, caso aja encontro entre o reino da natureza e o da lei, é por estas atuarem, no indivíduo, de maneira completamente independentes uma da outra. Não existe “gestão da crise” (como no Absolutismo) ou “regulamentação da sociedade civil” (como no ordoliberalismo). Para se ser livre não se deve aprender nas cartilhas de bolcheviques ou financistas. Não se aprende a ser poeta no reino da antropologia kantiana.

O caso Schiller sob o signo da cortina de ferro





Schiller, segundo Hegel, através de um estranho acordo, é o homem ideal, representação no indivíduo e seu ideal coletivo que dá o nome de Razão, encarnadano Estado. Schiller, contudo, não pensa de forma alguma no Estado, como é explícito na Carta VII de sua Educação Estética. “A serem corretos, portanto, os fundamentos que estabeleci e confirmado meu quadro do presente pela experiência, será necessário considerar extemporânea toda tentativa de uma tal modificação do Estado, e quimérica toda esperança nela fundada[grifos meus], até que seja de novo suprimida a cisão no interior do homem e sua natureza se desenvolva o suficiente para ser, ela mesma, artista e capaz de assegurar realidade à criação política da razão1”. Segundo Hegel, “pode-se conceber de duas maneiras o encontro do homem no tempo com o homem na Ideia: por um lado, no modo como o Estado enquanto gênero do que é ético, jurídico e inteligente suprime a individualidade; por outro lado, no fato de o indivíduo se elevar ao gênero e ao homem do tempo se enobrecer pelo homem da Ideia2”. Schiller, num parágrafo de suas Cartas, ataca Kant e, logicamente sem o saber, desmonta a deusa Razão hegeliana e sua malfadada “encarnação”, o Estado:

Não é suficiente, pois, dizer que toda a ilustração do entendimento só merece respeito quando reflui sobre o caráter; ela parte também, em certo sentido, do caráter, pois o caminho para o intelecto precisa ser aberto pelo coração. A formação da sensibilidade é, portanto, a necessidade mais premente da época, não apenas porque ela vem a ser um meio de tornar o conhecimento melhorado eficaz para a vida, mas também porque desperta para a própria melhora do conhecimento3.

Essas palavras não podem ser desconectadas de sua frase escrita entre as muitas de suas correspondências recuperadas, sobre a Revolução Francesa: “um grande momento da história encontrou um povo pequeno”. Nenhum triunfo da revolução depois de seu “momento de catarse”, o Terror, como apela Hegel, ou melhoria geral da humanidade dentro de uma esteira inevitável de progresso (teleologia), como pressupunha Kant. Schiller foi tudo em sua vida menos um homem de Estado ou que a ele aspirasse. Talvez por isso tenha se constituído como poeta, no máximo como historiador, mas não como filósofo, o que poderia ter sido um contrassenso à sua concepção de filosofia frente ao que se propunha então os sábios de sua época. Foi uma espécie de Heine, menos polêmico, e que, se teve algumas dificuldades na perpetuação de seus escritos, não foi por uma lamentável conversão tardia à qualquer forma de religiosidade, como aconteceu com o grande crítico da filosofia e da religião na Alemanha, Heinrich Heine. Schiller dá o exemplo de Atenas e Esparta em seus momentos áureos para mostrar a imaturidade cultural do povo frente aos avanços políticos; o desenvolvimento cultural somente apareceu na época de Péricles e Alexandre, quando já não se encontrava nem força nem liberdade na Grécia. Na Itália, igualmente, a bela arte só apareceu com a submissão de Florença à casa dos Médici, quando a liberdade republicana sede lugar aos arbítrios de seu doge. “O nosso olhar, onde quer que perscrute o mundo passado, verá sempre que gosto e liberdade se evitam e que a beleza funda seu domínio somente no crepúsculo das virtudes heroicas4”. Visão trágica por excelência, constante em Schiller em inúmeros de seus trabalhos, e que o desgosto de Nietzsche por tudo o que é alemão tenha feito evitar reconhecer…
Talvez Schiller possa ser considerado mais prudente do que Heine pela preponderância da escola clássica alemã na época que viveu, por Kant inclusive ainda estar vivo, etc. Mas Heine também encontrou obstáculos, mesmo estando numa época de arrefecimento do “idealismo”. Devem ser extraídos desse meio ambiente as motivações de sua conversão e não de alguma análise “familista” no estilo Édipo. Não foi fácil a vida nessa Alemanha dos filósofos das luzes, como atestam a parcimônia – para dizer o mínimo – do matemático Carl Gauss em publicar seus escritos. De outro lado, a própria repulsa de Nietzsche em seu país natal pode ser encarada nessa mesma paisagem onde figuravam os filósofos ditadores, absolutistas das Letras, e funcionários públicos trabalhando como eunucos do rei e do Estado. A necessidade da educação estética em Schiller se dirige para não exatamente uma “educação cidadã” (como se procura às vezes ressuscitar, a velha educação cívica e moral), como se costuma falar, mas no cultivo dos sentimentos como pressuposto para se ter uma razão correta. Como todo artista, seus escritos primam pelo destaque dado ao coração. Numa França de sentimentos mais sublimes não se assistiriam às catástrofes provocadas pelo vox popolidos antigos imperadores romanos, o Terror, ainda menos à aparição do César redivivo na coroa de Napoleão. Sua educação estética, o primado do coração, é a necessidade do ser humano ter os sentimentos de tal modo educados (e passa por isso o aprendizado de todos os modos de sentimentos como expresso nas mais variadas produções artísticas e literárias, mas que não se resumem nela) que não precise de força, de qualquer “imperativo categórico”, para fazer valer uma boa ação. A boa ação do rígido sujeito kantiano é sem brilho. Afinal, o que é um bom coração? Essa a questão levantada por Schiller em suas Cartas. Se Deleuze diz em Diferença e Repetiçãoque não se pode ver nenhuma bela alma a não ser em Nietzsche, com certeza este filósofo nos forneça ótimas reflexões sobre como opera o bom coração, ainda que sob a capa – e somente a capa; bela, no mais – do imoralismo.

O impulso sensível desperta com a experiência da vida (pelo começar do indivíduo) e o racional com a experiência da lei (pelo começar da personalidade), e somente agora, após os dois terem-se tornados existentes, está erigida sua humanidade. Até que isso aconteça tudo nele se faz segundo a lei da necessidade; agora, porém, é abandonado pela mão da natureza, e passa a ser questão sua afirmar a humanidade que ela estruturara e revelara nele. Pois tão logo os dois impulsos fundamentais e opostos ajam neles, perdem ambos seu constrangimento, a oposição de suas necessidades dá origem à liberdade5.

Schiller, o Poeta da Liberdade, não pode em qualquer hipótese que não seja por mera convicção, e não em fatos, ser caracterizado como alguém que busca através da educação estética atingir um ideal de razão, de perfeição, que invariavelmente coincidiria com o Estado, com o Imperador, como muito bem mostrou a lógica de Hegel o curso tão famoso de Kojève sobre a Fenomenologia. Como Helga-Zepp LaRouche (fundadora do Instituto Schiller, da Alemanha) sempre enfatiza, o que está em jogo é a Ode da Alegria, a felicidade como no princípio de Leibniz, em contraposição ao princípio estatal moderno por excelência, o princípio lockiano, o da propriedade. É a esta felicidade, sentimento que fatalmente coincide com a alegria, ainda que esta não exatamente com aquela (pode-se falar de uma alegria no infortúnio, na profunda infelicidade, uma alegria triste, por assim dizer, quase uma auto-comiseração; enquanto na felicidade, mesmo não nos sendo obrigado rir a todo momento, um fundo alegre, de pleno domínio da vida, de nossos sentimentos, sempre prevalece; não há castração, complexos ou demais monstruosidades criadas ou não por teóricos).
O princípio de coincidentia oppositorum, de Nicolau de Cusa, é correlato do trabalho da subjetividade pesquisada por Schiller. A isonomia entre natureza e razão que dá lugar à substituição do reino da necessidade pelo da liberdade. Nada melhor do que isso para se criar um conceito que guia uma “razão de estado”. Foucault é recorrente na afirmativa de que os governos absolutistas faziam a gerência da crise: como não é possível deter a fome, ou caso a vençamos, ela fatalmente voltará, melhor gerir a fome do que procurar suplantá-la. Temos aí um princípio que sempre terá em conta a necessidade como norma, como forma de submissão dos povos, e não a liberdade tão procurada, por exemplo, nos escritos de Maquiavel sobre Tito Lívio ou em sua descrição na História de Florença. Não a igualdade colocada como forma autoritária, como nos descalabros da Revolução, mas a isonomia, o respeito pelas partes, num sistema de pleno equilíbrio, onde a natureza pode servir de plataforma, dar lugar ao reino da liberdade. Certa vez Deleuze se expressou (numa das entrevistas do seu “Abecedário”), não se deseja isoladamente, tampouco se deseja um conjunto. Deseja-se emum conjunto. Segundo Proust, não se deseja uma mulher; o que se deseja é uma mulher, mas também se quer uma paisagem. Uma mulher e a paisagem; o reino da natureza, a razão que preside as escolhas, os desejos humanos (o amor), que, pela coincidentia oppositorum, se dá lugar à liberdade, ao desfruto pleno desse desejo em um conjunto. Assim também para as coisas do bem comum, da república, mas não vistas como mero jogo de identificações, Razão-Estado, que, caso transposto em linguagem schilleriana, talvez fosse transformar cada indivíduo numa espécie de césar, de novo Napoleão, a figura a que Hegel rendia seu culto pessoal. Schiller não tem absolutamente nada a ver com despotismo, arbítrio e governos de força e exceção. Em suma, não existe essa “unidade do universal e do particular, da liberdade e da necessidade, do espiritual e do natural, que Schiller concebeu cientificamente [sic]6”. Um só pode ser entendido como descolado do outro, como independente, atuando em diferentes domínios e se relacionando com algo próximo ao que Didi-Huberman chama de “semelhança informe”, semelhança sem coincidência de formas. Como ele disse, na corruptela à frase de Foucault, “a forma e a transgressão devem uma à outra a densidade de seu ser”. No caso de Schiller, a liberdade é a transgressão da necessidade como esta é a transgressão daquela. Somente a partir dessa relação desigual é que encontram a densidade de seu ser. Uma mulher e uma paisagem, “uma valsa e dois amores”, como na música de Dilermando Reis…


FONTES

1 SCHILLER, Friedrich. A Educação estética do homem numa série de cartas. São Paulo: Iluminuras, 2002, p. 43.
2 HEGEL, 2001, p. 79.
3 SCHILLER, 2002, p. 47.
4 Idem, p. 56.
5 SCHILLER, 2002, p. 99.

6 HEGEL, 2001, p. 80. 

A Nova Rota da Seda se torna a Ponte Terrestre Mundial: um Tour

Diferentes tipos de trens de alta velocidade estacionado na Estação Ferroviária Sul de Beijing. Os trens de alta velocidade chineses fazem a viagem de Beijing a Xangai (normalmente com a duração de 14 horas) em aproximadamente 5 horas. [foto: U.S. Army Band]



Você já ouviu falar da antiga Rota da Seda que conectava a China a Europa através de uma longa rota de viagem. Foi pelo comércio de seda, da porcelana e de livros impressos, porém mais importante que os bens foram as trocas em tecnologia. A antiga Roda da Seda trouxe enormes benefícios econômicos para todos os países participantes, mas foi também uma troca de ideias e de bens culturais. Hoje a China está oferecendo uma nova Rota da Seda e uma Rota da Seda Marítima, em que já estão cooperando mais de 60 países. A China realizou um milagre econômico nos últimos 30 anos, algo que os países desenvolvidos precisaram de 150 a 200 anos para fazerem. Agora a China está oferecendo esse mesmo modelo para todos os países que queiram cooperar com essa perspectiva. A Nova Rota da Seda é baseada na perspectiva “ganha-ganha”, isto é, cada país que participar terá benefícios culturais, políticos e econômicos iguais. Essa é a verdadeira ideia para a superação da geopolítica, o mal que causou duas Guerras Mundiais no século XX. Ela oferece a perspectiva de um verdadeiro desenvolvimento global em parceria para que toda a humanidade trabalhe junto pelos anseios comuns da humanidade.

Veja esse vídeo e você terá noção de como é fácil mudar o mundo para melhor.
Vídeo traduzido e legendado por mim para o site em português da Executive Intelligence Review. Sua transcrição foi publicada nesse blog na postagem Quem tem medo da China?

Disparates (Investigações sobre a biopolítica III)

A situação de Lula, da Síria e do mundo que todos acham “normal”

Enquanto a China faz projetos de ainda em 2020 chegar ao lado escuro da Lua, de obter os preciosos recursos em mineração que sua superfície sem atmosfera fornece (fala-se do hélio-3 e da fusão nuclear), no ocidente se vive mais de uma década lombrosiana em suas relações políticas cotidianas (lembrar do 11/09, do inencontrável Bin Laden, do Ato Patriota, das guerras no Afeganistão e no Iraque), do direito penal do inimigo, do lawfare, e, numa situação de guerra (pouco importa se civil ou militar), persegue os “monstros e degenerados” como os cidadãos tingidos pela nostalgia da nobreza ou pelas promessas da burguesia, ainda no século XIX, perseguiam os supostos delinquentes, os vagabundos, para falar num linguagem que qualquer um entende – no caso, vagabundos são os arruaceiros, de origem humilde, que tomaram o poder e ousaram dividi-lo com o resto da população.
       No plano internacional, por exemplo, quando falam de “conquistas” de Obama, em contraposição às expectativas diversas que reúne o governo Trump, não se tem em mente que para cada “vitória” do democrata temos um retrocesso inacreditável. Para que Cuba se fizemos sanções a Rússia? Para que Irã se temos a Ucrânia? A Rússia nos humilhou com a Síria, então quadruplicamos a presença de tropas nas suas fronteiras… Etc.
       O que quero falar é o seguinte: quando se fala sobre a desativação de Guantánamo, por outro lado não se vê que se substituiu isso pelos drones, pelos assassinatos das reuniões terça-feira. Por que não fazer a pergunta: que tipo de pessoas são assassinadas pelos drones? Existe por acaso alguma correlação entre essa lista e a dos terroristas que antes eram presos? etc. Não são, em nenhum dos dois casos, cidadãos americanos; pelo menos não do tipo como os que estão morrendo agora por suicídio e overdose, os “white-american” não latinos e de meia idade. Então, que tipo de gente é essa que vem sendo perseguida desde o governo Bush? Sem contar com o mais famoso caso, o do embaixador assassinado, provavelmente como forma de aumentar a presença de forças anti-terroristas na região e acabar por matar, via drone, o Kadafi.
          Como me respondeu um amigo:

As we say in English, “One step forward, two steps back”. Except that the steps back, create a plunge toward superpower confrontation and nuclear war. Quanto aos drones, it can’t be ruled out, that some of the prisoners released from Guantanamo are subsequently targeted by drone attacks wherever they end up. But the basic point is that the Bush-Obama-British policy has been to FOSTER the terrorism, first through protecting the nations which actually sponsor the terrorists – such as Saudi Arabia and Turkey; second through demolishing the secular Moslem nations such as Iraq, Libya, and Syria, which are a bulwark against the radical jihadis; and third, deploying drone attacks which they know kill vastly more innocent bystanders than any actual terrorists, and thereby serve as a recruitment tool for jihadis. A very useful picture of this came out in the Drone Papers last October, featured on Glenn Greenwald’s The Intercept website.

         
        Um passo numa medida, outro passo noutra. Parece que por mais que se corra, não se chega a alcançar o progresso desejado. A primavera dos governos do PT substituídos por um grupo aboletado no poder, simplesmente para “parar essa porra”, é difícil de acreditar. Todo o prestígio alcançado para agora essa porra… Conquistas históricas, como as acima mencionadas, realizadas pelo governo do assassino Barack Obama; um novo presidente dos nórdicos, agora legitimamente ruivo, se equilibrando entre o pior que o seu país representa e impulsos para normalizar as relações com o oriente, colocar freios na Otan e reindustrializar seu país, onde já é longa a fila de famélicos. Uma Alemanha, para dar mostrar mais um caso, cujo ministro das RELAÇÕES EXTERIORES, é consciente do perigo do avanço da OTAN no leste europeu, nos Bálcãs, pertence ao mesmo governo que lidera a facção anti-Rússia na Europa. Pois não é a Alemanha, na Europa, o suporte principal da política imperial contra a Ásia? Mas os nórdicos de além-Atlântico também tem um governo coalizão. Steinmeier, o ministro citado, pertence ao SPD, que compõe com o CDU (partido de Merkel), a “grande coalizão” germânica. É como um governo “centrista” (PMDB), com o PT como base de apoio. Dá merda essa porra, como sabemos… Centrista é o c…! Pare de usar disfarce, ô Anão!
       Para quem acompanha esse blog, não temos muito o que responder. Mas virá também a etapa em que daremos as notícias boas. Para quem não segue, sem problema. MT tem 500.000 curtidas no face e não sei quantos seguidores e mais milhares “falando sobre isso”. Até a página da Dilma tem mais pessoas do que a do Lula (lógico que não se compara aos padrões numéricos temerianos). Foda-se curtir. O importante é compartilhar. Mais um da série de Foucault que esboçamos por aqui. E dane-se também quem diz que isso não é filosófico nem acadêmico, nem tem nada de Foucault e é mero panfleto político. Vá discutir sobre o diâmetro do cú dos anjos com quem quer que seja. Se essa porra (+ 300.000 curtidas) de Foucault não é política, e da mais chão, então de nada vale. Ibdem para esse autor que temerariamente agora vos escreve.

        Vigiar e punir: de Sade a Merval Pereira, de Luís XVI a Assad, de Maria Antonieta à Mãe Loura

       A questão da arbitragem, da intervenção judiciária extremamente vinculada ao sistema-empresa, a uma Empresa Mundial S.A. (no primeiro post da série), se organizou no mundo durante o século XX e que, numa pesquisa mais aprofundada, data de antes das grandes guerras, pouco antes da crise de 29. Na verdade, provoca esses eventos e depois se sofistica – biopolítica – no pós-guerra, tendo sua maior vitória com o bloqueio da ascensão de lideranças significativas na Europa e nos EUA, o que leva à desregulação total da economia com o fim da lei Glass-Steagall, de Roosevelt, assim como pela livre flutuação cambial com o fim do acordo original de Bretton Woods, pelo governo Nixon. O tão criticado projeto do Mercosul, críticas originárias de quem compara esse projeto com o suposto avanço europeu com a União Europeia, não considera um dado óbvio, o de que a UE é um sistema de união política via união monetária preconizada por outros tratados internacionais, mais exatamente falando, no caso sul-americano, a ALCA. Esta vem divergir da ideia de um Mercosul, de uma Unasul, suprimindo as barreiras comerciais num primeiro momento e logo após dolarizando a economia do sub-continente, processo acelerado pelas reformas monetárias neoliberais da década de 1990. Esse tipo de projeto político é o que levou os países banhados pelo Atlântico Norte a ainda hoje verem-se continuamente em hostilidade com grandes países como China e Rússia, prefigurando uma confrontação termonuclear cujo poder destrutivo faz Hiroshima e Nagasaki pertencerem à idade das pedras das confabulações sobre o Fim dos Tempos. E isso é relacionado ao tipo de “capitalismo financeiro” (um termo que nas configurações atuais ou até mesmo em sua origem como conceito, é insuficiente para dar contar do sistema “anglo-veneziano”, oligárquico, que existe agora) que prevaleceu com a criação do grupo Inter-Alfa após o processo de descolonização no pós-guerra e que impede um eficaz sistema de cooperação com o Oriente, de um modo geral, como previam os projetos de Gabriel Hanotaux e Seguei Witte na virada dos séculos XIX e XX, da construção de um eixo Berlim-Bagdá e de uma ferrovia trans-siberiana que chegaria até Paris. Essa é a falácia da “vitória” alcançada com a queda do muro de Berlim e que nos faz viver num sistema tanto ou mais perigoso do que no período em que, com Bertrand Russel, se defendia o MAD (Mutual Assurance Destruction) como forma de controle populacional (o bombardeamento de tempos em tempos com armas atômicas da URSS pelos EUA e vice-versa). A chamada “doutrina utópica da OTAN”, na qual um só ataque termonuclear bastaria para aniquilar o oponente, é utópica no sentido em que desconsidera a capacidade do “inimigo” responder quase que simultaneamente ao ataque fulminante, o que levaria a civilização a uma crise gigantesca, ou seja, o exato oposto de uma “crise existencialista” ao estilo de Husserl ou da psicanálise de um modo geral.
Lei e ordem, Estado e sociedade civil, política da vida: esses são os eixos por onde se articula o tema da biopolítica na era ordo ou neoliberal. Um campo jurídico-institucional mantenedor da concorrência, como limitador do monopólio e como prática social do poder: esse é o modelo alemão que “vocês sabem como assusta nossos compatriotas, esse modelo alemão não é o que tantas vezes se invoca, de um Estado todo-poderoso, do Estado de polícia. O que é o modelo alemão e o que se difunde não é o Estado de polícia, é o Estado de direito1”. O tema da soberania não se encerra com Luís XVI sob a guilhotina; o poder soberano não se extingue com a morte do Estado em seu sentido mais clássico, não tanto o burguês do século XIX, mas o absolutista. Da mesma maneira que o Estado pode ser concebido numa categoria deleuziana, como “aparelho de captura”, ou seja, ele não é nada mais

do que o efeito, o perfil, o recorte móvel de uma perpétua estatização, ou de perpétuas estatizações, de transações incessantes que modificam, que deslocam, que subvertem, que fazem deslizar insidiosamente, pouco importa, as fontes de financiamento, as modalidades de investimento, os centros de decisão, as formas e os tipos de controle, as relações entre as autoridades locais, a autoridade central, etc. Em suma, o Estado não tem entranhas, como se sabe, não só pelo fato de não ter sentimentos, nem bons nem maus, mas não tem entranhas no sentido de que não tem interior. O Estado não é nada mais que o efeito móvel de um regime de governamentalidades múltiplas2.

Enquanto isso, os efeitos das teorias do poder baseadas no conceito de soberania reeditam o anseio pelo velho ritual da morte do rei. A morte de Luís XVI como ato de justiça contra o primeiro monstro moral, o monstro político: “O primeiro monstro jurídico que vemos seguir, delinear-se no novo regime da economia do poder de punir, o primeiro monstro que aparece, o primeiro monstro identificado e qualificado, não é o assassino, não é o estuprador, não é o que infringe as leis da natureza; é o que infringe o pacto social fundamental. O primeiro monstro é o rei3”. Esse tema aparece claramente no processo contra Luís XVI no fim do ano de 1792 e início de 1793, onde se discutia qual pena deveria ser aplicada e qual forma o processo econômico deveria se revestir. A princípio o processo visava culpabilizar o rei como traidor ou conspirador, o que recebeu a crítica dos jacobinos e de Saint-Just, pois o rei não subscreveu o pacto social e assim não pode receber nenhuma pena prevista nesse pacto. “Não se pode aplicar a ele nenhuma lei do corpo social. Ele é o inimigo absoluto que o corpo social deve considerar como inimigo. Portanto há que matá-lo, como se mata um inimigo ou como se mata um monstro4”. Mas isso também não seria possível porque implicaria deixar ao corpo social por inteiro a tarefa da execução do rei, o que revelaria uma simetria entre indivíduo e corpo social. Como Luís XVI nunca reconheceu a existência do corpo social, aplicando seu poder a indivíduos particulares, como se o corpo social não existisse. Portanto, é uma lei individual de hostilidade que balizará seu assassinato, o que, por outro lado, inviabilizava que a nação inteira pudesse se manifestar a respeito do destino do rei. Na teoria do direito isso queria dizer que qualquer um, mesmo sem o consentimento geral dos outros, tinha o direito de matar Luís XVI. “Qualquer um pode matar o rei: ‘O direito dos homens contra a tirania é um direito pessoal’, diz Saint-Just5”. Essa argumentação se desenvolve durante o século XIX, de Esquirol a Lombroso, ao se fazer pergunta similar: o criminoso nato, o monstro humano e inimigo da sociedade inteira – o degenerado, em suma – deve-se a ele aplicar as leis, já que também nunca subscreveu o pacto social? Maria Antonieta, a escandalosa libertina, lésbica e prostituta: a incestuosa. Nos massacres de setembro era outro tipo de monstro humano que aparecia nos panfletos, não mais o que rompia o pacto social de cima para baixo, mas ao revés:

Madame Roland, por exemplo, descrevendo os massacres de setembro, dizia: “Se vocês soubessem dos pavorosos detalhes das expedições! As mulheres brutalmente violentadas antes de serem dilaceradas por esses tigres, as tripas cortadas, usadas como fitas, carnes humanas comidas sangrentas!” Barruel, na Histoire du clergé pendant la Révolution, conta a história de uma tal condessa de Pérignon, que teria sido assada na Place Dauphine com as duas filhas, e seis padres também teriam sido queimados vivos na praça, porque tinham se recusado a comer o corpo assado da condessa. Barruel conta também que venderam no Palais Royal patês de carne humana. Bertrand de Molleville, Maton de la Varenne contam toda uma série de histórias: a célebre história de Mademoiselle de Sombreuil bebendo um copo de sangue para salvar a vida do pai, ou daquele homem que havia sido obrigado a beber o sangue tirado do coração de um rapaz para salvar seus dois amigos; ou ainda, massacradores de setembro que teriam bebido uma aguardente na qual Manuel teria posto pólvora de canhão e que teriam comido pãezinhos molhados nos ferimentos. Temos aí também a figura do depravado-antropófago, mas na qual a morfologia prevalece sobre a depravação. Os dois temas, interdição sexual e interdição alimentar, ligam-se com muita clareza nessas duas grandes primeiras figuras de monstro e de monstro político. Essas duas figuras pertencem a uma conjuntura precisa, embora também retomem temas antigos: a depravação dos reis, a libertinagem dos grandes, a violência do povo. Tudo isso são velhos temas; mas é interessante o fato de terem sido reativados e reatados no interior dessa primeira figura do monstro6.

A súbita irrupção da literatura de terror nos anos mais ou menos contemporâneos da Revolução Francesa, como o Castelo dos Pirineus, onde se ligam a figura do soberano feudal e seu poder contranatural com a selvageria da própria natureza, o castelo e a floresta, é o que faz com que os romances de terror devam ser lidos como romances políticos. Em Sade, por exemplo, a libertinagem é sempre ligada a um desvio de poder, aparecendo sobre dois extratos, a monstruosidade superpoderosa e a monstruosidade revoltada, o ministro e a rebelde, Dubois e Juliette. “Não há em Sade monstro politicamente neutro ou médio: ou ele vem da escória do povo e ergueu a cabeça contra a sociedade estabelecida, ou é um príncipe, um ministro, um senhor que detém sobre todos os poderes sociais um superpoder sem lei7”. O excesso de poder, o superpoder, o despotismo são os operadores da libertinagem em Sade, e é ele que transforma a simples libertinagem em monstruosidade. No século XIX, a temática jurídico-médica se associa à figura do monstro, o incestuoso (o rei) e o antropófago (o povo), na medida em que agrediam as duas grandes interdições, a alimentar e a sexual. Esse é o ponto de formação da medicina legal no século XIX e que mais tarde serviria de via de acesso a determinado número de disciplinas. Portanto, a gênese dessa temática pode ser encontrada menos nos estudos sobre o incesto feitos por Durkheim ou Levy-Bruhl, ou mais tarde, Lévi-Strauss, do que em Vacher, na França, no Vampiro de Düsseldorf, e principalmente em Jack, o Estripador, na Inglaterra, que tinha a vantagem não só de estripar prostitutas, mas de ter determinada relação de parentesco com a rainha Vitória. “Com isso, a monstruosidade do povo e a monstruosidade do rei se uniam em uma figura turva8”.
A etnologia mais moderna ainda se preocupa com os temas de aliança e cozinha, “o que você come e quem você não desposa? Com quem você entra nos vínculos de sangue e o que você tem o direito de cozinhar?9”, como é o caso das Mitológicas, ou seja, o binômio canibalismo-incesto, a dinastia de Maria Antonieta. Por outro lado, o que vale para a etnologia também vale para a psicanálise. “Incesto: crime dos reis, crime do poder excessivo, crime de Édipo e sua família” – a inteligibilidade da neurose, Melanie Klein, Totem e Tabu, o “problema da devoração, da introjeção dos bons e maus objetos, do canibalismo não mais crime dos reis, mas crime dos famintos10”. O degenerado, assim como constituído pela psiquiatria criminal, pela medicina legal, é, numa palavra, “o anormal mitologicamente – ou, se preferirem, cientificamente – medicalizado11”. Porém, se nos determos na questão específica da soberania, não teoria do Estado ou ciência política, e não circunscrita ao absolutismo ou aos governos que não desenvolveram uma constituição escrita, podemos traçar uma genealogia que vai de Hamlet a Watergate, do contrato social primitivo de Hobbes à sociedade civil de von Hayke e seus acólitos, como também de todos esses que ficam às margens, o degenerado, o anormal ou, com o ordoliberalismo, o biologicamente, geneticamente, inadaptado.

Conclusão

De tantos pontos que poderiam ser destacados, seja considerando a primeira ou a segunda parte do texto. Pouco importa ser mais ou menos formal. Nunca é isso que está em jogo. Se isso fosse o caso, antropopsicanálises seria um top das discussões, verdismo seria a ideologia triunfante, Heidegger daria aulas para crianças, pipa afundava e pedra voava. Não que isso não seja o caso. Ele é de fato (e pouco importa se também é de direito). A importância da arqueologia é exatamente limpar essa zona imensa de discursos, esse lixo da história, essa escória (para falar em termos nietzschianos e não lombrosianos) de tudo o que fica para trás (pelo menos em termos), como Assad, como Lula, e até a Dilma…
Enganam-se o comentaristas que acreditam que a plebe de Nietzsche são os proletários. O homem do ressentimento, da má consciência, sempre foi o sacerdote, o padre (le prêtre, para ficar mais sublinhado o papel do pai, mas não o pai lacaniano, não Édipo e sua prole – esse o papel de Guattari e Deleuze). É ridículo não entender como metáfora, nem pelo menos “como isso funciona”, para lembra o Anti-Édipo e a nefasta metáfora do id (para não esquecer das frases iniciais do grande livro: “Isso funciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente. Isso respira, isso aquece, isso come. Isso caga, isso fode. Mas que asneira ter dito o isso. O que há por toda a parte são máquinas, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com as suas ligações e conexões”). O problema da classe-média é esse: sempre esqueceu isso. Se acha superior, esquece o pântano que a envolve, acredita em regras abstratas e não em máquinas, não na capacidade de produção se seu discurso. Não entendem como atuam como anti-arqueólogos, como fazedores de sujeira, se merda. E que vai limpar toda essa porra? Jucá? A classe-média é relevante por um fator muito simples: atua nos setores de difusão de opinião. São os empregadores. Em algum nível tem subordinados. São os empregadores na medida em que são visíveis. Numa escola, por exemplo. Numa escola riquíssima, vamos dizer. O dono, quem vê? E assim os valores são passados. A classe-média de merda é uma máquina super-poderosa para fazer crescer, aumentar, e não parar, essa porra. Ah!, mas eu nunca defendi o golpe. Seu ineslustrado! Ou analfabeto, você escolhe. Que porra é essa, seu militantizinho de merda?
É para discutir se pipa voa ou prego afunda. Para criar dissenso inútil. E cancela show quando sua utopia, seguindo ou não os boatos, se realiza. Faz campanha sórdida, como já mostramos, pousando de esquerdista, em razão de um certo pragmatismo que só serve no cú dos outros na hora do discurso. Daí sua irmandade, sua semelhança com a ideia de paz que sustenta o verdismo, o marinismo e outras porcarias do gênero. Para não dizer que não falei, o vídeo acima, se visto com alguns segundos a mais, não é ruim de tudo. Mas não se pode misturar regras genéricas para criar uma máquina abstrata. Esse é o populismo canhestro das classes “ilustradas”, que se utilizam de certa concepção de misericórdia para pedir o quê? Uma Noruega? Por decreto, seria? Daí os sempre pudores em se afirmar seja Vargas, seja JK, Jango, Lula ou Dilma. Sempre haverá um senão. Por isso a afirmação nietzschiana não é da ralé. Ela não chega, não bate, não formula nunca uma firmação plena. Se a classe-média é a ralé? Se a carapuça servir está valendo.
Vocês nunca vão se comparar, Adnets ou Duviviers, com todos os “senãos” que se pode falar a favor de vocês. (na foto, Enéas Carneiro ao lado de Mãe Loura)
A classe-média cria máquinas abstratas para fazer multiplicar a ralé, ou seja, determinado modo seu de filosofia e de modo de vida. É só pensar na Europa, no lugar do bem-estar social e tudo o mais. Como lidar com a crise dos refugiados? Albergando-os? Ou se deve criar uma Nova Rota da Seda, como propõe Xi Jinping? Uma Ponte-Terrestre Mundial, como propõe a criadora do conceito da Nova Rota da Seda? Para falar em linguagem mais fácil, um eixo Berlim-Bagdá, como queria Bismarck, ou a integração euroasiática, via trens (hoje, de alta velocidade), como queriam Gabriel Hanotaux, na França, e Sergei Witte, na Rússia (unidos na época)? Como disse o Poeta da Liberdade, Friedrich Schiller, sobre a Revolução Francesa: “um povo pequeno encontrou um grande momento da história”. Imagina se dois povos pequenos se encontram num grande momento da história? Não vou pedir para clicar nesse link porque já estou farto de falar n’essa porra, nessa daqui e em todas as outras. Não devemos medir o tamanho do diâmetro do cú dos anjos, mas ler O Abertinho.

ESSE TEXTO PODE SER LIDO EM PDF NO ACADEMIA.EDU


REFERÊNCIAS

1  FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 245.
2 Idem, p. 106.
3 FOUCAULT, Michel. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 80.
4 Idem, p. 81.
5 Idem.
6 Idem, p. 84-5.
7 Idem, p. 86.
8 Idem, p. 87.
9 Idem, p. 88.
10 Idem, p. 89.
11 Idem, p. 276.

Domenico Losurdo: Os EUA, o pivô anti-chinês e os perigos de guerra

Há tempos, a situação não é nem um pouco pacífica no Mar da China
Como vemos acentuando por aqui sobre a situação nem um pouco pacífica do mundo (“Sobre a guerra que se aproxima: parte 1 e parte 2), principalmente agora, com o fim do Estado de Bem-Estar Social que parecia bem sucedido nos países desenvolvidos desde que efetivaram os planos de recuperação econômica da Europa no pós-guerra, e nos EUA, de forma vigorosa, a partir de Roosevelt, e mesmo então, experimentando sempre relativa decadência, depois do assassinato de John F. Kennedy (mostramos no post “Se falar de Moro, por que não falar dos BRICS?” a situação deplorável da população ianque com os governos Bush e Obama – a epidemia de drogas, o aumento estarrecedor das mortes precoces por homicídio e suicídio, etc. -, mas também os fatores de longo curso que vieram acentuando a decadência do país em questão, com dados relativos à queda de seu padrão de vida desde pelo menos a década de 1970). Leitores do blog levantaram na hora a questão – como é comum – sobre as dúvidas da China ser um império de fato ou um suposto império, talvez, pior ainda (agora ou depois), do que os EUA. Quem é o santo da história? Contudo, dentro do paradigma dos BRICS, da reconstrução já em curso da Nova Rota da Seda, da orientação soberana, patriótica, que a China vem se guiando nos últimos anos – orientação esta responsável por seu incrível crescimento econômico e a retirada de centenas de milhões da pobreza -, não vimos o porque de se preocupar com os asiáticos. Como respondi, se perigo existe, ele não vem do Oriente
O fato é que desde o fim da URSS, não se estabeleceram planos para uma união dos “anseios comuns da humanidade”, como se exprimia no século XIV o cardeal Nicolau de Cusa, responsável, durante o Concílio de Florença, pela introdução do conceito de pace fidei, para acabar com o cisma que dividia a Igreja ortodoxa da católica. Tampouco planos como os de Gabriel Hanotoux e Sergei Witte (responsáveis pela construção da ferrovia transiberiana) e os de Bismarck (que planejava a construção de um eixo ferroviário Berlim-Bagdá) estão na mesa – pelo menos da parte do Ocidente. Quem quer reconstruir esses elos rompidos, superar a história das desavenças entre os povos do oeste e do leste, nesse momento, são os chineses. E por isso sofrem o perigo de guerra, como a potência sua aliada, a Rússia. Como quando se fala de “nova guerra fria” os russos sempre aparecem, quis republicar aqui o artigo do filósofo italiano Domenico Losurdo, atendo às movimentações no Mar da China, ao “pivô asiático”, ponto de honra do governo Obama, o qual prometeu tudo (retirada das tropas do Iraque e Afeganistão, e fim das guerras pelo menos as convencionais – as substituiu pelo assassinato à distância, de alvos selecionados, via drones) menos o fim do “pivô” – essa parte não entrou, nem por uma questão de mera coerência ou etiqueta, em sua retórica imperialista e, pelo mesmo motivo, extremamente populista.
O filósofo alerta para como o mundo asiático viu com preocupação a Guerra do Golfo e como foi sendo preparada, desde então, os meios para se superar a defasagem não só econômica, mas militar, da China em relação aos EUA. Já começa aí a “nova guerra fria”, como disse, com a política expansionista dos EUA e seus aliados, com o aprofundamento das práticas isolacionistas promovidas pela OTAN, pela série de intervenções dos Bálticos ao Oriente Médio, pela transformação da antiga União Soviética num narcoestado através da liberalização de sua economia. Nada a ver com a Ponte Terrestre Mundial, com o triângulo produtivo Paris-Berlim-Viena, para impulsionar o crescimento do leste europeu e integrar a economia do continente com a Ásia – medidas apresentadas por Lyndon LaRouche ainda em 1988, quando prognosticou a queda do muro de Berlim, num momento de aguda tensão entre as potências e que ninguém acreditava que teria um fim tão próximo.
Segue a publicação. Para quem quiser conhecer mais e melhor os conceitos, as pesquisas e as informações expressas por esse autor, que se dedique mais tempo ao site. Com o novo layout, não fica tão mais “apavorante” ler algumas notícias que não costumam aparecer nas publicações de esquerda ou direita. Curta, compartilha, siga. Seja amigo desse blog!

Domenico Losurdo: Os EUA, o pivô antichinês e os perigos de guerra

Publicado ORIGINALMENTE no site do PC do B, RESISTÊNCIA


A China representa mesmo uma ameaça geopolítica para os Estados Unidos e os países que com ela fazem limite na região do Pacífico? Publicamos a seguir um excerto do livro de Domenico Losurdo, La Sinistra assente: crisi, società dello spettacolo, guerra (Carocci, 2014), que analisa algumas questões da assim chamada “ameaça chinesa”.
O pivô asiático*
O “pivô” é frequentemente apresentado no Ocidente como uma resposta à “ameaça” proveniente de Pequim. Não há dúvida que com a ascensão ou, mais exatamente, com o retorno da China, depois do fim do “século das humilhações”, e com o avanço do processo de maturação da República Popular, o quadro internacional está mudando de modo radical. Em março de 1949 o general estadunidense MacArthur podia constatar satisfeito: “agora o Pacífico tornou-se um lago Anglo-saxão” (Kissinger, 2011, p. 125). Dadas as relações de força existentes, os EUA podiam ter esperanças de bloquear com suas intervenções a chegada ao poder do partido comunista e de Mao Tsé-Tung; a esperança tornou-se rapidamente desilusão e em Washington, em meio a furiosas polêmicas, se desencadeava a caça ao responsável pela “perda” do grande país asiático.

Por Domenico Losurdo**
O pacífico não era mais em sentido estrito “um lago Anglo-saxão” mas, como sabemos, ainda ao cabo da Guerra Fria os Estados Unidos violavam sem dificuldade o espaço aéreo e marítimo chinês. Eram os anos em que a superpotência já solitária buscava consolidar e tornar permanente e inabalável a sua já clara superioridade militar mediante a Revolution in Military Affairs. Esta conhecia o seu batismo de fogo no curso da primeira guerra do Golfo: embora armado em medida não desprezível, o Iraque de Saddam Hussein sofria uma derrota rápida e irreparável. Era um sinal de alarme sobretudo para os países que há pouco se haviam impetuosamente liberado do jogo colonial.
Em Pequim, em junho de 1991, Jiang Zemin (2010, pp. 134, 136 e 591) exprimia a sua preocupação: “Se em todo o caso uma guerra mundial não é iminente, o mundo está bem longe de ser pacífico”; “particularmente preocupante é a Guerra do golfo”. “O papel da tecnologia militar tornou-se uma questão importante”: no que diz respeito à China, em certos setores do aparato militar “o gap se está agravando”. É um conceito reafirmado e melhor definido cinco anos depois: “a aplicação em larga escala de novas e sofisticadas tecnologias está mudando profundamente o mundo no plano não só social e econômico, mas também militar, e está introduzindo mudanças revolucionárias nesta área”.
A ausência da primeira revolução industrial e tecnológica tinha assinalado o início do “século das humilhações”; a ausência da revolução industrial, tecnológica e militar em curso levaria a uma repetição desta tragédia talvez em escala ainda maior. Neste quadro é que devem ser inseridos os esforços desenvolvidos pela China nos últimos anos para reduzir o seu atraso no plano militar.
Ameaça chinesa?
Argumento de fábula política no passado mais recente, a “ameaça chinesa” ganhou subitamente uma dimensão real e concreta em nossos dias? Damos a palavra a um estudioso estadunidense de origem chinesa, autor de um livro publicado por uma instituição de certo modo oficial do país guia do Ocidente (Strategic Studies Institute, U. S. Army War College). Pois bem, nesse estudo podemos ler que, segundo alguns analistas, os mísseis chineses poderiam “obrigar a Marinha estadunidense a operar a uma maior distância da costa [chinesa], ao menos na fase inicial do conflito” (Lai, 2011, p. 217). Sendo assim, se pode entender as amarguras de Washington pelo fato de que o Pacífico não é mais (na sua parte ocidental) “um lago Anglo-saxão”, aliás um “lago privado” (DYER, 2014, p. 2), ou não é mais assim tão fácil violar o espaço territorial, aéreo e marítimo do grande país asiático; e  todavia seria simplesmente temerário falar de “China Threat” ou do “perigo amarelo”! Atualmente, a marinha militar estadunidense, que goza de uma esmagadora superioridade, “opera a poucas milhas de distância de muitas das mais importantes cidades chinesas” (Dyer, 2014, p. 1). Se isso é sinônimo de “ameaça chinesa”, o que se deveria dizer de uma situação inversa, segundo a qual uma superior marinha militar chinesa tivesse sob controle e ameaça, a poucas milhas de distância, São Francisco e Nova Iorque? Na realidade, nas páginas do Foreign Affairs, o autor do artigo que já conhecemos sobre a capacidade alcançada pelos EUA de lançar um primeiro golpe nuclear, sublinha satisfeito “o passo glacial da modernização das forças nucleares chinesas”: portanto, “as probabilidades de que Pequim adquira no próximo decênio um poder nuclear dissuasor capaz de sobreviver são mínimas […] Contra a China os Estados Unidos têm hoje uma capacidade de lançar o primeiro ataque e estarão em condições de manter esta capacidade ainda por um decênio ou mais” (Lieber, Press, 2006, pp. 43 e 49-50).
Mas como explicar então os conflitos em torno de algumas ilhas localizadas no Mar Chinês Oriental e no Mar Chinês Meridional? Retomamos a leitura do estudo publicado pelo Strategic Studies Institute: “A China tem uma longa história de pescadores que pescavam nestas águas assim como de reivindicações oficiais destas ilhas. Presumivelmente, os chineses primeiro deram a elas um nome, as utilizaram como pontos de referência para a navegação, tentaram designá-las como território chinês colocando-as sob jurisdição das províncias costeiras meridionais e definindo-as como tais sobre um mapa. Por séculos os chineses deram como certo que este certificado histórico (historical reach) estabelecia a sua propriedade sobre estas ilhas e suas águas circundantes” (Lai, 2011, p. 127).
Intervieram depois o declínio da China e o expansionismo colonial: “nos anos 30 os franceses tomaram posse das ilhas Paracelso (Xisha em chinês) e Spratly (Nansha em chinês) de modo a expandir o alcance do seu protetorado colonial”, enquanto “durante a segunda guerra mundial o Japão assume o controle de todas as ilhas do Mar Chinês Meridional” (Lai, 2011, p. 128). Com a Declaração do Cairo (1943) e a proclamação de Potsdam (1945) o Japão se empenhava a restituir todos os territórios que “havia roubado”. Mas, depois da eclosão da Guerra Fria, à Conferencia de Paz de Paz de São Francisco não foram convidadas nem a República popular chinesa nem a República chinesa (Taiwan); o Japão, aliado aos EUA, podia assim reter as ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses).
Elas deveriam ter sido restituídas, mas nas novas circunstâncias eram de grande utilidade, funcionando como uma pistola apontada contra o inimigo saído de uma grande revolução anticolonial e inspirador na Ásia de uma ulterior onda de revoluções anticoloniais. Dava prova de precaução o primeiro ministro Zhou Enlai, que às vésperas da conferência condenava os EUA pelo fato “de privar a China do seu direito a recuperar os territórios perdidos” e “de lançar um tratado para a guerra, não para a paz, no Pacífico Ocidental” (Lai, 2011, p. 129).
Vale a pena notar que em relação às ilhas contestadas a República popular chinesa não assume uma posição diversa daquela da República da China (Taiwan). Aliás, esta última tem dado prova de maior firmeza, a julgar pela fonte estadunidense mais vezes citada: “Em 1946, o governo da República da China enviou navios de guerra para ‘recuperar’ as ilhas Paracelso e Spratly. Em um mundo que enfatizava o controle de fato mais que as reivindicações históricas, a China teria podido manter ali as suas tropas a fim de exercer o controle de fato sobre aqueles territórios e afirmar resoluta e incontestavelmente a posse daquelas ilhas. Por ter deixado de fazer isso e ter negligenciado por decênios as ilhas do Mar Chinês Meridional os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) devem eles próprios se penitenciar (…) Os líderes chineses (em primeiro lugar da República popular) gastaram todo o seu tempo e todas as suas energias jogando os chineses uns contra os outros em ‘perpétuas revoluções e lutas de classe’, enquanto deixavam abandonados os territórios contestados em mar aberto” (Lai, 2011, p. 130).
Pequim x Tóquio
Particularmente intratável é o conflito entre China e Japão, mas é este último a tê-lo provocado. Essa verdade emerge das próprias análises dos jornalistas e estudiosos ocidentais: é “razoável” a reivindicação avançada por Pequim acerca da ilha Diaoyu (ou Senkaku); e se trata de uma reivindicação levada adiante por toda a nação chinesa, que aliás reprova os seus governantes por assumirem um comportamento “muito conciliador e mole” (Kristof, 2013). Não obstante isso – sublinha um sociólogo britânico – a China se contentaria em definir como “contestada” a propriedade daquelas ilhas, postergando a solução do problema às futuras gerações.  Se trata de uma proposta já avançada em seu tempo por Zhou Enlai e inicialmemte aceita pelo Japão, que agora ao contrário a rejeita secamente. É uma “loucura” que se explica com a onda chauvinista que sacode o país (Dore, 2013). Trata-se de uma nação – vale acrescentar – que tem dificuldade de fazer as contas com o seu passado. Em 1965, enquanto se desencadeava a agressão contra o Vietnã, o primeiro ministro japonês Eisaku Sato solicitava ao secretário estadunidense para a defesa, Robert McNamara, que fizesse recurso à arma nuclear no caso de guerra contra a China, culpada por ajudar o Vietnã (International Herald Tribunne 2008). Nos nossos dia, encorajado pelo apoio dos EUA e pelo “pivô” antichinês por ele encenado, o governo japonês se obstina em um negacionismo que, em razão do seu radicalismo, termina por inquietar até mesmo Washington. De qualquer modo, em tudo pretensiosa se revela a palavra de ordem da “China Threat” (ou do “perigo amarelo”): na realidade, ela é uma completa deformação da verdade. O fato é que não podemos considerar definitivamente concluída a luta de liberação nacional que presidiu o nascimento da República popular chinesa. Não se trata só de Taiwan. Ecoam insistentes as vozes que preveem ou desejam para o grande país asiático um fim análogo àquele que sofreu a União Soviética ou a Iugoslávia: “uma nova fragmentação da Cinha é o desfecho mais provável” – anunciava um livro de sucesso publicado em Nova Iorque no ano mesmo da implosão do país derrotado no curso da Guerra Fria (Friedman, Lebard, 1991).
A hipótese da desintegração
A partir de então, nos EUA e nos países que com ele formam aliança, se multiplicaram as tomadas de posição de analistas, estrategistas, políticos, homens de Estado que previam ou invocavam a “fragmentação do colosso chinês”, o seu desmembramento em “sete chinas” ou em “muitas Taiwans”. O ideal seria proceder a uma “desintegração do interior” (desintegration from within). Em todo caso Washington é chamada a “afrontar de maneira mais coerente a futura fragmentação da China”. Estamos em presença de uma campanha que se move em várias frentes: dá o que pensar o prêmio conferido pelo Los Angeles Times a um livro que invoca o retorno à China da dinastia Ming (que teve o seu fim em 1644), com a exclusão consequentemente do Tibet, de Xinjiang, da Mongólia interior e da Manchúria. Mas, obviamente, o autor aqui citado tem em mira só a República popular chinesa: assim, junto a séculos de história, deveria ser posta em discussão uma parte bastante considerável (mais ou menos a metade) do seu atual território. Ainda além vai um outro livro aclamado no Ocidente (Ross Terril, 2003, The New Chinese Empire And What It Means for the United States): se deve contrastar o governo de Pequim também a propósito da “invenção de uma única etnia de chineses Han”; na realidade no seu interior subsistem notáveis diferenças no que diz respeito a esta mesma língua, e portanto…
Às vezes, o desejo de se livrar de um potencial concorrente prefere se camuflar de previsão histórica: “Alguns experts têm mesmo profetizado o repetir-se de um daqueles ciclos históricos em que se assistiu ao desmembramento do país, que faria desvanecer os sonhos de grandeza da China” (Brzezinski, 1998, p. 218).
Qualquer que seja a linguagem utilizada, estamos diante de um objetivo perseguido independentemente da política posta em prática pelo governo de Pequim no plano nacional e internacional: em 1999, o ano do bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, um expoente de relevo da administração estadunidense declarava que, só por sua “dimensão”, a China constituía um problema ou uma potencial ameaça (Richardson, 1999). Não admira então que, ao receber o Prêmio pela Paz dos livreiros alemães, o “dissidente” chinês Liao Yiwu tenha pronunciado um discurso cuja palavra de ordem, em relação ao seu país, era: “Este Império deve acabar em pedaços” (auseinanderbrechen) (Köckritz, 2012). Como se vê, o desmembramento da China, uma vez alcançado, seria considerado uma contribuição à causa da paz! Resta o fato que é o país para o qual se projeta, ou se invoca ou se sonha o desmembramento, aquele que está realmente sendo ameaçado.

Tradução de Marcos Aurélio Silva. Prof. dos cursos de graduação e pós-graduação em geografia da UFSC.

* Excerto publicado no site “Il Caffè Geopolitico”, 5 de fevereiro de 2016. O livro de Domenico Losurdo onde estão publicadas originalmente estas páginas (La Sinistra Assente: crisi, società dello spettacolo, guerra) está sendo vertido para o português, sob os cuidados de outro tradutor, pela editora Anita Garibaldi em parceria com a Fundação Maurício Grabois, com previsão de lançamento ainda para este ano.

** Domenico Losurdo é prof. emérito de História da Filosofia na Universidade de Urbino (Italia).

Referências
Brzezinski, Z. K. (1998). La grande sacchiera. Longanesi, Milano.
Dyer, G. (2014) US vs. china: is this the new cold war, in Financial Times, 22-23 febbraio, pp. 1-2.
Dore, R. (2013) Isole conteste, ecco perchè Tokyo sbaglia, in La Lettura, suplemento al “Corriere della Sera”, 8 dicembre., p. 5.
Friedman, G. Lebard, M. (1991) The Coming War with Japan. St. Martin Press, New York.
Kinssinger, H. (2011) On China. The Peguim Press, New York.
Kristof, N. D. (2011) Bahrain pulls a Qaddafi, in: International Herald Tribune, 18 marzo, p. 7.
Köcritz, A. (2012) Zwei gute Störer, in Die Zeit, 14 marzo, p. 53.
Lai, D. (2011) The Unite States and China in Power Transition. Strategic Studies Institute, Carlisle, p. 9.
Lieber, K. A., Press, D. G. (2006) The Rise of U. S. Nuclear primacy in “Foreign Affairs”, marzo-aprile, pp. 42-54.
Richardson, M. (1999) Asia Looks to Zhu for Sing of Backing Off On Spratlys, in: International Herald Tribune, 22 novembre, p. 5
Zemin, J. (2010) Selected Works, I, Foreign Languages Press, Beinjing

O inscritor e o socius: a literatura “psicanalítica” contemporânea

O Mao de Salvador Dali (na verdade, a Marilyn Monroe “vestida” de Mao): isso não é arte, mas publicidade

Ricardo Lísias escreveu um romance com o título de “Divórcio”. Prêmio Granta, escritor consagrado, passível de uma crítica forte, já que contemporâneo. Na sua tentativa de romance, consegue mostrar a idade do cinismo que vivemos, dos fluxos abstratos de capitais, do “capitalismo financeiro” e toda sua cultura refinada – ainda a psicanálise, ainda determinado cultivo do ego, ainda o pior do que as classes-médias podem apresentar. Numa época de golpes e austeridades financeiras mundo afora, o capitalismo é a única máquina social que se construiu como tal sobre os fluxos descodificados, substituindo os códigos intrínsecos por uma axiomática das quantidades abstratas em forma de moeda. Mostra “como ainda somos piedosos” – e cínicos -, na leitura de Nietzsche feita por Guattari e Deleuze.

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A Teoria da Dependência e a fraude do projeto nacional do PSDB

Dando sequência ao texto que publicamos sobre a Fundação Ford, e como comentamos na postagem, não dá para entender sua atuação no Brasil sem estudarmos sua atividade junto ao CEBRAP e no amparo a intelectuais como Fernando Henrique Cardoso. Da cópula monstruosa, saiu a deturpação da teoria da dependência. Cardoso levou os louros, à época, por ser seu genial criador e propagador. Os “dependentistas”, strictu sensu, como Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini e Theotonio dos Santos, ficaram relegados a um papel de segundo plano no Brasil. Trabalharam e construíram suas teses no exílio. Antes da ditadura, porém, trabalharam com Darcy Ribeiro e ajudaram na criação da UnB, projeto abortado em suas intenções iniciais pelo golpe.
Existe toda uma mitologia, muitas histórias, sobre a Teoria da Dependência e seus grupos, que procuraremos esclarecer com o tempo neste blog. Segue uma primeira publicação, já que FHC adotou na prática, em seu governo, tudo o que escrevera. Não é válido o que disse (entre tantas outras coisas): “esqueçam o que escrevi”. Ele nunca pensou ou agiu diferente. Sua teoria da dependência foi o que fez a associação de capitais da economia brasileira com o capital especulativo estrangeiro e quebrou o país três vezes, fora os descalabros para a sociedade brasileira tendo que enfrentar seu neoliberalismo ultra radical. Uma primeira parte dessa história é o que segue abaixo.

A Teoria da Dependência e a fraude do projeto nacional do PSDB

Assim se expressou Ruy Mauro Marini, em seu ensaio clássico intitulado “Dialética da Dependência”:
[…] o rancor de Fernando Henrique Cardoso e de José Serra em relação a minha análise econômica não os leva à atitude suicida de rejeitar a existência de contradições no modo de produção capitalista. Além disso, o reformismo em suas diversas variantes mostrou que é possível aceitá-las sem que isso implique assumir uma posição revolucionária. Não, o que Cardoso e Serra não podem aceitar é que se identifiquem contradições concretas na sociedade latino-americana e, em especial, na brasileira. Diante disso, clamam pela pureza do marxismo, querendo reduzi-las outra vez à contradição abstrata, ou não vacilam em lançar mão de analogias formais e por isto mesmo caricaturescas, para desqualificar a possibilidade de que essas contradições concretas sejam reconhecidas1.
Devemos lembrar que FHC, tal como Serra, está longe de ser o intelectual que procura aparentar. Serra, sem curso de graduação válido no Brasil, tampouco influenciou com suas obras quem quer que seja. Já o “príncipe da Sorbonne”, como costuma ser visto pelos seus asseclas no restrito universo acadêmico atual em nosso país, continua sendo estudado nas universidades. Mas podemos perguntar: o que se estuda de FHC? É um intelectual sem qualquer trabalho importante.
Por ter frequentado academias estrangeiras, só reflete nosso colonialismo incensar criaturas desse porte. Como disse Darcy Ribeironuma de suas últimas entrevistas, no programa Roda Viva, em 1995: FHC não tem obra, portanto não pode ser considerado um intelectual. Seu livro sobre a escravidão no sul do país parece uma troça, digna da tradição da literatura cômica e carnavalesca ou até pornográfica. Darcy, destacando esse fato, contrapõe outras regiões do Brasil que tiveram um relacionamento muito mais complexo com a escravidão. Por que o sul? Poderia, quem sabe, ser um ensaio de um trabalho mais importante. Porém esse trabalho nunca chegou a aparecer.
Como polemista, no entanto, a dupla em questão pode ser vista em toda sua pujança teórica. A “contradição abstrata” destacada por Marini é o sofisma da dupla para implantar a sua dialética da dependência. RMM entendia o Brasil como um sub-império, capaz de exportar inclusive aviões, mas sempre dependente do capital estrangeiro para dinamizar o mercado interno. Ora, é exatamente a fraqueza desse mercado que impede o desenvolvimento industrial nacional. Incentivamos determinadas indústrias no afã de que, a partir de cima, pudéssemos fazer girar nossa economia. Acabamos encontrando um organismo raquítico com uma cabeça desproporcional. A classe média nunca, por si, teve capacidade de liderar a modernização de nossa economia.
FHC e Serra, num artigo polêmico2, procuram reduzir à tese de Marini, deturpando-a a ponto de procurar fazer acreditar que o intelectual mineiro reduzia nossa economia a agro-exportação, comprometendo assim todo seu sistema teórico. Firmaram antes com Marini a certeza de que sua resposta estaria no mesmo caderno. Claro que não foi publicada.
A dupla, realmente, não tem nada no meio acadêmico que possa tornar claro suas teses, além do esvaziamento dos intelectuais engajados do período da ditadura, que fizeram escola fora do Brasil, como o próprio Ruy, Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e outros. Mas engana-se quem vê esse esvaziamento da corrente de pensamento crítico da “teoria da dependência” como simples difamação de intelectuais identificados com o liberalismo pós-moderno cujo centro é Washington. A realidade é que FHC e Serra ainda são identificados como “dependentistas”, como se de alguma forma fizessem parte dessa tradição. O erro, acredito, se encontra exatamente aí. Gunder Frank e outros, nenhuma relação guardam com nossa “era neoliberal” – o que é óbvio. Como podem ser estudados como críticos entre si numa mesma corrente é o que desafia a compreensão. O estudo da dependência de FHC só pode ser entendido como polêmica, pois nem validade teórica o “príncipe da Sorbonne” fez valer em seus panfletos. É um plágio, como o seu companheiro Serra e outros mimados pela mídia de plantão – lembremos novamente do “gênio” de Bill Gates”.
NOTAS 
1Marini, Ruy Mauro. “Dialética da Dependência”. In: (Org.) Sater, Emir e Santos, Theotonio dos. “A América Latina e os desafios da globalização”. Pág. 317.

2 Cardoso, Fernando Henrique e Serra, José. “As Desventuras da Dialética da Dependência”. Cadernos da Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), número 23.