“Onde não houver democracia nós levaremos nossos aviões”: não se preocupe, esquerda bolivariana

Ride the highway west, baby / Ride the snake, ride the snake
É com essa frase sensacional do candidato da “ultra-esquerda” francesa (são sempre muito divertidos essas denominações por geralmente não dizerem absolutamente nada – José Serra à esquerda de FHC que também foi de esquerda, e assim seguimos até o inferno), Jéan-Luc Mélachon: “onde não houver democracia levaremos nossos aviões”. Versão bem pós-moderna da doutrina do Big Stick. Ao ser perguntado sobre o “regime de Maduro”, o candidato à presidência da França fez uma pergunta muito simples: você está me falando do Maduro, o presidente, ou da constituição venezuelana? O que seria o “regime” de Maduro: um ou outro? O entrevistador, claro, não tem o que responder. Isso é demais para qualquer “liberal”, qualquer propagandista do fim do mundo quando seus objetivos não são atendidos. Aliás, quando são, falam em “fim da história”…
Mélachon retruca perguntando sobre o por quê da centralidade da Venezuela no debate francês: e o Iêmen, e o Qatar, Bahain  – presos políticos, morte de civis, supressão de partidos – sobre nada disso se fala enquanto se louva a Democracia. Sobre a Venezuela: e a partilha dos recursos do petróleo? Queremos que a Venezuela (e isso é o que Dilma sempre falava em termos de “maldição do petróleo”) se torne uma monarquia ao estilo árabe para assim obter o apoio Ocidental? Os venezuelanos se manifestam contra o governo de Maduro? As manifestações na França são do mesmo teor: manifestações de oposição. Qual sua predileção como jornalista que é? Que tipo de democracia defende? Seria uma alternativa real ficar todo o tempo fazendo o balanço entre gastos fiscais e gastos sociais para se definir qual será diretriz econômica francesa? Os “gastos fiscais” são realmente assunto relacionados à soberania nacional ou assunto exclusivo da Troika?

E assim vai. Para quem quiser assistir, disponível só em francês, clicar aqui ou ver aqui embaixo.

Assad também se apresentou essa semana num diálogo bem franco, com um jornalista sírio que, por conhecer minimamente os problemas internos, não tem que ficar aludindo toda hora à deusa América. Falou sobre seu diálogo com a oposição, com a impossibilidade de qualquer tratativa de paz com os terroristas, pois em grande parte são estrangeiros e são financiados por outros países. Na verdade, são mercenários numa região do planeta em que esse meio de vida é comum. Sem abusar da comparação, é como no Sertão rosiano: ou se vira jagunço ou se vira padre. É claro que, no Oriente Médio, não sabemos qual seria a alternativa ao “padre” de Guimarães Rosa. Achamos conhecer tão bem a região quando falamos de guerras e fundamentalismo porém se, caso consideremos a hipótese habitual, de que o fanatismo religioso é aliado do ímpeto guerreiro, o Grande Sertão é o Éden já que, pelo menos, oferece mais do que uma opção.

Não sabemos ainda se foi um show de pirotecnia de Donald Trump seu ataque à Síria e as ameaças à China veladas com ameaças à Coreia, ou se sua virada de mesa é algo definitivamente sério.

I explained to the President of China that a trade deal with the U.S. will be far better for them if they solve the North Korean problem!

— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) 11 de abril de 2017

O presidente Coringa estava sendo atacado por todos os lados por causa de um suposto envolvimento com a Rússia. Foi o que falei quando disse pertencer à sofística os vocabulários “pós-modernos” como fake news, pós-verdades e etc. O que vale, e isso há bem mais tempo do que se conta, é o neomacartismo. Não foi sobre outra atmosfera que cresceu o governo Lula, por exemplo, tendo sempre que viver uma liberdade negociada. Agora são tempos de guerra e a perseguição ao inimigo não admite mais trelas – como se vê no caso de toda a América do Sul, visivelmente ameaçada pelas forças de conquista do Império, ainda que não se veja aviões ou drones no nosso céu. Mas a violência dos mísseis Tomahawk são apenas a tradução física do ataque quase nuclear que fizeram (nuclear também no sentido que quiseram devastar, transformar em terra arrasada, todas as políticas que levaram o país em 2014 – nem tanto tempo assim atrás – a sair do mapa da fome da ONU e atingir os 4% de desemprego). Logo, segue atuante também por aqui as palavras de Mélanchon, que não saíram sem uma boa inspiração.

ONDE NÃO HOUVER DEMOCRACIA NÓS LEVAREMOS NOSSOS AVIÕES

Pós-verdade, narrativas e fake news: palavras vazias diante do neomacartismo

Como disse Jim Morrison: the West is the best

As “feak news” da Folha, numa matéria intitulada “Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil“, começa com um tema para chamar a atenção de seus leitores. Gilberto Gil supostamente teria chamado Sérgio Moro de “juizinho fajuto”. É o que desperta a atenção do paneleiro leitor. Mas as inverdades são desmentidas. O responsável pela divulgação da fala de Gil, Beto Maluco, diz ter reportado de outro site segundo o qual o cantor teria se expressado dessa maneira num show. Como não há vídeo que prove, o Maluco perdeu o processo e ainda pode coçar os bolsos para dar a Gil “danos morais”.

Fábulas urbanas como o não menos estranho costume urbano de pés no chinelo e calçada molhada – sempre se procura evitar. Rasteira, imunda e superficial: é assim que a Folha quer mostrar “a engrenagem das notícias falsas no Brasil”? Engane o idiota e produza sua própria fake news. Esta seriam modo de malucos produzirem manchetes sensacionalistas, ganharem cliques e faturarem algum trocado. Não sei se é tanto para guardar na Suíça ou no luxuoso apartamento dos tucanos em São Paulo – em notas vivas, nativas e estrangeiras. As fake news, portanto, estão reduzidas a um tipo de comércio de baixo nível e pode manchar o nome de pessoas públicas. Será só isso mesmo?
O competente historiador Robert Darton, na mesma Folha, remete as fake news ao Gênesis:
s historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existirams historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existiram

Os historiadores tem esse habito de de dizer ao mundo que o que as pessoas veem hoje como novidade sempre existiram…

E as notícias falsas sempre existiram. Procópio foi um historiador bizantino do século 6  [sic] famoso por escrever a história do imperador Justiniano. Mas ele também escreveu um texto secreto, chamado “Anekdota”, e ali ele espalhou “fake news” , arruinando completamente a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha presidencial americana. 

A meu ver o principal difusor de fake news, ou “semi-fake news” (porque as notícias continham um pouquinho de verdade), foi Pietro Arentino (1492-1556), um grande jornalista e aventureiro do início do século XVI. Em 1522, quando sua carreira começou, ele escrevia poemas curtos, sonetos, e os colava na estátua de um personagem chamado Pasquino perto da Piazza Navona, em Roma. Ele difamava cada dia um dos cardeais candidatos a virar papa. E os poemas eram hilários. Ele caçoava de um que era muito tímido dizendo que era o menino da mamãe, que outros tinham amantes, etc.

Esses poemas ficaram conhecidos como “pasquinadas”. Eram fake news em forma de poesia atacando pessoas públicas, fizeram grande sucesso e Arentino os usou para chantagear pessoas, papas, figuras do império romano etc que lhe pagavam pra que ele não publicasse essa espécie de tuíte ancestral. 

Aí eu pularia par meu próprio período de estudos, o século 18, quando havia gente que espalhava fake news, às vezes por dinheiro, noutras por esporte.

Na Londres de 1770 os chamados “homem-parágrafo” recolhiam fofocas e as redigiam em um único parágrafo em pedacinhos de papel e vendiam para impressores/editores, que as imprimia em forma de pequenas reportagens muitas vezes difamatórias. 

Acho que essas histórias eram muito mais escandalosas do que hoje. 

Atuavam também em Paris, de forma mais subterrânea, porque havia censura à imprensa.
Então você tinha esse tipo de fake news – eram como tuítes ou posts do Facebook – circulando por toda parte em Paris e Londres às vésperas da Revolução Francesa e em boa parte do século 18.

Outro conteúdo genérico a respeito das “notícias falsas” – propaganda amiga – pode ser visto no comercial do New York Times:

Tudo isso mostra o empenho da mídia em pautar o que é ou não uma notícia falsa. Das fofocas de facebook até os grandes temas internacionais, o importante é ter o controle sobre as narrativas. O G1 faz uma reportagem sobre o empenho da Facebook em combater as “fake news”. Um cidadão consciente, não sei se mais ou menos famoso do que Jobs, com certeza mais militante que Snowden, quer trazer a verdade para a rede.

Um palhaço no palco.

Quando se fala em Big Data é claro que não se pensa em Octopus. Não importa onde se procure, serão sempre temas amenos os encontrados na mídia, em qualquer uma delas, em 99% dos casos. Falar a verdade, como pode lembrar os últimos estudos de Foucault, sempre vem acompanhado de um componente de risco. Não só de processo judicial, mas para a própria vida. O livro Conspiración Octopus, de Daniel Estulin, foi o primeiro e único livro do autor em narrativa romanceada. Impossível contar toda a história do que é essa pós-indústria estadunidense, de Googles e Facebooks, sem, simplesmente, ser assassinado, como foi Danny Casolaro e alguns outros. Snowden é outro caso semelhante, porém conseguiu refúgio na Rússia – esse lugar anti-democrático – e ainda consegue, mesmo sem acesso aos arquivos de inteligência, falar a verdade de como as narrativas são fabricadas. Que as agências de inteligência estrangeiras podem invadir os smartphones, o whatsapp, etc., é verdade de polichinelo, pelo menos desde Snowden. Até televisões com câmeras ou microfones foram acessados pelos EUA no escândalo da espionagem que veio a tona durante o governo Obama. É um eufemismo falar em conteúdo pornográfico. A intimidade das pessoas como um todo é exposta nesse gigantesco sistema de Big Data. Não tem nada a ver com publicidade; relação alguma com dinheiro. Não se deve pensar em termos de “geopolítica”, como se fala. Não se invade o Oriente Médio para extrair petróleo. Essa é a parte exotérica da situação. Desde a questão do roubo do ouro dos Yamashita, do saque no sudoeste asiático logo após a Segunda Guerra – para falarem que não sou historiador – a questão do dinheiro nada mais é do que uma pós-verdade, uma “fake news”.

Escrevíamos esse post antes dos ataques estadunidenses à Síria. Estava em pauta ainda, e de maneira bem intensa, o chamado “Russian Gate“. O escândalo fabricado tinha relação direta – na verdade era o que a mídia chamava de caso maior – de fake news. Ao contrário do que se continua pensando aqui no Brasil, nos EUA o voto em Trump não foi só uma questão de “sistema eleitoral” ou de racismo dos antigos degredados da Saxônia. Muitos votaram em favor de uma “nossa América” que seria a primeira na prioridade do governante. Não às guerras externas, ao expansionismo indefensável, à desmoralização internacional, etc. Aí a grande decepção: pior que Obama. O tímido democrata, apesar de sua retórica imperialista, não ousou atacar diretamente um Estado soberano. Patrocinou oficialmente os “rebeldes moderados” e continuou, via monarquia do Golfo Pérsico, a financiar a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Trump acabou logo com a politicagem do correto. Atacou direto e dane-se o resto. Na cara dos chineses ameaçou a Coreia. Só um ponto, os coreanos do norte não estão “se armando até os dentes” por causa de uma remota possibilidade de ataque dos coreanos do sul. O que causa furor aos aliados chineses é o estabelecimento do sistema THAAD, o escudo anti-mísseis concebido durante a guerra fria, e que seria para ser estabelecido numa cooperação com a URSS. Foi o maior esforço para acabar com apolítica de confronto e quem liderou essa iniciativa foi Lyndon LaRouche. Por isso foi preso, ele e seus colaboradores, num processo secreto movido por Kissinger e que levou à prisão política dos líderes americanos em plena queda do muro de Berlim, ou seja, quando supostamente as liberdades democráticas do ocidente estavam, de vez, asseguradas para a população mundial. 

Logo, ficou um pouco sem motivo a militância que faríamos quando idealizamos o post. Trump realmente superou todas as expectativas. Aqui sempre o chamamos de o Coringa. Pode ser uma carta muito útil no baralho, mas pode ser também de valor zero. Na verdade, o Coringa está mais para o algoz do Batman do que para a surpresa na mesa de jogo. E ele fez zerar muitas expectativas. Decepcionou a muitos. Não parece que vai reverter seu procedimento. Não tem qualquer preparo para isso. O atentado à Síria foi praticamente uma declaração de guerra mundial. Contra  a Rússia, primeiramente. Com a intervenção da China e o papel da OTAN, um novo Apocalipse se nos avizinha – mas já alertamos isso em muitas outras vezes, desde que criamos esse blog ano passado, o que não quer dizer que não estamos alertando para esse risco –  por vezes nitidamente inevitável – de uma nova guerra mundial – desde que escrevemos para um público mínimo, seja me nossa monografia de graduação, em nossa dissertação de mestrado, e em qualquer situação em  que podemos fazer nossa fala pública, seja de maneira escrita ou oral.

Como falar novamente de fake news agora? A Carta Capital lançou algumas artigos tentando explicar o tema. remeteu ao dicionário Oxford às origens do termo, comemorou que o Facebook tomou iniciativas a respeito do tema!, remeteu a Trump, como é de praxe, mas nunca encontrou o nexo entre pós-verdade e “notícias falsas”. Esta teve sua forte campanha, quase que sua certidão de nascimento, quando da eleição americana e os vazamentos contra Hillary Clinton. o problema, e isso não se vê ainda agora, que a Wikileaks vazou a favor de Sandres. Trump nunca foi o favorito, mas o adversário de Hillary poderia ganhar as primárias de seu partido. O republicano eleito sempre foi o cara mal visto pela mídia, escrotizado pelos politicamente corretos. De minha parte, sempre achei que, se uma guerra haverá, e das proporções que se avizinham, seria melhor em prol da verdade que Barack ou Hillary a começassem para não ter hipocrisia quanto aos instigadores de tal aventura. Começou uma guerra mundial: logo, culpado é Trump, o escroto ricaço analfabeto. Queria um neoliberal democrata a começar a aventura. Seria o fim das máscaras. Mas caso o Apocalipse de fato venha a acontecer, vamos ver as “afinidades eletivas” se definirem.

O fato é o seguinte, independente do que quis dizer antes do ataque à Síria: quando se atacou Trump por suas posições inicialmente pró-Rússia era neomacartismo. Tudo o que se inventou a partir disso eram as fake news. A pós-verdade, tema um pouco mais antigo, talvez tenha sua origem no 11/09, e de fato com o Ato Patriota: não importa quem você é, mas quem achamos que você é. Daí você pode ser processado, preso e torturado. A verdade está estabelecida antes de qualquer comprovação. Não importam as narrativas. Esse relativismo nunca existiu e não sei qual alam piedosa continua a pelo menos lembrar nesse tipo de conceito. Remete à questão das imparcialidades, dos pontos-de-vista, etc. Isso não existe na experiência existencial que vivemos. à beira de uma guerra de aniquilação, narrativas na verdade são versões diferentes pra a mesma mentira. E aqui chegamos a nosso ponto, independente das intenções anteriores ou posteriores ao nosso artigo: é a liberdade negociada em que vivemos, nosso neomacartismo. O perigo vermelho rondando de todos os lados. Ainda mais agudo internacionalmente depois que Trump foi eleito. Parece que se uniu o reino das pós-verdades, das acusações feitas num filme de ficção científica – completamente surreais – ao que se chama de “notícias falsas”, para falar da “conexão russa” de Trump, tudo isso na esteira da sanha persecutória do neomacartismo, que já vitimou nosso governo eleito e ataca Lula. Sempre o perigo vermelho. A guerra mundial, se virá, será na esteira da perseguição ao inimigo. Como fazem a Lula, ao PT, a Rússia, a China, a Venezuela e tudo o mais. Friedrich Schiller, quando da Revolução Francesa, disse que um povo pequeno encontrou um grande momento da história. Daí o seu fracasso. Não temos dois povos pequenos, mas os atlanticistas querendo dominar o mundo, querendo impedir que ele cresça para 10-15 milhões de pessoas e se tornar ingovernável, incontrolável. Esse será – e já é – o tom da guerra. Esse não será o fim.

Traição, mas por que depressão? Alm. Othon, o Correio de Saturnino Braga e a tara morinha

A base de Alcântara, a depender dos Calabares, brevemente tremulará com os cabelos ruivos de Donald Trump

[extratos]

Em 24 de abril haverá uma audiência no Senado sobre a ferrovia Bi-oceânica, a Transpacífica, congelada no governo do Coveiro, mas que deve continuar a estar em pauta, dessa vez sob a liderança do senador petista Paulo Viana. Ao contrário da Guerra Fria que conhecemos nos livros de história, dos governos de exceção que só se mantiveram por causa de um mundo militarizado de leste a oeste, hoje a China oferece um novo paradigma de desenvolvimento e a aliança com a Ásia, com os projetos asiáticos, são inevitáveis diante da avalanche de dinheiro podre que circula na economia transatlântica, como falamos na entrevista com Nomi Prins. Não há anda que faça a economia transatlântica voltar a funcionar do que a aliança “ganha-ganha” com os chineses em grandes projetos de infraestrutura, ou seja, reverter todo o capital fictício que se encontra nas mãos dos bancos “muito grandes para falir” e do Fed do Q.I., para a economia física, para a geração de empregos. Nada mais da sagrada trindade neoliberal, tempos de obscurantismo, e seu meio vinculante, a moeda hegemônica desde a cooptação do Oriente Médio pelo EUA com a criação dos petrodólares e das milícias terroristas que eles mesmo criam e logo depois fazem guerras contra, um jogo de cinismo inigualável em nossa história. Com provocações econômicas e militares à Rússia – não será esse o paradigma a seguir. (…)

O novo paradigma chinês deve ser estudado, refletido. São esses ventos, essa mudança de ares que se move a política internacional. O resto são gritarias e uma avalanche de mentiras por todas as partes enquanto se apregoa uma luta contra as “notícias falsas”: o recrudescimento do neomacartismo.

Não há motivos para depressão, Saturnino. Boas novas virão, apesar das traições. O golpe cada vez menos encontra base para manter seu rolo compressor. quem lidera hoje é a Ásia e não mais os atlantes. Na Guerra Fria clássica, o máximo que se poderia esperar era pelo movimento dos Não-alinhados. Hoje, estes manejam o barco da nova economia. Não há sustentação – vide novamente o caso dos EUA, da Europa – para o golpe atlanticista, dos herdeiros de Ur, do estado bárbaro, primitivo, como denominava os “ultras” Gilles Deleuze. Um novo paradigma está surgindo, mas não será nos jornais que fazem campanha para “no more fake news” que se verá isso. Tempo de luta, tempo de esperança mais uma vez.

Traição, mas por que depressão? Alm. Othon, o correio de Saturnino Braga e a tara morinha

Recorto apenas essa parte do Correio de Saturnino, onde, com grande lucidez, aponta os caminhos mais tenebrosos que anda agora nossa república, indubitavelmente morinha:

Há outros atos, entretanto, pouco noticiados na imprensa, pouco comentados pela população, mantidos em clima de reserva, que me parecem mais preocupantes, mais graves para os interesses da Nação Brasileira, e do seu povo evidentemente, e que, se consumados, serão mais dificilmente revertidos, por não serem decisões exclusivamente internas mas envolverem outros interesses nacionais que não apenas os brasileiros. 

Refiro-me aos atos em andamento que são de um entreguismo explícito e escandaloso, criminoso mesmo, jamais praticado com tal intensidade em governos entreguistas anteriores. 

Refiro-me à venda do satélite brasileiro de defesa e comunicação estratégica, à venda da Base de Alcântara para lançamento de foguetes, à venda, coordenada pelo Grupo Citi, de ações de empresas brasileiras exitosas nos Estados Unidos, à venda de fatias da Petrobras e das jazidas do Pré-sal, à venda de terras brasileiras em grandes extensões, ao Acordo Militar firmado com os Estados Unidos, denunciado pelo Presidente Geisel e completamente desconhecido pela população; assim como à demolição das grandes empresas de engenharia brasileiras, à redução do conteúdo nacional nas compras das estatais, à paralisação da política nacional de energia nuclear, ao congelamento das nossas relações dentro da América do Sul visando à autonomia do continente, e ao embaraçamento dos projetos de construção do submarino nuclear e do avião militar de última geração, feito naturalmente com mais cuidado por envolverem a França e a Suécia. 

Conto com a consideração dos amigos em relação ao estado depressivo em que tenho vivido nestas últimas semanas, mas realmente o meu espírito, diante destes fatos apontados é muito mais de indignação e revolta do que de tristeza, ainda que seja também muito triste tudo isto para a nossa Nação Brasileira. 

São tópicos recorrentes entre quem tem o “investigativo” muito mais do que o “jornalístico” em sua prática. Não são questões de discussão de ideias ou de formulação, necessariamente, de uma nova práxis. A questão estratégica agora é a seguinte: em 14-15 de maio haverá o encontro em Beijing sobre a Nova Rota da Seda, que promete a presença de muitos líderes mundiais, talvez até do presidente estadunidense. O Coringa errático aponta com aliança com a China, fez arrefecer os ânimos da Nova Guerra Fria e promete o renascimento do protecionismo americano, o mesmo de Lincoln, Hamilton, Carey, ou seja, o dos responsáveis por tornar os EUA um dos países mais industrializados do mundo -se não o mais industrializado – ainda no século XIX. Ponto para os tresloucados cabelos ruivos que, talvez inadvertidamente, mas sempre com fúria, gostam de se mover para a Esquerda.
Em 24 de abril haverá uma audiência no Senado sobre a ferrovia Bi-oceânica, a Transpacífica, congelada no governo do Coveiro, mas que deve continuar a estar em pauta, dessa vez sob a liderança do senador petista Paulo Viana. Ao contrário da Guerra Fria que conhecemos nos livros de história, dos governos de exceção que só se mantiveram por causa de um mundo militarizado de leste a oeste, hoje a China oferece um novo paradigma de desenvolvimento e a aliança com a Ásia, com os projetos asiáticos, são inevitáveis diante da avalanche de dinheiro podre que circula na economia transatlântica, como falamos na entrevista com Nomi Prins. Não há anda que faça a economia transatlântica voltar a funcionar do que a aliança “ganha-ganha” com os chineses em grandes projetos de infraestrutura, ou seja, reverter todo o capital fictício que se encontra nas mãos dos bancos “muito grandes para falir” e do Fed do Q.I., para a economia física, para a geração de empregos. Nada mais da sagrada trindade neoliberal, tempos de obscurantismo, e seu meio vinculante, a moeda hegemônica desde a cooptação do Oriente Médio pelo EUA com a criação dos petrodólares e das milícias terroristas que eles mesmo criam e logo depois fazem guerras contra, um jogo de cinismo inigualável em nossa história. Com provocações econômicas e militares à Rússia – não será esse o paradigma a seguir.

Como diz no lpac.com, de onde tirei a foto: “The New Paradigm is Within Reach—But Perfidious Albion Delenda Est”

Temos que mirar as injustiças cometidas contra o Alm. Othon, como publicamos aqui faz tempo, e digna de uma grande intervenção feita pelo deputado Wadih Damous semana passada na Câmara dos Deputados. A tara morinha cada vez encontra menos respaldo. Ficou definitivamente comprovado, a partir de informações dadas hoje sobre a não presença de Lula no Guarujá em 2011, que o presidente de fato visitou uma vez o apartamento para vê-lo e logo depois descartar sua compra. Não há caminho para Moro além de mais uma super aberração jurídica. Dessa vez não contra um cientista, importante mas sem popularidade, mas contra o maior líder de nossa história nos últimos anos; desde JK, desde Jango. A tara que fez, como mostra o vídeo de Damous, a tara punitiva morinha dar uma pena maior para cada virtude que encontrava no Almirante. Mais de 4 décadas de detenção pra um cidadão de 78 anos e inúmeros serviços prestados à nação. 15 anos para o artífice do golpe. Mais importante: os requintes de crueldade na confecção da pena, como relata abaixo o deputado. Haverá espaço para tanto, agora, com Lula? Caso sim, quais consequências? Sem as armas da guerra fria tradicional, somente resta aos atlantes, aos ultras ,a guerra total? Acham mesmo que com um ato desesperado sairão vencedores? O tempo de Curitiba acabou. Novos ventos já podem ser sentidos, com ou sem a tara de Moro consumada.
Não há espaço para depressão, tampouco para fraquezas como a de Delfim Neto – triste figura, apoiador dos governos de ocasião (trabalhou para os militares, exaltou os planos econômicos de FHC, defendeu Lula, move-se novamente nas sombras, agora as do Coveiro), e que Vagner Freitas ataca com galhardia. Como aponta Saturnino, os projetos estratégicos, os projetos fundamentais para o desenvolvimento nacional, não figuram nas páginas nem de blogs sujos ou no dos limpinhos e asquerosos. Assim, fazem campanha conjunta a favor do esquecimento do caminho que devemos trilhar para de fato nos desenvolvermos tecnologicamente, aumentar os poderes do trabalho (alta capacidade técnica e produtiva). As discussões jurídicas, mais uma vez, devem ser encaradas como tais: escolásticas, mas também elásticas. Nada como um novo governo – que em breve virá – para reverter os estragos que a manada de Cunha promoveu até agora. Os do Supremo são Delfins, são de ocasião, mais camaleônicos do que Caetano, mais cínicos que Luciano; talvez, assim, mais despudorados que Heliogábalo. Sim, não devemos deter nossos olhares na orgia, mas sim no que está por vir.
O  que virá é o novo paradigma da Nova Rota da Seda (nesse blog tem incontáveis publicações sobre o assunto). Os EUA, enquanto Nova Roma, estertora. Suas esperanças são a criação de uma nova e ainda mais aguda crise para rebaixar ainda mais a capacidade de luta dos cidadãos, e também os planos sempre presentes de provocar até a a Guerra as potências asiáticas. Invariavelmente, suas armas são limitadas, extremamente duvidosas, e não encontram respaldo popular: como na contínua admiração popular por Lula, pelos Kirchner, por Chávez, por Correa; como também é sintomático a eleição de Trump – no melhor dos casos, uma alternativa para a “nova democracia americana”, ou seja, o ultraliberalismo -, e também o Brexit, para mostrar de uma vez por todas que uma união monetária nunca irá unir politicamente países ou – loucura das loucuras – continente algum. Somente caso se busque os anseios comuns da humanidade se chegará a um ponto de apoio contra as guerra de destruição que se tornaram a norma do dia, de fato, desde a presidência do primeiro Bush e sua Tempestade no Deserto. 
O novo paradigma chinês deve ser estudado, refletido. São esses ventos, essa mudança de ares que se move a política internacional. O resto são gritarias e uma avalanche de mentiras por todas as partes enquanto se apregoa uma luta contra as “notícias falsas”: o recrudescimento do neomacartismo.
Não há motivos para depressão, Saturnino. Boas novas virão, apesar das traições. O golpe cada vez menos encontra base para manter seu rolo compressor. quem lidera hoje é a Ásia e não mais os atlantes. Na Guerra Fria clássica, o máximo que se poderia esperar era pelo movimento dos Não-alinhados. Hoje, estes manejam o barco da nova economia. Não há sustentação – vide novamente o caso dos EUA, da Europa – para o golpe atlanticista, dos herdeiros de Ur, do estado bárbaro, primitivo, como denominava os “ultras” Gilles Deleuze. Um novo paradigma está surgindo, mas não será nos jornais que fazem campanha para “no more fake news” que se verá isso. Tempo de luta, tempo de esperança mais uma vez.

Alfred Jarry iniciador e iluminador – por André Breton

Rue Alfred Jarry, à Laval, 1953 © ADAGP, Paris, 2012.
Aproveitando a bela e nova edição do Supermacho pela editora Ubu (que escolheu a tradução de Paulo Leminski), e também à peça que Marco Nanini está encenando (o outro clássico, o Ubu-Rei), publicamos aqui o texto de Bretton, segundo o qual: “assim como não podemos reduzir Sade à perversão que tira dele seu nome, nem Baudelaire à obsessão com a morte, nem Lautréamont à vontade de glorificação do mal em Maldoror e depois do bem em Poesias, não poderíamos permitir por mais tempo que tudo aquilo que Jarry exprimiu de diferente seja sacrificado em nome do gosto com que ele marcou. (…) Que ele tenha ou não oferecido o travestido ou o burlesco diante de tais plateias de “homens de letras”, pouco importa: dada a envergadura deste olhar, o importante seria restitui-lo à sua verdadeira luz interior”.

Alfred Jarry iniciador e iluminador – por André Breton


Publicado originalmente no site da editora Ubu
“Pintar é somente fingir”: esta proposta de Corneille Curce, autor de uma obra intitulada Les clous du seigneur (1634), Alfred Jarry a toma para si em um artigo abundantemente documentado sobre o mesmo assunto, que o Ymagier[1] publica em seu número 4, datado de julho de 1895. Sabe-se que hoje em dia ninguém mais do que ele é vítima de um dos piores flagelos de nosso tempo que é, em geral para propósitos sectários, a redução grosseira a um ponto de vista.
Tudo se passa como se de toda sua obra restasse apenas Ubu rei e textos posteriores na mesma linha; como se o humor, abundante lá mais do que em qualquer outro lugar, houvesse corroído profundamente, à maneira de um ácido, o metal para mascarar todas as outras formas de manifestação de uma personalidade, ainda que das mais ricas e complexas (mas é precisamente esta complexidade que não queremos: é mais confortável considerar apenas um aspecto de um certo pensamento, sobretudo se por acaso este aspecto ganhou um relevo excepcional). E entretanto, assim como não podemos reduzir Sade à perversão que tira dele seu nome, nem Baudelaire à obsessão com a morte, nem Lautréamont à vontade de glorificação do mal em Maldoror e depois do bem em Poesias, não poderíamos permitir por mais tempo que tudo aquilo que Jarry exprimiu de diferente seja sacrificado em nome do gosto com que ele marcou – e ilustrou como ninguém – o teatro de Guignol[2]
O autor de Ubu rei, Ubu enchaîné, Almanachs e Passion considérée comme course de côte, é também o do prólogo e do último ato de César-Antéchrist, de L’Autre Alceste, de L’Amour absolu, obras de ressonância, e quiçá de intenção final, bem diferente. Na verdade, a curiosidade de Jarry foi enciclopédica, se entendermos o termo não mais nas acepções do século XVIII, mas naquelas da passagem do século XIX ao XX. Esta passagem ocorre por uma porta que continua a nos interessar profundamente, a ponto de nos fazer voltar para ela, porque não sabemos nem de longe para onde ela conduz – o que já não é reconfortante. Entre todas, é a obra de Jarry que constitui, no plano sensível, a dobradiça dessa porta. Não há olhar que alcance uma extensão mais ampla tanto para o passado quanto para o futuro como o de Jarry.
Não somente Jarry profetiza e estigmatiza em Ubu rei e Ubu enchaîné as propostas aberrantes e mortais com as quais lidaremos depois dele, não somente seu gênio inovador o inspira a tais escapadas líricas (a “Corrida das Dez Mil Milhas” em O Supermacho, a “Batalha de Morsang” em Dragone), cujo modernismo jamais foi ultrapassado e nem mesmo igualado, mas é como se ele já soubesse, por incrível que pareça, aquilo que vai interessar nossas interrogações sobre o passado, ele as identifica e as responde antecipadamente. Estaria mais do que na hora de fazer cair a máscara de gesso de “Kobold” ou de “clown” com as quais Gide e alguns outros que não o amavam – e com razão – fantasiaram o rosto de Alfred Jarry. Que ele tenha ou não oferecido o travestido ou o burlesco diante de tais plateias de “homens de letras”, pouco importa: dada a envergadura deste olhar, o importante seria restitui-lo à sua verdadeira luz interior.
[1] Revista criada em 1894 por Alfred Jarry e Remy de Gourmont com duplo objetivo: lançar um novo olhar sobre a História da Arte, favorecendo o velho imaginário, o folclore, a lenda e, ao mesmo tempo, promover novas obras. A revista teve apenas 8 números.
[2] Teatro de fantoches criado no século XIX na França.
Este texto foi originalmente publicado em francês.