Contra um moderno mito pagão: a vox populi e o conceito de Revolução Francesa

David – À morte de Marat


A “mitocracia” ou personalismo na política, inflada pelos mais diversos tipos de reprodução imagética ou retórica, é oposto ao universalismo proposto pelas constituições nacionais da era moderna. O apelo às massas, a vox populi utilizada pelos antigos imperadores romanos, desde o período em questão, antes serviu para golpes de Estado e ao estabelecimento de ditaduras do que realmente como uma medida democrática visando equilibrar a balança do poder com alguma espécie de ponderação ou sabedoria popular. O conceito de liberdade de imprensa e de apoio popular tal como defendem os agentes da versão brasileira da Mani Pulite, legitima também o despotismo e o Terror, como foi o caso da revolução na França. O personalismo em nossa política, corolário do conceito da ciência política chamado de “populismo”, não está no ex-presidente Lula, que sempre respeitou, talvez até em excesso, as instituições republicanas. O tipo de narcisismo como o do imperador Nero, capaz de incendiar uma cidade para construir no lugar uma outra mais bonita, é antes o comportamento dos “homens de preto” que passaram a comandar a política nacional. Assim, Sérgio Moro é nosso Felipe Igualdade, o demagogo duque jacobino da época da Revolução Francesa, frustrado em seus intentos de poder, mas que conseguiu instaurar o caos e o liberalismo, não o de Meirelles, mas o de Jacques Necker, na França revolucionária.

Publicado por mim originalmente na revista Voyager em 26 de julho de 2017. Pode ser lido em PDF no Academia.edu


Contra um moderno mito pagão: a vox populi e o conceito de Revolução Francesa



1. Os dois corpos do rei

Desde a época dos antigos imperadores romanos até pelo menos o início da era moderna (séculos XIV e XV), costumava-se, na Europa, se fazer um duplo sepultamento dos reis. Uma estátua de cera substituía o corpo do imperador durante as cerimônias que precediam seu enterro. Do mesmo modo, na Inglaterra e na França do Quatrocentos e do Quinhentos, os restos mortais dos reis eram substituídos por manequins ou imagens de madeira, cera ou couro durante suas aparições públicas.

Uma página bem conhecida da História romana de Díon Cássio descreve a estátua de cera do imperador Pertinax, falecido em 193, “adornada com hábitos triunfais”; diante dela, “um jovem escravo espantava as moscas com um leque de plumas de pavão, como se o soberano estivesse dormindo”. Herodiano descreve com ainda maior riqueza de detalhes as cerimônias que se seguiram à morte de Sétimo Severo: durante sete dias a imagem de cera do imperador, acomodada num grande leito de marfim com cobertura dourada, foi visitada por médicos que constatavam que o doente estava “cada vez pior”. Essas descrições certamente lembram o que aconteceu na França em 1547, depois da morte de Francisco I. Por onze dias, foram realizados banquetes, primeiro junto do cadáver, depois junto da efígie do rei: comia-se junto dele, bebia-se junto dele, e “bacias de água limpa eram oferecidas ao trono do supracitado Senhor, como se ainda ali estivesse sentado, vivo”. [1]

Tais rituais funerários, tão exóticos para quem nasceu na virada do segundo para o terceiro milênio, cumpriam uma função pública importante, como o da artilharia militar no enterro dos chefes de Estado dos dias atuais. Neste caso, falamos das honras militares de quem foi o comandante maior das forças armadas, representando assim a subordinação militar ao poder político. Porém, quando falamos sobre a história tardia da Europa, a cerimônia do “corpo duplo” do rei igualmente era impregnada de significado para aquela sociedade. A morte como vemos hoje, ou seja, a de um fim definitivo no qual o chefe político não poderá mais influir nas decisões do seu país, tinha contornos mais tênues e apontava para uma ideia de eternidade que não estamos mais acostumados. Depois do enterro dos restos mortais dos reis ou imperadores, se seguia a incineração de sua imagem. Assim, o imperador era consagrado deus; o rei, em virtude da perenidade da função monárquica, não morria nunca.
A persistência das sociedades antigas em conservar seus soberanos, seja em forma de imagens ou, como no Egito, o próprio corpo, é notória. Francisco Pizarro, o conquistador do Peru, relatou que as múmias dos reis incas, durante momentos de grandes celebridades, eram exibidas por seus súditos e a elas ofereciam banquetes e brindes. É tão antiga a celebração dos mortos e tão presente em nossa história que podemos recorrer a um vocabulário grego para melhor compreender estas práticas.
A palavra em português “colosso” tem origem no grego kolossós (kολοσσός). No entanto, seu significado foi alterado pela história. Hoje em dia é um vocábulo que significa algo grandioso, descomunal, sendo geralmente designado para dar nome a uma estátua (mas pode ser também pessoas) de proporções não usuais. O “colosso de Rodes” (Rodes é o nome de uma ilha grega), uma estátua de 30 metros e mais de 70 toneladas de bronze, destinada à representação do deus Hélio(Sol), foi construída no terceiro século antes de Cristo e é a origem da transformação do significado da palavra. Antes, porém, da construção do monumento, kolossós significava simplesmente “estatuetas funerárias” ou “substitutos rituais”, ou seja, representações.
Por fim, podemos entender a palavra grega kolossós simplesmente como o nome dado a todo o signo religioso. A lei sagrada de Cirene (lei grega da segunda metade do século IV a.C.) previa um banquete ritual com estatuetas funerárias, como o que seria celebrado no Quinhentos em Cuzco (Peru) ou Paris (França). Para Jean-Pierre Vernant, estudando a mitologia nas sociedades arcaicas, o kolossós tinha o intuito de estabelecer com o além, com a morte, um contato real. Mas, ao mesmo tempo, deixava claro para o vivo o que o “além-túmulo” tinha de misterioso e inacessível, pois se tratava, no fim, de uma mera imagem.

1.1 O combate à idolatria e o dogma da transubstanciação

O combate à idolatria está nas origens da civilização cristã, tendo como seu primeiro defensor o apóstolo Paulo de Tarso. As imagens dos cultos pagãos eram geralmente esculpidas para retratar personagens antropomórficos e desde então, toda uma tradição de pensamento cristão, apoiada na filosofia grega, se ergueu para denunciar a inexistência de deuses com caras de cachorro, elefante, etc.
Por outro lado, com o passar dos séculos, os cristãos passaram a reencenar o culto judeu da adoração aos antepassados. O primeiro conflito historicamente registrado parece ser o que relata Peter Brown em seu livro “The Cult os Saints” [O culto dos santos], de 1981. A chegada das relíquias de Santo Estevão à ilha de Minorca, no Mediterrâneo, em 471, abalou a até então convivência pacífica entre judeus e cristãos. O reavivar por parte destes de um culto judaico – o culto às relíquias dos mártires – criou uma espécie de competição entre as duas filiações religiosas, que chegaram às raias da violência física. Os judeus se embarricaram nas sinagogas resistindo à pressão cristã, cujo objetivo passou a ser converter a força quem antes era praticante de um culto livre ao seu deus. Todos agora deveriam ser cristãos, sob os auspícios do novo patriarca da cidade, Santo Estevão.
Tal apropriação de práticas judaicas por parte dos cristãos é apenas um dos fios de um novelo ainda mais complicado. A apropriação de tradições hebraicas foi somente o início de uma prática deliberada de uma espécie de sincretismo cristão. A diferença entre os enterros romanos ou pagãos para o que depois veio a ser o modo de sepultar os mortos realizado pelo cristianismo, ao mesmo tempo em que marcou uma inovação, abriu brechas para novas misturas nos rituais. Quando se dá o deslocamento dos sepultamentos de fora para dentro das cidades, perde-se a duplicidade dos corpos dos imperadores romanos. Estes, com seus restos mortais, jaziam nos cemitérios extramuros; a sua efígie, entretanto, permanecia no recinto sagrado, no templo. De duas maneiras distintas o imperador “imortal” permanecia entre os vivos.
O culto às relíquias dos mártires foi impulsionado pela adoração aos restos mortais que jaziam no recinto sagrado. É preciso, no entanto, relembrar uma distinção feita por Orígenes quanto ao segundo mandamento mosaico para melhor compreender a metamorfose dos ídolos pagãos em imagens santas. “Não farás para ti ídolo, nem imagem alguma do que há em cima dos céus, nem embaixo da terra, nem das águas de baixo da terra” (Êxodo 20:4) assim ditou Moisés ao seu povo. O historiador italiano Carlo Ginzburg nos conta assim:

Ao comentar essas palavras, Orígenes deteu-se sobretudo na segunda distinção, remetendo-a à passagem da primeira epístola aos coríntios, em que São Paulo sustenta que comer animais oferecidos aos ídolos não é pecado, porque “sabemos que o ídolo de si mesmo nada é no mundo” (1 Corintios 8:4). Porém, observa Orígenes, “ele disse que os ídolos não existem, mas não disse que não existem imagens” [2].

Um ídolo seria o que não existe. Orígenes pensa em centauros e sereias ou no deus egípcio Anúbis, que possuía uma cabeça de cachorro com membros humanos. De fato, a tradição greco-romana em nada refuta a tese do religioso. Logicamente, diz Aristóteles, podemos entender como reais um bode ou um cervo, mas nunca um “bodecervo”. Tal elemento, em si, seria uma “não-coisa”. Baseado na lei mosaica e nos Evangelhos, a tradição cristã teria seguido a mesma distinção, renegando ao esquecimento as imagens meio homem meio animal dos pagãos, e resgatando o culto das imagens, nas suas ramificações hebraicas e greco-romanas [3].
Ainda Ginzburg, falando sobre a estátua de São Geraldo e do culto à Santa Fé, (esta comparada em testemunhos da época à deusa Vênus ou Diana e aquele a Júpiter ou Marte), nos informa que, nos fins do século X, o corpo das imagens “havia sido adaptado a uma cabeça muito mais antiga. Que remontava ao século IV ou ao início do século V: a cabeça de ouro coroada de louros, de um imperador romano divinizado” [4]. Mas tais imagens, pelo menos até a virada do século XII ao XIII, ainda eram vistas com ceticismo, principalmente pelos meios ilustrados da época. Somente depois de 1215 e da proclamação do dogma da transubstanciação, o medo à idolatria começou a diminuir.
Se as imagens eram encaradas de maneira ambivalente pela mentalidade da época, a perplexidade desaparecia quando se falava em Cristo no crucifixo. A Igreja distribuía crucifixos por toda a Europa para se manter viva a memória da Paixão. A substituição (pelo menos em ordem de importância) do culto às relíquias pela eucaristia marcou outra ruptura com o pensamento grego, cujo termo kolossós já não podia mais abarcar. Se esse termo procurava estabelecer um contato entre o além e o mundo dos vivos, a eucaristia reclamava a presença do Cristo aqui e agora. O culto cristão da relíquia de seus mártires foi caindo em desuso e com a proclamação do dogma, novas perseguições foram realizadas contra os judeus, agora acusados de idolatrar o “bezerro de ouro”. Como diz o historiador italiano, “o dogma da transubstanciação, na medida em que negava os dados sensíveis em nome de uma realidade profunda e invisível, pode ser interpretado (pelo menos por um observador externo) como uma vitória extraordinária da abstração”. [5]
Por fim, Ginzburg nos conta das exéquias do conde Bertrand Du Guesclin (1389) realizadas em Saint-Denis. O parágrafo seguinte serve de excelente fecho para a primeira parte de nosso texto:

O monge autor da crônica de Saint-Denis relata uma cena que viu com os próprios olhos: o bispo de Autun, que estava celebrando a missa, ao chegar ao ofertório, saiu do altar com o rei para ir ao encontro de quatro cavaleiros que, na entrada do coro, exibiam as armas do defunto “com a finalidade de mostrar, por assim dizer, a presença corpórea dele”. As implicações eucarísticas dessa extraordinária comunhão heráldica e eqüestre (de norma, reservada a barões e duques) se explicam facilmente à luz da hipótese que proponho. É a presença real, concreta, corpórea de Cristo no sacramento que possibilita, entre o fim do Duzentos e o princípio do Trezentos, a cristalização do objeto extraordinário de que parti, até fazer dele o símbolo concreto da abstração do Estado: a efígie do rei denominada representação. [6]

2. A “Mitocracia”


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O “efeito 1914”: a ameaça de guerra mundial feita pelo mercado financeiro

Exército Sírio: Sputnik, publicado na EBC


Ao contrário do que diz a The Economist, é o império, com sua globalização, que ameaça fazer guerra, seja na Síria, nos Bálticos, na Ucrânia, no Mar da China, ou com terroristas mundo afora para aumentar a tensão e apontar como culpados o nacionalismo, o populismo, a defesa da soberania nacional.

Texto meu publicado agora no Brasil Debate, ao lado dos de Fernando Nogueira Costa e Roberto Amaral, entre outros. Uma crítica a um artigo recente da The Economist, na verdade uma ameaça de guerra através de um dos portais do mercado financeiro internacional.


DO BRASIL DEBATE (com todos os hiperlinks agora devidamente adicionados)

O “efeito 1914”: a ameaça de guerra mundial feita pelo mercado financeiro

A revista The Economist publicou recentemente um artigo onde vê ocorrer agora uma contra-reação ao projeto de globalização bem-sucedido nas últimas décadas, tal como no século passado a mesma contestação ocorreu contra uma “primeira globalização”. O “efeito 1914” aludido na seção chamada Buttonwood (referência à arvore debaixo da qual se fundou Wall Street), dedicada aos assuntos do mercado financeiro, seria a reação representada principalmente pela eleição de Trump e pelo Brexit aos progressos dessa suposta globalização. Em 1914, a emergência de um tipo particular de nacionalismo foi o estopim, mais do que o assassinato do arqueduque Franz Ferdinand, para a eclosão da Primeira Guerra. Os progressos do livre-mercado, de 1980 a 2008, agora contestados, poderia nos levar a uma outra guerra mundial num curto espaço de tempo. 
A história narrada na revista é interessante na medida em que culpa os inimigos errados. Quer dizer então que a globalização, ou seja, a força que move o imperialismo hoje, é contra a guerra, ao contrário de 1914? Trump é um perigo (por isso, Russian-gate), o Irã (novamente a mesma história…) e a China via Coreia (e nada da ocupação estrangeira no Mar da China?). O projeto de globalização, de unificação de mercados e não de povos, de uma união política forçada por uma união monetária, falha na Inglaterra e, logo, quem se expressa são eleitores reacionários, nacionalistas que beiram a xenofobia e abominam o “progresso”? O fato da União Monetária Europeia entrar em crise pode deslanchar uma guerra? Isso parece mais uma ameaça da The Economist do que um alerta. 
A China propõe amplos projetos de desenvolvimento conjunto com o projeto da Nova Rota da Seda, com altos níveis de tecnologia aplicados, fora seu programa espacial, e a saída seria a criação de novas tecnologias? Mas aonde? Com o Vale do Silício, que não dá emprego a ninguém com as famosas empresas “.com”? Com mais financeirização da economia, com os contínuos resgates bancários, das imposições da Troika, da lei Dood-Frank, dos Q.E. de Obama? Com trilhões em derivativos, resultado dessa mesma política dos “muito grandes para falir”, se amontoando cada vez mais e ameaçando uma crise de liquidez ainda maior? Não dá para ler qualquer texto da The Economist sem o mínimo argumento crítico. Para eles, a era de ouro é a de Regan e Tatcher até a crise de 2008, quando sua hegemonia foi colocada em questão: com Trump, com Brexit, com a parceria russo-chinesa e, ainda antes, com todo o ciclo da esquerda sul-americano, iniciado com Chávez, e que trouxe para o palco da política mundial tantos “populistas”, quiçá terroristas, na verdade uma leva de “corruptos” como se costuma chamar todos dessa corrente política? Tudo fora da desregulamentação desenfreada para eles não vale. Logo, é o Império novamente, com sua globalização, que ameaça fazer guerra, seja no front sírio, nos Bálticos, com as provocações na Ucrânia, no Mar da china, e espalham uma rede de terroristas (atentados que flertam com o fake, com os não-fatos, com os simulacros) mundo afora para fazer aumentar a tensão e novamente apontar como culpados o nacionalismo, o populismo, a defesa da soberania nacional. 
Podemos recontar com outros nomes, com outras referências, a história ou a ameaça velada nas páginas da revista dos financistas britânicos: McKinley foi assassinado em 1901, último presidente da facção de Lincoln; Bismarck, que de uma plataforma liberal adotou o protecionismo no estilo dos EUA do séc. XIX (dos irmãos Carey, de Frederich List) e também industrializou seu país, foi demitido. O império tinha que colocar a Rússia contra a Alemanha, então acéfala, e financiar boa parte do bolchevismo para manobrar a política russa com mais facilidade. As provocações da virada do século XIX para o XX foi um meio de o império fazer romper esse jogo virtuoso, com Bismarck, a continuação das políticas de Hamilton e Lincoln, com a parceria entre Sergei Witte e Gabriel Hanotoux para a construção da ferrovia transiberiana e do projeto ainda não levado a cabo, a ferrovia que ligaria Berlim a Bagdá (a mesma interligação euroasiática prevista nos projetos da Nova Rota da Seda). Estes foram os projetos, nacionalistas, que deram a dinâmica econômica ao século XIX. 
A Primeira Guerra foi um modo de interromper esse ciclo; a Segunda Guerra, a de estabilizar o mercado financeiro com governos altamente militarizados, daí a generosidade dos bancos estrangeiros com a dívida alemã depois que Hitler assume o poder, daí também seu patrocínio por grandes fundos, com os da família judia dos Warburg, o papel da Prescott Bush na venda e financiamento de armas para o regime nazista, e o silêncio de Churchill até Hitler perder o controle e se voltar não apenas contra a Rússia, que era o objetivo, mas contra a Europa. Sem a liderança de Roosevelt, o “homem esquecido”, talvez os planos britânicos tivessem dado certo e a potência euroasiática, a Rússia, e o país mais industrializado da Europa, teriam se destruído para a glória da Grã-Bretanha e de seus livres-mercadistas. Não dá para engolir as palavras do império, mais uma louvação da globalização, mais um lixo – e uma ameaça grave – produzida direto da City de Londres e de seus porta-vozes em Wall Street, a revista The Economist. Com certeza, sem um nítido projeto nacional e de coopeação entre os povos, como na parceria BRICS, orientado para o futuro, continuaremos convivendo com a desintegração financeira e com as ameaças de guerra. Continuaremos vivendo o contínuo conflito social que hoje é realidade em quase toda a América do Sul, porém não menor nos EUA dos desempregados e subempregados, da epidemia de drogas e suicídio entre a classe-média, e na Europa que tem contra seu “projeto” a crise de imigrantes, todo o lado leste de sua fronteira que é ignorado cegamente desde a suposta vitória das liberdades democráticas ocidentais com a queda do muro de Berlim.

Para acessar a tradução do texto da revista The Economist clique aqui.

A teoria da dependência, 20 anos depois de Ruy Mauro Marini: uma leitura anacrônica

Publicamos tempos atrás um artigo nesse blog sobre a captura da Teoria da Dependência por Fernando Henrique Cardoso, quando este ainda era um acadêmico e se utilizava de suas leituras do Capital, de sua pose de esquerdista e dos amplos financiamentos da Fundação Ford ao CEBRAP. Da teoria à prática, FHC, já em conluio com José Serra desde a época dos debates acadêmicos e do esforço sistemático à deturpação da teoria de Marini, o PSDB colocou como paradigma de sua governamentalidade o dependentismo em sentido inverso, ou seja, a associação ao capital estrangeiro para injetar recursos na economia nacional, mantra dos liberais pelo menos até o minuto seguinte à publicação desse texto.

Uma leitura anacrônica é válida frente à leitura retrospectiva de Carlos Eduardo Martins no blog da Boitempo, porque o “subimperialismo” lulista não pode ser, sem mediação, sem qualquer consideração de conjunto, colocado junto ao programa econômico da república dos quartéis; o regime de superexploração do trabalho, outro conceito de Marini, não pode ser “por ligação direta”, associado à financeirização da economia nos mesmo governos Lula e Dilma. Se for o caso de falarmos de financeirização de nossa economia, podemos considerar a manutenção do tripé macroeconômico instituído pelos tucanos; a falcatrua da manutenção do sistema da dívida; a falta de controle sobre a entrada de capitais, a intervenção frouxa nas taxas de câmbio, mantendo o real subvalorizado para beneficiar as classes-médias compradoras em detrimento do incentivo à indústria nacional. Do Paraguai à Miami, este foi o movimento de nossa classe-média durante os últimos anos, baseado no aumento dos rendimentos, no aumento da oferta de postos de trabalho, em conjunção com a política de manipulação cambial, de não interferência do executivo e dos órgãos competentes nessas taxas. Criou-se um novo estatuto para essa classe-média, mais uma ilusão levada a efeito pela política de não intervenção direta em assuntos que se tornaram dogmas sociais, ou seja, um mínimo de estado liberal deveria se manter vigente para que não se rompesse o pacto que levou o Partido dos Trabalhadores ao poder executivo federal.
O subimperialismo no contexto de Ruy Marini era o da criação de grandes empresas como a Varig, da associação do regime com empreiteiras na construção de muitas obras fracassadas e que renderam frutos para seus participantes em forma de largas propinas – nada tão diferente do que escandalizou a burguesia moralista nos anos mais recentes -, como relatado no livro Estranhas Catedrais, de Pedro Henrique Pedreira Campos. Esta dentro do contexto de se criar uma classe-média com poder de compra suntuário, capaz de injetar recursos na economia em grande vulto, em completo desprezo à integração social de ampla parcela da sociedade que, por sua vez, deveria sofrer com o regime de superexploração, condição essencial para nos manter como uma colônia dos países desenvolvidos. O wall fare state só foi possível no longo prazo pela superexploração do trabalho nos países periféricos. Talvez esta a afirmativa mais radical de Ruy Mauro Marini.
No médio e longo prazo, porque o regime de colônia que os militares voltaram a impor ao país se consolidou depois da crise do petróleo, do aumento exponencial do juros da dívida pública pelo aumento unilateral das taxas americanas, resposta de Nixon à perda de recursos devido ao aumento do preço do petróleo no mercado internacional. Dá para se criar um contínuo entre o que Ruy viu nas décadas de 1960-70 no Brasil e em seus exílios pelo mundo com nossa situação atual. A deficiência do artigo do professor Carlos Eduardo Martins é tentar uma abordagem diacrônica, baseado em dois tempos separados, e que, por mágicas da teoria das semelhanças, cujo precursor sombrio é a infame categoria aristotélica de mímeses na escrita literária (e todas as escritas são uma ficção, tem suas próprias peripécias e modos de construir sua argumentação, sua trama e seus personagens-conceito). O que lhe falta é uma geohistória, o panorama de como foi se desenrolando muitas das teorias de Marini que ainda eram sementes quando publicadas. Elas frutificam de modos muito diversos. Não é pelo fato de querer se livrar dos tão propalados “erros da esquerda”, algo tão corriqueiro que criou fenômenos políticos eleitorais como Marina Silva, Luciana Genro ou Heloísa Helena. Ou ainda a pusilânime declaração de Freixo, por exemplo, que ao perder para o pastor a disputa no município do Rio de Janeiro, culpou o PT por sua derrota.
Não há lugar para meia culpas. A esquerda cheirosa produz rebentos teratológicos não muito diferentes dos aberrantes herdeiros da velha política. Estão aí, talvez tenham algo a dizer, porém acrescentam pouco ou nada para os debates sobre o desenvolvimento nacional. Considerando o professor, especialista em Marini, alguém não tão cheiroso assim, e compreendendo a validade de seu texto como “semente”, como subsídio para uma discussão mais aprofundada, republico ele aqui por se tratar de contribuição importante para as ciências brasileiras, ainda mais se formos lembrar não apenas dos exílios, mas do papel atuante de Vânia, Ruy, Theotonio e demais nas formulações do trabalhismo brasileiro, com Darcy, com Brizola, e que tem um potencial de fazer sacudir o bom-mocismo do economicismo acadêmico, girando sempre na tautologia infernal de Heyke ou Keynes.
Assim, a leitura anacrônica talvez seja menos a minha, por não querem forçar passagens. O anacronismo aludido diz respeito à necessidade de se considerar alguns aspectos da formulação original e ver que não saltam para os dias atuais as mesmas abordagens através de um salto qualquer. Foram as que enxerguei. Contudo, como não somos nem um pouco limpinhos, vale muito ouvir um pouco mais a história da criação da teoria que substitui com toda sofisticação e inovação possíveis os velhos companheiros, sejam eles Furtado ou Caio Prado, JK ou Jango. Theotonio, Bambirra e Ruy; Darcy, Brizola e Lula: uma nova configuração.

A teoria da dependência, 20 anos depois de Ruy Mauro Marini

Por que liberais e fascistas se uniram para impor barreiras à atividade intelectual de Ruy Mauro Marini e à divulgação de sua obra? Que consensos o autor desafiou? Passados 20 anos de sua morte, como avaliar o legado da sua obra?

Por Carlos Eduardo Martins.

Este mês completa-se 20 anos da morte de Ruy Mauro Marini, um dos principais expoentes do pensamento crítico e do marxismo latino-americano. Ele foi um dos mais destacados formuladores da teoria marxista da dependência e dedicou sua vida à luta teórica e prática contra o desenvolvimento da economia mundial capitalista e as principais formas em que se manifestava – as estruturas excludentes do capitalismo periférico e o imperialismo –, vendo no socialismo a principal forma de enfrentá-los e superá-los.

Breve resumo da vida e obra de Ruy Mauro Marini

Dirigente da POLOP e do MIR chileno, sofreu diversos exílios e ostracismos. Exílios das ditaduras militares no Brasil, em 1964, e no Chile, em 1973. Convites para se retirar do México em 1968/69 por sua influência intelectual no movimento estudantil durante a repressão desatada por Luis Echeverría, então Secretário de Governo e depois Presidente da República. De volta ao Brasil, a partir de 1982, foi marginalizado do debate acadêmico e político por uma intelectualidade emergente que buscou circunscrever a redemocratização ao compromisso com o modelo econômico legado pelo golpe de 1964, à sua reorientação para o neoliberalismo e aos limites da lei de anistia imposta pelos militares. Seu regresso ao país foi precedido de uma dura crítica à Dialética da dependência (sua obra mais conhecida, publicada nos Cadernos Cebrap em 1978) por Fernando Henrique e Jose Serra que, por incapacidade de interpretação ou má-fé, manipularam e deformaram livremente seu pensamento, aproveitando-se do desconhecimento do público brasileiro sobre seus escritos e da censura que impuseram à sua resposta, divulgada na Revista Mexicana de Sociologia, em polêmica aberta. Reintegrado à UNB em 1987, após sua expulsão sumária pela ditadura, apenas em 1992 publicou seu primeiro livro no Brasil, Dependência e integração na América Latina. Em 1993, volta ao México para assumir a direção do CELA/UNAM, retornando ao Brasil, já doente de câncer linfático, para falecer em 1997.
Mas por que liberais e fascistas se uniram para impor barreiras à sua atividade intelectual e à divulgação de sua obra? Que consensos o autor desafiou? Responder a essa questão exige fazer um levantamento ao menos sumário das principais suas contribuições. Marini deixou uma obra instigante e provocante que renovou o marxismo, formou diversas gerações de pesquisadores e projetou o pensamento latino-americano para os grandes centros influenciando a esquerda estadunidense e europeia. Ele lançou as bases de uma economia política da dependência ao desenvolver os conceitos de superexploração de trabalhosubimperialismo e padrão de reprodução do capital, e demonstrar a compatibilidade do progresso técnico com os esquemas de reprodução de Marx. Analisou a fragilidade das democracias latino-americanas formulando conceitos como os de Estados de contra-insurgência e Estados de 4º poder. Sistematizou e analisou criticamente as principais correntes do pensamento social latino-americano constituídas desde os anos 1920, bem como os dilemas do socialismo no século XX e no século XXI, que viria.
Para o autor, o capitalismo é um modo de produção mundial que se articula em formações sociais, as quais isoladamente não representam mais que formas particulares de sua lógica global. Tal visão rompe assim com o enfoque eurocêntrico que postulava serem a Europa Ocidental e os Estados Unidos a essência do capitalismo e sua expressão modelar, enquanto a América Latina e a periferia seriam regiões de atraso, marcadas por formas pré-capitalistas ou insuficientemente capitalistas de organização econômica, política e social. O capitalismo constitui-se através de uma economia mundial que institui uma divisão internacional do trabalho monopólica, hierarquizada e competitiva, baseada em formas distintas e complementares de especialização produtiva e gigantescas transferências de excedente e de mais-valia das periferias para os centros. A teoria marxista da dependência, ao lançar luz sobre o lugar da América Latina no sistema mundial capitalista, contribuía para desvendar sua gênese, suas estruturas e dinâmicas de evolução. Mais que uma teoria do capitalismo na periferia, constituía-se em ponto de partida para uma reinterpretação do capitalismo global e nos centros, mostrando as interconexões entre as distintas formações sociais que articulava.
superexploração do trabalho seria uma consequência da forma como o capitalismo se estrutura nas periferias e na América Latina. Nelas ocorrem dois tipos de transferências de valor, fundadas em última instância no monopólio tecnológico, ainda que não só nele: das economias locais para a economia mundial, e da pequena e média burguesia para os segmentos monopólicos internos, constituídos pela burguesia nacional que se associa por meio da dependência tecnológica, comercial e financeira, e pelo próprio capital estrangeiro. Tais transferências seriam mais dinâmicas que a própria geração local de mais-valor, reproduziriam economias mundiais e internas cada vez mais assimétricas, e teriam como consequência a apropriação de parte do valor da força de trabalho pelo capital, como forma de compensação. Esta apropriação se daria com a queda dos preços da força de trabalho por debaixo do seu valor e se efetivaria sob a forma combinada ou isolada de redução salarial, aumento da intensidade, da jornada de trabalho e aumento da qualificação da força de trabalho sem pagamento proporcional ao trabalhador.
A superexploração limitaria a expansão do mercado interno, uma vez que a redução do valor da força de trabalho independentemente da produtividade seria um dos recursos utilizados no capitalismo dependente para baixar custos de produção e compensar as pressões competitivas dos monopólios internacionais e internos. Entretanto isso exigiria, para sua efetivação, altos níveis de desemprego e limitações ao exercício da soberania popular, comprometendo parcialmente a capacidade de geração de progresso técnico, uma vez que esta depende da qualificação da força de trabalho. Assim, os amplos níveis de desigualdade e pobreza, a fragilidade de nossos sistemas de educação, ciência e tecnologia e de inovação, a instabilidade democrática e os golpes de Estado seriam parte do constitutiva do capitalismo na América Latina e não uma excepcionalidade – esta sim referida aos períodos de inclusão e ampliação do mercado interno, de fortalecimento democrático e de afirmação da soberania produtiva e popular.
Todavia, a integração tecnológica gerada pelo capital estrangeiro tenderia se chocar com os limites do mercado interno, levando, para a realização de mercadorias, à ênfase no consumo suntuário, nas compras estatais e no desdobramento para o mercado externo. Criaria-se o espaço para o subimperialismo nos países onde a burguesia alcançasse um diferencial de composição técnica do capital em relação aos seus vizinhos, tendo ao alcance mercados regionais, sem nenhum competidor externo importante, para os quais pudesse orientar a produção manufatureira e obter fontes de matérias-primas e suprimentos estratégicos. O subimperialismo se desenvolveria nos marcos de uma política de cooperação antagônica entre países dependentes e imperialistas, mas estaria ao alcance apenas de alguns dos países dependentes. Nestes, o subimperialismo disputaria a primazia com o alinhamento radical à potência hegemônica, podendo ser ou não a alternativa hegemônica de políticas públicas.
Nos anos 1990, no contexto de um amplo balanço do pensamento social latino-americano que apenas iniciou em suas Memórias e continuou na série Teoria Social Latinoamericana que coordenou na UNAM, Marini menciona a necessidade de se retomar o fio da teoria da dependência dos anos 1970 de modo criador e transcendê-la, seja para avançar na construção de uma teoria marxista da dependência, que depure a teoria da dependência de suas aderências funcionalistas e desenvolvimentistas, seja para avançar na análise dos processos de reestruturação do capitalismo mundial impulsionados pela globalização, com profundos impactos sobre sua economia política e o sistema interestatal. Nesse sentido, em seus últimos trabalhos, o autor menciona a necessidade de se estender o conceito de superexploração aos países centrais para analisar as transformações provocadas pela globalização no capitalismo mundial. Segundo Marini, o deslocamento do monopólio tecnológico para ciência e o aumento das escalas produtivas que orienta a produção para mercados mundiais criam uma nova fonte de mais-valia extraordinária mundial na combinação entre tecnologia de ponta e força de trabalho superexplorada, passando a regular os salários nos países centrais pelos da periferia.
Passados 20 anos da morte de Ruy Mauro Marini, como avaliar o legado da sua obra?

Atualidade da obra de Ruy Mauro Marini e da Teoria Marxista da Dependência

Marini morreu em pleno auge do neoliberalismo e embora tenha esboçado no México certos elementos para a retomada do pensamento latino-americano não chegou a presenciar mais que o início de sua nova ofensiva, que permitiu a retomada e desenvolvimento de sua obra pelas novas gerações, rompendo parcialmente o bloqueio que a ela fora imposta, principalmente no Brasil. Ao denunciar o caráter superexplorador do capitalismo dependente, ele colocava em cheque as ilusões do pensamento desenvolvimentista e o discurso de modernização social do liberalismo brasileiro e latino-americano, mostrando sua tendência à convergência com os setores mais conservadores.
Homem generoso e dedicado formou gerações e gerações de pesquisadores. O conheci, a partir de contato mediado por Theotonio dos Santos e Vânia Bambirra, e dele recebi ampla acolhida em minhas iniciativas de pesquisa durante o mestrado, quando me orientou na leitura de O capital durante um ano e meio, em sessões mensais que duravam 3 a 4 horas em sua casa.
O rompimento do bloqueio à obra de Marini surgiu de um conjunto de fatores que se articularam: a publicação de sua obra na internet em site hospedado na UNAM permitiu amplo acesso a mesma; a crise do neoliberalismo na América Latina despertou o interesse da juventude sobre seus escritos; a reorganização da capacidade de pesquisa do pensamento crítico latino-americano através de organismos como CLACSO, SEPLA e ALAS, que fogem ao controle das agências nacionais de fomento dirigidas em geral pelo pensamento conservador e liberal; o trabalho ativo de pesquisa das novas gerações; a penetração de suas ideias nos movimentos sociais; e a publicação de diversos livros sobre sua obra, entre os quais a pioneira coletânea brasileira publicada em 2009, pela Boitempo, América Latina e os desafios da globalização: ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini, organizada por mim e Adrián Sotelo Valência e coordenada por Emir Sader e Theotonio dos Santos.
A história da América Latina no século XXI evidencia a força das teses e da obra de Marini. Entre os principais aspectos que a reforçam podemos indicar:
(a) O abandono da burguesia latino-americana de qualquer pretensão industrialista e soberana em favor da financeirização e do modelo exportador centrado na reprimarização, nas maquilas, em nichos de mercado agroindustriais ou voltados para a geração de partes e componentes de menor intensidade tecnológica;
(b) A forte resistência às experiências nacionais-populares promovidas pela ascensão das esquerdas e as tentativas de desestabilizá-las, bem como as reformas sociais e políticas de inclusão social impulsionadas pelos governos de centro-esquerda na América do Sul;
(c) A restauração conservadora e neoliberal realizada através de golpes de Estado, como no Brasil, Paraguai e Honduras, ou por apertadas vitórias eleitorais, como na Argentina, cujo objetivo é destruir direitos sociais, restabelecer as elevadas taxas de superexploração, privatizar o patrimônio público, e aumentar a desigualdade e as taxas de pobreza
(d) O restabelecimento do subimperialismo como variável chave na política externa brasileira com a pretensão dos governos petistas de impulsionarem as cadeias produtivas industriais brasileiras, sem inseri-las de maneira efetiva em marcos institucionais de integração regional cooperativos que lhes planificassem; e
(e) A forte ampliação dos níveis de desigualdade e a elevação dos níveis de pobreza nos Estados Unidos, a partir da combinação entre finaceirização e deslocalização produtiva para a China e o México, ou na União Européia, a partir da introdução do euro e da combinação na Alemanha entre alta tecnologia e baixos salários, oriundos da absorção da força de trabalho do Leste, para destruir e reverter a lenta convergência do nível de renda que se realizava entre a Europa mediterrânea ou latina e o norte europeu.
No plano teórico e analítico o enfoque marxista da dependência tem se desdobrado de forma criativa nas seguintes direções neste século:
(a) No caminho, destacado por Marini, de inversão dos fluxos colonial e eurocêntrico das ideias que passaram, nos anos 1970, com a Teoria da Dependência, a influenciar os Estados Unidos e a Europa Ocidental desde a América Latina. Trata-se então para prosseguir neste caminho de compreender a teoria marxista da dependência como uma primeira etapa da construção de uma teoria marxista do sistema mundo, que não apenas avança na ressignificação das teorias do imperialismo dos anos 1910-20, mas também dos enfoques mais recentes de Immanuel WallersteinGiovanni Arrighi e Beverly Silver;
(b) Na análise dos padrões de reprodução do capital na América Latina, mostrando sua vinculação com a financeirização, o neoliberalismo, os ciclos econômicos e a revolução científico-técnica;
(c) No estudo do conceito de superexploração do trabalho, sua gênese e suas novas formas de concreção;
(d) Na investigação das novas expressões do subimperialismo na América Latina;
(e) Na análise dos novos padrões de reprodução ideológica da dependência em nossa região
(f) Na investigação da crise da democracia liberal, da natureza dos Estados de exceção latino-americanos e de sua proximidade com o fascismo;
(g) Na elaboração do desenho estratégico dos processos de emancipação de nossos povos da dependência, enfatizando sua geopolítica regional e mundial, sua base de classes, étnica, social, ambiental e seus eixos político-institucionais
Apesar dos avanços nos últimos anos há muito o que se fazer. O desenvolvimento da teoria marxista da dependência segue encontrando resistência na esquerda centrista, que cada vez mais perde espaço diante da violenta restauração neoliberal, e na esquerda pós-moderna, que pretende priorizar as questões identitárias e ambientais, mas em detrimento das classes sociais, do Estado e da geopolítica mundial como instrumentos de análise, de poder e de transformação.
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Para aprofundar a reflexão, recomendamos a leitura de Padrão de reprodução do capital: contribuições da teoria marxista da dependência, uma reinterpretação coletiva da história latino-americana feita por Jaime Osorio, Marcelo Carcanholo, Mathias Luce, Carla Ferreira e Marisa Amaral, além o próprio Ruy Mauro Marini – que formam duas gerações de vigorosa tradição da teoria marxista da dependência; e da Revista Margem Esquerda n.17, que abre com uma aprofundada entrevista de Vânia Bambirra a Carlos Eduardo Martins, além do mencionado A América Latina e os desafios da globalização.
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Carlos Eduardo Martins é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Estudos sobre Economia Política Internacional (UFRJ), coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ), coordenador do Grupo de Integração e União Sul-Americana do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). É autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe(Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

A posição indefensável, a entrevista infame de Daniel Zamorra: “podemos criticar Foucault?”

Comecei a publicar tempos atrás uma série de pequenos textos sobre o Foucault, releituras minhas com o objetivo menos de compreender um suposto autor do que usar suas ferramentas teóricas em campos distintos (ver a tag, no blog, chamada “pós-foucaultianas” para ter a listagem de toda a série ou clique aqui). Somente assim, no meu entender, se pode criar uma nova imagem do filósofo (de qualquer um a que se tenha por objeto, ou seja, se utilizando de novas ferramentas). Admito os problemas que surgem por causa de novas abordagens, por causa também – ainda – de seu caráter fragmentário, ou seja, se pesquisa em projeto. Existe um certo apelo bem primário, quase rude, que vai sendo trabalho pelas inúmeras leituras, plea insistência na escrita, pelo aporte de novas ideias, etc. E esse blog é onde exponho esse trabalho em processo. Em contraposição à rudeza de alguns conceitos de determinados outros, na sua falta de maleabilidade, nas leituras viciadas que seguem os infinitos ditos e escritos a respeito de Foucault, quis operar uma pré-filosofia, mais do que uma não-filosofia, para não se adequar aos ditames da imagem do pensamento que se tem de Foucault. A pergunta não é se podemos criticar Foucault, mas quais pressupostos utilizamos para realizar nossa crítica. Sem as ferramentas adequados, podemos esbarrar com aberrações tais como esse do Foucault fenomenólogo e neoliberal da entrevista e do livro de Daniel Zamorra, e nas produções de seu mestre, François Ewald.


Uma das primeiras publicações de minha série “pós-foucaultiana” foi a releitura de Marcel Detienne em comparação com as leituras propriamente pós-modernas de Foucault, a que querem colocá-lo como utopista do livre-mercado. Essa abordagem infame não leva em conta que no curso em questão, O Nascimento da biopolítica, ele atrela o nascimento dessa nova modalidade de biopoder, o liberalismo como se configurou no século XX, principalmente no pós-guerra, com a fenomenologia de Husserl e com a Escola de Frankfurt. Foi com esse pano de fundo teórico que os economistas começaram a esboçar o liberalismo como publicado nos artigos da revista Ordo e, depois, o mais famoso neoliberalismo, nem tanto austríaco, mas americano. Não dá para se abordar a maneira como Foucault estudou o liberalismo ignorando suas palavras sobre a fenomenologia. Por isso, a leitura chamada por mim de “infame”, que tem início com François Ewald, um representante da geração Mao-Maio, na expressão de François Dosse, a respeito dos revolucionários maoístas de 1968 que trouxeram as importações made in USA para a França como se fossem fruto do mais engajado combate revolucionário. Bem, isso está nos posts e não dá para retomar tudo aqui.

O que se tem de levar em conta é que o Foucault da tese complementar, Gênese e estrutura na antropologia de Kant, já traçava sua diferença em relação à fenomenologia, à Husserl e, de maneira mais ampla, ao próprio Kant. No pequeno livrinho consta um programa que, de maneiras muito diferentes, Foucault seguiu por toda a vida. O homem que deve morrer, ou a imagem que se tem desse homem, a imagem formada por esse tipo de pensamento; o homem que de fato morre, é o sujeito kantiano. Ele morre por causa da colocação de uma pergunta mais fundamental: somente com o além do homem nietzschiano se pode compreender ou se pode ultrapassar as especulações sobre o que é o homem de um modo geral, mesmo questionamento do Górgias, por exemplo, mesmo tipo de colocação do problema: o que é o homem de maneira tal que ele é para nós a medida de todas as coisas? Que homem seria este a partir do qual tudo se mediria? Qual é a régua? Não existe a pergunta sobre o homem de uma maneira geral; essa é a sofística, é o trabalho da democracia ateniense, do imperialismo “democrático” de Atenas que levou à sua própria destruição com a Guerra do Peloponeso. São os delírios de Sólon e de Tucídides. Este homem em geral, medida de todos os outros, é o da pólis ateniense, é o grego autóctone, de sangue puro, não misturado aos bárbaros. O homem em geral é um homem em específico. Hoje, os do que defendem o mundo unipolar, as diretrizes de supremacia militar da OTAN, dos ditados do mercado financeiro e das democracias manipuláveis, frágeis como se mostraram diante da proliferação das “revoluções coloridas”, das primaveras árabes, do Brasil à Ucrânia.

Essa a questão colocada por Foucault ainda em sua tese complementar:

“A antropologia é este caminho secreto que, na direção das fundações de nosso saber, religa, por uma mediação não refletida, a experiência do homem e da filosofia. Os valores insidiosos da questão Was ist der Mensch? São responsáveis por este campo homogêneo, desestruturado, indefinidamente reversível, onde o homem oferece sua verdade como alma da verdade. As noções polimorfas de “sentido”, “estrutura”, de “gênese” – qualquer que seja o valor que possam ter que seria justo restituir-lhes em um pensamento rigoroso – por ora só indicam confusão do domínio onde assumem seu papel de comunicação. O fato de que circulem indiferentemente em todas as ciências humanas e na filosofia não funda um direito a pensar esta e aquelas como que em um único bloco, mas somente sinaliza a incapacidade em que nos encontramos de exercer contra esta ilusão antropológica uma verdadeira crítica.

Entretanto, recebemos o modelo desta crítica há mais de meio século. O empreendimento nietzschiano poderia ser entendido como um basta enfim dado à proliferação da interrogação sobre o homem. Com efeito, a morte de Deus não é manifestada em um gesto duplamente homicida que, pondo um termo ao absoluto, é ao mesmo tempo assassínio do próprio homem? Pois o homem, em sua finitude, não é separável do infinito do qual ao mesmo tempo é negação e arauto; é na morte do homem que se cumpre a morte de Deus. Não seria possível conceber uma crítica da finitude que fosse libertadora tanto em relação ao homem quanto em relação ao infinito e que mostrasse que a finitude não é termo, mas a curva e o nó do tempo onde o fim é começo?”

Essa antropologia, esse saber que diz a verdade sobre o homem, que se quer única, unânime, é a voz de todos os imperialismos, de todas as tiranias. Deve-se lembrar que na seção “à sombra das três críticas”, do curso de Foucault Governo de si e dos outros, na análise dos textos de revista publicados por Kant, se ressalta que a liberdade de pensamento, a “coragem” kantiana, só é factível caso se aumente o número de canhões. Só existe liberdade num mundo devidamente controlado, esquadrinhado, no qual o poder hegemônico dê os subsídios para o filósofo pensar “livremente”. Por isso, Foucault diz que Frederico da Prússia é o agente da Aufklarung. Sem considerar, portanto, todo um desenvolvimento do pensamento de Foucault, ainda mais aos problemas que surgem quando estudamos seu “pensamento tardio” (talvez não tão distante no programa de sua juventude), não se tem a capacidade de “criticar Foucault”. Somente mais uma nota: na tese complementar, Foucault é enfático ao afirmar que as Meditações Cartesianas, antes de remeterem propriamente aos fundamentos do pensamento filosófico moderno, ou seja, ao racionalismo cartesiano, é todo o pensamento kantiano que é revisitado por Husserl. É a recolocação do problema kantiano, a tentativa de sua reafirmação, de toda essa escola também de um modo geral, e que o caráter um pouco errático, fragmentário, dos trabalhos de Husserl não tenha tornado tão claro, tão evidente enquanto programa, como o é – e este talvez seja o ponto principal – na filosofia de Habermas.

Uma última nota antes de apresentar a infame entrevista do discípulo de François Ewald, dessas leituras que fazem eco à afirmação das “liberdades democráticas ocidentais” que se tornaram a voz do mundo unipolar depois da queda do muro de Berlim: o pensamento social do neoliberalismo, como em Hillary Clinton ou Obama, com seus foodstamp, com seus cartões de compra em super-mercado para os pobres, não guarda relação com o que ocorreu no Brasil, não só em escala, mas em objetivos. Para falarmos em termos bergsonianos, não é uma diferença de grau, mas de natureza. Daí a inépcia de muitas das críticas da suposta “nova esquerda” que em muito ecoam o falido sistema defendido por Anthony Giddens ou seu correlato na política profissional, Tony Blair, a questão de uma terceira via para se fugir a qualquer embate, qualquer discórdia social (logo ele que, usando os serviços de inteligência britânicos, deu o aval necessário para a OTAN entrar na Guerra do Iraque…), qualquer tentativa de se perceber que existem graves diferenças sociais, e que não se vive nesse mundo perfeito das liberdades democráticas, como contesta de maneira muito elegante e eficiente Jacques Rancière, no seu livro O desentendimento, boa parte do qual dedicado à refutação do mundo uniforme e controlador a que se dedica a filosofia de Junger Habermas. Não há crítica econômica, política, social, sem se ater aos seus pressupostos, sem questionar a gênese de seus pensamentos. Essa a tarefa de Foucault, essa já a tarefa da genealogia nietzschiana. O mundo da democracia perfeita e do controle da população, hoje, é o mundo da vigilância massiva aliada aos processos secretos e aos vazamentos intencionais (mundo afora a partir do Ato Patriota). Por fora, um pensamento “inclusivo” com cotas para se comprar comidas ou para se frequentar uma instituição de ensino. Não foi isso o que dinamizou o crescimento do nordeste (que cresceu por anos a taxas chinesas) e hoje, ainda que com a manutenção precária de muitos programas sociais, volta aos tempos de Graciliano Ramos, de Jorge Amado, de Josué de Castro. Não foi contra os “programas sociais” que se colocou Sérgio Moro, não como o agente da Aufklarung que foi, porém ainda mais, de um poder imperial ainda mais devastador, ou seja, a criação de um assassino econômico que nos faz ver nitidamente que John Perkins é um dinossauro da época da Guerra fria. É a esta diferença de abordagem que devemos nos ater para não igualarmos a caridade dos ricos com a luta pela inclusão plena dos mais pobres; para não homogeneizarmos utilizando de argumentos laterais o que foi um vida militante como a de Foucault com a construção de utopias semi-letradas e ultra-tendenciosas. Como escrito no Nascimento da biopolítica, o novo liberalismo precisava de uma nova utopia. Palavras de Hayke. E querem fazer de Foucault este novo ideólogo.

Eis a infame entrevista: http://www.jacobinmag.com/2014/12/foucault-interview/

SEGUNDA PARTE EM BREVE

Os bichos estranhos que tocamos na Casa dos Insetos

Dr. Strangelove: ou como parei de me preocupar e passei a amar a bomba.


Existe claramente um partido da guerra nos Estados Unidos. Hillary Clinton, ao defender a “zona de exclusão aérea” na Síria (o que significa abater não apenas os aviões que não são da OTAN e que sobrevoam o espaço aéreo do país, mas também todos os aviões estacionados, ou seja, toda a frota russa que dá apoio a Assad), foi a candidata desse partido. Perdida eleição, uma questão interna do Partido Democrata, o vazamento de informações a respeito das sabotagens que o comitê de Hillary promoveu contra Sanders, passou a ser uma arma de guerra contra o presidente eleito, Trump, no caso conhecido como Russian-gate. John Brennan, diretor da CIA, testemunhou no senado sobre as alegações de influência russa nas eleições americanas e disse ao ser perguntado sobre se tinha evidências a apresentar sobre a acusação: “Eu não produzo evidências, eu faço inteligência”. E assim, como no caso do triplex do Guarujá, vai se armando “provas tênues” para se incriminar o inimigo. A morte ou o impeachment é o que ameaça Trump nos próximos meses. Ano que vem ainda haverá eleições na Rússia e será o ano decisivo para saber se o presidente esquisitão dos EUA sucumbirá ou não às chantagens do partido da guerra, amparado em todo o aparato dos serviços de inteligência americanos e britânicos (os mesmos que produziram as “evidências” das armas nucleares no Iraque e, baseados nisso, começaram a guerra infame que logo se espalhou por toda a região, depois inflada pelas “revoluções de cor”). 

Quem são esses bichos estranhos da Casa Branca e o que pensam, o que planejam, frente à evidência incontornável que não há mais espaço para um mundo unipolar, como este que se configurou depois da suposta vitória da “democracia” com a queda do muro de Berlim?

NOTA METODOLÓGICA: Falam que as teorias da conspiração são bizarras porque sempre pressupõe um conjunto de seres tenebrosos reunidos numa sala escura em torno de uma mesa oval discutindo quais serão os passos para se manipular e se influir na política do mundo. Logo, caricaturizamos a caricatura para dar, vamos dizer, um pouco mais de “efeito de realidade” à verdade que devemos contar. E só se pode fazer isso ficcionalmente.


Os bichos estranhos que se tocam na Casa dos Insetos


C., meu amor e minha vida. Você é meu céu e meu inferno. Só poderia ser ambos. Você é minha felicidade, minha vida inteira, embora também o encontro violento entre duas linguagens. Porque a linguagem, inclusive a mais brilhante língua, é uma espécie de injustiça, o gemido ao que aspira a mais perfeita felicidade.
Não porque nossa felicidade esteja condenada, ou porque o destino seja injusto, mas sim porque a felicidade é inteligível só sob ameaça; tão inteligível quanto sua própria ameaça”.

Daniel Estulin, Os segredos do Clube Bilderberg. Minha homenagem à vida de espia.



Narrar? Mais que artifício despudorado! Mandaram-me aqui, coisa horrível. É uma reunião nas trevas. Não, parece um porão escuro com uma grande mesa no centro. Pouco vejo o contorno dos integrantes do que parece ser um grande concílio. Acaso os padres trevosos em meio à barbárie medieval também assim se reuniam? Será um encontro de refugiados de um mundo longínquo que foram se esconder nas entranhas da Terra? Estranho… Continuo me sentindo mais vivo do que nunca, mas os homens da superfície mais e mais me parecem serem felizes. E ingênuos… Sim, irei escrever!
Mas que droga! Irão acreditar em mim? Será que as sombras que agora vejo irão cobrir o brilho que reflete em meus olhos, patrimônio de uma alma insaciável, sempre curiosa? Caso me cale, as brumas nunca irão se desfazer. Caso vejam sombras em meus olhos, espuma em minha boca, como na orla a cobrir o mar profundo: como ser claro ao máximo? Nunca deixei de ser, na verdade. O que conto é negro, pesado, pegajoso. Sou como um lixeiro fazendo a varredura. O lixo? Quem não conheceu sua realidade são as madames bem nascidas, acreditando que o mundo nasceu por si só. As madames… Sejam elas homens ou mulheres: lixo doméstico se comparado ao que vejo agora. Portanto, não me confundam com o material com o qual trabalho.
O porão: não foi a lugar tão sórdido que me designaram quando vim trabalhar. Seria uma festa, uma espécie de reunião entre madames e gentis cavalheiros… Por outro lado, conheço meu patrão, sei que lixo pouco não o satisfaz. Enfim, quando entrei porta adentro do suntuoso hotel, encontrei aquela escuridão, somente interrompida por uma meia-luz vinda do fundo do ambiente. Divisei silhuetas e a mesa grande que ficava ao centro. Um mordomo veio me dar boas vindas. Contatos feitos pelo meu patrão. Faço parte de uma comitiva de pessoas comuns encarregadas de levar à luz do sol as diretrizes ali debatidas. Não seria outro meu proceder. Só não atentariam para o modo como realizaria a tarefa.
O mordomo se aproximou. De frente era como qualquer segurança de shopping, bordel ou coisa semelhante que queira aspirar à mínima ordem. Mas o que parecia ser um simples leão-de-chácara tinha um penteado arrumado, brilhando na goma, apesar da escuridão. Quando chegou mais perto pude perceber seu peculiar monolho, bem no centro da testa (nada de olho indiano ou coisa que o valha; era um olho só mesmo, e nada mais). Cena inesquecível! Só para quem não viu e ouviu o que eu tive de ouvir e ver.
Na ponta da mesa, o homem que talvez fosse um dos líderes daquele grupo, era tão magro que parecia ter sido divido ao meio por uma faca ou enxada. Era, de fato, uma pessoa pela metade, embora não lhe faltasse nenhum membro. Era pela metade, sim. Mas pela metade de uma maneira vertical, e não horizontal. Era um anão por ter sido prensado pelos lados, e não de cima para baixo.
Todos naquele ambiente não discutiam assuntos comuns. Todas as siluetas, as quais eu cada vez queria menos conhecer de perto, discutiam assuntos insólitos. Dominar? A quem? Como, se acaso saíssem pelas ruas facilmente amedrontariam a qualquer um? Poderiam ter poderes ainda mais misteriosos ou eram loucos de fato, terrivelmente loucos, como são insanos todos os que veem coisas extramundanas. Mas, com o tempo fui entendendo o porquê da minha presença naquele concilio. Ao meu lado, sentados em grandes poltronas acolchoadas, todo um grupo se reunia. Faziam anotações como eu. Algumas demonstravam grande intimidade com os seres do porão. Depois descobri: todos nós éramos de alguma forma seus porta-vozes.
Posso descrever mais alguns monstros, todos os que consegui discernir, controlando o asco e o medo. Porém, aqueles outros seres, humanos como qualquer um que agora me lê, são absolutamente indescritíveis. Asco? Nenhum. Somente medo? Não só. Descrever monstros é fácil, a mentalidade popular rapidamente os aceita, cabendo sem muito esforço em algum recanto de seu imaginário. Descrever seres reais, que muita gente conheceu ou pensa conhecer, afundados no mais profundo colóquio com seres imaginários – e terríveis –, para muitos não é crível.
Políticos? Eram só uma parte. Atores, jornalistas, membros de organizações internacionais aparentemente voltadas para fins pacíficos: platéia dos monstros, estudantes e defensores de suas causas? E eu? Jornalista, detetive, agente secreto? Vocês escolhem. Platéia dos monstros? Graças a Deus tive a oportunidade. Estudante de suas causas? Com certeza. Advogado deles e promotor de suas deliberações? Mesmo que voltemos a viver numa nova Idade Média, não! O correto de dizer é que para cada um daqueles seres havia outro, mas humano, que lhe corresponderia as idéias e as traria para o mundo dos vivos – o mundo em que as conspirações acordam e são propagandeadas com belas palavras por pessoas sempre muito bem colocadas socialmente. Os seres daquele outro mundo querem fazer desse a imagem e semelhança do seu. Como numa nova Idade Média, de fome e genocídio. Com a autorização de uma figura ilibada, como a do Papa, ontem – e hoje?
Alguns seres místicos dão o nome de Umbral à paisagem cinza que supostamente é o tabernáculo das graças divinas. Darei o nome de Gargalo. É porque me lembra coisa boa… De vinho, de cerveja – sei lá. Pouco me importa. Todas as garrafas tem um. Matam a sede! Ah! E que coisa melhor, mais notória, do que estar falando com seres se não extraterrestres, pelo menos muito extravagantes? Ah, uma senhorinha de boa família, kardecista talvez, disse que falo com desencarnados. Que coisa horrível! Me lembra também seres cinzas, cadáveres sem pele e com carne ainda aparente. Já sem sangue, mas ainda resistentes, penduradas nos ossos. Assim fica melhor nos filmes de terror, mas também nos filmes de ficção de científica. Qual cor do ET? Por que essa cor? Será que na imensa galáxia somente seres descolorados como cadáveres não de todo decompostos? Ah, tudo cinza como um belo Gargalo! Gargalho de cachaça, gargalo de cerveja. Não, mas as senhoras pedem vinho. Algumas gostam daquele doce… O bom é que nessas ocasiões deixa algo um pouco mais barato. Hum! Mas o chique é o que dá travo na garganta, o que a deixa embolada, que desce bem quente, o que assusta as senhoras kardecistas e as madames de pendor anti-comunista. Nada como a velha-guarda! Não, não vivemos mais na Guerra Fria.
E por que, para entrar em contato com nosso humílimo planeta, tem que estar “fora do corpo”? Por que não alguém de carne e osso de verdade, mesmo sendo cinza – vai lá – (não sei também se fede, se é gosmento – esses filmes de ficção são terríveis, mais assustadores do que o Jack das sextas) não pode vir falar conosco? Mas tudo o que eles falam são fantasias verdes, floridas como um entardecer num campo daqueles bem bucólicos – fantasia romântica, estética pós-moderna, suave como um filme para casais endomingados, música de fundo do roteiro da aposentadoria. Falavam assim, os seres terríveis, tranquilos como num piquenique ou num funeral:
– O importante é se achar uma fonte perene de energia. Para que novas descobertas científicas? Nós somos Prometeu. Nós ensinamos tudo aos seres brutais desse planeta. São sete ou oito bilhões de seres. Nunca imaginamos isso! Como vamos controlar algo assim? E se resolverem habitar a lua, os planetas próximos? Irão por acaso nos igualar? Para quê? O importante é colocar tudo num ritmo bem lento, bem marcado como no relógio de Newton, esse nosso grande representante, nosso mordomo-mor. A única tecnologia aceitável é o enriquecimento dos minérios, fazerem trabalhar como um carregador de areia que coloca todo o peso por cima de um caminhão que, logo cheio, despeja tudo novamente na praia. Trabalho horrível, próprio aos seres desse lugar. Cogumelos atômicos para todos os gostos. Mini-bombas nucleares ou de médio alcance, de precisão irrepreensível. Eles têm de estar prontos para destruírem nossa criação caso ela saia do controle. Tecnologias perenes com a bomba como limite. E espalhar a confusão – esse é o negócio mais importante.
– É genial. Nosso mago, preto como a luz que não existe nesse céu, não poderia falar palavras mais sábias. Tecnologias perenes com a bomba como limite… Não se pode desenvolver o nuclear porque o nuclear supostamente é o que destruirá a fonte de toda energia, ou seja, a capacidade de criação de novas fontes, como exemplificado nas descobertas que fizeram os humanoides se multiplicarem. Densidade de fluxo energético! Coisa horrenda. Calma: antes de complicar, gostaria de esclarecer um ponto. Se dependessem dos fósseis, os terráqueos não teriam chegado nem no espaço deserto que ainda é do satélite natural de seu planeta. Mesmo assim, não foram capazes de habitá-lo… A capacidade de transformar os desertos em áreas verdes exige um valor agregado de investimento, o emprego de alta densidade de fluxo energético, que um planejamento econômico razoável pode mostrar que a possibilidade de fazer reviver os desertos do planeta não consome menos trabalho do que a colonização da lua, ou seja, da habitação do pequeno satélite natural. Esses dois planejamentos fazem parte de uma mesma plataforma econômica, porque baseados no mesmo modelo energético. Ionização do ar em larga escala, dessalinização das águas marinhas, trens de altíssima velocidade para integrar espaços remotos: depois falam que chegar à lua é algo trabalhoso! E terão de ir até lá para buscar, minerar mesmo em suas pedras o componente chamado hélio-3 para fabricarem sua tocha de fusão. Mais que disparate! Voltemos à era dos dinossauros, à época anterior ainda a dos combustíveis fósseis. Fontes perenes de energia, esse nosso lema. A humanidade de movendo com a energia do sol e dos ventos. E nada mais – veja lá.
– Nunca a humanidade cantar como um Dante em pleno século XX!

Oh strange beautiful grass of green
with your majestic silken scenes
Your mysterious mountains
I wish to see closer
May I land my kinky machine1

– Não falaremos de máquinas engenhosas – bizarras – capazes de explorar novos mundos, conquistar o espaço, ultrapassar as barreiras do relógio newtoniano. Falaremos de armas táticas, nome tecnocrático para dar conta da precisão com que cumprimos nossas responsabilidades, da padronização de nossas condutas, do respeito à Terra que ainda temos. Micro e médio bombas termonucleares. Ah, grande descoberta da ciência! O grande perigo asiático: esse também outra descoberta fundamental de nossos teóricos, de nossos conhecedores do Oriente, sejam os povos semíticos cujas mulheres vestem burca ou os de pele da cor da terra, mais antigos do que qualquer outro na civilização, passando pelos estranhíssimos povos de cor amarela e olhos puxados. Nossos inimigos porque o planeta tem de estar dividido ao meio, rachado, um “arco de crises”, como na excelente expressão cunhada por um de nossos maiores ideólogos. Um arco de crises que na verdade é o fio de nossa espada no peito daquele que pretende ultrapassar a linha imaginária por nós traçada. Isso sim é ser reacionário. Não deixar o outro avançar. E cada vez que encontramos fraqueza em nossos oponentes, os colocamos mais e mais para trás até caírem no abismo que cuidadosamente criamos para eles logo ali atrás, no lugar sem fundo, no fora do mundo para onde vamos lançar todas as raças ingratas, as que não reconhecem e não se submetem à nossa superioridade.
– Mas como nós controlaríamos uma guerra de aniquilação total?
O ser arrumou seu longo vestido negro cujas extremidades se arrastavam pelo chão, agarrou um bom punhado de pano, cruzou as pernas e deixou o tecido suavemente arrastar por sua pele. Ritual marcado como daquele fumante que, para responder uma questão mais difícil feita a ele, tem sua maneira própria de dar uma tragada em seu cigarro ou charuto. Tecido grosseiro, e ninguém se atreveria a saber da maleabilidade de sua pele, provavelmente descarnada, tendo em vista a condição de geral dos seres humanos que se encontravam naquele ambiente.
– Bem, já estamos bem avançados nesse sentido e até me surpreende sua pergunta. Sei que o desafio não é pequeno, nos chamam de utópicos – na verdade, nossa doutrina é utópica. Alegam que um ataque total, termonuclear, seria respondido imediatamente pelos povos asiáticos, o que resultaria numa guerra de aniquilação geral. Não digo que nosso objetivo não seja matar muitos, mas duvido da capacidade dos seres inferiores, orientais, nos fazerem frente. Temos fronts de guerra em todos os lugares; nos mares, em terra. Sempre muito próximo ao nosso alvo. Falamos em defender a segurança planetária, em garantir as liberdades democráticas, etc. Ora, o que estamos fazendo aqui? Agimos na escuridão, somos da escuridão, não temos medo de nada que possa vir dela. Nossos inimigos se mobilizam com rapidez, mas ainda mais rápido construímos uma enorme fortificação capaz ao mesmo tempo de defender e atacar. Não haverá “segundo ataque simultâneo”. Queremos a redução populacional, mas não precisamos da aniquilação desse planeta. Pelo menos por ora. Já que não escutam nossa doutrinação, tão bem travestida em argumentos esteticamente arranjados – um mundo livre, paz, meio ambiente – teremos, devido ao atual momento, de utilizarmos da força para fazer valer nossos planos. Não é o que queríamos… Ah, que pena!
– Malthus, Malthus, Malthus! Ouço o som em todos os lugares. Também nos chamam MAD! Ah, belas lembranças de nosso nobilíssimo trabalhador, sir Bertrand Russell. Mutual Assurance Destruction. Não deu certo àquele tempo. Agora somente um lado irá sentir nossas garras…
– Mais da metade da humanidade!
– E quanto às perdas em nosso lado? Alguém tem que fazer minimamente essa conta.
– Escudos antimísseis na Europa, a Alemanha novamente de nosso lado, uma frota imensa no Pacífico com aproximadamente oitenta por cento de nossa capacidade nuclear, mísseis nucleares táticos, de tamanho médio a pequeno, de altíssima precisão. Ah, se quiserem se livrar da destruição que iremos provocar terão que novamente ressuscitar o deus Vulcano! Fazer revolver as entranhas da Terra, criar um milagre com seres que provavelmente não encontrarão nesse pequeno planeta.
– A China que mudar a moeda! A China quer mudar a moeda!
– Pensam ser a força hegemônica. Querem fazer reviver o império. Pelo menos é essa ideia que devemos passar. São os responsáveis pela queda da economia mundial, são os especuladores. O PIB mundial está em baixa porque são incapazes – sozinhos – de manter um alto crescimento econômico. Quanta audácia!
– Calma! Calma!, interrompeu o ser medonho, coberto de vestes, cuja forma corporal ou identidade não se podia divisar. São incompetentes, não temos dúvidas. Mas o império não é deles. Sempre será nosso. E que nossas garras se estendam a todo planeta. Pouco povoamento – mas antes, o caos. Crise em todos os países. Fome, desemprego, altas taxas de morte violenta… Não importa. Não teremos mais um mundo bipolar: desenvolvido – subdesenvolvido, primeiro e terceiro mundo, estado de bem estar social contra ditaduras. Tudo será um! Uma morte lenta de um lado. Morte veloz de outro. Uma se alimenta da outra. Sim, Malthus, voltaremos aos níveis sonhados por você. Um bilhão, um e meio – não mais. Um mundo com dez, quinze bilhões é praticamente impossível de ser controlado. Grandes projetos de reconstrução econômica e projetos espaciais, crédito público abundante e assistência às populações que passam fome: o mundo tem que ser um lugar inabitável para nele habitar apenas aqueles que merecem. Nós, os mais fortes. Habitar desertos, fazê-los novamente verdes, habitáveis. Fazer viagens interplanetárias e construir colônias no espaço. Estranhas especulações, principalmente se levarmos em conta que boa parte dessa área desértica no planeta fomos nós que com nossas bombas assim a tornaram. Efeitos perenes, como perenes são as fontes de energia utilizadas pelos escravos humanos. Como nos geradores elétricos movidos a força humana, como sonhados por Bentham. Força do ar e força do sol, força dos moinhos de vento. O sonho dos que querem o mundo bem politizado, mas sempre correto. A utopia: esse nosso nome.
– Mas a Rússia se prepara. Ela se pre-pa-ra – falou como que com medo um ser grotesco que para cada sílaba pronunciada fazia gestos com cada um de seus três dedos erguidos de forma sucessiva em respeito ao ordenamento da palavra. Preparação! E se eles atacarem primeiro?
– Mas não ousam. Não tem nem capacidade para isso. Vamos colocar muito medo, muito mesmo. Vamos sufocar economicamente, politicamente. Utilizar as mídias que só muito timidamente nos anuncia. Não falam nosso nome, a Super Quente Nova Guerra Fria. Mas nos preparemos para atacar. Ninguém pode sequer ameaçar nossa superioridade, nosso papel de liderança mundo afora. Quando o círculo estiver fechado, BUM! E será apenas um ataque, e uma nuvem de fumo monstruosa irá se erguer, o pânico chegará a todos os lares. Faremos nossa festa, por que não?
– Mas a Rússia se prepara. Ela se pre-pa-ra – voltou novamente a falar o Três-Dedos.
– Agora são vocês que estão com medo ou estou enganado? Não é esse pelo menos nosso objetivo primário, quero dizer, preocupação, ansiedade e crise econômica generalizada? Não é esse o objetivo primário para manter a população sobressaltada, fazer reviver o moralismo, reviver a caça às bruxas – tudo pelo sistema de justiça, por calúnias, acusações infundadas repetidas até a náusea pela mídia. Neomacartismo! Como me soa bem essa palavra…
– Estamos focados em sonhos utópicos de Wunderwaffen, “ataques cegos”, teleguiados por sistemas imunes a falhas baseados em sistemas de inteligência artificial com mísseis antibalísticos não-tripulados. Ataques cibernéticos também estão em nosso arsenal. O antigo presidente chegou a ameaçar os asiáticos com isso. Falha no sistema bancário deles, em seu sistema militar… Provocações com notícias falsas (e são nossos jornalistas que querem dizer o que são ou não notícias falsas – hipocrisia grossa, a que soa bem a nossos ouvidos). Gás sarim. Pura mentira. Abatemos aviões  dele com nos utilizando da Turquia. Abatemos agora aviões sírios com nossos próprios aviões. Enchemos de bomba suas instalações militares depois que o presidente sucumbiu aos nossos informes mentirosos. Mas aquela cabeleira do presidente grotesco… Ela parece que se deixa levar por um vento que vem da esquerda… Achei que poderia ser um dos nossos. É quase tão grosseiro como nós. O que o faz ainda não sucumbir? Continuaremos os ataques, muitos e muitos mais ataques. Acoar o inimigo até a confrontação se tornar inevitável. Ufa! Me deu até cansaço.
– Mas ela, a Rússia, se prepara! E a China com certeza irá junto. Hitler, Napoleão – todos os nazistas nossos irmãos e que perderam suas batalhas no oriente. Eles se utilizam de ataques surpresa – sempre. Nunca saem de suas fronteiras, mas sempre nos surpreendem… Tenho que concordar com meu amigo gago.
– Somos os reis da utopia!
– E o que sobrará?
– Pouco importa. Vamos em frente.
E todos gritam vivas e abavam os roucos protestos vistos até agora. Utopia.

1 Jimmy Hendrix. Third Stone From The Sun.

Veneza se move para o norte: as origens do sistema financeiro transatlântico

Londres e Wall Street: mudanças de regime e guerras por procuração
Nesse texto irei abordar duas questões: como uma de ordem conceitual, como se formou, na modernidade, o princípio oligárquico. Outra historiográfica: falta a detecção de o que foi a chamada Nobreza Negra veneziana, relatada por Dante, Maquiavel, a mesma nobreza que, na Grã-Bretanha, foi responsável pelo assassinato de Christopher Marlowe, que escreveu o primeiro Fausto, e descreveu nele seus crimes.
 
Devido a ausência de modelos explicativos satisfatórios para dar conta da crise financeira internacional, cujo processo parece repetir um padrão único e em constante progressão, precisamos buscar em diferentes fórmulas discursivas entender o caráter exato da crise de desintegração econômica que vivenciamos. A velha teoria cíclica sobre a ascensão e queda constantes da saúde das economias nacionais encampada pelo marxismo tradicional, mostra-se incapaz de entrever a profundidade, a constância, de um padrão único de política econômica, cuja raiz na história ocidental pode ser encontrada no capitalismo financeiro veneziano. Veneza, desbaratada pela crise que ela própria criou e que teve como consequência a Peste Negra, e também expulsa pelos ventos progressistas do Renascimento na Itália, move-se para o norte, primeiro na Holanda, para aí sim encontrar seguro refúgio nailha britânica, num movimento ainda não detectado pela historiografia tradicionalista dentro ou fora das universidades.

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