O furor heroico: a literatura quinhentista e os dilemas do Brasil atual

Giordano Bruno, quem melhor denominou o éthos renascentista: o furor heroico
“A América Ibérica não pega em armas por ter as classes enriquecidas, abastadas ou remediadas, parados numa especie de estupor, de idiotice, como nos sacrifícios rituais ao Pato Amarelo e na festa sabática da bateção de panelas. A parte maldita, como denomina Georges Bataille o uso dos excessos de riqueza produzidos pela sociedade são utilizados assim: no luxo e na guerra. A classe média de uma hora para outra não se viu mais como subcontratante dos comerciantes que se aventuravam no Paraguai. Elas mesmas viajavam para Miami, o novo paraíso das compras, e não queriam dividir o saguão dos aeroportos (porque a classe C não ia para Miami) com quem, para eles, sempre foram os retirantes. No momento em que toda a histeria coletiva se cala, a “vida e a fazenda” não devem ser recusadas. Ninguém mais deve temer a contenda. (…) Quem acredita, nem que se for por mera desconfiança, em suas utopias, nunca ouviu o imemorial furor guerreiro dessa gente daqui. Recusai todos vocês seus supostos status de gente remediada. Os tambores tocam. Ninguém sairá nos próximos meses sem uma mancha de sangue. Talvez poucos no tempo atual não estejam tentando se curar de algumas de suas feridas. A qual campo você servirá quando as tropas finalmente se realinharem? Ó senhores cidadãos! Para tal contenda ninguém deve recear”.

Quando se dará o brado guerreiro, finalmente?
O furor heroico: a literatura quinhentista e os dilemas do Brasil atual
Parece que teve um tempo em que o Brasil foi grande, em que nosso país não antes fora considerado “do futuro”. É claro, são tempos longínquos, com uma gramática toda diferente, cabloca, tupi; o cunhadismo era uma forma que depois arranjaram para denominar a posse de inúmeras índias por esses cablocos que desprezavam o português, que era o simples elemento da utilidade em formas de armas ou recursos materiais (nessa época ainda não se falava em dinheiro). Surgiu um cabloco chamado Jerônimo de Albuquerque que, em páginas épicas escritas por Manoel Bomfim, ficamos sabendo que com astúcia, como o vencedor inveterado nos lances de dados, deixou livre o território do Maranhão. Bem depois, quase coetâneo de Bomfim, Capistrano de Abreu veio dizer que a estrada de terra construída até esse território foi um marco para a história colonial. Não haveria o norte do país, não haveria Amazônia, sem o caboclo Albuquerque. Muito menos a estrada que encurtou as distâncias que as marés teimavam em deixar distante o que agora para nós é o território brasileiro. Esse cabloco talvez seja a última geração do Portugal heroico, o dos Descobrimentos, de Camões, de Gil Vicente, do Infante D. Henrique. Contudo, talvez não devêssemos achar esse tempo agora tão distante… Afinal, eles reencenaram pela última vez uma história ainda mais arcaica.
Como nos narra o livro História medieval da Península Ibérica, de Adeline Rucquoi, os espanhóis da dinastia afonsina só se viam como cristãos na medida em que o cristianismo pressupunha o imperium. Caso se vissem como simples romanos, não haveria autonomia política na Península, o que não foi o caso; por outra lado, caso se vissem como simples visigodos, desprezariam a incorporação por parte destes, após as Invasões, das instituições e da cultura romana. Os reis da Hispânia medieval só se viam como cristãos na medida em que o cristianismo mantinha a unidade do Império. A partir dele, não eram meros bárbaros visigóticos ou uma sátrapa romana. A religião era vista, portanto, como mantenedora de um status político. Como os pesquisadores são unânimes em afirmar, ainda que com outras palavras e tirando conclusões diferentes, o cristianismo nunca foi imposto de fora para dentro na Península. Era só por intermédio do imperium que ele se fazia valer, ou seja, da autoridade dos reis. Esta, controlando a religião, ou seja, a legitimidade moral de seu reinado, trabalhava através dela a unidade que prevaleceu no processo contínuo de guerras e acordos políticos que levaram à criação do Estado na Península, incluso os que se arrogavam o direito de serem a fonte de toda a nobreza de seu reino – títulos nobiliárquicos só poderiam ser dados pela Monarchia. A “mentalidade de cruzada” só se torna predominante na era dos reis católicos e a partir do triste reinado de João III, com o qual começa o rápido declínio da dinastia de Avis, em Portugal. Antes disso, há um convívio único dentro do relativamente limitado espaço peninsular, em que se garante o advento conjunto dos reinos bárbaros, da tradição romana incorporada pelo catolicismo e a árabe-islâmica. Enquanto se dava o ocaso dos reinos bárbaros mediterrânicos na França e Itália, sendo substituídos pelos francos de origem plebéia, ou seja, sem as características adquiridas do império romano em decadência, no séc. X esse tipo de barbarismo ou de nova romanização (muito bem estudado por Henri Pirenne), adquire um status inédito na Hispânia através de uma harmonia não vista durante todo o medievo. A riqueza da Península, árabe, cristã, bárbara e romana, não nos permite, dentro da formação de seus inúmeros reinos ao longo dos séculos, simplesmente limitá-la à chamada Reconquista enquanto mentalidade cruzadística meramente importada de Roma. A reconquista na Hispânia sempre foi uma característica mais militar do que religiosa, e os reis cristãos ou visigodos (romanizados) só levantaram as cruzes da Ordem de Cristo enquanto esta foi suficiente para manter a unidade do reino e não por meras contendas religiosas ou pelo desejo do saque e rapina, como em Veneza.
Gil Vicente, Aníbal e o Furor Heroico
Gil Vicente, na voz de Annibal, em Exortação da Guerra, assim se expressa para advertir o reino que acumulou demasiadas riquezas:
Deveis, Senhores, esperar
Em Deos que vos ha de dar
Toda Africa na vossa mão,
Africa que foi de Christãos,
Mouros vo-la tem roubada.
Capitães ponde-lh’as mãos,
Que vós vereis mais louçãos
Com famosa nomeada.
Ó Senhoras Portuguesas,
Gastae pedras preciosas,
Donas, Donzellas, Duquezas,
Que as taes guerras e emprezas
São propriamente vossas.
He guerra de devação,
Por honra de vossa terra,
Commettida com razão,
Formada com discrição
Contra aquella gente perra.
Fazei contas de bugalhos,
E perlas de camarinhas,
Firmaes de cabeças d’alhos;
Isto si, Senhoras minhas,
E esses que tendes dae-lh’os.
Oh! que não honrão vestidos,
Nem mui ricos atavios,
Mas os feitos nobrecidos;
Não briaes d’ouro tecidos
Com trepas de desvarios:
Dae-os pêra capacetes.
E vós, Priores honrados,
Reparti os Priorados,
A Suiços e soldados,
Et centum pro uno accipietis.
A renda que apanhais
O melhor que vós podeis,
Nas igrejas não gastais,
Aos pobres pouco dais. 
E não sei que lhes fazeis.
Dae a terça do que houveres,
Pera Africa conquistar,
Com mais prazer que puderdes;
Que quanto menos tiverdes,
Menos tereis de guardar.
Ó senhores cidadãos,
Fidalgos e Regedores,
Escutae os atambores
Com ouvidos de christãos.
E a gente popular
Avante! não refusar.
Ponde a vida e a fazenda,
Porque para tal contenda
Ninguem deve recear1.
Novamente a unidade da Península está em perigo. Os avanços iniciados com a eleição de Chávez ainda no século passado, e corroborados pela liderança inconteste de Néstor Kirscher e Lula, o rechaço à ALCA, o fortalecimento do Mercosul, a criação da Unasul, projeto de criação de um Banco do Sul… A América Ibérica não pega em armas por ter as classes enriquecidas, abastadas ou remediadas, parados numa especie de estupor, de idiotice, como nos sacrifícios rituais ao Pato Amarelo e na festa sabática da bateção de panelas. A parte maldita, como denomina Georges Bataille o uso dos excessos de riqueza produzidos pela sociedade são utilizados assim: no luxo e na guerra. A classe média de uma hora para outra não se viu mais como subcontratante dos comerciantes que se aventuravam no Paraguai. Elas mesmas viajavam para Miami, o novo paraíso das compras, e não queriam dividir o saguão dos aeroportos (porque a classe C não ia para Miami) com quem, para eles, sempre foram os retirantes. No momento em que toda a histeria coletiva se cala, a “vida e a fazenda” não devem ser recusadas. Ninguém mais deve temer a contenda. A unidade guerreira, antes que religiosa (o conflito das ideologias que assistimos atualmente como quem passeia num jardim zoológico), de se reagimentar. Madames, empenhem suas jóias; Fidalgos e pseudo-ricos, a burguesia hipócrita, a nefasta mentalidade inferior do cidadão médio: escutem os tambores. É tempo de Zumbi, tempo de luta cabloca, negra, uma cruzada contra os bons cristãos. “He guerra de devação, por honra de vossa terra, commettida com razão, formada com discrição contra aquella gente perra”. A unidade que novamente nos deu a vitória sobre os infiéis não nos abandonará. Veja o silêncio dos campos e batalha. O inimigo, como que ferido pela própria inépcia, acredita armar um estrondoso contra-ataque. Quem acredita, nem que se for por mera desconfiança, em suas utopias, nunca ouviu o imemorial furor guerreiro dessa gente daqui. Recusai todos vocês seus supostos status de gente remediada. Os tambores tocam. Ninguém sairá nos próximos meses sem uma mancha de sangue. Talvez poucos no tempo atual não estejam tentando se curar de algumas de suas feridas. A qual campo você servirá quando as tropas finalmente se realinharem? Ó senhores cidadãos! Para tal contenda ninguém deve recear.

1Vicente, Gil. Exortação da Guerra. Obras Completas, Porto: Lello & Irmão Editores, 1965, p. 214 – 215.

O pântano britânico: as armadilhas do império e a guerra mundial



31 de julho de 2017 (EIRNS) — Lyndon LaRouche, em declarações concisas sobre as implicações emanando de um Memorando lançado semana passada pela associação Veteranos Profissionais da Inteligência para a Sanidade (VIPS, em sua sigla em inglês), e as sanções contra a Rússia promulgadas pelo Congresso dos EUA quase que simultaneamente, exigiu uma resposta imediata do povo americano para impedir o plano britânico existente que visa uma guerra com a Rússia e a China, e ao qual o Congresso dos EUA capitulou.


“O povo americano deve exigir que o famigerado golpe britânico, em curso, contra a Presidência e a Nação em si, seja impedido e seus perpetradores processados e colocados atrás das grades” – disse LaRouche. O sistema britânico que vem controlando os EUA “deve ser cancelado e o Presidente deve se esforçar da melhor forma possível para salvar o povo deste país, e o resto da humanidade, de maiores depredações dirigidas pelos britânicos contra suas próprias vidas. Parem com o sistema britânico, salvem o povo,” – assim disse LaRouche.
Na semana passada, o mito dirigido pelos britânicos de um escândalo “Russiagate” na eleição americana implodiu quando a VIPS provou que se tratava apenas de uma mentira bem elaborada. O Comitê Nacional Democrático (DNC) não foi invadido pelos russos. Ao invés disso, o que houve foi que materiais foram vazados por um individuo dentro do DNC e encaminhados para o site Wikileaks. Dados chave foram alterados para que parecesse mesmo com que os russos houvessem invadido o Comitê.
Ao mesmo tempo, o Congresso dos EUA – lavado de cérebro, comprado, ou motivado por interesses escusos – votou quase unanimemente a favor da imposição de novas sanções sobre a Rússia firmando-se nesta grande mentira. Houve dois votos contra no Senado americano, três na Câmara. As sanções, sendo elaboradas desde as eleições Novembro de 2016, foram feitas explicitamente para danificar e/ou acabar com qualquer capacidade do presidente Trump para encerrar a marcha em direção à guerra termonuclear instituída por Barack Obama e seus chefetes britânicos.
Neste fim de semana, a resposta oferecida pela Rússia e China foi imediata. O presidente Xi Jinping apareceu em vestes militares, revendo tropas e armamento chineses; o presidente Putin também conduziu revisões militares similares. Eles claramente reconhecem que a máquina de guerra anglo americana está em alvoroço, e estão se preparando de forma adequada. O relógio mais uma vez dispara, em contagem regressiva, em direção a uma 3aGuerra Mundial.
Em discussões mantidas com seus colegas hoje, Helga Zepp LaRouche enfatizou que os britânicos estão desesperadamente tentando atrair os EUA para uma guerra contra a Rússia e a China de uma posição de fraqueza, e não de força. Seu império financeiro está em vias de um grande colapso financeiro, bem pior que o de 2008. O presidente deve receber apoio popular e institucional para instituir um Promotor Especial para investigar a farsa do “Russiagate”, e assim processar seus conspiradores responsáveis. O presidente também deve imediatamente impor a separação bancária do Glass Steagall e proceder com a implementação do resto das Quatro Leis de LaRouche para a recuperação econômica, tudo de forma simultânea, visando primariamente a proteção do povo, os homens e mulheres esquecidos dos quais ele jurou cuidar na última eleição.
O Comitê de Ação Política de Lyndon LaRouche (LaRouche PAC) exibiu, de forma prominente, o memorando VIPS no nosso site da web, em nossas ações de rua pelos EUA, e nas mídias sociais. Estamos numa campanha concisa para divulgar o mais amplamente possível essa história, e para dar coragem suficiente ao Presidente para que ele possa, novamente, desafiar o pântano britânico em Washington assim como ele fez ao forjar relacionamentos próximos com o presidente chinês Xi Jiping, e em Hamburgo, com o presidente russo Putin. Agora nós devemos, imperativamente, encerrar o “Russiagate” e processar os conspiradores por detrás dele. Devemos expandir nossa campanha de forma dramática, e precisamos que você se junte a nós. Literalmente, todas as nossas vidas dependem do sucesso deste processo.
O contexto para a insurreição contra Trump não poderia ser mais claro. Os britânicos e seus lacaios de Wall Street almejam, a todo o custo, preservar o seu Império. Rússia e China são potências econômicas em ascensão, plenamente devotadas aos tipos de políticas econômicas que um dia foram a chave da grandeza dos EUA: infraestrutura de grande porte, fábricas, pesquisa científica avançada e exploração do espaço. Elas exigiram aos EUA que se juntem a elas num grande projeto para construir a infraestrutura moderna do mundo nos próximos 50 anos. O Presidente originalmente assinalou sua intenção de concordar com isso, e ainda pode fazê-lo, trazendo milhares de novos empregos produtivos para os EUA. Mas, isto não pode acontecer se o regime imperial hoje presente na City de Londres e em Wall Street e seu consenso de política externa dentro de Washington DC não sejam decisivamente destruídos primeiro. O pântano britânico é o que deve ser drenado.

O Grande Tribunal do Mundo, hoje




O Grande Tribunal do Mundo, hoje
É só uma breve passagem, eu sei, do livro velho e surrado por tantos usos e desusos, Vigiar e Punir, mas vale a pena como mote para começarmos a refletir (p. 196 da edição da editora Vozes, de 1997):

Na realidade, qualquer instituição panóptica, mesmo que seja tão cuidadosamente fechada quanto uma penitenciária, poderá sem dificuldade ser submetida a essas inspeções ao mesmo tempo aleatórias e incessantes: e isso não só por parte dos controladores designados, mas por parte do público; qualquer membro da sociedade terá direito de vir constatar com seus olhos como funcionam as escolas, os hospitais, as fábricas, as prisões. Não há, consequentemente, risco de que o crescimento do poder devido à máquina panóptica possa degenerar em tirania; o dispositivo disciplinar será democraticamente controlado, pois será acessível “ao grande comitê do tribunal do mundo”. Esse panóptico, sutilmente arranjado para que um vigia possa observar, com uma olhadela, tantos indivíduos diferentes, permite também  a qualquer pessoa vigiar o menor vigia. A máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira.

Talvez não precisemos falar qual trecho ultra-selecionado que deve ser desprendido do texto, que pode nos fazer olhá-lo não só no contexto que indica. Como falamos, o que é o “grande tribunal do mundo”? O que se chama esse “grande tribunal”? Não é a própria democracia, esse grande olho? E a quem interessa o sistema de vigília constante, o suposto crivo de um público que, afinal, ninguém vê? O que falamos, se assim vemos, da última frase do trecho citado? Como se transforma, no século XXI, esse “edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira”? Que espécie de “edifício transparente” é esse? Qual crivo pedem, portanto, da sociedade? O caso exemplar, como não pode ser diferente, é o do vazamento dos arquivos de e-mail da campanha de Hilary Clinton. Quando se sabe, depois de Snowden, que a NSA vigia até câmeras de televisão e notebooks, webcams que se acreditam estarem desligadas, celulares que estão jogados ao canto, mais imperceptíveis no momento do que uma caneta que inutilmente procuramos: o crivo pedido é que se corrobore a tese de que Putin participou, que foi o fator determinante, das eleições americanas; que sem ele Clinton teria ganho sem nenhum problema. Afinal, Trump é um selvagem para os democratas, liberais que são, fascistas na mesma medida, portanto, nazistas, muito orgulhosos do saber quase, eu diria, iniciático, que acreditam possuir. Mas, quais consequências da mineração massiva de dados? Não a Rússia, alvo sempre privilegiado, mas a China pode ter acesso a inúmeros dados. Por que não usá-los a seu favor? Como isso pode alterar a ordem das coisas, já que uma é a intenção chinesa para o mundo e outra a do império? Na circunstância atual, o que é a favor da China, quase que “indutivamente” é contra o império.
Vejo a China como o novo paradigma, como o novo salto tecnológico, já que seus projetos, como o de chegar ao lado distante da Lua, de colonizá-la a partir de seu polo, de fazer atravessar continentes com trens de alta velocidade, corredores de desenvolvimento, dessalinização das águas marítimas por usinas nucleares, ionização da atmosfera para tornar úmida as áreas desérticas, assim como inúmeros outros projetos. Ver o novo paradigma da “cooperação ganha-ganha” é se distanciar, em direção ao futuro, do presente estado de coisas, o que nos ancora igualmente no passado, pois o projeto da Nova Rota da Seda é para retomar, também, a antigo cooperação leste-oeste a partir de bases completamente diferentes – tecnologias, de fato, do século XXI, muito além do mundo virtual dos novos ricos do Vale do Silício ou da riqueza obviamente virtual, também, da primazia completa, hoje, dos mercados financeiros. Trens Maglev, planos ambiciosos para a construção de novas cidades, inclusive em áreas desérticas, o próximo passo do programa espacial, estranhamente interrompido após o Projeto Apolo, o desenvolvimento da tocha de fusão, não mais a fissão nuclear, mas a fusão dos núcleos do deutério com o hélio-3, partícula rica na Lua, e olimpicamente ignorado pelo governo que detinha, desde os anos 1960-70 condições de desenvolvê-la. Ignorância deliberada em relação aos projetos espaciais, em relação ao desenvolvimento de novas forma de produção energéticas capazes de sustentar com energia barata – que deve-se tornar barata – de 10 a 20 bilhões de pessoas, ou mais, vivendo no planeta, fora suas consequências para a mineração no planeta, o fornecimento de matérias-primas, e no aproveitamento de todo e qualquer tipo de resíduo, do doméstico ao nuclear, numa fase de incremento da noosfera que nenhum ambientalista pode sequer imaginar.
O afastamento necessário para se compreender o ” grande comitê do tribunal do mundo” passa pela conjuntura do confronto leste-oeste com as eleições americanas de 2016, o chamado Pearl Harbor cibernético (a segunda parte das minhas reflexões “sobre a guerra que se aproxima”), e tem um ponto de inflexão importante no relato criado por Daniel Estulin em seu livro Conspiración Octopus. É o segredo dos trilionários, da família Krupp que detinha 112 trilhões de dólares em apenas um dos extratos bancários revelados por Estulin. Já falamos sobre o assunto uma vez, já que a questão do roubo do ouro de Yamashita, o caso “lírio dourado”, ou seja, o saque do sudoeste asiático pelo imperador japonês durante a Segunda Guerra, foi o que, depois, se liga numa trama bem mais complexa do que mera ficção científica, com o Inslaw Affair (um escândalo judiciário onde se criou um sistema de informática para a justiça americana com a capacidade de acesso por parte de um programador a todos os computadores que instalassem seu programa; palavra-chave: PROMIS). Michael Riconosciuto, o programador, ficou preso por longos anos (foi solto em abril de 2017) após estourar o escândalo. Foi chamado às pressas, convocado quando ainda na prisão, em meio aos dias turbulentos que sucederam a crise de 2007-8, para tentar fazer com que o City Bank tivesse novamente acesso aos fundos infinitos do “lírio dourado”, único meio até então de se dar liquidez ao sistema financeiro, entropico por natureza, e que por muito menos já teria se auto-destruído. O problema apontado por Estulin é que ninguém, nem Riconosciuto, consegue ter acesso à senha. O que no princípio parecia ser um erro de sistema, comuns na informática, se revelou uma atitude deliberada de quem detinha essas quantidades imensas de fundos para provocar a crise de liquidez no setor bancário. Seguiu-se daí as políticas na Europa e nos EUA de Quantitative Easing, passando agora pelo Estado para dar a liquidez ao sistema moribundo, ou seja, promovendo de maneira nunca antes vista uma fuga massiva de capitais para o mercado financeiro, ou seja, uma transferência de recursos da economia física (a que emprega, a que cria desenvolvimento) para a economia parasitária, ou uma transferência de renda para se falar em termos gerais.
Um dos extratos bancários da família Krupp. Pode dar zoom para contar o número de zeros que possuem em uma só conta. E ainda falam em “geopolítica” e em ambições movidas meramente por cobiça, por dinheiro…
Esse sistema com uma caixa preta por detrás foi vendido para muitos países formarem seu sistema de segurança, o que deu às agências americanas amplo acesso a dados secretos de governos de diversos países. Danny Casolaro foi o jornalista que foi suicidado quando iam avançadas suas investigações. Tornou-se uma espécie de mito até o caso cair rapidamente no esquecimento, não reverberado por Hollywood ou outras agências de propaganda do “deep state” americano, como seus veículos jornalísticos de grande repercussão. Até mesmo os vírus assustadores que invadiram milhões de computadores no mundo todo podem ter, de acordo com os relatos da mídia tradicional, marca russa em sua origem. O grande Estado terrorista que aparece subliminarmente nas narrativas é a ameaça russa, o neomacartismo em pleno vigor, ainda que as evidências apontem para a própria NSA como produtora dos malwares, em parceria com Israel, em sua guerra perene contra o Irã. O grupo de oficiais da reserva dos serviços de inteligência americanos, como a CIA e a NSA, publicou um estudo e endereçou uma carta ao presidente Trump onde diz ser impossível um hacker ter acessado os arquivos do partido democrata. Os arquivos foram copiados por alguém que posteriormente vazou para a Wikileaks, como era de entendimento dos mais avisados, dos não entregues à russofobia que tomou conta dos EUA. Os que acusam Trump devem provar que se trata de um trabalho de hacker e não de um vazamento. Mas, como disse John Brennan, ex-diretor da CIA, em audiência ao senado, sob juramento, ele não produz evidências, mas inteligência.

O que está em jogo agora é a capacidade de Trump resistir aos ataques do “deep state” e permanecer no cargo até o final. 2018 será um ano delicado, com a perda total do apoio dos parlamentares, como visto no caso da votação do Obamacare e de novas sanções econômicas à Rússia. Trump não é o presidente dos sonhos. É um republicano não da tradição de Lincoln. Passa longe. Como Reagan, é extremamente conservador e sem a sutileza do antigo astro de Hollywood. Alguém grosseiro que, para padrões brasileiros, parece uma espécie de mistura entre Bolsomito e João Dollar. Xenófobo e livre-mercadista, em um plano geral. Seu projeto de reforma fiscal, por exemplo, tem apoio dos irmãos Koch, os mesmos que jorraram dinheiro nas manifestações de 2013 e no “não vai ter Copa”, no ano seguinte. Sua campanha atual de dar publicidade aos novos empregos criados em sua administração está relacionado aos incetivos fiscais concedidos aos grandes empresários. Campanha com um capítulo interessante, já que o Twitter simplesmente censurou as postagens do presidente onde comemora a criação dos novos empregos. Uma pergunta, portanto: que espécie de incentivos fiscais foram esses? Nas palavras do presidente, algo parecido com o que Dilma Rousseff tentou fazer aqui, porém com resultado na criação de novos postos de trabalho e não em transferência de renda pública para as aplicações financeiras dos empresários brasileiros – o que de fato ocorreu aqui. Como pano de fundo, a sombra do projeto de incentivo aos bilionários, a campanha estritamente republicana. Como uma coisa pode favorecer a outra só pode ser entendida dentro das configurações do sistema econômico norte-americano. Uma parte de ricos que investem na economia física e outra parte atrelada ao capital financeiro que também se beneficia. Limites estreitos de um país que não consegue voltar aos níveis de produtividade da era anterior a Kennedy.

Fora a questão das afinidades, o projeto visa a diminuição de impostos para os mais ricos, quase uma emulação de medidas tomadas por Reagan, ou seja, uma plataforma republicana como estamos acostumados. Os democratas, por sua vez, são os neoliberais mais tradicionais, de discurso mais arrojado. Mesclam sua fala com a defesa de políticas de minorias; praticam, como nos Q.E., o keynesianismo econômico para fartar o sistema financeiro de dinheiro; defendem um mundo unipolar enquanto elegem um negro para a presidência, fato supostamente progressista, digno de uma “nova ordem”. Quando se trata de império as datações, as temporalidades, parecem se desvanecer. Estamos dentro de um mesmo espaço-tempo, de um mesmo contínuo histórico, aquele das oligarquias. Ou seja, “nada mais parecido com um saquarema do que um luzia”.

E um contraponto, porém: o presidente bruto, o cara sem papas na língua, que fala coisas absurdas, sem o politicamente correto do partido da guerra fundado principalmente no Partido Democrata, dos neocons, dos atlantes, firmemente enraizados nesse partido supostamente mais progressista. O que se deve ver, como fato concreto, é que ver um presidente americano fazer logo como um de seus primeiros atos o boicote ao projeto de livre-mercado de Obama, a Parceria Transpacífica, uma ALCA com vistas à China, é algo que não deixa de causar estupefação. Um presidente americano, por conta própria, acabar com um acordo de livre-comércio, é algo digno de nota. Nem poderíamos vislumbrar isso nas épocas de Clinton e Bush, muito menos na era “nova” de Barack Obama.

O que não significa, de modo algum, a indistinção completa. John MacCain, o republicano da mais pura cepa, aliado até os dentes com Clinton e Obama, com blindagem total da mídia, significaria o fracasso para as tentativas de uma ordem mundial multipolar. A política defendida por Hillary durante a campanha de criar uma “zona de exclusão aérea” na Síria não é perturbadora para MacCain nem para os russofóbicos de um modo geral. A “no-fly zone” iria obrigar as forças aéreas da OTAN a abater qualquer avião sírio voando em territória sírio: isso é evidente. Porém, a “zona de exclusão” tem algumas particularidades a mais além de só deixar voar aviões da OTAN no espaço aéreo de nações soberanas, de países que não assinaram qualquer acordo nesse sentido com os atlanticistas. Segundo a política de Clinton, todos os aviões da força aérea síria, mesmo em solo, deveriam ser abatidos. Isso se estende para todos os aviões que estivessem lhe dando apoio, seja estacionado na mesma base aérea ou voando no país. Russofobia! Como se explicariam tais republicanos e democratas frente a tal desastre diplomático tão friamente calculado?

O presidente Trump foi claro quando ratificou a decisão do congresso em estender as sanções à Rússia. Foi um ato legislativo que afronta a prerrogativa constitucional do executivo de conduzir a política externa do país. Logo depois, gritarias na Europa, forte protesto na Alemanha, que recebe prejuízos incalculáveis por, indiretamente, limitar ou extinguir muitos de seus projetos com os russos de interesses estratégico para o país. Um congresso resolve unilateralmente criar as sanções, depois expandi-las, à revelia da constituição de seu país, à revelia da soberania de outros países, incluindo fortes interesses como os da Alemanha, país com secular relação com os russos que beira a dependência.

Quem é esse Tribunal do Mundo, hoje? As agências de inteligência se movimentam para transformar Trump em um agente russo e inviabilizar seu governo. Espionagem maciça dentro dos EUA. Não mais com Merkel ou Dilma como revelado anos atrás. O presidente de lá alvo de grampos e chantagens. Tudo em nome do partido da guerra, das políticas econômicas dos neocons frustradas pelo proto-nacionalismo defendido pela plataforma de governo de Donal Trump. Proto por ser algo rudimentar, como rudimentar é boa parte do entendimento desse governante que, contudo, desmente muitas das acusações de xenofobia, de ataques às minorias quando se volta aos gigantes do Oriente e procura a formação de uma Détente, de uma ligação que não permita que a expansão da OTAN nas fronteiras da Rússia, no Mar da China, não se transforme em algo desequilibrado e acabe por gerar um conflito sem volta, um conflito termonuclear, cada vez mais perto quanto mais a russofobia, o neomacartismo avança por aquele país.

Como ele disse em seu Twitter depois de praticamente obrigado a sancionar a lei do Congresso:

Our relationship with Russia is at an all-time & very dangerous low. You can thank Congress, the same people that can’t even give us HCare!

— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) 3 de agosto de 2017

Perguntar quem é o Tribunal do Mundo hoje é saber quem consegue mandar nos bastidores. Com a derrota de Hillary, aquela que abertamente defende a política de confronto, o aparato de vigilância teve de ser intensificado para aumentar as denúncias e os vazamentos contra seus inimigos. São forças sempre na sombra, com Obama também eram, e utilizavam de sua imagem para aprofundar a política não da “American first”, que não quer dizer só a América e dane-se os outros, mas da América única, do mundo unipolar. A família Krupp, a manipulação dos fundos bancários para se provocar a crise enquanto as tropas se posicionam para qualquer guerra, na coreia, na China, Ucrânia, nos Bálticos ou a partir da Síria. A movimentação para a guerra militar e a guerra financeira. Hoje, uma crise ainda maior se avizinha, devido à liquidez absurda adquirida pelos grandes fundos internacionais depois do Q.E. Crise próxima de estourar; movimentações de confronto militar em partes sensíveis do planeta. O Grande Tribunal se move e usa suas ferramentas para derrubar quem, da forma que for, se opõe à sua ortodoxia. Seja Trump, seja a política da Nova Rota da Seda, seja os governos nacionalistas do cone sul – todos ignominiosamente atacados – tudo conduzindo para o que é uma nova guerra fria, talvez ainda mais e mais quente a cada dia que passa, apesar de esforços para se apararem algumas arestas, o que resta saber é se daremos ou não o crédito necessário para que O Grande Tribunal decida pela política de confronto direto, deflagrando novamente uma grande crise financeira, provocando até o absurdo seus adversários no oriente, e conduzindo os golpes de Estado no Oriente Médio e na América do Sul.

Por quanto tempo ainda viveremo nessa guerra que, se não ainda nuclear, espalhou a guerra civil, o medo do perigo vermelho, as perseguições físicas e judiciárias, os grampos, vigilância e vazamentos em massa, quase num ato desesperado para manter controle sobre um mundo que não mais se adequada à lógica de uma única potência como celebrado depois de 1989? O Grande Tribunal, esse grande olho que procura o escrutínio de nossas almas e que com tanta dificuldade pode-se gerar o mínimo de consenso público a respeito de seu modo de atuação e suas intenções imediatas e as de médio e longo prazo. Culpar Trump é muito fácil, ou Putin, ou Maduro, Dilma, Lula, o Irã. Quem estará à altura desses tempos de exceção? Quem se posicionará frente ao tribunal das bestas, com seus analistas politicamente corretos, suas falas sensatas (o bom senso e o senso comum), e poderá acusar, frente ao olho do poder, sua existência nefasta? “A máquina de ver é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos; ela se torna um edifício transparente onde o exercício do poder é controlável pela sociedade inteira”. Mani Pulite.