A crise de identidade das elites brasileiras

A rede Globo foi formada, durante a ditadura, como aparelho bolchevique de propaganda do aparelho de Estado. À exceção de parte do mandato de Collor, ela apoiou incondicionalmente todos os governos da elite brasileira.

Desde Médici, que limpava as roupas sujas de sangue para ver o ‘Brasil dando certo” no JN, até os escândalos mais tenebrosos dos mandatos de FHC, os crimes mais hediondos sempre foram ocultados.

O ataque errático da Globo ao governo Temer e agora ao de Bolsonaro, personagens que a emissora se empenhou em colocar no poder, mostra a profunda crise de identidade das elites nacionais.

Sem uma solução armada, como na ditadura, ou com a fábula do Plano Real (acabar com a inflação e aumentar a carestia), as elites não tem mais a quem recorrer.

A elite, como nunca antes, está gravemente ferida. Cabe a reorganização do campo popular para derrotá-la, ao menos, pelos próximos 10 ou 15 anos.

Walter Benjamin e a tarefa da crítica

Por Márcio Seligmann-Silva*

Revista Cult, 14 de março de 2010

Olhando retrospectivamente para o século 20, podemos dizer que Walter Benjamin (1892-1940) de fato realizou um de seus projetos pessoais mais arrojados. Como ele formulou em uma carta a seu grande amigo Gershom Scholem, de janeiro de 1930, ele achava que conseguira o objetivo de “ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã”. Este reconhecimento na época era na verdade muito tímido, restrito a um pequeno círculo de leitores especializados. Hoje este círculo cresceu a ponto de podermos com razão falar de um “reconhecimento” de sua posição privilegiada como crítico.

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Direita, extrema-direita e os arquivos da ditadura

Tanto a direita liberal ou “socialdemocrata” quanto a extrema direita, igualmente similares em inúmeros outros aspectos, nunca tiveram à altura para lidar com os arquivos da ditadura. No caso da extrema-direita, parece que sua chegada ao poder fez acelerar o processo de reflexão sobre o autoritarismo conjugado ao neoliberalismo, ou seja, toda a história recente, em especial de 1964 a 2003.

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Autópsia ou o olhar do historiador

Com seu livro O espelho de Heródoto, François Hartog acabou por entrar, talvez à revelia, no “vendaval” que sacudiu o debate dos intelectuais com o surgimento do revisionismo histórico sobre o nazismo. Na época, tanto Carlo Ginzburg quanto Paul Ricoeur reconheceram no livro traços do relativismo cultural daquela década, marcada tanto por um incremento na sofisticação da escrita dos historiadores (o que os aproximou da escrita ficcional), quanto por um ambiente político e acadêmico reacionário que buscava negar Auschwitz. Contudo, as indeterminações que sugeria o conceito de “autópsia” criado na ocasião por Hartog, serviram para questionar as estruturas do pensamento historiográfico e, longe de qualquer relativismo reacionário, projetou-o hoje como um dos maiores pensadores acerca do ofício do historiador. É um pouco dessa história que esse texto pretende contar.

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O fim da onda da “direita lisérgica”?

A grande pergunta não é sobre a supostamente desaparecida “burguesia nacional” ou a ausência de “generais nacionalistas”. A pergunta versa sobre os motivos de o Golpe continuar ativo, apesar de todos os atos contraditórios dos golpistas. Quem ainda sustenta um governo insustentável? Como fazem isso? Qual o caminho para se reverter o mais rápido possível o atual estado de coisas? Como em 2002 na Venezuela, na América do Sul novamente a população rechaça o neoliberalismo e o arbítrio fardado. Terá chegado o fim da “direita lisérgica”?

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