Obama, o legado do imperialismo e a captura da esquerda

A política neomacartista, antirussa, com a guerra da Síria, o golpe ucraniano e sua extensão dentro do território dos EUA, isto é, o Russiangate, capturou a esquerda com a pauta das fake news, como demonstrei em artigo de 2018 [aqui]. A criação do termo “fake news” abriu precedente para a captura da contestação ao poder pelos grandes meios de comunicação que, hoje através das bigtechs, nos diz o que são ou não fontes confiáveis. A disputa entre fato ou fake é uma aberração positivista.

As políticas de flexibilização quantitativa neokeynesianas de Obama abriram precedente para a efeméride da MMT e do Plano Biden, enquanto faziam girar uma espiral inflacionária e especulativa que mudou na raiz o modo de organização dos países da América do Sul. Através das contabilidades não declaradas ganhas com a impressão indiscriminada de bônus para fundos especulativos, foram financiadas as revoluções coloridas e uma mudança significativa no mercado de trabalho a partir da política do Vale do Silício (escrevi sobre isso em junho de 2019 [aqui]).

O efeito de superfície de um projeto amplo de mudança estrutural do remanescente da sociedade industrial do pós-guerra foi a guerra culturalista ao redor da pauta identitária, variante híbrida das revoluções de cor, em pleno funcionamento agora. A noção de forças produtivas do trabalho desapareceu em prol de uma aliança ampla dos meios de comunicação com a esquerda colorida que não questiona os poderes fáticos e financeiros. É o primado da democracia americana baseada em noções genéricas de liberdade e igualdade.

Enquanto a esquerda não reaprender a questionar, ser o olho vivo sobre o poder, continuará capturada pelo imperialismo que, na quadra atual, foi bem sucedido com a eleição colorida de Barack Obama.

O tempo que resta, de Giorgio Agamben: 2ª Jornada

Na 2ª Jornada do livro “O tempo que resta”, Giorgio Agamben faz um diálogo direto com dois autores sobre o sentido da palavra “klésis”. Max Weber, por um lado, mesmo com dificuldades, não consegue explicar a mutação do termo “vocação” ou “chamado” para Beruf ou a profissão mundana, o que traz amplas implicações para a sociologia weberiana e para a interpretação da Carta paulina. Adorno, por outro lado, trabalha uma filosofia do impotencial, onde não tem lugar a realização, o gozo e a dádiva próprias à concepção messiânica do tempo e seu chamado. Nada mais distante, assim, as duas filosofias: a de Adorno e a de Walter Benjamin. Através de uma série de mediações muitos sofisticadas, Giorgio Agamben traça a exigência filosófica do tempo de agora a partir da noção de “klésis”. Esse é o objeto de estudo dessa segunda jornada do livro “O tempo que resta: um comentário à Carta aos Romanos”.  

YouTube: https://youtu.be/PAdSpUcGoes  

Podcast: https://anchor.fm/rogeriomattos28/episodes/O-tempo-que-resta–de-Giorgio-Agamben-2-Jornada-e1eo5v9

O tempo que resta: um comentário a Carta aos Romanos, de Giorgio Agamben (1ª Jornada)

Em “O tempo que resta: um comentário à Carta aos Romanos”, Giorgio Agamben se ocupa da estrutura do tempo messiânico. Para isso, se ocupa do incipit, da frase inicial da carta de Paulo aos romanos, como forma de recapitulação da tarefa do antigo filósofo (nem apóstolo, nem santo), que esteve bem distante da alcunha de “inventor do cristianismo”. Sua ocupação é com o Messias; se exprime através de uma língua ou literatura menor (Deleuze e Guattari) e prefigura um autor contemporâneo a nós, Walter Benjamin. O trabalho a seguir dá conta da primeira jornada do livro numa leitura pormenorizada que irá seguir a obra até o seu final.
 
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O subúrbio antes do subúrbio: o samba de sambar do Estácio

O bairro do Estácio pertencia a grande área de ocupação popular cujo centro era a Praça XI, em oposição a sofisticada Rua do Ouvidor. Desfigurada pelas obras modernizantes da era Vargas, o “segundo bota abaixo” ocorrido no Rio de Janeiro, deixou como patrimônio permanente o samba moderno, carioca e urbano. Antes de ser obra de descendentes bantos ou de escravos vindos do Congo, a intelectualidade popular que criou o samba de sambar eram descendentes de nordestinos após a diáspora negra que transferiu os escravos da então decadente zona açucareira para as plantações de café no Vale do Paraíba. Como uma cultura que sobrevive, feita por sobreviventes de um estado de exceção permanente bem anterior ao construído na Alemanha nazista, fez valer em outra terra a famosa frase de Euclides da Cunha no “Sertões”: “o sertanejo é antes de tudo um forte”.