BNDES: um estudo de direito econômico, de Lea Vidigal (resenha)

Em seu livro (fruto de sua dissertação de mestrado), Lea Vidigal retoma a importância de um banco nacional para centralizar, regular e coordenar os investimentos do Estado. Em seu período de atuação mais abrangente, com o Plano de Metas, o BNDES foi responsável por incrementos ainda hoje não superados na indústria de transformação, no setor de petróleo e em infraestrutura. Ao contrário de seu uso durante o regime militar, quando se associou ao capital estrangeiro para fomentar a iniciativa privada, com JK as agências internacionais de crédito foram rechaçadas e o impulso para o desenvolvimento se deu através de capital nacional com o objetivo de aumentar as forças produtivas do trabalho. Resgatar a história do Banco é retomar a discussão do planejamento econômico de longo prazo e seu uso voltado à economia física, não especulativa.
 
 

Lumpens e poetas: a negação da vida artista em Karl Marx

Giorgio Agamben diz que “no curso do tempo, o proletariado tenha acabado por ser identificado com uma determinada classe social – a classe operária, que reivindicava para si prerrogativas e direitos – é, a partir desse ponto de vista, a pior incompreensão que se pode ter do pensamento marxiano” (“O tempo que resta”). Tal posição se casa com as diatribes de Walter Benjamin contra Marx em seus escritos sobre Baudelaire. Ao associar o lumpen aos vagabundos, chantagistas, alcoviteiros e demais nomes depreciativos, Marx coloca fora de classe todo um conjunto de pessoas, geralmente os “rebeldes” a quem ele irá se voltar contra, na polêmica com Stirner, na “Ideologia alemã”. O pensamento marxista, assim, acaba por sub-julgar toda a massa dos sem classe, ao contrário da filosofia mais recente (com Benjamin, Pasolini, Foucault, Agamben) que irá encontrar na rebeldia menos a “revolução” do que a possibilidade de se encontrar novas formas de vida em íntima associação com a vida artista. A visão pejorativa em relação aos sem classe fica ainda mais complicada se colocada à luz da situação social brasileira, onde muitas vezes é difícil se falar em “luta de classes” pelo simples fato da luta do povo, no mínimo, é por tentar se classificar (ter carteira de trabalho, se formar, ter casa própria, etc.), como aponta o historiador e antigo quadro do Iseb, Joel Rufino dos Santos.

YOUTUBE: https://youtu.be/WVZU1M27pc8

PODCAST: https://anchor.fm/rogeriomattos/episodes/Lumpens-e-poetas-a-negao-da-vida-artista-em-Karl-Marx-e1iid3o

Sobre o hipotético “nacionalismo” da ditadura militar e seus defensores

O tema do título é quase um vazio historiográfico. Discussão pra ser feita: o que invalida a tese de um suposto nacionalismo dos militares? Geisel, aqui, apareceria como figura de destaque como uma espécie de continuador de Vargas… Não se considera:

1) Os investimentos estatais eram feitos com “poupança externa”, ou seja, dólar. Não existe governo nacional financiado em moeda estrangeira. Foi a moeda ianque que “securitizou” ou deu o aval para o funcionamento da ditadura. Simplesmente o dinheiro adiantado para a ditadura era de origem americana. O livro da prof. Maria da Conceição Tavares mostra a dependência dos ditadores em relação ao capital estrangeiro e como sua atuação formou um setor financeiro poderoso no país que passou a reger a orientação da “burguesia nacional” em coordenação com os projetos de Estado.

2) Existia uma situação de Guerra Fria e a ditadura foi muito contestada. Não foi fácil eles manterem alguma legitimidade. Isso passa pelos assassinatos (desde os jovens guerrilheiros aos políticos influentes como o JK), mas também pela percepção dos agentes estrangeiros que não daria para formar aqui uma “solução chilena”. O processo de modernização/industrialização brasileira foi muito amplo, de Vargas a JK. O Brasil ficou por décadas como o país que mais crescia mundialmente. Desmontar o estado violentamente no estilo Pinochet iria trazer mais crise ao regime. Com a “ameaça comunista” era melhor adotar um modelo misto, um tipo de social-democracia com totalitarismo.

(Geisel entra na política com a saída de Getúlio em 1945 e ajuda a criar o nosso War College, a ESG)

3) Muito dessa efeméride ao redor do “nacionalismo da ditadura” gira ao redor da figura do Geisel e o II PND que foi um plano econômico estatizante. Foi pra contornar a crise da dívida dos 1970. E o Geisel, como outros militares, teriam vindo da época do Estado Novo. Então seriam de alguma maneira nacionalistas, mas a reversão da economia nacional para uma base em dólar e a concentração de investimentos em bens de consumo (reverteu a antiga tendência em bens de capital) foram os pressupostos da longa americanização de nosso país.

YOUTUBE: https://youtu.be/hPduMZhSWM8

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Narrativas do passado: a condição historiadora segundo Paul Ricoeur

Na passagem da publicação de dois livros importantes (“Tempo e narrativa” e “A memória, a história, o esquecimento”), Paul Ricoeur refina seus instrumentos analíticos para buscar a compreensão da escrita dos historiadores. Com o grau de sofisticação alcançado pelos livros de história depois de movimentos como o da micro-história e da 3ª geração dos Annales, história e ficção passaram a ter conexões tão estreitas que passaram a desafiar como nunca antes aqueles interessados no ofício historiográfico. Além dessa abordagem, procuro no programa discutir algumas noções do conceito de tempo em Ricoeur por ter implicações diretas com sua visão da história da historiografia.
 

Sérgio Buarque não-capitalista

Ao contrário de uma leitura uspiana tradicional, a que tem em conta Sérgio Buarque como participante de uma ética do trabalho de tipo weberiana e que sob essa lente enxerga o Brasil como um país incapaz ou com poucas forças para se desenvolver, a visão de um Sérgio Buarque não-capitalista, alheio à leitura de “Raízes do Brasil” de Antônio Cândido através de Roberto Schwarz, mostra alguém não exatamente “socialista”, mas preocupado com o desenvolvimento social do povo brasileiro. Muito mais um nacionalista do que um marxista, bem mais próximo da visão de integração nacional de um José Bonifácio ou JK do que de Max Weber ou outros “estrangeirismos”, uma leitura “de ponta cabeça” de “Raízes do Brasil” aponta para aspectos de longa duração de nossa história enquanto nação e os caminhos para se resolver seus impasses.