O prisioneiro do Palácio da Alvorada

Créditos para o blog O Cafezinho

Precisamos pedir a prisão de todos os genocidas? Temer, aparentemente, dorme tranquilo em seu Palácio. Seu sono com certeza lhe traz os dilemas da sucessão, ou seja, não a do futuro do país (que pouco lhe interessa), mas a da sua pele e a de seus comparsas. O senhor “quase bonito” (nas palavras de Noblat) reflete na Alvorada seus sonhos de quase príncipe. Qual será a imagem de herdeiro que embala suas noites de insônias enluaradas? A do Friedman carioca, devidamente morto e ainda não enterrado, FHC, ou ainda outra figura ainda mais obscura? Nas aporias que esbarra nossa tão indecisa classe-média, se agiganta o monstro fascista, genocida. Você, graciosa princesa que vaga pelas noites no jardim de flores enlutadas – filha de gente fina -, já nutriu pesadelo mais sublime? Quantos prisioneiros agora, em nosso país, acordam sob a prisão em seu palácio em plena alvorada? Identificamos um, como se vê na ilustração, e conversamos com os anões que lhe inspiram os desejos mais sensíveis.


1. A pergunta que permanece desde o impeachment de Dilma é se Temer continuará sua façanha histórica. Figura sem qualquer grandeza, articulou sua saída política nas sombras, com Eduardo Cunha, desde a reeleição. Embora Moro tente jogar cinzas sobre a obra-prime que então se construía, a façanha que a confissão de Yunes criou nubla os céus de quem decora, com toda propriedade para este tipo de serventia, as práticas pós-modernas no campo econômico, e que necessitam de um fiel executor a seguir o PSDB. Fernando Brito é bem perspicaz, como sempre, ao colocar em evidência a grosseria que foi a entrega de milhões em espécie por parte do amigo fiel do Traíra. Estaria já naquele momento – e como falamos agora de movimentos precoces – Eduardo Cunha deixando pegadas que poderiam ser depois exploradas caso “essa porra” não desse certo? Colocamos mais uma questão então: Jorge Luz estaria se entregando simplesmente, abandonando sua fortuna construída no exterior, pra servir a justiça do país? Seria somente para legalizar seus desvios financeiros, através de uma generosa colaboração de Moro, que ele se entregou? Seria por fidelidade aos seus mestres e àqueles que “ficaram no caminho”, para lembrar o caso do Paulo Afro-descendente? Seria só pelos 40 milhões, como alertou Hildergard Angel?
Mais um dos ambientes do antigo palácio da duquesa de Alba que hoje pertence a Jorge Luz.

2. É terrível a sina do ex-vice. Como seria isso? “A decorrência natural é que Temer, para fugir do isolamento, demande cada vez mais a presença de quadros do PSDB que possam apoiá-lo e com quem trabalhe com um grau de confiança maior. Lamentavelmente, ele perdeu esses interlocutores de confiança no PMDB, não sobrou ninguém e a bancada é um deserto. Ele tem chamado o Aécio cada vez com mais frequência ao Planalto, e o Imbassahy vai crescer muito. É discreto e confiável. Vai gerar ciúmes? Vai. Mas lamentavelmente eles não têm como reagir a isso”. É um movimento arriscado, como é evidente. Ele deixa boa parte do baixo clero descontente. Imitando a política da República Velha (como em tudo, até no slogan), querem mais espaço para Minas Gerais. Ué?! Mas Temer não está fazendo isso ao se aproximar, segundo a fonte, de Aécio? Triste sina, movimentos perigosos, tempos tenebrosos – Temerosos. O ilustre deputado Fabinho ameaçou romper com sua base de apoio na Câmara por não terem colocado um ministro mineiro na Justiça. O “essa porra” assume tons apocalípticos: “Ao ouvir a ameaça, Temer respondeu: ‘Que seja feita a vossa vontade’, descreveu o mineiro, que emendou: ‘Se prepara que o senhor vai ter muitas derrotas no Parlamento'”. Na sanha de proteger Cunha, de proteger sua própria pele, Temer se isola cada vez mais. Perdeu um ministro, seu mais próximo e poderoso aliado até agora (sempre esquecemos de Jucá, que não ocupa cargos oficiais…), para uma cirurgia de próstata. O destino anda conspirando contra Temer, o até agora invencível presidente decorativo para as aspirações pinochetianas-tucanas.

3. Uma tendência parece se tornar cada vez mais forte: sempre foi um ato da mais descarada aventura política toda a trama (como se viu, tecida desde 2014) do impeachment; seu governo não tem nenhum respaldo popular, somente histeria. A pergunta óbvia é: como dar sustentação a algo tão tosco? Somente o que foi mais tosco, mais brutal, a prática do genocídio em larga escala. Esse é o programa dos tucanos, dos executores de fato das políticas da camarilha empoleirada em Brasília para ou estancar essa porra ou transformar logo tudo numa orgia, como disse o contemporâneo poeta. Para não perdermos a linha de meu raciocínio: qual diferença que separa a política belicista, assassina, do democrata Péricles, da de Obama com a Rússia, a China e o Oriente Médio? São os meios militares, a capacidade de matar em escalas cada vez mais inimagináveis. Hitler construiu toda sua áurea porque tinha em seu país uma indústria forte e seu governo foi muito ajudado financeiramente. Qual diferença desse mito para Mussolini, Franco, Salazar ou qualquer outro desses ditadores “clássicos”? Ele estava num país com uma potência industrial muito forte com a qual pôde construir uma máquina mortífera impressionante. Os novos democratas (não importa se social-democratas, pefelistas ou qualquer porcaria do gênero) continuam com a política de guerra ao povo, não importa qual bode expiatório escolhido. No nosso caso, a política de ascensão social criada pelos petralhas. O que importa do século XX para cá, principalmente, é matar em massa, seja com Friedman, Pinochet, Médici, FHC ou Malan. Temer cumpre sua missão; sua sina, para falarmos um termo mais apropriado.

4. Como sustentar algo tão tosco? Somente aceitando passivamente a política de genocídio imposta a partir dos últimos meses. Teremos baixeza o bastante?

5. Somente um homem sem nenhum caráter para dizer que “Temer é um senhor elegante. Quase diria bonito“. Contudo, deve-se achar escolhas, ainda que para isso se deva ter menos caráter ainda. A petralhice não parece ser uma escolha apetecível. Colocar outro sapo barbudo, analfabeto, ou uma mulher que, além do mais, queriam forçar como se fosse outra analfabeta, ao ridicularizarem sem nenhum pudor seus discursos. Logo ela, uma das pessoas mais conscientes dos dilemas de nosso país. Logo, deve-se achar alguém o mais casto possível, se possível um príncipe (não importa se da Sorbonne ou de outro reino) do mais puro sangue para desposar nossa pátria mãe gentil. E é nessa aspiração ridícula da classe-média, como tantas outras, se encontra o perigo de cairmos de novo no fascismo. É sobre esse ideal de pureza, de novo ascetismo, de “economia limpa”, quase diria, sustentável, que devemos refletir.

O dia que a mídia ocidental fizer uma capa assim sobre quem realmente não vale nada estaremos definitivamente vivendo entre os marcianos. No detalhe, a gravata vermelha de Trump o leva para a Esquerda…

6. A renúncia é o caminho mais provável. Diante da fragmentação de seu apoio, depois de experimentar as primeiras e fragorosas derrotas – como a da reforma da Previdência e Trabalhista -, pode-se ver ainda mais acuado. Os movimentos são perigosos. Sobre a renúncia pensamos quando vemos tantos ataques e confissões, mesmo daqueles que faz pouco tempo estavam bem ao seu lado. Não teria a grandiosidade de enfrentar todo um processo de impeachment, como também Collor não teve. Gostaria de manter da forma mais mesquinha o máximo dos privilégios que poderia alcançar. Sempre a mínima exposição. Antes do vexame, a renúncia. Sua mais acalentada esperança, a eterna obscuridade. É o máximo, talvez, que podemos experimentar de um caráter como esse. Maior do que qualquer figura desprezível, com a vaidade tão desproporcional que conseguiu construir uma Teoria só para si, sendo, de certa forma, mero poeta e professor; de outro lado, absurdamente menor do que o menor dos Patriotas (Mateus 11:11).

7. A renúncia, no entanto, seria, se feita com a máxima antecedência, um ato de grandeza. Quais são os anões que o guiam para desfiladeiro? Esse é o problema da sucessão com todas as suas consequências, inclusive para Lula. O mais estarrecedor é que o movimento para bloquear a Lava-Jato pode cortar as asas de Moro e impedir a sempre esperada prisão de Lula. Os tempos, atualmente, não se encaixam mais. Quem será, nos próximos meses, os beneficiários desse complicadíssimo jogo?

Eu agora, aqui como Romulo Fróes (na foto de Rodrigo Sommer), a cada nova notícia, cantamos Luz Negra e nos divertimos.