Falenas: o problema do surgimento de uma nova linguagem (antropologias foucaultianas III)

Como se comunicam as palavras na noite das imagens.
(foto: Anne-Lise Broyer)
[extrato]

Tratando-se de imagens, é particularmente necessário renunciar às pretensões da metafísica, quando esta forja “um conjunto de concepções tão abstratas e, por conseguinte, tão vastas, que nele caberia todo o possível, e mesmo o impossível, ao lado do real”, enquanto que o pensamento filosófico, para ser preciso, deve constantemente “aderir ao seu objeto”. O elogio das singularidades proposto nestas linhas por Bergson – enquanto se espera por Gilles Deleuze – acabava, como sabemos, por recusar a maneira como quase toda tradição metafísica do Ocidente terá privilegiado a permanência das formas fixas, facilmente pensáveis na sua idealidade, em detrimento das formas moventes, tão difíceis de apreender nas suas durações concretas, nas suas mudanças, nos seus anacronismos e metamorfoses: “Foi assim que a metafísica foi levada a procurar a realidade das coisas acima do tempo, para além daquilo que se move e que muda, fora, por conseguinte, daquilo que os nossos sentidos e a nossa consciência percebem. Desde então, a metafísica já não podia ser mais que um arranjo de conceitos mais ou menos artificiais, uma construção hipotética. Pretendia ultrapassar a experiência; na verdade, não fazia mais do que substituir a experiência movente e plena, suscetível de um aprofundamento crescente, e portanto prenhe de revelações, por um extrato fino, ressequido, esvaziado, um sistema de ideias gerais e abstratas, retiradas dessa mesma experiência, ou antes, das suas camadas mais superficiais. Seria o mesmo que dissertar sobre o envoltório do qual se libertará a borboleta, e pretender que a borboleta voante, cambiante, viva, encontre a sua razão de ser e o seu remate na imutabilidade da película. Retiremos, pelo contrário, o envoltório. Despertemos a crisálida. Restituamos ao movimento a sua mobilidade, à mudança a sua fluidez, ao tempo sua duração”. 
Esse um dos motivos pelo qual criamos O Abertinho e, agora, podemos responder aos nossos críticos.
Trecho do artigo “Aparecendo, desaparecendo, borboleteando”, de Georges Didi-Huberman. Falenas: KKYM, Lisboa, 2015.
“De repente, algo aparece. Por exemplo, uma porta abre-se e uma borboleta passa batendo as asas. Basta este nada. E já o pensamento experimenta o perigo. Corre o risco de se enganar uma primeira vez, acreditando apropriar-se do que acaba de aparecer e abstendo-se, que é a desistência, desaparição. Por que é um erro acreditar que, uma vez aparecida, a coisa está, permanece, resiste, persiste tal qual no tempo, como no nosso espírito que a descreve e a conhece. Sabemos bem que não é assim: uma porta não se abre senão para a qualquer momento se voltar a se fechar, uma coisa não aparece, como uma borboleta, senão para no instante seguinte desaparecer. Mas o pensamento se desorienta uma segunda vez realizando com a coisa desaparecida a mesma abstração que com a coisa aparecida. Também aqui terá de se ter em conta o que se segue, quer dizer, a maneira como a coisa que já não está permanece, resiste, persiste tanto tempo como na nossa imaginação que a rememora. Como falar de um aparição de outro modo que não seja sob o prisma temporal da sua fragilidade, aí onde ela volta a mergulhar no obscuro? Mas como falar de uma aparição de outro modo que não seja sob o prisma temporal da sua fragilidade, aí onde ela volta a mergulhar no obscuro? Mas como falar desta fragilidade de outra maneira que não seja sob o prisma de uma mais sutil tenacidade, que é a força de assombração, de retorno, de sobrevivência?
Como os batentes de uma porta, como as asas de uma borboleta, a aparição é um perpétuo movimento de fechamento, de abertura, de novo fechamento, de reabertura… É um batimento… Uma vibração rítmica [myse en rythme] do ser e do não-ser. Fraqueza e força do batimento. Fraqueza: nada é adquirido, tudo volta a perder-se e deve ser retomado a cada instante, tudo tem sempre que ser recomeçado. Força: o que bate – o que se bate contra, o que se debate com – coloca tudo em movimento. Como a porta que deixa entrever um ente amado, adormecido no quarto, preservando, no entanto, o seu recolhimento; como as asas da borboleta lhe permitem voar; como o nosso coração escande a sua precursão de sístoles e diástoles; como a respiração, ela mesma, toma e devolve o ar necessário à vida. Toda aparição poderia, por isso, ser vista como uma dança ou como uma música, como um ritmo em todo caso, um ritmo que vive de se agitar, de bater, de palpitar, e que morre, mais ou menos, pela mesma razão. Também os agonizantes se debatem com eles próprios como uma borboleta que bate asas até o fim. A borboleta – particularmente a falena, essa borboleta noturna que se introduz pela porta entreaberta, dança em torno da luz e acaba por nela se precipitar e consumir – parece bem ser o animal emblemático de uma certa relação entre os movimentos da imagem e do real, ou mesmo de um certo estatuto, nem é preciso dizê-lo, da aparição como real da imagem. Não é por acaso que a borboleta, quase imperceptível porque mais não faz do que passar, serve de epígrafe às reflexões de André S. Labarthe sobre o caráter simultaneamente soberano e passageiro das imagens cinematográficas (fig. 1). É mesmo possível que, em toda tentativa de descrever uma imagem, qualquer coisa como um batimento de assas de borboleta venha dar um sentido a esse esforço, tanto quanto um limite. À semelhança da palavra phasma, a palavra falena carrega consigo os valores etimológicos da aparição, ou seja, da luz diurna que confere visibilidade (phaos, phôs) e do clarão noturno que torna imperceptível – clarão esbranquecido (phalos), brilhante na noite, ou negro manchado de branco (phalios) -, da fenomenalidade em geral (phaïnesthai), enfim, do fantasma e da imaginação (phasma, phantasia).
Fig.1. Anne-Lise Broyer, Massais, 2004. Fotografia.
Quase poderíamos arriscar a hipótese de que a cada dimensão fundamental da imagem corresponde, rigorosamente, um aspecto particular da vida das borboletas: a sua beleza e a infinita variedade de suas formas, das suas cores; a tentação e a aporia de um saber exaustivo sobre essas coisas frágeis e prolíferas que são as imagens e as borboletas; o paradoxo da forma e do informe contido na metamorfose – esse processo através do qual um verme imundo, uma larva, se torna múmia, ninfa, crisálida, para depois “renascer” no esplendor do inseto formado a que chamamos então, justamente, imago -; o jogo da pregnância e da saliência, da simetria e da simetria quebrada; o poder da semelhança e as rasteiras do mimetismo; o desperdício insensato das aparências e sua alteração fatal; o valor fantasmático e lendário em que a imago se antropomorfiza incessantemente; o movimento obstinado (batimento em torno de um eixo de simetria), dilacerante (fechamento-abertura) e, por fim, errático da imagem-borboleta; a fenda psíquica contida no jogo das suas aparições e desaparições; o desejo e a consumação que manifesta aos nossos olhos… E até ao próprio tipo de escrita, de saber, que tudo isto supõe. Eu próprio poderia por estabelecer uma ligação entre a minha obstinação na instabilidade – cada vez que, em âmbito acadêmico, me julgam amargamente: “Mas tu borboleteias!” – e o simples fato de consagrar a minha escrita às imagens”.
Pensar em borboletas em termos kantianos é vê-las aquém da beleza das obras de arte. Elas não tem nada a ver com as artes da imitação. “Ela pertence, como as flores e os pássaros exóticos – Kant gostava de evocar o papagaio, o colibri e a ave-do-paraíso, cujas cores cambiantes lembram lepidópteros -, às ‘belezas naturais (Naturschönheiten) […] que absolutamente não convêm a nenhum objeto determinado segundo conceitos com respeito ao seu fim'”. Morte das borboletas, após Galileu, segundo Didi-Huberman, , quando “a ciência tornou-se num cerrado exercício de observação sistemática e classificadora, de modo que o conhecimento das borboletas assenta numa criteologia formal que permite uma disposição tabular, fundada sobre as diferenças trazidas à luz pela observação”. Foucault talvez seja mais preciso na linguagem empregada no Nascimento da Clínica: com o primado do olhar que emerge com as ciências positivas no século XIX, os corpos não só dos homens, mas das borboletas, dos insetos, dos animais, podem ser vistas na “noite viva [que] se dissipa na claridade da morte”. Por isso Willian Henry Fox Talbot, neste mesmo século, “pretendeu fixar em calótipo a tênue imagem das asas das borboletas, sem saber muito bem – as cores, de qualquer modo, faltavam – se seria melhor vê-las em positivo ou negativo, em visão diurna ou em versão noturna” (fig-2-3).

Willian Fox Talbot. Asas de borboleta, 1839-1841. Calótipo (negativo)
Idem. Prova positiva.
Como nas célebres primeiras palavras do Nascimento da Clínica: “Quem pode assegurar-nos de que um médico do século XVIII não via, mas que bastaram algumas dezenas de anos para que as figuras fantásticas se dissipassem e que o espaço liberto permitisse chegar aos olhos o contorno nítido das coisas?”. Passagem quase imperceptível, porém muito bem focalizada por Foucault. Não é tanto em Galileu ou na “ciência moderna” de um modo geral. A primazia do olhar, a descrição exaustiva utilizada pela escolástica atual, pela assim chamada Academia, reduz ou tenta reduzir qualquer tentativa de novas ideias, quaisquer invenções “fora da caixa”, ao domínio da pura discursividade, patamar sobre o qual se fabricou nossa esotérica nomenclatura por onde os cientistas se movem, atrelando a coisa à palavra, porém tornando aquela incompreensível devido ao grau de desprendimento desta à compreensão do mundo – menos por inventividade dos criadores do que apego a fórmulas tradicionais como a do latim como língua universal -é a mesma que, nas humanidades, prega a citação curta, objetiva e somente quando necessária. Daí o grau de hermetismo na qual se encerram – e as demais ciências não são diferentes – como se, caso numa última frase, colocasse uma mera referência ao livro de Foucault explicasse alguma coisa, já que fui “sintético” e não precisei ali usar aspas em algum lugar. Mas citam porque não leem e se lessem não citariam tanto. Uma simples frase basta referindo-se a um autor consagrado para “clarear” o argumento como faz a sofística dos fanáticos religiosos atuais com os versículos bíblicos. O primado do olhar, do objeto bem delimitado: tanto na Academia quanto na Igreja: pouquíssima diferença. Esta é a “racionalidade” atual de um certo tipo de positivismo, muitas vezes de corte weberiano, que somente serve para inutilmente tentar disfarçar a mais do que eloquente preguiça dos sábios de plantão.
Como fazemos um texto com recortes, como construímos montagens, a descrição seguinte é perfeita para visualizar a passagem necessária “para que as figuras fantásticas se dissipassem e que o espaço liberto permitisse chegar aos olhos o contorno nítido das coisas”:
Em meados do século XVIII, Pomme tratou e curou uma histérica fazendo-a tomar “banhos de 10 a 12 horas por dia, durante 10 meses”. Ao término desta cura contra o ressecamento do sistema nervoso e o calor que o conservava, Pomme viu “porções membranosas semelhantes a pedaços de pergaminho molhado… se desprenderem com pequenas dores e diariamente saírem na urina, o ureter do lado direito se despojar por sua vez e sair por inteiro pela mesma via”. O mesmo ocorreu “com os intestinos, que, em outro momento, se despojaram de sua túnica interna, que vimos sair pelo reto. O esôfago, a traquéia-artéria e a língua também se despojaram e a doente lançara vários pedaços por meio de vômito ou de expectoração”. 
E eis como, menos de cem anos depois, um médico percebe uma lesão anatômica do encéfalo e seus invólucros; trata-se das “falsas membranas” que frequentemente se encontram nos indivíduos atingidos por “meningite crônica”: “Sua superfície externa aplicada à lâmina aractnóide da dura-máter adere a esta lâmina, ora de modo muito frouxo, e então elas podem ser separadas facilmente, ora de modo firme e íntimo, e neste caso é às vezes difícil desprendê-las. Sua superfície interna é apenas contígua à aracnóide, com a qual não contrai união… As falsas membranas são frequentemente transparentes, sobretudo quando muito delgadas; mas habitualmente apresentam uma cor esbranquiçada, acinzentada, avermelhada e, mais raramente, amarelada, acastanhada e enegrecida. Esta matéria oferece quase sempre matizes diferentes segundo as partes da mesma membrana. A espessura dessas produções acidentais varia muito: são, às vezes, tão tênues que poderiam ser comparadas a uma teia de aranha… A organização das falsas membranas apresenta igualmente muitas diferenças: as delgadas são cobertas por uma crosta, semelhante às películas albuminosas dos ovos e sem estrutura própria distinta. As outras, muitas vezes, apresentam, em uma de suas faces, vestígios de vasos sanguíneos entrecruzados em vários sentidos e injetados. São constantemente redutíveis a lâminas superpostas entre as quais são, com muita frequência, interpostos coágulos de um sangue mais ou menos descolorido”. 
Entre o texto de Pomme, que conduzia os velhos mitos da patologia nervosa à sua última forma, e o de Bayle, que descrevia, para uma época que ainda é a nossa, as lesões encefálicas da paralisia geral, a diferença é ínfima e total. Total para nós, na medida em que cada palavra de Bayle, em sua precisão qualitativa, guia nosso olhar por um mundo de constante visibilidade, enquanto o texto precedente nos fala a linguagem, sem suporte perceptivo, das fantasias. Mas que experiência fundamental pode instaurar nessa evidente separação aquém de nossas certezas, lá onde nascem e se justificam? Quem pode assegurar-nos de que um médico do século XVIII não via, mas que bastaram algumas dezenas de anos para que as figuras fantásticas se dissipassem e que o espaço liberto permitisse chegar aos olhos o contorno nítido das coisas?
Logo,

Isto significa que, tratando-se de imagens, é particularmente necessário renunciar às pretensões da metafísica, quando esta forja “um conjunto de concepções tão abstratas e, por conseguinte, tão vastas, que nele caberia todo o possível, e mesmo o impossível, ao lado do real”, enquanto que o pensamento filosófico, para ser preciso, deve constantemente “aderir ao seu objeto”. O elogio das singularidades proposto nestas linhas por Bergson – enquanto se espera por Gilles Deleuze – acabava, como sabemos, por recusar a maneira como quase toda tradição metafísica do Ocidente terá privilegiado a permanência das formas fixas, facilmente pensáveis na sua idealidade, em detrimento das formas moventes, tão difíceis de apreender nas suas durações concretas, nas suas mudanças, nos seus anacronismos e metamorfoses: “Foi assim que a metafísica foi levada a procurar a realidade das coisas acima do tempo, para além daquilo que se move e que muda, fora, por conseguinte, daquilo que os nossos sentidos e a nossa consciência percebem. Desde então, a metafísica já não podia ser mais que um arranjo de conceitos mais ou menos artificiais, uma construção hipotética. Pretendia ultrapassar a experiência; na verdade, não fazia mais do que substituir a experiência movente e plena, suscetível de um aprofundamento crescente, e portanto prenhe de revelações, por um extrato fino, ressequido, esvaziado, um sistema de ideias gerais e abstratas, retiradas dessa mesma experiência, ou antes, das suas camadas mais superficiais. Seria o mesmo que dissertar sobre o envoltório do qual se libertará a borboleta, e pretender que a borboleta voante, cambiante, viva, encontre a sua razão de ser e o seu remate na imutabilidade da película. Retiremos, pelo contrário, o envoltório. Despertemos a crisálida. Restituamos ao movimento a sua mobilidade, à mudança a sua fluidez, ao tempo sua duração”. (citação do mesmo texto de Georges Didi-Huberman, onde ele cita à vontade O pensamento e o movente, de Henri Bergson)


Esse um dos motivos pelo qual criamos O Abertinho.

Para responder aos críticos (agora que já os temos), vamos começar por nova citação, com nova “imagem”, tirada de outra introdução, não mais de Foucault, mas de Diferença e Repetição, de Gilles Deleuze:

Como escrever senão sobre aquilo que não se sabe ou se sabe mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados a escrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou melhor, torná-la impossível. Talvez tenhamos aí, entre a escrita e a ignorância, uma relação ainda mais ameaçadora que a relação geralmente apontada entre a escrita e a morte, entre a escrita e o silêncio. Falamos, pois, de ciência, mas de uma maneira que, infelizmente, sentimos não ser científica.

Vamos a uma das críticas. com uma resposta rápida, de ocasião Deixamos somente as iniciais para não expor as pessoas:

G. B.: Olha o nível “cientifico” da coisa:
“Qual será a imagem de herdeiro que embala suas noites de insônias enluaradas? A do Friedman carioca, devidamente morto e ainda não enterrado, FHC, ou ainda outra figura ainda mais obscura?”
“A primavera dos governos do PT substituídos por um grupo aboletado no poder, simplesmente para “parar essa porra”, é difícil de acreditar. Todo o prestígio alcançado para agora essa porra…”
“E dane-se também quem diz que isso não é filosófico nem acadêmico, nem tem nada de Foucault e é mero panfleto político. Vá discutir sobre o diâmetro do cú dos anjos com quem quer que seja.”
A. L.: Sempre aparecem uns lixos abitolados em política.
Rogério Mattos: G. B., você pegou os textos políticos e foi questionar a parte científica. Pega lá então os textos sobre Kepler, uma que se chama “Um Rio e muitas Baixadas”, sobre A Nova Rota da Seda, os Desenganos da Teoria Racial, Como o Homem Vê seus Deuses, etc. São inúmeros. Pincelar duas ou três coisas da primeira página e vomitar é mole.

Rogério Mattos: A. L., você sabe sobre o que você está falando?

Agora pergunto ao G. B.: somente na literatura, por exemplo, em romances, até em poesia, se pode falar de maneira bem livre, talvez completamente livre, com palavrões, com erotismo bem forte, com colóquios informais, etc., e isso é considerado arte, “invenção”, “liberdade de criação artística”? Daí segue a fórmula: em textos políticos podemos ter relativa liberdade para criticar, podemos até ser duros, mas, como nossa linguagem se aproxima da do jornalismo, não podemos chegar às extremidades da linguagem literária. No caso, fiz a mera divulgação de um cartaz que criei para meu site num grupo de divulgação científica. Eu, mal informado, sem dar conta que meu blog trata de inúmeras outras coisas e da maneira mais livre possível, esqueci que, talvez, ali não tivesse nenhuma ciência… Tem uma relação, na crítica, entre “o diâmetro do cú” e os estudos acadêmicos, só que o que vale para a “linguagem jornalística” serve igualmente para a Igreja ou para a Academia – pouco importa.
Tem uma outra crítica, curta, porém bem importante, e que “serve a carapuça” para como escrevi esse post. É de uma moça chamada Sue: “Parece que escreveram o texto com gerador de qualquer coisa”. Acertou na mosca! Foi sobre um texto que, para os parâmetros do blog, fez um sucesso tremendo, intitulado “A culpa não é do Cabral, estúpido!, mas da queima de arquivos, como na ditadura“. De fato, o tema seria a prisão do Sérgio Cabral. Mas fizemos tudo menos do que um “texto informativo”. Na verdade, “informamos” sobre diversas outras coisas que estão passando agora no Brasil e no mundo; a questão das perseguições políticas (não só aqui, como nos EUA, na Europa, a demonização da China e do presidente da Rússia – e dos russos de um modo geral -, sobre a questão das “notícias falsas”, verdadeiro tema no noticiário mundial e que aqui é utilizado bem suavemente pela mídia (imagina a mídia daqui, do jeito que está, fazer uma campanha aberta contra as “notícias falsas”?!), que tem relação com os vazamentos – estes diretamente relacionados ao assustador crescimento da espionagem mundial -, sobre o neomacartismo aqui e lá fora, etc. Realmente, no post em questão, fizemos um recorte de tudo. 
Numa resposta de bom coração, se exprimiu assim um leitor (transcrição literal, sem correção de erros ortográficos e/ou gramaticais, mais normais ainda na “correria” da internet”):

Olha só, a eterna mentalidade colonizada brasileira, é comum este pensamento sobre o “nórdico superior” e o “mediterrânico inferior” culturalmente falando, assim sendo as atrocidades dos ingleses e dos franceses eram “necessárias enquanto os ibéricos eram simplesmente “perversos”, e este pensamento se reflete entre historiadores, que são totalmente “francófilos” e pra completar a “martelada na moleira” dos brasileiros, existe atualmente uma proposta do governo usurpador em QUEIMAR ARQUIVOS HISTÓRICOS, já digitalizados”! Como já dizia o velho ditado: “o Brasil não é para amadores”. Realmente!

Nosso leitor talvez tenha lido o primeiro, no máximo o segundo parágrafo. Talvez simplesmente o título ou a descrição que fiz da publicação. Como expliquei acima, ela tratava de coisas completamente diferentes, inclusive em continuação ao post “Não mais notícias falsas”: a volta do macartismo hoje. É como se numa notícia comum no nosso noticiário, junto a uma notícia comum do noticiário estrangeiro, eu amarrasse os dois e criasse essa máquina de misturar temas, terminologias, conceitos, áreas do saber, etc., esse “gerador de qualquer coisa”, como falou a Sue. E esse lugar aqui é um lugar experimental. É exatamente para experimentar esse tipo de linguagem. Se não iria para a Igreja ou para a Academia – pouco importa – e faria uma carreira exclusiva como eunuco de qualquer coisa.
Tudo são recortes, “bricolagens” (como no Anti-Édipo), antropologias, diferenças – e pouco importa como o “sujeito universal” irá julgar. No mais, bom poder falar novamente de mim mesmo, e coisas que gosto, como nas citações extensas colocadas acima, e poder falar, por fim, em termos bergsonianos, que a linguagem mais relaxada que utilizei nos últimos parágrafos tem uma diferença de grau, mas não de natureza, da linguagem que utilizei no início, inclusive da linguagem, do tema o da intenção, dos autores que citei. E para quem leu até o final e talvez se sinta frustrado por não ter lido o texto sobre arte exatamente como imaginou ao clicar, só posso falar que não há arte sem liberdade, palavra esta entendida no sentido renascentista, como Gil Vicente ou Rabelais fizeram em seu tempo; como Lima Barreto e Nelson Rodrigues em tempo e contexto totalmente diverso; e até no humor fino, de mudez proporcional à vontade de se gargalhar, dos romances do pós-guerra de Samuel Beckett (os livros novos são de um humor mais aberto); na graça encontrada por Deleuze e Guattari nos textos de Kafka, e na extrema gargalhada que se dá ao ler o Anti-Édipo – e todos acham que aquilo é um “livro difícil”, um “livro cabeça” e coisas do gênero. O “baixo corporal” também existia em Kafka, como o excelente livro sobre a “literatura menor” nos mostra. Tudo, mais uma vez, questão de saber como olhar: em imagens fixas ou em imagens moventes. Ver as borboletas com a casmurrice de Kant ou como Goethe ou Michelet, para quem a renovação das nossas artes passava pelo estudo dos insetos (novamente o baixo – corporal ou não – o ínfimo, o menor), já que para ele “o ornamento, em vez de procurar a sua renovação nas velharias,ganhará em inspirar-se numa infinidade de belezas”, como na dança das medusas, no olho das moscas ou nas asas das borboletas. tudo muito estranho ou risível ou até nojento. Como minhas palavras. Como esse blog.

Obs: nesse post queríamos falar, na verdade, sobre a questão da criação de novas plataformas para o desenvolvimento da humanidade. Utilizaria os estudos do cientista russo Vladimir Vernadsky em companhia do “imperativo extraterrestre” do astronauta Krafft Ehricke. Já que a crítica seria sobre o não caráter científico do blog, “retrucaria” com isso. Mas o texto de Didi-Huberman estava quase “no prelo” e achei que a temática (“tu borboleteias”) servia para elaborar uma resposta. Na verdade, estou devendo a mim mesmo, faz algum tempo, um texto sobre o Vernadsky. Assim, numa outra oportunidade, falarei sobre a necessidade contínua da criação de novas plataformas de conhecimento, o que também corresponde ao nascimento de novas linguagens e olhares.