Reflexões sobre o Aberto

Fluxos e cortes: efeitos de máquinas e não metáforas – O Anti-édipo

A divisão do trabalho social, a partir do século XX, atingiu um nível de refinamento que praticamente podemos falar de uma “revolução neolítica” no século anterior, o XIX. Neste, ainda se podia ver o tempo da charrua e o tempo da igreja, de Jacques Le Goff; um mundo rural relativamente predominante, quando os mercadores ainda não poderiam de alguma forma serem financistas, como o deputado Mabel, ilustre defensor do impeachment e da flexibilização das leis trabalhistas. A aliança de interesse entre comerciantes, “empresários” cujos negócios mascaram os mais variados áreas do empreendedorismo (como o galponismo presidente da Fiesp), os industrialistas stricto sensu, e a área das finanças, torna tênue a linha daqueles que propõem o progresso, o crescimento econômico, o desenvolvimento social, etc., daqueles vendilhões empenhados na internacionalização de nossa economia (quando não na defesa pura e simples da dolarização de nossa moeda, como no caso glorioso do Plano Real do Príncipe e de seu acadêmico Gustavo Franco), e que sempre se utilizam da ilustre ciência da matemágica para enganar tolos e desavisados – sempre a assim chamada classe média, e não os “pobres e analfabetos” que se encantam pelo “fascínio carismático” que os acadêmicos chamam de “populismo”.

Quando falo na divisão do trabalho no século XX, na revolução neolítica do século XIX, não penso tanto em Durkheim, mas no cientista russo Vladimir Vernadsky. Seu conceito de autotrofia humana, talvez mais importante do que o binômio conceitual biosfera/noosfera, remete às conquistas do ser humano nos últimos séculos, quando não só chegamos a todos os continentes do planeta, como somos capazes de habitar qualquer um deles. Estávamos (quando ele, em seus últimos escritos, começou a elaborar seu conceito) prestes a chegar no primeiro ponto fora do planeta, na ante-sala da conquista do sistema solar – claro, ainda não realizada. Não vou me alongar por agora na irrelevância de estudos que mostram que para cada dólar investido no Projeto Apolo, voltaram 14 para a economia americana. São dados inúteis quando se está utilizando a internet, quando se precisa fazer exames laboratoriais (a medicina nuclear), ou são 14 dólares completamente nulos se pensarmos em termos de fusão nuclear ou na exploração, prevista para ser realizada até 2020, do lado oculto da lua pelos astronautas chineses, ou a Nova Rota da Seda, única alternativa para a paz diante de uma nova (super quente) Guerra Fria. Não se mede por matemágica a importância humana do investimento social na economia.

Estar no Aberto não é pensar em “eleições já”, numa melancólica tentativa de reencenamento da campanha pós-ditadura, não menos depressiva do que a farsa dos novos caras pintadas, dos paneleiros (adjetivo, cá entre nós, muito mais escroto, sarcástico, do que o rebatido “coxinha”), que, de acordo com o oráculo do Cinegnose, fez ressurgir espécimes do Brasil Profundo. Não preciso me alongar, falar doutoralmente sobre as “capacidades gerenciais” de Dilma Rousseff. Ela é o oposto do que sempre praticou a rede Globo. Guerrilheira, brizolista, brigou com Marina Silva desde sua permanência no cargo de Ministra de Minas e Energia (não é uma ambientalista, nenhuma figura new age de antigas aspirações coloniais) até as últimas eleições (e continua a brigar, pois a fadinha quer menos o impeachment que sua impugnação pelo TSE e – oh! – novas eleições para se deleitar nos holofotes da Globo e do Itaú), alguém que sempre optou pelo desenvolvimento stricto sensu e não em matemágicas ou utopias parapolíticas como na “esquerda cheirosa”. Pelo contrário, nada mais a favor dos direitos humanos do que acabar com a miséria, defender a aliança com os BRICS, inaugurar o PAC 1 e 2 e quantos mais forem necessários. De resto, sobra defender os pobres e excluídos contra uma suposta militarização. Não se trata de autoritarismo, mas de engenharia social. Genocídio, para falar o português correto. Para usar o jargão, a polícia que mais mata é também a que mais morre. Se fizerem um bom pool, vão ver que entre a família dos policiais existem bem poucos paneleiros. Não é o Brasil da Paulista ou do Leblon que trabalha nas “quebradas”.

Justificamos o Abertinho diante da magnitude do Aberto. Como no mistério medieval da quadratura do círculo resolvido por Nicolau de Cusa, o círculo é de uma forma superior de existência ao do quadrado. Por isso somos restritos a uma douta ignorância. Os círculos perfeitos, pensáveis talvez, mas irrealizáveis, não se coadunam com a realidade física; a mente divina não iguala a humana, assim como esta é única em sua espécie, muito superior aos ursos pandas do WWF. Por isso, incapazes de estabelecer o Aberto, refletimos sobre ele, podendo assim conceber o Abertinho, um espaço público, porém sem prejuízo de seu estreitíssimo uso privado: a capacidade de escrita deste que vos fala.

O “grande cerceamento”, ou aprisionamento, como relatado por Foucault em sua História da Loucura na Idade Clássica, nada mais é do que a história dos sobrinhos de Euclides, o geômetra. Enquadrar o círculo da loucura, aprisionar as “crianças masturbadoras e os monstros humanos” (o “grande aprisionamento” está mais em Vigiar e Punir, onde relata a luta das raças, a busca de uma paz hobbesiana pela sociedade do século XIX), reduzir tudo à economia política – e não falar nem de uma nem da outra –  ou aos parâmetros de mercado, à matemágica – essa a história dos sobrinhos de Euclides. Porém,

 

A terra está morta, o deserto cresce: o velho pai está morto, o pai territorial, e também o filho, o Édipo déspota. Estamos sós com nossa má consciência e com nosso tédio, com nossa vida em que nada acontece; nada mais do que imagens a girar na representação subjetiva infinita. Porém, reencontramos a força de acreditar nessas imagens, força que nos vem do fundo de uma estrutura que regula nossas relações com elas e nossas identificações como tantos outros efeitos de um significante simbólico. A “boa identificação”. Somos todos Chéri-Bibi no teatro, gritando diante de Édipo: eis um tipo como eu, eis um tipo como eu! Tudo é retomado, o mito da terra, a tragédia do déspota, como sombras projetadas num teatro. As grandes territorialidades desmoronam-se, mas a estrutura procede a todas as reterritorializações subjetivas e privadas. Que operação mais perversa é a psicanálise: culmina-se nela esse neoidealismo, esse culto restaurado da castração, essa ideologia da falta que é a representação antropomórfica do sexo[1]!

 

Nada melhor para ilustrar o neomacartismo, hoje com ídolos tão efêmeros, sem todo o “conteúdo” do Édipo lacaniano. O “mito da terra”, nosso precário nacionalismo baseado em Moros e Barbosas – em homens vestidos de negro, de luto como os já enterrados black-blocks; a “tragédia do déspota” – acho que não preciso citar o nome. “Reterritorializações subjetivas e privadas”: agora se quer uma nova eleição; isso sai de dentro do “campo progressista”! Valei-me. Novamente os ideais ascéticos, novamente a busca por pureza… Cortar na própria carne, todo um novo sistema da crueldade:

 

A máquina territorial primitiva codifica os fluxos, investe os órgãos, marca os corpos. Até que ponto circular, trocar, é uma atividade secundária em relação a esta tarefa que resume todas as outras: marcar os corpos, que são da terra. A essência do socius registrador, inscritor, enquanto atribui a si próprio as forças produtivas e distribui os agentes de produção, consiste nisto: tatuar, excisar, incisar, recortar, escarificar, mutilar, cercar, iniciar. Nietzsche definia “a moralidade dos costumes como o verdadeiro trabalho do homem sobre si mesmo durante o mais longo período da espécie humana, todo seu trabalho pré-histórico”: um sistema de avaliações que tem por força de direito em relação aos diversos membros e partes do corpo (…) Diz Nietzsche: trata-se de dar uma memória ao homem; e o homem, que se constituiu por uma faculdade ativa de esquecimento, por um recalcamento da memória biológica, deve arranjar uma outra memória, que seja coletiva, uma memória de palavras e já não de coisas, uma memória de signos e não mais de efeitos. Sistema da crueldade, terrível alfabeto, esta organização que traça signos no próprio corpo: “Talvez nada exista de mais terrível e inquietante na pré-história do homem do que sua mnemotécnica… Isto nunca ocorria sem suplícios, sem martírios, sacrifícios sangrentos, quando o homem julgava ser necessário criar uma memória para si; os mais apavorantes holocaustos, os mais hediondos comprometimentos, as mutilações repugnantes, os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos… Isso nos leva a compreender o quão difícil é erigir na terra um povo de pensadores!”. A crueldade nada tem a ver com uma violência qualquer ou com uma violência natural, com que se explicaria a história do homem; ele é o movimento da cultura que se opera nos corpos e neles se inscreve, cultivando-os. É isto que significa crueldade. Esta cultura não é o movimento da ideologia: ao contrário, é à força que ela põe a produção no desejo e, inversamente, é à força que ela insere o desejo na produção e reprodução sociais. Com efeito, até a morte, o castigo e os suplícios são desejados, e são produções. Faz dos homens e dos órgãos peças e engrenagens da máquina social. O signo é posição de desejo; mas os primeiros signos são signos territoriais que fincam suas bandeiras nos corpos. E se quisermos chamar “escrita” a esta inscrição em plena carne, então é preciso, com efeito, que a palavra falada supõe a escrita, e que esta é este sistema cruel de signos inscritos que leva o homem a ser capaz de linguagem, e lhe dá uma memória de palavras[2].

 

Não o Teatro da Crueldade de Artaud, mas um novo sistema de punições, utilizar a justiça como instrumento de vingança:

as senhoras católicas são piedosas

os comunistas são piedosos

os comerciantes são piedosos

só eu não sou piedoso

seu eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos

             sábados à noite

eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me

            fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

Roberto Piva em Paranoia não se preocupa com economia política, com nacionalismos capazes de resgatar a pureza de nossa pátria. Os patriotas são piedosos. Todos, menos o Almirante Othon, verdadeiro herói nacional aprisionado pelo novo sacerdote, o novo torturador, o queridinho do MP. Cuidado com a censura que já volta a correr solta. Não se deve ser nacionalista, se deve ser BRICS, deve-se ser russo, chinês, sírio, hamiltoniano, larouchista, juscelinista e não varguista. Deve-se ser “criança masturbadora e monstro humano”, petista enfim, a ponto de defender até o fim a biografia (!) e o talento nato (!!!) da excelentíssima senhora Dilma Rousseff e ser passado por louco, inclusive dentro de meios petistas. Criar uma nova memória: Mani Lipute. Ser enquadrado, cerceado, aprisionado: o senso-comum e o bom-senso, como expresso na Diferença e Repetição, ou seja, somente a Imagem do Pensamento – Descartes, Hegel, um Nietzsche domesticado, um Kant iluminado, um Foucault neoliberalizado. Ler o PIG diuturnamente e comentar. Somos de esquerda! E colocar nossos sábios comentários no Facebook e sabe-se lá mais aonde. Numa mesa de bar que é como se estivéssemos conversando a sós dentro de uma sauna. Ah!, discutir o Brasil… Os grandes pensadores – que devem se revirar nas tumbas nessa hora. Não ouso citá-los em tal contexto. “Formar opinião”, enfim. Parecem rebentos da imaculada Folha de São Paulo. Vamos bater palmas para depois continuar a ouvir a cantilena.

– Não!, eu sou a favor do mercado.
– Não!, eu sou a favor do Estado.

ou

– Por que navio bóia?
– Por que prego afunda?

E a idiotice grassa. Bem-vindos ao já nascido glorioso Abertinho.

NOTAS

[1] Edição da Editora 34 do Anti-Édipo, p. 406.

[2]Idem, p. 191-3. Grifos meus.