Imagens sonoras e visuais num misterioso romance de Nei Lopes

Os que acreditaram em mim estão perdoados: acreditaram na História. ‘A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo’, sabe de quem é isso, meu prezado Correia? Nos domínios do Grão-Turco só são reais os indomáveis delírios”. Joel Rufino dos Santos, Crônica de indomáveis delírios.

O texto pode ser lido em pdf no Academia.edu

Os crimes da Copa

A Copa do Mundo no Brasil em 2014 reuniu o descontentamento difuso e confuso de junho de 2013 em favor de uma causa comum: a corrupção. Talvez ali esse velhíssimo artifício utilizado pelos setores mais atrasados da sociedade brasileira veio à luz novamente, através de uma estranha união entre manifestantes esquerdistas indignados com o valor dos estádios, com outros que achavam que o valor era simples escusa para desvio de recursos públicos. Sempre será difícil distinguir um grupo do outro, porque ambos concordariam que a Copa não deveria ser realizada, mas aquele dinheiro deveria ir para áreas prioritárias como educação e saúde. Com a criação da Lava-Jato no mesmo ano, novamente ambos os grupos se reúnem para combater o mal invisível, somente extinto se com ele acabar a carne humana – grande tema teológico! –, a corrupção.

Hoje, depois de tantos descaminhos, se vê com um pouco mais de clareza todas as brutalidades realizadas em favor de um bem maior, escatológico. Hoje todos os criminosos confessos estão soltos e com suas fortunas no bolso, à exceção do ex-governador do Rio, verdadeiro boi de piranha. Tal como os antigos estudantes “irresponsáveis” que assassinaram o suposto jogador Bigode, cidadão comum morto a pauladas depois da final da Copa de 54, para eles não vale a força da lei. Não deixa de ser uma ironia associar esse Crime da Copa, narrado por Nei Lopes quase 60 anos depois, em janeiro de 2013, com o estado de anomia social que a Copa de 2014 iria agrupar, isto é, o pior de junho de 2013, o esquerdismo moralista (logo depois morista), a criação da Lava-Jato e a ascensão da extrema-direita com suas camisas verde-amarelas. O fato de ser estudioso dos dilemas das classes mais empobrecidas do país, com certeza ajudou Nei Lopes a escrever um livro de visão[1], bem diferente de um livro de resistência.

No romance Rio Negro, 50, o crime acima aludido se associa ao misterioso crime onde um Padre ou Engenheiro é assassinado dentro de um carro de placa DKM. Para quem assistiu ao filme Assalto ao trem pagador, talvez lembre que Engenheiro era chamado um personagem nunca identificado, porém responsável pelo planejamento do assalto ao trem. Por motivos próprio à releitura que Nei Lopes faz do filme enquanto escreve seu romance, a figura do Padre é somada a do Engenheiro. Politiza-se o debate, pois a Igreja está intimamente relacionada às conspirações políticas da década de 1950. Ao mesmo tempo em que politiza ou se coloca na história um debate antes amarrado à ficção (quem seria o personagem X), Nei Lopes conjuga personagens populares que ajudam a ampliar sua ficcionalização romanesca e, por artifícios engenhosos, contar melhor a história social, cultural, econômica e política daquela época. É quando entra em cena a figura de Jurema, aquela que sobrevive ao crime (inventado?) chamado de DKM.  Nelsinho Lorde, namorado da garota, é preso ao buscar informações sobre seu paradeiro. Emulando o crime da Copa, mais um inocente, proveniente das camadas mais pobres da sociedade, é colocado como bode expiatório de um crime cometido por ricos. Mas essa é só a armadura geral da história contada por Nei…

A invenção do áudio-visual                     

Gilles Deleuze conta sobre Maguerite Duras que ela iniciou como uma grande cineasta da casa, “tema tão importante para o cinema, não apenas porque as mulheres ‘habitam’ as casas, em todos os sentidos, mas porque as paixões ‘habitam’ as mulheres” (DELEUZE, 2007, p. 305). Ela abandona o antigo lócus porque nele os componentes visuais e sonoros em sua autonomia se confinam numa mesma imagem audiovisual, o lar.

Todavia, ir mais longe, atingir a heautonomia de uma imagem sonora e de uma imagem visual, fazer das duas imagens as perspectivas de um ponto comum situado no infinito, esta nova concepção do corte irracional não pode se fazer na casa, nem com ela. Sem dúvida a casa-parque já tinha a maior parte das propriedades de um espaço qualquer, os vazios, as desconexões. Mas era preciso abandonar a casa, abolir a casa, para que o espaço qualquer pudesse se construir tão-somente na fuga, ao mesmo tempo que o ato de fala se via “sair e fugir”. As personagens, na fuga, deviam se encontrar e responder. Era preciso conseguir o inabitável, tornar o espaço inabitável (praia-mar, ao invés de casa-parque), para que ele atingisse uma heatonomia, comparável à do ato de fala que se tornou inatribuível: uma história que já não tem mais lugar (imagem sonora) para lugares que já não têm história (imagem visual). E seria este novo traçado do corte irracional, a nova maneira de o conceber, que constituiria a relação audiovisual.

(DELEUZE, 2007, p. 305)

Logo, a fala-desejo deve atingir o mar, conseguir o inabitável. Sem um lugar que já não tem história não se pode ouvir uma história que já não tem mais lugar, porque “as coisas apagam-se sob a maré, mais do que se enterram sob a terra seca” – é assim que Deleuze define um ato de fala mais profundo que um texto. “Cinematograficamente, Marguerite Duras pode ser aproximada de um grande pintor que diria: se conseguisse ao menos captar uma onda, nada mais do que uma onda, ou até mesmo um pouco de areia molhada…” (DELEUZE, 2007, p. 307). É o mesmo movimento da casa ao mar ou do rio para o mar que marca a escritura de Nei Lopes. Do crime banal, cotidiano, animalesco, que prolifera nas páginas diárias dos jornais, ao crime inaudito, inatribuível, que “vai embasbacar Hollywood e o mundo. Se Deus quiser!”. Assalto ao trem pagador.

Mas não é só isso. Quem é Jurema, afinal, personagem pivô da história onde deságua o livro e onde a história do crime se cruza por todos os lados? Jurema é Norma Nadall, cantora, dançarina das boates de Copacabana. Seu duplo (como os inúmeros duplos que podem ser traçados a partir do livro) é Dolores Duran, a trágica cantora que se morre aos 29 anos de idade. E isso ainda é muito pouco, afinal. O militante do Uagacê, Esdras, é uma imagem condensada do coletivo singular fala-desejo, que plasma a imagem sonora de outro regime de visibilidade, o de Abdias Nascimento em sua participação no 1º Congresso do Negro Brasileiro e na criação do TEN e, mais tarde, do conceito de cordialidade reconfigurado a partir da sociologia de Guerreiro Ramos. Imagens visuais (Dolores Duran, Guerreiro Ramos, Abdias Nascimento) ao lado de imagens sonoras que expressam os anseios coletivos: Jurema e Esdras.

Um corte irracional separa o que está por detrás do espelho da prosa ou sob as cinzas da multiplicidade de falas: as imagens sonoras e as imagens visuais se encontram num ponto no infinito, lá onde o historiador não pode mais discernir o que são relatos factuais, verdadeiros, expressos no romance, e o que é pura invenção. A ambivalência da imagem visual está na divisão entre os dois bares: lugares que já não tem mais história e por isso precisam ser inventados. Do improvável Rio Negro ao possível Abará se dividem as falas da intelectualidade e os da arraia miúda. O Abará é o bar possível – o encontro da gente comum – e o Rio Negro o bar em potência – a reunião de todos os sábios. Assim, este é uma virtualidade visível, enquanto o outro o atualiza das formas mais diferentes as potencialidades do primeiro através dos diálogos e dos dramas interpessoais. Colocados numa campo comum, o Rio Negro atualiza as discussões públicas e intelectuais de Edson Carneiro, Guerreiro Ramos, Abdias Nascimento – algo que podemos “ver” –, além do próprio Nei Lopes, camuflado no advogado Paula Assis. Enquanto isso, da arraia miúda, da multidão de bicheiros, malandros, jogadores de futebol, sambistas, alcoólatras e pederastas, surge Norma Nadall, como a ponta extrema da visualidade das duas imagens construídas por Nei Lopes, sonora e visual, Rio Negro e Abará. Norma é uma imagem sonora, um coletivo singular, uma fala-desejo. Será conectada com uma série de imagens visuais, mas primeiro podemos ver como ela expressa o lugar das paixões, da casa que quer virar rua, mundo.

Jurema jamais quis ser escrava.

Vinte e três anos, muito bonita, alta e elegante, nasceu para ser senhora, dona, madame… Lady Jurema!

Usa os cabelos, muito pretos e lustrosos, enrolados num coque no alto da cabeça, e brincos de argola nas orelhas. Veste-se de modo ousado, mas com extremo bom gosto. Parece branca; mas sua figura lembra a de Dorothy Dandridge no filme Carmen Jones, em cartaz no Metro Passeio. E foi com todo esse cacife que ela chegou ao Night and Day. Não como vedete, como muitos pensam e ela não nega,m as como corista e dançarina nos shows de Carlos Machado. Rebatizada como… Norma Nadall.

(LOPES, 2015, p. 111)

Nei atesta a “certidão de nascimento” de Jurema

Esta seria a “certidão de nascimento” de Jurema no romance: teria morado em Anchieta, depois foi para mais longe, Ricardo de Albuquerque e finalmente na Baixada Fluminense, em Olinda, no atual município de Nilópolis. Olinda e Anchieta, contudo, são próximos, como Pavuna faz fronteira com São João de Meriti. Bairros fronteira, esquecidos, bem diferentes de outros do subúrbio como a Vila Cosmos, próximo a Vila da Penha, bairro planejado e “muito chique”. Ela teria sido muito pobre, morado numa casa de estuque com telhado de zinco, com apenas um cômodo e cozinha do lado de fora, na beira de um rio onde jogam todo tipo de entulho. Conta esta “história horrível” para provar como “Deus é bom e escreve certo por linhas tortas”. Contudo, sua história antes de se tornar Norma Nadall é bem diferente:

Ainda menina (com porte de mulher), ela é da “pá-virada”, já morava na Serrinha, amasiada com um rapaz mais velho. Mas frequentava Madureira e, escondida do amásio, ia a sambas e bailes, até em Irajá, Vicente de Carvalho e Cordovil. O rapaz com quem viva era pacato, tinha como lazer apenas o futebol, aos domingos. Apreciava a escola de samba, mas não participava muito; achando que a política lá era mais forte que o samba, e que o pessoal do Cais do Porto era arrogante e queria sem ser melhor que os outros moradores do Morro. O rapaz era pacato e caseiro. Então, a leviana aos poucos foi saindo do domínio e da órbita do coitado.

Em sua cabecinha de menina, pairavam e bailavam, sempre e muito, Carmen Miranda; Greta Garbo com Tyrone Power; Coca-Cola, cigarros Hollywood… Jurema gostava de cantar, tinha voz bonita e um dia sonhou que era ela que Sílvio Caldas cantava aquele foxe: “Não sei que intensa magia / teu corpo irradia / que me deixa louco assim, mulher”.

Então, o seu mundo, mesmo, logo passou a ser o Dancing Vitória Brasil. pomposo nome de Gafieira do Irajá. E é lá, ao som de ‘Falsa baiana” e outros sambas puladinhos, que ela conhece seu Homem: “Nelsinho Lorde”, da Ala dos Lordes da Unidos do Salgueiro, exímio dançarino, sempre bem-arrumado e perfumado, cabelo impecavelmente “esticado”, com aquele preparado especial.

(LOPES, 2015, p. 113-4)

De Madureira para Copacabana é o itinerário de Jurema após encontrar Nelsinho Lorde, o bicheiro do Catete. Antes de prosseguir, é importante traçar algumas nuances no retrato que Nei Lopes faz de sua personagem. Não é um jogo de “verdades ou mentiras”. Ela ainda menina, mas com porte de mulher, ou seja, uma adolescente de no máximo 14 ou 15 anos com o desenvolvimento físico bastante adiantado (ela poderia ter 12 ou 13 também, a depender do biótipo), foi parar na Serrinha depois de amasiada por um rapaz mais velho. A narrativa posterior não invalida a anterior, a infância pobre em “bairros fronteira”. O jogo da prosa em questão é realçar que Jurema enfatiza a infância e esconde o que talvez achasse “a parte boa” de sua vida. Nelsinho a leva para Copacabana, mas, bem antes, conheceu Sebastião Quirino dos Santos (ele mesmo, o Sei Tião do Assalto ao Trem Pagador…), compadre de seu pai, ali mesmo, em Anchieta…

Nelsinho se diz “conferente do Cais do Porto”. Na época, não só a área comercial, mas também a industrial ainda se concentravam na região. Em paralelo, militares da Marinha e outros funcionários públicos se aglomeravam por ali, boa parte fazendo parte de uma “arraia miúda”, remediada, que viviam como quase ricos num país assolado pelo trabalho precário e o desemprego, fruto direto das políticas de Estado do pós-Abolição. Ela vai para um minúsculo e caótico conjugado em Copacabana com mais duas colegas, “provisoriamente”, como o “Lorde” faz questão de frisar, enquanto não arruma para ela uma “colocação” melhor. “Essa ocupação, entretanto, quando chega, vem sob a inapelável forma trottoir na Avenida Atlântica; o que, ante os argumentos de Nelsinho, ela não tem como recusar. E acostuma; pois é típica ‘mulher de malandro’: apanha mas arranha também; e cada briga com seu homem termina sempre numa extenuante mas prazerosa refrega de amor” (LOPES, 2015, p. 114-5). Jurema se fixa em Copacabana, mas não vai trabalhar nas boates do bairro, um fenômeno novo e disputado naquela década. Ela consegue emprego no Night and Day, uma boate de grã-finos no centro da cidade, em especial de políticos, próximo ao hotel Serrador, onde um “senhor distinto e educado” a fixa. Fora apresentada ao distinto cidadão enquanto frequentava a noite de Copacabana. Sua identidade permanece velada por todo o romance.

Na verdade, Paula Assis, o advogado, não chega a assumir o papel de protagonista dentre tantas pessoas de destaque que desfilam entre o Rio Negro e o Abará, mas ele permanecesse resolutamente em seu labor, tal como um reles contínuo ou amanuense. Se ele é apresentado como advogado, nos parece mais com a figura do detetive reconfigurado. Se nos romances policiais o detetive sempre se destaca e a trama gira ao redor de suas buscas e descobertas, Paula Assis diz preferir manter boa parte do que sabe sobre o “Crime do DKM” como segredo profissional, em benefício de seu cliente, Nelsinho Lorde.

Nunca, explicitamente, aparecem as inúmeras conexões que podem ser feitas através da leitura do romance. Se existe algo a ser destacado, entre tantas outras coisas, na prosa de Nei Lopes, é como ele consegue articular um livro muito fácil de se ler e ao mesmo tempo muito atraente, com costuras inusitadas que deixam ao leitor virá-las ao avesso e ir tecendo histórias paralelas às histórias relatadas pelo escritor: um ato de fala puro que se arranca à própria escritura.

Padre ou Engenheiro? Assassino ou assassinado? A revisão da tese do filme

Jurema, no caso que agora será exposto mas que não será por ora desenvolvido mais amplamente, trata seu protetor como o “Padre”. A referência fica clara bem mais tarde, ou seja, agora, quando já sabemos que o Engenheiro é secretário de um alto sacerdote católico. Enquanto isso, Norma vai ascendendo profissionalmente sob os cuidados do misterioso personagem. Em meio às convulsões sociais, ao profundo pesar da população com a morte de Getúlio, o Padre consola Norma enquanto nela busca “um descanso, um alento, um refrigério. E, como sempre, comenta os fatos para si mesmo; mas como se ela soubesse quem é esse patrão oculto, enigmático, misterioso. Uma pessoa muito importante; ainda arrasada, como todos nós, pelo que aconteceu com o Chefe da Nação, odiado por alguns, mas idolatrado por muitos” (LOPES, 2015, p. 133). O Padre/Engenheiro parece saber o que se passou nos bastidores da suposta tentativa de assassinato de Carlos Lacerda a mando de Getúlio. O episódio deu protagonismo indevido e numa hora bem desfavorável, à organização civil e militar que se organizava ao redor da chamada República do Galeão (responsável aqui pela introdução da lógica da Guerra Fria, do macartismo, da perseguição política ainda antes do golpe de 1964 e que assediará a intelectualidade reunida no Rio Negro). O Padre parece se lamentar, enquanto logo depois aparece como Engenheiro, aquele que trama um crime muito grande. A existência desse personagem, imortalizado em Assalto ao Trem Pagador e bastante reconfigurada no romance, dificilmente poderá ser atestada.

O que Nei Lopes enfatiza é o seguinte: ele tanto pode ser um conspirador que ajudou nos desdobramentos do caso que levou ao suicídio de Getúlio, como pode ter sido alguém ao lado de Getúlio, que viveu de perto aqueles meses dramáticos. Como subordinado de uma autoridade católica, pode também ter ajudado para a vitória da República do Galeão enquanto intimamente não queria se voltar contra o querido presidente. No jogo de fumo e espelhos dos períodos de estabelecimento em todo o mundo da Guerra Fria, agentes duplos podem desempenhar os papéis mais ambivalentes, não importando seu posicionamento íntimo. Mas os negros que se juntaram ao Engenheiro não deveriam ser iguais a Gregório Fortunato, o Anjo Negro. Como comenta Paula Assis em conversa com o sociólogo Paladino dos Anjos:

– É… Gregório Fortunato! Negro, filho de libertos, peão de estância… Esse já nasceu personagem!

– É o “negrão do pastoreio” – ironiza o sociólogo Paladino dos Anjos, vestindo paletó.

– Não deixa de ser um personagem.

– Como capanga, capataz; mas ainda escravo do gaúcho fazendeiro…

– A escravidão doméstica criou esse tipo de personagem: escravo subserviente, puxa-saco, dependente dos donos. Foram esses que não se conformaram com a Abolição: queriam ficar junto da família até o fim.

– Assumiram a família do patrão como a sua.

– A dependência recíproca. As famílias também se tornavam dependentes dos escravos. E às vezes até se afeiçoavam de verdade.

– Essa ideia do escravo…

(LOPES, 2015, p. 131-2)

Independente da condição política do Padre/Engenheiro ou do que poderia ser consideradas suas “reais intenções”, Seu Santos ou Tião Medonho não quer replicar o erro histórico, ser mais um “negrão do pastoreio”. Se ele é capaz de planejar um grande crime, ao contrário dos alunos do Pedro II que agem por mero instinto (aqueles que protagonizaram o Crime da Copa, ao matar a pauladas um negro que saia do trem logo após a derrota do Brasil para o Uruguai), também é capaz de retirar, com engenho, aquele que lhe servia de padrinho e mentor. Falo “com engenho”, porque o Crime do DKW foi feito de tal maneira que seu real autor não chega a ser sequer rastreado pelas autoridades. Se o personagem existiu ou não, se ele era ou não bem intencionado, se poderia ajudar aqueles que lhe serviam ou era um conspirador anti-getulista, contratado da República do Galeão[2], não importa: deveria ser rompida a lógica de submissão herdada da escravidão, tanto em suas formas mais violentas ou as consideradas mais brandas. Esse o intento do assalto ao chamado “trem pagador” e do crime do DKW, a reversão do crime cometido contra um outro pacato morador de Vaz Lobo, tal como aquele Seu Santos, compadre do pai de Jurema, ambos de andar encurvado, “os olhos ainda mais apertados por cima dos malares de banto sul-africano”.

Assim, Nei Lopes constrói sua imagem dupla, nem verdadeira nem falsa, atual e ao mesmo tempo virtual, real e imaginária. A confusão não se faz “na cabeça” de alguém, mas se ela ocorre é devido ao seu estatuto de imagem cristal. No mais, Tião Medonho poderia falar como o protagonista das Crônicas de indomáveis delírios, logo depois de descobrirem sua real identidade: “Os que acreditaram em mim estão perdoados: acreditaram na História. ‘A História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo’, sabe de quem é isso, meu prezado Correia? Nos domínios do Grão-Turco só são reais os indomáveis delírios”. O que o romance de Nei Lopes nos diz é que se torna premente o estudo da função fabuladora e suas conexões com a História. Nem “fato” nem ficção: sempre Indomáveis Delírios…


[1] Ou seja, sobre um crime animalesco que estava perto de ocorrer e que começou não em 2014, mas meses após a publicação do livro. Não foi sobre um crime que estava prestes a ser descoberto, a “corrupção” – essa é a narrativa moro-bolsonarista. Só para distinguir.

[2] “Norma sabe que o seu protetor é um homem muito importante. Mas não tem como imaginar de onde vem essa importância. Que ele trabalha para um chefe de posição muito alta, isso ela sabe. Mas que chefe será esse? Um político, um grande homem de negócios internacionais, um embaixador, um espião, um gângster? Ela percebe o cuidado que ele tem com o chefe. Que deve ser uma pessoa muito velhinha; ou pelo menos muito doente; que o preocupa muito. Numa preocupação que, volta e meia, ele procura dividir com ela, deitado na cama, falando consigo mesmo, em solilóquios cujo sentido ela não alcança” (LOPES, 2015, p. 131).

Esse é o terceiro texto da série Os mistério do Rio Negro. Clique aqui para acessar.

Referências:

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007.

LOPES, Nei. Rio Negro, 50. Rio de Janeiro: Record, 2015.