Metódicos e disciplinados: a historiografia do Oitocentos

Num livro-texto valioso para professores de história, Delacroix, Dosse e Garcia (2012) denominaram de “momento metódico” a época de apogeu da historiografia alemã e francesa. Não é somente para ressaltar aspectos que seriam positivos na historiografia oitocentista, mas a pesquisa dos autores revela uma troca, e quem sabe até uma rivalidade intelectual, entre França e Alemanha, geralmente não mencionada quando se faz as referências costumeiras, através de um pequeno modelo evolutivo que teria levado do positivismo à crítica documental da primeira metade do século XX.

O “estudo positivo” ou “fato positivo”, segundo os autores, longe de sofrer preconceitos fáceis para quem vê hoje a escrita da história daquele período, busca a fuga da razão especulativa e a positividade do fato se refere àquele “cuja existência é atestada por uma documentação ela mesma autentificada e garantida pela crítica” (Idem, p. 70). A crítica apriorística ao método historiográfico em seus primórdios acaba por esconder que preocupação paralela aos dos annalistas, e de contornos gerais idêntica a da nova escola.

A construção da torre Eiffel serve de troféu ao método científico triunfante. “É uma verdadeira coluna trajana elevada em sua honra, onde se pode ver em letras de ouro sobre a grande frisa do primeiro andar, como se fossem batalhas vitoriosas, os nomes dos cientistas franceses, de Lavoisier a Pasteur” (Idem, p. 71-2). Talvez o conjunto de problemas herdado pelo século posterior esteja menos no método do que na noção geral que associava progresso, ciência e república.

Ante uma historiografia que seria uma guerra civil permanente, um historiador como Fustel de Coulanges ajuda na estabilização política do país. Espera-se da ciência uma pacificação e as discussões sobre o método são meio para alcançá-la. A quem serviu essa paz, entretanto? Fazer da discussão sobre o método o meio da guerra e não mais da paz serve para se distanciar dos antigos, como também para se pensar uma outra política onde república e ciência, em meio às Guerras, deixaram de uma vez de serem sinônimos de progresso.

Ao lado do desejo de pacificação (já presente em 1860), a promissão alemã seria o caminho para se superar a Comuna de Paris, o trauma da derrota para o exército de Bismarck e a posterior anexação da Alsácia-Lorena:

A corrente historicista liderada por Ranke não resume toda a historiografia de além-Reno. Por seu lado, Johann Gustav Droysen, em seu Sumário de teoria da história, defende uma história reflexiva, que rompa com a teoria do reflexo especular tão do gosto de Ranke. Ele problematiza, segundo Alexandre Escudier, seu prefaciador e tradutor, “a historicidade fundamental de toda investigação histórica” e convida o historiador a formular explicitamente as questões que ele coloca aos rastros conservados e a se interrogar sobre as questões que o conduzem a colocá-las. Nessa diversidade, a historiografia alemã demonstra seu valor e se impõe como referência em muitos setores da história. (Idem, p. 79).

Sob uma outra camada, podemos enxergar mais alguns motivos que levaram aos “metodistas” serem, pela francesia triunfante no Oitocentos, objeto de uma repulsa difusa. É notável a adequação alemã aos cânones antigos. À primeira vista, o movimento pode ser datado a partir do Romantismo, do Lacoonte ou de Winckelmann. Entretanto, o caso de Lutero não poderia passar despercebido. A inspiração paulina que orienta sua leitura neotestamentária deixa entrevisto o amor às letras gregas que chega à cristandade através do apóstolo dos gentios.

Outro pensador de igual magnitude do início da modernidade, Nicolau de Cusa, recorre à geometria (fora o caso de como foram usados os sólidos platônicos para iniciar a astronomia moderna com Kepler[1]) para resolver problemas ontológicos e epistemológicos de seu século através de um afastamento deliberado e, no caso do monge agostiniano até violento, da escolástica, ou seja, da ciência baseada em pressupostos aristotélicos, em saberes não atenienses ou em saberes de um tempo em que a tradição grega clássica irá se cristalizar mais no cinismo e posteriormente no estoicismo do que nos escritos de um filósofo que ganhou vida em meio a era de fogueiras e catedrais.

Se o saber medieval, da Sorbonne, logo mais é questionado pelo misto de cinismo e estoicismo encarnado pelos franciscanos, o que nos interessa aqui é constatar como os alemães durante séculos não tiveram maiores problemas com os antigos, ao contrário das famosas querelas francesas e inglesas. Assim, Michelet enxerga uma Roma alemã, enquanto hoje ainda podemos ver, para quem trabalha com cultura, a dívida para com a descoberta de Baco por Nietzsche e, no assentamento da escrita da história, para com as críticas de Walter Benjamin às noções de progresso do século XIX.

Ainda mais, como exposto na transcrição acima, em Droysen ganha relevo a reflexão a favor da pesquisa histórica. Apesar de Ranke utilizar o método positivo e empírico, as críticas dirigidas ainda hoje a este historiador, o “caso” como estudado por François Hartog em relação a Fustel de Coulanges pode ser paralelo: o problema reside menos no uso moderno ou científico do que nas formas de se alcançar, seja pela via prussiana[2] ou pela empatia literária, um campo de paz social que não era vivido pela coletividade.

A germanofilia na França se inicia, contudo, em um campo menos abstrato. Salta à vista a multiplicidade de universidades alemães frente ao gigantismo e a falta de inovação da Sorbonne; mais ao norte, a liberdade de ensino e pesquisa vive em conjunto com a organização; ao contrário do exibicionismo do público universitário francês, Lavisse (no livro escrito pelos três autores que ainda está sendo consultado) conta a pobreza dedicada à ciência, quase um sacerdócio de estudantes que após as aulas costumavam ir à cervejaria com seus professores para estreitar as relações pessoais e, através da sociabilidade, aperfeiçoar o método crítico; Lavisse conta também sobre a riqueza das bibliotecas de além-Reno, enquanto Monod diz que a França não chega a gastar nem um quarto do que gastam os alemães com o ensino superior. A erudição alemã auxiliada por outras ciências como a filologia, paleografia, numiástica, diplomática, etc., “não é só uma organização e um fermento nacional: é um método”. (Idem, p. 77).

Por essa razão, os autores escolhem chamar essa escola histórica de metódica e não através da vulgata vocabular “positivista” ou ainda variações cultas como “metodista” ou “metodologista”. A ciência experimental contamina outros saberes, relega a literatura para o segundo plano da escrita sobre a nação e até a contamina, como se viu a partir do Naturalismo. Nas palavras dos estudiosos franceses, “multiplicam-se os discursos ‘cientificistas’, que convidam a romper com a dupla tradição literária e filosófica que condena a historiografia à instabilidade e a reduzem a ser apenas um conhecimento de estatuto científico diminuto e portanto contestável” (Idem, p. 73).

Se os annalistas conseguiram em sua época avançar tanto na pesquisa e na escrita da história, foi porque seguiram à risca a preocupação metodológica de seus antecessores. Tamanha familiaridade com o ofício do historiador abriu espaço para a crítica ampla e fundamentada, e uma interessante mutação ocorre. O lugar da escrita historiadora deixa de ser a Alemanha, enquanto, na Europa, a França e a Inglaterra desenvolvem fortes correntes historiográficas. O recurso ao método forjou, décadas depois de Fustel de Coulanges, a disciplinada escola annalista que, por sua vez, quase que se insere como uma disciplina particular no ramo mais geral da ciência histórica. Com a consolidação disciplinar, o espaço para as batalhas pela história estava aberto, mas em sinal invertido em relação as que foram travadas no século anterior.


[1] Para os leitores da Douta Ignorância, de Cusa, não é surpresa sua afirmação de que nem a Terra nem o Sol estão no centro do universo, o que o coloca, bem antes de Descartes, como fundador da ciência moderna. No caso específico de Kepler, o uso da geometria construtiva, não euclidiana, o auxiliou a elaborar sua hipótese vicária: do ponto de vista da Terra, Marte descrevia elipses ao redor de si, o que era uma discrepância em relação ao movimento circular dos planetas ao redor do sol. Colocando-se do ponto de vista de Marte, traçou o equante que resolveu o suposto movimento anômalo do planeta,  descoberta que o levaria a solucionar os problemas da gravidade. É menos importante a forma geométrica da elipse descrita pelos planetas ao redor do sol do que a constatação de que este é o centro propulsor daqueles. Visto assim, a teoria de Newton que ficou famosa parece quase um apêndice da descoberta de Kepler. Essa forte corrente de pensamento alemão tem apenas mais um capítulo no desenvolvimento da historiografia no século XIX, tempo também da decadência, ou de início dela, do pensamento alemão, como denunciam Heine e Nietzsche. Depois sabemos como termina essa história, com Walter Benjamin sendo seu testemunho mais dramático. Contudo, é importante não esquecer aspectos adjacentes à área da cultura. O fim da orientação política protecionista e industrialista como feita por Bismarck e, num país já enfraquecido social e economicamente tanto pela 1ª Guerra quanto por aspectos “menores” que a antecederam, o Tratado de Versalhes pôs fim à pujança germânica. Estudar esse caso é ver também como se criam crises econômicas e instabilidades políticas. Enfraquecer a Alemanha ou controlá-la das mais diferentes formas é um dos meios que se usa, desde a demissão de Bismarck, para se tentar impedir a integração eurasiática.

[2] “O ensino e o papel nacional da história chamam também a atenção dos historiadores franceses. Antoine Guilland afirma que os historiadores foram os verdadeiros promotores do novo Império alemão. Ele menciona, em apoio ao que diz, o editorial do número inaugural da Revue de Schmidt (1843) – de que Leopold von Ranke é um dos fundadores –, publicado por ocasião dos mil anos do tratado de Verdun – celebrado pela Prússia como a certidão de nascimento da Alemanha –, que eleva Clio à condição de ‘mãe e mestra’ da política nacional. Da mesma forma, Guilland apresenta A história romana de Berthold Georg Niebuhr (1811) como um modo de ‘mostrar aos alemães como se podia criar esse Estado de que careciam’. Esse papel de fermento nacional não podia deixar de fascinar os historiadores franceses no momento em que ambicionam desempenhar a mesma função em seu país. Impressionam-se também, apesar das inúmeras críticas formais, com a potência e o vigor da historiografia alemã. Assim, Ranke é chamado ‘escravo da verdade histórica’. ‘Primeiro historiador, depois cristão’, cita Guilland, relatando as palavras do professor berlinês ao rejeitar a qualificação de historiador cristão. Acima de tudo, a organização e a codificação dos estudos históricos forçam o respeito dos franceses” (Idem, p. 76-7). Cabe destacar as colocações de Manoel Salgado Guimarães em inúmeros de seus artigos sobre a consolidação de uma imagem nacional ou da consolidação do Estado-nação monárquico e constitucional do Rei Burguês sob a pena e a orientação de François Guizot, ou seja, de alguém que, exercendo cargo de chefia no aparato burocrático, exerceu papel similar ao anotado por Guilland em relação aos historiógrafos alemães. Anotar as diferenças e similitudes me parece tão importante quanto a colocação das assimetrias expostas por Delacroix, Dosse e Garcia. De igual forma, os estudos do mesmo pesquisador que viu a colaboração íntima entre o IHGB e a Real Sociedade dos Antiquários do Norte, mostra as dívidas dos pretendentes a historiador brasileiros em relação aos métodos arqueológicos empregados pelos nórdicos, enquanto estes tentavam em vão ver um ancestral viking que teria migrado para a América em tempo remoto. Das simetrias às similitudes: no caso brasileiro, o impulso para a coleta de documentos e a sombra do imperador, que acompanhava de perto os esforços do Instituto Histórico, levava à impossibilidade a escrita da história nacional nos moldes positivos como praticados na Europa. Contudo, como “invenção da nação”, o comportamento de brasileiros, alemães, franceses ou nórdicos era bastante parecido. A singularidade brasileira foi a de escrever ou de tentar fundar uma narrativa nacional através da literatura, o que os metódicos repudiavam. Digno de nota, assim, seria ver O Guarani como vencedor da batalha por uma história nacional em detrimento da Confederação dos Tamoios, aliado a projetos não vencedores ou não com pouco ou nenhuma chancela oficial. Gonçalves Dias é continuado por Sousandrade, assim como salta aos olhos como a produção historiográfica do general Abreu e Lima ainda não é colocada no mesmo patamar para a análise em igualdade de condições com as outras histórias, literárias ou não. O veto à História de Varnhagen, nesse quadro, não deixa de ser uma justiça poética, apesar das afinidades ultramontanas e escravocratas com José de Alencar.

BIBLIOGRAFIA

DELACROIX, Christian; DOSSE, François; GARCIA, Patrick. As correntes históricas na França: séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.