O artista e seu comitente ou a arte e a falta de grana no Brasil

Na foto: Protesto contra a extinção da Embrafilme no centro do Rio de Janeiro

O governo Collor extingue, pela Lei 8.029/90, 22 órgãos da administração federal, entre autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista. A decisão resulta na demissão de centenas de funcionários e na desarticulação de diversos segmentos da ação governamental. Na ocasião, o próprio Ministério da Cultura foi extinto. (fonte: Memorial da Democracia)

I. Aby Warburg, que reorientou de forma radical os estudos de artes há quase cem anos, produziu sua “revolução copernicana” na área por ter sido capaz de considerar a obra de arte em interação com uma miríade de elementos que vinculavam a criatividade artística com seu contexto econômico, social e cultural. A “serena grandeza” ou “calma olímpica” estampada na fisionomia dos chamados gênios, foi substituída por uma história onde menos os quadros do que os próprios artistas aparecem sob o signo de Lacoonte.

A escultura que fascinou Lessing e se tornou objeto de estudo para um escrito seminal, “Lacoonte ou sobre os limites da pintura e da poesia”, mostrava a arte em sua face bifronte, entre a serenidade e o terror, entre os sentimentos de graça e beleza e os de sublime e tragicidade. Parece que Warburg, ampliando a revolução impulsionada por Lessing, nos mostra a arte e seu contexto de produção, porém de uma forma tão labiríntica que, ao ler seus textos, chegamos a esquecer por vezes completamente a obra especificamente estudada.

Vemos surgir, contudo, bem nitidamente o autor da obra e, como em reflexo, seu comitente. Para Aby Warburg é impossível compreender o processo criativo sem levar em conta não só o seu “contexto social”, mas em especial, seus patrocinadores. Sem essa relação basilar, não teria a Vênus de Botticelli inaugurado a primavera da história da arte em pleno entre guerras [aqui].

Com a fonte de inspiração acima mencionada, achei interessante no contexto atual fazer lembrar o documentário Lado B – Como fazer um filme sem grana no Brasil, onde se conta a saga do diretor Marcelo Galvão para realizar um longa metragem com pouco orçamento. Além da ampla capacidade de negociação, de convencimento e de fé no que desejava realizar, o filme – Quarta B – mostra um duplo desdobramento crucial para entender sua empreitada.

II. O que a princípio parecia uma ideia extravagante, com pouquíssimas chances de dar certo, tem como resposta uma adesão de colaboradores pelos motivos mais variados. A entrada em cena de atores e atrizes que tentaram experimentar o projeto, assim como de toda uma série de pessoas dos bastidores (dos assistentes de direção aos câmeras, entre tantos outros), nos ajuda a compreender melhor que o processo de criação artística, seja por qual meio for realizado (cinema, teatro, música, literatura, etc.), não se baseia numa lógica utilitária, ou seja, de uma prestação de serviços como outra qualquer.

Não é aprofundado no documentário as causas pessoais de cada um que quis apostar na produção do filme (para isso talvez fosse necessário um outro filme, de características bastante diversas, mas não menos interessantes, ainda mais com o passar do tempo em relação ao documentário), porém desde a mera chance de poder estar trabalhando e ter a esperança em benefícios futuros, até colaborações de pessoas que talvez estivesse lá mais por diversão, mostra que o projeto do diretor Galvão, apesar de “fora da curva” (ou talvez até mesmo por isso), conseguiu congregar pessoas bem diferentes entre si. Essa é a promessa da arte e com sua habilidade o diretor conseguiu convergir personalidades tão diferentes em direção a um mesmo objetivo.

O segundo ponto, e isso só é revelado de forma mais clara na parte final do documentário (em especial, já na escola improvisada no estúdio), quando ele de fato mostra suas habilidades não apenas como o produtor, mas como um diretor capaz de conduzir cada detalhe da atuação dos personagens. Ali parece que ficou claro para quem esteve com ele até o final que era não só uma pessoa idealista, mas que tinha perícia, responsabilidade e capacidade de manter, de administrar com sabedoria (dentro dos limites do possível, das inúmeras dificuldades) cada etapa do processo produtivo.

Contudo, como diz o próprio subtítulo do documentário, “fazer um filme sem grana no Brasil”, nesse caso em especial o elemento da sorte ou o acaso teve que intervir. Porém jamais esse acaso lhe serviria se antes não tivesse mostrado a fé aliada à racionalidade para conduzir o processo. E acho que aqui vale aludir a questões públicas, sociais, que fizeram o casamento da aposta do diretor com um determinado momento vivido pelo Brasil – sua suposta “sorte”.

III. Não adianta nos iludirmos de que sempre será praticamente impossível fazer cinema sem grana no Brasil. Em alguns momentos da história, os idealistas podem ter maior sucesso. Em outros, dificilmente conseguirão realizar sequer as primeiras etapas de seu projeto. O filme de Marcelo Galvão pôde contar não só com a ajuda de incentivos fiscais (depois de ter vencido sua longuíssima batalha para a produção fílmica), mas encontrou um ambiente de receptividade talvez único naquele período.

Depois dos descaminhos que toda e qualquer produção artística enfrentou durante a ditadura militar, no período do liberalismo econômico somente os grandes monopólios aliados ao grande capital conseguiram liberdade para atuar. A criação e consolidação da Globo Filmes no período é o melhor caso de estudo acerca desse período.

Com a mudança de governo e de orientação administrativa na área cultural (início da era Lula), criou-se a esperança na experimentação e não nas produções relativamente padronizadas dos estúdios com alta renda. Abriu-se uma janela, pelo menos naquele período, onde se apostava que o cinema nacional poderia ganhar o seu espaço apesar ou para além dos monopólios. Assim, Marcelo Galvão conseguiu a verba necessária para a pós-produção e, mesmo com as dificuldades que encontrou ainda aí, foi muito bem recebido pelo público.

O mais importante, entre tudo mais, é que o prêmio que coroou sua difícil aposta ( na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) veio de um público pré-disposto, animado mesmo, com a ousadia, a irreverência e as inovações que a produção nacional poderia trazer. Ele não ocorreu por uma análise técnica ou não teve nela seu principal fundamento.

Acredito que deva ser levado em consideração todo o componente emocional que levou o público, bem depois de ter levado a todos os profissionais que trabalharem no filme, a comprarem aquela ideia. E aí que se vê como, através de um momento propício, o que há de mais legítimo na arte de um modo geral (não só o cinema) pode proporcionar: uma promessa de felicidade. Era isso que Marcelo sempre reiterou e foi exatamente essa promessa, mais do que seu cumprimento, que levou ao sucesso de ponta a ponta de seu filme.

IV. O que fica como objeto de reflexão é como retomar o caminho onde comitentes brasileiros possam dar as condições de possibilidade para que a experimentação artística propicie uma renovação cultural no país. Atacada desde setores frente amplistas de esquerda, passando pelos liberais tradicionais ou tucanos, até a extrema-direita [aqui], a lei Rouanet deveria ser vista como um incentivo em mão dupla.

Se ela patrocinou filmes, festivais e premiações em várias áreas, tinha como contrapartida o incentivo fiscal para que as empresas se interessassem por esses projetos. Num momento em que os bancos públicos (até o BNDES) e, em especial, a Petrobrás, tinham amplo protagonismo na sociedade, a lei não deixou de ser um incentivo indireto por parte do governo.

O incentivo, contudo, não era apensa de ordem econômica. Ao marcar o nome das estatais em número tão grande de produções, elas atuavam como uma espécie de soft power dentro do país. Por fora dos canais publicitários da mídia cartelizada ou dos espaços criados para as propagandas de governo, as estatais e bancos públicos podiam mostrar como estavam de fato profundamente enraizados na sociedade brasileira até bem pouco tempo atrás.

No processo de desindustrialização galopante que praticamente provocado pelo binômio crise da dívida/dolarização da economia, os governos do PT iniciaram pelas grandes empresas de Estado (quase ilhas gigantes, semi-isoladas, depois do mar de privatizações da década de 1990), não só o reaprimoramento econômico e social do país, mas o vinculou à necessidade da produção cultural. Quais empresas privadas, então, por livre vontade, colocariam seus muitas vezes parcos recursos em experimentações e questões estéticas que só de maneira oblíqua, para não dizer duvidosa, se reverteria se não em lucros, pelo menos em boa imagem para elas?

O financiamento da arte precisa de seu comitente. Não estamos mais no tempo dos dodges venezianos ou dos mecenas florentinos. Para se chegar ao momento em que pessoas ou famílias ricas possam financiar e incentivar movimentos artísticos, como aconteceu na Semana de 22, muita coisa tem que mudar. Que fique bem claro que, sem incentivo do Estado, na conjuntura do pós-guerra, jamais haverá indústria e tampouco seu desenvolvimento mais refinado, a produção de uma obra de arte.