O homem como força geológica planetária

Vladimir Vernadsky é figura central da ciência mundial. Aluno de Mendeleiev, inspirado nas pesquisas de Pasteur e desenvolvedor das primeiras pesquisas atômicas na Rússia, é estudado não só no contexto da biologia, da química e da geologia, mas também como arma de guerra aos dogmas neomalthusianos de “crescimento zero”, do darwinismo britânico como versão da doutrina de “luta de todos contra todos”, de livre-mercado do Império Britânico. Infelizmente, sua versão americana e mais popular o tornaram uma espécie de “enlatado made in USA”, ou seja, um dos pais do ambientalismo e da “teoria de gaia”.

Depois da Segunda Guerra mundial, Vernadsky disse que o ser humano se transformou numa força geológica no planeta Terra. O que demorava eras para acontecer, de acordo com o tempo natural de desenvolvimento da biosfera (um de seus conceitos centrais), o ser humano poderia fazer acontecer num curto espaço de tempo, como na manipulação dos átomos para fins científicos e tecnológicos, ou seja, no súbito incremento do que chama de migração biogênica dos átomos, fator para a complexificação da biosfera, como também na criação de formas mais potentes de produção energética.

Por outro lado, essa força de aceleração não só histórica, mas geológica, que se tornou o homem, poderia fazer o planeta retroceder a eras muito antigas, a milhões de anos atrás. Ele pensava no uso das armas nucleares e como isso poderia fazer retroceder o ambiente vital do planeta em milhões anos.  O pensamento científico como fenômeno planetário, entre tantas publicações, talvez seja o livro referência para esse conceito, até por se tratar de uma produção tardia, onde pôde refletir sobre o imenso poder adquirido pelo homem – a noosfera – sobre a biosfera depois dos desdobramentos subsequentes ao fim da Segunda Guerra.

Ao contrário das capas da The Economist e da mídia hegemônica no Ocidente, a guerra atual (a que prefiro chamar de “guerra total”, nas pegadas de Gilles Deleuze e Félix Guattari, ao invés do conceito genérico e algo reducionista de “guerra híbrida”) não é entre “civilização e barbárie”, mas entre guerra e paz. Não é só os casos de risco iminente de uma confrontação total entre EUA e Rússia (problema a que já dediquei inúmeros escritos) diante da quebra de todas as garantias dadas pelos EUA quando acabava a URSS e se estabeleceu a OTAN (em especial, o Tratado de Mísseis Anti-Balísticos), mas a de se solucionar os problemas decorrentes da crise financeira de 2008. Não apenas porque são alarmantes os indícios de que a qualquer momento uma nova crise ainda maior pode ocorrer, mas em especial deve ser solucionado, depois de décadas de predomínio das políticas genocidas neoliberais, os gigantescos gargalos de infraestrutura, isso numa escala global.

A Nova Rota da Seda apresentada pelo presidente chinês Xi Jinping aponta para importantes desdobramentos econômicos e sociais, como a construção de grandes projetos de interconexão entre diferentes países (a ferrovia bioceânia discutida por aqui ainda durante o governo Dilma, a conclusão do Canal da Nicarágua – uma das causas da tentativa de golpe de Estado no país -, o importante projeto Transaqua no lago Chade, na África, etc.) e para a criação e crédito barato e de longo prazo para tais realizações. Esse é o sentido que Vladimir Vernadsky deu ao tratar da transição da biosfera para a noosfera.

Caso essa transição não seja feita de maneira inteligente (por exemplo, se continue a acreditar que a África deva conviver com “tecnologia apropriada” e que existem formas perenes de produção energética como as das usinas eólicas e solares, mas que não existem saltos tecnológicos onde o ser humano é capaz de produzir, com o mínimo de material, formas surpreendentes de energia como a de fusão nuclear), necessariamente os poucos recursos produzidos num planeta cada vez maior (mais habitado e com cada vez mais exigências de bem estar social) serão monopolizados tanto pela guerra econômica quanto pelo uso de forças militares e cibernéticas pelas facções da elite internacional, associadas aos mercados da City de Londres e Wall Street, e, de uma maneira ou de outra (de uma maneira veloz numa guerra termonuclear e de modo mais lento com a perpetuação do velho paradigma que remonta aos dias de glória do Império Britânico), bilhões de pessoas estarão condenadas a morrerem ou viverem em condições indignas de serem vividas.

A importância do próximo encontro do G20, na Argentina, onde se reunirão com o tempo necessário os líderes dos EUA, Rússia e China, é crucial para os desdobramentos políticos nos próximos meses. A conversa agendada entre Trump e Putin, num contexto de escalada militar sem precedente, será a mais importante da história. Putin alega que o presidente americano não é alguém avesso ao diálogo como foram Bush Jr. ou Obama, e o próprio Trump se elegeu em boa parte por suas promessas de refluxo na política militar expansionista dos EUA, além das promessas de fazer retomar o antigo sistema de economia política que funcionou em seu país durante o século XIX e foi recuperado em parte no luminoso governo de Franklin Roosevelt.

Mas não é só: Trump, Putin, Xi, os presidentes da Índia, do Japão e demais países devem se concentrar para além dos esforços de evitar um confronto termonuclear. O encontro só será realmente bem-sucedido caso uma solução econômica no estilo da criação de um novo sistema de Bretton Woods seja encaminhado. O relativo sucesso de Trump nas eleições do meio de mandato lhe dá folga para não ceder aos apelos do partido da guerra que o rodeia (depois de um verdadeiro assalto ao poder iniciado com a demissão do general Michael Flynn) e o fim da guerra comercial com a China é o mínimo esperado. Para esse fim parece indicar recentes declarações dos presidentes dos dois países que, pessoalmente, nunca entraram em atrito. Pelo contrário, sua união, com a retaguarda russa, foi fundamental para o acordo que iniciou o atual processo de paz entre as duas Coreias.

A humanidade, como aponta os desenvolvimentos científicos dos séculos XIX e XX, tende cada vez mais a não ser uma espécie terrena, mas estelar. Conectar os diferentes países do planeta como consta em inúmeros projetos do boom científico ocorrido no século XIX com o motor a vapor e a construção das ferrovias (o que fez o ser humano ultrapassar sua dependência das viagens marítimas e aprofundar a colonização da terra; o caso emblemático é a ferrovia Transpacífica de Abraham Lincoln), como a Transiberiana e a o eixo Berlim-Bagdá, agora sob o guarda-chuva da Nova Rota da Seda, ou seja, com a implantação de trens de alta velocidade maglev, corredores de desenvolvimento onde podem florescer novas cidades, e usinas de dessalinização e a ionização da atmosfera, ambas movidas a energia nuclear, tudo isso aponta para um futuro baseado num novo paradigma humano e, quem sabe, podemos seguir as trilhas do que foi sugerido por essas palavras de Vladimir Vernadsky no livro acima citado:

A biogeoquímica, em sua maior parte, cujos objetos são átomos e suas propriedades químicas, deve ser atribuída à categoria das ciências gerais. No entanto, como uma subdivisão da geoquímica, isto é, a geoquímica da biosfera, ela aparece como uma ciência do segundo tipo, isto é, associada aos corpos naturais pequenos e mais circunscritos do universo – com a Terra, ou, no caso mais geral, com o planeta.

Mas, ao estudar a manifestação de átomos e suas reações químicas em nosso planeta, a biogeoquímica transcende fundamentalmente os limites do planeta, e se baseia no átomo, como química e geoquímica, está envolvida com problemas mais potentes do que aqueles simplesmente característicos. do planeta Terra – ou seja, com a ciência do átomo e com a física atômica – com os fundamentos da nossa compreensão da realidade em sua dimensão cósmica.

Isso é menos claro em relação à vida que é estudada por ela em seu aspecto atômico.

Os problemas da biogeoquímica também transcendem os limites do planeta? E quão longe eles emanam?

 

Para quem deseja conhecer mais sobre Vladimir Vernadsky, indico o excelente Vernadsky Project, onde se podem encontrar tanto inúmeros escritos do cientista (traduzidos para o inglês), como pequenas monografias temáticas sobre sua obra. Clique aqui para acessar.