O Rambo brasileiro

O cineasta que mora em Miami por “motivos profissionais” e prega o voto nulo por ausência de culhão para o enfrentamento político. Quem anos depois iria endeusar como o capitão Nascimento (quase um “nome-metáfora”) o capitão do mato Sérgio Moro, e fazer de mero bandido o Escobar: combate-se a desigualdade com a luta contra o crime. Esse o mote de nossos liberais, da suposta classe-média, em suma, de quem deu o golpe. Não se combate a desigualdade na luta contra  pobreza. Morar em Miami… O lugar que virou, no governo Lula, o Paraguai da classe ascendente – muito mais exigente.

Existem certas afinidades que não são eletivas. São instintos contrários que podem nos levar a fazer críticas a algo que nem sequer chegar a ver. Tropa de Elite, filme dificilmente criticável publicamente na época de seu lançamento, me trazia uma única lembrança à mente: “esse é o rambo brasileiro. porra, o Brasil parece que deu uma melhorada, como dizem alguns. mas por que produzir logo uma cópia retrô de um personagem que – parece – não tem mais nenhum significado?”. Mais de uma década depois, José Padilha iria dirigir o remake do Robocop…

Na página do Facebook do Rogério Skylab (09/11/17), ele disse assim: “Quando eu revejo essa entrevista, eu compreendo o meu afastamento: era demais pro Canal Brasil”. A entrevista poderia ser intitulada em “Como ser Garrincha na época do Nutella?” (créditos à camisa do Flamengo, diretor). A crítica abaixo são, literalmente, as palavras que não pude falar ao definir “objetivamente” o Rambo brasileiro. Foi a associação entre a entrevista e minhas impressões longínquas sobre o filme, assim como a leitura, meses atrás, do texto de Skylab, que finalmente me deram as palavras para o posicionamento adequado. O post de Skylab foi o clique, o tiro fatal.

(quem quiser assistir, antes ou depois, a entrevista com cláudio assis, vai logo abaixo)

Cláudio Assis: “cinema no brasil é uma merda. cinema no brasil é uma bosta (…). tá gravando não, né, meu diretor?”. (…) “eu tô cagando pra eixo (eixo Rio-São-Paulo e derivativos globais). eu gosto de xoxota, gosto de cú, gosto de buceta. gosto de tudo”. Você falou que Amarelo Manga tem a ver com púbis? “quem é deus? é macho ou fêmea? todo mundo fica querendo enquadrar. e não enquadra! não enquadra o sexo, não enquadra o amor, não enquadra nada. e me perguntam por quê eu coloco um pau, uma buceta… eu coloco porque eu tenho cheiro, e o cheiro do sexo é lindo, é o que nos torna esplendorosos, epidérmicos. eu gosto da epiderme”.

Diante de tantas imagens “totalitárias”, Skylab ainda redargui: “Você parece um pastor”. Como gostaria de falar isso para alguém… Para um pervertido, talvez fosse ainda melhor. O entrevistado responde na hora: “Se tivesse um pastor aqui eu comia o cú na hora. Minha vontade é comer o cú de um pastor” Para quê mais programa? Podemos acaber, então.

(e um cara “trincado” falando no início e no final da entrevista, em close, interpretado pelo entrevistador em imagens gravadas na rua, provavelmente na hora do rush noturno)

Entenda quem e como quiser. Amarelo Manga. Obra-prima.

capitão de cú é rola (clique para ampliar)

Quem é você, entendeu? Assim termina a entrevista que, num clique, pela breve intervenção de Skylab, me fez lembrar do Rambo. Contra a imagem inicial, a que segue. (é como o sonho de walter benjamin num de seus últimos dias no campo de concentração: em carta dirigida à esposa de adorno, disse ter sonhado com uma série de signos que eram legíveis a partir da imagem de uma mulher nua e linda. seu conceito de “legibilidade” tanto serve para imagens como para palavras. são intercambiáveis. assim se fundou a “ciência sem nome” de aby warburg)

Uma epígrafe foucaltiana que vem por último: fazer da justiça um instrumento da vingança. Desculpe! Esse é o tema por excelência de Nietzsche, de sua Genealogia da moral. O Rambo brasileiro.

 

(TEXTO PUBLICADO NA REVISTA DE CINEMA “TABU”, N. 49, JULHO/SET-2015-http://www.grupoestacao.com.br/tabu/tabu0049.pdf)
 

 

No dia 03/06/2015, a revista Trip publicou entrevista com o diretor e roteirista José Padilha, concedida em sua casa, em Los Angeles, no bairro de Fryman Canyon, que abriga moradores ilustres como George Clooney. A entrevista se torna emblemática na medida em que apresenta vários pontos de articulação com o seu filme “Tropa de Elite”, o primeiro da série, de grande impacto junto ao público. Cabe aqui trazermos uma declaração de seu colega de geração, Fernando Meirelles, à revista Bravo: “Compreendo perfeitamente essa ideia do filme Tropa de Elite tentar ser neutro, de não se aliar ao protagonista, mas também de não o condenar. É o anti-Glauber Rocha. Glauber era um cara que opinava em cada diálogo, em cada plano. E Tropa de Elite é o oposto. Essa estratégia tem mais impacto na sociedade do que qualquer filme que o Glauber fez” (Revista Bravo, jan/2008). O grande impacto do filme, segundo Meirelles, viria de uma neutralidade que estaria ligada a uma estética do realismo. Continuando: “Não foi Tropa de Elite que fez as pessoas se identificarem com o Capitão Nascimento. Foi a realidade. Uma parcela grande da população acha que violência se combate com violência”.

 

 

 

O grande equívoco dessa interpretação de Meirelles, me parece, é insistir na ultrapassada ideia de reflexo do real. Ao expor com clareza a opinião, Glauber ao menos expunha o processo de ficção que perpassa todo trabalho artístico, ao contrário do realismo-naturalista que, através da técnica, tenta de todos os modos naturalizar um ponto-de-vista. Pois entrando agora na entrevista à Trip, a primeira coisa que me chama a atenção é a análise que José Padilha faz, opinando dessa vez claramente, sobre a atual safra do cinema brasileiro: “O cinema no Brasil não está em um momento muito bom. Porque os recursos vão para essas comédias televisivas. São televisivas mesmo, vamos falar a verdade”. Que grande parte dos recursos do audiovisual vem sendo destinados a esse gênero, não há dúvidas. Mas parece que o comentário procura isentar seus próprios filmes de uma técnica eminentemente televisiva: o realismo naturalista. E sob essa perspectiva, Tropa de Elite é tão televisiva quanto as atuais comédias. A câmera, ao invés de estar liberta às contingências de tempo e espaço, torna-se voyeur para a voz-over, como se houvesse um observador invisível e ideal (um narrador onisciente em terceira pessoa), seguindo padrões codificados e sugerindo uma forma naturalizada que, na verdade, é encapsulada pela técnica.

 

 

II

 

 

Os motivos de sua saída do Brasil, na entrevista à Trip, lembram os segmentos contra os quais o Capitão Nascimento vai se bater, que são: a classe média hedonista e ligada ao tráfico na lógica da oferta e demanda; os policiais corruptos; e os traficantes, únicos representantes de um universo periférico, o qual é narrado por alguém distante. No belo trabalho de Roberto Aparecido Teixeira, “Representações da Periferia do Cinema Brasileiro: Do Neorrealismo ao Hiper-Realismo” é sublinhado, em relação ao filme, um jogo de cena, que o autor vai chamar de crítica retórica, dando a ver a eficácia da desigualdade: tanto os estudantes-usuários quanto os policiais corruptos são poupados dos requintes da crueldade da polícia na periferia (crítica retórica até porque o foco-narrativo não tem a ousadia de transformar as críticas à corrupção e aos usuários em imagem). A explosão das cenas de violência estão reservadas para a periferia – o ponto-de-vista de classe estaria exposto aí. Retornando à entrevista, os motivos descritos por Padilha de sua saída do Brasil são: trabalho em Hollywood (a série “Narcos” pela Netflix, vindo a produzir e dirigir os dois primeiros episódios – é a história da cocaína e do traficante Pablo Escobar – , além de ter dirigido o remake de Robocop); segurança pessoal, já que, em razão de “Tropa de Elite 2”, policiais descontentes, segundo a avaliação do diretor, teriam tentado invadir sua produtora; o fato do país ter perdido a sensibilidade para ver o absurdo – e comenta os esfaqueamentos na Lagoa; e por fim, o descontentamento político – chegou a pregar o voto nulo nas últimas eleições. Aqui também existem críticas retóricas (quer me parecer que o motivo relevante de sua saída foi mesmo o trabalho em Hollywood), mas que não deixam de ser simbólicas de um pensamento conservador: o voto nulo, despolitizado ou ao menos à margem do enfrentamento político em que o país esteve nas últimas eleições e ainda está mergulhado – o que remete à figura da voz-over, o personagem-narrador, o herói policial, cujo discurso, unilateral e arbitrário, é indicativo da ausência de lastro histórico (no Brasil, não há conteúdo histórico para se criar uma imagem heroica da polícia, sua imagem está tradicionalmente ligada à repressão); o “absurdo” que é o fato da violência explodir fora da periferia, no coração da elite; e a tentativa de invasão de sua produtora, numa analogia com as críticas aos estudantes em voz-over, sem se transformar em imagem (apenas tentativa).

 

 

III

 

 

A questão do discurso arbitrário, sem lastro histórico, é uma das principais diferenças entre “Tropa de Elite” e o Cinema Novo. Conforme Jean-Claude Bernadet, no seu livro “Em Tempo de Cinema”, existiu, no Cinema Novo, “a angústia da classe média diante da miséria, representando uma tensão entre a consciência das relações de poder, a miséria reinante, e a situação de cada um, nem tão privilegiada, nem tão degrada, intelectuais à sua maneira”. Angústia essa que seria desdobrada com o tempo, através de uma política progressista, via ONGs, no sentido de integrar a periferia à cidade, conscientes de que a causa oculta da violência é a desigualdade econômica e social. Contra esse pensamento social, que traz à tona a causa econômica, a ideologia da ordem vai instaurar a lógica da discriminação, estigmatizando negros e pobres como classes perigosas – assim posto, o tratamento às demandas sociais viria através do combate ao crime (segurança sem transformação estrutural, estando implícito aí o extermínio das classes perigosas). Daí porque, conforme transparece em “Tropa de Elite”, as comunidades são apenas objeto de interesse na medida em que existem os traficantes (as condições dos trabalhadores que resistem a opção do crime, com seu potencial crítico, são meramente omitidos). Além disso, existem policiais corruptos e honestos, mas o modelo das ONGs é apenas aquele apresentado no filme: subserviente ao tráfico e a interesses de um candidato ao senado (dois pesos e duas medidas).

 

 

 

IV 

 

 

Uma última ressonância entre a entrevista à Trip e Tropa de Elie, está no seu discurso sobre o uso da maconha no Brasil, apresentado na entrevista: “Quando você discute ética ou moral, tem algum componente antiético ou antimoral em fumar maconha? Você precisa partir de algum código ético ou moral para avaliar uma situação qualquer e fazer um julgamento. Acontece que os códigos éticos e morais te dão julgamentos diferentes dependendo do contexto… Em Amsterdã é legalizada. É radicalmente diferente de comprar maconha de um grupo armado – esse dinheiro será usado para comprar armas, subornar policiais. A situação é diferente, a avaliação ética e moral é diferente… A maneira pela qual a maconha existe no Brasil (não é legalizada) faz com que fumar maconha tenha consequências ruins”.

 

 

 

Algumas questões controversas surgem nesse discurso. Em primeiro lugar, e aqui me remeto à Derrida em seu livro “As leis da hospitalidade”, a ética e a moral não estão submetidas à lei; em segundo lugar, há uma redução do tráfico à lei de demanda e oferta, quando sabemos do seu caráter internacional como grande negócio que envolve capitais, profissionais e instituições (bancos, agências de reaplicação e circulação de valores, personagens e organismos das altas finanças – enfim, grandes poderes nas empresas e no Estado).

 

 

Essa redução, com o sentido claro de atingir uma burguesia progressista, jovens hedonistas com uma cultura que perpassa ONGs e outros institutos com propostas de reformas estruturais, vai corresponder no filme à vingança: vingar a morte de Neto é instaurar métodos de tortura dentro de um estado de exceção – é trazer à tona a máxima “violência se combate com violência”. Dentro da perspectiva maniqueísta, trata-se de reduzir tudo para permanecer oculta a causa. Reduz-se até a maioridade penal.

 

 

Bibliografia:

 

 

 

 

 

TEIXEIRA, R.A. “Tropa de Elite: O Herói-Policial e a ideologia da guerra urbana”, in, “Representações da periferia do cinema brasileiro: do neorrealismo ao hiper-realismo”.

 

SILVA, M. A classe média se mantém no inferno (sobre o filme Tropa de Elite)