Orfeu e a tarefa do negro no Brasil

Léa Garcia na bela imagem no Morro da Babilônia, palco do filme Orfeu Negro

“Na rota dos propósitos revolucionários do Teatro Experimental do Negro vamos encontrar a introdução do herói negro com seu formidável potencial trágico e lírico nos palcos brasileiros e na literatura dramática do país”. Abdias Nascimento

O documentário de Silvio Tendler, Haroldo Costa – o nosso Orfeu, conta a história desse personagem que foi ator, bailarino, diretor, radialista, carnavalesco, criado no Teatro Experimental do Negro com Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos. Para ele, ser negro no Brasil não é exercer um papel, mas ter uma tarefa. Saber da contribuição do negro para a sociedade brasileira, porém não se identificar com seus esteriótipos. Colocar em tudo o que faz o coração, a alma da herança que traz em si que, mesmo subentendido, deixa claro o que foi a escravidão e o que é o legado dos africanos no Brasil. Não é como exercer o papel em uma novela, recheada de esteriótipos e nais quais o negro logo desaparece. E quem aparece logo depois na primeira capa do jornal? O negro preso, bandido, capturado – assim como os jornais mostravam naquela suposta época remota, a da escravidão. 
 

A tarefa do negro no Brasil é fazer reverter esse sinal, ou seja, fugir da carnavalização de sua figura, denunciar os preconceitos, e ser tão grande quanto qualquer representante da cultura “branca”. Haroldo Costa dirigiu o programa no Canal 13, no dia 13 de maio, onde Guerreiros Ramos entrevistou Antônio Cândido, o Almirante negro. Três figuras de ponta que mostram não apenas o que é a tarefa do negro na sociedade brasileira, mas o que pode ser sua contribuição para a humanidade. Esse o legado brasileiro em uma imagem. 

Texto dedicado à Rogério Skylab

 

“Ser negro no Brasil é difícil, porque você tem que corresponder a expectativa, de um lado, e tem que se precaver dessa expectativa, de outro lado.

Menos agora, mas não tão menos assim, existe uma maneira de ser negro. Tanto se você não toca surdo, não toca tamborim, não vai ao pagode, não toma cachaça, não vai a macumba… Então você não é lá muito negro. Isso é a percepção de várias pessoas.

Agora, o mais importante de tudo isso, ao meu ver, ser negro no Brasil é uma tarefa que vem sendo cumprida desde o século XVII, desde os primeiros movimentos da escravidão no Brasil. Quando os primeiros contingentes chegaram aqui, escravizados, muitos não suportaram a viagem, e esses que sobreviveram foram a semente do que nós temos até hoje. Essa tarefa é contínua. Cada vez mais essa tarefa tem que ser cumprida, no sentido de que o perfil do homem brasileiro, o perfil do brasileiro em geral, é um perfil que é talhado em grande parte pela contribuição negra. Se não, fica faltando”.

Com essa declaração começa o excelente documentário de Tendler, que conta a história de Haroldo Costa desde o início de sua carreira no Teatro Experimental do Negro, até o Grupo Folclore, que conseguiu a façanha de passar cinco anos em excursão, na Europa e em outros lugares mundo afora, num total de 25 países, saga iniciada depois de uma viagem pelos países andinos, com muitas apresentações, até conseguirem dinheiro suficiente para chegarem à Inglaterra, país que lhe fora prometido boa remuneração pelas apresentações do grupo. De Grupo Folclore se transformou então em Brasiliana, para ficar mais palatável aos gringos. Na Itália, filmaram com Sophia Loren, antes de viajarem para Paris, a cidade que cobrava um imposto altíssimo para grupos estrangeiros se apresentarem em seus palcos. Recorreram a Vinícius de Moraes, representante do Itamaraty no lugar. Vinícius apresenta então para Haroldo Costa, quase como um segredo, a peça escrita por ele, Orfeu da Conceição.
O grupo de Orfeu. A tarefa do negro sendo cumprida.
Começa a parceria que iria transformar a peça numa das mais bens sucedidas da época, a ponto de ter despertado interesse do capital europeu, que depois veio a financiar o filme Orfeu Negro, não mais com Haroldo como protagonista ou Vinícius como roteirista (quem adaptou a peça em roteiro foi Albert Camus). Segundo Haroldo Costa (na entrevista abaixo referida com Rogério Skylab), o Orfeu da Conceição “não foi uma peça de teatro. Foi um movimento cultural que aconteceu no Rio de Janeiro naquela época”. Um grupo de atores negros se apresentando pela primeira vez no Teatro Municipal. Oscar Niemeyer fez os cenários, Carlos Scliar fez o cartaz e foi uma espécie de “consultor”; Djanira, Di Cavalcanti, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, além da figura catalizadora de Vinícius de Moraes, participaram na formação dessa grande imagem que o Brasil, ao colocar em todo seu potencial a tarefa do negro na sociedade, se fez grande, se fez internacional. Tom Jobim estava ressabiado, não sabia se iria participar, e fez a pergunta infame que está registrada para sempre na história: “tem dinheirinho aí?”. E estava muito longe de ser somente isso. Como diz Haroldo, “o Orfeu abriu as portas da música brasileira para o mundo e foi o capítulo número um da Bossa Nova”.
Esse o livro de Nei Lopes que, através de outras histórias, conta sobre esse momento único da cultura brasileira. Belíssimo. Altamente recomendado.
O episódio da peça que se transforma em filme é apenas um capítulo a mais, e marca a internacionalização desse grande movimento cultural nascido no Rio de Janeiro. Luiz Bonfá no violão, música de Tom Jobim, num episódio bem denominado como “Orfeu, o mito que uniu Tom e Vinícius“. No filme, o violão de Baden Powell torna-se protagonista, ou seja, a grande parceria entre o poeta e o violonista gênios dos gênios em nossa música. Um movimento que foi marcado por muitos encontros que deixariam consequências das mais benéficas para toda a cultura nacional. Sem a tarefa do negro como definida por Haroldo Costa, nada disso teria sido possível. De acordo com o artigo acima referido, de J. Botelho, no GGN:

Desde 1942 que a ideia de transpor o mito grego de Orfeu para uma favela carioca habitava Vinícius de Moraes. Foi durante esse ano que o poeta norte-americano Waldo Frank visitava o Brasil e que Vinícius ficou responsável por ciceroneá-lo pelo país. Suas incursões no mundo das favelas, dos terreiros de candomblé, da região do Mangue e das escolas de samba da cidade mergulharam o poeta em uma realidade afro-brasileira que não vivia até então. Ali, segundo o próprio, começou a aproximação entre os negros cariocas moradores das favelas e os gregos heroicos e trágicos dos tempos míticos. Nesse mesmo ano, Vinícius estava passando alguns dias na casa de seu grande amigo Carlos Leão, localizada em Niterói, no Morro do Cavalão. Foi lá, lendo um livro sobre mitologia grega enquanto ouvia, ao longe, o som de uma batucada vindo de uma favela próxima, que o poeta vislumbrou o mito dentre escolas de samba. Naquele momento, sua tragédia carioca ganhava o primeiro ato. Em 25 de setembro de 1956, a peça finalmente estreia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Entre idas e vindas de Paris, Vinícius consegue arregimentar para sua montagem grandes nomes da cultura brasileira de então: Oscar Niemeyer fez os cenários, Carlos Scliar e Djanira fizeram os cartazes, o Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento forneceu os atores para o elenco, como o próprio Abdias, além de Haroldo Costa, Ademar Pereira da Silva, Ruth de Souza entre outros. Foi a primeira vez, na história do Teatro Municipal, que atores negros pisaram em seu palco.

Rogério Skylab, em seu saudoso programa Matador de Passarinho, fez memorável entrevista com Haroldo. Depois de ter lembrado todos esses feitos já narrados até aqui, perguntou sobre o carnaval, sobre sua paixão pelo Salgueiro. Haroldo sempre disse que “o Salgueiro não é uma escola nem pior nem melhor. Apenas diferente”. Para ele “o Salgueiro tem uma importância no carnaval brasileiro porque foi uma escola que ousou criar uma ideologia brasileira. Focalizar a história marginal do Brasil. O Salgueiro mostrou, a partir do Zumbi, que era uma figura inteiramente desconhecida – antigamente os livros didáticos tinham no máximo meia página sobre ele -, e o Salgueiro quando criou o enredo Zumbi dos Palmares, trouxe à luz a figura maravilhosa, o guerreiro maravilhoso, o homem que tinha uma visão de democracia… É porque ele não fazia uma coisa para os negros: os judeus que eram perseguidos pela inquisição ele abrigava, fugitivos de várias situações ele abrigava. O Palmares era uma república no sentido mais amplo da palavra. Engana-se quem diz que Palmares era um reduto de negros escravos fugidos. Não é verdade. E aí, com o Palmares, a escola de samba descobriu o Brasil”.
Haroldo Costa em Orfeu da Conceição.
Quando perguntado sobre qual enredo de samba mais lhe marcou, Haroldo responde que, para ele, sem dúvida, o de Silas de Oliveira para o Império Serrano em 1969, Heróis da Liberdade (clique aqui para ouvir). “Já raiou a liberdade, a liberdade já raiou…”, canta o samba. Nada ilustra melhor Haroldo Costa, que depois iria dirigir Dercy Gonçalves e Chacrinha, da tv Excelsior à rede Globo. Apresentaria os programas na Rádio Nacional, escrever livros, e cumprir essa tarefa da liberdade com tanto empenho e alegria exercida por ele. Encerro usando novamente suas palavras, as mesmas palavras com as quais ele encerra o excelente documentário de Silvio Tendler:

A minha matéria-prima é a música brasileira, é a dança brasileira. Enfim, é tudo o que se refere ao Brasil. E quando o diretor negro dirige alguma coisa, não é que seja uma coisa sectária (vai ser algo para negro, só para negro…), mas ele traz a contribuição interior que se transforma no espetáculo que ele está fazendo. Isso é fatal.

 
PS: Agradeço ao Rogério Skylab que me permitiu ter acesso a essa figura inesquecível de nossa cultura, de nossa história. Uma nova imagem do cinema, nova imagem da cultura. Gatilho disparado depois de ter lido a crítica de Skylab a entrevista de José Padilha na revista Trip. Seu hiperrealismo, segundo o crítico, ao tornar herói no contexto brasileiro a figura do policial, só acentua a imagem do negro delinquente, a imagem racista estampada nos jornais de hoje, como nas manchetes que criminalizavam os escravos na imprensa da época imperial. Clique aqui para as reflexões sobre o infame Rambo brasileiro, o herói de Tropa de Elite.
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