Sobre as implicações políticas de “Dedo no cu e gritaria”

Trata-se de uma revelação, de um ato visionário, de Paulo em Damasco. Nenhuma dessas histórias de “ah!, como se deu seu processo criativo?”, “o que te levou a essa descoberta maravilhosa?”, etc. Tudo isso é baboseira, até porque depois de qualquer visão deve suceder o mais rígido escrutínio crítico, até porque ela tem as mais prolíferas consequências para a luta política atual e como diagnóstico do tempo que vivemos.

Teria sido assim:

Eu não sei muito bem explicar o que aconteceu diante das minhas retinas tão fatigadas. Mas foi uma revelação. Tal como aconteceu a Paulo na estrada para Damasco. Estava zapeando e de repente paro diante da Rede TV, sob o choque daquela imagem: Amaury Jr entrevistando João Dória Junior. Certamente, nesse momento, a Mídia Ninja deve estar rindo da minha cara, assim como os filósofos gregos riam de Paulo. Mas a imagem era forte e dizia tanto. Amaury Jr e João Dória Jr. Falaram de Miami, a capital do mundo para eles. Informaram sobre uma área dedicada a grafiteiros, na “capital do mundo”, com bares, cafés… um museu a céu aberto, com toda a estrutura que só um neo-liberal é capaz de produzir. Falaram do hábito de João distribuir vitaminas para o seu secretariado. E apesar do ex-publicitário ser paulista da capital, junto a Amaury me pareciam dois capiaus adeptos da meritocracia. Era um mundo selvagem que se abria aos meus olhos com a mesma fúria de um Donald Trump. O colunista social e o ex-publicitário. Era o retorno do capiau enriquecido, sem o lastro de um processo civilizatório. Era Miami. Fiquei hipnotizado frente àquela imagem. Fiz um esforço sobre-humano, assim como Paulo a caminho de Damasco. Cheguei a fazer uma temerária analogia com o mundo lucrativo das drogas: existem aqueles que a fornecem, aqueles que a distribuem e aqueles que a comercializam – esses últimos são os únicos que têm visibilidade. E compreendi que, no mundo da política, também é assim: quem tem visibilidade na corrupção (todos os figurões envolvidos com a Lava-Jato), é apenas uma parte a encobrir outros, não necessariamente brasileiros, que permanecem internacionalmente velados. Era essa a estranha revelação que Amaury e João Dória, uma dupla sertaneja, me faziam: um Brasil ingênuo, inocente, corruptível, cafona, supérfluo, injusto e sem um lastro civilizatório.

E quem acompanha o autor na internet acha que isso é mais uma de suas elucubrações, uma inspiração momentânea. O que parece na hora é ser uma descrição desse país provinciano que nos tornamos desde junho de 2013, do Não vai ter Copa, do golpe, e tudo mais, com Supremo e com tudo: “capiaus adeptos da meritocracia”, um colunista social e um ex-publicitário… Logo depois é tocado um ponto sensível a respeito do que é a corrupção: não diria que alguns figurões são presos para encobrir a ação de outros agentes, principalmente estrangeiros. Essa é uma analogia muito pouco temerária, já que é, em outras palavras, a ideia de que os pobres ou algum seres que passam a ser considerados descartáveis são presos enquanto os ricos ou os que ainda não são descartáveis fazem o comércio das drogas no atacado e ficam livres. Essa é a verdadeira ideia que encobre a lógica do “mundo lucrativo das drogas”.

Policiais pobres, traficantes pobres, raríssimos de pele caucasiana, olhos claros e cabelo liso, matam uns aos outros. Isso se chama de controle populacional ao estilo malthusiano. Isso é provocado e não uma fatalidade. O comércio das drogas é um capítulo da ideia da democracia liberal de transformar o mundo numa imensa Disneylândia, 90% baseado no setor de serviços, com uma base agroexportadora e mais “indústria 4.0”. Criptocapitalismo e escravidão: Narcóticos S.A.

A liberação dos mercados tem duas ancoragens históricas, dois fatores elementares que devem ser considerados quando se quer entender porque os acordos originais de Bretton Woods foram rapidamente rasgados. Sobrou só o FMI e o Banco Mundial e com suas funções bastante distorcidas. Mas o que interessa para agora são esses dois pontos: a desvinculação do dólar do ouro como ancoragem para o comércio internacional, ou seja, não permitir a livre especulação com as diferentes moedas nacionais. Logo depois Soros, hoje um dos maiores traficantes de drogas internacionais, ficou notório por ter “quebrado a libra esterlina”. Se de fato fosse tão ousado e não tivesse quem o colocasse como agente dessa crise, já estaria morto há muito. Rapidamente se estabelece os petrodólares como padrão hegemônico na esteira da cise do petróleo. Os países com capitais empregados no estrangeiro na forma de empréstimos, para supostamente compensar o gasto extra norte-americano com o petróleo, aumentam unilateralmente os juros da dívida e toda a América Latina toma. Crise da dívida e dependência financeira. Somente assim o FMI e o Banco Mundial adquiriam a face que hoje conhecemos. O outro fator foi, desde a década de 70 até seu fim no governo de Clinton, o paulatino enfraquecimento e posterior anulação da lei Glass-Steagall de separação e regulação bancária, criada no governo de Franklin Roosevelt. Crash de 2008.

Junto com a crise, uma transferência massiva de recursos para o sistema financeiro através dos “bail-in”, da impressão de dinheiro para ser injetado nos fundos dos 0,1% mais ricos do mundo (Mario Draghi chegou a falar de uma solução chamada “helicopter money”, dinheiro distribuído como que caído dos céus). Como todo o afluxo imenso de riquezas ainda não imaginadas, não por acaso há o boom definitivo dos executivos do Vale do Silício, do Google, das redes sociais, dos smartphones, que fizeram (quem se lembra?) o então potente Blackberry cair rapidamente no esquecimento. Mineração massiva de dados. Foi isso que revelou Edward Snowden. Coetâneo ao movimento é a proliferação das primaveras coloridas pelo mundo, cujo ponto inicial – o ponto mais marcante desse início – foi o bárbaro assassinato de Muammar Gaddafi. Logo depois Obama já estava assassinando aos montes com drones mundo afora e o patrocínio dos nazistas na Ucrânia foi a versão europeia, anti-russa, do paradigma de junho de 2013 no Brasil – a verdadeira atuação da “indústria 4.0”. Não vai ter Copa! Não são só “20 centavos”, ser contra tudo “o que está aí” num mundo altamente digitalizado…

Pequena história que faz lembrar a dos banqueiros que apoiaram Hitler. Impossibilitados de continuar sua economia de cassino depois da vitória eleitoral de Roosevelt, migraram em massa para a Alemanha. Concederam empréstimos vultuosos a Hitler, a ponto de ele ter uma milícia de 100 mil homens armados antes de chegar ao poder. Rapidamente as reparações de guerra previstas no Tratado de Versalhes foram suspensas. A moratória da dívida permitiu a recuperação da primeira crise hiperinflacionária da história (isso vale também para o caso brasileiro, o que mudou com o Plano Real, modelo aplicado na época em outros países, em especial na Argentina, já que assim se mascarou a dívida com a dolarização da economia e se escondeu a carestia com o “fim da inflação”) e os investimentos liberados permitiram a recuperação ampla da economia e os vastos recursos gastos nos inúmeros programas estatais de Hitler, onde a parte militar é apenas um capítulo, ainda que importante.

Inovação tecnológica controlada (o caso PROMIS e Danny Casolaro) e crise de desintegração econômica controlada. Acabar com a ideia de entropia, de mero acaso, de quedas ou crescimentos súbitos de acordo com o “ciclo econômico”. Não existe um controlador, mas uma elite muito minúscula associada a inúmeras satrapias espalhadas pela Terra; elite menor ainda que os 0,1% que ganharam com a falência generalizada de 2007-8, e que não precisam de “recursos”, de dinheiro ou de petróleo. Um mundo com 10 ou 20 bilhões de habitantes é incontrolável. A saída do Atlântico Norte do comando da política internacional e a emergência do multilaterialismo e de regiões do globo interdependentes, mas sem um mundo unipolar: isso é fazer essa minúscula elite simplesmente não ter mais condições de viver no planeta, tampouco seus associados, agentes e fantoches. Por isso a renovação potencializada das ameaças de guerra termonuclear e a guerra generalizada entre os povos cujo paradigma mais recente é o 11/09.

O fato é que surgiu toda a histeria neomacartista depois desses eventos. A expansão da OTAN no leste europeu, as tensões na Ucrânia, a tentativa de intervenção militar direta dos americanos na Síria e a resposta com a entrada na Rússia em apoio a Assad. O 11/09, um evento provocado, foi a abertura dessa Caixa de Pandora. A história recente dos EUA e do mundo que esteve sob sua tutela, deve ser compreendida do intervalo que separa o assassinato de Kennedy ao 11/09. A recolonização dos EUA pelo Império Britânico estava em pleno curso desde a morte de Roosevelt e o discurso de Churchill, meses depois, sobre a Cortina de Ferro. Guerra da Coreia, do Vietnã, a vitória de Cuba. Kennedy foi uma pequena ponta de esperança: contornou a dramática Crise dos Mísseis, lançou o Projeto Apolo e poderia ser alguém que faria reviver, na esteira de Roosevelt, os antigos acordos de respeito aos Estados-nação soberanos, cujo marco foi a Paz de Westfália. Imediatamente após o assassinato, os americanos passaram a se vestir cada vez mais de preto e a ouvir músicas estridentes. O otimismo cultural nunca mais voltou a existir fora de algumas ilhas que pregavam a Utopia. LSD (Lucy in the Sky with Diamonds), com letra de Theodor Adorno, então funcionário da EMI.

Portanto, a questão destacada sobre o tráfico de drogas que encobriria os verdadeiros traficantes ou, no caso, dos corruptos presos pela Lava-Jato que encobririam uma outra corrupção foi colocada de maneira imprecisa. Nesse último caso (já que já falei da empresa mundial Narcóticos S.A que, afinal, sem a liberação dos mercados não sobrevive; sem o dinheiro dos diversos tráficos haveria um impacto direto no PIB dos países mais ricos, já que a canalização desses recursos para seu sistema bancário dá a liquidez necessária para um sistema constantemente falido, entrópico por natureza, a economia de cassino favorecida pela coroa britânica, pelo Grupo Inter-Alpha e por suas ilhas de lavagem de dinheiro abrigadas sob o Commomwealth). No caso da corrupção, o simples fato de acreditar que a Lava-Jato prende corruptos é a pior das ingenuidades. Quem se corrompeu ou foi corruptor está solto pela uso amplo da indústria da delação premiada; para ir mais além, corrupto é a conspiração curitibana, “com Supremo, com tudo”, com benefícios pessoais no caso das delações, com promoções de personagens no caso dos paladinos do “combate a corrupçãp”.

O enriquecimento ilícito de alguns dirigentes de estatais e empresários é o capítulo menor do drama. Colocar isso como o centro de algum amplo esquema de corrupção é vil. O argumento básico da retórica anti-corrupção é que o dinheiro público é desviado para beneficiar agentes privados. Ora, quando se acaba com a lei de partilha do pré-sal e se dá isenção de impostos para companhias estrangeiras que ultrapassam o trilhão de dólares – e tudo oficialmente- aí sim existe a corrupção da grossa. Mas toda ela é feita de forma legalizada e sai nos jornais como medida razoável de governança. Quando se vendem satélites, a aviação nacional, o sistema elétrico, as riquezas do subsolo ou se torram as reservas do nosso fundo soberano para conter a especulação monetária – tudo legalmente – é quando se dá a corrupção grande, cujo sinônimo é genocídio. O resto é história. Não existe um corrupto preso para deixar solto um mais perigoso. Existem inocentes presos para se passar uma sensação de justiçamento ou pequenos culpados que são colocados nas manchetes como verdadeiros fratricidas (todo esse caso é o de Sérgio Cabral e mesmo o de Cunha; eles não são nada ou são muito pouco; estão ali só para figurar uma justiça, para justificar o justiçamento dos pobres e miseráveis, o verdadeiro assalto à nação). Assim, a rapinagem internacional associada com a elite estrangeirada do país faz todo o serviço sujo, devidamente lavado nas manchetes de jornal como trabalho limpo, gestão responsável. Tudo na luz do dia e oficialmente! Não tem nada a ser escondido em todo esse sistema.

A corrupção não é desviar recursos públicos para beneficiar agentes privados. Ela consiste no assalto à nação, no sangramento de todas as suas fontes de renda, na quebra dos investimentos vitais para a manutenção de uma alta taxa de emprego e de investimentos públicos, no corte do crédito e no esfacelamento das garantias legais historicamente ganhas pelos trabalhadores. A corrupção é genocídio. Somente nesse aspecto ela pode ser  considerada como forma extremamente vil. Mas o genocídio é cometido na frente dos olhos de todos. Porém, ainda assim, sua recepção é por demais dispersa. Não se compreende ainda que vivemos, pelo menos desde a Revolução Francesa e das políticas britânicas na China e na Índia, na época das grandes matanças. Hitler foi só mais um capítulo.

O fim dessa história não é o enriquecimento de um agente privado que vai conseguir comprar uma mansão, um jatinho e viver como o Luciano Huck, o Faustão, o Neymar ou o Silvio Santos. O fim da história é a manutenção da elite minúscula, transnacional, que pôde viver no mundo antigo, mas que cada vez encontra mais dificuldades de se procriar no mundo moderno, nas multidões e na possibilidade de realizar saltos científicos e tecnológicos de larga escala. Por isso medidas drásticas e o genocídio ser prática diária e a guerra termonuclear estar há décadas na agenda do dia. Não se fariam de rogados para se voltar a uma situação com apenas 1 bilhão de habitantes ou menos no planeta, como tantos representantes das coroas europeias, de Príncipe Bernhard e o Felipe, até Bertrand Russel, à luz do dia, cansaram de dizer. Uma redução drástica da população sempre foi mais do que desejável para esses, para seus agentes, comensais e fantoches. Hillary Clinton!

Eles querem dar estatuto de mundo antigo ao mundo novo, algo tão bem caracterizado pelo cine-poesia de Pasolini, em forma de documentário (sim, daqueles que ele se utiliza do famoso “discurso livre indireto”), La Rabbia. Fazer reverter em 2 anos o estatuto subserviente que nosso país suportava 20 anos atrás. A luta do mundo antigo contra o mundo novo: luta de classes. E contra esse mesma malta que acabou por adquirir hegemonia tempos atrás, novamente vemos figurar a visão de Skylab, agora com roupas futuristas, onde toda essa corja embarca num trem rumo ao infinito, ao não-lugar, ao lugar de agentes meramente privados que, no máximo, devem ter, considerando a sobrevivência de uma dose considerável de barbárie que inelutavelmente volta em uma hora ou outra…

A plataforma estava tomada de pessoas de toda espécie: recém-nascidos, anciões, mulheres e homens de meia-idade, adolescentes, grupos de crianças sírias, japoneses com smartphones de última geração, turistas, travestis operados, feminazis, cracudos, a dupla sertaneja Dória e Amaury, o ex jogador Neymar com suas duas pernas mecânicas, Caetano Henrique Cardoso, o Drácula, o louro José, Galvão Bueno e soldados fortemente armados. Algumas pessoas bem vestidas; outras, matrapilhas. Permaneci arredado ao meu lugar. Impossível entender aquela algaravia, as lágrimas misturadas às gargalhadas. Mas num dado momento aumentou a tensão. E o barulho do trem, que se aproximava, me chegou aos ouvidos. Os soldados gritavam diante da multidão. Era um dia cinzento e frio. Assim que o trem parou, abriu suas portas e as pessoas entraram. Paulatinamente, a plataforma foi se esvaziando. Permaneceram apenas os empregados da estação, checando se todos haviam embarcado. Então, uma sirene soou forte e as portas se fecharam. Assim que o trem partiu, os empregados voltaram aos seus escritórios, e novamente o silêncio se estendeu ao redor. Pude então ouvir a última sirene do trem, já bem longe, como um canto que desaparece na distância.

Aqui já se percebe uma proliferação de duplas caipiras, dos capiaus enriquecidos mas sem um lastro do processo civilizatório. Parecem que volta, sob escolta militar, para a terra deles. Um papel secundário, portanto. Esse o objetivo mínimo já que o fim da barbárie só pode ser pensado em termos apocalípticos, sobre-humanos, e eles simplesmente embarcam no trem. Quando será sua volta? Por isso é uma visão que complementa a primeira. Ela vê o futuro próximo, por mais que uma proliferação de céticos, ancorados na histeria neomacartista, querem provar que o estado de exceção irá valer indefinidamente ou pelo menos por um período bem logo.

Da conjugação dessas duas visões nasce um corte. A música já estava pronta, pelo menos em potência. Faltam aqueles arranjos finais e, como toda boa inspiração, parece nos fazer um além para ela mesma, uma continuidade, uma serialidade: “Compus uma música chamada “João Dória e Amaury”. Agora estou trabalhando em cima de uma outra. Vai se chamar “Pedro Bial e Carlos Vereza””. Assim, com tudo pronto, dá para se entender nem tanto o caráter exotérico das visões que procuramos estabelecer até aqui. O problema todo não são essas falsas duplas que, de outro modo, recebem o bom nome de “dedo no cu e gritaria”. O problema é que a mera nomeação não pode abarcar um fenômeno verbal, um problema de ação. As duplas neomacartistas somente ilustram um fenômeno que está muito além delas. Elas são apenas um epifenômeno, não designam nada, somente indicam um estado de coisas. Mas que estado de coisas é essas? Daí a originalidade de “Dedo no cu e gritaria” e a importância de se compreender suas implicações políticas.

Vamos supor: eu não faço parte e nem quero como também não consigo me misturar ao que eu mesmo chamo, de maneira até carinhosa, de “esquerda pink”. Se a gente chegar ao lado de um desses, desses cidadãos esclarecidos, geralmente universitários, com boa família e uma série de gente que os segue por pura fraqueza no desejo, por serem inimigos da radicalidade; se a gente chega numa dupla dessas também tão sertanejas, tão caipiras no sentido de que continuam com a mentalidade colonizada porém com vestimentas pseudo-civilizatórias; se a gente chega em um desses, como na dupla que quis destacar no artigo acima destacado: Gregório Duvivier e Felipe Neto, os dois youtubers, e falamos, por exemplo, de Venezuela. O escândalo sobe à mesa. Constrangimento. Se eu for falar que, com todas as críticas que se fazem ao furioso Trump, que o isolamento de seu governo de inúmeras disputas comerciais, isolamento da OMC, dos tratados de livre-comércio, assim como a aproximação desse governo das supostas autocracias asiáticas, como as de Putin e Xi Jinping; se mencionamos que o PMDB e acordos que se façam com ele para se governar não tem nada a ver com corrupção, mas com o simples fato de se fazer alianças não só para ganhar votações no Congresso (e, talvez num balanço, Lula e Dilma perderam muito mais do que ganharam nessa arena), mas para conseguir implantar os programas do governo federal elogiados por essa mesma “esquerda pink”, como bolsa família e centenas de outros: nada disso é levado em conta por ser sujo. Tudo é sujo. Trump, Maduro, PMDB e não se quer saber qual política real pode-se alcançar com esses interlocutores. Dedo no cu e gritaria. O seu abraço, a sua palavra as vezes até ingênua de defender pontos básicos: acordos com PMDB e correlatos para chegar recursos aos estados e municípios e ramificarem ao máximo possível os programas sociais e a infraestrutura sem a qual não há criação de empregos, integração regional, segurança energética e mudança de patamar tecnológico para o país. O que vale é a pureza e a só desconfiança de que você vá defender algum desses pontos tabus é entendido como uma enfiada de dedo no cu pink desses com os quais a gente fala.

Isso para falar dos cachorros amestrados, porque com os cães de sítio, aqueles que são deixados passar fome para morder qualquer um que chegue perto de uma propriedade, esses defensores tão fanáticos quanto cegos e burros do livre-comércio, da abertura de fronteiras e da total submissão nacional… Parece que nosso dedo fica mais grosso e a gritaria é generalizada. Aí eles falam em armar cidadãos, fazem a guerra jurídica ou o exercício da vingança por meios legais. A nossa aproximação é entendida por eles como se a gente violasse o que eles consideram de mais sagrado, sua propriedade privada inviolável, seus cus.

Dedo no cu e gritaria é um signo do éthos contemporâneo do fenômeno difuso mundialmente chamado de neomacartismo, correlato da Nova Guerra Fria, das novas corridas armamentistas e de um mundo que fala abertamente em retaliação ao perigo russo ou chinês. Os antigos comunistas… É por isso mesmo que Trump é considerado um agente russo na Casa Branca, o maior dos delírios desde a época do discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro, e que nenhum ideólogo do período jamais imaginou que poderia acontecer… Qualquer crítica a Trump vindo desses órgão da Globo similares no mundo todo não devem ser levados em consideração. Um mínimo de filtro, no máximo, se deve ter. Não se deve endossar essa campanha Russiangate lá de fora, nem a de seus agentes aqui, até porque a força-tarefa do DOJ americano que trabalha com a Lava-Jato é a mesma que pretende nos EUA retirar o presidente eleito de seu cargo. Não dá para se entender que os “gritarias” estejam agindo com propósitos meramente humanitários.

Falar de Venezuela, defendê-la, falar de Trump e Putin e fazer a defesa que cabe, defender Lula num plano mais geral, cotidiano, e a necessidade de se concentrar em sua inocência e em sua candidatura e não em ufanismos pseudo-esclarecidos como de Ciro Gomes ou os do candidato de Caetano Veloso: tudo isso é entendido como Dedo no cu para os gritarias. Por isso gritarias para todos os lados. O pundonor, o ponto de honra das pessoas está por demais salientado e qualquer toquezinho no que eles acham de mais sagrado é entendido como uma violação do orifício anal, a quem prestam os maiores sacrifícios em nome de sua inviolabilidade. Uma própria prosa como essa que escrevo aqui é o dedo de Alien no cu de quem tem a sensibilidade muito aflorada pelas campanhas repetitivas da histeria persecutória do que se chama na luta política de neomacartismo, mas que Skylab deu o nome artístico, na sensibilidade muito mais preciso, de Dedo no Cu e gritaria.

E isso para não mencionar toda a campanha contra Belo Monte, contra as usina hidroelétricas e nucleares daqueles que acreditam, tem a fé cega, de que há uma solução de desenvolvimento social através de fontes de energia perenes como a solar ou a dos ventos. Viver com os moinhos de Dom Quixote. Fora isso, Marina ou Dedo no Cu e gritaria.

Coda.

O que pode ser dito como considerações finais é o seguinte: em 2012, por mais que tivessem atado o calendário do julgamento do Mensalão às eleições municipais, a derrota dos golpistas foi avassaladora. Nunca antes na história do país a esquerda conseguiu tantos cargos nos executivos municipais, com destaque para o PT e para o PSB, que por causa disso e de alguns fatores internos resolveu seguir voo solo. Que caiu. Em 2014 a vitória foi esmagadora também devido ao clima de guerra generalizada que se abriu. Houve uma espécie de paralisia mais do que de recuo das forças populares em 2016, por causas múltiplas, mas por ter sido, em suma, um dos anos mais inglórios desde os faustosos dias que se iniciaram em 2003 no Brasil, 1999 na Venezuela e em avalanche por toda a América do Sul.

As forças populares novamente estão com Lula, com o PT e não com a esquerda limpa que quer se apropriar de um suposto espólio eleitoral de um PT tido como definitivamente derrotado. Não consideram que a massa cativa de Lula não abrirá mão dele em nome de candidatos genéricos. Por isso, por causa dessa massa e por causa de toda a aglomeração de forças políticas que levaram o PT a ser o maior partido de esquerda do ocidente, e se não contar a China, do mundo, que de certa forma vai além de seu próprio líder, ainda que seja fundamental que ele esteja vivo, lutando e sem ceder às chantagens e tentativas de corrompê-lo para abrir mão da candidatura; essa mesma força, caso não considerada, será o desatino de todos aqueles que por agora a acreditam ou querem fazer com que seja acreditado que está derrotada.

Isso é só um aviso, uma breve análise de conjuntura, algo a se pensar. Muitos entenderam como se fosse uma dedada no cu deles. E começarão a gritaria. Um signo perfeito para tempos de jurisprudência da destruição e neomacartismo. Toda uma outra Guerra Fria, exponencialmente mais quente. Assim, é um novo éthos, para além das duplas que ele entreviu, que indica a música de Skylab. Vivemos hora atrás de hora na gritaria, naqueles que acham que terão ou que estão tendo seu íntimo segredo violado.

Coda.