Tempo para Vladimir Vernadsky

Frente às discussões de se esfriar a economia global com o objetivo de enfrentar o aquecimento do clima, o cientista ucraniano Vladimir Vernadsky, continuador de Mendeleiev, nos fornece um panorama amplo de dilemas que a humanidade enfrenta pelo menos desde o final da II Guerra. Antes de ser um problema “científico”, como se diz, o incremento das capacidades produtivas e dos poderes criativos do ser humano trazem dilemas éticos e políticos que se deve estar à altura para se enfrentar. Não será pela solução fácil encontrada nas fontes perenes e intermitentes de energia, como a solar e eólica, que se irá enfrentar uma mudança geológica e noética do tempo do homem na Terra.

Se o século XIX foi fundamentalmente o século de nascimento da história como disciplina, como um dos saberes modernos legitimados, “científicos”, e que, portanto, gerou um culto algo religioso ao seu redor, o século XX foi onde se processou os mais instigantes debates não a respeito à história enquanto tal, mas sobre a natureza do tempo. Na década de 1930, em Paris, o cientista russo Vladimir Vernadsky acompanhou esses debates, então célebre pela resposta de Henri Bergson (em Duração e Simultaneidade) a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein. Mesmo não participando diretamente dessa discussão, Vernadsky procurou dar uma resposta satisfatória aos profundos questionamentos que então eram feitos. 

Ele se denominava biogeoquímico (especialista em biologia, geologia e química, seguidor das pesquisas de Louis Pasteur e aluno de Dmitri Mendeleiev), e se ocupou primeiro do sentido da formação da biosfera, isto é, da formação do mundo natural e biológico. Considerava que a teoria da evolução não levava em consideração o valor do tempo, já que ele agia por motivos casuais, por encontros fortuitos, geralmente em ambientes biológicos limitados tanto em sua riqueza genética quanto em seu tamanho geográfico – pequenos nichos ecológicos – e que assim não poderia traçar o quadro mais geral da evolução da vida no planeta Terra, muito menos marcar com precisão os saltos evolutivos que nele ocorreram.

Saltos evolutivos e não evoluções isoladas que se espalharam paulatinamente, abrindo mais um espaço longo e indefinido para o tempo, tornando-se incapaz de dar conta da evolução do princípio vital na biosfera, pelo menos com o rigor científico que ele achava necessário: dar um sentido à evolução.

Um primeiro ponto de precisão é através do uso da noção de cefalização, do cientista americano James D. Dana. Não é a busca por um elo perdido, provavelmente entre os macacos e os seres humanos, que haveria a explicação da passagem do animal para o humano. A tendência de conjunto da biosfera é a produção do encéfalo, do sistema nervoso que, a partir do último período geológico deu lugar ao aparecimento dos mamíferos e do homo sapiens. Foi fundamental a grande extinção em massa na passagem do período Mesozoico para o Cenozoico por ter permitido uma reorganização radical da biosfera. Esta catástrofe não tem como ponto chave, primordialmente, a chegada de cometas do espaço que colidiram com a Terra.

Os cometas são o efeito de movimentos mais amplos, galácticos, que determinaram uma nova fase evolutiva no planeta. São transformações da movimentação do sistema solar dentro da galáxia e desta dentro de um conjunto mais amplo de galáxias que se movem ao redor de um buraco negro de características distintas dos formados pelas estrelas extintas. Enquanto este suga a matéria ao seu redor, os buracos negros que centralizam um conjunto de galáxia vertem matéria a partir de processo ainda desconhecidos. É um verdadeiro sol negro que, como o sol para a Terra, conduz a dinâmica da movimentação das galáxias.

Estas, ao contrário dos planetas, ou seja, feitas de matéria radiante, quando não há exatamente uma colisão entre elas, mas uma aproximação, formam os quasars, núcleos irradiantes de energia superior ao das estrelas que, hipoteticamente, seriam novas galáxias em formação. Igualmente, do macrocosmo para o microcosmo, em nosso planeta, a partir do momento que os organismos procariontes começaram a fazer trocas gasosas com o meio ambiente, ou seja, a influência química com os elementos primitivos do planeta, ainda sob o mar, permitiram o aparecimento das cianobactérias, isto é, a realização da fotossíntese.

Sem esse fator elementar de conjugação dos fenômenos planetários com os astronômicos não haveria a mais rudimentar troca biogênica entre os átomos e a formação das primeiras formas de vida na Terra. Sem a consideração dos fatores cosmológicos na evolução da vida, da formação de nossa biosfera, nenhum evolucionismo será possível, como também, sem considerar a estrutura e o desenvolvimento da biosfera em seus movimentos microscópicos – a transmigração biogênica dos átomos –, a vida, as espécies e seu desenvolvimento serão incompreensíveis.

Para resumir em linhas gerais o sentido da evolução como visto por Vernadsky, pode ser agrupado em três conjuntos físico-temporais como ele se realizou. No Paleozoico, existiu a predominância dos organismos protistas no reino vegetal e dos anfíbios no reino animal. Os protistas são as formas de vida mais elementares, relativas às primeiras trocas biogênicas entre os átomos terrestres e as radiações solares: surgimento do processo de clorofila. Este é o início da vida, da distinção entre o abiótico e o biótico. No mesozoico, aparecem as gimnospermas, já com caules e sementes, mas não protegidas por flores e frutos.

No reino animal, foi quando apareceram os primeiros répteis. No período mais recente, o cenozoico, as angiospermas e suas flores e frutos. A natureza se torna mais bela e, por que não?, mais saborosa. Aí também é quando surgem os primeiros mamíferos e as aves. A diferença entre mamíferos e répteis, de um lado, e das aves e mamíferos de outros, aponta para o aumento de fluxo energético nas trocas desses organismos com o meio ambiente. Taxas de metabolismo animal em relação às calorias consumidas por hora são os indicadores desta evolução. Neste sentido da evolução não existe a “competição entre os mais aptos”, espécie de termo cientificista das teorias de livre-mercado então elaboradas por Malthus, Smith e David Ricardo.

O próprio incremento da biosfera, intimamente relacionada com as mudanças geológicas ocorridas em centenas de milhões de anos em conjunto com as extinções massivas de espécies como as que deram fim aos dinossauros, ou seja, fenômenos galácticos, trouxeram à luz novas formas de existência. Numa nova atmosfera, ou seja, numa nova organização da biosfera construída num espaço-tempo geológico, foram rearrumadas as espécies. Não foi uma competição que fez muitas delas sumirem, mas o processo mais amplo de incremento de trocas biogeoquímicas entre os viventes e seu entorno que produziu verdadeiras extinções massivas de seres.

Em nichos, em determinados trechos da vida já sedimentados ao longo do desenvolvimento da vida na Terra, muitas espécies das mais antigas continuam a viver até hoje sem nunca terem entrado em competição com ninguém. O que houve, para além de espécies particulares que simplesmente sumiram, seja ao longo de centenas de milhares de anos ou em processos galácticos de rápida mudança do panorama geofísico do planeta, foi que se sedimentou a preponderância de algumas espécies, de metabolismo mais dinâmico, sobre as outras, e a permanência de alguns organismos mais simples devidamente sedimentados em seus núcleos de atuação. Há uma clara sobreposição e rearranjo harmônico entre as diferentes classes de seres e não um processo de exclusão e separação – dramas burgueses.

Uma anedota: os mamíferos placentários tem um dinamismo superior aos dos marsúpios, como os cangurus. Na América do Sul existiam muitos destes animais. Quando se formou o Istmo do Panamá e houve uma invasão dos mamíferos placentários, os marsúpios sumiram do subcontinente. A exceção que confirma a regra é a permanência em nossa região geográfica dos ornitorrincos. Não há competição entre seres, disputas genéticas. A falta de noção de temporalidade do darwinismo se comprova pela sua incapacidade de se explicar os anacronismos na natureza diante de um meio ambiente que deveria ser fixamente mutante, isto é, uma fórmula que busca um princípio invariante para tudo o que muda. Paradoxos…

Existem movimentos de massa, revolvimento de camadas geológicas, multiplicação de novas vidas e criação de novos ambientes ecológicos. O mais importante, porém, é que, considerado o incremento da energia biogeoquímica ao longo das eras geológicas, uma forma mais dinâmica dessa energia foi criada nos últimos 10 mil anos. Com o pleno desenvolvimento da cefalização e o aparecimento do homo sapiens, passamos a transportar e extrair o alumínio, por exemplo, em muito maior escala e velocidade do que as plantas extraem o magnésio quando fazem clorofila. Centenas de milhões de anos para o aparecimento de uma biosfera capaz de fazer surgir o homo sapiens.

A partir de dez mil anos até agora, uma mudança radical em todo o meio ambiente que o tempo geológico por si, a biosfera, nunca possuiu a dinâmica suficiente para realizar. Sem essa visão de conjunto e bem compartimentada, delimitada, tanto em termos físico-químicos quanto temporais, fica-se em busca de individualidades que poderiam ser elos perdidos entre espécies supostamente irmãs e que se perderam ao longo do tempo. Uma foi mais bem sucedida, entretanto… Talvez isso tenha valor para um drama que encene conflitos familiares, os sofrimentos dos “pequenos-eu” do teatro burguês, mas não uma visão integrada dos microprocessos de evolução relacionados aos movimentos cósmicos dos quais a Terra faz parte. Drama vitoriano de características reacionárias e imperialistas.

Vernadsky aponta o século XIX como de um impulso sem igual para o incremento da noosfera. A utilização da luz elétrica e a criação de motores a vapor mudou significativamente a paisagem humana. Passou a abrir as fronteiras para a colonização humana em territórios bem distantes das faixas litorâneas, cujo exemplo máximo foi a construção da ferrovia bioceânica por Abraham Lincoln. O mundo mediterrânico voltado totalmente ao mar, tal como retratado por Fernand Braudel, sofreu uma mudança incontornável. O ser humano passou também a poder explorar e habitar toda e qualquer parte do planeta, algo impensável nos séculos anteriores.

O conceito tardio desenvolvido por Vladimir Vernadsky, o de noosfera, isto é, quando a energia biogeoquímica adquire velocidade e potência incomparáveis em razão da utilização dos poderes criativos da humanidade, encontra perfeito sincronismo com o conceito desenvolvido por Lyndon LaRouche, o de densidade de fluxo energético, per capita e por quilômetro quadrado, para se medir o progresso e o desenvolvimento sociais[1].

 Num primeiro momento, ao ser utilizado a combustão com madeira, a relação entre a quantidade de material utilizado e a quantidade de energia produzida é bem desfavorável; com o uso do gás natural e do petróleo, se passou a queimar menos material e a se produzir mais energia; com a energia de fissão nuclear, o uso de material é mínimo em relação à quantidade de energia produzida; isso chega a níveis inimagináveis, com um uso muito pequeno de hélio-3 e deutério, nos experimentos em fusão nuclear. Atualmente, parece que o problema reside mais na construção de reatores capazes de suportarem a gigantesca quantidade de calor produzida pela combinação, assim como na extração de hélio-3, inexistente na atmosfera terrestre e abundante na superfície lunar. Este é um dos objetivos do amplo projeto espacial chinês atual. A revolução noética acontece na Terra quando o homem descobre o fogo.

Do domínio da luz elétrica e da produção de energia com os motores a vapor, no século XIX, até o uso do óleo e gás e do início dos programas nucleares na primeira metade do século XX, Vernadsky, ao final de sua vida, pode enxergar o homem como uma força geológica planetária. Expectador da Segunda Guerra Mundial, da Grande Guerra Patriótica russa que custou cerca de 30 milhões ao país, Vernadsky faleceu pouco antes dos conflitos terminarem, em janeiro de 1945. A energia biogeoquímica de alta intensidade que compõe a noosfera fez o homem, e sempre poderá fazê-lo, avançar em poucos anos em desenvolvimentos o que na biosfera demoravam centenas de milhares de anos. A exploração do núcleo do átomo, ainda em seu início, trazia amplas promessas para os cientistas.

Novos materiais poderiam ser criados artificialmente e a tabela periódica poderia ser enriquecida infinitamente com novos elementos. Igualmente, o uso desta mesma energia poderia fazer regredir a humanidade a eras geológicas bastante remotas, também num espaço de tempo por demais reduzido. Antes de ser um problema “científico”, como se diz, o incremento das capacidades produtivas e dos poderes criativos do ser humano trazem dilemas éticos e políticos que se deve estar à altura para se enfrentar. Não será pela solução fácil encontrada nas fontes perenes e intermitentes de energia, como a solar e eólica, que se irá enfrentar uma mudança geológica e noética do tempo do homem na Terra.


[1] Toda a explanação a respeito de Vladimir Vernadsky foi retirada de estudos, que aqui somente sumario, publicados pela Executive Intelligence Review e a revista a ela associada, a 21th Century Science & Technology, ambas fundadas por Lyndon LaRouche. Elas ainda hoje têm a primazia na publicação de traduções inéditas de inúmeros escritos de Vernadsky, como também na publicação de pesquisas aprofundadas baseadas nas descobertas do cientista russo. Um artigo seminal, também marco histórico de quando LaRouche iniciou suas amplas investigações a respeito de Vernadsky, se chama “On the noetic principle: Vernadsky and the Dirichlet’s Principle”, publicada na Executive Intelligence Review em 18 de maio de 2005. Uma segunda referência, em texto do próprio Vernadsky, seria um de seus artigos mais tardios e abrangentes, traduzido como “The study of life and the new Physics” (EIR, 22 de maio de 2015). Um exemplo de pesquisa independente, mas ainda no âmbito dos estudos dirigidos por LaRouche, é o de Benjamin Deniston, “Biospheric Energy Flux Density” (21th Century Science & Technology, Spring 2013). Um debate mais aprofundado sobre o conceito de tempo em Vernadsky pode ser visto pela discussão realizada por Jason Ross, disponível em https://youtu.be/2fMACjq5D7k, e também publicado em artigo em separado sob o título de “Vernadskian Time: Time for Humanity”. Faço referência aqui a alguns estudos básicos dentro de um conjunto bem mais amplo de publicações e debates. Usando da experiência que tive nos últimos anos como colaborador próximo a Lyndon LaRouche, pude sumariar acima as ideias de Vernadsky, porém sem fazer referências textuais diretas.