Sobre o atual fenômeno identitário

No seu Twitter, Moro posa com Villas Bôas em 10 de julho de 2019

O realinhamento atual, em especial na América do Sul, da política com os pressupostos dos ultraliberais (liberalismo tradicional + extrema-direita) trouxe à tona novamente as políticas de grupo e o “fascismo amigável” bem-sucedido no norte do Atlântico pode se visto de maneira mais clara nos últimos anos por aqui.

Agora, num “fascismo 3.0”, a mineração massiva de dados e os sistemas de vigilância compõem uma máquina formidável de aplicação dos princípios da engenharia social: a criação de grupos identitários que atuam entre si como numa família e entre os outros através da tática das guerras de gangue contra gangue.

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Intervenção: quando a palavra golpe foi colocada em praça pública

Pude assistir esses dias ao documentário lançado em 2017 chamado “Intervenção – Amor não quer dizer grande coisa”, dirigido por Tales Ab’sáber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda. O filme procura retratar o bastidor social da convocação em massa para o golpe de 2016 através do relato de anônimos famosos por seus vídeos postados no youtube.

Caso se possa tirar um retrato entre tantas falas diferentes expostas no filme e correspondente ao que se chama de bastidor social das convocações contra a presidência da república, é a que mostra como a palavra golpe foi colocada definitivamente em praça pública e serviu de bandeira para toda a direita, do alto clero neoliberal ao baixo clero, aquele que coloca em xeque um suposto acaso que teria levado ao naufrágio o Titanic. Sem a reconfiguração do significado da palavra golpe, dificilmente os grupos organizados contra o governo do Partido dos Trabalhadores poderiam se aglomerar.

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Liberais vs. Conservadores: uma história muito recente

Clintons e Cheneys no enterro de John McCain: a oposição nominal é uma forma de manter conflitos aparentes, enquanto trabalham juntos no mesmo projeto político.

A aparente cisão entre liberais e conservadores talvez tenha uma história muito mais recente do que se costuma admitir. Existem diferenças de grau mas não de natureza entre o atual liberalismo e o conservadorismo e, da mesma forma, entre o neoliberalismo e o fascismo. É o que podemos ver em alguns poucos, mas relevantes exemplos, do século XIX ao atual.

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O método do The Intercept segundo seu editor

Recuperar os princípios básicos do jornalismo

Em uma longa entrevista ao Estúdio Fluxo, Leandro Demori, editor-executivo do Intercept Brasil, conta muitos detalhes de como sua publicação fez para controlar e direcionar os jatos que, infelizmente, atingem a cara do sistema judiciário brasileiro (um salve à produtora Brasileirinhas que antecipou o fim que teria a Operação, renomeada como Leva-Jato). A entrevista de Demori é uma autêntica visão geral da suruba que agora está sendo escancarada pelo Glenn Greenwald mas, bem mais importante, nos ajuda a conhecer com mais detalhes como todo o processo editorial vem sendo montado.

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Capitalismo e anarquia

O euro, antes de se justificar como um projeto político, econômico ou social, parece tirar sua legitimidade de uma imaginação toda ela assentada em motivações de fundo histórico-cultural. A Europa foi o palco as duas maiores guerras da humanidade. Palco que se estendeu à imensa Rússia e fez por força inventar a maior reação de todas, a Grande Guerra Patriótica. Mais de 30 milhões de russos mortos…

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Ei você que está me olhando

David Lynch: “Life is very, very complicated so films should be allowed too”. Igualmente para O Abertinho

Ei você que está me olhando:
Não sei o que de bom tem encontrado por aqui.
Como uma invasão clandestina
Prescrutam palma a palmo cada palavra
escrita por esse estrangeiro Abertinho

Ei você que está me olhando
Tão longos olhos por vezes me geram surpresa
Me geram desconfiança
Afinal, por que estão me perscrutando?

A qualidade dos trabalhos é evidente,
Muitas vezes embora feitos com um tanto de pressa.
Ei você que está me olhando

Em grupos, em maltas, em quase invasões:
Visitas assim são curiosidade, admiração,
estupefação, desconfiança
ou afinal encontraram um longo e raro livro?

Digno de interesse?
Ei você que está me olhando
Seus longos olhos não sugerem, não me pedem
A criação de qualquer tipo de vinculo, de pacto.
Invasão clandestina ao estrangeiro Abertinho.

São tantos e completamente ignorados…
Vejo apenas seus longos olhos.
Ei você que está me olhando no silêncio e na noite
O brilho difuso desse olhar, o que me diz?

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Inflação ou guerra total? Uma resposta a Paulo Gala

Uma pergunta pertinente, porém pouco levantada

Era um fator preocupante a política econômica do Fed e de Bruxelas após 2008, a chamada “flexibilização quantitativa”. No entendimento econômico clássico, a impressão descontrolada de dinheiro para resgatar o sistema financeiro falido poderia lançar uma onda hiperinflacionária global. Contudo, os “mercados” ou quem os controlam parece que tinham planos mais sofisticados do que substituir num curto período de tempo uma tempestade financeira por outra.

O economista Paulo Gala se referiu com perplexidade ao tripé base monetária/juros/dívida pública em países da zona do euro, nos EUA e Japão: como conseguiram aumentar a base monetária e o endividamento público, diminuir os juros, e manter taxas de inflação extremamente baixas? Concordo que essa não é uma resposta simples, porque inflação não condiz com carestia, como é óbvio, como também não está submetida diretamente às chamadas políticas de Estado. Em excelente artigo, Fernando Nogueira da Costa responde “por que o excesso de oferta de moeda, face à demanda agregada, não resultou em inflação corrente?”, mas acredito que podemos ir um pouco mais além.

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Da Crise do Petróleo ao atual paradigma monetário internacional

Eleanor e Franklin Roosevelt em agosto de 1932. Luta contínua para um sistema econômico internacional mais justo e de crescimento conjunto.

Importantes medidas políticas da década de 1970 criaram o atual mercado de alto risco e o de derivativos, além do permanente sistema da dívida dos países latino-americanos. Esse foi a época em que o antigo império territorial britânico se transformou num império predominantemente financeiro. Não um segundo Império Britânico, mas o mesmo, atuando em configurações diversas. A compreensão dessa mudança de paradigma econômico é fundamental para se compreender os motivos de a economia internacional, atualmente, estar “congelada”: à beira da falência e ao mesmo tempo em que nunca foi tão dependente dos mecanismos financeiros criados a partir de 1970.

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Por que a pornografia seduz tanto?

Finalmente foi Sergio Moro quem respondeu a Bolsonaro o que é golden shower

Fora a alegria de ver a “força-tarefa” provar do próprio veneno, não se deve perder de vista um objetivo: com a continuidade das reportagens, provavelmente isso irá ultrapassar Moro e Dallagnol. Vamos ver se chega no conluio com o DOJ e se consegue mostrar que isso é uma operação montada fora do país. E que a Globo venha de roldão.

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Uma crônica do liberal-fascismo

O filme The Vice, lançado no Brasil no início de 2019, conta a história do vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney. Retrata-o como um jovem caipira e beberrão que não consegue levar adiante sua formação em Yale. Por intervenção de sua esposa, ele consegue terminar os estudos, largar a bebida e se tornar um burocrata a serviço da Casa Branca no tempo da presidência de Richard Nixon.

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